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24 de junho de 2016

Coisas da Vida XVIII

A campainha toca.

– Pois não?

– Boa tarde, meu amigo!

– Boa tarde, pois não?

– Eu estou aqui com meu pai no banco traseiro do carro e estou vendendo mel.

– Certo.

– Está interessado?

– Desculpe, eu não entendi.

– Está interessado em comprar mel? É do interior!

– Mas eu não entendi o que você falou sobre seu pai.

– Eu disse que ele está aqui no banco de trás do carro.

– Mas o que isso tem a ver com o mel?

– O mel é do interior!

– Tudo bem, mas é que me parecem ser dois assuntos diferent...

– Olha, e tá fresquinho! Foi colhido hoje!

– Sim, sim. Você está falando do mel?

– Isso.

– É porque você falou um negócio sobre seu pai que eu não entendi.

– É ele está aqui comigo. Está lá no banco de trás do carro.

– Certo, mas o que eu tenho a ver com i...

– Quer falar com ele?

– Oi?

– Quer falar com ele?

– Não... Não. Acho que eu só quero entrar.

– Não vai comprar mel hoje?

– Não. Outro dia eu compro.

– Beleza! Quando eu passar aqui com meu pai na traseira do carro eu toco na sua casa.

– Eu desisto. Tchau.

– Tchau, patrão!

(Para ver o post anterior dessa série, clique aqui.)

3 de janeiro de 2016

Coisas da Vida XVII

Foi agora, coisa de meia hora atrás. Fui fumar na frente da casa e dar uma olhada na rua, como faço toda manhã. Estava na terceira ou quarta tragada no cigarro quando ele apareceu do outro lado da rua. Era alto, magro e aquele andar que parecia temperado por duas ou três doses a mais de álcool.

Olhou para mim e fez o sinal da vitória com os dedos. Eu acenei de volta. Para um espectador desavisado, parecia apenas isso: um sujeito fazendo o sinal da vitória para o outro. Mas, para alguém mais atento – e eu vou tomar a liberdade de me incluir nesse grupo – toda uma conversa foi travada por meio desses sinais. Um louco olhando para mim e fazendo o sinal da vitória foi o modo que o universo encontrou de mostrar que “nós já sabemos onde você está e não vamos deixar você em paz ao longo desse ano”. Meu aceno, por outro lado, foi apenas um “eu sei” conformado.

Assim, quando terminou minha conversa entre eu e o cosmos, foi a vez de começar minha conversa entre eu e o louco.

– Amor, saúde e paz!

Seu tom de voz mostrou que eu estava errado a respeito da quantidade de álcool em seu corpo. Não eram duas ou três doses a mais, estava mais para cinco ou seis. E, como eram dez e pouco da manhã, a única dúvida que sobrava era se ele “já estava bêbado” ou “ainda estava bêbado”.

Eu acenei mais uma vez e gritei um obrigado, torcendo para que a conversa terminasse por ali, mas eu sabia que não podia criar muita esperança. Acho que me senti um pouco como o goleiro de um time amador que faz um amistoso contra o Barcelona: com dois minutos de jogo, os caras fazem um gol. A partir daí, tudo o que resta é torcer para que as coisas acabem logo, mesmo sabendo que aquilo é só o começo.

– Saúde, saúde, saúde!

Pensei em gritar “amor, amor, amor” como teste, para ver se ele gritaria “paz, paz, paz”, mas achei melhor não. Apenas acenei novamente e agradeci, desejando que “para o senhor também”. Agora as coisas deviam acabar. Um “para o senhor também” costuma encerrar conversas desse tipo. Todo final de ano é assim. A pessoa deseja “feliz ano novo”, você responde “para você também” e vai cada um para o seu lado, ambos passando o resto do ano sem lembrar que o sujeito existe.

Mas não, o Barcelona queria mais e resolveu atacar com o time inteiro.

– Porque o que importa é saúde! Saúde em primeiro lugar, sempre!

Achei um pouco assustador esse tipo de coisa. Será que eu estou tão acabado que vou começar a tomar sermões sobre saúde de um sujeito que está de fogo dez e pouco da manhã? Mas achei melhor não entrar nesse assunto, porque eu me conheço. Se eu entrar no assunto bebida, as chances de eu, em meia hora, estar no bar com o sujeito tomando a terceira caninha e procurando um jeito de ir embora são bem grandes.

– É mesmo, eu respondi, acenando mais uma vez e torcendo para que ele acenasse de volta e encerrasse a conversa.

Mas não. Ele não acenou. Apenas fez uma dancinha – que eu imagino que seja a Dança da Saúde em Primeiro Lugar no lugar onde ele nasceu – e sorriu para mim. Quem também sorriu foi o velho que passou pela rua nessa hora. Olhou para a dancinha e olhou para mim. E começou a rir. E quando eu olhei para ele com uma cara de “olhe, eu sei que parece que o sujeito está dançando para mim, mas apenas moro aqui e vim fumar um cigarro”.

O velho foi embora rindo e a dancinha acabou. Eu acenei mais uma vez, determinado a encerrar a conversa, mas ele ainda tinha algo para me dizer. Pela expressão dele, que de repente se tornou séria, era algo muito importante.

– O Sergião foi para Bahia, mas volta no final do mês. Eu estou no lugar dele.

– Ah, sim!, eu respondi, sem imaginar quem diabos é Sergião.

Ele acenou para mim e eu acenei para ele. Aparentemente, havia acabado.

Mas, antes que eu pudesse me virar e entrar em casa, ele gritou:

– Amor, saúde e paz!

Puta que pariu, ele ia começar tudo de novo. Não tive dúvidas. Dessa vez, acenei de volta e nem esperei uma resposta. Dei meia volta e andei apressado para dentro de casa. Sentei no sofá e fiquei alguns minutos refletindo sobre o ano que me espera.

E o pior foi me lembrar do Sergião, que a essa altura está na Bahia, de bermuda e chinelos, tomando cerveja na beira da praia.


Fazia tempo que eu não escrevia um post dessa série, em que narro os meus encontros com os loucos que andam pelas ruas de São Paulo disputando quem será o primeiro a descobrir onde estou. Você pode ler todos os posts da série, que normalmente são curtos e completamente insanos, aqui.


3 de maio de 2014

Coisas da Vida XVI



Existe uma espécie de seita, em São Paulo, que recruta loucos com a missão de vagar pelas ruas da cidade me procurando. É um exército formado por centenas de pessoas desconectadas da realidade que compartilham um objetivo em comum: vir falar comigo na rua.

Não estou exagerando. Há um consenso entre as pessoas que me conhecem (e que os leitores do blog já devem ter aprendido que é verdade): eu não posso colocar os pés para fora de casa que um louco vem falar comigo.

E sim, é sempre comigo. Se você colocar eu, um louco e mais cinquenta pessoas no mesmo ambiente – seja numa rua, num mercado, num shopping – o louco vai caminhar em linha reta até onde estou, ignorando todas as outras cinquenta pessoas, e vir comentar comigo coisas como “minha calça é azul e eu gosto mais de vermelho”, “eles estão chegando e já estão atrás de você” ou “você tem cara de quem precisa ouvir a música de 39 minutos que eu fiz”.

Já tentei de tudo. Já tentei não fazer contato visual – existem loucos que são como banners expansivos, se você passa o mouse em cima ele abre e ocupa a tela inteira – já tentei fingir que não falo português, já tentei atravessar a rua. Nada funciona. A única alternativa que sobrou seria não sair mais de casa.

Um dia desses, eu estava lá na frente, fumando e olhando a rua – é uma laje que fica acima do portão e que se tornou um dos meus lugares preferidos na casa. Era final da tarde, e a rua estava movimentada. Gente subindo, gente descendo... E o louco.

Devia ter uns trinta anos. Tinha cabelos grandes e mancava. Eu, dentro de casa e uns quatro metros acima da rua, não dei muita atenção ao sujeito. Eu estava na minha casa e os loucos costumam respeitar esse tipo de coisa.

Ou não. No momento que ele passou bem em frente a minha casa, parou e ficou olhando para frente. Na hora eu não entendi direito, mas agora eu sei que ele estava sentindo meu cheiro, porque instantes depois, olhou para o lado e para o alto, na minha direção.

E, claro, gritou.

– APOSTO QUE VOCÊ É POETA! VOCÊ TEM CARA DE POETA!

Todas as outras pessoas na rua olharam para mim. Eu dei uma tragada no cigarro e permaneci imóvel, olhando para o louco. Minha ideia era mostrar para as outras pessoas que “olha, isso aqui acontece comigo todos os dias, é absolutamente normal, não tem nada para ver aqui, siga seu caminho”. Mas o fato de ter ficado imóvel aparentemente mudou algo na minha expressão, porque subitamente eu não tinha mais cara de poeta.

– APOSTO QUE VOCÊ É PROFESSOR DE MATEMÁTICA! VOCÊ TEM CARA DE PROFESSOR DE MATEMÁTICA!

Dei mais uma tragada no cigarro. Desta vez, o louco parado em frente ao meu portão havia errado feio. Eu poderia ser professor de muita coisa, mas não de Matemática. A Matemática sempre foi um inferno na minha vida, especialmente nos dois anos que levei bomba na escola – em um deles eu me ferrei tanto que eu não conseguia mais calcular nem mesmo quanto eu precisaria tirar no exame final, quanto mais entender a matéria em si.

Se as duas bombas que tomei na escola formassem uma escola de samba, a Matemática seria uma espécie de porta-bandeiras do meu fracasso estudantil, segurando um estandarte costurado com todas as provas que eu tirei nota vermelha e sambando em cima das esperanças dos meus pais (a Química certamente seria a bateria) em verem o filho se formar.

Enquanto eu pensava sobre isso, minha expressão deve ter se alterado novamente.

– APOSTO QUE VOCÊ É CIENTISTA! VOCÊ TEM CARA DE CIENTISTA!

Cientista? Não, cara. Você começou bem, com poeta – eu já arrisquei alguns sonetos no meu outro blog – mas se você continuar seguindo pelo caminho das Ciências Exatas, vai errar cada vez mais.

O mais perto de “ser cientista” que eu cheguei foi quando eu tinha uns quatro ou cinco anos e coloquei para mim mesmo a tarefa de provar para a humanidade que ao misturar Coca-Cola e Soda Limonada o resultado seria guaraná – tarefa esta que durou trinta segundos, tempo necessário para eu descobrir que havia conseguido apenas fabricar a pior bebida do mundo.

Dei mais uma tragada no cigarro e permaneci imóvel. Eu só iria esboçar uma reação quando o sujeito adivinhasse o que eu realmente sou. E eu estava aberto a qualquer coisa que chegasse perto do que faço. Escritor. Roteirista. Cronista. Jornalista. Publicitário. Qualquer um serviria.

Mas, aparentemente, o louco se cansou de tentar adivinhar e resolveu partir com tudo – ou isso, ou minha cara se alterou mais uma vez.

– APOSTO QUE VOCÊ É TUDO!

Eu fiz uma cara de “oi?”. As pessoas que passavam pela rua começaram a rir mais alto.

– VOCÊ TEM CARA DE TUDO, MENOS DE VOCÊ MESMO!

Suspirei. Ninguém poderia negar que este louco em particular era um louco empenhado. Talvez fosse algum supervisor da seita dos loucos que, cansado de ver resultados tão baixos de sua equipe, saiu pelas ruas disposto a mostrar como é que se faz.

Eu apenas sorri, fazendo a melhor cara de “tudo menos de mim mesmo” que consegui. O louco sorriu de volta e decidiu seguir seu caminho, mancando.

E eu fiquei ali, terminando meu cigarro e pensando em como é possível eu não ter cara de ter eu mesmo. Mas meu pensamento durou somente alguns segundos, até eu perceber uma informação ainda mais assustadora.

Eles sabem onde eu moro. Eles descobriram meu endereço.

Apaguei meu cigarro e voltei para casa.

Na dúvida, já estou olhando casas para alugar. Em outra cidade.

(Para ler o post anterior desta série, clique aqui. Para ler todos, clique na tag "Coisas da Vida" aí embaixo, ou clique aqui)

30 de dezembro de 2012

Coisas da Vida XV

Estava dia desses no mercado, com a Esposa.

E mercado, no final do ano, é um assunto que sozinho renderia um blog. Aparentemente, entre os dias 20 e 31 de dezembro, os mercados fazem uma seleção de tudo o que de pior andou pelos seus corredores ao longo do ano.

São famílias de vinte pessoas que fazem compras de mãos dadas – sim, todos os vinte; a alma penada da senhora de idade que vaga pelos corredores e, sem saber que está morta, tenta puxar papo com as pessoas vivas; a mulher que faz compras com o cãozinho no colo (e descobre que levar o cachorro talvez não tenha sido boa ideia ao passar pela seção das carnes); o casal de namorados que resolve celebrar a paixão quase copulando na parte mais discreta da seção de vinhos.

E, no meio disso tudo, eu e a Esposa, com as compras de Ano Novo, tentando arrumar um lugar na fila de um dos caixas. Missão cumprida, precisávamos apenas escolher na fila de qual caixa entraríamos. Decidimos por uma fila um pouco mais vazia, que tinha somente duas pessoas – que aparentemente, estavam juntas – e começando a ser atendidas.

Assim, pedi a Esposa que esperasse um pouco na fila enquanto eu fosse fumar um cigarro na calçada. Mais que fumar, eu queria um pouco de ar e alguns minutos longe do barulho, visto que poucas horas antes eu havia sofrido uma crise de enxaqueca violenta – o que me fez fazer compras de óculos escuros.

Chovia aos cântaros em São Paulo. Parei num canto coberto, na porta da loja e acendi um cigarro, deixando meu cérebro descansar um pouco da multidão de pessoas do mercado. E, aos poucos, minha mente decidiu ir um pouco mais longe – algo que acontece sempre que eu fico mais de dois minutos sozinho.

Comecei a pensar a respeito da ceia de Ano Novo, no que eu espero para o próximo ano, quais as minhas resoluções e desejos para 2013. Pensei sobre meus planos, sonhos e expectativas, sobre como eu gostaria de estar dentro de um ano, sobre o velho com cara de bêbado que estava parado ao meu lado olhando fixamente para mim.

Sim. Havia um velho com cara de bêbado parado exatamente ao meu lado, olhando exatamente para mim. Aproveitando que estava de óculos escuros, olhei para ele sem mover a cabeça (o que fez a enxaqueca ranger dentro de mim). Carregava uma sacola do mercado que continha uma garrafa – que não devia ser de Fanta Laranja ou de água – e usava uma camisa azul de algum time de várzea (com aqueles nomes que somente times de várzea possuem, tipo Associação Esportiva Jardim Roberto ou Bar Ferreira Futebol Clube).

Decidi ignorá-lo. Tudo o que eu não queria era um maluco cutucando minha enxaqueca. Assim, novamente aproveitando meus óculos escuros, fingi que era cego e que nem havia percebido sua presença ali.

Fiquei imóvel, alheio a tudo. Na verdade, eu usei totalmente o pinball wizard mode: on e decidi que além de cego, eu também era surdo e mudo também. Para mim, a mensagem que eu passava ao sujeito era clara: se quiser falar comigo, arrume uma máquina de fliperama.

- UTIDI!

Quase enfartei quando o velho gritou do meu lado. E o problema é que, como não tenho muita experiência em enfartos, eu acabei demonstrando meu susto (pulando e quase jogando o cigarro para o alto). E assim terminaram meus planos de ignorar o velho.

Imediatamente, meus neurônios começaram a celebrar a presença de um maluco ao meu lado da sua forma tradicional: todos pararam o que estavam fazendo e correram para o meio do cérebro, entoando Can I Play With Madness, do Iron Maiden, e dançando.

Tentei ignorar a música que vinha de dentro da minha cabeça e me concentrei no velho.

O que mais me incomodou foi ele ter falado comigo na língua dos jawas. Sim, os jawas gritam “Utidi” nos filmes de Star Wars. Eu sei isso, e qualquer pessoa que, como eu, assistiu à Trilogia Clássica dezenas de vezes, sabe disso.

Enquanto meus neurônios ainda celebravam, eu fui obrigado a estabelecer contato com aquela forma de vida – mesmo porque o sujeito continuava parado ao meu lado, esperando por uma resposta.

- Perdão?

- UTIDI!

“Can I play with madness? The prophet stared at his crystal ball! Can I play with madness? There's no vision there at all!”, meus neurônios responderam, enquanto eu considerei um pouco as opções.

Veja bem, eu tenho 1.60m. Se eu estivesse de capuz, me tornaria praticamente um jawa e entenderia perfeitamente alguém gritar Utidi para mim. Além de baixinho, eu sou gordo. Ou seja, caso estivesse com uma roupa azul e branca, me tornaria uma espécie de R2-D2 do 3º Mundo, e entenderia perfeitamente alguém gritar Utidi para mim.

Mas não era o caso. Eu estava sem capuz e com uma camiseta preta dos Beatles. Não fazia sentido.

- Desculpe, mas...

- UTIDI!

(“Can I play with madness? The prophet looked and he laughed at me! Can I play with madness? He said you're blind, too blind to see!”)

Definitivamente, era um jawa. Lá estava eu, conversando com um jawa perdido na porta do Walmart da Avenida Jabaquara (que, agora estou pensando, deve ficar nas imediações de Tatooine). Não era uma situação das mais confortáveis, mas admito que poderia ser pior. Poderia ser um membro do Povo de Areia.

Contudo, isso não tornava minha vida mais fácil. Afinal, tudo o que eu falo na língua dos jawas é “utidi”, que eu nem sei ao certo o que significa. E o jawa com cara de bêbado parecia ansioso por uma resposta

Assim, decidi usar o único truque que comprovadamente funciona em todos os cantos do universo. Cavaleiros Jedi, vulcanos e os tripulantes da Galactica sempre se utilizam deste macete com sucesso. O velho e bom truque do “sorri e concorda”.

Olhei para o velho e sorri para ele.

- Sim. Utidi.

- UTIDI!

- Isso aí. Utidi.

O velho pensou um pouco, sorriu para mim e foi embora, ignorando a chuva. Eu terminei de fumar, enquanto meus neurônios terminavam sua canção e voltaram aos seus afazeres comuns. E, quando tudo parecia terminado, apaguei o cigarro e olhei para cima, em direção às nuvens negras.

- Vocês não desistem nunca, certo?

Tudo o que eu ouvi foram risinhos abafados vindo por trás das nuvens. Olhei ao redor, para as outras pessoas, e ninguém havia escutado nada, por causa da chuva. Somente eu. E eu sabia o que aqueles risinhos significavam.

Traduzindo em palavras, seria algo como um “O nosso 2013 promete, Rob Gordon”.

Ô fase.




8 de dezembro de 2012

Coisas da Vida XIV


Entrei no mercado tendo certeza de que eu era o Rob Gordon.

Foi no mercadinho aqui ao lado de casa. Estou sempre lá. E, até onde me lembro, todas as vezes que fui até lá eu era o Rob Gordon. Enfim, como eu vou lá algumas vezes por semana, já conheço, ao menos de vista, a maior parte dos funcionários, sobretudo dos caixas.

Mas, desta vez, passei minha compras com uma funcionária que eu não conhecia. Mas, para mim, nada mudou na minha vida. Até então, eu ainda era o Rob Gordon.

Minha identidade começou a ser posta em cheque quando comecei a passar as compras.

- Seu nome é Matheus?

- Como?

- Seu nome não é Matheus?

- Não, senhora.

- Ah.

- Eu vou querer CPF na nota.

- Certo. É que você é igualzinho a um amigo meu. O nome dele é Matheus.

- Mas não sou eu, não.

- Entendi.

- Você tem mais sacolas?

- Aqui.

- Obrigado.

- Você tem certeza, certo?

- Oi?

- Você tem certeza de que você não é o Matheus?

- Bem, a última vez que eu chequei, eu não era o Matheus, não. Eu era mesmo. Acho que nada mudou de lá para cá.

- Ah... É porque esse meu amigo, o Matheus, ele é muito engraçado. Ele adora pregar peças nos outros.

- Sei.

- Então você poderia ser o Matheus fingindo que não é o Matheus, apenas de gozação.

- Entendi. Mas, olhe, eu não sou o Matheus, não. Quer dizer, eu acho.

- Você é muito igual a ele! Baixinho, barba. Impressionante!

- É. Mas não sou ele, não. Se você quiser, eu tenho meus documentos aqui.

- Mesmo?

- Sim. Quer ver? Tenho quase certeza que não sou o Matheus, mas a gente pode conferir...

- Hum... Não. Não precisa. Você não é o Matheus.

- Não?

- Não. O Matheus já estaria gargalhando a essa hora.

- Ah. Entendi.

- Deu dezessete reais.

- Aqui.

- Seu troco.

- Obrigado.

E assim, saí do mercado novamente como Rob Gordon. Quer dizer, eu acho.

Afinal, nada impede que eu seja o Matheus e, de tanto pregar peças nas outras pessoas, acabei enganando a mim mesmo – afinal, a melhor maneira de contar uma mentira é acreditar sobre ela. Entrei em casa e fui conferir meu RG. Meu nome estava lá. Nada de Matheus.

Passei o dia mais aliviado. Eu era eu mesmo. A não ser, claro, que eu, Matheus, tivesse até mesmo a paciência de falsificar um documento para enganar as outras pessoas. Imagine, se dar ao trabalho de fazer tudo isso?
  
Quando pensei nisso, senti até um pouco de orgulho do Matheus, e de ser parecido com ele.

Baita cara determinado.




(Para ler os outros posts desta série, repletos de loucos cujo único propósito é andar pela rua me procurando somente para interagir comigo, clique aqui)

10 de dezembro de 2010

Coisas da Vida XIII

O Pinheiros passa neste ponto? Estou aqui há meia hora e ele ainda não passou. Não é possível, é muita falta de respeito com as pessoas. O transporte público paulistano é horroroso. As pessoas dizem que o metrô funciona, mas não funciona não. No horário de pico, ele tem onze pessoas por metro quadrado. Sim, onze pessoas. Isso não é “funcionar”. É um time de futebol por metro quadrado. Mas isso é na linha Azul, claro. Na linha vermelha são oito pessoas por metro quadrado. Na linha verde, são seis. A segunda maior média do mundo é a Coréia do Sul, sabia? No metrô de lá tem 6,5 pessoas por metro quadrado. Mas isso no horário de pico. Eu fui para Nova York no começo do ano. Passei dois dias lá. Meu irmão foi a trabalho e eu consegui passar dois dias com ele. Tirei passaporte, fui com ele e fiquei apenas dois dias. Saí um dia para conhecer a cidade. Todo mundo anda de metrô ali. TODO MUNDO! Porque lá, sim, o metrô funciona! Olhe! O Pinheiros está vindo! Finalmente! Vou reclamar com o motorista, isso é muita falta de respeito!


Se você conseguir falar este texto inteiro sem parar para respirar (e consequentemente sem abrir espaço para mais ninguém falar), parabéns!

Você está oficialmente habilitado para integrar o grupo de loucos que tem como propósito vir conversar comigo na rua.

Favor comparecer ao Sindicado dos Anormais Paulistanos com sua documentação e retirar sua carteirinha, uma foto recente minha, e o mapa (atualizado) dos locais de São Paulo que eu costumo freqüentar.

6 de janeiro de 2010

Coisas da Vida XII

Semana passada, como eu disse neste post aqui, minha mãe passou dois dias no meu apartamento. E, em um determinado momento do primeiro dia, ela soltou uma de suas frases clássicas:

– Rob, você precisa ir até o mercado comprar algumas coisas.

Eu, claro, respondi da mesma forma que faço desde os 12 anos de idade:

– Sim, preciso. Coca e chocolate. E você, vai querer algo?

– Mas tem Coca aqui. Tem uma garrafa cheia.

– Sim, mas Coca nunca é demais, mãe. A gente nunca sabe o dia de amanhã. Coca, chocolate e o que mais?

– Saco de lixo, fósforo e um maço de Free para mim.

– Ok.

– Não é melhor marcar numa listinha?

– Não. A última vez que eu fiz uma lista de compras para não esquecer nada eu esqueci a lista em casa. Ou seja, eu precisaria fazer uma lista para me lembrar das coisas, e outra lista, para me lembrar da lista. Mas não se preocupe, eu vou me lembrar.

Assim, saí de casa repetindo: “Saco de lixo, fósforo e um maço de Free. Saco de lixo, fósforo e um maço de Free”. O chocolate e a Coca, evidentemente, eu não precisava repetir, porque eu não consigo sair do Pão de Açúcar sem aquilo.

Entrei no mercado, peguei um carrinho – sim, eu uso carrinho até nos dias em que vou comprar somente a Coca e o chocolate, porque detesto carregar aquelas cestinhas – e comecei a andar pelos corredores, recitando baixinho:

– Saco de lixo, fósforo e um maço de Free. Saco de lixo, fósforo e um maço de Free.

A priori, tudo ia bem. O mercado não estava cheio. Calculei que, em uns 10 minutos, sairia dali.

Porém, logo no primeiro corredor me encontrei com ela. Ou melhor: com elas, já que ela tinha o tamanho de umas quatro pessoas.

O Sherman que me desculpe, mas não há maneira melhor de descrevê-la. Na verdade, ela não era gorda, eu sou gordo. Ela era enorme. Sem exagero. Sabe aquelas pessoas que não usam cinto, usam bambolê? Era ela. Na verdade, cheguei a ficar em dúvida se não era a mesma pessoa deste post aqui, porque ela era igualzinha ao planetóide da Paulista.

Ela estava tapando quase todo o corredor. Eu olhei com cuidado, procurando por uma passagem, e avistei um pedaço livre perto da prateleira das vassouras, à esquerda dela. Se eu me espremesse ali, talvez conseguisse passar.

Recitei “saco de lixo, fósforo e um maço de Free” baixinho, e me preparei para começar a me apertar no meio das vassouras.

Mas claro que não seria tão fácil assim. Afinal, eu sou eu.

Ela não queria apenas impedir minha passagem, ela queria conversar. Quando eu estava no meio das vassouras, afastando um rodo com a mão, ela levantou o braço (com uma velocidade espantosa para alguém do seu tamanho) e colocou um objeto na frente do meu rosto. Aliás, na frente, não. No meu rosto. Coisa de cinco centímetros de distância.

Na verdade, ela quase me agrediu com o negócio. E foi assim, quase esfregando o negócio na minha cara, que ela disse:

– O rapaz me disse que isso aqui é para usar na churrasqueira.

Foi seco assim mesmo. Não teve um “oi, dá licença?”, ou um “oi, você pode me ajudar?”. Aliás, a própria frase dela era estranha, já que não era uma pergunta. Ela não queria uma opinião ou um conselho, ela apenas atestou um fato. Foi quase um desabafo.

(Saco de lixo, fósforo e um maço de Free.)

Ainda espremido na prateleira, olhei discretamente para cima e perguntei baixinho: “Vocês não emendaram o final do ano, certo?”. Como as únicas respostas que tive foram gargalhadas, deduzi que estavam trabalhando a todo vapor e com a equipe inteira.

Tentei colocar o que quer que fosse que ela tinha colocado a três centímetros do meu rosto em foco, mas consegui apenas ficar vesgo. Assim, dei um passo para o lado e olhei calmamente.

Era um objeto feito com uma espécie de esponja com fios de metal, e uma lâmina, obviamente feita para raspar a gordura, em uma das pontas. Era evidente que aquilo deveria ser usado para limpar a churrasqueira. Eu, ao menos, não via outra utilidade para aquilo. E definitivamente não parecia algo de comer.

(Saco de lixo, fósforo e um maço de Free)

O problema é que eu ainda não sabia como responder a ela, já que a frase dela não abria espaço para resposta nenhuma. Claro que eu poderia apenas sorri, concordar e sair andando no meio das vassouras, mas ela, assim como a frase, não abria espaço para nada, ocupando o corredor inteiro.

Assim, não tive alternativas e precisei estabelecer contato.

– Sei.

Confesso que não foi nada muito brilhante. Mas convenhamos: eu não tinha muito que dizer ali. Contudo, ela não estava disposta a me deixar ir embora assim tão fácil. Assim, ela apenas ignorou o que eu havia dito, ignorou o fato de que eu estava prensado no meio das vassouras, e começou a examinar o objeto com mais cuidado, rodando-o nas mãos.

(Saco de lixo e um maço de Free. Tinha algo mais...)

Com o olhar vidrado de um especialista que se depara com o maior enigma de sua carreira – e sem olhar para mim –, continuou:

– Será que é mesmo para usar na churrasqueira?

Com isso, havíamos dado um passo atrás. Todo o nosso relacionamento, até então, estava sendo construído sobre o fato de que aquele objeto era usado em churrasqueiras, e agora ela simplesmente não tinha mais certeza disto. Por outro lado, desta vez ela havia feito uma pergunta, o que tornava as coisas (um pouco) mais fáceis.

– Olhe... Se o rapaz disse que é para usar na churrasqueira...

– Ele disse. E eu peguei isso ali na parte de churrasco.

– Olhe... Se o rapaz disse que é para usar na churrasqueira, e se você pegou na parte de churrasco...

A conclusão do meu pensamento pode ser óbvia para mim e para você, mas não para ela. Se a conclusão estivesse pulado para fora da minha boca vestindo uma camiseta verde limão e começado a pular no corredor gritando “Olhe para mim! Olhe para mim!” não teria adiantado nada.

Ela olhou para mim, esperando eu terminar a frase.

–O que você acha?, ela perguntou.

(Saco de lixo, um maço de Free... Eram três coisas, tenho certeza.)

– Se o rapaz disse que é para usar na churrasqueira, e se você pegou na parte de churrasco, acredito que é para usar na churrasqueira, sim.

– Será?

– As chances disso parecem ser boas.

Pronto. Agora ela sabia onde usar o artefato. O próximo passo era descobrir como usá-lo.

Esfregou os fios de metal nas costas da mão e, fazendo uma careta de dor, concluiu em voz alta:

– Deve ser para limpar a churrasqueira.

(Saco de lixo e um maço de Free. Saco de lixo e um maço de Free. Saco de lixo e um maço de Free. Eram três coisas, tenho certeza.)

– Sim. Provavelmente.

Ao ouvir minha voz, ela levantou os olhos para mim, um pouco surpresa por eu estar ali. Percebi que o cérebro dela era incapaz de efetuar duas tarefas ao mesmo tempo. A cada vez que ela olhava o objeto, se esquecia completamente de que era responsável por manter aquele baixinho careca aprisionado no meio das vassouras. Por outro lado, a cada vez que ela percebia que eu estava ali, o cérebro dela devia cochichar para ela que “esse carequinha aí talvez possa nos ajudar, vamos falar com ele”.

– Você acha que deve ser para limpar a churrasqueira?

– Sim, acho.

(Fósforo! Era fósforo! Saco de lixo, fósforo e um maço de Free!)

Ela esfregou o negócio na mão, novamente.

– Deve ser para limpar a chapa.

Chapa? Que chapa? Churrasqueira não tem chapa. Tive o impulso de perguntar a ela se ela tinha uma churrasqueira ou uma padaria, mas me segurei e tentei ser mais objetivo.

– A grelha, você diz.

– Não. A chapa! Onde assa as carne.

Assim mesmo. “As carne”.

Desisti. Como diria Chico Buarque, “corre e diz a ela que eu entrego os pontos”. Afastei uma vassoura de pelos do meu ombro e concordei.

– Sim, sim. A chapa. Onde faz as carne. É para limpar a chapa. Isso mesmo.

– Ah, então eu vou levar.

(Saco de lixo, fósforo e um maço de Free)

Falou isso e ficou olhando para mim, esperando por alguma coisa. Eu fiquei olhando para ela. Ela ficou olhando para mim. Eu fiquei olhando para ela. Ela ficou olhando para mim.

Pensei em ativar o Hal 9000 mode: on e soltar um “Dave, this conversation can serve no purpose anymore. Goodbye” (e com a voz do Hal, que, modéstia à parte, eu imito bem), mas achei que seria complexo demais para a ocasião.

E claro que eu poderia apenas soltar um “olhe, eu não trabalho aqui, eu não posso cobrar por esse produto, você tem que ir direto ao caixa”, mas achei que soaria grosso demais. Afinal, como eu ainda estava prensado no meio das vassouras, sem espaço para fugir, não parecia uma boa idéia. Assim, segui um caminho mais diplomático:

– Hã... Ok. Boa sorte.

(Saco de lixo, fósforo e um maço de Free)

Como num passe de mágica, ela pareceu satisfeita. Atirou a coisa no carrinho dentro do carrinho e saiu andando pelo mercado. Eu fiquei em pé no corredor, colocando minhas costas no lugar enquanto ela ia embora.

Ainda estalando a coluna e voltando a repetir “saco de lixo, fósforo e um maço de Free”, notei que ela parou a uns cinco metros de mim, e começou a analisar atentamente um frasco de desinfetante. Alguma dúvida pipocou na sua mente (“será que isso é usado para limpeza ou para beber?”, ou algo assim).

Assim, ela olhou para os lados, procurando por alguém que pudesse ajudá-la. Mas não deu sorte, o corredor estava vazio. Pois o baixinho careca, ao ver isso, saiu em disparada para o corredor de frutas e verduras, procurando um lugar seguro para poder colocar suas costas no lugar.

(Saco de lixo, fósforo e um maço de Free)

7 de setembro de 2009

Coi'a' da Vida - XI

Eu já disse aqui diversas vezes que eu sou o piloto de testes de toda criatura estranha que Deus cria. Esse pensamento nasceu como uma piada, mas estou começando a ficar cada vez mais convencido que isso é a pura verdade. Meu papel no universo é entreter os mais diversos loucos que surgem por aí – e que vagam pelo planeta até cumprirem sua missão divina: me encontrar.

Entretanto, ultimamente a criatividade do pessoal lá de cima vem atingindo níveis inacreditáveis. Agora, ao invés de encontrar pessoas somente loucas, eu encontro loucos que seriam considerados estranhos até mesmo pelos seus colegas. Ou seja, se lidar com loucos na rua é um dos aprendizados da vida, eu cheguei a um nível que me permite até mesmo a dar palestras sobre o assunto.

Não, não é exagero. Ontem foi um louco fanhoso.

Estava esperando a Sra. Gordon no terminal Jabaquara. Cabe dizer – se você é leitor do blog mas não mora em São Paulo – que o terminal Jabaquara nada mais é que um Largo da Batata coberto. Lá, você encontra de tudo, desde pessoas que atuam como promoters de vans que vão para o litoral até mendigos de todas as idades, cores e religiões.

Enfim, estava ali esperando por ela. Poucos metros à minha frente, uma mendiga, que aparentava ter idade suficiente para ter ajudado Pero Vaz de Caminha com a carta, pedia suas esmolas. E era uma mendiga profissional, com banquinho e tudo.

Eis que surge ao meu lado um homem de cerca de 50 anos, carregando uma pastinha. Ele pára ao meu lado e fica olhando em direção a mendiga. Olha para mim. Olha para a mendiga. Olha para mim.

Eu, observando com o canto do olho, percebi o que ia acontecer. Ele estava louco para fazer contato comigo. Provavelmente ele recebeu, no Sindicato dos Loucos de São Paulo, uma foto minha desatualizada, e estava na dúvida se eu era eu mesmo. Quase virei para ele e disse que “sou eu mesmo, pode começar o show”.

Aparentemente, ele criou coragem, veio até a mim e começou a falar. Imagine TODAS as piadas sobre fanhosos que você ouviu até hoje. Imagine o outro personagem da piada, que fica tentando entender o que o fanhoso fala. Então, esse sou eu.

– Ho’e em dia, a’ pe’oa’ ’ó querem ´aber de di’eiro. E mai’ nada.

– Hã?

– É, é a’im o dia ’odo. Di’eiro, di’eiro, di’eiro.

– Hã?

– Por e’emplo: a madri’a da mi’a mu’er. Di’eiro, di’eiro. O dia ’odo. O’a ’ó, e’tá um baita dia ’onito. Ma’ ela não vai pa’ear, não quer conver’ar com ninguém. ’ó pensa em di’eiro.

– Hã?

– A madri’a da mi’a mu’er.

– Hã?

Ele ignorou que a completa ausência de fonemas essenciais ao nosso idioma estava nos levando a lugar algum, e apontou a mendiga com o dedo.

– O’a lá aquela mu’er.

– Hã?

– Di’eiro, di’eiro, di’eiro.

– Hã?

– Tem que ficar ’edindo di’eiro? Vai pa’ear! E’tá um ’uta dia ’bonito, vo’ê não a’a?

– Hã?

– Ma’, não! Tem que ficar ’orrendo atrá’ do di’neiro, o dia ’odo. I’o não é vida. I’o não é vida para mim.

– Hã?

– E ’e vo’ê pa’ar aqui ama’ã, ela vai e’tar aqui de ’ovo.

– Hã?

– Di’eiro, di’eiro, di’eiro.

Antes que eu pudesse responder qualquer coisa (admito, seria um novo “hã”?, talvez um pouco mais enfático), ele andou em direção à mendiga, e falou alguma coisa com ela. A senhora o mandou tomar no cu – em alto e bom som – e ele foi embora reclamando.

Mas, antes de entrar no metrô, ele ainda se virou para mim – já que eu era o mais próximo que ele tinha de um amigo ali – e ainda gritou:

– Vo’ê viu, né? Di’eiro, di’eiro!

Fingi que não era comigo, suspirei e continuei esperando a Sra. Gordon.

Ô fa’e.


Update: Tem texto novo no Champ Chronicles: O Bar do Luís. Confiram!

28 de agosto de 2009

Coisas da Vida - X

(leia o post anterior dessa série aqui)

Quem já foi ao McDonald’s ali da Henrique Schaumann com a Rebouças sabe que ele tem uma densidade demográfica superior a de alguns bairros. Especialmente de madrugada. Mesmo assim, vira e mexe eu me enfio lá dentro depois da meia-noite, muito provavelmente porque ele é perto de casa.

Sábado passado fui ali com um amigo e, obviamente, estava lotado. Fomos para a última fila – a mais vazia, ou melhor, a menos cheia – e esperamos nossa vez. Eis que surge uma daquelas funcionárias que andam pelas filas anotando o pedido das pessoas e pergunta o que iríamos comer. Respondemos, ela anotou e entregou o papelzinho, tudo como manda o figurino.

Minutos depois, chegamos ao caixa. Entrego o papel com os pedidos para a menina do caixa e me preparo para tirar a carteira do bolso, quando ela me devolve o papel:

– Você pode ler o que está escrito aí?

– É o meu pedido.

– Sim, é que eu sou nova aqui, ainda não sei ler isso.

– Então, mas eu também não sei.

– É que eu sou nova aqui.

– Mas eu não trabalho aqui. Mesmo sendo nova, você ainda tem mais experiência que eu.

– É, mas eu não sei ler isso. Não fui treinada nessa parte, ainda.

– Ok, ok.

– Então, por favor, leia o que está no papel e eu vou registrando aqui.

– Não é mais fácil ao invés de ler esse negócio, eu simplesmente falar meu pedido?

– Não, porque o seu pedido está nesse papel aqui.

– Mas não é a mesma coisa?

– Não, não. O seu pedido está aqui.

Suspiro.

Como diria Humphrey Bogart em Casablanca: "em todos os McDonald's, em todas as cidades do mundo, essa menina tinha que estar no meu".

Ô fase.

23 de agosto de 2009

Coisas da Vida - IX

(leia a parte anterior desta série aqui)

Sábado, perto da hora do almoço, Avenida Paulista. Estou saindo de uma banca de jornal quando sou abordado por um senhor de aproximadamente 50 anos, razoavelmente bem vestido. Usava calça social cinza, malha de lã combinando e (apesar do cabelo grisalho ser bastante ralo) um rabo de cavalo minúsculo, que desafiava insistentemente sua calvície.

Ele sorriu, mostrando que sua arcada dentária inferior deveria ser treinada pelo Parreira, já que não tinha ninguém jogando na frente.

– Você mora por aqui?

– Não, mas conheço a região, respondi, certo de que ele estava perdido e queria alguma informação.

– Você conhece algum restaurante ou bar aqui perto que esteja precisando de algum ajudante?

Ok, não é o tipo de questão que se ouve ao ser abordado na rua, especialmente quando você está esperando algo como “onde fica o metrô mais próximo?” ou “para que lado é a Brigadeiro?”.

Parei e pensei sobre a pergunta, procurando alguma pegadinha. Não encontrei nada. Olhei ao redor, esperando encontrar uma câmera escondida. Nada. Olhei para cima e resmunguei “porque é sempre comigo?”.

Mas pensei no blog e resolvi continuar com o papo.

– Olhe, realmente não conheço. Sinto muito.

– Tem certeza?

Evidente que tenho. Toda vez que eu entro num boteco, eu pergunto se o cara tem Coca, e não se o staff dele está adequado ou se ele tem planos de expansão. Mas achei melhor não entrar nestes detalhes.

– Tenho.

– Ah, mas você tem cara de quem costuma ir a barzinhos! Ao menos, isso eu acertei?

– Sim.

– Que ótimo! Eu detestaria abordar a pessoa errada na rua!

Pensei em explicar a ele que “fique tranqüilo, você abordou a pessoa certa na rua, já que você é louco e eu sou eu”, mas mudei de idéia. Complexo demais, e eu estava com pressa.

– Porque sabe o que acontece?

Ah, meu Deus. Lá vem. Antes que eu pudesse pedir para ele adiantar a conversa até a parte em que ele me pede algo, ele continuou:

– Eu sou de Santa Catarina. Sou arquiteto e professor. E vim para São Paulo trabalhar com uma moça, mas ela viajou e só volta na quinta-feira.

Comecei a sentir o cheiro de golpe no ar.

– Ah, mas logo a quinta-feira chega. Você vai ver, passa rápido, respondi.

– Então, mas meu dinheiro acabou e eu e minha esposa fomos expulsos do hotel em que estávamos. Aquele Fórmula 1, sabe? Porque eles não têm mais chave, eles têm um cartão magnético para abrir a porta do quarto, e o nosso não funciona mais.

Os meus neurônios responsáveis pelo sarcasmo começaram a sugerir que eu dissesse a ele para entrar no metrô e tentar recarregar o cartão do hotel como se fosse um Bilhete Único. Joguei um pano preto em cima deles, fechei a porta da sala em que eles trabalham e passei a chave, tentando me controlar.

– Que coisa.

Cá entre nós, não havia muito mais o que dizer.

– E agora eu estou na rua, com minha esposa. Ela pesa 140 kg. Estamos passando fome.

Espere. 140 kg e passando fome? Se existisse um sindicato de pessoas-que-passam-fome, eu denunciaria esse sujeito na mesma hora.

– E agora eu preciso sobreviver até quinta-feira.

– Você já tentou em bancas de jornal?

Foi uma tacada de mestre. Afinal, estávamos ao lado de uma banca. Se ele comprasse a idéia, isso faria com que ele entrasse ali atrás de emprego, me dando os segundos preciosos que eu precisava para fugir. Mas não deu certo:

– Não! Donos de bancas de jornal fazem parte de uma máfia!

Faz sentido. Eu sempre fui vítima da extorsão dos donos de bancas de jornal. Metade do dinheiro que ganhei na vida está na mão deles, devido ao meu maldito vício por quadrinhos. Ponto para ele.

Antes que eu pudesse pensar em outra alternativa (“olha, tem um açougue ali na Brigadeiro, e nunca vi mais de dois funcionários, talvez eles precisem de um ajudante”) ele foi direto ao ponto:

– Você não está precisando de algum trabalho? Eu posso fazer algo para você, entregar algum documento, em troca de um almoço.

A idéia foi tentadora. Imediatamente pensei nas dez revistas que eu faço, e considerei a hipótese de contratar esse sujeito como frila. A cada três textos, um almoço. Mas seria difícil explicar isso para o meu chefe, especialmente pelo fato de que esse cara provavelmente não emitiria nota fiscal.

Foi aí que meu cérebro começou a preparar uma daquelas armadilhas. Pensei na enorme e eterna zona que é o meu apartamento, e tive o impulso de contratar o sujeito como mordomo. Ele já era meio grisalho mesmo, bastava um banho de loja para se tornar um Anthony Hopkins. E, quanto à sua deficiência dentária, bastava ele não abrir a boca quando eu tivesse convidados em casa.

Sacudi a cabeça e voltei à realidade.

– Olhe, eu realmente não preciso de nada. Obrigado.

– Você não quer ir almoçar comigo em alguma padaria?

Certo. Esse foi “me paga um almoço?” mais estranho que eu recebi. Por alguns instantes, cheguei a considerar a hipótese de que eu estava sendo cantado, mas o olhar do velho deixou claro que ele não tinha segundas intenções. Ele queria mesmo era um almoço.

Tive o impulso de perguntar algo como “bom, você está convidando, então você paga, certo?”, mas isso provavelmente iria fazer o papo se arrastar por horas. Ele insistiu.

– Quer ir?

– Infelizmente eu já tenho compromisso. Mas agradeço o convite.

– É que eu queria almoçar.

E, assim, após cinco minutos de papo, chegamos aonde ele queria. Num almoço. Abri a carteira e puxei uma moeda de R$ 1,00. Mas, antes que eu a entregasse, pensei no fato de que essa foi o pedido de esmola mais elaborado que eu vi na vida (sejamos sinceros, o sujeito me deu todo o background, e, assim como o George Lucas, praticamente criou uma trilogia só para explicar porque ele queria um almoço) e peguei todas as minhas moedas. Deu quase R$ 2,00.

Entreguei para ele e disse:

– Olhe, vai comer algo, e quem sabe você dá sorte a tarde. Eu adoraria acompanhar você, mas, infelizmente, eu tenho outro compromisso.

Ele olhou as moedas e viu que não dava para comer muita coisa. Mas, convenhamos: por mais que sua história tenha sido bem trabalhada, ainda assim era uma esmola. E esmolas, para mim, obedecem a limites de uma nota de R$ 1,00, ou moedas. Mais que isso, já é empréstimo.

Ele olhou para mim. Eu me esforcei para assumir a expressão “você não vai conseguir mais que isso”. Mesmo porque, só faltava ele ficar insatisfeito e colocar a esposa na conversa de novo. Eu me recuso a dar esmola para uma pessoa cuja massa é duas vezes maior que a minha.

Aparentemente, ele entendeu o recado e foi embora com as moedas.

Mas bastou eu andar uns dois metros para alguns dos meus neurônios do sarcasmo – que, a esta altura, já haviam conseguido arrombar a fechadura da porta – correrem para o meu ouvido e colocarem as cabeças para fora da minha orelha, e gritaram:

– Tenta ir até o metrô carregar o bilhete da porta do hotel!

Dei três tapas no meu ouvido e mandei eles calarem a boca. Eles se assustaram e correram de volta para dentro do cérebro. Olhei para trás e o velho estava olhando para mim.

Sorri, sem graça, e fui embora, acelerando o passo. Afinal, tudo o que eu não precisava era que o velho voltasse para pedir meus contatos, com a promessa de me enviar por e-mail um currículo – e pior, fotos dele e da esposa. Ô fase, malditos neurônios.

27 de maio de 2009

Coisas da Vida - VIII

(você encontra o post anterior dessa série aqui)


Um dia desses, quando eu estava saindo para trabalhar, entrei no elevador e dei de cara com uma mulher de cerca de 50 anos, cujas dimensões esféricas ocupavam 2/3 do elevador. Seu rosto me lembrava o Jabba the Hutt (não pelo peso dela, mas pela cara mesmo, era igualzinha), mas com quilos de maquiagem. Como se isso já não bastasse para chamar a atenção, ela usava um vestido indiano todo colorido, que a deixava parecida não com um personagem da novela das oito, mas sim com um capítulo inteiro.

Entrei no elevador, apertei o botão do térreo e me espremi num canto. Ela olhou para mim e, como se fosse a coisa mais casual do mundo, comentou:

– Eu estou descalça.

Olhei discretamente para os pés dela e confirmei: era verdade. Estava descalça. Pensei em sorrir e ignorar, mas ela ficou olhando para mim, claramente esperando por uma resposta. E eu, obviamente, não sabia o que dizer. Afinal, como responder a uma declaração dessas?

– Hã... Ok.

Foi tudo que consegui.

O elevador desceu mais dois andares, e ela se virou para mim novamente:

– Você vai embora?

– Oi?

– Você vai embora?

Ou seja, ela é daquelas pessoas que, quando fala algo sem nenhum sentido, acredita que se repetir a mesma bobagem apenas falando mais alto, será compreendida. Desisti de tentar entender e fui em frente.

– Bem... A hora que o elevador parar, eu pretendo sair dele, sim.

– Ah é?

Não consegui entender se ela aprovou ou não minha resposta. Mas resolvi não esmorecer, já que demonstrar medo na frente de uma pessoa que anda descalça de elevador – e faz questão de ressaltar isso – pode ser mortal.

– É.

Ela levantou um braço e colocou a mão a uns três centímetros do meu rosto. Ela tinha algo nas mãos, mas precisei ficar totalmente vesgo para colocar aquilo em foco – afinal, eu não tinha como dar um passo para trás, já que estava esmagado na parede – e identificar o que ela estava segurando.

Era dinheiro.

Aparentemente, uma nota de cinco reais e uma de dois reais, totalmente amassadas.

Duas coisas passaram pela minha cabeça. 1) será que ela acha que eu sou michê e faço ponto aqui no elevador? e 2) Ok, eu não sou grandes coisas, mas, porra, SETE reais? Fim de carreira demais.

Felizmente, minha carreira de garoto de programa terminou logo depois de começar, quando ela perguntou, instantes depois:

– Você pode entregar isso ao zelador?

– Hã... Sim.

– Porque eu estou descalça.

– Sim, eu entrego.

– É de um lanche que fiz.

– Não tem problema. Eu entrego, afirmei, rezando para ter ficado claro que eu não queria me envolver com a situação.

O elevador parou no térreo. Peguei os R$ 7,00, me despedi e, fazendo um exercício de contorcionismo, consegui ser cuspido fora, aterrissando no hall do prédio. Me afastei uns cinco metros e, quando estava quase na porta do hall, ouço um berro atrás de mim:

– É PARA ENTREGAR PARA O ZELADOR, HEIN?

Ou seja, além de tudo, ela achou que eu iria fugir com o dinheiro e comprar drogas ou gastar tudo no fliperama. Ignorei e fui até a guarita, encontrei o zelador e entreguei o dinheiro.

– É de um lanche. É tudo o que eu sei.

Ele agradeceu e pegou o dinheiro. Aparentemente, ele sabia do que eu estava falando.

Fui trabalhar e passei o resto do dia com a sensação de que as pessoas do meu prédio (moradores e funcionários) fazem parte de alguma seita secreta, da qual eu sou o único não-integrante. Sou um pária dentro daquele edifício. Sou uma espécie de Al Pacino em Serpico.

Estou correndo perigo. Vou trocar as fechaduras e colocar grade nas janelas. Não vou mais pedir comida, com medo de ser envenenado.

Se eu ficar muito tempo sem postar, podem mandar a polícia para o prédio. Meu corpo vai estar ali, em algum lugar.

6 de novembro de 2008

Coisas da Vida - VII

Outro dia tive que ir até as Casas Bahia pagar um carnê de um telefone que eu comprei. Aliás, deveriam inventar uma nova lei da Física para as Casas Bahia. Se você comprar qualquer coisa ali – seja uma geladeira, uma cama ou uma lapiseira – você nunca mais deixará de ir à loja. E isso não porque o atendimento é maravilhoso e os preços são ótimos, mas sim porque você tem sempre que voltar para pagar algo. E sempre que você vai pagar, um vendedor te pega pelo braço e não deixa você sair antes de comprar outra coisa – que será parcelado. Ou seja, em breve as pessoas passarão mais tempo dentro das Casas Bahia, pagando o que compraram, do que nas próprias residências, usando as coisas compraram nas Casas Bahia.

Como eu estava com pressa, entrei determinado a nem mesmo cumprimentar um vendedor que olhasse para mim. Aliás, estava mesmo pronto para cuspir na cara de qualquer um deles que me viesse me dar bom dia. Atravessei a loja rapidamente – no meio do caminho, uma das vendedoras me viu, mas me abaixei e fiquei agachado atrás de um fogão, fingindo que estava amarrando o sapato por alguns segundos e consegui escapar e fui direto para o fundo da loja, onde ficam os caixas.

Porém, a poucos metros do caixa, meu sentido de aranha disparou. Olhei para os lados procurando a fonte de perigo que deveria estar próxima de mim, mas não vi nada. Achei que tinha me enganado, mas quando olhei para a fila do caixa, senti um arrepio subindo pela minha espinha.

Duas velhas esperavam a vez para pagar.

Nada contra a terceira idade. Sempre dou meu lugar para pessoas idosas, e até mesmo já ajudei alguns a atravessarem a rua. Isso quando eu morava em Moema, claro. Em Pinheiros não rola, porque na Teodoro Sampaio impera a lei da selva e é cada um por si. Mas, de modo geral, sempre respeitei os mais idosos. Vale citar, claro, que isso não se aplica à Velha Louca que mora em Moema, na rua em que cresci (Interlúdio: eu acredito que “Velha Louca” seja um conceito: afinal, toda rua ou prédio que tem uma turma de moleques tem, também, uma entidade misteriosa conhecida como Velha Louca).

Portanto, colocando a Velha Louca de lado, ressalto mais uma vez que sempre respeitei os idosos. Sempre.

Mas, nas Casas Bahia, a idéia de “velha” é diferente. Estar numa fila nas Casas Bahia e ter uma velha na sua frente é uma espécie de loteria: você pode dar sorte e ser premiado com uma velha que vai apenas pagar a prestação do liquidificador, agradecer e ir embora; ou pode ser uma velha que vai transformar seu dia em algo, no mínimo, bizarro.

Comigo, claro, é sempre a segunda opção.

Mas, desta vez, eu não imaginava (e nem estava preparado) para o que iria encontrar.

Parei na fila e um sujeito estava guardando uns documentos no bolso e agradecendo a menina do caixa. Ou seja, assim que coloquei os pés na fila, as velhas foram em direção ao caixa. Eu estava abrindo minha carteira para pegar meu cartão do banco, quando ouvi:

Como está tu, cara de tatu?
Eu vou bem, cara de Belém!


Sem fazer movimentos arriscados, olhei para frente. Uma das velhas havia cumprimentado exatamente dessa forma a menina do caixa, que, claramente constrangida e segurando a risada, soltou um “bom dia” tímido. Enquanto a outra velha– que parecia não ter vocação de repentista ou de apresentadora de programa infantil – entregava o carnê para o pagamento, a velhinha cantora olhou ao redor, procurando novas platéias.

Ao mesmo tempo, eu olhei para cima e implorei a Deus por perdão. E, claro, perguntei discretamente a ele porque é SEMPRE comigo. Ele, obviamente, não me explicou e nem concedeu clemência: quando abaixei os olhos, a velha olhava fixamente para mim.

Eu sorri para ela. Mas não foi um sorriso de “oi, tudo bem?”, foi um sorriso de “vamos fazer um trato: eu já dou risada do que você pensou em dizer e você não se dá ao trabalho de dizer, ok?”. Aparentemente deu certo. Ela me estudou de cima a baixo (e de lado a lado, porque eu estou absurdamente gordo) e desviou o olhar. Coitada da mulher do caixa, pois teve que segurar o rojão sozinha. A velha olhou para ela e, inspirada, soltou seu novo single de trabalho:

Você é um anjo de candura
Segurado pela cintura
Comendo rapadura
E numa cadeira dura!


Comecei a me perguntar se ela mesma havia composto isso ou se estava cantando algo do Arnaldo Antunes. A velha olhou para mim, novamente rindo. Eu, claro, coloquei em prática minha habilidade de permanecer imóvel e olhando para o infinito. Na verdade, eu estava suando frio. Eu sabia que aquilo não era uma velha fazendo riminhas nas Casas Bahia, era um recado do destino, uma espécie de bilhete escrito “eu posso acabar com seu dia a qualquer hora, Rob Gordon”, em letras garrafais e vermelhas.

A menina do caixa terminou de autenticar o carnê da velha normal, que agradeceu e começou a ir embora. Sua amiga, obviamente, ainda tinha mais um número no bolso, e, matando Chico Buarque de inveja, recitou:

Tchau, tchau!
Tchau, peixinho!
Tchau, bacalhau!
E foi embora, graças a Deus. Eu cheguei ao caixa, e por uma fração de segundos, pensei em falar tudo rimado também, só para sacanear a funcionária da loja. Mas, aí olhei para o lado, vi que o armário no final do corredor não era um móvel à venda, mas sim um dos seguranças das Casas Bahia. E, como a única rima que eu conseguiria fazer com “oi, eu vim pagar uma conta!” terminaria com “sua tonta!”, achei melhor ficar quieto.

Paguei e fui embora.

Mês que vem vou ter que pagar a conta um dia antes, ou deixar atrasar, para não correr o risco de encontrar a velhinha. Porque ela com certeza vai me reconhecer. E, se isso acontecer, é bem capaz de eu ganhar uma serenata no meio da loja.

Ô fase.

28 de outubro de 2008

Coisas da Vida VI

(o post anterior desta série você encontra aqui)

Essa aconteceu agora de manhã, quando eu estava saindo de casa para o trabalho. Entrei no elevador – moro no oitavo andar – e ele começou a descer.

Parou no terceiro andar.

Uma mulher, de aparentemente cinqüenta anos, abriu a porta e colocou a cabeça para dentro do elevador, como se fosse um boneco de teatro infantil. Fiquei olhando para ela, tentando entender se ela estava nua ou mantida sob a mira de uma arma. Ela me olhou de cima a baixo, provavelmente vendo se eu era confiável – e aparentemente, decidiu que era, pois colocou um braço dentro do elevador e me deu uma sacola.

Antes que eu pudesse perguntar algo como “posso te ajudar?” ou “você está sob o efeito de medicamentos?”, ela decidiu tomar a iniciativa e perguntou:

– Você está indo para o térreo?

– É... Sim.

– Ótimo. Você pode entregar isso para o Francis?

– Oi?

– É. Esta sacola. O Francis precisa dela.

– O que é um Francis?

– Francis é o nosso porteiro.

– Ah.

– Você mora aqui?

– Bem... Sim.

– E você não sabe que o porteiro chama Francis?

– Na verdade, toda vez que eu passo pela portaria, eu o chamo de “oi, tudo bem?”. Como ele nunca reclamou, achei que esse fosse o nome dele.

– Pois não é. O nome dele é Francis.

– Ok.

– E ele precisa disso.

– Ok. Vou entregar assim que possível.

– Obrigada.

Tirou a cabeça e o elevador desceu. Abri a porta, fui até a portaria e chamei o porteiro:

– Oi, tudo bem? Uma louc... Uma senhora do terceiro andar pediu para eu te entregar isso aqui.

Ele pegou a sacola e agradeceu. Eu fui embora.

Se eu tivesse coragem de olhar a Síndica das Trevas nos olhos, iria reclamar disso tudo.

5 de dezembro de 2007

Coisas da Vida V

Uma das séries que eu considero mais interessantes aqui no Champ é a Coisas da Vida. Isso porque é público e conhecido e divulgado que a humanidade não deu certo e essa série mostra isso, explorando os loucos que agem como free-lancers, andando pela rua e escolhendo suas vítimas (invariavelmente, eu), a esmo, na rua.

São espécies de ronins, ou seja, não obedecem a nenhum mestre (ao contrário dos atendentes de telemarketing, por exemplo) e vagam pelas ruas dando provas que a idiotice humana é capaz de ultrapassar qualquer limite. Para quem se interessar em ler os outros posts da série, basta checar, aqui, o post original, a parte II, a parte III (que nasceu bastarda, coitadinha, caindo dentro da série (Meme)sa Redonda) e a recente parte IV.

Essa aconteceu uns dias atrás, quando peguei um táxi. Já comecei a desconfiar da sanidade do taxista quando eu perguntei – antes de entrar no carro, com um cigarro na mão – se eu poderia fumar. Ele disse que sim. Assim que entrei no carro, ele virou para mim e disse:

– Posso pedir uma coisa?

– Claro.

– Posso pedir para você não fumar?

Fiquei olhando para ele sem saber o que dizer. Ele era uma versão mais baixa e sem barba do House, o que tornava tudo mais assustador ainda. A única coisa que eu consegui responder foi:

– Mas... Eu perguntei antes de entrar no carro se...

– Sim, mas eu tenho umas coisas aqui que não podem fumar.

– Como assim?

– É, umas coisas aqui.

– Mas sou eu que vou fumar, não elas.

– Tenho que pedir para você não fumar.

– Ah, ok, eu disse, e joguei o cigarro fora.

Começamos mal. Ou, pensando no blog, começamos bem. Disse a ele aonde eu ia e ele deu partida. No caminho, começou a conversar comigo, soltando absurdos sobre o como o trânsito da cidade está muito melhor do que era algumas décadas atrás (isso porque no mesmo dia eu havia demorado mais de uma hora para fazer um percurso de 15 minutos). Enquanto ele ia soltando esses disparates, eu comecei a procurar uma câmera escondida no carro, porque tive certeza de que estava numa pegadinha.

Como não achei nada, decidi prestar mais atenção no que o taxista dizia, tentando compreender como funcionaria a mente de uma pessoa como ele. Desisti quando a conversa caiu no assunto cinema e ele me solta:

– O problema são aqueles filmes que fazem as pessoas se matar.

– Oi?

– É. Os filmes que as pessoas se matam.

– Você está falando dos personagens do filme?

– Não, estou falando de quem assiste. Tem uns filmes que despertam algo no inconsciente das pessoas e elas se matam, depois.

– Se matam?

– Às vezes se matam. Às vezes, se enforcam.

– Mas não é a mesma coisa?

Ele me ignorou. Na verdade, ele mal olhava para mim enquanto discorria sobre os filmes homicidas. Comecei a ficar com medo. Ele continuou:

– O cara vai, aluga o filme e assiste. Acaba o filme, ele está tão perturbado que se mata.

– Ou se enforca.

– Isso. Tem filme aí que já destruiu famílias inteiras. O cara assiste e se mata. Aí, o filme fica lá. Dois dias depois outra pessoa da casa assiste e se mata. E assim vai. Morre a família inteira.

– É complicado, né?, foi a única coisa que eu consegui dizer. Pensei em dizer que isso estava parecendo mais com peste negra do que com um DVD, mas achei melhor ficar quieto. Aliás, eu nem teria oportunidade de falar, porque ele me ignorou novamente e continuou.

– Às vezes, morre a família inteira e, depois, começam a morrer as pessoas de uma casa próxima, ali, da região.

Ou seja, é peste negra mesmo, pensei. Ou isso, ou ele assistiu a O Chamado e achou que era um documentário. Mas continuei a dar corda, claro.

– Mas todo mundo morre porque assistiu ao filme?

– É. Antes de morrer, as pessoas da primeira casa deixaram o filme para outra família.

– Mas que filme é esse?

– Eu não sei, mas sei que tem. E é mais de um filme. Tinha que ir à locadora e perguntar quais filmes não foram devolvidos. São esses aí. São os filmes que fazem as pessoas se matar.

– Mas será que às vezes os filmes não foram devolvidos porque foram roubados?

– Não, as pessoas se mataram. Você não faz idéia das coisas que eles colocam nesses filmes.

– É... Acho que não faço.

– É a família inteira que se mata. É uma pena. Isso destrói a vida de muita gente.

– Mas onde você viu isso?

– Ah, tem muita gente que comenta isso por aí. Olhe, chegamos onde você queria.

– Não, mas onde você ouviu falar disso? Que filmes são esses?

– Eu ouvi dizer. Mas não sei quais filmes são. Mas que tem, tem. Sua corrida deu R$ 17,00.

Como ele não me deixou muita alternativa, paguei e saí do carro. Ele foi embora e eu fiquei na calçada, olhando o carro partir, praticamente em choque. Fazia anos que eu não via tanta insanidade condensada em apenas uma pessoa. Como disse um amigo meu, logo após ouvir essa história: “essas coisas só acontecem com você”.

Independente disso, deixo vocês com o Top 5 Filmes que devem fazer as pessoas se matarem (O Chamado não entra, é óbvio demais):

1. Todo Mundo em Pânico – isso inclui qualquer filme da série. E não precisa nem esperar o filme acabar, de tão ruim que é aquilo. Aliás, já dá para pensar em suicídio só vendo o trailer.

2. O Poderoso Chefão – Parte III – em qualquer cena na qual a Coppolinha aparece (e macula a trilogia).

3. Star Wars: Episódio I – Assista ao filme com uma pistola apontada para a cabeça, esperando o Jar Jar Binks entrar em cena.

4. Pokémon – Qualquer um dos 319 filmes. Já foram acusados de causar epilepsia mesmo, logo, provocar um suicídio seria uma evolução natural.

5. O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford – Esse não causa suicídio, mas morte natural. O filme é tão entediante que seu cérebro, aos poucos, vai desligando como auto-defesa.