Mostrando postagens com marcador Jornalismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jornalismo. Mostrar todas as postagens

29 de outubro de 2012

Tarde Demais Para Esquecer


Meus pais liam jornal de maneiras diferentes.

É uma das lembranças mais antigas que tenho.

Meu pai lia no sofá, sentado de pernas cruzadas e com o jornal aberto. Eu mal via meu pai: ele estava escondido atrás daquele papel cinza, cheio de textos e fotos em preto e branco.

Minha mãe, por outro lado, lia o jornal na mesa da cozinha, virando as páginas e lendo as notícias enquanto tomava café. Mas isso só nos dias da semana. Aos domingos, com mais tempo para ler, ela preferia se sentar no chão da sala, com o jornal aberto e espalhado sobre o tapete.

Eles liam de formas diferentes, cada um do seu modo, mas sempre o mesmo jornal.

O Jornal da Tarde.

Sempre foi o jornal lido na minha casa, desde que eu me conheço por gente. Era o Jornal da Tarde de segunda-feira aos sábados e, no domingo, o Estadão. Pesado, robusto. Eu, quando era criança, mal conseguia segurar direito o Estadão e sua infinidade de cadernos. Gostava mais do Jornal da Tarde. Era um jornal menor, mais de acordo com meu tamanho.

Curiosamente, o jornal não cresceu de tamanho, mas eu sim – o que me leva a pensar que talvez o jornal já fosse adulto quando eu o conheci.

Mas não posso negar que, enquanto eu crescia, o jornal se tornou parte importante da minha vida. Especialmente dois cadernos específicos: o de esportes e o Divirta-se, que era o nome do suplemento cultural.

Não sei por qual dos dois me apaixonei primeiro. Talvez tenha sido ao mesmo tempo, já que minha paixão por cinema e livros nasceu praticamente junto com a que sinto por futebol.

Eu devia ter uns oito ou nove anos. E me lembro da ansiedade com que eu pegava o jornal todas as manhãs nos dias seguintes aos jogos do meu time. Para mim, era quase tão importante quando o jogo em si – que provavelmente eu havia escutado no rádio, na noite anterior, quietinho no meu quarto. Passava um bom tempo lendo a matéria sobre o jogo, quais notas dadas davam cada jogador, as entrevistas...

Mas o meu tesouro mesmo era a ficha técnica da partida, sempre no final da matéria principal. Era um pequeno quadradinho com as escalações dos times, o local da partida, quem fez os gols, público pagante, renda e trio de arbitragem. Toda vez que eu via aquilo, me dava vontade de começar a recortar e guardar todos estes quadrados em um caderno ou uma pasta e montar a minha história do time.

Não sei se cheguei a fazer isso. E, se fiz, abandonei a ideia pouco depois, por qualquer motivo. Hoje eu me arrependo bastante de nunca ter levado o meu projeto infantil adiante, mas gosto bastante dessa memória.

Da mesma forma que eu gosto de me lembrar da seção com as resenhas dos filmes que seriam exibidos na televisão, assinadas pelo Rubens Ewald Filho. Lia todos os dias, de ponta a ponta. E, com isso, aprendia não apenas nomes de filmes, mas principalmente de atores e diretores. Meu amor pelo cinema é herdado do meu pai, mas ele só se manifestou de verdade quando eu comecei a ler sobre o assunto nas páginas do Jornal da Tarde. Pois foi lendo a coluna de Filmes na TV que comecei a descobrir as matérias maiores, com entrevistas e críticas sobre as grandes estreias que me interessavam. E, de lá, para as matérias sobre livros.

Anos depois disso eu passaria muito tempo escrevendo sobre cinema, escrevendo sobre o assunto. Mas nunca para o Jornal da Tarde.

Claro que, mesmo criança, eu ainda me encantava com algumas descobertas em outros cadernos, que hoje são momentos marcantes do jornal. De alguns, eu “escapei”, como a clássica manchete com o garoto chorando a derrota da Copa de 1982, pois na época eu morava em Manaus – e fico feliz pelos meus pais, pois acho que tudo o que eles não precisavam com aquela derrota era ver as lágrimas de outro menino que não o filho deles.

Mas, durante um bom período de tempo, eu e meu irmão corríamos todas as manhãs para abrir o jornal e ver o tamanho do nariz do Maluf. Foi na época que ele prometeu encontrar petróleo em São Paulo e, conforme nada acontecia, o Jornal da Tarde publicou um desenho do Maluf cujo nariz crescia a cada dia – algumas semanas depois, o nariz do Maluf já ocupava quase duas páginas inteiras, cortando os textos e empurrando fotografias para o lado.

E eu e meu irmão ríamos alto, e fazíamos adivinhações sobre o tamanho do nariz do Maluf no dia seguinte.

Conforme fui amadurecendo, comecei a me aventurar pelos outros cadernos. Política, economia, internacional. De todos estes, sempre tive uma queda pelas notícias de cidades. Na minha adolescência, algo que acontecia no meu bairro ou em algum lugar perto da minha casa me parecia mais real que uma notícia sobre a economia da Europa.

Além disso, o caderno de cidades sempre teve um gosto de crônica para mim. Normalmente, são histórias de pessoas comuns em situações incomuns. Pensando hoje, com dois livros de crônicas publicados, não vejo como eu não poderia me apaixonar por algo assim.

Devo muito a esse jornal. Seja por tudo o que ele me ensinou quando criança, quando eu o pescava da cesta de revistas da casa da minha mãe; seja por me fazer companhia quando eu, adolescente, voltava para casa quando o Sol estava nascendo e bêbado, recolhendo o jornal da garagem e o lendo em silêncio na cozinha, até o porre passar. E no dia seguinte eu relia tudo, pois não me lembrava de nada do que havia lido.

Mas devo muito principalmente ao caderno de esportes e ao Divirta-se, que foram dois dos melhores amigos que tive na vida. Nos últimos anos que morei com os meus pais, era sabido que eu não saía de casa sem folhear estes dois cadernos enquanto tomava café. E ao chegar tarde da noite, jantava sozinho lendo o caderno de esportes. As notícias já eram velhas, mas não me importava: eram as minhas notícias e eu ainda não havia lido.

Em dois dias, este jornal vai parar de circular. Em dois dias, eu vou perder a certeza de que sempre o Jornal da Tarde estava sempre ali na banca, ou na casa dos meus pais, me esperando. Dizem que é o progresso, que hoje será tudo online, e que não há espaço para jornais assim.

Talvez tenham razão.

Alias, provavelmente estão certos.

Então, o mínimo que eu posso fazer é deixar, neste blog, um pouco da história deste “antigo” jornal de papel. Afinal, a cidade pode ter perdido um excelente jornal, mas eu perdi um grande amigo.

Além do mais, dificilmente este blog existiria hoje se eu não tivesse crescido rodeado pelos jornais lidos que meus pais liam. Meu pai lia sentado no sofá, e minha mãe lia na mesa da cozinha ou no chão da sala.

Eu? Eu não faço ideia de como lia o jornal. Na sala, na cozinha, não lembro. Tentei me lembrar disso enquanto escrevia este texto, mas não consegui. Acho que eu não tenho uma posição preferida de ler jornal. Mas se você me perguntar qual jornal eu leio... Bem, isso eu sei responder.

Eu leio o Jornal da Tarde.

E vai demorar muito tempo até eu me acostumar com qualquer outra resposta.

6 de agosto de 2012

...And Justice for All. Ou Não.


Foi uma separação amigável. Ao menos, tecnicamente.

Depois de trabalhar dez anos na mesma empresa, arrumei as coisas da minha mesa e saí para não voltar mais. Isso aconteceu há mais de um ano (eu falei sobre isso aqui). Os motivos foram muitos, nenhum deles envolvendo meu desempenho ou comprometimento. Na verdade, o motivo básico foi dinheiro: eu havia me tornado um profissional caro demais para o que a empresa podia pagar naquele momento.

Assim, juntei minhas coisas e fui embora. A empresa ficou me devendo dinheiro, mas como eles não podiam me pagar tudo ali, na mesma hora, o “tecnicamente” que eu disse lá em cima entrou na equação.

Vou explicar melhor. A empresa quer me pagar, mas precisa que a dívida seja parcelada. Eu, do meu lado, quero receber de qualquer forma. Assim, foi fácil entrarmos num acordo. O problema é que o acordo, neste caso, não envolve somente a mim, ou a empresa. Fizemos o acordo no sindicato, mas, para que a dívida seja parcelada, é preciso uma audiência num fórum, com juiz, testemunhas... Aquela burocracia toda.

Bem, semana passada, me chamaram no sindicato para eu retirar a notificação da audiência.  Isso, como disse também lá em cima, mais de um ano depois que saí da empresa, o que mostra toda a velocidade e agilidade da nossa Justiça. Um ano e quatro meses, na verdade.

Ou seja, quando dizem que a justiça tarda, mas não falha, eu sou obrigado a concordar. Especialmente na parte do “tarda”. E hoje eu iria descobrir se a parte do “não falha” era verdade.

Pelo menos, era o que eu achava que iria acontecer, até as 10h05min.

Eu estava no carro, a caminho da audiência, acompanhado pelas minhas testemunhas, quando toca meu telefone. Atendi.

- Senhor Gordon, aqui é Beltrano do sindicato.

- Oi, Beltrano, tudo bom?

- O pessoal está à sua espera ali para a audiência.

- Sim, eu sei disso. Eu estou a caminho, com as minhas testemunhas.

- Ah, o senhor está a caminho?

- Isso, eu devo chegar lá daqui a uma meia hora.

- Mas a audiência do senhor é agora, às 10h10min.

- Não. Minha audiência está marcada para as 11h10min.

- Não, senhor. Ela foi marcada para as 10h10min.

- Sabe, Beltrano, por uma feliz coincidência, eu estou com o papel que vocês me entregaram na minha mão. Na verdade, estou olhando para ele agora. E tenho quase certeza de que isso aqui é um “1”, e não um zero. A audiência é às 11h10min. Confie em mim.

- No papel do senhor está 11h10min?

- Isso.

- Só um minuto. Eu já ligo para o senhor.

E desligou. Antes mesmo que eu pudesse entender melhor o que aconteceu, o telefone tocou novamente. Era o mesmo número.

- Oi.

- Senhor Rob?

- Isso.

- Eu preciso pedir desculpas para o senhor. A audiência é mesmo às 10h10min. O papel que o senhor recebeu teve um erro de digitação.

- Espere... Um erro de digitação? E só na minha cópia?

- Isso mesmo. Sinto muito.

- Saber que você sente muito não é exatamente o que eu preciso agora. Eu quero saber o que vai acontecer agora.

- Seu processo vai ser arquivado, e teremos que dar entrada novamente.

- Faz um ano que estou esperando esta audiência, e não vou poder ir porque vocês digitaram errado?

- Sinto muito. Se o senhor puder passar aqui amanhã...

- Vem cá, não tem como vocês explicarem ao juiz que o erro foi de vocês, que estou a caminho e fazer a audiência ser às 11h10min?

- Não, senhor. O processo vai ser arquivado.

- Certo. E provavelmente, eu terei que esperar mais um ano até isso se resolver.

- Bem, isso fica a cargo do juiz...

- E, provavelmente, o mundo acaba antes disso, em dezembro deste ano. Você deve ter ouvido falar isso.

- Bem, senhor.

- Esquece. Amanhã eu passo aí.

- Obrigado, senhor. Desculpe mais uma vez.

- Adeus.

E assim, eu e minhas testemunhas demos meia-volta e fomos tomar um café. Daqui a alguns meses, se o planeta não explodir e os mortos levantarem da sepultura, o que está programado para acontecer em 21 de dezembro (isso se o papel que recebi sobre o fim dos tempos não contém nenhum erro de digitação), eu volto a mexer neste assunto.

Até lá, tenho bastante tempo para refletir sobre minha vida profissional, sobre a dívida que a empresa tem comigo e, mais importante ainda, porque é sempre comigo.

Tenho tempo de sobra. Na verdade, como dizia Louis Armstrong, We have all the time in the world. Mesmo. Porque realmente “a justiça tarda”, como dizem por aí.

Mas o pior é que ela não apenas tarda. Ela tarda, tarda, tarda mais um pouco, tarda, toma um cafezinho, deixa alguns processos para segunda-feira, tarda, dá uma última enroladinha e quando você nem lembra mais que ela existe, ela finalmente chega.

E aí você descobre que ela não apenas tarda como fez merda e vai ter que começar tudo de novo.

Porque a justiça pode ser cega, mas, pelo que percebi, ela também é bem tapada.

9 de fevereiro de 2012

Uma Vida Entre as Estrelas


Eu não gostava de Jornada nas Estrelas quando era criança. Isso pode parecer estranho, eu sei. Hoje em dia, pessoas que não conheço pessoalmente me passam, via Twitter, links sobre a série ou demais títulos de ficção científica; e não é difícil algum amigo me ligar ou mandar um e-mail perguntando o nome de um personagem ou uma nave de determinado filme. Meu amor por Jornada nas Estrelas (ou ficção científica em geral) é identificado por todos.

Mas, acreditem: existiu um momento na minha vida em que eu não dava a mínima para o Capitão Kirk, para o Sr. Spock e muito menos para o Dr. McCoy, e nem fazia ideia de que existia uma nave espacial chamada Enterprise. E não estou falando que não gostava da série porque não a conhecia. Pelo contrário, ela fazia parte da minha rotina, já que minha família sempre foi apaixonada pelo seriado.

Contudo, quando eu tinha cerca de quatro ou cinco anos de idade, eu e meu irmão brigávamos todas as tardes à frente da TV por causa do seriado. Ele tinha dez anos e queria ver Jornada nas Estrelas; eu, do meu lado, queria ver desenhos animados. A solução do impasse foi dada pela minha mãe: cada dia seria a vez de um escolher o que assistir.

Comecei a me interessar por Jornada nas Estrelas somente anos mais tarde, talvez no começo da adolescência. Foi nesta época que a minha paixão pela ficção científica virou amor. Mas a paixão mesmo nascera anos antes, graças a outras naves e tripulantes.

Foi em 1983, quando a recém-criada Rede Manchete exibiu o filme Guerra nas Estrelas. A emissora anunciou a exibição como um verdadeiro evento, e, apesar de não saber os números de audiência, o evento de verdade ocorreu dentro da minha cabeça.

Eu me encantei imediatamente com as aventuras de Luke Skywalker e seus companheiros contra o temível Império Galáctico. Combates espaciais alucinantes, alienígenas misteriosos, um vilão ameaçador, androides, naves gigantescas, sabres de luz, um planeta com dois sóis...

Com quase oito anos de idade, me apaixonei imediatamente por aquilo tudo. Passei dias revendo o filme, que havia gravado com o primeiro videocassete da família. Pouco tempo depois, aluguei O Império Contra-Ataca e, meses depois, tive a felicidade de assistir, extasiado, a O Retorno de Jedi num velho cinema em Serra Negra, cidade onde passávamos finais de semanas e algumas temporadas de férias.

Foi a primeira vez que assisti a um filme de Guerra nas Estrelas nos cinemas.

Assim, em 1983, eu respirava Guerra nas Estrelas. Brincávamos disso na rua o tempo inteiro, discutindo quem seria Luke Skywalker ou Han Solo; eu colecionei – e completei – o álbum oficial do filme; em casa, assistia aos filmes ou passava horas no quarto, desenhando as naves e personagens em blocos de papel.

Mas, com O Retorno de Jedi, a saga havia se acabado. Ao menos por enquanto, era preciso viver de reprises, e elas não faltavam na minha casa, sozinho ou com amigos, em ocasiões nas quais discutíamos – às vezes, por horas – detalhes e mais detalhes daquele universo.

Foi aí que comecei a desenvolver meu autismo (um deles, ao menos) de saber de cor e salteado diálogos inteiros de cada um dos filmes, e de mergulhar a fundo no universo a ponto de conhecer o nome de modelos diferentes de naves e para que – e por quem – são utilizadas.

Contudo, sem novos filmes para assistir, comecei a buscar novas coisas do mesmo gênero. Mergulhei de cabeça na ficção científica e fantasia e, enquanto novos cavaleiros Jedi não apareciam, comecei a audaciosamente descobrir novas civilizações e explorar novos mundos.

Questionei a justiça da morte do androide Roy Batty; fugi pelos corredores apertados da Nostromo de um alienígena que sangrava ácido; assisti de perto ao supercomputador Hal 9000 enlouquecer; viajei no tempo diversas vezes, para proteger o futuro líder da humanidade ou para salvar o casamento dos meus pais. Enfrentei klingons, romulanos, borgs...

E chorei a morte de Spock. Chorei copiosamente, como quem perdia um amigo.

Tudo mudou em meados dos anos 90, com o lançamento no Brasil de Herdeiros do Império, livro que dava continuidade à saga na forma de uma nova trilogia. Li todos os volumes diversas vezes.

E, no meio disso, fui surpreendido pela notícia de que os filmes de Guerra nas Estrelas voltariam aos cinemas, em cópias novas. Para mim, foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida. Assisti a cada um pelo menos duas vezes nos cinemas, e, mesmo discordando de muitas das novas cenas, me encantei de novo como havia acontecido mais de uma década antes.

E tudo isso era apenas um preparativo para a nova trilogia.

Numa sexta-feira de 1999, entrei no cinema, ao lado de uma ex-namorada e do meu primo, para assistir a Episódio I. Era o dia da estreia. Ela questionou sobre o fato de eu vestir uma camiseta do Darth Vader por cima do casaco – estava muito frio – e eu respondi:

- Eu quero que as pessoas vejam que este filme é meu.

Não era egoísmo. Era paixão. Todo fã se apropria do alvo do seu amor e comigo não seria diferente.

Poucos meses depois, minha vida mudou radicalmente, quando comecei a escrever em uma revista especializada em ficção científica. Pela primeira vez em anos, eu podia passar o dia inteiro pensando sobre um meus assuntos preferidos. E as pessoas ainda me pagariam por isso!

Foi trabalhando que conversei pessoalmente com alguns dos meus maiores heróis, como o Alferes Pavel Chekov, o androide C-3PO e tremi ao tirar uma foto, rapidamente, ao lado do Tenente-Comandante Spock. Também foi a trabalho que conferi Episódio II – que considero a grande decepção da saga – e Episódio III, que assisti quase um mês antes da estreia, ocasião em que precisei fazer um esforço sobrenatural para me comportar no cinema, mesmo praticamente sozinho.

Agora a saga estava completa.

Agora eu havia me tornado adulto.

E, adulto, continuo apaixonado pelo que existe lá fora. A paixão pela ficção científica me levou para dentro de uma redação; lá, aprendi a escrever e criei o blog; hoje, vivo deste blog. É correto dizer que a paixão pelo gênero me trouxe até aqui hoje.

E não apenas profissionalmente, mas pessoalmente. Muito da minha personalidade se formou a partir dos três primeiros filmes.

Han Solo e Luke Skywalker são até hoje, dois grandes exemplos de vida, cada um ao seu modo; a Princesa Leia, com sua coragem e obstinação, permanece como um modelo de mulher ideal; Chewbacca e os androides me ensinaram muito sobre a lealdade; Vader mostrava continuamente que ninguém, absolutamente ninguém, está imune ao Mal – e, por outro lado, Yoda provava que a melhor maneira de evitar o Mal sempre esteve dentro de nós mesmos.

Hoje eu enxergo a Força como um exemplo de fé que sentimos a respeito de nós mesmos. Saber disso hoje, de uma forma pacífica, talvez mostre que eu deixei ser um padawan e me tornei um cavaleiro Jedi. E talvez mostre que, em certo momento, me tornarei um Mestre e transmitirei o meu conhecimento para algum aprendiz.

Afinal, tenho batalhas, vitórias e derrotas no meu passado, como qualquer herói de ficção científica. Como você também tem. Crescer significa apenas aprender a lidar com elas, por mais difícil que isso seja em alguns momentos. Contudo, “faça ou não faça. Não existe tentar”.

Hoje eu sou adulto, mas, com a estreia dos filmes – desta vez, em 3D – eu voltarei a ser criança, ao menos por algumas horas, nos próximos anos. Voltarei a acreditar em tudo o que acreditava quando era menino, certo de que o que eu vejo na tela é verdade.

Pois foi isso que fez eu me tornar o homem que sou hoje.

Que a Força esteja com vocês.

Rob.


Update: Assim que eu terminei este post, saí para a rua, com a sensação de que faltava algo. Quando eu cheguei à esquina de casa, já sabia o que era. Assim, volto aqui e deixo vocês com o Top 5 Coisas que Aprendi Assistindo a Star Wars:

1. Confie nos seus instintos. – Eles sempre estão certos. Sempre. E mesmo se você não entender direito – ou não quiser concordar com – o que eles dizem, tente ao menos escutá-los, porque eles estão corretos.

2. Faça ou não faça. Não existe tentar. – A questão aqui não é que “tentar” é errado. Afinal, é muito difícil ver a diferença entre tentar e fazer... Até fazermos de verdade.

3. O medo é o caminho para o Lado Negro. - O medo leva à raiva; a raiva leva ao ódio; o ódio leva ao sofrimento. Nada é mais matematicamente exato que isso.

4. Sempre em movimento está o futuro. – Por isso mesmo que devemos sempre manter um olho sobre ele, mas nunca em detrimento do presente.

5. Nunca jogue xadrez com um Wookie. Nunca. Nunca. Mesmo.

21 de novembro de 2011

Acusado de Homicídio, Escritor é Preso na Fronteira com Paraguai

Aparentemente, o caso do mouse morto por afogamento algumas semanas atrás, chegou a um desfecho. A tragédia aconteceu no dia 29 de outubro, na casa do escritor Rob Gordon, no bairro de Pinheiros. Poucos dias após o ocorrido, Gordon desapareceu sem deixar vestígios, o que aumentou ainda mais as suspeitas de homicídio.

Procurado pela polícia, o escritor teria suspostamente enviado uma carta à imprensa implorando por clemência e alegando ser inocente. Contudo, o caso sofreu nova reviravolta quando evidências encontradas no local do crime indicavam que o cão Besta-Fera, principal testemunha do caso, havia elaborado o documento em nome do escritor.

Mesmo assim, as buscas por Gordon não cessaram. A Polícia Federal, suspeitando de que ele pudesse deixar o país disfarçado, passou a vigiar as fronteiras e aeroportos em busca do suspeito. A investigação rendeu frutos na noite deste domingo, quando, após uma denúncia anônima, Gordon foi encontrado tentando atravessar a fronteira com o Paraguai usando uma peruca e disfarçado de vendedor de artesanato.

Após ser arrastado pela delegacia ao som de “yo no soy Gordon, porra!”, o escritor foi levado a uma delegacia e autuado. Agora, ele aguarda o momento de ser transferido para São Paulo, onde deverá ser julgado por homicídio.

Gordon ri, demonstrando
seu descaso pela justiça.

À porta da delegacia, centenas de mouses e outros periféricos de computadores – muitos oriundos do Paraguai – protestam por justiça e prometem linchar o escritor na primeira oportunidade.

Procurado pela reportagem para comentar o caso, Besta-Fera não foi localizado.

6 de novembro de 2011

Reviravoltas no Caso do Mouse Afogado

Neste final de semana, o caso envolvendo a misteriosa morte de um mouse em Pinheiros sofreu novas reviravoltas. As novidades surgiram por conta da presença de membros da perícia no apartamento de Rob Gordon, escritor paulistano acusado de participar da morte do pequeno periférico, afogado após cair em um balde de água suja.

Durante a semana, Gordon teria supostamente enviado uma carta aos jornais, confeccionada com recortes de revistas e assinadas com seu próprio nome – o que caracterizaria uma das ações mais estúpidas nos anais do crime. No dia seguinte, o canino Besta-Fera, uma das testemunhas-chave do caso, publicou um anúncio produzido nos mesmos moldes e ofendendo o escritor.

Membros da polícia suspeitavam da veracidade da carta de Gordon, e esta desconfiança ganhou ares de verdade na tarde de ontem. Ao investigarem o local da morte, foi descoberta uma tesoura velha e em estado avançado de deterioração, que seria de propriedade de Besta-Fera. O objeto pode ter sido usado para a elaboração da carta de Gordon enviada aos jornais. A possibilidade de ter sido utilizada na confecção do anúncio resposta foi descartada, já que a peça foi produzida por uma pequena agência de publicidade contratada pelo pequeno animal.

A tesoura encontrada pela polícia (foto: Reuters)

Questionado sobre o assunto, Fera afirmou que a tesoura é realmente sua, mas a usa somente para fins estéticos. “Sou obrigado a tosar meus próprios pelos, pois Gordon se recusa a me levar a um pet shop”, informou. Além disso, ele declarou que isso é apenas uma amostra do regime de escravidão que é forçado a aceitar, se alimentando somente de sacos de pão e morando em uma caixa de papelão na varanda. Contudo, nenhuma evidência disso foi encontrada no local.

A tesoura foi apreendida pela polícia, que espera ligar o objeto à carta publicada nos jornais. Gordon permanece desaparecido, e a polícia promete apertar o certo nos próximos dias. “Temos fontes confiáveis alegando que ele está andando disfarçado e com identidade falsa”, alegou uma fonte policial.

3 de novembro de 2011

Escritor Foragido Envia Comunicado à Imprensa

Ontem, 2 de novembro, surgiram novas informações sobre o caso do mouse morto por afogamento no bairro de Pinheiros, na cidade de São Paulo. Apontado como principal suspeito do crime, o escritor Rob Gordon desapareceu sem deixar vestígios, dando início a uma caçada envolvendo não apenas a polícia como autoridades internacionais, visto que a possibilidade do suspeito ter deixado o país não foi totalmente descartada.

Entretanto, ontem o acusado enviou uma carta aos jornais de diversas capitais do país, alegando inocência e que seu único desejo é retornar ao lar. A polícia ainda analisa a carta, tentando detectar seu local de origem, mas até o momento nenhuma informação oficial sobre a investigação do documento foi divulgada.



Independente disso, hoje, dia 3 de novembro, um anúncio em resposta ao comunicado de Gordon foi publicado em diversos jornais, com o mesmo formato e uma curta mensagem, endereçada ao escritor.

O anúncio foi publicado por Besta-Fera, uma das principais testemunhas do caso, que, alegando agir em nome da justiça, tem auxiliado a polícia de forma intensa nas investigações.


Diferente da carta enviada por Rob Gordon, o comunicado de Besta-Fera foi um anúncio pago, de acordo com o cão. "Usei parte da quantia que o Rob estava guardando para comprar jogos de PlayStation, já que dificilmente este dinheiro será usado desta forma agora", afirma. Ainda em conversa com a reportagem, o cão informou que doará o resto das economias de Gordon para uma Ong que cuida de mouses inválidos. "É hora do país abrir os olhos para este problema, e o primeiro passo para isso será fazermos de Gordon um exemplo contra a impunidade", anunciou Fera.

Enquanto isso, as investigações continuam. E, apesar de divulgar retratos falados de Gordon em diversos aeroportos, a polícia pede atenção ao fato de que o escritor possa tentar deixar o país disfarçado e sob identidade falsa.

31 de outubro de 2011

Escritor Suspeito de Crime Desaparece em Pinheiros

A morte de um jovem mouse no bairro de Pinheiros, na capital paulista (relembre o caso aqui), continua causando polêmica entre a opinião pública e as autoridades. Durante todo o domingo, a polícia colheu depoimentos de diversas testemunhas da tragédia, tentando elucidar as verdadeiras causas do falecimento do pequeno aparelho, o que levou à expedição do mandado de prisão para Rob Gordon, acusado de homicídio culposo.

Gordon, antigo proprietário do mouse, foi, justamente, o primeiro a depor na delegacia. Ao deixar o local, declarou a imprensa não ter culpa do ocorrido e estar muito abalado com o fato. “Era o mouse que eu usava no meu dia a dia, e [ele] não deixou absolutamente nada como herança. Como as pessoas estão pensando que eu fiz isso?”, comentou com os jornalistas. Antes de deixar o local, porém, diversas testemunhas afirmaram ter ouvido o suspeito resmungando “isso é coisa daquele cachorro, eu vou matar aquele filho da puta”.

Gordon referia-se ao seu cachorro, Besta-Fera, canino da raça West Highland White Terrier. Por volta das 16h00min de ontem, Besta-Fera chegou à delegacia, deixando o local somente pouco antes da meia noite. Fontes policiais indicam que a testemunha considerou Rob Gordon totalmente culpado pelo crime e acrescentou que o escritor ainda manteria um antigo aparelho de som aprisionado em seu guarda-roupa, o que pode lhe render também acusação de cárcere privado e maus-tratos.

Esta manhã, a polícia cercou o prédio em Pinheiros onde o escritor mora, mas ele não foi encontrado. Os funcionários do prédio afirmam que ele saiu de madrugada, rapidamente, com malas. “Se vocês acharem ele, é um carequinha, bem careca e bem baixinho, avisa a ele que tem uma carta da Tim aqui na portaria pra ele pegar”, exclamou um dos porteiros do edifício.

Mas a busca no apartamento do escritor não foi totalmente infrutífera. De acordo com nota oficial da polícia, realmente havia um aparelho de som sendo mantido como escravo (funcionando como apoio para livros) dentro de um dos armários, o que corrobora o depoimento de Besta-Fera.

Desta forma, Gordon passa a ser considerado como fugitivo da lei, e diversas fotografias suas estão sendo enviadas para a imprensa e para os aeroportos, contando com o apoio das autoridades internacionais. A polícia oferece recompensa por informações a respeito de seu paradeiro – e diversos aparelhos eletrônicos da casa de Gordon declararam estar organizando uma vaquinha para contratarem um detetive particular e um assassino profissional.


29 de outubro de 2011

Autoridades investigam afogamento de mouse em Pinheiros

Uma tragédia se abateu sobre um pequeno apartamento no bairro de Pinheiros, na capital paulistana, nesta sexta-feira, 28 de outubro, culminando no falecimento de um pequeno mouse Logitech, de apenas sete meses de idade. Após se afogar em um balde, o pequeno aparelho não resistiu ao incidente e acabou perdendo a vida antes mesmo de ser transportado ao hospital.

O blogueiro e escritor Rob Gordon, proprietário do falecido aparelho, permanecia inconsolável enquanto conversava com a reportagem do Champ Vinyl. “Eu não sei ao certo como tudo aconteceu, foi tudo muito rápido”, exclamou Gordon, 36 anos.

De acordo com ele, uma extensa faxina estava sendo realizada no apartamento no dia, e um balde com água estava depositado próximo ao sofá onde o mouse repousava ao lado do notebook. Em determinado momento do dia, Gordon foi checar seus e-mails e, ao se sentar no sofá, atrapalhou-se com o fio e o mouse acabou escorregando para dentro do balde. “Eu tentei resgatá-lo imediatamente, mas a água estava muito suja e tive dificuldades em encontrá-lo”, lamenta o escritor.

Uma testemunha ocular do acontecimento, o pequeno cão Besta-Fera, de aproximadamente seis anos, afirma que o ocorrido foi uma espécie de crônica de uma morte anunciada. “Ele parecia um imbecil com este mouse”, explica o pequeno cachorro da raça Westie. De acordo com o animal, sempre que Gordon se levantava do sofá, acabava se enroscando no fio do mouse, derrubando o pequeno aparelho ao chão.

Para as autoridades locais, isso caracteriza um descaso de Gordon com o aparelho. Ainda de acordo com Fera, 5, o escritor chegou até mesmo a colocar sua própria vida em risco. “Diversas vezes vi Gordon deitado no chão da sala, com suas pernas enroscadas no cabo do mouse. Em outra ocasião, ele quase se enforcou com o cabo ao levantar para atender ao telefone”, finaliza.

O depoimento de Fera será colhido pela polícia, e poderá resultar na acusação de homicídio doloso para Gordon. Ao ser questionado sobre o tema, durante o funeral do pequeno finado, o blogueiro não quis se manifestar sobre o assunto – mas, ao se afastar apressadamente, a reportagem pôde ouvi-lo resmungando a expressão “ô fase”.

De acordo com um eletrodoméstico da casa do escritor, ainda neste final de semana, diversos aparelhos da casa de Gordon realizarão uma pequena manifestação para exigir mais segurança no local, o que pode prejudicar ainda mais a situação do escritor. “Ele é praticamente um imbecil. Se deseja se matar, que o faça sozinho”, explicou o aparelho, que não quis se identificar.

23 de maio de 2011

Encontros

Algumas coisas estão começando a acontecer para o meu blog. E uma delas rolou semana passada, quando recebi um release – aqui no e-mail do blog – sobre o festival de música Natura Nós, convidando este que vos escreve e um (a) acompanhante. Poucos dias depois, tocou meu telefone.

– Alô.

– Rob?

Meu impulso foi dizer que “não, não tem ninguém com este nome” e desligar. Sim, por mais que eu assine meus textos com este nome há anos, eu ainda não me acostumei com o “Rob” como palavra falada. Mas aí eu parei e pensei: “Você tem um blog e ele é escrito pelo Rob Gordon, lembra? Logo, você é o Rob.”

Ainda bem que a pessoa do outro lado do fone aguardou pacientemente eu resolver meu problema mental. Assim, continuei conversando com ele sobre o evento, pegando mais informações, combinando o local de encontro...

E, mais importante: identificar a proposta do evento. É engraçado: eu acredito que aprendi a escrever dentro de uma redação; contudo, na primeira oportunidade que tive em “trabalhar” com o blog, foi o meu instinto de jornalista que prevaleceu. Fiquei um pouco apreensivo – nunca havia sido chamado para uma “pauta” pelo blog, mas logo isso passou. Tratei o tema como se fosse uma matéria comum. Quanto à abordagem do texto? Depois eu pensaria nisso.

Assim, no final da tarde, cheguei, junto com a Srta. Acompanhante, ao show. Ou melhor, “aos” show. O Natura Nós, para quem não conhece – e eu não conhecia – é um festival de música com dois palcos e diversos artistas: alguns alternativos; outros (bem) mais badalados.

Assim, os grandes nomes desta edição eram Maria Gadú, Roberta Sá, Laura Marling, Jamie Cullum e Jack Johnson (no sábado); domingo, as principais atrações eram Palavra Cantada e Toquinho.

Logo na entrada, fui avisando o meu contato.

– Antes de começarmos a brincar, você precisa saber que a coisa mais leve que ouço, atualmente, é Alice Cooper.

Ele deu risada.

– Você vai gostar. Não se preocupe. Aqui, vamos além da música.

Levantei a sobrancelha, desconfiado. Não seria a primeira vez que alguém de um departamento de marketing ou comunicação teria me prometido algo assim, em vão. Mesmo assim, dei um voto de confiança e fui em frente.

A Área Vip estava já estava cheia quando entrei – graças ao trânsito de São Paulo, que vai além da música, do bom senso e do suportável, consegui chegar somente na metade do festival, num breve intervalo entre alguns shows. E aproveitei para explorar a Área Vip, algo que nunca havia feito sem um crachá de “imprensa” pendurado no pescoço.

Poucas vezes vi um espaço tão bem montado em termos de exposição da marca – e olhe que tenho dez anos de eventos (maiores e menores) deste tipo nas costas. A marca Natura estava exposta em todos os cantos do local, mas nunca de forma ofensiva ou exagerada. Em momento algum você se sentia “invadido” ou “comprado”, somente discretamente (quase elegantemente) cercado pelo nome da empresa.


A Área Vip - ou parte dela.

Mas, claro que, por ser um convidado – o que tornava um pouco diferente das outras pessoas que estavam ali, boa parte delas que havia comprado ingressos para a Pista Premium, ao qual eu tinha acesso, vale citar – tive certas regalias, em especial mimos oferecidos pela Natura. Mas daqui a pouco eu volto a falar sobre isso, quero falar um pouco da minha experiência na Área Vip.

Para mim, é uma novidade estar numa área destas, ainda mais num show assim. Já estive em áreas Vip de eventos relacionados a cinema, mas nunca em um show, ainda mais de músicas que não fazem parte do meu cotidiano. Assim, ao invés de encontrar pessoas vestidas de preto da cabeça aos pés, encontrei pessoas de outras tribos: desde o público que certamente passou horas se arrumando, em casa, para ir ao evento, até espectadores “comuns”, que estavam lá para curtir seus artistas preferidos.


No meio disso, uma pessoa xingava furiosamente seu celular, que se recusava a acessar o Twitter ou, na maior parte das vezes, a fazer ligações para outras pessoas. Evidentemente, era eu.

Mas logo o problema se resolveu e meu celular voltou ao normal, a tempo de conferir o show de Jamie Cullum, um dos que mais me interessava em toda a programação.

De todos os artistas da noite, ele era o que eu estava mais familiarizado. E, caminhando pela pista Premium, cheguei a poucos metros do palco, de onde assisti o que talvez tenha sido o “meu” momento musical da noite: sua versão de I Got a Woman, de Ray Charles, com o jovem britânico dançando e tocando piano ao mesmo tempo, acompanhado de sua banda.

Ao final do show, fomos investigar o segundo palco (as atrações principais aconteciam no Palco Verde; os secundários, no Azul), onde também conhecemos o Espaço Criativo, que reunia lojas de artesanatos, roupas e acessórios (chapéus, roupas, bolsas, maquiagem) que estavam disputando com os shows a atenção do público feminino presente, praticamente palmo a palmo.

Agora, antes de voltarmos ao Palco Verde, onde Jack Johnson encerraria a noite, hora de falar da Natura. Como eu disse, já havia recebido alguns mimos da Natura – daqueles que fazem a alegria das convidadas mulheres ou das namoradas de convidados homens – mas isso sempre faz parte do processo. Mas o interessante é que os produtos foram entregues numa sacola de pano (sustentabilidade é um dos lemas do festival), pequena (discrição é um dos lemas deste blogueiro) e fácil de carregar.

E, pouco antes do Jack Johnson entrar no palco, foi a hora de conhecer o projeto Natura Musical. Guiado por um representante da empresa, fui apresentando a todo o conceito por trás do evento em si, que promove a música como cultura e, mais importante ainda, como forma de encontro entre pessoas diferentes, de diversas partes do mundo. Basicamente, a música une as pessoas. E eu não preciso deixar de gostar de Slayer e passar a ouvir Jack Johnson para concordar com isso.

Evidentemente, existem espaços para as mulheres experimentarem os novos produtos da Natura – sobretudo das linhas mais sofisticadas – porque o evento é todo patrocinado pela marca (e, realmente, em alguns momentos você chega a esquecer isso). Mas o projeto cultural, que está em seu sexto ano (eu não sabia disso) vai além e patrocina desde CDs de novos artistas a turnês de nomes consagrados, além de realizar projetos que resgatam e mantém viva a história da música brasileira. E da música mundial, o que intensifica ainda mais o conceito de encontro.

Mais alguns mimos recebidos e hora de partir para casa. Jack Johnson ainda estava no palco, fazendo as mulheres gritarem a cada vez que sorria no telão, quase como um Bon Jovi do Havaí.


No Natura Nós, o mundo é,
antes de tudo, verde.


Mas, antes da saída, ainda houve tempo para colocar em prática na pele a filosofia de encontros. Encontrei, em momentos distintos, duas pessoas que já atuaram (por empresas diferentes) no mercado em que atuei durante antes. Abraços, beijos e “como você está?”, “o que está fazendo da vida?” além de um elogio, daqueles superlativos, que me deixou extremamente sem graça por ter me pegado tão desprevenido.

Imediatamente, meus olhos fugiram dos olhos da minha acompanhante e rezei baixinho para alguns dos produtos oferecidos pela Natura ter a capacidade de disfarçar meu rosto corado. Porém, imediatamente me lembrei de que jamais aplicaria aquele produto ali e fiz uma nota mental para responder apenas “é o frio” ao primeiro sinal de “você ficou vermelho com o que ele disse?”.

Fiquei. Mas fiquei feliz e orgulhoso.

Porque talvez seja esta a graça dos tais encontros promovidos pela música. Você encontra não apenas pessoas que não esperava ver (ou rever), mas também acaba encontrando, com a música, um pouco mais de você, um pouco mais do seu passado e – por que não? – do seu futuro.

E eu, apaixonado por música há mais de vinte anos, jamais imaginei que seria uma empresa de cosméticos que me faria pensar nisso tão a fundo. Obrigado, Natura. Não pelos brindes ou pelo conforto, mas sim por ter cumprido sua promessa e ter ido, realmente, muito além da música.


Nota 1 - As fotos foram tiradas com meu celular. Apesar da fraca qualidade delas, decidi publicá-las para aumentar a MINHA experiência no local. Para quem desejar, o site do Natura Musical (linkado no texto) conta com um Flickr com dezenas e dezenas de imagens profissionais.

Nota 2 - Por motivos éticos, nunca publiquei fotos dos brindes, acho desnecessário. Desta vez, porém, eu teria feito isso sem problemas, caso meu blog fosse voltado à maquiagem e beleza (algo que o meu barbear na terceira foto deixa claro que não é o caso).



2 de abril de 2011

Até o Fim

Apaguei a luz e, como de costume, não fui até a porta. Pelo contrário, voltei até a mesa e esperei meu computador desligar. Sempre fazia isso, com receio de ele inventar uma daquelas atualizações do Windows. E, parado ali, em pé, olhei ao meu redor.

Com exceção da minha mesa, todas as outras estavam vazias, desmontadas e fora de lugar. Ao meu lado, uma estante que antes ia do chão ao teto havia se transformado em um punhado de tábuas soltas, empilhadas num canto. E caixas e mais caixas de papelão se espalhavam pelo local. Algumas isoladas, outras empilhadas.

Mas, mesmo com a enorme bagunça, eu ainda reconhecia aquele ambiente inteiro como meu. Ou, ao menos, como “parte da minha vida”. Foram mais de oito anos ali dentro. Tempo suficiente para eu, conseguir andar por ali com as luzes apagadas antes de ir embora, como fiz muitas outras noites, sem esbarrar em absolutamente nada. Sabia a posição de cada mesa, o lugar de cada cabo no chão. Conhecia cada mancha no carpete, cada papel da enorme pilha sobre a minha mesa.

E, claro, cada texto de cada uma das dezenas de revistas que, até a tarde daquele dia, se espalhavam pela sala. Bastava eu folhear qualquer uma delas e me lembrar de como cada matéria havia nascido. Todas elas haviam passado, por algum momento, pelo pequeno e valente computador da minha mesa. Muitas foram redigidas ali, outras apenas revisadas. Algumas foram fáceis, outras atrasaram; algumas ficaram horríveis, enquanto outras eram das melhores coisas que eu tinha lido na vida.

E agora o computador, tão cansado quanto eu, desligava, pela última vez.

Oito anos. Um pouco mais. A primeira vez que entrei ali era um moleque – a pessoa que você era dez anos antes de qualquer idade que você tenha sempre será um moleque – e saí um homem. Aprendi, cresci, conquistei. Foi fácil? Não, foi difícil. Mas me orgulho de nunca ter fugido. E me orgulho de ter feito o melhor que pude, seguindo regras e descobrindo quais regras estavam ali para ser quebradas.

Por que algumas delas estão ali justamente para isso.

No final do ano passado, por exemplo, meu antigo estagiário estava com problemas para conseguir o preço dos produtos de uma marca caríssima. Não importa agora o que nem qual marca. Ele ligava e a assessora respondia que não podia informar o preço. E ele insistindo, tentando convencê-la de todas as formas. E eu precisava do preço do produto para fechar a revista. Meu prazo de horas se tornou “minutos”. Até que eu pedi para ele parar de perder tempo no telefone e que descobrisse o telefone de uma das lojas da empresa.

Com o fone em mãos, liguei para a loja e fiquei cinco minutos batendo papo com a vendedora, antes de explicar qual tipo de produto eu estava procurando; expliquei que era presente para uns clientes estrangeiros que estavam no Brasil para fechar negócios comigo. Fui bem atendido, e ela me informou todos os preços. Antes de desligar, agradeci a ajuda e me comprometi a passar lá mais tarde, ou que mandaria minha secretária com a relação do que comprar. Desliguei o telefone e disse ao meu estagiário:

– O modelo X custa tanto, e o Y custa tanto, coloca na matéria. E mais uma coisa.

– Sim?

– Não comente com nenhum professor da sua faculdade que eu fiz isso.

A assessoria recebeu a revista semanas depois, e nunca reclamou que os preços entraram. Se bobear, ela nem viu a matéria direito.

Ou seja, existiam regras e regras. E não foi fácil aprender isso, apanhei muito para ter esse jogo de cintura.

Mas sempre estive preparado para assumir a responsabilidade em qualquer problema causado por uma regra quebrada. Eu jamais permitiria que meu estagiário ou qualquer outra pessoa do meu departamento fizesse isso sem meu consentimento. Se desse merda e a assessoria ligasse soltando os cachorros, a decisão teria sido minha.

A responsabilidade era minha, porque, com grandes poderes existem grandes responsabilidades. E, ao longo de cinco destes oito anos, eu tive o poder de tomar decisões, mas com isso recebi também a responsabilidade de assumir todas elas em seu nome. Nos últimos cinco anos, me tornei chefe de redação, o que era uma espécie de “filho do meio”. Eu continuava empregado e subordinado diretamente ao meu chefe, mas comandava um departamento inteiro.

E se você acha o seu chefe filho da puta – e talvez ele seja, porque é uma atribuição inerente ao cargo – saiba que ser chefe é algo solitário demais. Como chefe, você ouve todos, mas a decisão final é sua. E você não pode errar. E muitas vezes a decisão precisa ser tomada em segundos, sem poder pensar. Então, decore isso: a maior prova de confiança que você pode receber do seu chefe é quando ele pede especificamente sua opinião sobre um assunto. Foi como chefe que aprendi que o segredo não é saber bater, é saber cair – e isso não vale para trabalho, vale para a vida inteira. Parece frase de biscoitinho da sorte, mas é verdade.

Mas acho que o meu maior poder era o foco. Nunca perdi de vista que a minha grande responsabilidade era colocar a revista na gráfica no dia X. Esta era a minha meta profissional todos os meses. Quando algum amigo meu perguntava exatamente o que eu fazia, eu sempre respondia que “faço a revista ficar pronta no prazo.” Quase sempre consegui. Nunca consegui isso sozinho, mas quase sempre consegui.

Nestes oito anos e mais de cem revistas, talvez um punhado delas tenha entrado em gráfica um dia depois do “dia X”, porque nem sempre as coisas saem como esperado. Mas eu sabia quais delas suportariam um dia de atraso sem grandes cicatrizes. Esta é outra coisa que aprendi nestes anos: não perca tempo acreditando que você irá acertar sempre, é mais útil saber onde a merda irá causar menos estrago e direcioná-la para lá.

Também fiz amigos e inimigos (felizmente, muito mais amigos que inimigos). Se você é assessor de imprensa e recebeu, em algum momento, um e-mail meu pedindo material com um “Cadê minhas fotos, seu veado?”, saiba que você certamente entra no grupo de (grandes) amigos. E acho que era recíproco. Mais de uma vez, assessores de imprensa, funcionários de departamento de marketing, me ligaram pedindo conselhos ou buscando alguém com quem desabafar. Mas briguei com algumas pessoas, de colaboradores a assessores de imprensa. Faz parte.

Mas, se não quase nunca errei com essas pessoas, errei com as revistas. Mais de uma vez. Normalmente, eu estava em casa no final de semana, com a revista na gráfica, e me lembrava de algo que havia esquecido, ou que iria sair errado. Em algumas das vezes, dormi mal e preocupado, me odiando e com medo das conseqüências.

E foi aí que eu aprendi que a melhor saída era, no dia seguinte, entrar na sala do meu chefe e dizer que “fiz uma cagada enorme, vai sair uma coisa errada na revista, me desculpe”. Com o tempo, percebi que eu dava mais valor aos meus erros do que eles realmente tinham. Que, as vezes, a “cagada enorme” era apenas “cagada”. Mas isso eu nunca mudei. Sempre tive medo de errar. Ou melhor, sempre tive vontade de acertar. Isso não vai mudar nunca.

E se consegui isso com a ajuda de muita gente, consegui também porque aprendi – por pura necessidade – a fazer três ou quatro coisas ao mesmo tempo, e desenvolvi a habilidade de trabalhar horas e horas a fio madrugada adentro (às vezes acompanhado, muitas vezes sozinho). Não há outra maneira se você precisa fazer duas ou três revistas ao mesmo tempo e ainda quer ter uma vida.

Amigos meus me chamavam de herói, e muitos me perguntavam “como você consegue trabalhar tanto?”. Eu dava sempre a mesma resposta:

– O segredo é não pensar a respeito.

Porque no momento que você percebe que está trabalhando há doze, quinze horas seguidas, você se cansa e não consegue mais fazer nada. O segredo era ir fazendo. Não era difícil as pessoas me verem online ou no Twitter de madrugada, sabendo que eu estava na redação. Não era difícil as pessoas me ligarem durante o dia e eu responder apenas que “não posso falar agora, desculpe”. Se você é uma dessas pessoas, desculpe mais uma vez. Eu realmente não podia falar.

E eu sempre fui assim, desde antes de ser chefe. Não era questão de dar exemplo, pelo contrário. Da mesma forma que eu me orgulho de (antes de ser chefe) ter passado 36 horas direto dentro da redação, e com febre, saindo apenas de manhã para entrevistar um travesti francês (sim, um travesti francês) que estava no Brasil lançando um filme, me orgulho também de nunca um funcionário meu ter precisado passar a noite na empresa depois que virei chefe. Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades. Lá dentro, as minhas eram com as revistas, mas com eles também.

Mas o tempo passa. E, como eu sempre falo, o problema não é a idade, mas sim a quilometragem. E a minha começou a ficar alta. Se, por um lado isso me deu a experiência de aprender alguns atalhos que facilitavam meu mês, por outro – somado a preocupações e problemas que ficavam fora da pilha de papéis da mesa – começaram a cobrar seu preço. Isso, claro, sem contar com o cansaço acumulado de praticamente oito anos sem férias (somente os eventuais quinze dias no final do ano).

Os mais próximos de mim sabem que foi difícil. Eu não deixava transparecer nada lá dentro da empresa, mas, não era difícil eu subir a Teodoro Sampaio as 2 e pouco da manhã com nó na garganta. Nó na garganta de cansaço. Entrava em casa, sentava no sofá e chorava cinco, dez minutos. Chorava de cansaço, de exaustão, de não ver mais propósito em nada. Isso foi muito freqüente durante o último ano. Nunca culpei ninguém.

Muita gente fala que eu sou talentoso e que sou um ótimo profissional. Talvez esse seja o preço a ser pago.

Mas, agora, acabou. Sem briga, sem estresse. Acabou porque algumas coisas na vida apenas acabam. A empresa precisou passar por uma reestruturação. Acontece. Esta sexta-feira foi meu último dia. E, como de costume, fui o último a sair de lá – eu jamais deixaria minha mesa com uma revista não finalizada – por volta das 11 e meia da noite, sem conseguir manter os olhos abertos por causa de uma enxaqueca.

E, quando meu PC finalmente desligou, eu percebi que jamais o ligaria novamente. Que oito anos da minha vida foram debruçados sobre aquele teclado – foi ali que criei o blog, uma quinta feira antes do almoço; foi ali que escrevi boa parte do meu livro, entre uma matéria e outra. Quando o PC desligou e a redação ficou totalmente escura, oito anos da minha vida se encerraram.

E eu não tinha ideia do que ia fazer da vida. Ainda não tenho. Tudo é muito recente. Sei que vou sentir falta. Vou sentir falta demais da correria, da adrenalina. A revista era quase uma filha minha – eu era pai (mais de uma vez) todos os meses. A grana está curta? Bastante. Mas novas estradas devem surgir. Novos caminhos sempre surgem.

Fiquei ali, em pé, no escuro, por quase dois minutos. Imóvel. Até que hora de dar adeus. Gentilmente, passei o dedo pelo meu teclado e disse baixinho:

– Obrigado. Por tudo.

Tranquei a porta pela última vez. Saí do prédio e fui jantar.


13 de julho de 2010

Fim do Dia

Tchau, até amanhã. Sim, estou indo. É... Fiquei até mais tarde hoje. Para o senhor também, até logo. Pelo menos não preciso esperar o elevador. Acho que essa é a única vantagem de ir embora de madrugada. Impressionante, essa catraca com as digitais nunca funciona. Pronto. Vai, abre logo esse portão, quero ir embora. Toda noite é esse inferno. Finalmente. Porra, não acredito que está chovendo. Não poderia ter começado a chover depois que eu entrasse em casa? Agora, não estou mais morto, estou morto e molhado. Mas pelo menos terminei tudo o que precisava. Amanhã, preciso apenas esperar voltar da revisão para mandar diagramar, aí posso começar a outra revista. Merda. Queria ter começado essa revista hoje. Porque no final vai faltar um dia, quer apostar? Sempre falta um dia. Aliás, eu tinha algo importante amanhã... Não consigo me lembrar o que era. Merda, essa loja de conveniência já fechou. Queria comprar algo para beliscar no caminho. Mas não vou passar no mercado, estou cansado demais. Quero só ir para minha casa. Puta que pariu, o que eu tenho amanhã? Não é dentista, ficou para sexta. Terapia? Não. Aluguel? Caralho, que dia é hoje? 13? 13. Porra, a chuva apertou. Não, não é o aluguel. Ah, lembrei, amanhã é o dia que eu entrego os textos. Bom, já estão entregues, graças a Deus. Mais um mês vencido. Estranho ver a Teodoro vazia assim. Não é assustadora é... Sei lá, solitária. Com essa chuva caindo, então, mais ainda. Mas, também, madrugada de segunda feira. Ninguém está na rua. Só eu. Queria estar em casa. Não, queria estar com ela. Ingrato demais isso. Ingrato demais trabalhar até esse horário. Juro que vou mudar isso. Preciso mudar isso. Engraçado, aquela janela desse prédio está sempre acesa. Sempre. Vai, cara, vai logo, você está dentro do carro, eu estou a pé na chuva, anda com essa merda ou me deixe atravessar. Ih caralho, e esse cara vindo na minha direção? Só falta eu ser assaltado agora. Bom, ele vai se fuder, porque eu não tenho nada. Quer dizer, eu que vou me fuder. Ele está chegando perto, não vou nem olhar. Não era nada. E se eu olhar para trás e ele estiver me olhando? Foda-se, vou continuar andando. Mas sim, preciso dar um jeito nisso. E descansar um pouco. Mas eu estou, juro que estou. Juro que estou fazendo o melhor de mim. Espere, se estamos no dia 13, O Blu-ray do Senhor dos Anéis sai essa semana. Mas não, não vou comprar agora. Quero guardar dinheiro. Preciso guardar dinheiro. Merda de chuva. Merda de cansaço, não estou conseguindo nem pensar direito. Será que isso rende post? Eu andando pela Teodoro sem conseguir pensar direito? Aliás, tem tanta coisa que eu quero postar ali... Mas está faltando tempo. Não. Está faltando tesão, estou desanimado demais. Deve ser cansaço. É muito problema, muita conta para pagar, muita briga, todo dia. Quando eu era criança, meu pai falava isso. Matar um leão por dia. Eu achava graça. Pior que é isso mesmo, um leão por dia, em alguns dias dois. Todos os dias. Vai sinal do caralho, fecha. Decisões, problemas, porradas. E para quê? Será que vale a pena? Sei lá, se eu tivesse ao menos uma pista de que eu estou no caminho certo, de que estou fazendo as coisas de forma certa. Porque eu tento. Eu juro que eu tento acertar o tempo inteiro, mas, às vezes parece que não é o bastante. Vontade de escrever no blog. Desabafar algo ali. Mas nem sei o que preciso desabafar. Ou o que quero desabafar. Coitada da minha psicóloga. Tenho pena dela às vezes. Mal sei o que há de errado comigo, ou com a minha vida... Não. Chega. Nem começa com isso. São quase duas da manhã, você não tem que se cobrar. Não agora. Descansa um pouco a cabeça. Merda de chuva. Descansa um pouco a cabeça, você merece. Ou, se não merece, precisa. Não merece. “Merecer não tem nada a ver com isso”. Imperdoáveis. Preciso rever esse filme. Caralho! Esqueci de ligar para o fotógrafo. Merda! Preciso ligar amanhã cedo. Não posso esquecer. Merda de cansaço. Esqueci por causa do cansaço, é muita coisa na cabeça. O tempo todo. Caralho, como eu queria parar de pensar um pouco. Cinco minutos. Juro. Cinco minutos. Será que eu pensava assim quando era moleque? Não lembro. Não consigo lembrar. Provavelmente. Mas eu não me cobrava tanto. Isso eu tenho certeza. Eu era mais sossegado. Não sei quando eu comecei a me cobrar tanto assim. Ou o motivo. Não, não vou entrar no Pão de Açúcar. Quero ir para casa. Mais nada. O fotógrafo. Não se esqueça de ligar para o fotógrafo. Vai, só mais uma quadra e acabou. Paz. Sossego. Ao menos por hoje. Queria colo. Queria o colo dela. O colo dela e música. Nat King Cole. Vontade de ouvir Nat King Cole. Será que eu tenho algo no PC? Não, se eu ligar o PC eu não durmo. Eu vou arrumar algo para fazer. O blog, o post da Gordinha do Pão de Açúcar. Não posso esquecer também. E esse blog? Será que vira algo um dia? Será que eles realmente gostam do que eu escrevo? Porque, sei lá, às vezes... Não, sem se cobrar. Sem fazer isso. Já chega a forma que eu me martirizo quando faço cagada, não vou começar a fazer isso quando acerto também. É o cansaço, tem que ser. Mas eu queria só isso mesmo, queria ter a certeza de que estou no caminho certo, que vai valer a pena. Saudade dos meus pais. Saudade de ter meus pais ali, resolvendo tudo a toda hora. Foda. Tomara que meu filho, com 34 anos, sinta tanta falta assim de me ter ao lado dele. Ou não. Tomara que ele não precise. Filho. Deve ser o máximo. Deve ser a coisa mais feliz do mundo. Tem que valer a pena. Tenho que estar no caminho certo. Vai, abre logo este portão. Foda-se que você estava dormindo, eu estou na chuva. Boa noite. Conta? Porra, outra? Conta, conta, conta. Foda, parece que a vida é só isso. Tem que ser mais que isso. Pelo menos o elevador está no térreo. Oi, sou eu. Vem cá! Oi! Sabe que enquanto eu não tenho filho, você é meu filho, né? E eu vou cuidar de você sempre o melhor que posso, prometo. Amanhã vou chegar mais cedo e a gente vai dar uma voltona, ok? Olha, sua comida. Água você tem. Pára, chega. Sossega. Eu também estava com saudade. Olhe, se eu estiver fazendo algo errado, você me avisa, tá? Porque não é de propósito, é porque eu não vou ter percebido. E aí eu vou tentar mudar. Prometo. Vai comer, eu quero só esse Toddynho e ir para a cama. Me secar e ir. Amanhã de manhã eu tomo banho. Tá chovendo, você viu? Torce pra não chover amanhã e a gente passeia. Desculpa, eu sei que acabei de chegar, mas preciso dormir. Amanhã começa tudo de novo. Desculpa. Estou muito cansado. Caralho, que delícia deitar. Ficar sem pensar em nada, até dormir. Que delícia. Tomara que o dia amanhã seja bom. Eu sei que você já está dormindo faz horas, mas dorme bem. Sonha muito. Eu te amo. Venha, sonho. Estou esperando.

24 de março de 2010

Carta Aberta ao Sr. Dioclécio Luz - Parte II

Caro Sr. Dioclécio Luz:

Em determinado trecho do seu texto A Violência na Turma da Mônica – Parte 2 você afirma ter ficado sabendo que alguém escreveu uma carta aberta a você (como resposta ao seu texto Violência na Turma da Mônica), mas esqueceu de avisá-lo.

Pois bem, o alguém sou eu. E a Carta Aberta está aqui.

Então, apenas a título de esclarecimento, eu não “esqueci de avisá-lo”. Eu não avisei de propósito, pois, observando os comentários do seu texto original, reparei que existiam três mensagens indicando a existência da Carta, todas elas com o link direcionando ao texto. Assim, deduzi que você já tinha conhecimento da Carta – partindo do princípio que você tem a delicadeza de ao menos ler os comentários que seus artigos recebem.

Ou seja, indicar o endereço do meu texto ali, nos comentários, seria redundante. E, pior ainda, poderia ser visto apenas como autopromoção da minha parte.

E creio que eu e você, como jornalistas, sabemos que o jornalismo não deve ser utilizado para autopromoção, certo?

Já a decisão de ler meu texto ou não, claro, cabia somente a você.

Quanto ao seu novo texto, creio ser desnecessário esmiuçá-lo em busca de falhas. Mais que desnecessário, seria cansativo, especialmente para os meus leitores. Assim, não tenho muito que acrescentar ao assunto. Mesmo porque não tenho problema pessoal algum com você, tanto que esta é a última vez que abordarei o assunto aqui.

Aliás, pelo contrário, devo lhe agradecer.

Afinal, este seu segundo texto apresenta somente um defeito: o próprio texto é uma enorme falha.

Isso porque, com este novo artigo, você tenta de todas as formas justificar o seu artigo anterior. E, a partir do momento que um texto opinativo precisa ser justificado com outro texto, é porque o original não contou com argumentos minimamente razoáveis.

E como a fragilidade dos seus argumentos é justamente o tema principal da minha Carta Aberta, a publicação deste seu novo texto apenas confirma tudo o que escrevi anteriormente. Logo, uma nova resposta não é necessária (mesmo porque eu não pretendia mais abordar este assunto aqui, e esta é a última vez que o faço).

Obrigado por, independente de ter lido ou não meu texto, dar razão a ele.

Abraços.

P.S. Já que as histórias em quadrinhos são pautas desimportantes (como você mesmo afirma, ao se mostrar espantado com a repercussão que seu texto obteve), sugiro que escolha outro tema mais relevante para seu próximo trabalho. Peço apenas que escolha um assunto entre aqueles que você tenha o mínimo de conhecimento.

1 de março de 2010

Carta Aberta ao Sr. Dioclécio Luz

Caro Sr. Dioclécio Luz:

Tenho 34 anos, sou jornalista e leitor de quadrinhos há três décadas. E foi tanto como leitor de quadrinhos quanto na posição de jornalista que fiquei estarrecido ao ler seu texto discorrendo sobre a violência encontrada nas histórias da Turma da Mônica.

Disposto a tudo para provar a sua tese de que a Mônica é um estereótipo violento, você simplesmente justifica todos os outros exemplos de violência dos quadrinhos – alguns, muito mais intensos que aquele que você tenta (inutilmente) provar.

É o caso do Batman: em muitas de suas aventuras, o herói fratura ossos de criminosos (muitas vezes descrevendo isso em detalhes gráficos e textuais) e os manda para hospitais. Mas, aos seus olhos, esta conduta é aceitável, já que ele teve “parentes” assassinados. Ou seja, em sua opinião, um crime justifica o outro.

Dentro do seu texto, a política do “olho por olho, dente por dente” é maleável, funcionando apenas como prova para incriminar a Turma da Mônica, inocentando outros personagens à conveniência daquilo que você tenta provar.

Aos seus olhos, a violência da Mônica é falha de caráter; a de Batman é traço de personalidade. Isso seria digno de uma análise mais detalhada, especialmente no caso do Batman (dizer apenas que “ele teve familiares assassinados” é pobre demais, pois a Mônica também tem motivos para bater em Cebolinha e Cascão: ela é provocada), mas você se furta a isso.

Aliás, me arrisco aqui: tenho certeza de que se pegássemos dez personagens que utilizam de violência como elemento em suas histórias (Lobo, por exemplo), você encontraria argumentos para continuar provando que a Turma da Mônica é a única a esbanjar este traço nocivo. Mesmo sendo jornalista, você não tem compromisso com a verdade, mas sim com uma idéia - o que é totalmente inaceitável.

Além disso, seu trabalho carece de uma pesquisa mais detalhada. Ao contrário do que seu texto indica, os personagens Tarzan e Guran nunca habitaram o mesmo universo (Guran é o chefe da tribo dos pigmeus bandar que habitam as cercanias da caverna da caveira, lar do Fantasma).

E o universo que você se refere como “Turma da Marvel” é totalmente equivocado. Em primeiro lugar, a “Turma da Marvel” não fazia sucesso na década de 50, pois ela foi criada nos anos 60. E finalizando, a única relação entre Batman, Tarzan e Fantasma com a editora Marvel é a mídia “história em quadrinhos”, já que eles nunca pertenceram à mesma editora que publica Homem-Aranha e Hulk.

Detalhes? Certamente. Mas que demonstram que o propósito inicial do texto era panfletário, pois provam que poucos minutos (ou nenhum) foram gastos numa pesquisa mais detalhada.

Quanto ao império de merchandising que você aponta como força motriz do universo criado por Maurício de Sousa (e traçando um paralelo com o universo Disney e, previsivelmente, com os Estados Unidos), nota-se outro argumento tendencioso.

As empresas que publicam os quadrinhos de heróis, sobretudo Marvel e da DC, que você propaga como lar de personagens com “personalidade”, há muito deixaram de atuar apenas como editoras, trabalhando muito com licenciamento – a própria Marvel Comics abandonou este nome e passou a operar sob a marca Marvel Entertainment Group. São desenhos animados, brinquedos, jogos eletrônicos, filmes, objetos escolares estampados com todos os seus personagens. E não é preciso pesquisa para saber isso, basta apenas olhar ao seu redor.

Mas, no seu texto, este elemento serve apenas para atacar a Mônica – no caso das editoras citadas acima, isso não é levado em conta em momento algum, pois contradiz seu argumento.

E uma observação: o Tio Patinhas – que, ao contrario do que você diz, não encontra solução para tudo na violência, mas sim no dinheiro – é o símbolo máximo da Disney apenas aos olhos de comunistas. Para o resto do mundo, incluindo aí própria empresa, o personagem-símbolo da marca é o camundongo Mickey Mouse: o desenho de suas orelhas é conhecido mundialmente, enquanto a cartola do Tio Patinhas é uma imagem que jamais funcionaria sozinha.

Walt Disney era reacionário? Totalmente. Mas daí a dizer que Maurício de Sousa também tem esta visão – pelos argumentos que você indica – é o mesmo que dizer que todo publicitário é nazista somente porque Joseph Gobbels o era.

Não vejo como sua análise poderia se tornar mais rasa.

Outro fator relevante no seu texto é a maleabilidade dos estereótipos; você cita os personagens da turma da Mônica, praticamente sem exceções, como criações unidimensionais. Mônica é forte, Cascão tem medo de água, Magali é comilona.

Bem, outros personagens dos quadrinhos – citados por você como tridimensionais – podem ser vistos desta forma também. Entrego aqui a fórmula: basta apenas pegar sua característica mais marcante e elevá-la a máxima potência, a ponto de ela se tornar o único traço de personalidade do personagem em questão. Assim, temos Hagar como um beberrão; Rê Bordosa como uma junkie; Peter Parker é um nerd; Bruce Wayne, um milionário obcecado por vingança. A lista seria interminável.

Mas, da mesma forma que Hagar não é apenas um beberrão e Rê Bordosa não é apenas uma junkie (e você deve saber o que mais eles são, caso tenha pesquisado), Mônica, além de forte, vive o dilema de diversas garotas, por ser gordinha e dentuça; Cascão, além de temer a água, é apaixonado por futebol; Magali não é apenas comilona, mas ensina às crianças valores pertinentes sobre os cuidados com animais de estimação, graças à presença de seu gatinho Mingau. Cebolinha, que você certamente apontaria como um garoto que valoriza problemas fonéticos, em muitas de suas histórias precisa cuidar de sua irmã menor.

Todos estes personagens têm mais de uma característica – cito apenas uma de cada um deles (não necessariamente a mais importante) apenas para exemplificar a falha de seu argumento. Não vou dizer aqui que você deveria ler mais as histórias para conhecê-las; isso seria inútil: você se recusa a colocá-las em seu texto, pois arruinaria a idéia que pretende provar com unhas e dentes.

Como leitor de quadrinhos, pessoa e profissional, eu aprendi muito com a Turma da Mônica. Mafalda e Calvin têm grande valor, mas, como você disse, eles não são exatamente destinados às crianças.

Mas Turma da Mônica é.

E me ensinou muito, desde que sou criança.

Por trás da violência “descabida” das histórias de Maurício de Sousa. Aprendi que brincar na rua com meus amigos é melhor que ficar sozinho em casa e a respeitar meus pais, os idosos e os animais. Além disso, aprendi que existiu uma pré-história (lendo as histórias do Piteco), a respeitar as diferenças (com as presenças do negro Jeremias e do oriental Hiro) e os deficientes (quantas histórias em quadrinhos podem se gabar de possuir um personagem mudo, como o Humberto?), a não ter medo de fantasmas com a Turma do Penadinho.

Aprendi tudo isso com as histórias dos personagens criados por Maurício de Sousa, e dificilmente encontraria palavras para agradecer por tudo o que ele me ensinou ao longo de décadas. Sim, porque Mafalda e Calvin me ensinaram a questionar o mundo e super-heróis me ensinaram a lutar pelo que é certo.

Mas a Turma da Mônica me ensinou mais que qualquer outra HQ.

A Turma da Mônica me ensinou a ser cidadão.

E isso porque ainda nem falamos sobre as histórias do pequeno dinossauro Horácio, que, sozinhas, derrubam totalmente seus argumentos.

Fortes abraços.

Sem mais,

Rob Gordon


Update: Por conta deste texto, acabei de receber um mail que entrou para a história do blog. A mensagem veio de ninguém menos que a Mônica, filha do Maurício de Sousa. Reproduzo aqui o texto com vocês:

Que texto mais lindo e, ao mesmo tempo, com total sabedoria. Gostaria de parabenizá-lo. Mônica Spada e Sousa”.

Assim, permaneço sem palavras, tamanho o orgulho que senti. Obrigado a todos pelos comentários e divulgação no Twitter, e um muito obrigado a Mônica, pela mensagem.

24 de fevereiro de 2010

Aconteceu naquela Década

Neste começo de ano, estou completando dez anos de redação.

Dez anos. É muito tempo. Especialmente para alguém que não é formado em jornalismo – caso alguém aqui não saiba, sou formado em publicidade. Qualquer dia eu conto aqui como entrei no jornalismo, mas não hoje. Mas é bastante tempo. Pelas minhas contas (estamos falando de 120 meses) devo ter produzido mais de 200 revistas – se não , chega bem perto de 200.

Enfim, estamos falando de dez anos de prazos apertados, de correria, de risadas, de stress. Dez anos trabalhando madrugada adentro, dez anos falando no telefone, respondendo alguém no Messenger e digitando um texto – tudo ao mesmo tempo agora. Dez anos tendo que tirar muitos domingos para trabalhar, dez anos sendo o último a chegar às festas de amigos, dez anos não podendo jantar com a Sra. Gordon, amigos e família sempre que dá vontade.

Nesse ponto, passou rápido demais. Parece que foi mês passado que meu pai chorou quando viu minha primeira matéria assinada; parece que foi semana passada que fiz minha primeira entrevista; parece que foi ontem que fiz minha primeira matéria de capa.

Mas, também, não tinha como não passar rápido.

Foram dez anos sempre com prazos apertados. Se alguém fizer as contas, o tempo líquido desta década deve dar uns seis anos, de tanta correria. E o stress não foi apenas por conta de correria. Já soquei mesa, já quebrei telefone com um murro, já xinguei, esbravejei, e um dia me seguraram porque eu queria ir até uma empresa sair no tapa com uma assessora de imprensa.

Cagadas? Já fiz também. Muitas. Já fiquei noites sem dormir preocupado com besteiras que tinha feito, já voltei para casa com lágrimas nos olhos, com nó na garganta, me sentindo um merda, incompetente demais. Já entrei em banheiros e soquei a parede desejando, na verdade, me socar.

Mas hoje eu sei que cagadas fazem parte. Ou, ao menos lido com elas melhor do que lidava em 2000.

E claro que foram dez anos de muito aprendizado. E não apenas no âmbito profissional – tudo o que eu sei sobre jornalismo aprendi dentro de uma redação –, mas na vida como um todo. Afinal, convenhamos: são dez anos. Mesmo se eu fosse garrafeiro, me mataria se não tivesse aprendido absolutamente nada. Talvez o que eu esteja tentando dizer é que aprendi muito sobre mim; sobre limites, sobre capacidade, sobre talento, sobre o que eu sei fazer bem e o que eu não sei. E, claro, aprendi que eu gosto de escrever.

Contudo, foram dez anos bastante divertidos. Fiz amigos, daqueles que você leva para a vida toda, mesmo conseguindo almoçar uma vez a cada dois meses. Porque, sejamos sinceros: passar a madrugada (ou um domingo com final de Copa do Mundo na TV) com uma pessoa fechando revista é o equivalente àquelas amizades de soldados que lutaram juntos e que só vemos nos filmes.

Já fui criticado, já fiz textos de merda, já fiz textos ótimos. Curiosamente, alguns dos melhores elogios que recebi não foram de leitores (bem, alguns foram, daqui a pouco conto um deles), nem de chefes, mas sim de pessoas que trabalhavam comigo, no mesmo ambiente, na mesma batalha do dia a dia, em especial, dois sujeitos que respeito muito, como pessoas e como profissionais.

Um deles disse que aprendeu muito trabalhando comigo; o outro já soltou umas duas ou três vezes que eu faço coisas impensáveis aqui. Quem me conhece sabe que me cobro muito e é difícil eu aceitar elogios Agradeço, mas não consigo assimilá-los direito. Mas me esforcei para acreditar nestes dois elogios, significavam demais para mim, justamente por terem vindo deles.

O elogio que veio de um leitor e que eu prometi contar acima foi legal. Um sujeito ligou para a redação perguntando algo sobre um filme. Eu respondi, conversamos uns cinco minutos. No final, ele agradeceu e perguntou meu nome. Eu respondi e ele soltou:

– Espere, você é o editor da revista?

– Sim.

– Rapaz, que honra falar com você!

Comecei a ficar sem graça, e soltei um “imagine, foi um prazer”, e ele continuou:

– No mês passado, você escreveu uma matéria sobre animações, não?

– Sim.

– Minha esposa adorou aquele texto, ela leu umas três vezes e foi atrás de todos os filmes. Posso passar o telefone para ela? Ela vai adorar cumprimentar você.

Eu concordei, e a mulher dele pegou o fone. Ficamos alguns minutos conversando, enquanto ela me dizia tudo que tinha adorado no texto, e o que tinha gostado nos filmes – ela tinha corrido atrás de todos, para assistir, depois de ler a matéria.

Nunca esqueci isso.

A sensação de ter mudado a vida de alguém, mesmo de uma forma pequena e casual, com um texto é indescritível. Quem me conhece, sabe que é exatamente isso que eu tento fazer no blog (de um jeito neste aqui, de outro jeito no Chronicles).

E as entrevistas? Dezenas. Algumas muito legais, outras pavorosas. Tremi, por motivos particulares, ao ver de perto três pessoas: o Roman Polanski, o Leonard Nimoy e o Pelé. Tremi, mesmo.

Mas tem outras histórias boas, como eu ter virado “amigo de caipirinha do Viggo Mortensen”; os irmãos Farrelly (diretores de Quem Vai Ficar com Mary?) terem me segurado praticamente fora da sacada do apartamento em que os entrevistei; ter fumado charuto com o Ron Perlman, na estréia do primeiro Hellboy; e ganhar um desenho exclusivo do Zakk Snyder, com uma criatura que ele não conseguiu colocar em 300, e outro do Don Rosa, desenhista do Pato Donald.

Quanto às ruins, deixa para lá, isso eu guardo para mim.

Tenho amigos com histórias muitos melhores que as minhas, em termos de entrevistas, mas estas têm uma diferença: são minhas. São minhas memórias.

E hoje, com dez anos de redação, todas elas (e não apenas as entrevistas) têm um gosto doce, de conquista, de aprendizado, de superação e, claro, de soltar um “fudeu, desta vez não vai dar”, mesmo sabendo que, no final, dá. Sempre dá.

E daqui a dez anos? Não faço idéia. Quem me conhece bem sabe que meu sonho é viver deste blog – ou ao menos, viver escrevendo coisas parecidas com o que escrevo aqui e no Chronicles.

Um dia, quem sabe.

Mas, até lá, tenho prazos para cumprir, revistas para fechar e pessoas para entrevistar. E gargalhadas para dar, porque existem pessoas que gostam do que fazem, mas eu, por outro lado, faço o que gosto.

E tem uma diferença muito grande aí.

16 de outubro de 2009

Pequeno Diálogo Noturno

Quem tem um pouco mais de contato comigo sabe que eu não venho mais à redação. Eu me tornei uma entidade que simplesmente não sai mais daqui. Meus amigos me ligam no celular, e, quando perguntam se eu estou na redação, eu respondo: “não, eu sou na redação”.

Isso porque o volume de trabalho aumentou muito aqui nas últimas semanas. Para vocês terem uma idéia, eu digitei este post enquanto falava no telefone com um diagramador. Eu olhava a print ao meu lado, explicava as alterações e, enquanto ele fazia, eu continuava digitando o post, até ele terminar de fazer o que eu pedia, e irmos para a próxima página.

Mas estou me alongando. Meu ponto é: nunca foi difícil eu sair daqui no meio da madrugada, naquele esquema “vai para casa, toma um banho, senta no sofá, fecha os olhos, abre os olhos, levanta, vai para o trabalho”, mas atualmente, isso está bastante freqüente. Paciência. Faz parte.

Não vou negar que rendo melhor nesse horário. Meus textos – profissionalmente ou aqui mesmo, no blog – são melhores quando eu escrevo de madrugada. Mas não pensem que eu fico trabalhando até as 2 da manhã porque quero, é porque preciso.

Digo isso porque o porteiro aqui do prédio – sim, aquele mesmo de quem eu já falei algumas vezes aqui – acha que eu passo as madrugadas aqui sem fazer nada. Provavelmente, ele deve pensar que eu espero ansiosamente ficar sozinho na redação durante a noite para ligar música alta e ficar dançando, apostando corrida comigo mesmo, fazendo embaixadinhas com bola de papel, ou algo parecido com isso.

Some isso ao fato de que, para ele, o interfone nada mais é que um instrumento que fornece acesso direto a algum Disk-Amizade e pronto. Ele começa a ligar para mim, no meio da madrugada, para falar nada. Sem problemas. Afinal, como eu passo as madrugadas descalço e sem camisa, pulando de uma mesa para outra na redação, ao som de (I’ve Had) The Time of my Life, eu tenho tempo de sobra para conversar. Ao menos, na mente dele.

Assim, reproduzo abaixo o diálogo ocorrido última quarta-feira:

– Rob?

– Eu.

– Queria saber se você está aí.

– É, estou.

– Porque o sistema da catraca eletrônica diz que você está aí.

– Aparentemente, o sistema tem razão. Eu estou.

– Mas eu achei bom interfonar para checar.

– Ok.

– Então, você está aí?

– Evidente.

– Ó-ká.

– Só isso?

– Só.

– Beleza.

– Você vai demorar para sair?

– Uma meia hora. Acho.

– Não, pode ficar mais.

– Oi?

– Se você precisar ficar mais, pode ficar.

– Eu sei disso. Faz oito horas que eu já estou ficando mais.

– Mas não precisa ir embora daqui a meia hora, se quiser.

– Mas eu quero.

– Fique à vontade aí, viu?

– Eu não estou à vontade aqui. Eu estou trabalhando. Eu quero justamente ir para casa para ficar à vontade lá.

– Ó-ká.

– Ok.

– ...

– Seu Porteiro?

– Oi.

– Era só isso?

– Só.

– Beleza.

– Mas a hora que você for embora, você me avise, por favor.

– Seu Porteiro, a hora que eu for embora, eu vou passar pela portaria, que é onde você está, porque você terá que abrir o portão para mim. Eu não preciso avisar você.

– Ah, é.

– Olhe, eu realmente preciso continuar trabalhando aqui.

– Não, tudo bem. Fique à vontade, pode sair à hora que quiser.

– Não é isso. Eu vou desligar o interfone, ok?

– Ó-ká.

Assim, eu desligo e volto para a minha mesa. Não sei se ele fica na portaria ligando para os outros conjuntos, até ser atendido por alguém. E eu continuo trabalhando aqui – ou dançando, dependendo de qual versão você acredita – até a hora de ir embora.

E aí é outro parto, porque, invariavelmente, quando eu coloco os pés na portaria, eu sou obrigado a reviver esse post aqui, integralmente. Ô fase.

A propósito, nos últimos dias, publiquei bastante coisa no Champ-Chronicles, com os textos Retrato, O Último Dia Igual aos Outros, O Negócio do Cara e Borboleta. Divirtam-se!

24 de setembro de 2009

Top 5 Maneiras (Divertidas) de Fazer seu Estagiário Pegar Café para Você

1. Da Numerologia

Rob Gordon: Escolhe um número de 1 a 10.

Estagiário: 4

Rob Gordon: 5. Ganhei. Você pega o café.


2. Da Aposta

Rob Gordon: Vamos fazer uma aposta?

Estagiário: Qual?

Rob Gordon: Não, você responde "sim". Vamos tentar de novo. Vamos fazer uma aposta?

Estagiário: Sim.

Rob Gordon: Eu aposto um café com você que você não vai pegar um café para mim.



3. Do Olfato

Rob Gordon: Você está sentindo cheiro de café na minha mesa?

Estagiário: Não.

Rob Gordon: Nem eu. Resolve isso para mim, por favor?



4. Da Adivinhação (funciona preferencialmente no Msn)

Rob Gordon: Me ajuda com uma coisa, aqui?

Estagiário: Claro.

Rob Gordon: Estou fazendo um texto, mas me deu um branco aqui. Como chama aquele tipo de café que o cara tira na hora, sem precisar coar?

Estagiário: Não sei. Café expresso?

Rob Gordon: Poxa, que supresa boa! Aceito sim, obrigado. Duas colheres de açúcar, por favor.


5. Da Notícia Boa e da Notícia Ruim

Rob Gordon: Eu tenho uma notícia boa e uma ruim. Qual você quer primeiro?

Estagiário: A ruim.

Rob Gordon: A ruim é que eu quero um café.

Estagiário: E a boa?

Rob Gordon: A boa é que meu estagiário vai pegar um café para mim.

Estagiário: Mas essa não é boa.

Rob Gordon: Ela é boa para mim. E, como você é estagiário, se ela é boa para mim, ela é boa para você.


Bônus Track: Da Notícia Boa e da Notícia Ruim – Variante II

Rob Gordon: Eu tenho uma notícia boa e uma ruim. Qual você quer primeiro?

Estagiário: A ruim.

Rob Gordon: A ruim é que eu quero um café.

Estagiário: E a boa?

Rob Gordon: A boa é que, depois que você pegar meu café, as notícias ruins acabaram.