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3 de junho de 2013

O Jogo da Vida

Xeque. Sai de trás do monitor! Saia daí! Você vai soltar os cabos mais uma vez! Xeque. Parem de latir! Eu estou tentando escrever aqui dentro! Xeque. Que barulho é esse? Você vai comer esse plástico de novo? Gato pentelho! Pare com isso! Xeque. Alô. Não, não é este número. Não, não conheço nenhum Geraldo. Ok. Xeque. Por que essas filhas do vizinho não calam a boca por um minuto? Calem a boca! Xeque. Parem de latir! Eu não estava gritando com vocês! Eu estou tentando escrever! Xeque. Que inferno essa campainha! O que será agora? Xeque. Pare de comer o plástico! Eu preciso ver a campainha! Se você estiver comendo o plástico quando eu passar por aqui de novo, eu vou matar você! Xeque. Não, não tenho nada hoje. Desculpe. Ok. Xeque. Pare de comer o plástico! Saco! Você é imbecil? Xeque. Meu Deus do céu, essas filhas do vizinho devem ter algum problema. Xeque. Eu proponho uma troca. Se vocês conseguirem fazer as filhas do vizinho calarem a boca, eu deixo vocês latirem por meia hora. Fechado? Xeque. Sai de trás do monitor! Você vai soltar o cabo! Xeque. Seis bilhões de pessoas no mundo, e as duas retardadas obcecadas com o disco do Carrossel se mudam para a casa ao lado da minha. Perfeito. Xeque. Parem de latir, pelo amor de Deus! Xeque. Alô? Não, o técnico não veio ainda. Sim, é evidente que a minha internet continua uma merda! Ok, eu espero. Faz só uma semana mesmo. Ok. Xeque. Pelo amor de Deus! O que vocês querem para parar de latir e para eu poder escrever? É dinheiro? Xeque. Alô? Pare de latir! Desculpe, não era com você. Pois não. Não, eu já disse que não é esse número! Não, eu não conheço o Geraldo! É evidente que eu não posso! Como eu posso passar um recado para alguém que eu não conheço! Quer saber? Eu passo o recado! Só não ligue mais, por favor! Xeque. Quantas vezes eu vou ter que tirar você de trás do monitor? Xeque. Maldito disco do Carrossel. Maldita professora Helena. Xeque. Desisto. Vou responder os comentários do blog. Xeque. Internet filha da puta! Não consigo fazer nada! Xeque. Para de comer a porra do saco plástico! Xeque. Alô? Não! Não! Olhe, o Geraldo morreu! Não ligue mais! Xeque. Desisto. Pode ficar aí atrás do monitor. Vou ver televisão. Xeque. Por que só está pegando Ana Maria Braga? Quem mexeu nos cabos? Xeque. Parem de latir! Foda-se tudo. Não aguento mais. Vou deitar. Inferno de vida.

Demônio: Derrubou o Rob?

Demônio-Assistente: Sim, desisto.

Demônio: É uma pena. Eu daria o xeque-mate em dois lances, usando o cara da internet.

Demônio-Assistente: É muito difícil assim.

Demônio: Vamos jogar de novo?

Demônio-Assistente: Sim, mas agora você joga com o Rob e eu jogo com o resto do mundo.

Demônio: Nem a pau. 

24 de fevereiro de 2012

Certa Tarde, no Céu...


Local: Nuvem sobre o Bairro de Pinheiros
Horário: 13h54min

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Demônio Espião Assistente:
Eu não consigo andar direito em cima disso.

Demônio Espião: São apenas nuvens. O segredo é não pensar sobre ao assunto

Demônio Espião Assistente: Como eu não vou pensar nisso? Você viu a altura que nós estamos?

Demônio Espião: Relaxe. Nós não vamos aqui ficar muito tempo mais.

Demônio Espião Assistente: Pelo menos isso. Mesmo porque eu não gosto de andar por aí vestido de anjo. Fora que eu não consigo andar com essa... Como chama isso? Bata?

Demônio Espião: Sei lá. Foi o que pessoal arrumou lá embaixo.

Demônio Espião Assistente: E essas asas? Como que eles fizeram essas asas?

Demônio Espião: Acho que foi com penas de ganso.

Demônio Espião Assistente: As minhas já estão começando a descolar. Tomara que ninguém perceba.

Demônio Espião: É só você não se mexer muito. Ei, o que é isso no seu braço?

Demônio Espião Assistente: É a pulseira que me deram.

Demônio Espião: Que pulseira? Isso é uma auréola!

Demônio Espião Assistente: Auréola?

Demônio Espião: É evidente!

Demônio Espião Assistente: Mas o que eu faço com isso?

Demônio Espião: Coloque em cima da cabeça!

Demônio Espião Assistente: Ah, bem que eu achei que era grande demais para ser uma pulseira. Por isso que ela ficava caindo toda hora. Aqui na cabeça?

Demônio Espião: Isso. Já são 14 horas?

Demônio Espião Assistente: Faltam três minutos.

Demônio Espião: Você está com a chave do reservatório?

Demônio Espião Assistente: Sim. Peguei na mesa do São Pedro. Cuidado, vem vindo um anjo aí.

Demônio Espião: Cuidado para não mexer essa asa e ela cair.

Demônio Espião Assistente: Pode deixar.

Um Anjo Qualquer que Resolveu Andar por Ali: Boa tarde, irmãos. Que a paz do Senhor esteja convosco.

Demônio Espião Assistente: É... Hum... Valeu. Ai!

Demônio Espião: Obrigado, irmão. Que a paz do Senhor esteja convosco.

Um Anjo Qualquer que Resolveu Andar por Ali: Obrigado.

Demônio Espião: Pronto. Ele foi embora.

Demônio Espião Assistente: Precisava enfiar o cotovelo em mim, porra?

Demônio Espião: “Valeu”? Isso é modo de falar? Quer que descubram que não somos anjos?

Demônio Espião Assistente: Eu sei lá como os anjos falam!

Demônio Espião: Na próxima vez, não fale nada!

Demônio Espião Assistente: Certo, certo. Olhe, pelo meu relógio são 14 horas.

Demônio Espião: Bom, se a Inteligência estiver certa, acabou tudo na casa do Rob. Coca, comida, tudo. Ele vai ter que sair de casa.

Demônio Espião Assistente: Entendi... Ei, olhe ele ali na varanda!

Demônio Espião: Sim, ele está olhando para o céu. Provavelmente, para ver se vai chover, porque ele precisa sair.

Demônio Espião Assistente: Ele já entrou.

Demônio Espião: Sim, ele vai sair de casa, com certeza. Não tem uma nuvem preta no céu. Nós tiramos todas. A mangueira está pronta e acoplada no reservatório, certo?

Demônio Espião Assistente: Sim. Basta apenas ligar. Será que vai funcionar?

Demônio Espião: Tomara que sim. Estamos aqui apenas para testar isso e o pessoal do departamento de Novos Projetos está ansioso. Estão trabalhando nisso há meses.

Demônio Espião Assistente: Ei! Olhe ele ali na rua!

Demônio Espião: Onde?

Demônio Espião Assistente: Ali, entrando na Teodoro Sampaio! Olhe a carequinha ali!

Demônio Espião: Verdade!

Demônio Espião Assistente: Posso ligar?

Demônio Espião: Calma. Tem muita gente na avenida. Vou regular para o jato mais fino, assim acertamos apenas ele.

Demônio Espião Assistente: Certo.

Demônio Espião: Pronto. Na mira.Pode ligar.

Demônio Espião Assistente: Abro tudo?

Demônio Espião: Claro!

Demônio Espião Assistente: Pronto!

Demônio Espião Assistente: Em cheio! Você viu? Na cabeça!

Demônio Espião: Vi! Olhe ele ali correndo pela rua!

Demônio Espião Assistente: Será que ele não percebe que está chovendo apenas nele?

Demônio Espião: Duvido. Ele não deve nem ver nada direito, de tanta água que cai nele!

Demônio Espião Assistente: Cara, como ele corre!

Demônio Espião: Verdade!

Demônio Espião Assistente: Ele quase foi atropelado por aquele caminhão!

Demônio Espião: Ainda bem que ele escapou! Se ele morresse, estaríamos perdidos. O pessoal de novos projetos nunca teve uma cobaia tão boa.

Demônio Espião Assistente: Ele sumiu! Cadê ele?

Demônio Espião: Entrou na padaria. Deve estar lá todo encharcado e recuperando o fôlego.

Demônio Espião Assistente: Quer que eu desligue um pouco?

Demônio Espião: É melhor. Assim nós o atraímos para fora.

Demônio Espião Assistente: Tomara que ele não demore. Minhas asas não vão durar muito.

Demônio Espião: Calma, logo ele sai. Como sempre, nós tiramos todas as carolinas da padaria.

Demônio Espião Assistente: De novo? Será que ele não percebe que nunca tem carolinas quando ele está na padaria?

Demônio Espião: Aposto que não. Ele é meio tapado.

Demônio Espião Assistente: Ei, não é ele ali?

Demônio Espião: Onde?

Demônio Espião Assistente: Ali, na frente daquela loja, segurando duas sacolas!

Demônio Espião: Onde?

Demônio Espião Assistente: Ali! Olhando para cá!

Demônio Espião: É mesmo! Ele está andando por baixo da marquise e olhando as nuvens.

Demônio Espião Assistente: Será que ele não vai sair debaixo da marquise?

Demônio Espião: Não tem problema. Eu preciso apenas mirar um pouco para baixo.

Demônio Espião Assistente: Esse pessoal de novos projetos é bem criativo, hein? Uma mangueira industrial com mira telescópica.

Demônio Espião: Isso aqui vai ser um sucesso! Pronto. Está na mira. Pode abrir!

Demônio Espião Assistente: Aberto!

Demônio Espião: Em cheio!

Demônio Espião Assistente: Pegou em cheio no peito dele! Ele quase caiu!

Demônio Espião: Olhe como ele corre!

Demônio Espião Assistente: E batendo com as sacolas em todo mundo! Que imbecil!

Demônio Espião: Essa mangueira é demais! Olhe ele ali fazendo a curva! Eu subo um pouco e...

Demônio Espião Assistente: Na cara! Pegou na cara dele! Ele derrubou uma sacola!

Demônio Espião: Tomara que estejam monitorando tudo lá de baixo!

Demônio Espião Assistente: Putz! Ele já está entrando no prédio!

Demônio Espião: Hora de desligar e recolher a mangueira. A missão foi um sucesso! Aposto que seremos condecorados!

Demônio Espião Assistente: Pronto, fechei! Podemos guardar tudo.

Demônio Espião: Ei, olhe ele ali na varanda do apartamento!

Demônio Espião Assistente: Ele está olhando para cá, fazendo gestos obsecnos. Será que ele nos viu?

Demônio Espião: Duvido. Aposto que ele está puto porque acha que não está chovendo mais, agora que entrou em casa. O babaca nem percebeu que não choveu, que a água só caía nele.

Demônio Espião Assistente: Que humano deprimente, esse Rob Gordon. Pronto. A mangueira está guardada na mala. E a mira está comigo.

Demônio Espião: Então é isso. Vamos embora.

Outro Anjo Qualquer que Resolveu Andar por Ali: Ei!

Demônio Espião Assistente: Um anjo!

Outro Anjo Qualquer que Resolveu Andar por Ali: Com a graça do Senhor, o que vocês estão fazendo aí? O que há nesta mala?

Demônio Espião: Fudeu! Vamos embora!

Demônio Espião Assistente: Merda! Minhas asas estão caindo!

Demônio Espião: Esquece as asas! Corre!

13 de agosto de 2010

Certa Madrugada, no Inferno...

Local: Sala do Diretor de Novos Projetos
Horário: 23:08


Demônio-diretor: Alô.

Demônio-assistente: Boa noite, senhor.

Demônio-diretor: Boa noite.

Demônio-assistente: Algumas semanas atrás o senhor me pediu para avisar quando o Rob Gordon fosse dormir cedo.

Demônio-diretor: Sim.

Demônio-assistente: Ele está indo deitar agora.

Demônio-diretor: Excelente! Estarei na Sala de Testes em uma hora. Me encontre lá.

Demônio-assistente: Sim, senhor.


Local: Curral
Horário: 23:11


Demônio-capataz:
Alô.

Demônio-diretor: Boa noite. Os mosquitos estão prontos?

Demônio-capataz: Mais do que prontos, senhor. Eles já passaram por todos os procedimentos científicos e místicos.

Demônio-diretor: Tivemos alguma baixa?

Demônio-capataz: Apenas uma. Um dos...

GRAAAAU!

Demônio-diretor: O que é isso? Que barulho é esse?

Demônio-capataz: Desculpe, senhor, um dos adultos se aproximou e tentou me atacar. Mas meus homens já o amarraram com cabos de aço e estão o arrastando para longe. Eles estão assim desde que cortamos a ração pela metade. Devoraram um filhote de rinoceronte vivo, outro dia.

Demônio-diretor: Excelente! Mas você estava falando das baixas.

Demônio-capataz: Sim, senhor. Como eu estava dizendo, um dos filhotes não sobreviveu à implantação de titânio no ferrão. Os demais reagiram muito bem, tanto ao processo de agigantamento quanto aos feitiços de teleporte.

Demônio-diretor: Ótimo.

Demônio-capataz: Senhor... Peço permissão para falar francamente.

Demônio-diretor: Concedida.

Demônio-capataz: Eu não sei mais quanto tempo nós vamos agüentar estes mosquitos aqui. Eles estão cada vez mais famintos. E ferozes. Meus homens já domaram todos os tipos de criaturas existentes, mas eles estão começando a ficar com medo dos mosquitos.

Demônio-diretor: Não se preocupe. Ao que tudo indica, nós vamos usá-los hoje.

Demônio-capataz: Excelente notícia, senhor.

Demônio-diretor: Já deixe sua equipe avisada e de prontidão. Aguarde notícias minhas.

Demônio-capataz: Sim, senhor.


Local: Sala de Testes
Horário: 00:15

Demônio-diretor: Boa noite.

Demônio-assistente: Boa noite, senhor.

Demônio-diretor: Status?

Demônio-assistente: Ele está dormindo profundamente. Besta-Fera está aos pés dele, na cama. Dormindo também.

Demônio-diretor: Excelente. Mande uma mensagem para o Curral e avise ao Capataz para liberar os mosquitos.

Demônio-assistente: Os mosquitos, senhor? Aqueles mosquitos?

Demônio-diretor: Sim.

Demônio-assistente: Todos?

Demônio-diretor: Sim, a esquadrilha inteira.

Demônio-assistente: Sim, senhor. Pronto. Mensagem enviada.

Demônio-diretor: Excelente.

Demônio-assistente: O capataz já respondeu, senhor. A esquadrilha já está a caminho. Deve chegar ao apartamento do Rob em cerca de cinqüenta minutos. Uma hora, no máximo.

Demônio-diretor: Temos uma estimativa de quanto tempo irá demorar até ele ir ao banheiro?

Demônio-assistente: De acordo com os relatórios da Inteligência, ele jantou fora hoje. Pelos meus cálculos, ele precisará ir ao banheiro poucos minutos após a chegada dos mosquitos.

Demônio-diretor: Ótimo. Quer rachar uma pizza enquanto esperamos?

Demônio-assistente: Meia atum, meia enxofre?

Demônio-diretor: Parece perfeito. Vamos.


Local: Sala de Testes
Horário: 01:20


Demônio-assistente:
Os mosquitos estão a postos, senhor. Todos espalhados pelo quarto, nas paredes.

Demônio-diretor: Mas ainda não fizeram nada, certo?

Demônio-assistente: Segundo o capataz, eles ainda não atacaram somente por causa do bloqueio mental implantado. Assim que a trava for retirada, eles partirão para cima dele.

Demônio-diretor: Bom. Muito bom.

Demônio-assistente: Devo pedir para retirar a travar?

Demônio-diretor: Ele já foi ao banheiro?

Demônio-assistente: Não, senhor. Mas não irá demorar.

Demônio-diretor: Temos como retirar a trava de somente um mosquito?

Demônio-assistente: Sim, senhor.

Demônio-diretor: Faça isso.

Demônio-assistente: Pronto, senhor. Olhe! O mosquito já está voando! É aquele ali, próximo ao armário. Está indo em direção ao Rob. Ao ouvido, mais precisamente.

Demônio-diretor: Isso vai ser genial. Fique olhando.

Demônio-assistente: Uau! Que tapa!

Demônio-diretor: Você viu? Ele sempre faz isso, é demais!

Demônio-assistente: Deve ter doído muito!

Demônio-diretor: Será que ele acha que vai matar o mosquito dando um tapa no próprio ouvido? Tem como ser mais burro?

Demônio-assistente: Ele está acordando, olhe, senhor!

Demônio-diretor: Tudo está saindo como planejado.

Demônio-assistente: Ele está indo ao banheiro.

Demônio-diretor: O grande problema destas missões de madrugada é que somos obrigados a ver o Rob de cueca.

Demônio-assistente: É uma cena deplorável, não?

Demônio-diretor: Muito. Mas não se preocupe, além das horas extras, vou pedir um aumento à presidência, para nós dois. Vou alegar insalubridade.

Demônio-assistente: Obrigado, senhor.

Demônio-diretor: Me passe aquele telefone.

Demônio-assistente: Pronto.

Demônio-diretor: Capataz? Prepare-se para retirar as travas de todos os mosquitos ao meu comando.

Demônio-assistente: Ele está voltando.

Demônio-diretor: Três... Dois... Um...

Demônio-assistente: Ele acendeu a luz!

Demônio-diretor: Agora!

Demônio-assistente: Os mosquitos estão soltos!

Demônio-diretor: Excelente trabalho, capataz. Qualquer informação pertinente, estarei na sala de testes.

Demônio-assistente: Ele está olhando ao redor e vendo mosquitos por todos os lados. Veja a cara dele, senhor!

Demônio-diretor: Ele deve estar se perguntando como tantos mosquitos apareceram no quarto.

Demônio-assistente: Com certeza, senhor. Ele foi checar se janela está fechada, veja.

Demônio-diretor: Os mosquitos o estão devorando, e ele preocupado com a janela. Imbecil demais.

Demônio-assistente: Mas agora ele se virou para o quarto, senhor. Deve tentar atacá-los.

Demônio-diretor: É exatamente o que eu espero.

Demônio-assistente: Ele está se aproximando de um deles. Vai tentar capturá-lo.

Demônio-diretor: Espero que ele consiga.

Demônio-assistente: Senhor?

Demônio-diretor: Espero que ele consiga. Fique olhando.

Demônio-assistente: Veja, senhor. Acho que ele conseguiu!

Demônio-diretor: Ele acha que matou o mosquito, e vai abrir a mão agora. Fique olhando.

Demônio-assistente: Sim, senhor.

Demônio-diretor: Não tem nada na mão dele! Olhe a cara de raiva que ele fez!

Demônio-assistente: Senhor, eu não entendo. Eu vi o Rob pegando o mosquito claramente.

Demônio-diretor: Estes mosquitos foram manipulados. Eu mesmo cuidei disso. Eles passaram por modificações físicas. Receberam implantes de titânio, e seu sangue foi trocado por ácido clorídrico. E suas asas foram redesenhadas, para fazer um barulho maior e mais irritante. E passaram por modificações místicas também.

Demônio-assistente: Místicas?

Demônio-diretor: Sim, é por isso que ele não vai conseguir capturar nenhum. Eles passaram por encantamentos infernais. Cada mosquito que ele aprisionar irá se teleportar de dentro da mão dele para outro local do quarto. Ele nunca vai conseguir aprisionar nenhum.

Demônio-assistente: Ele está tentando novamente. Apanhou mais um.

Demônio-diretor: Ele ainda não percebeu que não irá conseguir.

Demônio-assistente: Eu vi, apareceu outro mosquito atrás do ombro dele. Era o mesmo mosquito, senhor?

Demônio-diretor: Exatamente. Veja, ele está abrindo a mão. Não vai encontrar nada.

Demônio-assistente: Pronto, já começou a xingar.

Demônio-diretor: Ele é previsível demais. E são sempre os mesmos palavrões. Prepare-se para ouvir muitos “mosquito do caralho” e “mosquito filho da puta” nos próximos minutos.

Demônio-assistente: Senhor, ele pegou o travesseiro e vai usá-lo como arma. Os mosquitos estão prontos para isso?

Demônio-diretor: Mais do que você imagina. Preste atenção, ele está indo em direção aquele no armário. Veja que ridículo, ele de cueca tentando levantar o travesseiro discretamente, para não assustar o bicho. Deplorável.

Demônio-assistente: Uau! Que porrada!

Demônio-diretor: Ele matou o mosquito. Exatamente como eu imaginava.

Demônio-assistente: Mas o senhor disse que eles estavam preparados para isso.

Demônio-diretor: E estão. Este foi o encantamento mais difícil de realizar. A cada mosquito que ele matar com o travesseiro, dois novos surgirão de trás da estante de livros. A única coisa que ele vai conseguir é manchar as paredes do quarto com sangue e aumentar o número de mosquitos. Claro que ele jamais irá perceber isso.

Demônio-assistente: Genial! Veja, senhor, os mosquitos se organizaram! Um grupo deles está voando em formação de ataque em direção ao Rob, enquanto aqueles outros atacam as pernas dele!

Demônio-diretor: O capataz fez um excelente trabalho.

Demônio-assistente: Veja, ele ficou encurralado num canto do quarto, e está dando travesseiradas para todos os lados, sem saber o que fazer!

Demônio-diretor: Onde está o cachorro?

Demônio-assistente: Fugiu para a sala, alguns minutos atrás. Ele está sozinho. Uau! Você viu aqueles cinco dando rasantes em cima do ombro dele?

Demônio-diretor: Vi, sim. E pode ter certeza que cada rasante foi uma picada.

Demônio-assistente: Ele acertou mais um!

Demônio-diretor: E mais dois apareceram ali atrás, veja!

Demônio-assistente: Sim, senhor, estou vendo.

Demônio-diretor:
Bem, creio que finalizamos o teste. O projeto mosquito pode ser colocado em execução a partir de amanhã.

Demônio-assistente: Parabéns, senhor.

Demônio-diretor: Obrigado.

Demônio-assistente: Devo pedir ao capataz para chamar os mosquitos de volta?

Demônio-diretor: O Rob está muito cansado?

Demônio-assistente: Sim, senhor. Ele saiu do trabalho de madrugada praticamente a semana inteira. Veja as olheiras dele, parece um urso panda.

Demônio-diretor: Problema dele. Estes mosquitos estão há dias sem comer direito. Vamos deixá-los se alimentar hoje. Eles merecem.

Demônio-assistente: Certo.

Demônio-diretor: Instrua o capataz para ativar o comando que fará os mosquitos retornarem à base somente por volta das cinco da manhã.

Demônio-assistente: Mensagem enviada.

Demônio-diretor: Perfeito. Vamos para casa. Deixe o Rob com os mosquitos. Mas grave as imagens. Vamos exibi-las para a equipe no próximo happy hour.

Demônio-assistente: Estou gravando.

Demônio-diretor: Podemos encerrar por hoje. Boa noite.

Demônio-assistente: Boa noite, senhor. Até amanhã.

7 de março de 2009

Certa Noite, no Inferno...

Para alegria dos leitores - e minha infelicidade - a dupla de demônios deste post aqui voltou. Espero que se divirtam - afinal, alguém tem que se divertir com isso.


Local: Sala do Diretor de Novos Projetos
Horário: 19:49


Demônio-assistente: Com licença?

Demônio-diretor: Claro, pode entrar.

Demônio-assistente: Senhor, creio que finalizei nosso projeto com queijo quente.

Demônio-diretor: O da lasanha?

Demônio-assistente: Isso mesmo. Acredito que ele esteja pronto para o teste inicial.

Demônio-diretor: Podemos tentar hoje à noite.

Demônio-assistente: Vamos usar o Rob Gordon novamente?

Demônio-diretor: Claro. Ele é o mais indicado.

Demônio-assistente: Bem, senhor, me sinto na obrigação de fazer uma ressalva. O projeto é mais perigoso do que os outros que testamos com ele.

Demônio-diretor: Perigoso como?

Demônio-assistente: Bem, senhor, ultimamente eu assisti aos três filmes da série Premonição... O senhor conhece?

Demônio-diretor: Não, não gosto de filmes assim. Prefiro romances. Mas o que isso tem a ver com o projeto queijo quente?

Demônio-assistente: Bem, digamos que eu tenha me deixado influenciar um pouco pelos filmes. Sabe, os roteiros destes filmes, mortes que são verdadeiras obra-primas da engenharia. São extremamente criativas, com todos os elementos ao redor da vítima conspirando para que ele morra. São muito divertidas. Mas, o senhor sabe, não deixam de ser mortes.

Demônio-diretor: E daí? Ninguém se importa com o Rob Gordon.

Demônio-assistente: Tenho receio de que algo grave possa acontecer com ele, o que nos obrigaria a procurar outra cobaia para nossos projetos.

Demônio-diretor: Entendo sua preocupação, mas pode ficar tranqüilo. Cobaias existem aos montes. Admito que testarmos nossas idéias com outra pessoa pode não ser tão divertido quanto é com o Rob, mas não estamos aqui para nos divertir, concorda?

Demônio-assistente: Sim, senhor.

Demônio-diretor: Ótimo. Que horas podemos ver o projeto, então?

Demônio-assistente: Assim que ele chegar. O departamento de inteligência me informou que ele deve chegar em casa hoje somente após as 22:00.

Demônio-diretor: Então encontre-me neste horário na sala de testes.

Demônio-assistente: Sim, senhor.


Local: Sala de Testes
Horário: 22:02

Demônio-diretor: Ele já chegou?

Demônio-assistente: Ele está no caminho de casa, senhor. E todos os preparativos já foram acionados.

Demônio-diretor: Como assim?

Demônio-assistente: Aumentamos a temperatura de São Paulo em aproximadamente quatro graus esta noite. O Rob realmente está com calor, pelo que pude observá-lo pelas câmeras. E, além disso, aumentamos progressivamente a quantidade de sal na ração do seu animal de estimação.

Demônio-diretor: Aquele que ele chama de Besta-Fera?

Demônio-assistente: Isso mesmo.

Demônio-diretor: Mas o que uma coisa tem a ver com a outra?

Demônio-assistente: Senhor, se me permite, gostaria de não explicar nada antes que acontecesse. Gostaria que o senhor visse tudo com seus próprios olhos, sem saber qual foi a minha idéia. Acredito que é assim que os roteiristas de Premonição pensaram ao escrever os filmes, e creio que é um modo de trabalho que funciona. Causará mais impacto.

Demônio-diretor: Bom... Tudo bem. Vamos ver. Onde ele está?

Demônio-assistente: Está entrando em casa. Como o senhor pode ver na câmera três, ele está com uma sacola do Pão de Açúcar. Durante a tarde, irradiamos algumas imagens de lasanha de calabresa em seu cérebro, e parece que ele mordeu a isca.

Demônio-diretor: Sim, ele sempre foi influenciável. Mas ainda não entendo onde o ração salgada e o calor irão se encaixar.

Demônio-assistente: Em poucos instantes, o senhor descobrirá. Veja, ele está entrando em casa e tirando a roupa. Ele sempre faz isso no calor, fica só de cuecas em casa.

Demônio-diretor: É impressão minha ou ele engordou?

Demônio-assistente: Bastante. Se o senhor puder olhar na câmera dois, agora ele está na cozinha, colocando ração para a Besta-Fera. Provavelmente, ele irá trocar a água da tigela do cachorro, também. Ele está na pia... Pronto. Perfeito.

Demônio-diretor: Mas e a lasanha?

Demônio-assistente: Ele deve colocar para esquentá-la em poucos minutos. Hoje terá jogo na TV, e ele deve deixar a televisão ligada. Pronto.

Demônio-diretor: Ele está voltando para a cozinha.

Demônio-assistente: Sim, ele irá esquentar a lasanha agora. Se o senhor olhar para a câmera 7, verá que o cachorro dele foi comer a sua ração.

Demônio-diretor: Sim, posso ver. E daí?

Demônio-assistente: Como eu afirmei, aumentamos a quantidade de sal da ração. Assim, o animal precisará beber água imediatamente após o jantar.

Demônio-diretor: Mas e daí?

Demônio-assistente: Só mais um instante, senhor. Peço que confie em mim.

Demônio-diretor: Ok.

Demônio-assistente: A lasanha deverá demorar um pouco para aquecer. Cerca de quinze minutos. Tudo irá se encaixar perfeitamente. Além disso, hoje pedi ajuda a um demônio italiano, que esteve envolvido em algumas operações no Vesúvio, para dar uma calibrada no microondas do Rob.

Demônio-diretor: Como assim?

Demônio-assistente: Pedi a ele que deixasse a temperatura máxima como sendo equivalente a uma erupção vulcânica.

Demônio-diretor: Entendi. Olhe, o cachorro foi beber água.

Demônio-assistente: Sim, e a lasanha está esquentando. O Rob está de cuecas na sala, assistindo ao jogo, e não percebeu que o animal foi beber água. E este cachorro dele, toda vez que bebe água, esparrama tudo pelo chão da cozinha.

Demônio-diretor: Isso é interessante. Temos que aproveitar isso novamente, de alguma outra forma. Talvez envolvendo sabão em pó e facas.

Demônio-assistente: Excelente idéia, senhor. Vou começar a trabalhar nisso assim que terminarmos este projeto. Olhe, a lasanha ficou pronta! Preste atenção, agora, senhor. Vou ligar a câmera oito, que mostra o interior do microondas. Pronto.

Demônio-diretor: Ela está fumegando! Está até borbulhando! Você sabe a temperatura exata?

Demônio-assistente: Não senhor, mas acredito que seja superior a 100 graus Celsius. Posso pedir a informação exata.

Demônio-diretor: Não é necessário.

Demônio-assistente: Veja, o Rob está levantando, apenas de cuecas, para pegar a lasanha. Olhe aqui nesta outra câmera. Ele abriu o microondas e pegou a bandeja com cuidado. Agora, ele obrigatoriamente tem que andar até o balcão da cozinha para poder se servir.

Demônio-diretor: Acho que entendi aonde você quer chegar...

Demônio-assistente: O chão está todo molhado. Veja, senhor, ele está quase lá... Quase lá... Pronto!

Demônio-diretor: Ele escorregou! Ele caiu no chão da cozinha, com lasanha e tudo!

Demônio-assistente: Sim, senhor! Conseguimos! Veja como voou lasanha fumegando para todos os lados, inclusive nele!

Demônio-diretor: O que ele está fazendo? Porque ele não se levanta?

Demônio-assistente: Acredito que esteja apenas deitado no chão da cozinha gritando de dor e tentando entender o que aconteceu.

Demônio-diretor: É uma pena que não temos áudio. Já mandei arrumarem isso, mas o técnico ainda não veio.

Demônio-assistente: Verdade. Veja, ele se levantou!

Demônio-diretor: O que ele foi fazer na pia?

Demônio-assistente: Deixe-me ligar esta outra câmera aqui, teremos um visual melhor. Pronto. Ele está na torneira da cozinha jogando água gelada nos braços e no peito.

Demônio-diretor: Ele está chorando?

Demônio-assistente: Ao que parece, sim. Continua gritando, mas, aparentemente, está chorando de dor.

Demônio-diretor: Adorei isso! Olhe, tem lasanha pela casa inteira!

Demônio-assistente: Exato, senhor. Fizemos isso justamente com lasanha, e não com outro prato quente, pela quantidade de molho que os humanos colocam neste produto. Isso, aliado ao queijo fervendo, fez com que a lasanha, ao atingir o chão, se tornasse quase uma granada de fragmentação, que explodiu à queima-roupa na cara dele.

Demônio-diretor: Maravilhoso! Onde ele está indo?

Demônio-assistente: Acredito que para o chuveiro, senhor. Quando os humanos se queimam, instintivamente eles buscam água gelada para aplacar a dor! Mas pensamos nisso também.

Demônio-diretor: Como assim?

Demônio-assistente: Regulamos o chuveiro dele para o modo inverno. A água numa temperatura pouco abaixo da lasanha.

Demônio-diretor: Ele voltou?

Demônio-assistente: Acredito que ele tenha vindo buscar o banco que fica na cozinha para regular o chuveiro. Como o senhor pode ver, ele continua gritando de dor e está correndo. Quer que eu faça ele dar uma topada com o dedinho no canto do móvel?

Demônio-diretor: Não, não é necessário. Deixe ele se refrescar no chuveiro, antes que causemos danos irreparáveis. Você está de parabéns! O projeto é um sucesso!

Demônio-assistente: Obrigado, senhor. Fiz apenas o meu trabalho.

Demônio-diretor: Aliás, estou aqui há anos e nunca havia visto alguém fazer o Rob chorar de dor. Parabéns. Quero que passe amanhã no meu escritório, vamos discutir seu futuro aqui dentro.

Demônio-diretor: Nos veremos amanhã, então. Mais uma vez, parabéns.

Demônio-assistente: Obrigado, senhor. Até amanhã e boa noite.

Demônio-diretor: Boa noite.

**************************

Em respeito aos leitores e leitores que não gostam de ver este tipo de imagem - e eu sei que tem muita gente que não gosta - não vou postar fotos das minhas mãos aqui. Agora, se alguém realmente quiser ver as queimaduras de segundo grau do meu pulso direito, clique aqui. E, para ver minha mão esquerda, que tem uma bolha (causada por queijo ou molho ou ambos) que estabelece novos recordes no hall da fama de queimaduras, clique aqui (mas aviso que é nojento).

Já as queimaduras do peito, barriga, braços e pernas foram tão graves, mais respingos, e tudo de primeiro grau.

Enfim, continuo vivo. Para a alegria dos demônios.

18 de setembro de 2008

Certa Manhã, no Inferno...

Local: Sala do diretor de novos projetos
Horário: 10:15



Demônio-assistente: Bom dia. Tudo bem com o senhor?

Demônio-diretor: Bom dia.

Demônio-assistente: Acho que o “projeto elevadores” está pronto para ser testado.

Demônio-diretor: Hum... Projeto elevadores?

Demônio-assistente: Aquele no qual estive trabalhando semana passada

Demônio-diretor: Ah, sim! Aquela nossa idéia de assumirmos o controle dos elevadores para provocar ira e frustração nas pessoas! Está pronto, então?

Demônio-assistente: Acredito que sim. Mas ainda não testei. Vim aqui justamente ver se o senhor tem alguma sugestão para testes.

Demônio-diretor: Não é necessário. Vamos testar no Rob.

Demônio-assistente: Ele de novo?

Demônio-diretor: Claro, ele está ali para isso. Sem ele, jamais teríamos chegado ao excelente nível de qualidade com projetos como telemarketing e operadoras de telefonia celular em que estamos hoje.

Demônio-assistente: É que tudo o que bolamos aqui embaixo é testado nele... Gostaria de ver a reação de outras pessoas antes de colocar os projetos em prática.

Demônio-diretor: Não, não tem necessidade. Primeiro, porque se o projeto funciona, ele acaba colocando no blog dele. Ou seja, além de testarmos, ganhamos divulgação de graça. Segundo, mesmo quando o projeto não funciona, é sempre mais divertido com o Rob.

Demônio-assistente: Bom, se o senhor, diz, tudo bem. Que horas o senhor quer testar?

Demônio-diretor: Deixe eu acabar de enviar uns mails primeiro. Faz assim, nos encontramos na sala de testes em 15 minutos.

Demônio-assistente: Ok.


Local: Sala de testes
Horário: 10:40


Demônio-diretor:
Desculpe o atraso, fiquei preso no telefone.

Demônio-assistente: Não tem problema, senhor. Eu já fui ligando os monitores e preparando o equipamento. Assim que ele entrar no prédio, nós acionamos o dispositivo.

Demônio-diretor: Ótimo. Será que ele demora?

Demônio-assistente: Acredito que não, ele costuma chegar a essa hora no trabalho. Vou afastar a imagem um pouco.

Demônio-diretor: Olhe ele ali, na frente da Fnac!

Demônio-assistente: É ele?

Demônio-diretor: Claro! Olhe a carequinha! É ele sim! Vamos ligar! Como isso funciona?

Demônio-assistente: É fácil. É só apertar este botão aqui e os dois elevadores do prédio vão trabalhar em total sincronia para estragar a manhã dele.

Demônio-diretor: Entendi... Espere ele chegar mais perto, então. Está atravessando a Pedroso de Moraes... Está na calçada do prédio... Está entrando! Agora!

Demônio-assistente: Ligado!

Demônio-diretor: E agora?

Demônio-assistente: Agora vamos esperar. Como o senhor pode ver, assim que eu acionei o dispositivo, um dos elevadores foi para o 11º andar. O outro foi para o primeiro. E ele, claro, ficará acompanhando o movimento dos elevadores pelo painel em cima de cada porta. Essa é a grande graça da história.

Demônio-diretor: Entendi. Olhe, ele está chamando os elevadores. Vamos ver o que acontece.

Demônio-assistente: Como o senhor pode ver, nenhum dos dois elevadores está se movendo.

Demônio-diretor: Tem como vermos o rosto dele nesse outro monitor?

Demônio-assistente: Sim, é só ligar aqui. Pronto. Temos uma imagem boa do rosto dele, bem de frente.

Demônio-diretor: Ótimo. Mas não deveríamos soltar um dos elevadores? Se ele desconfiar que os dois estão parados, ele pode concluir que estão quebrados e ir pela escada.

Demônio-assistente: Mas esta é a grande vantagem deste sistema. Como ele está no térreo, vou soltar o elevador que está no 11º andar. E o do primeiro andar vai continuar parado. Pronto.

Demônio-diretor: Está dando certo! Você viu nessa câmera aqui, que pega o rosto dele? Ele respirou fundo e olhou para cima, com cara de saco cheio! É sempre assim que começa! E agora?

Demônio-assistente: Agora, quando o elevador que está descendo chegar ao primeiro andar, eu o faço parar também.

Demônio-diretor: E o outro?

Demônio-assistente: Ao mesmo tempo, vou acionar o outro para descer. Ele vai passar para o térreo, mas não irá parar. Vai seguir direto para o subsolo.

Demônio-diretor: Ótimo. Faça isso.

Demônio-assistente: Só um minuto, senhor. Terceiro andar... Segundo andar... Pronto. Parei. E... Pronto! Já mandei o outro para a garagem!

Demônio-diretor: Olhe a cara dele! Ele está muito puto! Está olhando o relógio! Dá pra ver que ele não sabe se fica ali esperando ou se vai tirar satisfação com o porteiro do prédio! Genial! E agora?

Demônio-assistente: O senhor que sabe. Podemos mandar os elevadores para onde o senhor quiser.

Demônio-diretor: Faz assim: faça este que está no subsolo subir sem passar pelo térreo. E o outro, que está no primeiro... Hum... Vamos fazê-lo descer, também sem parar no térreo. Ele vai acompanhar tudo isso pelo painel, certo?

Demônio-assistente: Sim, senhor.

Demônio-diretor: Ótimo. Vamos lá.

Demônio-assistente: Este sobe. E este... Desce. Pronto.

Demônio-diretor: Sensacional! Ele já está bufando de raiva e apertando o botão do elevador feito um ensandecido! Parabéns! Funciona mesmo!

Demônio-assistente: Obrigado, senhor. Fico com receio apenas de exageramos na dose e ele subir de escada.

Demônio-diretor: Duvido. Ele é muito preguiçoso, tenho certeza de que vai ficar esperando ali. Excelente trabalho. Posso tentar um pouco?

Demônio-assistente: Claro. Este botão aqui mexe o elevador da esquerda. Este outro mexe o da direita.

Demônio-diretor: Ótimo. Vamos tentar, então. Este aqui eu vou mandar de volta para o 11º andar. E este outro eu quero que volte a ficar parado no primeiro andar.

Demônio-assistente: Ele realmente está ficando irritado.

Demônio-diretor: Sim, está começando a morder os lábios e não pára de olhar no relógio. Está ficando muito puto!

Demônio-diretor: Eu poderia passar o dia brincando com isso aqui!

Demônio-assistente: Nossa, ele está muito puto! Veja o olhar dele, está quase chutando a porta do elevador.

Demônio-diretor: Tenho certeza de que ele vai escrever isso no blog ainda hoje.

Demônio-assistente: Será?

Demônio-diretor: Ainda hoje, com certeza. Eu conheço o Rob. Ih, ele está indo embora Acho que vai de escada. Pena que não tem áudio, tenho certeza que ele está xingando o mundo.

Demônio-assistente: O senhor me permite tentar uma última coisa?

Demônio-diretor: Claro.

Demônio-assistente: Deixe-me levar o outro elevador volta para o térreo. Assim.

Demônio-diretor: Isso, ele voltou. O que você tem em mente?

Demônio-assistente: Se eu digitar aqui, talvez eu consiga controlar o painel do elevador. Ele vai apertar o botão do andar que deseja ir, mas o elevador vai ignorar isso. As portas vão continuar abertas e ele vai ficar ali dentro, em pé, olhando o saguão.

Demônio-diretor: Perfeito.

Demônio-assistente: Pronto. Como o senhor pode ver, ele já apertou o botão, mas o elevador continua parado. Veja, ele está apertando novamente, e o elevador não irá fechar as portas.

Demônio-diretor: Uau! Você viu o soco que ele deu no painel do elevador?

Demônio-assistente: Deve ter doído. Acho que ele quebrou algum osso.

Demônio-diretor: Mesmo se ele tiver quebrado, ele só vai reparar nisso daqui a pouco. Ele é burro demais. É uma pena que você não estava aqui o dia em que testamos o dispositivo que o impedia de fazer ligações no celular. Ele quase quebrou a mão e o celular. Mas e agora, ele fica ali?

Demônio-assistente: É isso que eu quero tentar. Quero que ele saia do elevador para reclamar com o porteiro, ou ver o que está acontecendo.

Demônio-diretor: Pronto, ele está saindo.

Demônio-assistente: E, apertando isso aqui, eu faço as portas do elevador fecharem atrás dele. E mando o elevador vazio para 11º.

Demônio-diretor: Sensacional! Você viu que genial ele dando meia volta no saguão e tentando correr para dentro do elevador novamente? Adorei isso!

Demônio-assistente: Agora ele foi brigar com o porteiro.

Demônio-diretor: Deve estar dizendo que o elevador é uma merda, que o prédio inteiro é uma merda, que a vida é uma merda, que o mundo é uma merda. O mesmo discursinho de sempre. Enfim, sua invenção está totalmente aprovada. Já vou encaminhar o projeto para frente. Parabéns.

Demônio-assistente: Obrigado, senhor.

Demônio-diretor: Ah, mais uma coisa. Em que pé anda aquele projeto de fazermos os computadores morderem as pessoas, toda vez que elas abrirem o Word?

Demônio-assistente: Bastante adiantado. O computador já morde as pessoas e, caso elas tentem fugir, ele sai correndo atrás delas e as encurrala num canto da sala.

Demônio-diretor: Perfeito. Passe na minha sala depois do almoço. Quero dar uma olhada nesse projeto, porque recebi um e-mail dizendo que semana que vem o Rob terá que fechar duas revistas. Acredito que será o cenário ideal para os primeiros testes.

Demônio-assistente: Sim, senhor. Estarei lá.

Demônio-diretor: Perfeito. Mais uma vez, parabéns!

Demônio-assistente: Obrigado, senhor.