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20 de janeiro de 2023

Golpe... De Mestre?

 Foi ontem, lá pela uma da manhã. Estava lendo um livro na sala e, de repente, tocou meu WhatsApp. Dois toques. Fiz questão de atravessar a casa até o PC praguejando. Eu tinha certeza que era alguém me pedindo um texto.

E, sabe... O problema das pessoas que pedem texto no meio da madrugada não é fato de que elas estão pedindo texto de madrugada. O problema é que uma pessoa que faz isso certamente vai perguntar se você consegue entregar ainda hoje, de preferência antes das padarias abrirem.

Sentei no PC. Lá estava as duas mensagens, de um número que eu não conhecia. E a foto do perfil era da Mulher Elástica, dos Incríveis. Acendi um cigarro, respirei fundo e olhei para o alto.

“Deus, aqui é o Rob. Se eu rezar hoje à noite, será que você consegue levar isso em conta e dar um desconto amanhã? Tipo, não quero ganhar na Mesa Sena, eu queria apenas um dia tranquilo. Mais nada. Isso não quer dizer que eu não quero ganhar na MegaSena. Se for possível, isso muito me interessa, mas só de ...”

“Miau”

“Não tô falando com você, #GatoRidículo. Você tem ração aí que eu estou vendo, vai encher o saco de outro”.

Deus não respondeu e o gato foi embora. Sobrou apenas eu e as mensagens novas no WhatsApp . Dei mais um tragada e abri a janela. Lá estava a mensagem:

“PAGA ESSE PIX OU VOU VAZAR TODOS SEUS DADOS”

Aí, embaixo, tinha uma imagem. Curioso que sou, claro que mandei fazer o download. Mas eu já imagina do que se tratava. Era o QR Code para eu fazer o Pix.

Sabe, achei meio preguiçoso.

Eu sempre ouço falar daqueles golpes mais elaborados, do tipo “oi, sou eu, seu irmão, e estou numa masmorra no Iraque. Faz esse pix que o pessoal do Estado Islâmico está ameaçando cortar minha cabeça, depois eu acerto contigo.” Até mesmo aqueles mais antigos eram mais bem trabalhados. Manja o Príncipe da Nigéria, que pedia sua ajuda para recuperar o trono e você pode fazer contribuir com a causa colocando dinheiro nessa conta, e ele paga quando reassumir o governo”?

Então, as coisas eram mais bem trabalhadas. Sabe, não eram textos complexos, nem nada que justificasse um Nobel de Literatura, mas tinha uma espécie de roteiro ali. A ideia era fazer você se relacionar com a história, criando um personagem, uma situação de risco e passando a mensagem que “você pode fazer a diferença e salvar a Nigéria!”

Mas a mensagem que eu recebi foi muito feita de qualquer jeito. Eu imagino os golpistas conversando.

“Já to com QR Code aqui. O que eu falo?”

“Fala que para ele pagar.”

“Sim, isso eu já sei. Quero saber qual o motivo dele pagar”.

“Ué, o motivo é que a gente quer a grana.”

“Não é isso! Eu quero saber qual motivo que a gente vai usar para fazer ele querer pagar”

“Ah. Entendi. Não sei, não pensei nisso.”

“Preciso dar um motivo.”

“Sei lá. Fala que vai vazar os dados dele.”

“Mas vazar para quem?”

“Como eu vou saber? Inventa algo aí”.

“Você sabe se ele é casado? A gente pode falar que vai vazar os dados para mulher dele”

“Eu nem sei se ele é homem. Coloca que a gente vai vazar os dados e vê se ele responde”.

Bem, eu não respondi. Fiquei fumando e apenas olhando a tela, esperando algo acontecer. E algo aconteceu. Instantes depois apareceu a palavra “digitando...” do lado da foto da Mulher Elástica.

Achei meio amador, sabe?

Hitchcock disse certa vez que ao invés de mostrar algo assustador na tela, é melhor sempre apenas insinuar. Ao fazer isso, ele deixa a plateia imaginar o que pode acontecer – e a plateia sempre vai imaginar horrores muito maiores do que aquele que ele iria colocar na tela.

Eu, no lugar do cara, teria dado alguns minutos de silêncio, deixando minha imaginação adivinhar quais dados seriam vazados.

No começo, eu provavelmente pensaria que não tenho dado nenhum para vazar. Mas claro que ia continuar pensando nisso. Aí, por segurança, ia abrir minha pasta de fotos e dar uma olhada. Vai que, né? Depois, ia achar que talvez fosse melhor mudar a senha do banco.

E, cinco minutos depois, ia concluir que talvez seja mais fácil pagar o Pix do cara do que ficar abrindo todas minhas pastas para ter certeza se aquelas fotos do Réveillon de 2019, que eu estou bêbado e correndo com a bunda de fora na praia, foram realmente apagadas.

Mas, não. O cara não leu o livro do Hitchcock. Ao invés disso, ele usou a estratégia de mandar o goleiro para a área, para tentar cabecear o escanteio. E logo em seguida o goleiro chegou, com a mensagem

“VOU VAZAR SEUS CARTÕES, SUA LOCALIZAÇÃO, TUDO. PAGA O PIX.”

Me senti até um pouco ofendido, sabe? É como se na primeira mensagem ele tivesse mandando um “oi, sumido, como você está” e, 2 minutos depois – e antes que eu respondesse – já tivesse mandado uma foto pelado no meio da cozinha. Bicho, eu não sou fácil assim.

Mas, enfim... Agora temos dados mais concretos para saber com o que estamos lidando.

Minha localização? Isso pode vazar. Olha, eu moro na Vila Mariana, perto do Hospital São Paulo. Como referência, você pode procurar um delivery de bebidas 24 horas. Na frente desse delivery, vão estar quatro motoboys ouvindo funk no máximo e dando gargalhadas.

Vá até os motoboys e olhe para o prédio ao lado deles. É um prédio branco, de esquina. Se você olhar pela janela do primeiro andar, vai ver uma pessoa careca andando de um lado para o outro e socando a parede, implorando para que os motoboys calem a boca por um minuto.

Esse careca sou eu. Essa é minha localização. Então isso não é  exatamente um segredo.

Meus cartões?

Bem, como acontece com boa parte dos brasileiros hoje, meus cartões são pedaços de plástico que valem exatamente isso: pedaços de plástico. Inclusive, eu estou sempre com a cabeça raspada porque uso um deles como navalha, como já diria Cazuza. Cara, quer vazar meus cartões? Vaza aí.

Aliás, tive uma ideia e pensei em ligar para o golpista.

“Oi, cara. Sou eu, a vítima. Tudo bem? Seguinte... Você quer o número dos meus cartões? Então vamos fazer assim. Eu te passo o número e a senha. Mas antes disso eu vou ligar lá para atualizar meu cadastro e passar o seu telefone como contato. Pode ser? Porque, na boa? Eles me ligam 45 vezes por dia querendo saber quando eu vou pagar. Então, se você quiser, eu te passo o número dos cartões, mas aí você assume essas ligações. Combinado?”

Não. Não ia rolar. Provavelmente o cara ia desligar na minha cara com medo de eu fazer isso. Eu, no lugar dele, desligaria na mesma hora.

Bem... Localização. Cartões. O que falta vazar? Meus textos? Minha pasta de textos é tão bagunçada que ele iria gastar mais dinheiro com o golpe contratando alguém para arrumar aquilo do que com a grana que ele ganharia.

Nudes? Bem, aí a coisa também é complicada. Pensa comigo: o que a pessoa vai fazer com um nude meu? Ligar para a prefeitura e fazer ameaças, exigindo 5 milhões de dólares em 48 horas, caso contrário vai projetar uma foto minha pelado num prédio da Paulista? Nem vilão de quadrinhos faria isso.

Meu cigarro estava acabando e pensei em mandar uma resposta para ele.

Queria perguntar que dados exatamente ele iria vazar, e onde ele faria isso. E não por medo, mas sim para ver se conseguia ajudar o cara. Tipo, “não joga no Twitter agora, tenta jogar amanhã depois do almoço. É sexta, e esse horário tem mais engajamento”. Ou “se jogar no Instagram, tem como me marcar na foto, para eu conseguir uns seguidores?”

Mas não deu tempo de novo. Lá estava novamente:

“DIGITANDO...”

Pensei: ah, agora ele vai dar o cheque mate. Vai colocar meu extrato do banco pra mostrar que não está brincando, ou uma foto minha falando com ele no computador. Imagina que demais? O cara ter uma foto minha tirada enquanto falo com ele? Putz, aí seria demais! Respeito total!

Mas não. A mensagem que pipocou na tela foi apenas

“NÚMERO ERRADO. DESCULPE.”

E apagou todas as mensagens.

Número errado, cara?! Sério?!

Que brochante. Fiz toda uma fantasia sobre meus dados serem vazados e pronto. Tomei um ghosting. Lá se foi o golpista, depois de fazer ameaças e prometer que vazaria meus dados, em busca de outra pessoa. Me descartou, assim, do nada.

Hoje conversei com algumas pessoas, que disseram para eu eu não esquentar a cabeça. Falaram que golpista é tudo igual, eles não prestam mesmo. Falaram até que o que é meu está guardado, e ainda vou achar um contraventor que me dê valor e me mereça. Mesmo assim... Não sei... Não consigo parar de pensar que o problema é comigo.

Acho que é hora de eu me tornar uma pessoa com dados mais interessantes. E parar de criar expectativas com todo golpista que aparece no meu celular.

Epílogo: meia hora depois meu telefone tocou. Corri para atender, torcendo para que fosse o golpista, dizendo que se arrependeu, implorando meu perdão, que nunca encontrou alguém com dados tão interessantes como eu, e que eu preciso fazer o Pix dele. Mas não. Era o filho da puta do cartão de crédito me cobrando. Bloqueei o número e fui dormir agarrado ao travesseiro e ouvindo All by Myself.

22 de setembro de 2020

A Esfinge e o Espaço-Tempo

 

Aconteceu um dia desses, quando fomos buscar a chave do apartamento novo.

O quê? Você não sabia que nós mudamos para um apartamento?

Bem, claro que você não sabia, já que minha rotina deixou de aparecer aqui nesse blog há alguns anos. Mas, enfim, ao invés de explicar as dezenas de motivos que me fizeram desaparecer daqui, creio que o melhor a fazer é simplesmente voltar a escrever, certo? E isso nos leva de volta para a frase que abre esse texto:

Aconteceu um dia desses, quando fomos buscar a chave do apartamento novo.

Para isso, tivemos que ir até a imobiliária, paramentados com máscara, álcool em gel... Oi? Não, eu realmente não quero explicar porque parei de escrever aqui. Desculpa, como? Não, o blog é meu, eu não quero ter que ficar dando explicação. Combinado? Vamos continuar?

Chegamos na imobiliária por volta das 17 horas. É uma imobiliária pequena, apenas uma casa com um plaquinha na frente, sem estacionamento ou aquele entra-e-sai de clientes, motoboys e corretores. Toquei a campainha e encharquei a mão com álcool em gel.

Certo. É a última vez que vou tocar nesse assunto. Tem vários motivos para eu ter parado de escrever aqui, e um deles é falta de tempo, porque eu tenho escrito muitas coisas para trabalho, então quando consigo um momento de folga, prefiro descansar fazendo outras coisas. Mas agora eu tenho uma história legal para contar e estou tentando colocar ela aqui. Então, pela última vez: alguém tem algo mais para falar?

Não?

Ninguém?

Posso contar a história?

Ótimo. Então vamos lá.

Aconteceu um dia desses, quando fomos buscar a chave do apartamento novo. Chegamos na imobiliária por volta das 17 horas. É uma imobiliária pequena, então é apenas uma casa com um plaquinha na frente, sem estacionamento ou aquele entra-e-sai de clientes, motoboys e corretores. Toquei a campainha e encharquei a mão com álcool em gel.

A recepcionista abriu a porta e eu entrei. Avisei que estava ali para pegar uma chave e dei o endereço do apartamento. Ela começou a procurar dentro das gavetas. Tudo parecia normal até ela erguer os olhos na minha direção e decidir que seria bacana estraçalhar com as leis da Física.

“Se você tivesse chegado cinco minutos atrás, não encontraria ninguém aqui.”

Certo. O que essa informação faz você pensar? Que cinco minutos antes não havia ninguém na imobiliária, certo? Bem, foi isso mesmo que eu pensei. Aliás, eu não só pensei como falei em voz alta.

“Ah, então, você acabou de chegar aqui?”

“Não. Eu quis dizer que já estava indo embora”, ela respondeu, ainda procurando pela chave.

Fiquei em silêncio pensando no que ela havia dito. Repassei a frase inteira na minha cabeça, palavra por palavra, tentando encontrar o sentido daquilo e falhei miseravelmente.

“Olha”, eu disse, “mas eu só não encontraria ninguém aqui se você não estivesse aqui cinco minutos atrás”.

“Sim, você deu sorte”.

“Mas meu ponto é que você estava aqui cinco minutos atrás, certo?”

“Sim.”

“Então você concorda”, eu disse, tentando parecer o mais claro possível, “que se eu tivesse chegado cinco minutos atrás, eu teria encontrado você aqui?”

“Mas eu já estava me preparando para ir embora.”

Tentei respirar fundo, mas a máscara me atrapalhou um pouco. Paciência, faz parte. Apoiei as mãos no balcão, fazendo uma nota mental de passar álcool em gel depois, e tentei me fazer claro.

“Olha, o que importa para a gente é que você estava aqui cinco minutos atrás. Você estava neste espaço neste tempo determinado. Se eu aparecesse neste mesmo espaço ao mesmo tempo, eu teria encontrado você”.

“Mas eu iria embora daqui a cinco minutos. Você deu sorte”.

“ISSO NÃO É SORTE! Desculpe, às vezes eu grito mas é porque a máscara me atrapalha. Juro. Então, isso não é sorte. É Física. O tempo é uma seta. Você não consegue mexer o passado. O fato de você decidir que vai embora daqui a cinco minutos não significa que você não estava mais aqui cinco minutos atrás.”

“É que tem dias que a gente fecha mais cedo”.

Foi quando eu comecei a perceber que o tempo naquela imobiliária não funciona direito. Todo o espaço-tempo ali é distorcido por causa das atração gravitacional de um buraco negro, cuja singularidade é a vontade infinita da recepcionista de ir embora mais cedo.

Aparentemente, sua vontade de ir embora do trabalho causa um rombo no espaço-tempo: a sua vontade de ir embora do trabalho é tão grande que faz com que ela nunca esteja realmente no trabalho. É quase a Teoria da Relatividade aplicada a funcionários públicos. Ou isso, ou eu estava em alguma espécie de spin-off de Dark e vai saber se aquela recepcionista não é minha filha que ainda não foi concebida.

Eu tomei fôlego e me preparei para pedir a ela um papel e uma caneta para traçar uma seta e explicar como o tempo funciona, mas ela me interrompeu.

“Olha, a chave não está aqui. Está com o porteiro do prédio.”

E isso era verdade. Quer dizer, eu sabia que o porteiro tinha uma chave, mas não fazia ideia se a imobiliária estava com outra cópia. Além disso, eu precisava assinar o recibo de entrega das chaves, então eu teria que ir para a imobiliária de qualquer maneira. Mas mesmo se eu tivesse perdido a viagem, sem pegar chave nem ter nada para assinar, a mudança de assunto foi mais que bem vinda.

“Certo. Então eu pego com ele”.

“Você pode assinar o recibo? Que diz que a chave foi entregue?”

“Claro”.

Ela colocou dois papeis na minha frente. Na verdade, eram duas cópias do mesmo papel. Tudo o que eu precisava fazer era assinar e deixar aquela falha no espaço-tempo para trás.

“Eu preciso que você assine todas as vias. Uma é nossa, outra é sua e outra precisa ser entregue para a síndica.”

“Como?”

“Uma é nossa, outra é sua e outra da síndica.”

Eu olhei para as folhas, para a recepcionista e de volta para as folhas. Comecei a me sentir como se participasse de alguma dinâmica de grupo para poder visitar um universo paralelo. Primeiro, eu havia tomado pau em Física porque o tempo não funciona como imaginei; agora, era hora de tomar pau em História, tentando decifrar o enigma de uma pequena Esfinge Imobiliária.

“Mas tem só dois papeis aqui”, respondi.

“Sim. Uma via fica aqui, outra vai para a síndica e a terceira é sua.”

“Exato. Eu, você e a síndica. Somos três. Mas tem só dois papeis aqui”.

“É que é uma cópia para cada um”.

Respirei fundo de novo e quase engasguei com a máscara.

“Olha, eu juro que estou tentando jogar de acordo com as suas regras. O problema é que parece que a situação aqui não tem regras e elas, mesmo não existindo, mudam o tempo inteiro”.

“Quer uma caneta?

“Sinceramente? Não sei.”

“Mas você precisa assinar.”

“Eu não estou discutindo isso. O meu problema é que o que você falou não faz o menor sentido. Aliás, nada do que você disse desde que eu cheguei aqui faz qualquer tipo de sentido”.

“Uma via fica aqui, outra vai para a síndica e a terceira é sua.”

“EU SEI DISSO! Desculpe, é a máscara de novo. Olha, faz o seguinte, me dá a caneta. Pronto. Onde eu assino?”

“Aqui”, ela apontou um papel, e “aqui”, disse, apontando a folha de baixo.

“Certo”, respondi assinando. “Isso é uma via”.

“Isso”, ela falou. “A outra você leva”.

“E a da síndica?”

“É a sua.”

“Você sabe que eu e a síndica não somos a mesma pessoa, certo? Que neste universo, onde o tempo funciona como uma seta, duas pessoas não podem ser a mesma pessoa. Você consegue enxergar isso?”

“Como assim?”

“Nada. Esquece. Eu... Eu estava pensando em outra coisa. Olha, eu estou com um pouco de pressa, só preciso levar esses papeis, certo?”

“Isso.”

Agradeci e fui embora. Só quando olhei papéis na calçada eu descobri o que havia acontecido. Eu assinei a folha A e a folha B; a segunda via tinha uma cópia da folha A (para mim), e uma da folha B (para a síndica). Ou seja, não era exatamente o que ela falou. Aliás, era bem diferente do que ela falou.

Olhei para trás e pensei em entrar na imobiliária novamente para explicar isso. Mas mudei de ideia, afinal, haviam se passado trinta segundos e a recepcionista já poderia ter ido embora. Ou talvez ela tivesse acabado de chegar. Ou talvez ela nunca tenha estado ali e, ao mesmo tempo, esteja sempre ali.

Bem, eu é que não ia ficar mais ali, esperando alguma criatura de outra dimensão aparecer no portão perguntando se eu vim pegar as chaves e que está há horas me esperando.

Encharquei minhas mãos com álcool em gel e fui embora.


25 de julho de 2017

Antropologia da Mudança

Não, eu não encerrei o blog.

Não, eu não parei de escrever ficção.

Mas foram várias semanas – na verdade, foram alguns meses, mas “várias semanas” soa menos agressivo – sem escrever no blog por pura falta de tempo. Foram semanas sem postar no blog, mas escrevendo muito; foram semanas sem postar no blog por causa de muita coisa acontecendo. Aos poucos, vou falando sobre isso aqui. Mas sim, os blogs ainda estão de pé e a ideia é que voltem à frequência normal de agora em diante.

E para provar isso, vou contar uma pequena história, sobre a mudança de casa. Sim, enquanto eu escrevo isso estou cercado de pilhas de livros e caixas vazias (ou, dependendo da caixa, com um gato dentro) porque vamos nos mudar para outro bairro.

Você já mudou de casa? É a coisa mais desesperadora do mundo. E não estou falando daquele processo que envolve colocar tudo o que você tem dentro de caixas, levar para outro lugar e tirar tudo o que você tem de dentro das caixas. Aliás, poucos eventos ilustram tão bem o quanto a humanidade é atrasada quanto se mudar para uma casa nova.

Vamos voltar para a aurora do homem (2001 – Uma Odisseia no Espaço mode: on) e pensar nos primeiros homens. Eles eram nômades, ou seja, não tinham endereço fixo – o que deveria dificultar muito a vida dos carteiros e das empresas de cobrança. Eles moravam no mesmo lugar até a comida daquela região acabar. Quando isso acontecia, eles juntavam tudo o que tinham e, sei lá, embolavam tudo em folhas de bananeira, colocavam nas costas e levavam para outro lugar.

E é mais ou menos que eu faço hoje com as caixas de papelão. Milênios de evolução, avanços científicos e descobertas fantásticas, e tudo o que conseguimos a respeito das mudanças foi trocar as folhas de bananeira por caixas de papelão. O resto ficou exatamente igual.

Não é possível que pessoas como Leonardo da Vinci ou Thomas Edison sequer pensaram que o processo de mudança podia ser mais fácil.

– Leonardo? Vem almoçar!

– Já vai. Estou pensando um modo de fazer a mudança ficar mais fácil.

– Que mudança?

– Quando as pessoas mudam de uma casa para outra. Isso não devia ser tão difícil.

– Mas você vai mudar?

– Não. Mas se houvesse um jeito de transportar os objetos de uma casa para outra sem que eles fossem carregados...

– Isso é impossível.

–Talvez se eles pudessem ser arremessados da casa antiga para a nova...

– Depois você pensa nisso! A comida está esfriando!

– OK.

Aí depois do almoço um mercador chamado Giocondo entrou ali pedindo ao Leonardo da Vinci para pintar um quadro da esposa dele. Como o Leonardo não estava planejando mudar de casa e também tinha contas para pagar, ele acabou perdendo o foco e pronto: o processo de mudança continua o mesmo. Por causa disso: séculos depois eu preciso ir até o mercado.

– Você tem caixas de papelão para me arrumar?

– Você vai comprar algo?

– Bom... Não. Eu queria só as caixas.

– As caixas são apenas para os clientes.

– Certo. Então vou levar esse chocolate. Você tem caixas de papelão?

– Tenho essas três.

– Não tem maiores?

– Não, senhor.

– Mas é que essas duas são do tamanho de uma caixa de sapatos. E esta outra aqui parece um porta joias.

– Mas elas são de papelão, como o senhor queria.

– Ah.

– Algo mais?

– Você não tem folhas de bananeira, tem?

– O senhor vai comprar algo?

– Esquece. Obrigado.

Então, nesse quesito, ainda estamos na pré-história. A única vantagem é que pelo menos eu posso ficar colocando as coisas dentro da caixa sem ter medo que a Era Glacial comece um dia antes da previsão do tempo. Por outro lado, nós conseguimos ainda inventar uma desvantagem em relação aos primatas. Porque quando os pré-históricos queriam se mudar de um lugar para o outro, eles simplesmente iam.

E nós precisamos falar com as imobiliárias.

Em algum momento, uma parte da humanidade fez alguma curva errada no caminho evolutivo e chegou a um beco sem saída. Assim, sem conseguir se desenvolver direito, esses indivíduos foram trabalhar com imóveis para tentar sobreviver. Vamos ser sinceros? Se existissem imobiliárias na pré-história, a raça humana já estaria extinta.

– Senhor Rorgh?

– Sim.

– Aqui quem fala é Ugh, da Cenozoica Imóveis. Tudo bem com o senhor?

– Sim, obrigado.

– Eu tenho um recado aqui que o senhor está procurando uma caverna em região tropical com caça abundante para o senhor e sua tribo. É isso mesmo?

– Sim.

– Eu tenho uma oportunidade ótima para o senhor. Tenho um lançamento com três pinheiros que estão com preços ótimos.

– Pinheiros?

– Isso. São perfeitos para quem adora dormir em cima de galhos, com toda aquela segurança que só um pinheiro consegue proporcionar. Isso sem falar na vista, que é maravilhosa. E tem um lago ali perto que é uma ótima área de lazer.

– Mas eu pedi uma caverna.

– Mas esses pinheiros estão por um preço ótimo. E é uma região do Alasca que vai valorizar bastante.

– No Alasca? Onde é isso?

– O senhor está onde, hoje?

– Na Amazônia.

– Ah, o Alasca é pertinho. O senhor não vai nem sentir a diferença. E é uma área muito charmosa. E a caça é ótima. Está cheio de alces, ursos-polares...

– O que são alces?

– Alces são tipo cavalos com chifres. A carne é bem gostosa. Vamos agendar uma visita? Pelas minhas contas, o senhor deve demorar cerca de vinte meses para chegar ao imóvel. Então, que tal agendarmos uma visita para 28 de março de 104.029 antes de Cristo? Está bom para o senhor?

– Bom, eu preciso falar com a minha esposa.

– Então, ótimo. Amanhã eu volto a ligar. Foi um prazer, senhor Rorgh.

A visita foi agendada. Rorgh juntou toda sua tribo e começou um longo processo de imigração, atravessando um continente inteiro para conhecer o imóvel. Foram meses enfrentando o clima, animais selvagens e outras tribos. Muitos de seus amigos e parentes ficaram pelo caminho. E, no dia marcado chegaram ao seu destino.

Esperaram um mês e meio ao lado dos Pinheiros, até se convencerem de que o corretor não iria aparecer. Então decidiram retornar para a Amazônia, apenas para descobrir que a região onde moravam estava ocupada por outra tribo e estavam sendo processados pelo proprietário por mais de três anos de aluguel atrasado.

Ultimamente, tivemos que falar com vários descendentes de Ugh aqui em casa. São primatas que não sabem a diferença entre casa e apartamento, casa e chácara (e, em um dos casos, casa e túnel) e que acreditam que tanto a Vila Mariana como Londrina e Kosovo estão na Zona Sul de São Paulo.

Mas finalmente conseguimos uma casa nova. Mas, antes mesmo de sair procurando por caixas ou folhas de bananeira, começaram os problemas com a imobiliária que, prometo, contarei no post seguinte. 

12 de abril de 2017

Rob Gordon X Taxista Pensador

Assim que eu entrei no carro, disse para onde ia e o taxista deu a partida. Ainda no primeiro quarteirão, ele falou.

– Sabe o que eu queria?

Foi assim mesmo. A seco. Sem nenhuma preparação, sem nenhum assunto prévio, nada. Ele fez a pergunta como se estivesse concluindo uma longa conversa da qual eu não fazia parte. Mesmo assim, resolvi participar.

– O quê?

– Eu queria ser rico. Ser muito rico. Mas não rico por ser rico, e sim rico para poder ficar em casa. Eu queria ficar em casa sem fazer nada, apenas pensando. Queria ficar na frente do computador pensando o dia inteiro.

– Mas pensando sobre o q...

– Sabe? Acorda de manhã, começa a pensar. Liga o computador e continua pensando. Lê as notícias e continua pensando. Isso que é vida.

– Olhe, eu trabalho em casa na frente do computador e não é bem as...

– Aí vou almoçar pensando. Termino o almoço, volto para o computador e continuo pensando. Passar a tarde inteira pensando. E fico ali pensando até a hora do jantar.

– Então, mas eu trabalho na frente do computad...

– Queria ficar o dia inteiro pensando. Na frente do computador, pensando.

– Eu estou tentando falar qu...

– Pensando. Pensando. Pensando.

– Oi?

– Pensando. Pensando. Pensando. Pensando.

– Olhe, é só uma curiosidade, mas o senhor está tentando me hipnotizar?

– Se eu não pudesse passar o dia inteiro em casa pensando, sabe o que eu gostaria?

– Não.

– Ser político. É isso. Eu queria ficar pensando ou ser político.

– Eu concordo que essas atividades realmente parecem bem longe uma da outra, mas, nesse cas...

– Eu sempre adorei política. Aliás, quando eu disse que queria ficar pensando em casa, uma das coisas era pensar sobre política.

– Sabe o que eu queria? Terminar uma única fr...

– E ser político no Brasil é fácil. Você precisa de dinheiro, claro. Mas não só isso. Você precisa de promessas. Promete isso, promete aquilo, promete aquele outro ali e pronto. Com dinheiro, você ganhou a eleição. E aí sabe o que eu faria? Iria para casa pensar.

– Eu desisto.

– Ia acordar de manhã e ficar pensando. Ligar o computador e continuar pensando. Ler todas as notícias e continua pensando. Isso que é vida.

– Certo.

– Quer dizer, eu não ia ler todas as notícias. Ia ler só aquelas que me interessam. Aquelas que você vê que não está sendo manipulado. Agora... As outras... Aquelas que manipulam você... SABE O QUE EU IRIA FAZER COM ELAS?

– Hum... Não ia ler?

– ISSO! EU NÃO VOU PERDER MEU TEMPO LENDO UMA NOTÍCIA QUE ME MANIPULA!

– Olha, mas aí o senhor tem um problema. Porque para saber se a notícia é manipuladora, você precisa ler essa not...

– EU NÃO IA LER!

– Certo. Desculpe.

– Porque eu não vou fazer como aquelas pessoas que não leem nada, aí formam uma opinião errada e saem por aí repetindo burrices.

– Entendi.

– Mas eu não vou ler as notícias manipuladoras. Só as outras. Você sabe de quais eu estou falando.

– Sei?

– As que me fazem pensar!

– Entendi.

– O que você acha do meu plano?

– Olhe, eu acho que...

– Você não acha que ele pode funcionar?

– Então, eu acho que o senhor...

– Porque eu tenho certeza que eu vou ser uma pessoa melhor fazendo isso.

– Bem, o que eu acho parece não fazer muita diferen...

– Uma pessoa mais esclarecida.

– Sim.

– Eu ia ser melhor assim. Lendo e pensando. Lendo e pensando. Lendo e pensando.

– Isso é a hipnose de novo?

– Lendo e pensando o dia inteiro.

– E a política?

– A política também. Sendo político, lendo e pensando. Sendo político, lendo e pensando. Sendo político, lendo e pensando. O dia todo.

– Certo.

– E pensando sobre política também.

– Sim, eu já havia imaginado isso.

– Especialmente política internacional. Adoro política internacional. Você gosta de política internacional?

– Entra aqui à direita. É nessa rua.

– Eu adoro. Sabe o que eu queria?

– Ficar em casa pensando?

– Além disso.

– Ser político?

– Além disso.

– Ser político para poder ficar em casa pensando?

– Uma guerra entre Rússia e Estados Unidos!

– Meu Deus do céu.

– Mas isso nunca vai acontecer. Não enquanto eu estiver vivo.

– É na próxima quadra.

– E eu queria ver só para descobrir quem ia ganhar a guerra.

– Entendi.

– Porque aí, depois da guerra, eu ia para casa.

– E ficaria pensando?

– EXATAMENTE!

– Entendi. Olha, é naquele portão marrom ali.

– Sabe o que eu acho dos coreanos?

– Obrigado. Quanto deu?

Desci do carro e vi o taxista ir embora. E fiquei cinco minutos em pé na calçada, fumando um cigarro e tentando me convencer que nada daquilo tinha acontecido. 

10 de abril de 2017

A Vida é Cheia de Som e Fúria

Aí não teve jeito e eu coloquei um CD do Megadeth.

Calma. O post não começou pela metade e eu garanto que logo você irá entender direito o que isso significa. Essa vai ser uma daquelas histórias que começa no presente, volta para o passado num flashback nostálgico e depois voltamos para o presente, onde tudo se encaixa.

Então, vamos direto para o flashback, que começa mostrando uma ruazinha de São Paulo. São várias casas e o Sol está batendo nos quintais. Temos a impressão de que é um sábado de manhã. Essa é a rua onde eu morava.

E, como acontece em todo flashback, agora começa um narração em off, comigo dizendo para vocês que quando eu era moleque, na rua onde eu morava tinham vários garotos da minha idade. Era uma enorme turma. E éramos adolescentes, então algo que quase todos tínhamos em comum era o gosto pela música. Estou falando do final dos anos 80 e começo dos 90, naquele curto período entre o hard rock e o heavy metal voltarem à moda e o grunge mudar tudo de novo.

E, como você deve imaginar, cada menino ali tinha a sua banda preferida – quem acompanha esse blog sabe que a minha era Iron Maiden. Mas, paralelamente, existia também uma espécie de caça pela banda mais pesada do mundo.

Quando descobrimos Megadeth, achamos que tínhamos encontrado. Mas aí alguém apareceu com um disco do Slayer e o Megadeth perdeu a liderança. Depois, comprei o Arise do Sepultura, que havia acabado de ser lançado e a tabela de banda mais pesada do mundo foi novamente alterada.

Mas alguns dos garotos não participavam disso, preferiam ouvir as bandas que tocavam na rádio e pronto. E beleza: como não existiam redes sociais, ninguém ali era obrigado a ouvir a mesma música que a maioria estava ouvindo como acontece hoje.

Só que eu também não era obrigado a ouvir Aerosmith às nove da manhã de sábado.

Antes que algum fã de Aerosmith jogue pedras em mim, deixo claro aqui que gosto da banda, especialmente da fase dos anos 70 – dos anos 90 em diante a banda perde um pouco da graça para mim, mas eu ainda gosto da fase Cryin’ e Crazy (mesmo que um pedaço do meu cérebro insista em me avisar que essa duas músicas são a mesma).

Mas vamos deixar a banda de lado por um momento. O menino que morava na casa ao lado da minha não participava da busca pela banda mais pesada do mundo. E tudo bem. O problema é que esse menino era o típico adolescente que só ouvia música no volume máximo quando estava sozinho em casa. E mesmo naquela época nós sabíamos que era fácil demais fazer isso com os pais fora de casa.

Se você é adolescente, deixa eu te dar um aviso: o disco do Slayer no máximo soa muito melhor quando seus pais estão em casa tentando ver TV. Se você está sozinho em casa a música não é a mesma. É como se ela estivesse sem o baixo. Você reconhece a música, e ela ainda é legal, mas... Não sei. Falta algo.

Bem, esse garoto só ouvia música no máximo – e cantando junto, aos berros, para demonstrar ao mundo que estava na adolescência e então era revoltado – quando estava sozinho em casa. E um sábado ele resolveu fazer isso. Às nove da manhã. Com Aerosmith.

Não sei até aonde alguém pode parecer revoltado cantando Crazy, mas... Enfim. Hoje eu sei que aquilo era o direito dele. Só que naquele sábado eu não pensava assim.

Isso porque além de procurarmos a banda mais pesada do mundo, nós também caçávamos a bebida mais forte do mundo. Essa busca era meio ingrata, porque já que gastávamos todo nosso dinheiro com discos, tudo o que conseguíamos beber era Velho Barreiro. Mas isso já era suficiente para eu voltar para casa trançando as pernas, nas madrugadas de sexta e sábado. Aliás, qualquer dia eu escrevo mais sobre esses porres, porque o que não faltam são histórias sobre isso. Mas vamos voltar ao Aerosmith.

O menino ligou o som no volume máximo às nove da manhã. Dez horas antes disso, eu havia começado a beber. Três horas antes disso, eu havia entrado em casa totalmente encharcado de pinga e deitado, feliz da vida porque eu não teria hora para acordar.

E dois minutos depois do Steven Tyler começar a gritar na casa ao lado, eu estava sentado na cama – ainda bêbado – tentando entender primeiro porque eu estava acordado e segundo, que merda era aquela. Dez segundos depois disso, eu estava descendo as escadas, bêbado de sono, bêbado de álcool e bêbado de ódio.

Meu sono embriagado e sagrado do sábado de manhã estava destruído e eu precisava fazer algo a respeito disso. Olhei ao redor procurando por uma ideia. Não encontrei ideia nenhuma, mas sim uma das caixas de som enormes, herdadas do toca discos que era da minha avó.

Não precisei pensar muito. Abri a porta e coloquei a caixa de som ali, virada para o quintal. Peguei a outra caixa de som, agradecendo a Deus por ela ter um cabo de uns cinco metros, e coloquei em cima da outra. Nesse momento, minha mãe entrou na sala prevendo o pior e perguntando o que eu iria fazer.

Eu ignorei e fui até o armário de discos. Procurei pelo Arise e coloquei para tocar, pulando o volume do dois para o nove. Escolhi essa música abaixo, porque ela tem uma introdução de alguns segundos sem muito peso, e eu queria que o menino da casa ao lado soubesse o que iria acontecer com ele antes da pauleira começar. Sim, eu jogo limpo e não ataco pelas costas.

Décadas atrás.

Mas a introdução acabou e os riffs começaram a fazer as janelas tremerem. A bateria fazia o chão vibrar como se eu tivesse instalado um bate estaca no meio da sala. E a voz do Max Cavalera fez metade dos vizinhos abrirem as janelas e olharem para o alto, procurando por algum dos cavaleiros do apocalipse no céu.

O Phil Spector, produtor que inventou o conceito de parede sonora, ficaria orgulhoso do que eu estava fazendo. Por outro lado, como hoje o Phil Spector está na cadeia condenado por homicídio, talvez seja melhor pularmos essa parte.

Durante o solo de guitarra, percebi que minha mãe, ali na sala, parecia gritar alguma coisa. Ela estava olhando para mim e seus lábios se moviam, enquanto ela fazia gestos que podiam significar tanto “abaixe essa merda” como “eu vou matar você”. Na verdade, acho que os gestos significavam as duas coisas. Tudo o que fiz foi torcer para que ela soubesse ler lábios e responder que “desculpe, eu não consigo ouvir o que você diz”.

Duas músicas depois, o Steven Tyler estava em silêncio, provavelmente escondido dentro da caixa do CD. E o garoto da casa ao lado estava num silêncio ainda maior. Desliguei a música, arrumei as caixas de som e voltei para o quarto, ainda meio bêbado. Dormi até às 14h.

Mas logo depois que eu me deito temos uma fusão, indicando uma grande passagem do tempo e que o flashback acabou. Sim, nossa história volta ao presente. Hoje eu sou casado e me tornei um adulto responsável. Ou pelo menos eu disfarço muito bem.

Quem leu o último post sabe que a casa ao lado da minha foi ocupada por um advogado que reza em juridiquês e não deixa ninguém dormir. E eu estava lidando muito bem com isso até uns dias atrás, quando ele encheu sua casa de pessoas.

Ok, ele pode dar festas. Eu mesmo dou festas em casa. Só que quando eu dou festas em casa, eu não peço para uma pessoa ficar ao lado do muro, perto da porta do vizinho, cantando no máximo.

Foi isso que aconteceu. Eu estava no PC e comecei a ouvir gatos brigando. Fui até o quintal e vi que não eram gatos, mas sim uma mulher de seus vinte e cinto, trinta anos, com fones de ouvido, cantando de forma desafinada e aos berros. Ainda dava gritinhos e fazia dancinhas.

Não foram cinco minutos disso, e sim quase uma hora. Um momento eu peguei o trecho de uma música e joguei no Google, descobrindo que era daquela dupla Maiara & Alguma Outra Menina que Começa com Ma Mas não É Maiara que já vi as pessoas falando no Twitter.

E mesmo as pessoas da casa do vizinho estavam pedindo para ela parar de cantar, mas ela respondia que “estou agitada e preciso cantar para espairecer”. Eu pensei em gritar de volta que “estou trabalhando e preciso de silêncio para escrever”, mas como falei alguns parágrafos acima, agora eu sou adulto e lido melhor com isso.

E sim, eu imediatamente me lembrei do famoso sábado do Sepultura, que é como meu cérebro arquivou os acontecimentos que vocês viram no flashback, mas, mais uma vez: eu sou adulto. Eu consigo coexistir no mesmo mundo que Maiara & Marrakesh. Respirei fundo e tentei me concentrar.

Só que minha concentração acabou de vez quando a Esposa passou pela sala carregando o som que fica na cozinha. Acompanhei com os olhos enquanto ela colocou o aparelho na janela da sala e ligou o CD que estava lá dentro. Rolling Stones.

“Eu vou deixar esse CD tocando até essa mulher calar a boca”, ela disse.

Meu impulso foi dar um pulo e socar o ar, comemorando que “liberou geral”. Mas mantive as aparências de adulto e apenas olhei com cumplicidade para minha coleção de CDs, que olhou de volta para mim e sorriu. Nosso momento estava chegando.

O plano da Esposa não deu certo. O som era baixo demais. Maiara & Macedônia continuavam gritando. Peguei um CD e fiz uma sugestão: “olha, eu posso tentar com esse disco aqui”. Ela fez que sim e eu coloquei Slayer para tocar. Seasons in the Abyss.

Continuou sem efeito, por vários motivos. Primeiro, a janela fica muito distante de onde a Maiara & Mamadeira estavam se apresentando. Segundo, o som da cozinha não tem um volume muito alto. Terceiro, eu odeio todos os CDs mais antigos do Slayer porque eles têm uma mixagem horrível e o som é abafado.

Não havia mais jeito. Virei para a Esposa e perguntei se podia tentar do meu jeito. Ela disse que sim e eu abracei minha estante de CDs, dizendo que “meninos, temos autorização oficial”, sentindo meus dezesseis anos voltarem a correr pelo meu corpo.

Tranquei os gatos no quarto. Abri a porta da sala e ouvi Maiara & Mahabharata cantando. Liguei o aparelho de som da sala. As caixas de som não eram as da minha avó, mas eram melhores – bem melhores – que as do som que estava na janela. Como referência, nas festas aqui em casa eu deixo o volume (que vai de 0 a 40) abaixo do 20.

Peguei um CD que foi feito especialmente para este tipo de situação: Rust in Peace, do Megadeth, remasterizado e remixado e que se vira muito bem no volume 15. Coloquei no 40 e dei o play. E dessa vez sem introdução porque não é sempre que eu jogo limpo.

Hoje.

Os riffs começaram a fazer as janelas tremerem. A bateria fazia o chão vibrar como se eu tivesse instalado um bate estaca no meio da sala. E a voz do Dave Mustaine fez metade dos vizinhos abrirem as janelas e olharem para o alto, procurando por uma revoada de corvos.

Fui até o quintal duas músicas depois e vi que Maiara & Mariposa estavam em silêncio. A garota havia sumido com suas dancinhas e gritinhos. Problema resolvido. Tanto que a Esposa se aproximou e disse que eu podia desligar o som.

Claro que eu não virei para ela e respondi que “desculpe, não estou ouvindo você falar”, porque eu podia ter me tornado novamente um adolescente, mas ainda tinha noção do perigo. Então, decidi jogar limpo.

“Eu vou deixar mais duas músicas, pelo menos”.

“Mas a imbecil já calou a boca.”

“Sim. O que eu estou fazendo agora é enviar uma mensagem ao vizinho”.

E era verdade. As últimas duas canções mostraram para o vizinho que, na minha casa, sempre existirá pelo menos uma música a mais. E ela sempre será mais pesada. E ela sempre tocará mais alto.

Desde então, Maiara & Madeira desapareceram e estou chamando minha coleção de CDs de heavy metal de Terror Moral. E estou seriamente pensando em tocar a campainha da casa do vizinho e me apresentar, dizendo que “muito prazer, sou seu novo vizinho e meu nome é Horror.”

E se o vizinho da casa ao lado não entender, eu vou sugerir que ele assista a Apocalypse Now, especialmente a cena em que o Marlon Brando diz que “o horror tem um rosto, e você deve se tornar amigo do horror. O horror e o terror moral são seus amigos. Senão, eles são inimigos a serem temidos. Eles são inimigos verdadeiros”.

Afinal, quando eu era adolescente, eu aumentava o volume.

Hoje, adulto, eu envio mensagens.

21 de março de 2017

Nós que Aqui Estamos por Vós Acordamos

Primeiro, cabe um esclarecimento: eu nunca abandonei o blog. Na verdade, quem me abandonou foi o tempo. O começo do ano foi repleto de freelas que se amontoaram e projetos paralelos que me tomaram praticamente todo o tempo que eu tinha nos últimos meses.

Além disso, o pouco tempo que eu tive livre nesse período, usei como leitor. Fazia tempo que eu não lia tanto e, às vezes, é preciso parar de escrever e ler, mesmo que para reciclar as ideias. Enfim, a partir de agora, a ideia é voltar a postar normalmente.

Mesmo porque o resto da minha vida continua o mesmo. Eu continuo escrevendo, continuo gostando das mesmas coisas... E continuo não conseguindo dormir direito.

Certo. Vamos explicar isso desde o começo. Quem acompanha o blog sabe que, desde que nos mudamos para essa casa alguns anos atrás, paramos de dormir. A casa ao lado da nossa era habitada por dezenas de pessoas (e isso não é um erro de digitação) que conseguiam se comunicar somente aos berros. Isso acontecia o dia inteiro. Isso acontecia todos os dias.

De uns meses para cá, porém, tudo mudou. Algumas pessoas da casa morreram, outras saíram daí... E a casa ficou vazia. Quer dizer, para as pessoas que passavam na rua ela estava vazia. Mas, para mim, ela estava silenciosa. Era a única forma que eu conseguia olhar para a casa ao lado. Não fazia diferença se havia alguém lá dentro ou não, e sim o fato de que eu não ouvia mais nada.

Às vezes eu estava trabalhando e parava de digitar, apenas para ficar alguns minutos apreciando o silêncio – e quando você mora num lugar onde os vizinhos gritam o dia inteiro, o silêncio soa quase como uma Ave Maria de Schubert.

Então, de uns tempos para cá, eu voltei a dormir como uma pessoa normal, sem ser acordado junto com o Sol ao som de operetas cantadas a todo volume sobre temas como a máquina de lavar que anda pelo quintal ou quem ficou de comprar o frango do almoço.

Mas agora tudo isso acabou. Temos um novo morador na casa.

Quer dizer, eu acho que ele é morador. Mas não tenho certeza. Primeiro, ele aparece aí somente à noite. Ok, ele pode trabalhar o dia inteiro. Mas eu sempre vejo uma das antigas moradoras entrando e saindo da casa. Ok, ela pode ser apegada ao imóvel e decidiu entrar escondida para ficar vendo TV. Não é problema meu.

O que é problema meu é que o sujeito decidiu assumir o legado do barulho e da gritaria.

E sim, ele mora sozinho, você não leu errado.

Pouco antes das seis da manhã, ele começa a falar no telefone – e sempre aos berros. Os assuntos são tão insanos quanto a situação, e vão do preço da gasolina nas cidades do interior ou compra e venda de sementes no mercado municipal. E ele fica exatamente em um ponto da sua casa que faz com que ele pareça estar dentro do meu quarto.

Discutindo sementes. Aos berros. Às seis da manhã.

Só que, nas últimas semanas, a situação piorou. Aparentemente, quando ele não tem com quem conversar, ele decide que a única saída para mostrar ao mundo que ele está acordado é falar sozinho. E qual a melhor maneira de falar sozinho sem parecer louco?

Rezando.

Praticamente todos os dias o sujeito acorda e começa a rezar. E veja bem, ele não me parece estar conversando com Deus. Pelo volume que ele reza, tenho quase certeza que o sujeito é politeísta, porque ele não parece estar apenas rezando, mas sim em pé em cima de um caixote, discursando para todo um panteão de deuses e semideuses e heróis mitológicos.

Eu até consigo escapar do “pai nosso” e do que “estais no céu”, mas normalmente começo a acordar no “santificado seja o nosso nome”. No “assim na Terra como no céu” já estou batendo a cabeça na parede e pedindo por uma morte rápida, e no “amém” já desisti e estou indo para a cozinha, jurando de morte todas as pessoas que dizem que Deus ajuda a quem cedo madruga.

Todo dia agora é isso.  Eu cheguei até a pensar em alguns truques para tentar driblar a situação.

A primeira delas eu descartei logo de cara porque daria muito trabalho – e poderia me arrumar problemas com a polícia. Seria alugar uma fantasia de anjo, pular o muro e aparecer na janela do cara no meio da madrugada e dizer a ele que “sou um anjo do Senhor e Ele exige que você vá até o alto de uma montanha e sacrifique suas cordas vocais para provar sua fé. E precisa ser agora. Aliás, Deus está com tanta pressa que eu até trouxe uma faca para te emprestar. Ela parece uma faca de pão, mas vai funcionar. E está limpinha. Coloca uma roupa aí, porque não tenho a noite inteira”.

Mas também pensei em gravar uma mensagem dizendo “Oi, você entrou em contato com Deus, mas o paraíso ainda está fechado. Por favor, envie sua oração de segunda à sexta, no horário comercial e teremos grande prazer em analisar seu pedido” e colocar isso para tocar no quintal sempre que o cara começasse a rezar.

Outra ideia foi comprar um arbusto e colocar na garagem do sujeito, encher de álcool e tacar fogo, deixando perto um bilhete escrito “Eu sou o Senhor teu Deus. Fui Eu quem lhe tirei da terra do Egito e o conduzi pelo deserto. Ah, a propósito, Eu escuto muito bem, você não precisa gritar”.

Mas claro que não fiz nada disso. Ao contrário, fiquei apenas morrendo de sono e torcendo para que lancem logo uma versão atualizada dos dez mandamentos (algo que, na minha opinião, já deveria ter sido feito faz tempo), com um dos mandamentos envolvendo alguma norma como “Deixai seus vizinhos dormirem” ou “Respeitai o sono do próximo”.

Agora, se você acha que a minha vida está um inferno, calma que a coisa ainda piora. Um dia desses, ouvimos com cuidado a oração do sujeito. Isso não quer dizer que fomos até o muro ouvir, e sim que abaixamos o som da TV. E eu já tinha deduzido pelas conversas do telefone que ele era advogado. Bem, essa reza que ouvimos contava com o seguinte trecho:

Que a nossa inocência seja declarada

Mesmo que haja base legal para a acusação.

Não. Eu não estou inventando isso. O sujeito reza em juridiquês. Eu não sei se ele perdeu sua Bíblia e resolveu usar o Código Penal no lugar, ou se ele é um advogado tão incompetente que precisa pedir uma forcinha para Deus antes de cada caso.

Eu sei que no dia que ouvi isso, desisti de entender. Até pensei em algumas piadas, imaginando o sujeito dentro da sua igreja jurídica e recebendo uma hóstia enquanto o padre pergunta se “você aceita o habeas corpus de Cristo?”, mas todas elas eram horríveis demais para virar crônica.

Assim, tudo o que eu fiz foi ir até o quintal, acender um cigarro e olhar para os céus, perguntando “Por que é sempre comigo?”.

Mas claro que ninguém responde. Provavelmente porque provavelmente estão ocupados demais tentando entender o que o advogado louco da casa ao lado está pedindo dessa vez.



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3 de outubro de 2016

Sobre Guarda-Chuvas e Caixas Eletrônicos

Depois de um longo e tenebroso inverno sem postar nos blogs por absoluta falta de tempo, vamos começar a colocar a vida em ordem. Além disso, eu sempre defendi a ideia de que os posts estão na rua esperando para serem escritos, e acabei de comprovar isso voltando do banco.

Fui até lá sacar um pouco de dinheiro e já entrei na agência emburrado. Isso porque está chovendo e fui obrigado a andar com o guarda-chuva, algo que abomino completamente.

Sério, já passou da hora da humanidade inventar outro modo de se proteger da chuva, porque guarda-chuva é algo arcaico demais. É desconfortável, é meio inútil porque você não fica completamente seco...

E o problema é que as pessoas acham que, com o guarda-chuva o problema de não tomar chuva já está resolvido e a humanidade pode se preocupar com outras coisas. Eu admito que ele seja uma evolução. Antes, quando começava a chover, nós tínhamos que correr para dentro de cavernas. Mas agora nós podemos sair na chuva: basta usarmos essa vareta com uma capa em cima dela.

Não, o problema não está resolvido. O guarda-chuva é uma primeira solução, mas precisamos de algo mais eficiente. Especialmente no meu caso, já que quando cheguei ao banco quem estava saindo era o pessoal daquelas empresas de segurança que leva dinheiro para o banco.

Você já viu a cena? Um deles entra no banco carregando dinheiro, e os outros ficam na calçada, portando armas capazes de derrubar o governo de alguma micronação africana e olhando para os lados, como se fossem agentes de segurança no seu primeiro dia de trabalho no Asilo Arkham.

Então, lá está o sujeito segurando uma escopeta com o dedo no gatilho e olhando para os lados. E o que ele vê? Um casal andando de mãos dadas. Um homem de meia idade passeando com o cachorro. Um carequinha a poucos metros dele, de costas e mexendo em um guarda-chuva fechado, como se estivesse tentando puxar algo que está escondido ali dentro.

E a culpa não é minha. Eu não sabia como o guarda-chuva daqui de casa fechava. Tentei fechar, e ele abriu. Tentei fechar e ele abriu. Tentei fechar e ele abriu. E o sujeito com a escopeta me observando. Felizmente eu tateei o negócio e descobri que existia uma trava ali, antes que o segurança se convencesse de que a qualquer momento eu puxaria uma granada lá de dentro e me atiraria para dentro do carro gritando “VIVA LA REVOLUCIÓN!” e que a única maneira de impedir isso seria disparando sua arma e fazendo metade do meu corpo desaparecer.

Enfim... Entrei no banco e fui para o final da fila do caixa eletrônico.

Cinco minutos depois, eu estava no mesmo lugar.

Comecei a ficar impaciente. Lembra quando eu disse que o invento guarda-chuva precisa ser melhorado? Bom, isso pode esperar. O que precisamos aprimorar mesmo são os caixas eletrônicos. Porque poucas coisas são mais idiotas que isso.

A meu ver, o caixa eletrônico precisa ser algo rápido. Porque vamos pensar uma coisa: durante alguns minutos, você está demonstrando para o mundo que A) você possui dinheiro no banco; B) está com o cartão do banco na mão; C) está ao lado de uma máquina onde o cartão de B pode ser usado para retirar o dinheiro de A. E, a não ser que você seja o sujeito com a escopeta do lado de fora do banco, se alguém se aproximar e colocar uma arma na sua cabeça, a primeira coisa que você vai fazer é entregar sua senha.

Então, o que os bancos deviam pensar? “Olha, a pessoa que está usando o caixa eletrônico está exposta e desprotegida. Precisamos fazer com o que processo seja o mais rápido possível”. E eles pensam assim, mas só na primeira frase. A parte que nós estamos expostos ali eles entendem. O problema é que a solução encontrada... Bem, eu consigo imaginar até a reunião em que decidiram isso.

– Precisamos garantir que nosso cliente não seja roubado no caixa eletrônico.

– Sim. Mas como faremos isso?

– Vamos fazer a máquina perguntar dezenove coisas pessoais para o cliente. Assim, será impossível que alguém use o cartão fingindo ser ele.

– Mas isso não é demorado?

– Nós somos um banco. Ninguém espera que a gente seja rápido.

– Mas e se nesse tempo alguém entrar e colocar uma arma na cabeça do cliente, e mandá-lo dar a senha do cartão?

– Bom, nós somos um banco. Segurança pública não é trabalho nosso.

Essa é a ideia genial do banco. Você entra e coloca seu cartão.


DIGITE SUA SENHA

RETIRE SEU CARTÃO


Até aí, tudo bem. Mas basta você dizer que quer sacar vinte reais para começar o questionário.


QUAL É O NOME DA SUA MÃE?


QUAL SEU ÚLTIMO NOME?


QUANTOS NÚMEROS PRIMOS EXISTEM NO SEU CPF?


QUAL É A TERCEIRA MÚSICA DO LADO B DO OITAVO DISCO DOS BEACH BOYS?


ASSINALE VERDADEIRO OU FALSO NAS SEGUINTES FRASES SOBRE A HISTÓRIA DA ESPANHA.

Sem exageros, toda vez que eu vou sacar dinheiro me sinto como se estivesse disputando uma versão pobre do Show do Milhão. Não posso consultar universitários, não posso consultar as cartas e o prêmio máximo é cinquenta reais. Sim, definitivamente o caixa eletrônico tem mais urgência que guarda-chuva.

E, de uns tempos para cá, o caixa eletrônico piorou ainda mais. Como eu disse, eu estava no banco e a fila não andava. Quando eu percebi, todos os caixas eletrônicos estavam ocupados por idosos. E eles não estavam mais tentando sacar dinheiro. Já haviam se organizado em um grupo terrorista da terceira idade – uma espécie de Cocoon do Mal – e, pelo que ouvi, estavam planejando derrubar um caixa eletrônico e atear fogo no negócio.

Eu comecei a bufar, impaciente. Veja bem, eu me solidarizo com pessoas que não sabem usar o caixa eletrônico, mas eu realmente estava com pressa. Se eles fossem sacrificar um dos caixas eletrônicos ao deus deles e deixassem outro livre para eu usar, eu não teria me importado. Mas eles estavam debatendo alguma coisa ao mesmo tempo em que ocupavam todos os caixas.

Mas, ao verem que eu estava ali esperando na fila, eles enviaram uma emissária para me explicar a situação. E fizeram a coisa mais esperta do mundo: escolheram uma mulher igual a Nicette Bruno para isso.

E, convenhamos, não existe nada mais gentil que a Nicette Bruno. Se eu fosse secretário da ONU, mandaria a Nicette Bruno em todas as reuniões envolvendo os problemas do Oriente Médio. Nada no mundo é mais bondoso que a Nicette Bruno. Eu consigo ver a Nicette Bruno servindo café e bolo para representantes do Estado Islâmico – e fazendo dois deles sorrirem ao mostrar um vídeo do neto que ela tem no celular.

Então, os idosos terroristas já me ganharam quando a Nicette veio falar comigo.

– Você vai sacar dinheiro?

– Sim. As máquinas estão com problema?

– É a biometria que não está funcionando.

Ao falar isso, a Nicette se aproximou de mim e me contou algo como se fosse um segredo.

– Sabe, nós já temos idade. E, não sei se você sabe, mas depois de certa idade, nossa impressão digital começa a desaparecer.

Eu não fazia ideia disso. Tentei me lembrar de algum episódio de CSI em que isso pudesse ter sido comentado, mas não me ocorreu nenhum. Mas desisti logo porque eu estava indignado.

– Espere. A biometria não funciona com vocês?

– Não.

– E o banco obriga vocês a usarem a biometria para sacar o dinheiro?

– Sim. Eu vim sacar dinheiro para fazer compras e não consigo. É sempre assim.

Eu sempre detestei o lance da biometria. Eu acho meio arrogante a humanidade não ter a capacidade de aprimorar um guarda-chuva e, ao mesmo tempo, cismar de inventar coisas que pareciam legais apenas nos anos 60, quando eram usadas nas fortalezas dos vilões dos filmes do 007.

E eu já tinha me ferrado com essa biometria. Uma vez fui usar e a pessoa na frente de mim estava comendo aqueles sacos de batatas chips cancerígenas que vendem na rua e deixou o negócio engordurado a ponto de ninguém conseguir usar. Outra vez o sujeito na fila assoou o nariz com a mão – sim, sem lenço e sem documento – dentro do banco e limpou na calça antes de usar a biometria e eu desisti e fui embora vomitar e sacar dinheiro em outro lugar.

Então, sim, eu odeio a biometria. Mas dessa vez eu não senti ódio e sim meu coração se despedaçando. Porque não era uma velhinha qualquer falando isso para mim, e sim uma velhinha igual a Nicette Bruno.

Eu quis morrer ali.

Estava quase sugerindo que “olha, eu ouvi vocês falando que pretendiam incendiar um caixa eletrônico, e eu tenho um isqueiro aqui, vocês podem ficar com ele”, mas a Nicette não participa de atos terroristas. Ela não prega a violência de forma alguma. A Nicette apenas me disse:

– Aquele ali está livre, você pode tentar.

E eu fui. Morrendo de medo do negócio não funcionar comigo. Porque se a biometria não funcionasse, o que eu iria dizer em casa? “Não consegui sacar o dinheiro porque sou velho e não tenho mais impressões digitais”. Pronto. A Esposa iria me levar em todos os médicos possíveis e eu teria que dizer que a última vez que comi salada a moeda ainda era cruzado novo e ouvir que meu colesterol está no mesmo nível de uma pessoa clinicamente morta.

Minha vida iria acabar.

Coloquei o cartão rezando, respondi as dezenove perguntas rezando e a máquina me mandou colocar o dedo. Obedeci da forma mais delicada do mundo e...


TRANSAÇÃO APROVADA


Respirei fundo e peguei meu dinheiro. Quando me virei, estava disposto até a pedir desculpas para a Nicette pelo meu sucesso, mas ela apenas sorriu de forma sincera e disse:

– Que bom que você conseguiu!

Eu sorri de volta e dei boa sorte. E saí do banco me sentindo... Não sei. Jovem. Como se eu tivesse a vida inteira pela frente, e tempo suficiente para deixar minhas impressões digitais – que eu ainda tenho – pelo mundo.

Mas isso durou menos trinta segundos, até eu perceber que não estava mais conseguindo abrir o guarda-chuva. Porque talvez eu seja jovem o suficiente para ter minhas impressões digitais, mas já sou velho o suficiente para não conseguir aprender coisas novas.

Aliás, pensando agora, acho que a Nicette estava até mais inteira que eu. Certeza que até o final da semana minhas impressões digitais vão desaparecer.

15 de agosto de 2016

O Capacetiano e a Fenda Temporal

Eu confesso que dei risada a primeira vez em que vi um daqueles cartazes dizendo que “é proibido entrar com capacete” que às vezes a gente vê em lojas e padarias. Sim, eu sei que isso é para evitar assaltos, mas não posso negar que acho uma determinação engraçada – talvez porque a ideia de uma pessoa ficar andando a pé com um capacete na cabeça soa meio... Não sei. Desenho animado.

Mas, enfim... Outro dia eu descobri que talvez esses cartazes sejam colocados por outro motivo diferente de assaltos. Vocês já tentaram conversar com alguém que está usando um capacete? É virtualmente impossível, e eu não fazia ideia disso até pedir uma pizza na semana passada.

Antes de continuar, eu preciso falar um pouco sobre a máquina de débito dessa pizzaria. Todas as comidas que pedimos aqui em casa são pagas no débito, então os entregadores trazem sua maquininha. Eles dão boa noite, eu entrego o cartão, eles me dão a maquininha, eu digito a senha, a operação é aprovada, eu pego a comida e pronto, todos ficam felizes.

Menos com essa pizzaria. A pizza deles é muito boa, mas o problema é que a máquina de débito deles não parece acompanhar esse padrão de qualidade. Ela deve ter um processador usado nos anos 80 e sua conexão deve ser feita com alguma antena que fica na região Centro-Oeste do país. Então, normalmente eu peço a pizza para jantar e só consigo entrar em casa com a minha pizza quando as pessoas já estão no dia seguinte, decidindo o que irão almoçar.

Acabou de me ocorrer aqui de que talvez eu não esteja pedindo pizzas, mas sim fendas no tecido do espaço-tempo. Aliás, posso até fazer um experimento e pedir pizza todas as noites durante cinco anos, para verificar se, depois desse tempo, eu envelheci na mesma proporção que meus vizinhos ou se eu experimentei outra velocidade temporal.

Mas, enfim... Sexta-passada nós pedimos uma pizza e, depois de uns trinta minutos a pizza chegou. Abri a porta e fui até o portão, onde o H. G. Wells que entrega pizzas ali estava me esperando com sua maquininha do tempo que faz pagamentos.

E, claro, usando seu capacete, que aparentemente funciona como um tradutor universal invertido: tudo o que ele fala se torna um idioma alienígena. Mas eu o cumprimentei normalmente.

– Boa noite.

– Mné.

– Oi?

– Ba-mné.

– Hã... Ok. Qual o valor?

– Trotoenta.

– Quanto?

– Troto...

– Olha, eu não estou...

–... Enta.

– Eu realmente não estou conseguindo...

Aparentemente, no planeta onde ele vive as pessoas estão mais acostumadas com esse tipo de situação, então o sujeito apenas me entregou a nota fiscal. Bati os olhos e descobri que trotoenta era trinta e oito e sessenta. Para você que está lendo isso pode parecer óbvio, mas não era, acredite. Dei de ombros e entreguei o cartão para ele.

– Ébi? Édi?

Respirei fundo, tentando lembrar se eu não tinha dinheiro na carteira, mas achei que não.

– Eu não entendi a sua perg...

– Ébi ou Édi?

– Eu tenho que escolher um dos dois, é isso?

– Ébi. Édi.

Ele apontou para a máquina e eu finalmente entendi. “Ébi” significava “débito” e “édi”, por sua, vez, “crédito”. Aparentemente, o capacetiano é um idioma com as palavras que têm variações muito sutis na sua pronúncia.

– Hã... Ébi.

Ele pegou meu cartão e colocou na maquininha. Agora sim estávamos chegando a algum lugar! Eu ainda estava aliviado quando ele me entregou a maquininha. E foi só a hora que eu peguei o objeto e me preparei para digitar a senha que me lembrei do poder destruidor que aquele aparelho tem no fluxo temporal. Ao invés de pedir minha senha, a máquina exibia apenas a palavra:


REGISTRANDO


Fiquei olhando para a máquina durante uns dez ou quinze segundos, mas a mensagem não se alterava. O embaixador do planeta Capacete Prime começou a ficar impaciente.

– Sanha?

– Oi?

– Sanha?

– Senha?

– Sanha!

Olhei para a máquina novamente.


REGISTRANDO


– Olhe, não está pedindo minha senha. Aqui diz que ainda está registrando.

– Cisassanha!

– Desculpe, eu não estou entendendo...

– Sanha! Cisassanha!

– Olhe, eu fiz faculdade de comunicação. Eu sei que faz tempo que eu me formei, mas tenho certeza que seus fonemas não estão se encaixando direito. Eu só posso fazer o que você quer se eu entender o que...

– Sanha! Sanha! Cisassanha!

– Talvez se você tirasse seu capacete? Porque eu acredito que a atmosfera aqui é respirável.

Ele olhou para a máquina e eu também.


TENTANDO CONEXÃO


– Viu? Ela está dizendo que ainda não é o momento da senha.

O capacetiano, impaciente, arrancou a máquina da minha mão e puxou meu cartão. Eu tentei dizer que isso só faria tudo demorar ainda mais, mas já era tarde. Ele já estava começando a toda a operação novamente.

– Ébi? Édi?

– Ébi. Eu acho.

Fez tudo isso e me entregou a maquininha. Olhei para os lados pensando que meus vizinhos deviam estar assistindo ao Jornal da Globo, enquanto eu ainda estava no horário do Jornal Nacional.


REGISTRANDO


– Sanha?

– Ainda está registrando.

– Sanha.

– Não. Ela precisa pedir a senha para eu colocar a senha. Todas as civilizações que usam o débito automático funcionam sob essa lei.

– Sassanha saissa.

– Como?

– Sassanha saissa.

– Sem senha?

– Sassanha saissa.

– Sem senha, sem pizza?

– Saissa.

– Olhe, eu não quero roubar sua pizza. Mas eu preciso esperar a máquina pedir a senha. E ela ainda não está pedindo, está vendo?


TENTANDO CONEXÃO


– Sassanha.

– Isso. Sem pedido de senha, sassanha. Quer dizer, sem senha. Entendeu?

– Bema tema.

– Como é que é?

– Tema.

– Não, você disse algo antes do tema. Pareciam duas palavras.

– Bema.

– Vem cá, você realmente não quer tirar esse capacete?

– Bema. Tema.

– Hum... Darmok e Jalad... Em Tanagra? (Star Trek: A Nova Geração mode: on)

– BEMA! TEMA!

– Eu não faço ideia do que você quer! A máquina ainda está tentando fazer algo! Olhe aqui!


REGISTRANDO


A paciência do capacetiano estava perto do fim. Ele gritou algumas palavras incompreensíveis e tentou puxar a máquina da minha mão. Mas desta vez eu resisti e não entreguei o aparelho.

– Não! Você não vai tirar meu cartão daqui!

– BEMA! TEMA!

– Não me importa! Se você tirar seu cartão daqui, a gente vai começar tudo de novo! E eu tenho planos de comer minha pizza e envelhecer como as outras pessoas da minha espécie! Eu não vou ficar preso aqui nesse limbo!

– BEMA!

– Não! Sinta-se livre para voltar para seu povo com a sua pizza, se você quiser! Mas você não vai tirar meu cartão dessa máquina.

– BEMA! TEMA!

Ele disse isso e desistiu de puxar a máquina, fazendo um gesto que poderia ser interpretado em qualquer lugar da galáxia como “você que se foda” (ou talvez ele estivesse sugerindo onde eu poderia enfiar a máquina, com cartão e tudo). Mas eu resisti e voltei a usar a diplomacia.

– Olhe, eu não sei como você fazem em Capacete Prime ou qualquer que seja o nome do planeta que você veio, mas nós precisamos trabalhar juntos para resolver esse problema.

– BEMA! TEMA!

– MAS EU PRECISO QUE VOCÊ TIRE ESSE CAPACETE E FALE COMO UMA PESSOA NORMAL!

– Tema.


HAHAHAHAHAHAHA


– Espere! Você viu isso?

– Vique?

– Sua máquina! Sua máquina está rindo de mim! Olhe aqui!

– Bema.

– Ela já tinha feito isso com outra pessoa?

– Bema. Tema.

– Isso é importante para você, certo? O lance do bema e tema?

– Bema.

– O que é bema? Por favor, me dá algo para eu poder trabalhar aqui? Uma imagem, um desenho, qualquer coisa.

Ele apontou para a máquina.

– Bema.

– Bema... Bema... Problema? É isso? Problema?

– Bema!

– Problema tema... No Sistema! Problema no sistema!

– Bema! Bema tema!


HAHAHAHAHAHAHA

VOCÊ É BABACA DEMAIS!



– Bom, sua máquina acabou de me chamar de babaca. Mas acho melhor eu confiar na sua palavra. Deve ser bema tema. Espero que seja.

– Bema tema.

Olhei para o lado e vi uma senhora de idade saindo da casa ao lado e me deu boa noite. Não tive certeza, mas ela se parecia bastante com a minha vizinha que, até aquela tarde, devia ter a mesma idade que eu. Talvez um pouco mais nova.

Quanto tempo já havia se passado?

– SANHA!

O capacetiano estava dando pulos e apontando para a máquina. Olhei para a pequena tela.


OLHA, VOU SER GENEROSA
E DEIXAR VOCÊ COMER.

SENHA:



Eu ignorei a primeira frase e apenas digitei minha senha. Poucos segundos depois, ela cuspiu o papel comprovando a transação.

– Cepéf?

– Oi?

– Cepéf?

– Se eu quero CPF na nota?

– Cepéf.

– Não. Nem fudendo. Me dá só dá a pizza.

– Issa. Ba-mné.

Finalmente entendi que o ba-mné devia ser boa noite. Mas apenas apanhei a pizza e me despedi rapidamente, voltando para dentro de casa.

E eu estava sozinho. Não havia mais ninguém em casa. Minha sala parecia ser como eu me lembrava, mas completamente deserta. Provavelmente, todas as pessoas que eu conheci estavam mortas há décadas.

Eu havia me tornado uma criatura deslocada no tempo. Em breve, eu seria detectado por cientistas que encontrariam em mim um objeto arqueológico inestimável. Passaria o resto da vida carregando minha caixa de pizza e sendo exibido em museus e exposições. Ficaria ali, parado, ouvindo as pessoas comentando coisas como “todo mundo era pequeno assim por volta do século 21?”, “como eles eram atrasados, eles ainda não sabiam lidar com a calvície naquela época!” e “papai, posso tirar um holograma ao lado do homem do passado?”.

– Você demorou!

Era minha Esposa! Ela estava na cozinha! E ela... Bem, ela parecia ser ela mesma!

– Quanto tempo eu fiquei fora?

– Bastante! Eu estava quase saindo para ver se tinha acontecido alguma coisa.

– Que dia é hoje?

– Como assim? É sexta-feira.

– Não! O ano! Que ano estamos?

– Você enlouqueceu?

– QUE ANO ESTAMOS?

– 2016. Mas porque você demorou tanto?

– Nada. Não quero falar sobre isso. As Olimpíadas já acabaram?

– Claro que não.

– Certo. Vamos comer a pizza e ver um pouco das Olimpíadas. Só isso.

– Não quer ver alguma série de ficção científica?

– De jeito nenhum. Eu vou pegar a Coca.

No dia seguinte, coloquei um aviso ao lado da campainha dizendo que pessoas com capacete são proibidas de tocar a campainha de casa.

Quando me perguntam por que fiz isso, digo que é porque tenho medo de assalto.