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28 de setembro de 2010

O Casal

Eu estava na Avenida Paulista, no domingo.

Chovia e eu esperava o ônibus que iria me trazer de volta a Pinheiros. Como uma das coisas mais difíceis de fazer em São Paulo é ir da Paulista para Pinheiros de ônibus (existem apenas duas linhas que fazem isso, mas elas circulam com a freqüência do cometa Halley) e chovia o suficiente para me impedir de comprar uma revista para ficar folheando no ponto, comecei a observar as pessoas ao meu redor.

A poucos metros de mim, um casal namorava. Se você conhece a Avenida Paulista, eu estava naquele ponto em frente ao Bob’s e o casal se protegia da chuva sob a cobertura de um dos prédios.

Não demorou muito para eu perceber que eles estavam no começo do namoro. Sorrisos escapavam do nada, beijos ardentes eram trocados – aqueles beijos que já começam no meio, de tão ardentes e apaixonados, e parecem não ter final com selinhos e mais selinhos – e alternados com abraços silenciosos.

Isso sem falar, claro, nas brincadeiras, que, mais que os beijos, são os que constroem um casal: bobagens, piadas internas, tapas carinhosos entre risadas.

E mais abraços. E mais beijos. E mais risadas que escapam.

Fazia tempo que eu não via um casal tão feliz na rua. A sintonia entre eles parecia perfeita. Aliás, era mais que sintonia. Usando um termo que se usa muito em casamentos, na igreja, não era sintonia, era comunhão. Estavam em comunhão total. Mesmo de longe, sob a chuva, percebi que não apenas se completavam totalmente – o que os dava o direito de namorarem ali, construindo um mundo próprio, alheio a tudo – como compreendiam isso. Viviam isso.

Não eram um casal, eram quase uma pessoa só. E uma pessoa feliz.

Mas de repente, devem ter se lembrado que existia um mundo lá fora. Um mundo que não era deles. E, com esse conhecimento, veio o medo de se perderem. Isso porque se abraçaram com força, cada um escondendo o rosto no cabelo do outro, em busca de proteção e abrigo. E se abraçaram para nunca mais se soltar, e ficaram em silêncio, apenas sentindo a presença do outro não somente ali, na Avenida Paulista chuvosa de domingo à tarde, mas sim nas suas próprias vidas.

E mesmo com o medo, estavam felizes. Talvez o medo de perder alguém, afinal de contas, seja mais gostoso que não sentir medo algum por não ter ninguém.

E, assim, baseados nessa felicidade, resolveram enfrentar o mundo. Com um beijo de boa sorte, entrelaçaram os dedos e saíram andando em direção a qualquer lugar: um cinema, um café, um sonho. Tanto faz.

O que importa é que ali, de mãos dadas, sorridentes, estavam seguros do que sentiam e, acima de tudo, sentiam-se amados.Eu fiquei observando enquanto os dois, de costas para mim, se afastavam. Um casal absurdamente feliz.

Realmente faz alguma diferença para você – ou para esta história – o fato de que eram dois homens?


26 de setembro de 2010

A Rosa Púrpura da Paulista

Domingo à tarde. Chove em São Paulo.

De dentro da bilheteria, a funcionária do cinema olha o movimento à frente da cabine. A poucos metros dali, a equipe de uma rede paulistana de televisão faz uma matéria tendo a porta do cinema como cenário.

Atenta, a menina, pouco mais de vinte anos de idade, observa a gravação da reportagem. Está totalmente desocupada: não há uma pessoa na fila querendo comprar ingresso para os filmes exibidos. Poucos minutos antes, um casal de meia idade comprou bilhetes para uma sessão e entrou na sala. Eram os únicos da fila. Agora, não há mais ninguém. Assim, ela tem todo o tempo do mundo para vigiar a movimentação da câmera e conferir se o aparelho está apontado para ela.

Com sorte, ela aparecerá na televisão.

Sua família poderá vê-la, por alguns poucos minutos, ali na cabine, no segundo plano da tela. Mesmo em silêncio como uma parte do cenário, Isso será suficiente para ser assunto, na sua casa, por alguns dias. E, mesmo daqui a anos, ela se lembrará disso, do dia em que apareceu na televisão.

Mas ela também se lembrará da noite de hoje. Ao final da última sessão deste domingo – que deve acontecer somente algumas horas depois de eu finalizar este texto – a rotina dela e dos outros funcionários será basicamente a mesma de sempre: apagarão as luzes, recolherão o lixo e fecharão as portas de aço, que separam o cinema da galeria na qual ele está localizado. Demorará até que as luzes sejam acesas novamente. E as portas não se abrirão mais. Ao menos, não tão cedo.

Afinal, o assunto da reportagem que está sendo realizada ali, à frente dos olhos da menina, é justamente o fato de que, após mais de três décadas funcionando no centro da Avenida Paulista, o Gemini, um dos cinemas mais tradicionais da capital paulista, encerrará suas operações hoje.

Daqui a algumas horas, o Gemini deixará de existir.

Foram milhões de beijos enamorados que aconteceram ali dentro, na tela ou na platéia, enquanto o resto da cidade andava pela calçada, a poucos metros dali; homens de terno, mulheres de saia e salto alto, com o passo apertado. Sempre apressados demais para rir ou chorar, ocupados demais para sonhar. Sempre preocupados demais para beijar.

Foram décadas. A cidade foi se modificando. As roupas das pessoas que passavam pelas calçadas mudaram; assim como as maquiagens e os penteados também. Mas a pressa de todos não mudou. E o Gemini permaneceu ali, imóvel, inalterado, lutando contra o tempo.

A cidade, por sua vez, decidiu correr com o tempo e não lutar contra ele. Os sonhos e beijos fugiram da Paulista para os shoppings, em salas de cinema impessoais, que oferecem refil de pipoca, som em dez mil canais e personagens que, hoje em dia, pulam da tela na sua direção. E o Gemini, que vendia sonhos que permaneciam ali mesmo na tela, não conseguiu concorrer com isso.

Aos poucos, sua platéia foi minguando. As cadeiras foram se tornando vagas, e a luxuosa área acarpetada – que servia como sala de espera para o cinema propriamente dito – foi esvaziando. Logo, não sobrou mais ninguém. Somente os funcionários, vendendo ingressos e pipoca para ninguém, projetando filmes que não eram assistidos.

E os sonhos. Ali na tela, esquecidos, abandonados e sendo sonhados por ninguém.

Hoje, tudo acaba. Hoje, a luz se apaga, mas, desta vez, os sonhos sumirão por completo, ao invés de aparecem enormes e coloridos na tela prateada. Não haverá mais ingressos, pipoca, nem posters. Não existirão mais namorados de todas as idades assistindo a filmes de mãos dadas, casais fugindo da vida doméstica, solitários buscando refúgios em romances fictícios e garotos vivendo aventuras em terras estranhas. Não haverá mais nada.

Logo, ele será esquecido, apenas mais um nome na lista dos cinemas de rua paulistanos que fecharam as portas. Seus sonhos, que um dia brilharam na tela enorme, logo se tornarão parte do passado; os beijos apaixonados, os dedos entrelaçados, as gargalhadas e lágrimas que escaparam no escuro se perderão no tempo.

Amanhã, as pessoas passarão apressadas pela calçada, mal reparando na ausência do cinema que esteve ali por décadas. Amanhã, o Gemini se tornará somente uma nota de rodapé na história da cidade.

O que é pouco para um local que vendeu sonhos e mais sonhos por tanto tempo.


Este texto é dedicado à Menina da Bilheteria,
a última (e solitária) personagem do Gemini.

6 de julho de 2010

Pinheiros - Constantinopla

Dia desses, precisava ir até a Avenida Paulista. Peguei minhas coisas e fui até a Teodoro esperar um dos ônibus que passam por ali.

Na verdade, cabe aqui uma crítica: uma das coisas mais difíceis de você fazer, em São Paulo, é ir da Teodoro Sampaio para a Paulista de ônibus. O ridículo é que as duas ruas são extremamente movimentadas, muito importantes e são próximas uma da outra – não próximas o suficiente para ir a pé, mas próximas o bastante para ter pelo menos uma meia dúzia de linhas de ônibus com este trajeto. E existem somente dois ônibus que fazem isso.

Como se não bastasse, estes dois ônibus são como Copa do Mundo. Eles aparecem somente a cada quatro anos, e às vezes o resultado é bem insatisfatório – sim, eles param no ponto somente quando estão com vontade disso. Então, não é difícil você ficar ali plantado e assistindo a passagem de ônibus que vão para todos os destinos possíveis (desde Lapa – Penha até Montevidéu – Caracas, passando por Condado – Mordor via Valfenda), menos os que vão para a Paulista.

Às vezes eu chego até mesmo a me questionar se no trajeto entre meu prédio e o ponto eu não invadi uma dimensão paralela na qual a Avenida Paulista nunca existiu (como uma daquelas terras paralelas do universo DC). Porque eu fico ali, em pé, observando o mundo ao meu redor. Vejo prédios sendo erguidos e sendo demolidos; pessoas nascendo, crescendo, envelhecendo e morrendo; guerras começando e acabando; espécies sendo extintas. E nada da porra do ônibus passar.

E, neste dia específico, não me recordo o que iria fazer na Paulista, mas qualquer um dos dois ônibus me servia. Tanto o Largo da Pólvora (cujo nome indica que seus carros devem ter um índice de criminalidade maior que o do Acre), que vai até a Brigadeiro, quanto o outro, que vai até o Paraíso, e que se chama... É... É uma palavra grande, como é mesmo...?

Esse é o problema. Eu nunca lembro o nome dele. O nome desse ônibus é uma combinação de letras que meu cérebro é incapaz de guardar – e deve ser algo pessoal. Eu sou capaz de me lembrar de planetas de Star Wars e Star Trek, mas não consigo decorar o nome do maldito ônibus que vai para a Paulista. É como se ele fosse uma espécie de Lorde Voldemort do transporte público. Assim, toda vez que vou para a Teodoro pegar um ônibus para a Paulista, eu sei que minhas opções são o Largo da Pólvora e Aquele-que-não-Deve-ser-Nomeado.

E, veja bem, eu sei qual é o nome do ônibus. Quando ele aparece no ponto, eu não fico em dúvida, me perguntando “será que é este que vai para a Paulista?”, e nem fico olhando para ele com aquela cara de “de onde eu conheço você mesmo? Nós estudamos juntos? Você morava em Moema?”.

Não, não. Quando ele passa, eu o reconheço na mesma hora, e sinto até mesmo certo alívio por finalmente me lembrar do nome. Mas, ao mesmo tempo, fico frustrado por ter sido incapaz de me lembrar do seu nome sem ajuda, e normalmente reajo a isso exclamando um palavrão enquanto faço o sinal.

Enfim, voltando a este dia específico. Cheguei ao ponto e comecei a esperar por qualquer um dos dois ônibus que iam para a Paulista. Mas, cansado de nunca decorar o nome dele, decidi que hoje eu iria me lembrar do nome do ônibus sem a ajuda de ninguém. Tenho 34 anos, e é hora de começar a enfrentar meus demônios – e o ônibus misterioso que vai da Teodoro para a Paulista seria um bom começo.

Assim, eu pedi a Deus para que impedisse esse ônibus de passar pelo ponto antes que eu me lembrasse do nome dele. Se a rua estivesse menos lotada – algo que jamais aconteceria, já que a Teodoro Sampaio tem a mesma densidade demográfica de uma ponta de estoque em Pequim – provavelmente eu me ajoelharia na calçada e, usando um galho como espada, me portaria como um cavaleiro prestes a embarcar nas cruzadas, pedindo a Deus que “ilumine meu caminho, faça com quem eu me lembre do nome do ônibus, para que assim eu seja digno de ir até a Paulista, amém”.

Isso, claro, se a rua estivesse vazia. Como ela estava lotada, eu apenas me apoiei no muro de uma loja de sapatos que fica em frente ao ponto e comecei a pensar no maldito nome do ônibus.

O problema é que isso aconteceu antes do almoço, e o expediente do meu cérebro começa as 14:00, que é quando começa a chegar o povo da Criação. Pela manhã, existem apenas dois neurônios trabalhando lá dentro. São dois estagiários que têm a função de ver se as coisas estão funcionando normalmente e ordens expressas de não mexerem em nada. Assim, é claro que se eles espantaram quando receberam um e-mail informando que o cérebro deveria parar todas as tarefas daquela manhã para identificar o nome do ônibus.


Estagiário 1: Você viu este e-mail sobre o ônibus? Acho que é com a gente.

Estagiário 2: Vi, acabei de receber na minha máquina. Será que eles sabem que só nós estamos aqui?

Estagiário 1: Acho que não. Mas pediram o nome do ônibus para agora. Vamos ter que resolver.

Estagiário 2: Hum... O que você tem de informações sobre esse ônibus?

Estagiário 1: Vou ver aqui, espere. Ih... Estou sem rede. Deve ter sido a enxaqueca de ontem.

Estagiário 2: Será que caiu aqui também? Hum... Não, aqui está ok.

Estagiário 1: Checa na sua máquina, então.

Estagiário 2: Espere. Hum... Será que isso vai estar em P de Paulista? Ou em T de Teodoro?

Estagiário 1: Tenta em O. De Ônibus.

Estagiário 2: Boa! Deixe-me ver... Ah, está aqui. É o Largo da Pólvora. Matamos.

Estagiário 1: Não, não é o Largo da Pólvora. É o outro.

Estagiário 2: Ah, é?: Bom, deve estar aqui perto... Achei! Ônibus sem Nome que vai de Pinheiros para a Paulista. Deve ser isso.

Estagiário 1: Com certeza. O que diz aí?

Estagiário 2: Que o nome é uma palavra só. E grande.

Estagiário 1: Grande quanto?

Estagiário 2: Não diz. Só fala aqui que é grande. Ah, olhe. Tem a palavra “vogal”, escrita a mão mesmo, ao lado.

Estagiário 1: Vogal? Qual vogal?

Estagiário 2: Não fala. Só diz isso: vogal.

Estagiário 1: É muito pouca coisa.

Estagiário 2: Mas é o que tem...

Estagiário 1: O segredo é pensarmos no trajeto. O que tem perto da Paulista cujo nome é grande e com vogal?

Estagiário 2: Masp. Banco Real. Fiesp.

Estagiário 1: Não, é palavra grande.

Estagiário 2: Eu sei, mas eu não costumo passar pela Paulista. Conheço bem pouco ali.

Estagiário 1: Não deve ser difícil. O ônibus sai de Pinheiros. Deve pegar a Dr. Arnaldo e vai para o outro lado da Paulista. E é uma palavra grande...

Estagiário 2: Se ao menos soubéssemos qual a vogal...

Estagiário 1: Shopping Paulista não, são duas palavras. Paraíso não é grande. Brigadeiro?

Estagiário 2: Talvez.

Estagiário 1: Mas eu conheço ele. Aí estaria “nome de doce”, e não “vogal”.

Estagiário 2: Olhe, eu sei que não tem muito a ver, mas eu não consigo parar de pensar em Constantinopla.

Estagiário 1: Oi?

Estagiário 2: Desde a hora que vimos que é uma palavra grande, estou com Constantinopla na cabeça.

Estagiário 1: Você tem noção do quanto isso é ridículo?

Estagiário 2: Tenho. Mas não consigo pensar em outra coisa. Acho que é porque eu vi um documentário sobre o império turco ontem. Constantinopla. E a palavra é grande, você tem que admitir isso.

Estagiário 1: Bom, deixe a Constantinopla para lá, vamos pensar nisso aqui. Será que a vogal é um “a” de Antônio, de Brigadeiro Luiz Antonio?

Estagiário 2: Não, ninguém chama a Brigadeiro de Luiz Antônio. Todo mundo chama de Brigadeiro.

Estagiário 1: Tem razão.

Estagiário 2: E Arturdiazevedo?

Estagiário 1: Oi?

Estagiário 2: Arturdiazevedo.

Estagiário 1: Isso não é uma palavra só. São três. E nem é perto da Paulista, é em Pinheiros.

Estagiário 2: Ah, não sabia.

Estagiário 1: Sério, ele está indo para a Paulista! Isso não pode ser tão difícil assim!

Estagiário 2: Olhe, desculpe...

Estagiário 1: Desculpe por que?

Estagiário 2: Eu simplesmente não consigo evitar!


Eu já estava há dez minutos no ponto, e nada do maldito nome aparecer na minha mente. E, sabe-se lá qual o motivo, cada vez que eu tentava me lembrar do nome do maldito ônibus, a palavra Constantinopla surgia na minha mente. Comecei a me sentir um imbecil.

E as pessoas ao meu lado concordariam comigo, porque a cada dois minutos eu abaixava a cabeça, esfregava os olhos com as pontas dos dedos e resmungava algo como “sai da minha cabeça, merda de palavra!”. Mais alguns minutos, e eu começaria a socar minha cabeça no meio da Teodoro (clube da luta mode: on), gritando que “nem com vogal você é!”. E daí para um hospital psiquiátrico seria um pulo.

Num ato de desespero, comecei a listar todas as palavras que começavam com vogais e eu conheço. Amor. Elefante. Igreja. Utopia. Constantinopla. Escola. Açude. Adoniran. Constantinopla. Empatia. Ombudsman. Constantinopla. Infelicidade. Estranho. Constantinopla. Constantinopla. Constantinopla

Merda de palavra!

Minha vontade era enfiar minha cabeça no ponto de ônibus até rachá-la em dois, arrancar a merda da Constantinopla lá de dentro, jogá-la na loja de sapatos e correr para o primeiro ônibus que passasse por ali, para escapar dela. Estava prestes a fazer isso quando vi o Largo da Pólvora se aproximando.

Fiz sinal e eu embarquei. Paguei e me sentei num banco vazio, amaldiçoando a mim mesmo por, mais uma vez, não ter me lembrado do nome do ônibus. Decidi colocar isso de lado e esperar pela próxima chance.

Antes mesmo do segundo ponto, porém, tambores começaram a rufar na minha cabeça. Numa praça, centenas de neurônios estavam em pé ao lado de um monumento coberto com um pano. Quando os tambores pararam, três neurônios puxaram o pano, e, sobre os aplausos da multidão, uma palavra se descortinou à vista de todos - se fosse Constantinopla, eu iria mandar interditar meu cérebro.

"Aclimação"

Fechei os olhos, aliviado.

Mas, antes mesmo de comemorar, mandei um memorando para meu cérebro, ordenando que novos estagiários fossem contratados o mais rápido possível.

29 de junho de 2010

Interlúdio - Terra Estrangeira

Ele se parecia com o House, mas mais magro. A mesma barba rala, os mesmos olhos esbugalhados. Mas muito magro. Veio andando na minha direção, na Paulista. Foi agora à noite, coisa de 2 horas atrás. Passou por mim, e eu mal olhei para ele.

Assim que nossos caminhos se cruzaram, ele se virou e disse:

– Please, do you speak english?

Eu não sei em que estava pensando, mas estava pensando em algo – provavelmente tentando observar melhor o motoqueiro atropelado do outro lado da avenida, cercado por bombeiros e pelo povo do resgate. Assim, precisei de um momento para perceber que era comigo, e mais um momento para perceber que ele estava falando em inglês.

– Yes, respondi.

Ele olhou para cima e soltou um “thank you, Lord” que deixou claro que estava já há bastante tempo procurando por alguém que falasse seu idioma.

Aproximou-se de mim e disse:

– I need your help. I am a teacher. I teach english literature. But I have suffered an accident.

– Accident, perguntei genuinamente interessado.

– Yes, I have burned my arms, ele disse, erguendo as mangas dos casacos e mostrando marcas de quimaduras nos dois braços. Lembrei-me da minha queimadura com a lasanha.

– Because of that, I’m not able to work right now, so I’m asking for your help.

– How can I help you?

– My family will send me some money in a few days. And my room is already paid, but they don’t offer meals…

Chegamos ao ponto. Ele precisa de dinheiro para comer. Eu estava puxando a carteira do bolso, tentando me lembrar se tinha uma moeda de 1 real, quando ele continuou.

– ...and I’m starving.

Aí me quebrou. “Starving” é foda. É forte demais. Se você não domina inglês, “starving” é o equivalente a faminto – ou, de forma mais coloquial, a “morrendo de fome”. A expressão é forte demais, bem mais forte que um “tio, me paga um coxinha” ou “me dá um trocado pro pão”.

E, de repente, no meio da Paulista, eu percebi que o motoqueiro atropelado, os caras do resgate poderiam ajudá-lo – o skatista que parecia o Bob Marley e que fazia acrobacias ali perto não tinha pinta de falar inglês, também. De repente percebi que aquele sujeito estava “morrendo de fome” e eu era a única pessoa que sabia disso.

Puxei a carteira do bolso e abri. Ele continuou.

– And if you buy me a meal, I’ll give you my phone, and I'll pay you back by the end of the week.

Não, eu não queria ser reembolsado. Na verdade, eu queria saber mais sobre ele: de onde era, onde morava aqui em São Paulo, como havia queimado os braços. Mas eu só conseguia pensar em estar morrendo de fome numa terra onde ninguém fala sua língua. Puxei dois reais da carteira e disse:

– No, no. I will help you for free. With this money you should be able to grab something to eat, e entreguei o dinheiro.

Ele sorriu, com sinceridade.

– Oh, thank you. Thank you very much.

– Don’t mention it.

– Oh, by the way, you don’t need english lessons. Your english is pretty good.

Minha vez de sorrir.

– Thank you. Good luck.

Virei as costas e saí andando. Não olhei para trás, mas sabia, naquele momento, que jamais esqueceria essa história.

Realmente, me viro bem no inglês, e já entrevistei muita gente famosa por causa disso – ídolos, inclusive. Mas nunca fiquei tão satisfeito comigo mesmo por falar inglês.

E não me pergunte o motivo. Eu não saberia explicar direito. Acho que, como eles mesmos dizem no hemisfério norte, I care.

I really do.

Moral da história: não importa a merda em que você esteja, sempre haverá alguém que entende o que você está passando. Basta procurar e ter um pouco de sorte.

(Prometo que no próximo post encerro a saga Barrados no Shopping. Queria apenas contar essa história aqui. E mantive o diálogo em inglês - caso você não fale inglês, entenderá um pouco do que este sujeito estava passando naquele momento.)

23 de agosto de 2009

Coisas da Vida - IX

(leia a parte anterior desta série aqui)

Sábado, perto da hora do almoço, Avenida Paulista. Estou saindo de uma banca de jornal quando sou abordado por um senhor de aproximadamente 50 anos, razoavelmente bem vestido. Usava calça social cinza, malha de lã combinando e (apesar do cabelo grisalho ser bastante ralo) um rabo de cavalo minúsculo, que desafiava insistentemente sua calvície.

Ele sorriu, mostrando que sua arcada dentária inferior deveria ser treinada pelo Parreira, já que não tinha ninguém jogando na frente.

– Você mora por aqui?

– Não, mas conheço a região, respondi, certo de que ele estava perdido e queria alguma informação.

– Você conhece algum restaurante ou bar aqui perto que esteja precisando de algum ajudante?

Ok, não é o tipo de questão que se ouve ao ser abordado na rua, especialmente quando você está esperando algo como “onde fica o metrô mais próximo?” ou “para que lado é a Brigadeiro?”.

Parei e pensei sobre a pergunta, procurando alguma pegadinha. Não encontrei nada. Olhei ao redor, esperando encontrar uma câmera escondida. Nada. Olhei para cima e resmunguei “porque é sempre comigo?”.

Mas pensei no blog e resolvi continuar com o papo.

– Olhe, realmente não conheço. Sinto muito.

– Tem certeza?

Evidente que tenho. Toda vez que eu entro num boteco, eu pergunto se o cara tem Coca, e não se o staff dele está adequado ou se ele tem planos de expansão. Mas achei melhor não entrar nestes detalhes.

– Tenho.

– Ah, mas você tem cara de quem costuma ir a barzinhos! Ao menos, isso eu acertei?

– Sim.

– Que ótimo! Eu detestaria abordar a pessoa errada na rua!

Pensei em explicar a ele que “fique tranqüilo, você abordou a pessoa certa na rua, já que você é louco e eu sou eu”, mas mudei de idéia. Complexo demais, e eu estava com pressa.

– Porque sabe o que acontece?

Ah, meu Deus. Lá vem. Antes que eu pudesse pedir para ele adiantar a conversa até a parte em que ele me pede algo, ele continuou:

– Eu sou de Santa Catarina. Sou arquiteto e professor. E vim para São Paulo trabalhar com uma moça, mas ela viajou e só volta na quinta-feira.

Comecei a sentir o cheiro de golpe no ar.

– Ah, mas logo a quinta-feira chega. Você vai ver, passa rápido, respondi.

– Então, mas meu dinheiro acabou e eu e minha esposa fomos expulsos do hotel em que estávamos. Aquele Fórmula 1, sabe? Porque eles não têm mais chave, eles têm um cartão magnético para abrir a porta do quarto, e o nosso não funciona mais.

Os meus neurônios responsáveis pelo sarcasmo começaram a sugerir que eu dissesse a ele para entrar no metrô e tentar recarregar o cartão do hotel como se fosse um Bilhete Único. Joguei um pano preto em cima deles, fechei a porta da sala em que eles trabalham e passei a chave, tentando me controlar.

– Que coisa.

Cá entre nós, não havia muito mais o que dizer.

– E agora eu estou na rua, com minha esposa. Ela pesa 140 kg. Estamos passando fome.

Espere. 140 kg e passando fome? Se existisse um sindicato de pessoas-que-passam-fome, eu denunciaria esse sujeito na mesma hora.

– E agora eu preciso sobreviver até quinta-feira.

– Você já tentou em bancas de jornal?

Foi uma tacada de mestre. Afinal, estávamos ao lado de uma banca. Se ele comprasse a idéia, isso faria com que ele entrasse ali atrás de emprego, me dando os segundos preciosos que eu precisava para fugir. Mas não deu certo:

– Não! Donos de bancas de jornal fazem parte de uma máfia!

Faz sentido. Eu sempre fui vítima da extorsão dos donos de bancas de jornal. Metade do dinheiro que ganhei na vida está na mão deles, devido ao meu maldito vício por quadrinhos. Ponto para ele.

Antes que eu pudesse pensar em outra alternativa (“olha, tem um açougue ali na Brigadeiro, e nunca vi mais de dois funcionários, talvez eles precisem de um ajudante”) ele foi direto ao ponto:

– Você não está precisando de algum trabalho? Eu posso fazer algo para você, entregar algum documento, em troca de um almoço.

A idéia foi tentadora. Imediatamente pensei nas dez revistas que eu faço, e considerei a hipótese de contratar esse sujeito como frila. A cada três textos, um almoço. Mas seria difícil explicar isso para o meu chefe, especialmente pelo fato de que esse cara provavelmente não emitiria nota fiscal.

Foi aí que meu cérebro começou a preparar uma daquelas armadilhas. Pensei na enorme e eterna zona que é o meu apartamento, e tive o impulso de contratar o sujeito como mordomo. Ele já era meio grisalho mesmo, bastava um banho de loja para se tornar um Anthony Hopkins. E, quanto à sua deficiência dentária, bastava ele não abrir a boca quando eu tivesse convidados em casa.

Sacudi a cabeça e voltei à realidade.

– Olhe, eu realmente não preciso de nada. Obrigado.

– Você não quer ir almoçar comigo em alguma padaria?

Certo. Esse foi “me paga um almoço?” mais estranho que eu recebi. Por alguns instantes, cheguei a considerar a hipótese de que eu estava sendo cantado, mas o olhar do velho deixou claro que ele não tinha segundas intenções. Ele queria mesmo era um almoço.

Tive o impulso de perguntar algo como “bom, você está convidando, então você paga, certo?”, mas isso provavelmente iria fazer o papo se arrastar por horas. Ele insistiu.

– Quer ir?

– Infelizmente eu já tenho compromisso. Mas agradeço o convite.

– É que eu queria almoçar.

E, assim, após cinco minutos de papo, chegamos aonde ele queria. Num almoço. Abri a carteira e puxei uma moeda de R$ 1,00. Mas, antes que eu a entregasse, pensei no fato de que essa foi o pedido de esmola mais elaborado que eu vi na vida (sejamos sinceros, o sujeito me deu todo o background, e, assim como o George Lucas, praticamente criou uma trilogia só para explicar porque ele queria um almoço) e peguei todas as minhas moedas. Deu quase R$ 2,00.

Entreguei para ele e disse:

– Olhe, vai comer algo, e quem sabe você dá sorte a tarde. Eu adoraria acompanhar você, mas, infelizmente, eu tenho outro compromisso.

Ele olhou as moedas e viu que não dava para comer muita coisa. Mas, convenhamos: por mais que sua história tenha sido bem trabalhada, ainda assim era uma esmola. E esmolas, para mim, obedecem a limites de uma nota de R$ 1,00, ou moedas. Mais que isso, já é empréstimo.

Ele olhou para mim. Eu me esforcei para assumir a expressão “você não vai conseguir mais que isso”. Mesmo porque, só faltava ele ficar insatisfeito e colocar a esposa na conversa de novo. Eu me recuso a dar esmola para uma pessoa cuja massa é duas vezes maior que a minha.

Aparentemente, ele entendeu o recado e foi embora com as moedas.

Mas bastou eu andar uns dois metros para alguns dos meus neurônios do sarcasmo – que, a esta altura, já haviam conseguido arrombar a fechadura da porta – correrem para o meu ouvido e colocarem as cabeças para fora da minha orelha, e gritaram:

– Tenta ir até o metrô carregar o bilhete da porta do hotel!

Dei três tapas no meu ouvido e mandei eles calarem a boca. Eles se assustaram e correram de volta para dentro do cérebro. Olhei para trás e o velho estava olhando para mim.

Sorri, sem graça, e fui embora, acelerando o passo. Afinal, tudo o que eu não precisava era que o velho voltasse para pedir meus contatos, com a promessa de me enviar por e-mail um currículo – e pior, fotos dele e da esposa. Ô fase, malditos neurônios.

2 de novembro de 2008

O Marido, A Esposa, Sua Amiga e a Criança

Eu juro que estou tentando falar da sessão de O Poderoso Chefão na Mostra de São Paulo, mas não consigo. Toda vez que eu consigo um tempo para postar no blog, algo mais interessante aparece no meu caminho. Como ontem, por exemplo.

Eu estava nas Clínicas, esperando pelo metrô para encontrar a Sra. Gordon. Estava na plataforma lendo Direitos Iguais, Rituais Iguais, do Pratchett e segurando uma eventual gargalhada que teimava em escapar, quando ouvi um berro.

– Eu que não quero você! Não é você que não me quer, sou eu que não te quero!

Como todo mundo olhou na direção do grito, eu não iria ficar para trás. Num canto da plataforma, onde o último vagão do metrô iria parar, estavam: a Esposa, uma mulher de 30 anos e a autora do berro; o Marido, homem com mais ou menos a mesma idade e obviamente o alvo do grito; a Criança, uma menina de uns oito anos, que segurava a mão do sujeito (doravante chamada Menina); e a Amiga, outra mulher, que aparentemente não tinha nada a ver com a briga e que, claramente, preferia estar em outro lugar.

Acreditando que nem todas as pessoas da plataforma ouviram sua última declaração, a mulher repetiu:

– Sou eu que não te quero!

A maioria das pessoas desviou o olhar e fingiu que não estava acontecendo nada. Uns poucos continuaram olhando, mas bem disfarçadamente. Eu, obviamente, peguei meu livro e fui mais para perto, para não perder nada. Parei logo atrás deles, e com o livro aberto nas mãos, fingi que estava lendo, enquanto prestava atenção neles.

Não identifiquei o motivo da briga, mas vi que a coisa estava feia.

A Esposa ouvia os conselhos da Amiga (algo como “vocês precisam conversar, vocês ainda se gostam muito”) que seriam inúteis, dado o olhar de ódio que ela dirigia ao Marido. Ele, por sua vez, segurava a mão da Criança e olhava para o túnel do metrô, com uma expressão que ficava em algum lugar entre “por que eu saí da cama hoje?” e “por que eu me meti com essa louca?”. A menina, coitada, olhava assustada do pai para a mãe e da mãe para o pai tentando entender o que estava acontecendo. Prometi para mim mesmo que se ela olhasse para mim, eu iria tentar sorrir para ela.

O metrô chegou. Eu, obviamente, corri para o lado deles, porque não queria correr o risco de ficar num vagão diferente. E, como a porta do metrô parou bem à minha frente, entrei no vagão antes deles. Porém, quando eu passava pela porta, vi, com o canto dos olhos, o Marido segurando a mão da Criança e falando algo como “nós vamos esperar pelo próximo”. E ficou parado ali, enquanto a Esposa e a Amiga entravam no trem.

Mais do que depressa, sentei num banco e fiquei olhando para eles.

A Esposa, ao ver que o Marido não havia embarcado com a Criança, pegou a mão da menina e a puxou para dentro do vagão, gritando algo como “ela vai comigo!”. Antes que a menina aterrissasse dentro do trem, o marido já havia puxado ela de volta para a plataforma. E eu ali, olhando aquela disputada inusitada pela guarda da menina – que substituía toda aquela complicação de advogados e tribunais por um método aparentemente mais eficiente e inspirado em Escravos de Jó – sabendo que a qualquer momento, a porta do metrô fecharia, com ou sem a Criança no caminho. Afinal, as portas do metrô já têm muito que fazer durante o dia e não se importariam com uma criança sendo puxada para dentro e para fora do vagão.

No fim das contas, a Criança acabou ficando do lado de fora. Eu, obviamente, torcendo para que o Marido e a menina entrassem novamente no vagão, para continuar a briga num lugar onde eu pudesse assistir, mas o que sucedeu foi justamente o contrário. Ao ver a filha do lado de fora do metrô, a Esposa saiu do vagão puxando a Amiga para fora.

A discussão continuaria na plataforma da estação. E eu estava dentro do vagão. Eu iria perder o final daquilo!

Todos os meus instintos gritaram para eu levantar e sair do vagão atrás deles, para poder continuar assistindo ao quebra-pau. Aliás, eu estava disposto a segui-los discretamente até os confins da Zona Leste, se fosse preciso. Não importa em qual vagão eles brigassem, eu estaria ali, logo atrás, quieto e assistindo. Mas descer do metrô atrás deles daria muito na cara. Afinal, eles devem ter me visto entrando no vagão logo antes deles, não pegaria bem eu entrar e descer do metrô na mesma estação.

O aviso de que as portas iriam se fechar começou a tocar. Quase levantei.

Quase.

Mas, no último instante, lembrei que já estava atrasado para encontrar a Sra. Gordon. E, se eu me atrasasse ainda mais, provavelmente hoje outra pessoa estaria escrevendo em outro blog um post sobre o casal que ele viu brigando no metrô, com a mulher sem olhar na cara do baixinho careca que pedia desculpas insistentemente, alegando justamente que ele havia se atrasado por causa de uma briga no metrô (algo que tornaria o texto dele melhor ainda, mas transformaria o meu sábado num desastre completo).

Na dúvida, achei melhor (e mais seguro) terminar o dia tendo um post incompleto, mesmo. Paciência, nem sempre as coisas são como a gente quer.

Tenho pena mesmo da Criança, que está descobrindo isso da pior maneira possível.

26 de junho de 2008

Lá e De Volta Outra Vez - Um Conto Hobbit

(ou O Minotauro e o McDonald's)


Uma das lendas mais famosas da mitologia grega é a do Minotauro, criatura com corpo de homem e cabeça e cauda de touro. A sua aparência devia-se ao fato de que era fruto da união entre um touro branco e a esposa do rei de Creta, Minos, que enlouqueceu e se apaixonou pelo animal. Aliás, é impressionante como a mitologia grega e os filmes brasileiros dos anos 70 são parecidos. A história mal começou e você já sabe que aquilo vai descambar para a putaria mais cedo ou mais tarde. Acho até estranho não existir nenhuma lenda grega estrelada pelo Nuno Leal Maia ou pela Aldine Müller.

Enfim, voltando ao Minotauro. Minos mandou projetarem um Labirinto sob o seu palácio em Cnossos para servir de moradia para a criatura. Lá, o tourinho vira-lata vivia feliz da vida, devorando os atenienses que eram jogados em seu domínio. Isso, claro, até o bravo Teseu conseguir desvendar o segredo do Labirinto (usando um novelo de lã) e eliminar o bicho. Com isso, os atenienses nunca mais precisaram temer o Minotauro.

O Labirinto, por sua vez, foi transportado para São Paulo, onde foi aberto à visitação pública com o nome de Shopping Paulista.

Veja bem, por fora, o Shopping Paulista (que hoje chama Shopping Pátio Paulista ou algo assim) é uma edificação aparentemente normal. Mas basta você cruzar a porta da rua para adentrar numa estranha dimensão, que se recusa a obedecer às leis da física e da geometria.

Primeiro, o lugar tem um quê de Hogwarts: as lojas e escadas mudam constantemente de lugar. Em uma das primeiras vezes que estive lá dentro, passei duas horas correndo atrás de um banheiro que estava sempre um corredor à minha frente. Eu andava e ele andava também. Cheguei a perguntar onde ele ficava num balcão de informações e a resposta foi: “fica no próximo corredor”. No corredor seguinte, eu perguntei a mesma coisa a um segurança e a resposta foi “fica no próximo corredor”.

Quando eu havia rodado o andar inteiro – e voltado ao primeiro balcão de informações – sem conseguir alcançar o banheiro, cheguei a considerar a hipótese de parar na frente de uma loja, fingir que estava olhando a vitrine e obedecer ao imperioso chamado da natureza ali mesmo. Mas fiquei com receio dos seguranças e acabei mudando de idéia, saí do lugar e fui usar o banheiro de um boteco do outro lado da rua.

Recentemente, entrei com a Sra. Gordon ali, porque precisávamos ir a uma loja da Tim. Aliás, estou começando a perceber um padrão aqui: toda vez que eu me ferro de algum modo, a Tim está envolvida. Enfim, ficamos horas lá dentro até achar a maldita loja. E o único segurança que encontramos e que poderia indicar o caminho tinha um problema de fono e se comunicava como uma guarda gamorreano (galáxia muito distante mode: on). Ou eu e a Sra. Gordon realmente encontramos o Minotauro e tivemos sorte de escapar com vida.


– Por favor, há uma loja da Tim neste shopping?

– Grrrrrrrrrrrauuuuu!

– Oi?

– Grrrrraaaaauuuuuu!

– Sim ou não?

– GRRRRRRRRRRAAAAUUUUUUU!

– Sim?

– GRRRRRRRRRRAAAAUUUUUUU!

– Ok. Eu acho. Para que lado fica?

– Grrrrraaaaauuuuuu!

– Deixe, eu mesmo acho. Obrigado.

– Grrraaau.



Saímos em busca da loja. E, em nossa jornada, encontramos o McDonald’s. Num total de 19 vezes. È impressionante como todos os caminhos lá dentro levam ao McDonald’s – independente de você caminhar na direção do McDonald’s ou não. Mesmo se você acabou de sair do McDonald’s, você vai encontrar o McDonald’s cinqüenta metros depois. Aliás, creio que se você andar o suficiente dentro do McDonald’s, você encontrará o McDonald’s do mesmo jeito. Onde você for, o McDonald’s chegou primeiro.

É mais ou menos assim: você sai do McDonalds’s e anda 50 metros em direção ao Sul. Sobe uma escada de 45 degraus e vira para Leste. Anda mais 20 metros e sobe outra escada de 30 degraus. Vira novamente para o Sul e anda mais 100 metros. Desce uma escada de cinco degraus, vira uma esquina e pronto: você voltou ao McDonald’s e aqueles desenhos do Ronald McDonald, Papa-Burguer e toda a turminha rindo da sua cara. Simplesmente não faz sentido – além de ser absurdamente humilhante.

Mas as escadas são as mais interessantes. Estudando algumas inscrições deixadas por exploradores em algumas paredes, descobrimos que a loja da Tim ficava num plano astral conhecido como “Piso Paraíso”, localizado dois andares acima de onde estávamos. Percorremos centenas de quilômetros até encontrarmos uma escada e subimos um piso. Apenas um lance de escadas, e mais nada.


A praça de alimentação do Shopping Paulista.

E para achar a porra da escada? Andamos o piso inteiro – o McDonald’s, que estava no piso de baixo, aparecia na nossa frente cada vez que virávamos uma esquina – até que voltamos a mesma escada rolante pela qual havíamos subido até ali. Mas, curiosamente, agora, ela descia. Sem muita alternativa, descemos e encontramos o McDonald’s de novo.

Começamos a andar novamente – Sra. Gordon já com lágrimas nos olhos – e encontramos um lance de escadas normais (até então, estávamos usando apenas as rolantes). O problema é que, após dias caminhando lá dentro, subir dois lances de escadas não era uma tarefa exatamente fácil. Mas, sem muitas outras opções, resolvemos arriscar a sorte e subimos. Durante a escalada, encontramos o esqueleto de um viajante (no 3º degrau), a Arca da Aliança (no 21º degrau), o McDonald’s (no 25º degrau) e uma garrafa com um bilhete de um náufrago (no 29º degrau).

Finalmente, chegamos ao almejado “Piso Paraíso”. Passamos mais algumas horas andando por ali, e tomando cuidado para não entrarmos numa escada por acidente, encontramos a loja da Tim. Mas, como a Tim sempre é a Tim, o sistema estava fora do ar e o atendente nos indicou a Fast Shop (“fica só dois pisos abaixo”). A Sra. Gordon caiu em prantos.

Começamos a caminhar novamente pelo shopping. E, obviamente, estávamos andando em círculos, mesmo depois de termos descido um lance de escadas.

– Nós já passamos por aqui.

– Será?

– Sim, eu me lembro dessa vitrine.

– Não tenho certeza.

– Olha o McDonald’s ali de novo! Finge que não viu e vamos embora!

– Estou começando a ficar com medo.

– Aperta o passo, acho que O McDonald’s está vindo atrás da gente.

– Meu Deus, a loja da Tim!

– Mas a loja da Tim estava no andar de cima!

– É a mesma loja! Olhe o vendedor ali!

– Bom, estamos no caminho certo, então. Tinha uma escada na frente da loja.

– Sim, era só virar aqui.

– A escada virou uma loja de roupas!

– Olhe o McDonald’s ali na frente! Vamos embora daqui!

Eu estava começando a me conformar com o fato de que passaríamos o resto da nossa existência ali. Mas caminhando em um dos corredores, ainda tentando encontrar a Fast Shop, demos de cara com uma luz forte e brilhante. Protegi meus olhos, imaginando que era alguma armadilha do McDonald’s, e, caso eu continuasse andando, cairia num alçapão repleto de batatas fritas e nuggets. Porém, vozes que vinham da direção da luz despertaram minha curiosidade e abaixei a mão.

A saída.

Um portal de energia havia se aberto em um dos corredores. Do outro lado, a Avenida Paulista, com suas bancas de jornal, seu Starbucks e sua Livraria Cultura.

Mas o portal estava se fechando. Só havia algo a fazer. Algo que demandaria cautela, estratégia e muito planejamento.

– Corre! A saída!

– Nós não vamos conseguir!

– É nossa única chance! Vamos!

– Mas a Uni está em perigo! (caverna do dragão mode: on)

– A Uni que se foda! Vamos!

Antes que o portal se fechasse, conseguimos nos atirar na Avenida Paulista, quase derrubando uma japonesa que fumava na calçada. Olhamos para trás e, antes que o portal se fechasse, avistei o McDonald’s correndo em nossa direção, tentando nos atrair para dentro do shopping. Atrás dele, vi de relance a loja de Tim. E a Fast Shop.

Felizmente, o portal se fechou. Para sempre, espero. Independente disso, nunca mais coloco os pés ali. Porque sei que tive sorte em escapar com vida daquele local. Porém, se algum leitor estiver em São Paulo, com o espírito de aventura afiado, e deseja explorar aquela masmorra, deixo aqui, como dica, o Top 5 Itens indispensáveis para quem deseja se aventurar no Shopping Paulista:

1. Provisões
2. Bússola
3. GPS
4. Doces
(para jogar enquanto anda e marcar o caminho)
5. Luz de Eärendil (Terra-Média mode: on)

21 de dezembro de 2007

Elementar, Meu Caro Champ.

Já que, na economia, política ou organização social não conseguimos nos equiparar aos países de primeiro mundo, resolvemos finalmente abrir os olhos e investir naquilo que temos de melhor: o crime. Finalmente tivemos um roubo civilizado, daqueles de cinema mesmo, com o furto de um quadro do Picasso e outro do Portinari, no Masp, em plena Avenida Paulista. Os ladrões entraram e saíram do local em três minutos, e, ao que tudo indica, já sabiam exatamente o que pegar, pois roubaram apenas essas duas telas, que estavam bem distantes uma da outra.

Ponto para eles. E sorte nossa, que demos o primeiro passo para nos livrarmos dos assaltantes que entram no banco, ficam passeando na frente das câmeras de segurança, batem o carro de fuga e são presos duas horas depois, bêbados num boteco qualquer. Aliás, eu queria que o filho da puta que roubou meu celular tivesse cavado um túnel até o meu apartamento (não estou nem aí que moro no oitavo andar, ele que dê um jeito) e furtado o aparelho enquanto eu dormia. Podia até deixar uma assinatura, como uma luva branca (pantera cor-de-rosa mode: on), para dar mais estilo ainda. Mas não, a única coisa em comum entre os dois foi o lugar do crime: a Avenida Paulista. Enquanto os ladrões do Masp esbanjam classe, ele passou de "bicicreta" deu um tapa em mim e pegou o "tefelone celulá". Pé que nasce para chinelo não chega a sapato nunca.

Agora, os veículos de comunicação – especialmente os sites da internet – estão aproveitando o roubo do Masp para colocar no ar as reportagens mais boçais do mundo, mostrando que não somos um país digno de criminosos desse estilo. O Terra chegou ao cúmulo de colocar no ar uma enquete, perguntando se “você acha que os quadros serão vendidos?” As opções, claro, era apenas “sim” e “não”, o que podava muito a criatividade dos leitores. Sinceramente, senti falta de opções mais elaboradas como “Sim, eu já vi as duas telas sendo vendidas no Mercado Livre”, e “Não, eles roubaram para poderem fazer cópias falsas e venderem em feirinhas de artesanato por R$ 5,00”.

Não entrei no Ig, mas tenho certeza de que deve ter uma notícia como “Saiba o que Ivete Sangalo estava fazendo na hora do roubo”, com um link para “veja fotos de famosos visitando o Masp”. Ô fase.

E, enquanto todo mundo discute o roubo e a audácia dos vilões, eu já desvendei o crime. Sim, sim. Tenho uma teoria oficial sobre o cérebro por trás desse plano ousado. Eu, Rob Gordon, formalmente, acuso a senhora Rob Gordon de planejar todo o golpe. Duvidam? Apresento-lhes o Top 5 motivos para encarcerarem esta pessoa aqui, por ter roubado o Masp:

1. O escorregão - Estávamos na Paulista hoje, e sugeri passarmos em frente ao Masp para ver se víamos algo de diferente. Ela responde que “você acha que vai ter uma foto dos dois ladrões, o alemão e o francês que roubaram os quadros, com a palavra "procura-se"?”. Como ela sabe que são duas pessoas? Como ela sabe que os ladrões são um alemão e um francês?

2. A venda - Qualquer pessoa que lê seu Twitter (cheque o blog dela) sabe que ela está de viagem marcada para Buenos Aires, com embarque no dia do Natal. Provavelmente, venderá as telas ali.

3. A Fuga - Ela encerrou o blog. E, num ato de cinismo, ainda deixou registrado (ou como um sinal para o resto da quadrilha?) seu destino, batizando o último post de “adieu”.

4. O Álibi – Ela fez compras na Saraiva.com, hoje, com o meu cartão de crédito. Está evitando gastar dinheiro no nome dela, para não levantar suspeitas.

5. O Plano B – Usando as compras da Saraiva.com como desculpa, ela ainda solta: “Talvez entreguem um pacote na sua casa esses dias. Não abra, por favor, até eu voltar de viagem”

As peças se encaixam? Também acho. Se eu deixar de dar notícias aqui muito tempo, acionem a polícia federal, por favor. E juro (antes mesmo do tal pacote chegar aqui) que eu não tenho nada a ver com isso. Especialmente porque eu jamais roubaria o Masp, estando ali na Paulista, tão perto da Comix.

P.S. – O Championship Vinyl foi indicado como Melhor Blog do Ano no site Judão. Agradeço a lembrança – e tenho 99,99% de certeza de qual redator do site o colocou ali – e, em nome do blog, que está passando as férias na praia e me deixou aqui com as atualizações, que entrem e votem. Não tenho a menor pretensão de ganhar, pois sei que o perfil de leitores do Judão é totalmente diferente dos leitores do Champ, mas, num país regido pela democracia, votos sempre são bons.

26 de novembro de 2007

Tum-Tum-Pa-Ti-Cum-Bum

Sábado eu estava voltando para casa, no metrô vazio. De repente, não consegui mais ler meu livro porque um som irritante começou a atrapalhar minha concentração. Sem fazer idéia do que se tratava - percebi apenas que vinha do fundo do vagão - olhei ao redor e vi todos os outros passageiros olhando para aquela direção, com aquele olhar de "puta que o pariu, que saco".

Olhei para trás e vi, próximo à última porta, dois sujeitos de mais ou menos 18 anos cada um, tocando pandeiro no metrô. E cantando. Ao lado deles, em pé, uma fêmea de espécie não identificada, ocupava um espaço de mais ou menos 3 metros de raio no vagão, sambando.

Não satisfeita em sambar, ela ainda tentava ensinar os outros, que, aparentemente, só sabiam tocar (e mal, ainda por cima).

– Coloca o pé aqui, e vira! E coloca o outro pé aqui, e joga! ela gritava, dançando.

Quando ela falou "joga" tive um impulso de obedecer e arremessar meu livro na testa dela, mas me contive. Olhei ao redor e comecei a procurar o Zeca Pagodinho. Sim, porque depois daquela boçalidade da Zeca Hora, não me surpreenderia se tivessem inventado o Zeca-Vagão, e eu tivesse entrado nele por acidente. Felizmente, nem sinal dele ali.

Na estação seguinte, desci e mudei de vagão. Pelo menos outras cinco ou seis pessoas fizeram a mesma coisa. Antes de sair do vagão, porém, ainda ouvi a porta-bandeira da Unidos do Metrô reclamando indignada:

– Que povo chato! Ninguém dança! Mas deixa, continue! Coloca o pé aqui...

Centenas de trens em São Paulo, e isso acontece no meu vagão. Ô fase.

Aí, hoje de manhã abro o Terra e duas manchetes me chamam a atenção: "Adriane Galisteu samba e mostra a calcinha" e "Nivea Stelmann samba e exibe boa forma". Fiquei na dúvida. O Carnaval 2008 foi adiantado e já começou? Porque, até onde eu sei, o carnaval começa (todos os anos, independente do dia em que o carnaval cai) no dia 2 de janeiro, quando a Globo começa a exibir aquela mesma vinheta de sempre, com a Valéria Valenssa sambando e vestindo um par de sandálias e seis confetes. O carnaval 2008 foi adiantado, é isso?

Se bem que admito que o carnaval começando oficialmente poucos dias após o feriado da Proclamação da República é de um simbolismo invejável.

Veja o nível dos trios elétricos da Inglaterra.
Eles têm o Cream, nós temos o Chiclete com Banana.

E, para finalizar, já em ritmo de carnaval, deixo vocês com o Top 5 Trios Elétricos que eu faria questão de ir atrás (Nirvana não entra porque é apenas trio, nunca foi power nada):

1. Cream - Se Eric Clapton realmente é Deus, Cream era o Monte Olimpo.
2. The Jimi Hendrix Experience - O trio comandado pelo guitarrista cujo único erro em sua carreira foi morrer.
3. Motörhead - A única coisa mais assustadora o rosto de Lemmy é o peso do baixo do próprio. Eu adoraria passar um carnaval na rua dançando ao som de Orgasmatron.
4. Rush - Imagine o Jamil (o cantor, não o leitor do blog) num palco. Agora imagine o Neil Peart. Entendeu, né?
5. Wolfmother - Para mostrar que até a Austrália humilha a gente em termos de trio elétrico.

18 de novembro de 2007

Desabafo

Einstein disse, certa vez, que Deus não joga dados. Eu acho que não apenas ele joga, como tem dados viciados. Ele só tira duplo seis, especialmente quando o adversário sou eu. O que prometia ser um feriado excelente, tornou-se um inferno pois, em questão de horas, percebi que minha dentista psycho-killer tem razão quando manda eu parar de fumar; briguei com a respectiva; e, completando com chave de ouro, fui assaltado.

Sim. Assaltado. Pela terceira vez na vida. O problema é que desta vez levaram meu ultra mega power celular que eu havia comprado poucos dias atrás. Estava na avenida Paulista, conversando com a Sra. Gordon, e um animal passou de bicicleta e arrancou da minha mão (dando uma porrada em mim no processo). Cansei. Resultado: fiquei sem celular e passei o dia de hoje assistindo aos dois primeiros Desejo de Matar e bolando maneiras de começar a eliminar trombadinhas pela rua.

Radicalismo? Pode ser. Vai passar com o tempo? Pode ser. Entretanto, no momento, me tornei totalmente extrema direita. Assumi minha opção pró-pena-de-morte e, na próxima eleição, voto no Maluf. E estou pensando seriamente em comprar o celular mais caro do mundo, pedir para implantarem uma bomba no aparelho e andar com ele na mão, na rua, com um detonador no bolso. Quando um trombadinha arrancar ele de mim, eu aciono aquela merda e vou fazer chover pedaços do moleque num raio de 10 metros. E, no mesmo dia, vou comprar outro celular e mandar instalarem outra bomba.

E, por favor, se estão pensando em comentar algo sobre direitos humanos dizendo que esses moleques não tiveram oportunidade na vida, façam isso em outro blog. Eles não tiveram oportunidades na vida e eu tive? Ok. Acontece que o Abílio Diniz teve mais oportunidades que eu na vida, e isso não me dá o direito de ir até a casa dele e roubar o carro do cara. Tenho consciência de que os mendigos que ficam na porta do Pão de Açúcar pedindo um trocado para comprar pinga realmente precisam de algo chamado “inclusão social”. Outro dia mesmo eu paguei um lanche no McDonald’s para uma mendiga, e quando o gerente veio reclamar que ela estava ali, eu respondi:

– Ela está comigo.

Agora, o moleque que enfiou a mão na minha cara, invadiu minha vida e arrancou algo que era meu como se eu fosse um idiota... Bem, nesse caso, inclusão social de cu é rola. Desculpem o termo, mas é verdade. O taxista que peguei na volta para casa tentou me acalmar, dizendo:

– Fique tranqüilo. Mais dia, menos dia, esse moleque morre numa quebrada por aí.

O que eu sentia na hora (e ainda estou sentindo) foi resumido na minha resposta:

– Não me importa. Para mim não basta ele morrer. Eu quero assistir ele morrendo.

Estou revoltado? Talvez. Exagerando? Talvez. Mas lembre-se que não foi na SUA cara que enfiaram a mão, nem o SEU celular, que você comprou com o SEU salário, que pegaram.

Aliás, a coisa está tão feia que, logo após eu ser assaltado, tentei ligar para a respectiva de um orelhão e não consegui. Liguei, então, para minha mãe, e pedi para que ela telefonasse para a Sra. Gordon avisando. Quando minha mãe atendeu, eu, chorando, de ódio, de humilhação, de impotência, ainda tive que me identificar antes que ela desligasse na minha cara. Sim, porque se você liga chorando para a sua mãe, você tem que dizer seu nome. Caso contrário, ela irá desligar achando que é um trote-seqüestro. Daqui a pouco a coisa vai estar tão feia que vai ser necessário eu confirmar meu CPF com a minha mãe antes de pedir ajuda.

E ninguém faz nada.

E não estou falando da polícia, ou da justiça, apenas. Nem dos políticos. Você, que lê esse blog, não faz nada também. E eu não te culpo, porque eu também não faço nada. Isso se tornou parte da nossa cultura. Quando uma pessoa é assaltada, encaramos aquilo como se ela tivesse ficado doente. É algo que pode acontecer com qualquer um, mas, “paciência, a vida é assim mesmo”.

E, enquanto Nova York praticamente reduziu a sua criminalidade a zero em dez anos, graças ao programa Tolerância Zero, com o qual a população resolveu combater o crime, aqui no Brasil se discute se o Corinthians roubou ou não o título brasileiro de 2005, ou se alguém caiu na merda da Dança do Gelo essa semana. E um cara como o Luciano Huck é assaltado, reclama publicamente e é tachado de burguês, como se o fato dele ter dinheiro fizesse com que ele merecesse ser assaltado. Não, eu não gosto dele, mas não acho que ele mereça sofrer uma violência dessas. E um filme como Tropa de Elite é acusado de ser facista, simplesmente porque mostra o ponto de vista da polícia (em outras palavras: não romantiza a vida do bandido) pelos mesmos alunos da USP que invadem a reitoria e ficam queimando mesas para não ter aula, atrapalhando a vida de quem quer estudar;

Está tudo errado. O conceito está errado.

Não estou pedindo um justiceiro eliminando bandidos na rua de madrugada, ou um super-herói combatendo o crime. Também não estou pedindo para que alguém comece uma guerrilha urbana. Não estou pedindo para que me dêem um celular novo, eu trabalho e faço questão de comprar com o meu dinheiro.

Aliás, quer saber? Eu não estou pedindo por nada.

Estou apenas desabafando, porque é isso que me resta fazer nesse país. Desabafar. E você nem precisa se preocupar com meu desabafo. Daqui a quatro meses tem carnaval, e aí, todos os problemas deixam do país deixam de existir e tudo fica lindo e maravilhoso. E a Globo vai falar da alegria do povo brasileiro, desse povo sofrido que arruma tempo para celebrar sua alegria e sua malandragem no sambódromo. E aí, ninguém lembra mais de Renan Calheiros, de CPMF, de apagão aéreo, nem de babacas como eu, que têm o celular arrancado das suas mãos na rua. O carnaval é o feriado que dá um control+alt+del no país e “conserta” tudo o que está errado.

Sinceramente? A humanidade não deu certo. Hoje eu vou ser mais específico: a humanidade realmente não deu certo. Já o Brasil deu errado, mesmo.

Aos habituais leitores, peço desculpas pelo tom do post. Provavelmente vocês entraram aqui esperando dar uma ou outra risada, mas hoje não rola. Estou revoltado demais para isso. Mas, para não deixar vocês na mão, aviso que, na minha relação com a TIM, esse assalto teve o mesmo impacto que o assassinato do arquiduque Ferdinando em 1914. Ou seja, é guerra. Prometo que no próximo post conto tudo e faço o blog voltar à programação normal, comentando também o programa de rádio sobre o blog. Além disso, prometo que em alguns dias colocarei novos textos no Champ Review – não consegui fazer isso antes por causa do trabalho.

Isso, claro, se não roubarem meu computador.

23 de outubro de 2007

Mogli e as Chacretes

Independente da realização da Mostra de São Paulo (veja post anterior), andar pela Avenida Paulista, especialmente aos domingos, é um verdadeiro tratado de zoologia. A cada quarteirão, você descobre uma espécie biológica ainda não catalogada pela ciência, bem como umas quatro opções sexuais totalmente inéditas no planeta. Nada contra as opções de cada um, mas eu não me espantaria se um dia, andando por ali, eu desse de cara com uma hiena-verde-polar andando de mãos dadas com uma jaca albina.

Justamente por isso que toda vez que eu vou para a Paulista, de domingo, já vou consciente de que verei algo estranho até o final do dia.

Mas nada poderia ter me preparado para o que eu vi neste domingo.

Quem já foi à Paulista sabe que há um Bob’s, ali, perto do Center 3. E quem já entrou neste Bob’s sabe que existe uma área aberta, uma espécie de pátio, atrás da lanchonete. Acredito que aquilo seja um dos campos de teste de Deus, pois eu já havia encontrado ali, em outros domingos, alguns experimentos divinos frustrados, como uma menina que dormia praticamente dentro de uma mochila enquanto sua amiga lia poesia russa aos berros.

Neste domingo, estava com a sra. Gordon e, armado de um milk shake de Ovomaltine (bem batido, sempre, e foda-se a dentista que disse que eu não posso tomar gelado) fui para o pátio, ver as novas brincadeiras de Deus. Ao colocar os pés no local, uma surpresa: cerca de 20 jovens de aparência (vagamente) humana, mantidos em cativeiro no lugar, caminhavam pelo espaço, conversando, dando risada e dançando.

Sim. Dançando.

Uma meia dúzia deles estava numa espécie de escada que tem ali, fazendo coreografias. Não estou falando de meninas de 12 anos, ou de uma equipe de aeróbica, mas de homens e mulheres com idades em torno de 18 ou 20 anos fazendo coreografias no melhor estilo chacrete de ser, ao som de uma música ruim que saía de um aparelho (provavelmente CCE) tosco colocado ali do lado. Assim, como se fosse a coisa mais normal do mundo; como se estivessem na sala da casa (com as cortinas fechadas, óbvio), todos eles faziam os mesmos passos, liderados por uma menina de cabelos presos – que, depois de uns 10 minutos, apareceu do nada com um leque e o incorporou aos seus movimentos.

Todos, menos um cabeludinho magrelo, que era a cara do Mogli (a hora que eu percebi isso não conseguia nem respirar mais direito de tanto que ria; sem sacanagem, ele era mais parecido com o Mogli que o próprio Mogli) que conseguia a proeza de errar tudo. Enquanto as pessoas levantam o braço direito, ele chutava o ar com a perna esquerda; os dançarinos pulavam para frente, ele batia palmas. Tratava-se claramente de uma pessoa que não conseguiria andar e falar ao mesmo tempo, mas tinha o sonho de vencer na vida através da dança. Pobre Mogli.

A idéia era ele dar um pulo para a direita,
bater palmas e virar a cabeça para a esquerda.
Como a imagem acima deixa claro, não deu certo.

Mas eu disse dezenas de pessoas. Sim, dezenas. Enquanto essa meia dúzia fazia a coreografia ao som de algo tosco que eu não identifiquei, e o Mogli tentava acompanhá-los, o resto da manada reuniu-se em grupos distintos ao redor de algumas mesas e começaram a jogar RPG. Inclusive, alguns deles ostentavam – orgulhosos – uma camiseta escrita “narrador”. Comecei a ver as caras e me lembrei de que já havia visto alguns deles por ali, como um japonês que tinha um cabelo que ia mais ou menos até a Ana Rosa e uma gordinha que, no mesmo domingo da poeta russa, estava ali no pedaço vestida de Robin (não, não imaginem).

Mas o melhor de todos – fora o Mogli porque este é hours concours ao posto de atração bizarra do meu domingo – caminhava aquele que provavelmente seria o líder de tudo aquilo: um sujeito com mais ou menos 8 metros de altura, 720 kg, trajando camiseta, calça social, suspensórios, e a cara do Pingüim do Batman. E ele caminhava calmamente, em meio às mesas de RPG, com aquele ar de tranqüilidade que apenas os líderes naturais têm, observando as pessoas jogarem Vampire, Lobisomem, Dungeons & Dragons ou qualquer outro RPG que estivessem jogando.

E ele certamente era o líder, pois sempre que se aproximava de uma mesa, as pessoas fingiam estar se esforçando, rolando dados e fazendo anotações em suas fichas. Cada vez que ele chegava perto de uma mesa, era visível o medo no olhar das pessoas, sejam elas o japonês cujo cabelo era maior que meu salário ou a Gordinha-Robin. A sorte do Mogli é que o sujeito estava interessado no RPG, pois, se qualidade da coreografia fosse investigada, o pobre Menino das Selvas provavelmente seria devorado pelo líder da gangue.

E eu ali, tomando meu milk shake tentando compreender o que acontecia à minha volta. Acho bonito demais a nossa juventude consciente, que não bebe, não toma drogas, não pratica sexo sem segurança – especialmente porque metade deles tinha cara de quem não praticava sexo de jeito nenhum – e que escolhe passatempos mais saudáveis, como jogar RPG e fazer coreografia na Avenida Paulista em pleno domingo.

Mas aquilo era informação demais. Já joguei muito RPG na vida, mas nunca nada parecido. Me senti num filme do Fellini. Terminei meu milk shake, e fui embora, deixando o Mogli atrapalhado ali com a coreografia. Mas antes, fiz uma promessa para mim mesmo.

Eu nunca mais vou até a Avenida Paulista sem uma máquina fotográfica.

E, para finalizar, deixo vocês com o Top 5 desenhos da Disney que mais gosto (os da Pixar não entram):

1. O Cão e a Raposa – as aventuras de Tobi e Dodó é o MEU desenho da Disney. Foi o primeiro que assisti no cinema e sim, chorei feito um idiota.
2. Robin Hood – um dos desenhos mais subestimados da história. Apesar da versão do Kevin Costner ser muito legal, a raposa da Disney é muito mais ator.
3. Fantasia – provavelmente o desenho que eu mais gosto de todos da Disney. Acho aquilo de uma genialidade absurda.
4. Aladdin – sem dúvida, o mais legal desta nova geração. E o Robin Williams arrebenta dublando o gênio.
5. Branca de Neve e os Sete Anões – é o primeiro desenho animado em longa-metragem, e só por isso, já merece entrar aqui.

22 de outubro de 2007

Mostra o Seu, que eu Mostro o Meu

Pronto.

Começou a Mostra de SP.

Com isso, os bichos grilos e indies metidos a cult que habitam as calçadas do Espaço Unibanco podem abandonar por alguns dias aquele ecossistema que dividem com os camelôs que vendem livros sobre socialismo e camisetas do Che Guevara e migrarem para outros locais da cidade. Assim, nos próximos dias, as imediações da Avenida Paulista serão tomadas por dois tipos de pessoas: alguns poucos fãs de cinema que se deliciam com a programação da Mostra de São Paulo, mas, que, como possuem empregos normais, precisam escolher a dedo qual sessão irão assistir; e hordas de jovens que estudam ciências sociais na USP ou na PUC, não trabalham porque são sustentados pelo pai, lutam pelo fim da exclusão social (mas moram num apartamento de quatro quartos no Jardins) e que são loucos para trabalhar numa Ong e passar o resto da vida fumando maconha na praia porque, além de serem intelectuais e de esquerda, são moderninhos e transgressores.

Se você se encaixa neste último tipo, e esta é a sua primeira Mostra de SP, não fique nervoso. Siga as dicas abaixo e você passará tranquilamente por cult, talvez até mesmo tornando-se mais insuportável que muitos intelectualóides que carregam muito mais Mostras de Cinema que você na bagagem.

O que assistir?
Pegue um catálogo da Mostra e selecione seus filmes, fazendo isso obrigatoriamente sentado sob o vão do Masp. O critério de seleção dos filmes é fácil: primeiro, elimine todos os filmes falados em língua inglesa. A seguir, analise as películas francesas e marque para assistir aqueles cuja sinopse de duas linhas já é terrivelmente chata. Por fim, pegue todos os filmes feitos em países latino-americanos ou em regiões da Ásia que não possuem água potável e assinale como obrigatórios. Marque com canetinha, pois, assim, qualquer pessoa que espiar o seu catálogo verá o quanto você é cult e só assiste a filmes difíceis. Não se esqueça de dizer repetidamente para todos os seus amigos que a única coisa que presta na Mostra é aquele filme afegão sobre uma noiva que cai – junto com um camelo e um garoto aleijado – numa fossa de esgoto e passa oito dias lá dentro – e que ninguém vai ver – é, de longe, o melhor filme dos últimos quatro anos.

O que vestir?
Vá de bermuda e havaianas, porque calça jeans e sapato é coisa de gente que segue modinhas fúteis como ter emprego com carteira assinada. Não se esqueça também daquela camiseta do Che Guevara (com ou sem a cara do Seu Madruga, para mostrar sua verdadeira consciência política latino-americana) que seus amigos acham que foi comprada na porta do Espaço Unibanco mas, que, na verdade, sua tia comprou no Shopping Iguatemi e lhe deu de Natal. Se estiver frio, vá com seu abrigo da Adidas daquele modelo que se usava nas aulas de educação física dos anos 70 (época na qual já eram toscos) e que foram retirados do esquecimento uns dois anos atrás por algum estilista infeliz . Se você for mulher, uma saia indiana e um chinelão de couro gasto também podem ser utilizados.

E os acessórios?
Durante a Mostra, os assessórios são quase tão importantes quanto a roupa, pois são eles que fazem a diferença entre o cult profissional e o amador. O primeiro item é o cachecol: independente de estar fazendo 42 graus à sombra, o uso do cachecol é obrigatório em todas as sessões. Lembre-se que, sem cachecol, você não é digno de assistir a nenhum filme da Mostra e deveria estar estar mesmo é num Cinemark qualquer, assistindo a Hora do Rush 3 e se empanturrando com baldes daquele líquido negro do imperialismo norte-americano. Outro item essencial são os óculos de Mostra, com armação grossa, pequenos e quadrados que só quem é cult usa. Alguns acessórios que não são obrigatórios mas muito bem vindos são a bolsa de couro meio hippie, que você vai encher de livros do Gabriel Garcia Marques que você nunca leu (e nem pretende, porque você já teve dificuldades em entender o texto da contracapa), mas que deixará à vista de todos – lembre-se que todos os livros devem ser surrados, porque cult que é cult só compra livros em sebo. Não se esqueça também de comprar a Caros Amigos e andar com ela fora da bolsa, para as pessoas acharem que é isso que você lê quando quer uma leitura leve.

Como se comportar?
Nas filas, finja que está fazendo marcações no seu catálogo da Mostra, para as pessoas acharem que você é altamente experiente no que diz respeito às mostras de cinema. Ou finja que está no celular com alguém explicando porque aquele filme afegão da noiva no esgoto é, de longe, o melhor filme dos últimos quatro anos. Durante as sessões faça cara de conteúdo o filme todo, mesmo que você não esteja entendendo nada do que está acontecendo na tela – o que é bem provável que aconteça. é fácil: fique com o rosto apoiado na mão (o ideal é manter o indicador ao lado do rosto e o polegar sobre o queixo) e, se o braço começar a doer, não demonstre isso. Além disso, se as pessoas começarem a rir em alguma cena engraçada do filme, vire-se para trás e olhe feio para todo mundo, deixando clara sua indignação. Lembre-se que você não pode rir no cinema. Os filmes da Mostra são arte em estado puro e arte não é divertida.

O que fazer depois do filme?
O único lugar que você pode ir após os filmes é um Frans Café. Faça questão de manter o seu catálogo da Mostra na mesa, bem visível a todos, para que os demais clientes saibam o quanto você é cult. Se estiver sozinho, compre uma Folha de São Paulo e faça comparações entre os horários das sessões no jornal e do catálogo da Mostra. Se estiver com seus amigos insuportáveis como você, faça questão de que as pessoas das mesas ao lado ouçam o que você fala, para que você possa mostrar o quanto manja horrores de cinema alternativo. Lembre-se: os filmes que todo mundo assistiu (e gostou) são ruins; já aquele filme afegão sobre a galera presa no esgoto – que passou em apenas uma sessão e ninguém viu porque tinha apenas legendas em alemão – é a única coisa que valeu a pena na Mostra. Faça referências a todos os diretores pelo sobrenome, como se você estivesse familiarizado com o trabalho deles – mesmo o sujeito tenha feito apenas um filme (não se esqueça de estudar a pronúncia correta dos cineastas franceses antes de sair de casa). Quando comentar os filmes, use sempre, em alto e bom som, expressões como "transgressor", "ruptura", "resgate", "releitura", "humano demais" e "bem construído" sempre que possível.

O que fazer até a próxima Mostra?
Não se esqueça que ser intelectualóide da Mostra é algo que rende frutos mesmo depois do final do festival. Quando seus amigos lhe convidarem para assistir algo, diga que você não vai porque já assistiu na Mostra. Aliás, diga que você já assistiu na Mostra e é bem meia-boca. Caso o convite seja para ver a porra do filme afegão sobre a noiva, o camelo e o menino presos no esgoto, diga que após a Mostra você assistiu ao primeiro trabalho do diretor (não se preocupe, ninguém vai saber se é verdade ou não) e que é infinitamente superior. Sendo assim, seus amigos estarão todos no cinema e você poderá ir para assistir a Heroes ou 24 Horas sem correr o risco de algum amigo seu descobrir que você gosta desses programas burgueses e comerciais.

25 de junho de 2007

Dia do Orgulho Hétero

Hoje eu estava assistindo TV em casa, quando comecei a ouvir uma conversa do (da) meu (minha) vizinho (vizinha) Jasmim, que estava aos berros e gargalhadas com algum (alguma) amigo (amiga) no telefone.

O assunto? A Parada Gay. Isso ainda rende assunto, mesmo duas semanas após ter acontecido?! Sinceramente, os gays estão de parabéns. Isso sim é uma comunidade de verdade. Três milhões de pessoas na Paulista, a mídia inteira mobilizada e um evento com shows e atrações. Não é a toa que cada Parada Gay repercute entre eles com a mesma intensidade que uma semifinal de Copa do Mundo ou a estréia de Rocky Balboa repercute entre nós, homens.

Ok. E quanto a nós, heterossexuais? Nada?

Convenhamos, já está mais que na hora de termos o Dia do Orgulho Hétero. Especialmente porque o objetivo da Parada Gay sempre foi o de combater a intolerância e respeitar os direitos da minoria gay. Bom, novamente, parabéns para eles, conseguiram. Conseguiram tanto que inclusive deixaram de ser minoria. Basta dar uma volta aqui em Pinheiros nas tardes de sábado (especialmente na feirinha da Benedito Calixto), para ver que nós, héteros, é que somos a minoria da vez.

Justamente por isso, é o momento de defendermos nossos direitos. É hora de levantarmos a bandeira e combater a ignorância, e o preconceito que sofremos por termos uma única (negrito mode: on, por favor) opção sexual e por gostarmos de hobbies que muitas vezes são acusados de serem toscos ou rudes demais. Chegou o momento de gritarmos ao mundo que “Eu gosto de mulé e cerveja e sou feliz assim!”

É hora de assumirmos nossa condição de
minoria e levantarmos nossa bandeira!
Mas cuidado aí atrás, sem encoxar, hein?


Sendo assim, esboço abaixo como poderia ser o Dia do Hétero aqui em São Paulo. Mas, antes, um aviso: como sou homem, formatei o evento para a população masculina do universo heterossexual, da qual pertenço com orgulho. Peço, então, às leitoras heterossexuais deste blog: deixem, nos comentários, sugestões e idéias de como o evento poderia agradar também a vocês.

Afinal, um evento só com homens não seria exatamente heterossexual, certo? Mãos à obra, enquanto deixo vocês com algumas das minhas idéias:

1.Data
Assim como a Parada Gay, será realizada num domingo, com eventuais pausas para a transmissão (em telões instalados no local do evento) da corrida (pela manhã) e do jogo do Brasileirão (à tarde). Como o evento não tem hora para acabar, é provável que a partir da 20:00, os telões passem a transmitir os programas de mesa redonda e os gols da rodada.

2.Local
Nada de Avenida Paulista. Ela é fresca demais, cheia de museus e cinemas exibindo filmes de arte. O local ideal da Parada Hétero tem que ser mais rústico, combinando com o evento. Um exemplo é a Avenida dos Bandeirantes – cujo comércio mais elegante é uma borracharia – ou a Radial Leste, onde até os raios de Sol têm medo de ir.

2.1 - Essas idéias valem para o primeiro ano. Depois que o evento crescer, a Parada será realizada na Marginal. Na Tietê, claro, porque Pinheiros é coisa de gente fresca.

3.Trajes
Homem que é homem não usa camisetas com inscrições como “Sou macho” ou “Homem de verdade”. Isso é coisa de quem precisa provar algo, e macho de verdade não precisa provar nada. O ideal é ir com a roupa que você estiver em casa, mesmo. Mas, se você quiser caprichar no visual (hum... estranho...), seguem algumas sugestões:

3.1 – Camisas de time de futebol são uma boa. Mas sempre lembrando que quanto mais antiga (como a do Palmeiras, dos anos 80, patrocinada pela Coca-Cola) ou mais “segunda divisão” possível (Portuguesa, América do RN, CRB) melhor. Lembre-se que camisas de times de outros paises não são bem vistas, já que homem de verdade não usa uma camisa que não seja do seu time.

3.2 – Camisetas de bandas de heavy metal também são aceitas, desde que se trate de heavy metal de verdade (não, Bon Jovi não é heavy metal). Ah, e sem bandanas na cabeça, por favor. Quem usa bandana é o Beckham. E o Beckham, bem, você sabe...

3.3 – Por fim, são aceitas camisetas distribuídas em épocas de eleição, especialmente as mais antigas, que você já usa como pijama ou para encerar o carro. Então, coloque o “Maluf Governador 86” no peito e divirta-se!

4. Alimentação
Não, nada de sanduíches e batata frita. Se você gosta de sanduíche natural, então, melhor ficar em casa. As barraquinhas venderão apenas comida de boteco, como torresmo, ovo colorido e caldo de mocotó. Haverá também algumas barracas vendendo espetinhos Mimi e aqueles yakisobas podres feitos na hora.

4.1 - O popular churrasco grego (carrossel de mosca mode: on) não será comercializado porque aquilo é nojento demais até mesmo nós, homens.

5. Bebidas
Caninha e cerveja. E só. Vale lembrar que a pessoa que pedir por “uma dose de aguardente, por favor”, pode arranjar problemas (ou ser chamado de frutinha, no mínimo). Favor usar termos como “cachaça”, “branquinha” e “quebra-gelo”. As barracas de bebida também venderão cigarros, mas apenas das marcas Hollywood e Continental.

5.1. - Quem quiser água, que entre num boteco e compre. Ou pule no jardim de uma casa e beba direto da mangueira - mas já sabendo que esse negócio de "beber na mangueira" é meio estranho.

6. Banheiros
Não haverá nenhum banheiro à disposição do público. Homem que é homem faz em qualquer árvore ou muro mesmo. E, se for algo um pouco mais... íntimo, digamos, pode-se sempre usar as instalações sanitárias de qualquer boteco boca-de-porco na região – sempre dando preferência aos mais imundos, claro.

7. Para as crianças
Os pequenos heterossexuais também terão espaço reservado: uma quadra, onde poderão disputar campeonato de futebol de salão (sem juiz), ou de queimada (usando uma medicine ball). Além disso, será montada uma área em qualquer obra da região, onde eles poderão brincar de guerra usando tijolos, pedras e cacos de vidro.

8. Palestras e Atividades
Diversas palestras e workshops para engrandeceriam ainda mais o Dia da Consciência Hetero. Alguns dos assuntos que poderiam ser abordados são: “Copas do Mundo – Evolução Tática”, “Filmes do Domingo Maior – Charles Bronson ou Chuck Norris?” e “Fórmula Truck – Melhores Momentos”. Já entre os workshops, tenho certeza de que “Como limpar a gordura da coxa de frango na calça sem sua mulher perceber” e “Martelos e Marretas – Novos Usos no Dia a Dia” fariam enorme sucesso.

9. Shows
Ivete Sangalo? Júnior Lima? Porra nenhuma! O Motörhead e o AC/DC seriam as bandas convidadas para animar os participantes ao longo do dia. À noite, ressuscitaríamos o Miele e o Concurso Garota Molhada.

10. Sorteios
Como brinde é coisa de viado, o evento contaria com apenas um sorteio. Os prêmios são um Motorádio Motorola, uma caixa de ferramentas e um vale-compras do shopping Voli.

É isso. Ou, ao menos, o embrião do projeto está entregue e formatado. E agora, enquanto deixo as leitoras do blog pensando em atrações femininas para embelezarem o evento e mandarem ao blog nos comentários, deixo vocês com outros 5 Dias do Orgulho que eu gostaria de ver:

1. Dia do Orgulho Nerd - esse não incomodaria ninguém, já que provavelmente seria realizado dentro do Second Life. Mas, claro, com direito a campeonatos de cosplay e de Magic.

2. Dia do Orgulho Feio- Tem cara de monstrinho? Tem 19 anos e nunca beijou na boca? Compra Acnase no Macro? Existe mais gente como você! Vá ao Dia do Orgulho Feio mostrar que nem só de beleza vive o mundo e passe a tarde xavecando aquele canhão que parece estar te dando bola.

3. Dia do Orgulho Fumante - Chegou a hora de uma das minorias mais perseguidas do planeta dar o troco! Justamente por isso, o evento será realizado no Parque Ibirapuera. E vale tudo: cigarro, cachimbo, charuto e cigarro de palha.

4. Dia do orgulho Cult - Todos vestidos com seu cachecol e sua camiseta do Che Guevara, marchando para o Espaço Unibanco, onde será realizada uma retrospectiva do Godard. Para encerrar o evento, um show do Teatro Mágico, com direito a sorteio de baseados.

5 - Dia do Orgulho Gordinho - Pode ser realizada na praça de alimentação de qualquer shopping. A Parada começaria no All Parmeggiana, passaria pelo Mc Donald's, Bon Grille, Michelluccio, Gendai, Almanara, Spoletto, e terminaria, no final da tarde, em qualquer Ofner ou Amor aos Pedaços.

13 de novembro de 2006

A Tarde dos Mortos Vivos

Segundo a Bíblia, quando o Apocalipse chegar, os mortos se levantarão de suas sepulturas e caminharão pela Terra. Na minha humilde opinião, isso está mais próximo de acontecer do que nunca. O mundo realmente está acabando e os sinais são cada vez mais claros. O primeiro foi quando a Portuguesa chegou à final do Brasileirão e, de lá para cá, a coisa só tem piorado. Por exemplo, a Hebe Camargo declarou, semana passada, que quer fazer sexo com o Roberto Carlos (o cantor, não o lateral-arrumador-de-meias), deixando claro que os mortos vivos não apenas existem, como estão bolando meios de se reproduzirem.

Mas o ápice de tudo isso foi nesse último Dia de Finados (sim, eu sei, o post está mais do que atrasado. Até eu terminar de escrevê-lo, prometo que invento uma desculpa para isso), com a realização da primeira Zombie Walk em São Paulo.

Para aqueles que não fazem a menor idéia do que estou falando (e são vagabundos a ponto de terem ignorado o link acima), a Zombie Walk é um evento já tradicional no Canadá e nos Estados Unidos. As pessoas se fantasiam de zumbis e saem caminhando, tropegamente, pelas ruas, em plena luz do dia. Quer dizer, zumbis, não. Prefiro muito mais o termo “mortos-vivos”. Infinitamente mais assustador. Infinitamente mais George Romero. Enfim, resolveram trazer isso para o Brasil, e já estava mais do que na hora. Afinal, isso é muito mais divertido que aquelas comemorações de halloween, que tentamos desesperadamente importar para o Brasil já há alguns anos. Na boa, você conhece alguém que tem saco de fazer aquelas abóboras com velas dentro? Sem falar que qualquer pessoa que sair pela rua fantasiado de bruxinho ou diabinho e gritando “travessuras ou gostosuras!” (mesóclise mode: on) tornar-se-á sério candidato a veadinho do bairro. Isso se não levar um tiro, pois é capaz de alguém pensar que é assalto.

Enfim, pessoas vestidas de mortos-vivos, caminhando da Paulista até Pinheiros, passando por todos os cemitérios do caminho? Sorry, eu não poderia perder isso de jeito nenhum. Sempre fui fã de mortos-vivos. E não, não estou falando dos zumbis modernos de Resident Evil ou dos anabolizados de Extermínio (que é um puta filme, apesar disso). Não. Nada é mais assustador que aquele povo dos filmes do Romero, que se arrastam pelas ruas, devorando tudo o que encontram. Aliás, os mortos-vivos merecem aqui uma singela homenagem. Enquanto os vampiros tornaram-se um bando de gays que passam a eternidade choramingando a solidão (Christopher Lee, cadê você?), os lobisomens caíram no ostracismo (sim, porque o limbo não existe mais, lembram?), os mortos-vivos continuam por aí, firmes e fortes, capengando nas ruas e nos campos, murmurando “Braaaains!” pra cá, “Braaaains” pra lá. Então, imagine isso na esquina da Paulista com a Consolação. Eu não imaginei. Eu fui com meu irmão – que, obviamente, também não figura na lista das 10 pessoas mais normais do mundo.

Chegamos lá com a cara e coragem, sem maquiagem, nem nada. Na verdade, deveríamos ter ido a caráter, putrefatos e rasgados, mas o debilóide do meu irmão, como deixa tudo para a última hora, acabou micando tudo (pelo menos ele não veio com o trocadilho infeliz de que “a maquiagem estava pela hora da morte”). Mas, como eu sabia que haveria gente ali maquiando os candidatos a mortos-vivos, fomos assim mesmo e demos sorte. Um(a) maquiador(a) que estava ali fazendo uma matéria com o Otávio Mesquita (é...eu sei. sem comentários) sobre o evento fez a minha maquiagem e a do meu irmão por míseros R$ 20,00 cada (mais barato que um caixão). Na verdade, meu irmão quase não pagou, pois o moçoilo da maquiagem se engraçou com ele, mas, quando meu irmão deixou claro que os mortos-vivos comem apenas o cérebro das pessoas, o mocinho do pancake desanimou e resolveu cobrar para não passar a tarde em branco.

Maquiagem a postos, começamos a caminhada. E, para minha surpresa, vi muitas fantasias legais demais. Eu imaginei que as pessoas fossem esfregar um batom na cara e tentar convencer os outros de que aquilo era sangue, mas o pessoal caprichou. Me lembro, de cara, de dois militares completamente destruídos que chamavam a atenção pela super-produção da fantasia. Mas o que eu mais gostei foram os “categoria originalidade”, como um cowboy com seis flechas enfiadas no peito, um sujeito com um cabo de vassoura atravessado no corpo (na horizontal, bem entendido), e uma ou outra Noiva-Cadáver que também deram as caras por ali – uma delas com o respectivo cônjuge. Claro que, como era de se esperar, pipocavam, de vem em quando, um Jason ou um Fantasma da Ópera. Será que as pessoas realmente acham que aquele débil-mental do Sexta-Feira 13 é um morto-vivo? Morto-vivo é o roteirista daquelas merdas de filmes. Enfim, é Brasil, pode-se esperar de tudo. Pelo menos, não tinha ninguém com a camisa do Corinthians, o que já é um começo.

Agora, mais divertido que se arrastar morta-vivamente (neologismo mode: on) pelas ruas é ver as caras das pessoas olhando tudo aquilo. Entre velhinhas que davam risada e camelôs que exclamavam cânticos milenares de proteção divina (leia-se: Cruzincredo!”), o ponto alto foi quando eu e mais uns 30 zumbis cercamos um ônibus na Paulista e começamos a bater nos vidros, gritando. Claro que alguns gritavam “miolos!”, mas eu mantive a classe e me ative ao tradicional “braaaains!”. É, sou purista mesmo. Se ninguém no ônibus falava inglês, problema deles.


















Este que vos escreve tentando devorar o cérebro
de uma incauta, ao mesmo tempo em que , de
Marlboro na mão, mostra que avisos do tipo
"O Ministério da Saúde adverte" são
inúteis, quando já se está morto.

Isso tudo nos primeiros 25 metros, o que dá um trajeto um pouco menor que do MASP (lugar de partida) até metade do quarteirão seguinte. Porque, a partir daí, começou a chuva. Sim, eu sei, todo Dia de Finados chove. Eu sei disso, você sabe disso. Mas o pessoal lá em cima provavelmente se invocou com aquele povo vestido de morto-vivo e resolveu fazer chover de balde. Se você estava na Paulista, sabe disso. Aquilo redefiniu o conceito de tempestade. Me senti como Noé. A diferença é que ele estava dentro daquela porra daquela arca, vendo TV, e eu estava na Paulista, com meu tênis parecendo um pântano (mas enquanto ele tinha que ficar dando ração e limpando cocô de um monte de bicho, eu estava andando de morto-vivo pelas ruas. Chupa Noé!)

OK, não vou negar que aquele bando de mortos-vivos encharcados andando pela rua ficou ainda mais charmoso, mas, antes mesmo de chegarmos à Consolação, o talão de cheques que eu tinha no bolso já tinha sofrido PT e o mesmo aconteceu com meu maço de cigarros (novinho) 30 metros depois. Felizmente, eu, como zumbi prevenido, estava com outro maço lacrado no bolso, que escapou (quase impune) do aguaceiro. O problema é que meu Zippo dos Beatles, literalmente, fez água, e não acendia de jeito nenhum. Então eu passei a segunda metade da caminhada tentando me decidir se entrava numa garagem e esfregava dois pauzinhos, ou se invadia um boteco, com cara de morto vivo e pingando água, com um cigarro na boca, grunhindo “Fóóóóósforo... Fóóóósforo...”. Nos dois casos, as chances de eu levar um tiro eram grandes, mas o vício falava mais alto. Felizmente, eu e dois zumbis que passavam pelo mesmo apuro achamos um pipoqueiro com uma caixa de fósforo que fingiu que éramos pessoas normais, e, prontamente, salvou a vida de todo mundo ali (piada fácil mode: on).

Enfim, quase no final da caminhada, a chuva passou. E, ao contrário do que dizem, depois da tempestade não vem a bonança. Vem o frio. Uma nova era glacial começava em São Paulo e eu ali, encharcado. As pessoas devem ter pensado que eu dei um upgrade na minha maquiagem durante o percurso, porque eu saí do MASP com o rosto roxo e cheguei em Pinheiros com o corpo roxo (e tremendo). A sorte é que a balada pós-Zombie Walk era do lado de casa e eu e meu irmão fomos para lá tomar um banho quente e trocar de roupa. Obviamente, quando colocamos o pé dentro do apartamento (ignorando o olhar do porteiro, que não está acostumado com moradores mortos-vivos) lembramos que o chuveiro de casa estava queimado. Ou seja, está provado: existe vida depois a morte. E, sim, ela pode ser tão ou mais zicada que essa aqui.

A balada? Sim, voltei para a tal da balada. Tomei 4 latas de cerveja em 7 minutos, estabelecendo um novo recorde para a comunidade morta-viva e, como estava de estômago vazio, me tornando MESMO uma espécie de zumbi, incorporando totalmente o personagem.

Felizmente, como eu e meu irmão não achamos nenhum cérebro ali (o que era de se esperar, devido ao cheiro de maconha lá dentro), resolvemos voltar para casa, tirar a maquiagem e, devidamente reencarnados, invadimos o Galinheiro, ali na Inácio, e devoramos uma picanha. Mal-passada, claro, porque mortos-vivos também são filhos de Deus.

5 Desculpas para o Atraso do Post
1. Como eu “morri” no dia 2 de novembro (e isso foi arredondado para 6 de novembro, porque todo mundo emendou o feriado), só pude postar isso aqui depois da minha missa de sétimo dia.
2. Você já viu a velocidade que um zumbi anda? Imagine a velocidade, então, que ele digita.
3. Como os mortos-vivos de Extermínio, eu tenho uma porrada de tiques nervosos e contrações. É difícil digitar desse modo.
4. Como sou um zumbi-trabalhador, que precisa garantir o cérebro nosso de cada dia, não tive tempo de entrar aqui semana passada de jeito nenhum.
5. Braaaaains!!! (Sorry, eu realmente gostei de grunhir isso pelas ruas)