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21 de agosto de 2011

Star Wars: Episódio VII

Há muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito distante...


Star Wars

Episódio VII

Caça ao Blu-ray


É um período de guerra civil. Após o anúncio do lançamento dos seis filmes de Star Wars em Blu-ray, Rob Gordon não conseguiu mais dormir. Desde que a notícia foi divulgada, ele passa as noites em claro relendo as descrições dos extras dos discos e as dezenas de pockets da saga que possui em casa, aumentando sua ansiedade.

Nas últimas semanas, a tensão se tornou insuportável. Mesmo sabendo que o lançamento será somente em 30 de setembro, decidiu percorrer a galáxia em busca de sinais do pack. Todos os dias, ele entra em livrarias e lojas especializadas em busca do produto, ignorando o fato de que os discos ainda não existem.

Assim, neste final de semana ele rendeu-se ao Lado Negro e assumiu a identidade de Darth Gordon. Confuso e malvado, mais máquina que homem, ele foi mais uma vez à Fnac, desta vez armado e com um aparelho de som portátil. Assim que colocou os pés na loja, ligou A Marcha Imperial no máximo, esperando um vendedor se aproximar...



Darth Gordon: I sense something. A presence I've not felt since...

Menina da Fnac: Boa tarde. Seja bem vindo.

Darth Gordon: You may dispense with the pleasantries.

Menina da Fnac: Oi? Desculpe, mas...

Darth Gordon: I want that BD pack, not excuses.

Menina da Fnac: O senhor está atrás dos Blu-rays de Star Wars?

Darth Gordon: So, you have accepted the truth?

Menina da Fnac: É evidente que eu aceitei a verdade. O senhor vem todos os dias aqui atrás destes filmes.

Darth Gordon: You have learned much, young one.

Menina da Fnac: Ontem mesmo o senhor veio aqui e nós combinamos que o senhor voltaria apenas no dia do lançamento.

Darth Gordon: I am altering the deal. Pray I don't alter it any further.

Menina da Fnac: Mas os filmes não estão aqui.

Darth Gordon: And now, your highness, we will discuss the location of your hidden...

Menina da Fnac: Alteza? Olhe, agradeço, mas é perda de tempo sua. Os filmes não estão escondidos aqui.

Darth Gordon: Your thoughts betray you.

Menina da Fnac: Os filmes serão lançados apenas em 30 de setembro. Deve estar havendo algum conflito de informação.

Darth Gordon: There is no conflict.

Menina da Fnac: Senhor, os filmes serão lançados somente em 30 de setembro. É o que diz aqui, no meu sistema.

Darth Gordon: Don't be too proud of this technological terror you've constructed.

Menina da Fnac: Senhor, eu posso chamar o meu gerente, para ver se ele pode ajudá-lo.

Darth Gordon: He is as clumsy as he is stupid.

Menina da Fnac: Bem, vou chamá-lo. Ele ajudará o senhor.

Darth Gordon: If he could be turned, he would be a powerful ally.

Menina da Fnac: Chega. Edivaldo! Você pode atender este senhor?

Darth Gordon: There will be a substantial reward for the one who finds the Blu-ray pack. You are free to use any methods necessary, but I want it in one piece. No disintegrations.

Gerente da Fnac: Boa tarde. Em que posso ajudá-lo?

Darth Gordon: I do not want the Emperor's prize damaged.

Gerente da Fnac: O senhor veio atrás do pack de Star Wars em Blu-ray novamente? Vir aqui todos os dias não irá mudar a data de lançamento.

Darth Gordon: You underestimate the power of the Dark Side.

Gerente da Fnac: Senhor, eu não posso ajudá-lo. E gostaria que o senhor parasse de vir até aqui todos os dias, com esta capa e este penico preto na cabeça.

Darth Gordon: Impressive. Most impressive. Obi-Wan has taught you well. You have controlled your fear. Now, release your anger. Only your hatred can destroy me.

Gerente da Fnac: Não, eu não vou brigar com o senhor. Eu estou trabalhando.

Darth Gordon: If you will not fight, then you will meet your destiny.

Gerente da Fnac: Senhor, os filmes serão lançados somente em 30 de setembro. Eu não vou brigar com o senhor. Mas gostaria que o senhor se retirasse da loja.

Darth Gordon: The Force is strong on this one.

Gerente da Fnac: Mesmo porque a pré-venda dos filmes... O que o senhor está fazendo com este sabre de luz?

Darth Gordon: I have you now!

Gerente da Fnac: Por favor, o senhor pode abaixar isso? Eu não vou lutar.

Darth Gordon: You are unwise to lower your defenses!

Gerente da Fnac: Ai! Meu braço! Esta merda é quente!

Darth Gordon: You are beaten. It is useless to resist. Don't let yourself be destroyed as Obi-Wan did.

Gerente da Fnac: Chega! Chega! Vamos fazer o seguinte. Quem determina a data de lançamento é a distribuidora. Eu posso ligar para eles.

Darth Gordon: Move the ship out of the asteroid field so that we can send a clear transmission.

Gerente da Fnac: Oi?

Darth Gordon: Alert all commands. Calculate every possible destination along their last known trajectory. We'll have to destroy them ship to ship.

Gerente da Fnac: Senhor, isso aqui não é uma nave. É uma loja. Como eu disse, eu posso ligar para eles e checar a data...

Darth Gordon: No. Leave them to me. I will deal with them myself.

Gerente da Fnac: Graças a Deus. Quer dizer... Como o senhor preferir.

Darth Gordon: Bring my shuttle.


Notas:
1. Eu tentei fazer as citações em português. Mas como eu escrevia relendo os trechos com a voz do Vader (sim, eu faço terapia, caso você não saiba), me recusei a “dublar”. Seria um sacrilégio.
2. 99% das citações são absolutamente fiéis aos filmes. Mexi apenas quando era inevitável, para inserir o Blu-ray no texto.
3. Nenhuma das citações pertence aos episódios I, II e III. E se você sentiu falta disso, desculpe, mas os últimos três episódios são apenas filmes (apesar de eu gostar muito do III), enquanto os três primeiros são Mitologia.




28 de julho de 2011

Era uma Vez na Fnac

Foi agora, minutos atrás, na seção de Blu-rays da Fnac.

Eu estava voltando da terapia e passei por ali em busca do Kick-Ass, que, desde que li os quadrinhos alguns dias atrás, é minha nova paixão. Assim, fui dar uma pesquisada no preço do disco para, quem sabe, se fosse barato, fazer uma pequena loucura e ter o que assistir hoje à noite.

Achei o Kick-Ass e fui conferir o preço. R$ 80,00. Na verdade, era R$ 79,00, mas prefiro pensar que era R$ 80,00. Não sei o motivo, mas tenho a impressão que uma coisa ser vendida por R$ 79,00 está mais cara que outra que custa R$ 80,00. Talvez seja pelo tamanho do algarismo.

Vamos tentar.

- Quanto custa isso?

- Oitenta reais.

E agora:

- E este aqui?

- Setenta e nove reais.

- SE-TEN-TA E NO-VE? Tudo isso? Como assim?

Viram?

Enfim, o Kick Ass custava 80 reais. Imediatamente, meus neurônios do departamento de consumo começaram a fazer planos. Abriram uma planilha de Excel – normalmente não tem nada na planilha, eles abrem apenas porque dá um ar de importância para a coisa – e começaram a dialogar.

- Se nós levarmos outro filme, podemos parcelar no cartão.

- Verdade?

- Sim, em duas vezes. E dois filmes!

- Que demais! Vamos pegar então a Coleção Kubrick?

- Você está louco! São sete filmes!

- Mas é uma caixa só. Talvez ele não perceba isso.

- Ele é tapado, mas há limites.

- Esse Kick Ass é bom?

- Não sei. Acho que é de super-herói, eu só ouvi falar. Os neurônios do departamento
de nerdices estavam comentando no almoço, outro dia. Ei, o que é aquilo?

- Acho que é uma promoção. Olhe! Dois Blu-rays por R$ 59,90!

- Vamos lá ver? Acione as pernas aí.

Assim, me aproximei da bancada de DVDs em promoção e selecionei dois filmes que eu estava namorando faz tempo. Clube da Luta e Touro Indomável. Fiz as contas, tudo daria R$ 140,00. Começo de mês, fatura do cartão acabou de abrir... Ok, eu mereço me mimar às vezes. Por outro lado, talvez encontrasse outra coisa se fuçasse na loja. Aí eu deixaria o Kick Ass para outro dia, e pegaria algo mais barato.

Dei dois passos e, vi algo brilhando à frente.

Subitamente, os neurônios de todos os departamentos do meu cérebro, gritaram em uníssono:

- Aquilo é o que estamos pensando? Pernas, rápido!

Sem saber ao certo, o motivo, pulei na direção do objeto que brilhava. No processo, eu quase derrubei uma velha que estava procurando por um show do Padre Marcelo. Pensei em pedir desculpas, mas os neurônios gritaram ainda mais alto.

- Esquece a velha! Pegue o filme!

Peguei. Em minhas mãos, o brilho do objeto diminuiu e me permitiu ler o título do filme. Não consegui esboçar outra reação que não cair de joelhos, no meio da Fnac, apertando a embalagem no peito e sussurrando algo como:

- ObrigadomeuDeusobrigadomeuDeusobrigadomeuDeusobrigadomeuDeus.

Um segurança passou por perto e me levantei rapidamente, com medo de que ele achasse que eu fosse um terrorista com uma bomba. Mas, claro que se ele viesse perguntar, eu iria tirar satisfações empurrando ele contra a parede e gritando que “como assim você está chamando isso aqui de bomba?”. Mesmo assim, levantei e me afastei. Fui ver o preço do objeto que tinha em mãos. Passei no segundo leitor óptico (porque não importa a loja onde você está, o leitor óptico mais próximo de você nunca funciona) e a máquina me informou o preço:

- NÃO IMPORTA. LEVE.

Achei melhor obedecer. Fui direto ao caixa. Só no meio do caminho percebi que estava ainda com o Clube da Luta e o Touro Indomável em mãos. Nem me importei. Cheguei ao caixa e fui atendido.

- Pois não?

Arrumei meu chapéu e meu casaco. O vento começou a levantar poeira ao meu redor.

- Você conhece um homem que anda por aí tocando gaita?

- Senhor?

- É fácil de achá-lo. Ele toca quando deveria falar, e fala quando deveria tocar.

A mulher do caixa me encarou, provavelmente decidindo entre pedir um aumento ao final do dia, perguntar se eu tinha algum problema mental ou ambos. Ah, pobre criatura. Se soubesse o que eu tinha em mãos.

Entreguei os produtos e o cartão Fnac. Ela digitou o código e confirmou meu nome.

- Sr. Rob Gordon?

Olhei para ela de modo frio. O vento continuava. Calmamente, cuspi uma bola de tabaco babada e disse:

- Bem... Agora que você disse meu nome...

- Como senhor?

- Podemos pagar e ir embora? Queremos ver o filme!

Esta última frase, evidentemente, foi dita pelos meus neurônios. Acordei do transe, paguei e subi correndo a Teodoro. Agora estou em casa, de banho tomado, barba feita e com a minha melhor roupa. E uma almofada, porque este filme é para ser visto de joelhos.

Até amanhã.


Se eu soubesse que este filme estava sendo vendido
em Blu-ray, eu teria dormido na porta da Fnac.

30 de novembro de 2010

Rob Gordon X Mundo

"I'll tell you, let me give you a little inside information about God.
God likes to watch. He's a prankster.
Think about it
."
(John Milton - Advogado do Diabo)


Saia da Redação com destino à Avenida Paulista. Atravesse a rua e vá ao caixa eletrônico da Fnac para sacar dinheiro. Tente não enfartar com o casal que está dentro da cabine observando o saldo e debatendo, durante cinco minutos, se compram ou não um apartamento. Espere eles saírem. Entre na cabine do caixa eletrônico. Insira seu cartão. Observe o caixa eletrônico não esboçar reação alguma. Retire o cartão. Insira novamente. Observe o caixa eletrônico fazer de conta que não é com ele. Retire o cartão. Insira o cartão. Retire o cartão. Insira o cartão. Retire o cartão. Insira o cartão. Observe o caixa eletrônico pedir para você inserir o cartão. Grite “o cartão já está aí, caralho!”. Retire o cartão. Chute o caixa eletrônico. Vá embora, em direção a outro caixa eletrônico, localizado numa loja de conveniência a um quarteirão de distância. Pragueje e amaldiçoe os caixas eletrônicos e seu banco durante o caminho inteiro. Olhe no relógio e constate que você já está atrasado. Aproxime-se do caixa eletrônico. Insira seu cartão. Ouça o caixa eletrônico assoviando e fazendo de conta que você não está ali. Retire seu cartão. Insira seu cartão. Retire seu cartão, insira seu cartão, retire seu cartão, insira seu cartão, retire seu cartão, insira seu cartão, retire seu cartão, gritando todos os palavrões que você conhece. Dê um soco no caixa eletrônico. Saia rapidamente da loja antes que o gerente venha ver o que está acontecendo. Decida ir de táxi. Coloque a mão no bolso e veja que você está sem o talão de cheques. Conte novamente o dinheiro da sua carteira e descubra que você tem R$ 1,25. Decida ir até sua casa pegar o talão de cheques. Comece a subir a maldita Teodoro Sampaio. Tente não ter uma síncope quando, no meio do caminho, uma nova versão do dilúvio começa a despencar dos céus. Conscientize-se de que os estrondos que vêm do céu são trovões e não gargalhadas. Encontre seu caminho desviando das barracas de camelô e das pessoas cuja missão no planeta é tentar cegar as outras com as pontas de seus guarda-chuvas. No meio do caminho, entre no Pão de Açúcar. Molhado, aproxime-se do caixa eletrônico. Insira seu cartão. Observe a máquina comunicar que não há comunicação com o banco. Você está prestes a ter uma crise de choro. Retire seu cartão. Saia do Pão de Açúcar. A chuva aperta. Pare na calçada, erga o punho em direção aos céus e grite: “eu desafio você a vir me enfrentar pessoalmente aqui embaixo!”. Veja as pessoas ao seu redor olhando assustadas. Veja o céu respondendo com um relâmpago. A chuva aperta mais. Ande duas quadras. Encharcado, entre em casa. Pegue o talão de cheques. Saia de casa. Vá ao ponto de táxi mais próximo da sua casa. Constate que não existem mais táxis ali. A chuva aperta ainda mais. Vá ao segundo ponto de taxi mais próximo da sua casa. Constate que não existem mais táxis ali. Vá ao terceiro ponto de táxi mais próximo da sua casa, que fica na frente do mesmo Pão de Açúcar. Constate que não existem mais táxis na cidade. Respire fundo e resmungue: “ok, eu vou bancar o bobo. Eu vou jogar pelas suas regras”. Entre no Pão de Açúcar. Aproxime-se do caixa eletrônico. Insira seu cartão. A máquina sorri e pergunta: “Oi, amigão, quer sacar dinheiro? Por que não veio antes? Você está todo molhado!”. Saque R$ 20,00. Retire o cartão. Aproxime-se da máquina e diga baixinho: “eu vou voltar aqui no meio de uma madrugada e explodir você, sua filha da puta”. Saia do Pão de Açúcar. A chuva aperta muito. Encharcado, entre num ônibus. Olhe para as pessoas com ar de “eu vou matar todos vocês.” Pague a passagem. Escute o cobrador perguntando se “num tem mais troco não?”. Olhe para ele com cara de “você vai ser o primeiro a morrer”. Pegue seu troco. Sente-se em um dos bancos. Olhe pela janela. Observe a chuva parando, subitamente, e o Sol aparecendo. Sorria com ódio. Jure vingança contra o planeta.


"And while you're jumping from one foot to the next,
what is He doing?

He's laughing his sick, fucking ass off!"
(John Milton - Advogado do Diabo)



– Eu já coloquei o cartão, sua filha da puta!




29 de novembro de 2010

Melhor é Impossível

– Você conhece o A Vida é Bela?

– Sim, é um filme com o Roberto Benigni.

– Não, não, estou falando desta nova série de livros-presente. A Vida é Bela.

– Não é. Talvez a sua seja. Mas de forma geral, a vida não é bela. Adeus.

O medo leva à raiva. A raiva leva ao ódio. O ódio leva ao Lado Negro. E o Lado Negro aplicado a um promotor de vendas que escolheu o dia errado para falar comigo leva ao blog.

24 de novembro de 2010

Rob Gordon contra O Satânico Dr. Alaor

Antes de tudo, vamos falar de matemática e explicar uma das equações que regem nossa vida.

Ela funciona da seguinte forma: digamos que “A” é o tempo que você gasta para interromper o que está fazendo, caminhar até o telefone que está tocando e atendê-lo. “B”, por sua vez, é o tempo em que a pessoa do outro lado da linha precisa para se convencer de que ninguém irá atender e desistir, colocando o fone no gancho.

Invariavelmente (ao menos comigo), A= B.

Foi o que aconteceu cerca de uma hora atrás. Eu estava em reunião na sala do meu chefe e, de lá, ouvia meu celular, que havia ficado na minha mesa, tocando incessantemente. Uma hora não agüentei, pedi licença e vim ver do que se tratava. Saí da sala dele e caminhei até a minha mesa, com o telefone tocando. Mas, como queremos demonstrar, A = B e no momento que peguei o aparelho, ele parou de tocar.

Eram duas chamadas perdidas. A identificação: “Número Privado”. Ou seja, boa coisa não era – dentro do universo das ligações telefônicas, números privados nunca são os portadores de boas notícias. Ninguém nunca recebeu um convite para jantar ou uma declaração de amor de um número privado. Não, números privados são como terroristas telefônicos, que se aproveitam do anonimato para explodir seu dia.

Com sorte, um número privado é apenas um atendente de telemarketing. Mas há o risco do número privado ser o seu gerente do banco informando que sua conta está no vermelho, seu cartão foi cancelado e o FBI acabou de descobrir que você fez transações ilegais envolvendo o cartel de Medelín e querem satisfações. O engraçado é que se o gerente do banco liga para desejar “feliz aniversário”, o número aparece no visor; quando ele liga porque deu merda, é “número privado”.

Mas o grande charme do número privado é que você não consegue retornar a ligação. Ou seja, se você perde a ligação (como acontece sempre que aplicamos a máxima A = B), você continua sem saber quem era. Tudo o que você pode fazer é se sentar ao lado do celular e esperar ele tocar de novo.

E foi o que aconteceu comigo: ele tocou novamente. Claro que somente cinco minutos depois, quando eu estava de volta à reunião. Ignorei. Ao voltar para minha mesa, peguei o celular e havia um recado de voz, deixado, aparentemente, por alguém perdido numa floresta durante uma nevasca.

– Sr. Gordon... bzzzzz....cartão do banco... sssshhhhh..... gerente Adriana.... bzzzz.... urgente.... café...... ssshhhh....telefone XYZ....bzzzzz.....urgente....CRAC!

Sim, a ligação terminava assim mesmo, com um CRAC! Altíssimo. Não sei de quem a pessoa que me ligou estava tentando escapar, mas a ligação claramente havia terminado, pois ele fora golpeado (ou alvejado?) pelos seus perseguidores.

Ouvi o recado mais duas vezes, e ele continuou sem fazer sentido.

Eu só tinha uma coisa a fazer: ligar para a tal da Adriana, no telefone indicado.

Aparentemente, ela saberia o que fazer. Não havia motivo para eu ficar nervoso. Evidentemente, a Adriana era uma espiã que já havia desmantelado quadrilhas internacionais de traficantes de jóias e eliminado criminosos na calada da noite. Ela provavelmente estava envolvida em alguma investigação internacional e precisava desesperadamente de alguma informação minha. Claro que eu teria que sair correndo da redação, pois agentes inimigos estariam monitorando tudo, mas no final, tudo acabaria bem, eu e a Adriana terminaríamos nossa aventura bebendo champanhe às margens do Sena, numa lancha, ao nascer do Sol. Eu usaria smoking e estaria com a gravata afrouxada.

Ansioso pela aventura que me esperava, liguei. Uma voz masculina atendeu do outro lado.

– Frans Café, Fenáqui.

– Oi?

– Frans Café, Fenáqui.

Fiz o que qualquer espião internacional teria feito. Resmunguei um “foi engano” e desliguei.

Analisei friamente a situação. Fenáqui, certamente, deveria ser Fnac. Frans Café... Sim, eu tinha ido ao Frans Café da Fnac meia hora antes, tomar um café. E o meu contato telefônico havia dito algo sobre um cartão. “Cartão do banco” foi a expressão exata que ele usou. E eu havia usado o cartão.

Abri a carteira e, ao ver meu cartão ali dentro, respirei aliviado. Assim, abandonei a carreira de espião internacional e voltei a ser jornalista, começando a fazer um texto.

Mas aquilo não saía da minha cabeça. Se o meu cartão estava comigo, porque alguém havia me ligado para falar do cartão, deixando o contato do Frans Café? Não fazia sentido. Ok, o pessoal do Frans Café aqui ao lado é bem tapado, mas nada disso fazia sentido. Deixei a matéria de lado e comecei a usar meus poderes dedutivos. O único motivo que faria alguém me ligar seria eu ter esquecido meu cartão lá, mas como ele estava comigo... A não ser, claro, que meu cartão estivesse comigo e não estivesse comigo ao mesmo tempo.

Sim. Quando você elimina o impossível, o que sobra, por mais improvável que seja, é a verdade (Sherlock Holmes mode: on ou Spock mode: on, fica à sua escolha). Abri a carteira e puxei o meu cartão, passando os olhos pelo nome.

Alaor Whatever

Holmes teria dito algo como “Basta apenas se ater aos detalhes, Watson”. Spock, por sua vez, pronunciaria algo do tipo: “A lógica deste raciocínio foi irrefutável e apontou para esta solução, capitão”. Mas eu sou eu. Tudo o que consegui foi esconder o rosto nas mãos e resmungar:

– Puta que pariu, tem que ser sempre comigo?

Chamei meu estagiário.

– Meu nome é Alaor?

– Oi?

– Responda. Meu nome é Alaor?

– Não. Não que eu saiba.

– Ok.

Peguei o cartão, saí da redação e fui ao Frans Café. No meio do caminho, quase fui atropelado por um camburão, na Pedroso. Era só o que faltava – todos os meus documentos indicavam que meu nome é Rob Gordon, mas meu cartão do banco indicava que eu era o Alaor. Ou seja, além de atropelado, eu seria preso por falsidade ideológica, talvez falsificação. Ô fase, hein, Alaor?

Felizmente, cheguei vivo e inteiro no Frans – até mesmo resisti à tentação de entrar na Fnac e comprar uma TV de Led 3D no cartão do Alaor. Entrei no Frans e me apoiei no balcão. Uma das atendentes veio me recepcionar com uma bandeja.

– Oi, eu estou procurando a Adria...

– O carioca com os pão de queijo é seu?

– Oi? Não, eu estou aqui por causa do me...

– O CARIOCA COM OS PÃO DE QUEIJO É DE QUEM?

Suspiro. James Bond tem conexões internacionais, e eu tenho essa imbecil.

Fiquei parado ali, esperando o enigma dos pães de queijo ser resolvidos. Eram das duas velhas da mesa ao canto. Com esta crise encerrada, podíamos cuidar do meu cartão. Ela voltou para o meu lado.

– Oi.

– Oi. Quero falar com a gerente.

– Você é quem?

Não aguentei. Estufei o peito e tentei levantar somente uma sobrancelha, no melhor estilo Sean Connery.

– Gordon. Rob Gordon.

– Ah, é você que perdeu o cartão?

Isso nunca aconteceu com James Bond. E eu sei que não, eu li os livros.

– Sim.

Ela deu as costas para mim.

– ADRIANA, O RAPAZ QUE PERDEU O CARTÃO TÁ AQUI!

O Frans Café inteiro olhou para mim, como se eu fosse alguém totalmente despreparado para viver em sociedade. Assim, eu me tornei o assunto do Frans Café. Ou, ao menos, da mesa do canto, onde as velhas devoravam seus pães de queijo falando mal de mim.

– Olhe o tamanho dele, ele não deve ter mais que oito anos de idade. Quem deixa uma criança pequena assim andar com cartão do banco?

– Mas ele tem algum problema, Elvira. Ele não tem cabelos, coitado.

– Credo, Maristela. Será que isso pega?

E foi sob esta chuva de olhares e comentários maldosos que a Adriana apareceu com um envelope em mãos. Aparentemente, a menina do caixa se atrapalhou e deu o meu cartão para o Alaor e vice-versa. Ela pediu milhões de desculpas, e eu desculpei logo, porque queria apenas recuperar e meu cartão e ir embora, pois não agüentava mais interpretar a criança-sem-cabelos-que-perdeu-o-cartão-do-banco.

Voltei para a redação e decidi que agora, no Frans, somente em dinheiro. E se o Alaor quiser continuar usando o cartão dele, problema dele.

Ele que se entenda com as velhas depois.

1 de setembro de 2010

Rob Gordon X Bêbado da Fnac

Sabe aqueles dias nos quais você precisa matar alguém?

As mulheres chamam de TPM. Eu sou mais sincero e chamo de “dias que preciso matar alguém”. Sim, é esse o nome. Tem outros nomes, como “o dia em que o Rob está com os cornos virados”, ou “o dia em que o Rob está virado no saci”. Mas eu particularmente prefiro “dias que preciso matar alguém”.

E não é “dias nos quais preciso matar alguém”, é “dias que preciso matar alguém” mesmo, porque homicídio e concordância gramatical não necessariamente precisam andar juntos.

São os dias em que tudo, absolutamente tudo, deu errado e eu, em algum momento, explodo.

Ando pela rua torcendo para que alguém menor que eu surja do nada, puxe uma faca e mande-me entregar o celular. Assim, eu tenho todos os motivos do mundo para fazer com que ele coma a faca, o celular e provavelmente um dos meus tênis. Claro que nunca aconteceu nada, mesmo porque se existisse um homem menor que eu, ele estaria no Livro dos Recordes e não assaltando por aí.

Mas o outro motivo pelo qual nunca aconteceu nada é que meu rosto, quando estou assim, não deve ser dos mais simpáticos. Alguns meses atrás eu tive uma crise dessas e fui para a Paulista. Eu andava pela calçada e as pessoas iam desviando e abrindo caminho para mim. E evitando me olhar nos olhos. Num determinado momento, minha vontade era parar e berrar: “vocês não têm vergonha de sentir medo de alguém do meu tamanho?”

Sim, eu sou estourado. Puxei do meu pai. Já arrebentei porta de guarda-roupa com um murro, e quem leu minha saga das Copas sabe que em 1994, quando a Holanda empatou o jogo das quartas de final, afundei a tampa do quadro de luz da casa da minha mãe com uma cabeçada (se você não leu, está aqui).

Mas, quando eu explodo, dura apenas cinco minutos. Já os dias nos quais eu preciso matar alguém são bem mais raros (felizmente) e o ódio dura muito mais (infelizmente). Nesses dias, se eu fosse um personagem de Star Wars, o Darth Vader ligaria para o Imperador assim que me visse, para falar:

– Mestre? Acho que tem um lado negro mais negro ainda que o nosso. Você nunca me disse nada sobre isso. Sabe de algo a respeito? Porque, pelo que vi, lá parece ser mais promissor em termos de carreira. Isso sem falar na satisfação pessoal.

Enfim, ninguém precisa ficar assustado. Estes dias nos quais o Michael Douglas em Um Dia de Fúria perguntaria timidamente se pode andar comigo na rua, como meu assistente, são raros mesmo.

Mas recentemente tive um deles.

Estava andando pela rua com a minha melhor expressão Charles-Bronson-em-qualquer-Desejo-de-Matar, quando o tal moleque menor que eu com uma faca surgiu do nada, mas na figura de um guardador de carros bêbado. Foi ali, na frente da Fnac.

– Ei! Vozzzzzê aí!

Eu parei e olhei.

Eu já havia visto este bêbado ali algumas vezes. Está sempre gritando e mexendo com as pessoas na rua.

Enquanto ele se aproximava, tentei incinerá-lo com meus olhos. Não deu certo.
Meu punho se fechou.

Como estou jogando Batman – Arkham Asylum no PS3, planejei com cuidado cada um dos meus movimentos. Eu iria quebrar o nariz dele com um murro; ele iria ficar tonto; eu daria uma voadora; ele cairia para trás, sobre o capô de um carro estacionado a poucos metros. E eu terminaria a surra o segurando pelos cabelos encardidos e enfiando meu joelho em sua boca. Quando ele estivesse no chão, tentando contar os ossos quebrados, eu diria apenas “volte para sua cela ou eu irei atrás de você”, estalando o pescoço.

Meu punho apertou.

Não, melhor. Lembrei-me do Santino Corleone socando o Carlo Rizzi em O Poderoso Chefão. Ia cobrir o pau d’água de porrada até chegarmos perto de uma lata de lixo. E de metal, tinha que ser um latão de metal. Com o pinguço no chão, pegaria o tampo do latão e o surraria impiedosamente com aquilo, até deixar seu rosto desfigurado. Aí, me levantaria e cuspiria na cara dele, resmungando ofegante que “touch my sister again and I’ll kill you, seu bêbado filho da puta”.

(E, nos meus devaneios, o pessoal do Frans Café sairia correndo assustado para a rua, para ver o que estava acontecendo, e eu já quebrava um deles de porrada também, para puni-los pelo fato de nunca terem troco.)

Mas mudei de idéia. Primeiro, porque não tenho irmã. Segundo, a única lixeira ali perto é de plástico.

Não ia dar certo.

Estava pensando em qualquer surra que o Clint aplicou em alguém no cinema quando o bêbado decidiu que eu havia demorado demais. Era a vez dele.

– Vozzzzê conhezzzze zaquela piada do careca? Zzzzzzzá ouviu? Za piada do careca?

E de repente eu me lembrei que não sou o Batman, nem o Santino, nem ninguém.

Lembrei-me que sou o Rob Gordon.

Quer dizer, na verdade eu estava prestes a me tornar o Careca da tal piada, mas, naquele instante, eu ainda era o Rob Gordon. E, como Rob Gordon, eu não dou voadoras nem tenho tampas de metal de latas de lixo. Eu tenho só as palavras.

E, como o sujeito parecia estar bêbado demais para se lembrar de que um dia alguém disse “paus e pedras podem quebrar meus ossos, mas palavras não me atingem”, fui em frente.

– Conheço. É aquela na qual o careca manda o bêbado ir tomar no cu.

Meu punho continuou fechado.

– Zoi?

– É, é assim mesmo. Presta atenção que eu vou contar. Ok?

– Zok.

– Vai tomar no cu.

– Zoi?

– Eu avisei que já conhecia.

Pensei em colocar um “mortal” no final da minha frase, mas o bêbado não teria atentado a isso. (Nota mental: experimentar chamar alguém de “mortal” na próxima discussão que tiver na rua. Não me esquecer de fazer olhar de deus. Hades, de preferência. Procurar imagens no Google para futura referência.)

– Hum... Zaxo que não zera azzzim.

– Agora é. Vai embora antes que eu conte de novo.

– Tá. Xau.

– Tchau.

Virei a esquina, me apoiei na vitrine da Fnac e fiquei rindo por cinco minutos.

Às vezes, é mais fácil do que a gente imagina.

E mais divertido.

20 de dezembro de 2009

A Vida é HD

O publicitário que criou, anos atrás, a propaganda do Sprite dizendo que “imagem não é nada” definitivamente não deve comprar um Blu-ray, especialmente se ele acredita nessa frase.

No sábado passado, comprei meus dois presentes de natal: uma TV Full HD e um Blu-ray. Na verdade, a idéia era comprar apenas a TV – já pensando na Copa do Mundo – mas não agüentei e coloquei o Blu-ray no pacote. Afinal, eu já sabia que alguns dos meus filmes de cabeceira – como O Poderoso Chefão, Três Homens em Conflito, O Poderoso Chefão, Coração Valente, O Poderoso Chefão e Fogo contra Fogo já haviam sido lançados no formato – decidi comprar tudo de uma vez.

Inclusive, o pessoal da TV Gazeta está fazendo uma reportagem sobre o assunto veio aqui em casa me entrevistar – me acharam no Twitter. Na verdade, não apenas me entrevistaram, mas fizeram quase um curta-metragem aqui, foi divertido. Deve ir ao ar essa semana, acho que no Jornal da Gazeta, então, aqueles que querem descobrir minha identidade secreta deixem a TV ligada aí.

E, agora, com alguns filmes em alta definição no currículo, posso dizer com certeza que imagem não é tudo, mas é uma parte bastante importante. Coração Valente parece um filme feito hoje. As sequências aéreas que focalizam as montanhas da Escócia são impressionantes, colocam você dentro da tela. Comprei também a trilogia Matrix, que funciona estupidamente bem no formato, especialmente a sequência da auto-estrada de Matrix Reloaded.

Mas o grande impacto mesmo fica com os filmes novos, que já são feitos com o Blu-ray em mente. Watchmen começa sem grandes choques visuais, mas da metade para a frente tem sequencias de tirar o fôlego. O Cavaleiro das Trevas simplesmente humilha nas tomadas aéreas de Gotham, que deixam a cidade quase como uma animação – a nitidez é tão grande que você tem o impulso de olhar para dentro de cada janela de cada prédio para ver o que está acontecendo lá dentro. Aliás, animações chegam a ser coisa de outro mundo: Up – Altas Aventuras tem cores que eu, até então, não conhecia.

Assim, eu redescobri o prazer de assistir a filmes em casa. Nos últimos anos, assisti a um ou outro, estava entregue às séries. Agora, com o Blu-ray, voltei ao meu ritual de assistir filmes, cultivado durante desde a adolescência. Claro que como os filmes são mais caros, dou uma economizada, e não saio assistindo a dois ou três por noite – com cerca de 20 anos, eu cheguei a assistir os quatro Aliens de uma tacada só; na metade do terceiro, eu já babava ácido. Tento me segurar em um por noite, no máximo.

Agora, o problema é que isso alterou um pouco o meu gosto por filmes. Estou aplicando agora a filosofia Vinicius de Moraes: “as feias que me desculpem, mas beleza é fundamental”. Assim, escolho meus filmes agora pensando também no visual, e não apenas na história, como sempre fiz.

Mas meus amigos mais chegados gostariam de saber que, mesmo com o Blu-ray em casa, algumas coisas não mudaram: se eu chego perto de qualquer coisa (DVD, Blu-ray ou até mesmo um poster de qualquer um dos dois Transformers ou de G. I. Joe), já começo a espirrar e tenho um pouco de febre. Mesmo com o Blu-ray, esses filmes não entram aqui. Claro que muita gente pode dizer que estes filmes foram feitos para serem assistidos num equipamento desses; e eu respondo que eu sei o quanto paguei na TV e no Blu-ray player, e não quero esses filmes envolvidos de forma nenhuma no meu aparelho. 2012 é outro caso; eu queria que ele fosse vendido a granel, assim, eu compraria somente as cenas de destruição.

E, aos poucos, vamos montando uma pequena Blu-rayteca aqui, mas com controle para não sair gastando os tubos. Por exemplo: Homem-Aranha 3. É evidente que eu vou comprar um dia – apesar da tenebrosa cena da dancinha, sou fã apaixonado do personagem – mas apenas quando a Sony lançar o 1 e o 2. Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal também, mas somente quando os três primeiros estiverem em lojas.

Mas, enquanto isso, vou me virando com o que tem no mercado – novamente, sempre com calma – e já sonhando com o lançamento de alguns filmes. Sendo assim, deixo vocês com o Top 5 Blu-rays que precisam ser lançados para eu ser feliz:

1. Trilogia O Senhor dos Anéis – e, por favor, que sejam as três versões do diretor.

2. Star Wars – Sim, isso inclui os Episódios I e II, paciência. O consolo é que como O Império Contra-Ataca ainda vale por uns quatro filmes, o pack com os seis compensa.

3. Era uma Vez no Oeste e Era uma Vez na América – junto com Três Homens em Conflito, forma a Santíssima Trindade de Sergio Leone, que precisa ser assistida por qualquer pessoa que quer entender o que é testosterona.

4. Quadrilogia Alien – Ou, ao menos, os dois primeiros: agora, eu quero babar ácido em alta definição. E nada daquilo de Alien vs. Predador – sejam sinceros, qualquer Alien sozinho come os alienígenas jamaicanos com farinha.

5. Jornada nas Estrelas – A Série Clássica – Se Star Wars é meu alfabeto de ficção e fantasia, Jornada nas Estrelas é minha gramática. Kirk, Spock... Ih... Já foi lançado? Fudeu.

30 de março de 2009

Cantando no Chuveiro Banheiro

Já peço desculpas antecipadamente a qualquer pessoa que se ofenda com este post. Estou desde a semana passada tentando escrever sobre isso, mas não consigo por receio disso. Hoje resolvi meter os peitos, por que ainda estou muito puto com isso.

Antes disso, porém, quero deixar claro uma coisa: eu não tenho preconceito de nenhum tipo. Faço piadas com judeus, negros, orientais, gays e todas as minorias existentes, justamente porque tenho amigos de todas estas minorias – alguns deles, por sinal, grandes amigos.

Para mim, fazer piada com alguém por causa da etnia ou da opção sexual é algo absolutamente natural – respeitadas as devidas fronteiras com o mau gosto – da mesma forma que é normal fazerem piadas comigo por causa da minha altura ou de eu ser careca, ou gostar de filmes de mortos-vivos.

Falando especificamente sobre gays, o que estou tentando dizer aqui é que não tenho absolutamente nada a ver com as decisões que cada um toma sobre seu próprio corpo. Você é homem e quer se relacionar com outro homem? Faça isso, o corpo é seu, a vida é sua e somente você sabe o que é melhor para você mesmo. Agora, da mesma forma que você luta para que a sociedade aceite suas escolhas, favor respeitar as escolhas dos outros.

E isso inclui as minhas.

Posto tudo isso, sexta-feira passada eu estava na Fnac, na hora do almoço e fui até o banheiro. Quem conhece a Fnac de Pinheiros sabe que um dos banheiros fica na parte de CDs, logo depois da seção de jazz e música clássica. Estou caminhando na direção do banheiro, e quando estou a cinco metros, a porta do banheiro se abre e um sujeito de cerca de cinqüenta anos sai de lá de dentro.

Cruzei por ele e entrei no banheiro. Um funcionário da Fnac estava lá dentro. Parei em uma das casinhas e, de pé, abri a calça e obedeci ao imperioso chamado da natureza. Ao mesmo tempo, ouvi a porta se abrindo e pensei “o funcionário da Fnac foi embora”. Segundos depois, a porta se abriu e pensei “outra pessoa entrou no banheiro”.

Acabei o que tinha que fazer ali, fechei a calça e ao me virar para lavar as mãos, vejo que quem havia entrado no banheiro era o mesmo sujeito de cinqüenta e poucos anos que havia usado o banheiro segundos atrás. Já fiquei grilado e, instantaneamente, dei uma olhada de não-tenho-amigos-e-gosto-disso para ele.

Ele me encarou por uns dois segundos e, enquanto eu me dirigia a pia, ele caminhou para um dos mictórios e ficou exatamente de costas para mim. Eu, lavando as mãos, o observava pelo espelho e podia reparar que ele estava claramente fingindo que obedecia ao sistema renal e estava muito mais concentrado em mim no que quer que ele estivesse fazendo ali, porque ele ficou virando a cabeça, tentando me olhar.

Senti nojo. Não nojo da opção sexual dele, nojo da atitude dele. Mesmo assim, não me intimidei e caminhei ao lado dele, para usar aquelas máquinas de ar quente para secar as mãos. Comecei a esfregar as mãos, e, sinceramente, estava pronto para dar uma cotovelada na boca dele ao menor movimento suspeito que ele fizesse. Ele continuou virando a cabeça para tentar me olhar, mas ignorei isso da melhor forma que pude.

Para evitar a confusão que se anunciava – leia-se porrada na boca, seguranças, delegacia, nesta ordem – assim que saí do banheiro caminhei diretamente para a área de CDs de música clássica, de uma forma que ele sairia do banheiro e não teria como me ver. Segundos depois, descobri que menosprezei a cara-de-pau do sujeito. Ele saiu do banheiro olhando para os lados, com o radar ligado. Ao ver onde eu estava, claramente desviou o caminho e se colocou no corredor atrás de mim, num lugar onde poderia ficar me observando.

Larguei um CD que eu estava fingindo ver e, tremendo de raiva, saí de lá antes que eu enfiasse a mão na cara do sujeito. Não sei se ele me seguiu, porque se eu virasse a cabeça e visse que ele estava atrás de mim, o tempo ia fechar de verdade. Fui embora da Fnac e não vi mais nem sinal do sujeito.

Me senti totalmente exposto, especialmente na parte do banheiro. Como eu disse, se você quer que respeitem suas opções, respeite as dos outros. E ficar ensaiando uma aproximação no meio do banheiro masculino não é a maneira mais indicada de fazer isso, ainda mais quando você não sabe se a outra pessoa é gay ou não. Eu não tenho problema nenhum com gays, tenho problema com pessoas que invadem meu espaço sem permissão. Aliás, a atitude deste sujeito mostra que ele não é homossexual, é viadinho – existe uma enorme diferença entre estes dois conceitos, mais ou menos como existe entre “mulher” e “vagabunda”, “homem” e “cafajeste” – e eu estava pronto para tratá-lo como tal.

Você é homossexual e quer me cantar? Sinta-se à vontade. Eu vou soltar um “não” e pronto. Agora, não faça isso dentro de um banheiro. Uma pessoa assim entrar em um banheiro masculino é a mesma coisa que um homem entrar no banheiro das mulheres. Apenas para deixar claro o que me incomodou na situação, aviso aqui que se minha mãe ou minha namorada estivessem dentro um banheiro e um sujeito invadisse o local, eu iria querer matá-lo do mesmo jeito. Porque, sim, é exatamente a mesma coisa que ele fez. E eu, que gosto de mulheres, nunca fiz isso, porque sei que existem limites que devem ser respeitados. E se você não sabe respeitar estes limites de acordo com a sua opção sexual, bem, crie-se, então, um banheiro para gays.

A coisa é pior. Existe uma comunidade no Orkut, com cerca de 200 pessoas, sobre os banheiros da Fnac. No fórum, eles discutem quais lojas da rede têm os melhores banheiros para “rolar uma pegação”, como eles mesmos dizem. Fuçando na comunidade, vi que uma pessoa postou o seguinte comentário sobre o banheiro da Fnac Pinheiros: “Lá é um paraíso a ser descoberto... SEMPRE vazio.... fica no piso inferior, junto aos CDs de musica [sic] clássica [sic]... vale a pena conferir!” Além disso, eles combinam encontros nos banheiros das lojas com frequência.

Estas pessoas sabem que o banheiro não está ali para isso? Elas sabem que existem hotéis e motéis pela cidade e que transar no banheiro é atentado ao pudor? Será que elas desconfiam que famílias frequentam aquela livraria – ela tem até uma enorme seção infantil – e que talvez um pai possa querer levar seu filho pequeno ao banheiro?

Ou os direitos dos gays, pelos quais eles lutam tanto para que sejam aceitos, inclui permissividade? Desculpe, não é porque boa parte da sociedade não aceita sua opção que isso lhe dá o direito de transar onde quiser, ou de se insinuar para outras pessoas dentro de um banheiro. Eu adoro sexo e não é por isso que eu transo na rua, por total respeito às outras pessoas – e isso inclui você.

Então, por favor, respeite a mim, respeite minhas escolhas e respeite os meus valores.

10 de dezembro de 2008

Pequeno Interlúdio Encharcado

Você percebe que é uma pessoa azarada quando as luzes da Fnac acabam no momento exato em que você coloca os pés dentro da loja.

Você percebe que é uma pessoa muito azarada quando a luz da Fnac se acende no exato momento em que você (sem ter olhado nada lá dentro por causa da falta de energia) sai da loja e se afasta cinco metros da porta.

Você percebe que é um Rob Gordon quando uma nova versão do dilúvio começa exatamente neste momento.

É. Espero que vocês, leitores, achem isso divertido, porque, às vezes, não é fácil.

12 de outubro de 2008

Indignação

Até quando o governo vai permitir que uma pessoa como essa permaneça impune?


Assassinos, traficantes e pessoas que se sentam no
chão de livrarias: o voto deles vale o mesmo que o seu.

10 de julho de 2008

Por um Punhado de Dólares - Parte Final

Talvez se eu tivesse entrado diretamente na seção de CDs, sem ir olhar o Wii Fit, minha vida teria sido mais fácil naqueles corredores. Mas o Wii Fit estragou tudo. Todo o meu emocional estava abalado. Semanas de trabalho foram jogadas fora em poucos minutos. Meu corpo tremia, eu suava frio. Eu precisava comprar alguma coisa – qualquer coisa – e estava no lugar ideal para isso.

Minhas pernas, novamente, me traíram e resolveram assumir o controle da situação. Ou seja, a hora que percebi, já estava no meio da área com CDs de pop / rock. Peguei a minha chave e a encostei no pescoço, bem na jugular. Se as pernas tentassem me levar para a prateleira de hardo rock / heavy metal, eu acabaria com tudo ali.

Elas viram que eu não estava blefando e me deram um pouco de controle. Respirei fundo e arrisquei alguns passos entre as prateleiras. Eu andava na ponta dos pés, para não acordar os CDs. Não queria que eles me vissem ali naquela situação humilhante. E também não queria que eles soubessem que eu estava ali sem meu cartão – afinal, não é porque eu decidi parar de comprar tudo que isso me dá o direito de magoá-los dessa forma.

Dei uma volta por ali e meus dedos começaram a coçar. Eu precisava segurar alguma coisa. Eu precisava manusear um CD, sentir a textura da caixinha, ver o nome das músicas no verso. O problema é que, no estado que eu me encontrava, isso seria praticamente pedir para eu entrar em transe novamente e acordar na fila do caixa, com 19 CDs na mão.

A não ser que fosse algo deliberadamente ruim. Mas ruim mesmo, não ruim como um St.Anger do Metallica, que é péssimo mas eu quero assim mesmo por causa da coleção. Talvez essa seja a saída. Talvez eu deva começar a gostar só de coisas ruins. O problema é, que na minha ânsia de comprar qualquer coisa, se eu achasse algo ruim e barato, o tiro poderia sair pela culatra e eu tomar gosto pela coisa. Ou seja, eu deixaria de ser um colecionador e me tornaria num catador de lixo e passaria o resto da minha vida acumulando CDs de R$ 9,90 e implorando pela compreensão dos amigos.

– Rob, você tem todos os CDs do Judas Priest, mas tem todos do Latino também?

– É...

– Mas por que isso?

– Ah, eu estava no Carrefour e esses do Latino estavam baratos.

– Você tem um CD do Chiclete com Banana!

– É, é uma coletânea. Paguei R$ 11,00, lá na Teodoro.

– Mas, Rob, por quê?

– Eu não tenho mais dinheiro, ok? Já foi difícil demais ter que aprender a gostar dessas merdas, não preciso das pessoas me julgando também!

Abri os olhos e voltei à realidade. Eu estava chorando. Eu precisava ir embora dali. Mas, ao mesmo tempo, eu precisava segurar um CD. Talvez se eu achasse algo que fosse ruim e caro ao mesmo tempo, o plano funcionaria, ao menos nesse momento. Olhei ao redor e não vi ninguém perto de mim. Parei na letra B e comecei a olhar os CDs da Britney Spears. Peguei uns quatro CDs dela e fiquei admirando as capinhas, imaginando ter um box do Megadeth na mão.

A coceira nas mãos diminuiu um pouco. Não passou, mas se tornou suportável. Os Vigilantes dos Gastos ficariam orgulhosos de mim. Talvez, se eu segurar algo pior ainda – e caro – a coceira passe de vez. Decidi ir até a prateleira de rock nacional, certo de que acharia algo do CPM 22 ali. Bastava segurar o CD, imaginar que estava com um Best of duplo do Alice Cooper nas mãos e pronto. Isso me acalmaria.

Todo orgulhoso do meu plano, virei as costas apenas para dar de cara com uma prateleira repleta de CDs do Iron Maiden expostos. Ali, na minha frente. Todos eles me encarando, em silêncio e com olhar de decepção. Eles haviam me visto com os CDs da Britney Spears na mão! E, no meio deles, vi de longe uma capa que eu não reconheci de imediato. Era um CD do Iron Maiden que eu não tinha! Deus, por quê? Não bastava o Wii Fit? Mas, antes que eu pudesse olhar o CD com calma, um Powerslave, bem no centro da prateleira, deu uma tragada longa no cigarro e disse:

– Rob, você é nosso fã e nós amamos você. Mas nunca mais fique contra a famiglia novamente.

Joguei os CDs da Britney Spears para o alto e saí correndo e gritando “me desculpem!” e fui me refugiar no local mais seguro que encontrei: a prateleira de reggae, onde a chance de eu encontrar algo interessante é menor que zero. Me abaixei ali e comecei a chorar, decidido a ficar escondido naquele canto até todos aqueles CDs do Iron Maiden serem vendidos e eu poder ir embora. Mas o cheiro de maconha que vinha dos CDs do Bob Marley começou a me deixar enjoado. E a possibilidade de um CD novo do Iron estar a cinco metros de mim não ajudava muito.

Fazendo de tudo para que os CDs do Iron não me vissem ali, coloquei um pedacinho do rosto para fora da prateleira de reggae e arrisquei uma espiada com um olho só na direção do CD novo.

Era uma capa azul. Só consegui ver isso, porque, na mesma hora, um dos atendentes da Fnac parou na frente da prateleira e começou a arrumar os CDs. Eu sabia que não teria outra chance e precisava agir rápido. Aproveitando que ele estava entre eu e o CD novo, saí correndo para as escadas. No caminho, aproveitei e chutei uma pilha de The Shield – 4ª Temporada, para evitar que os packs me agarrassem. Subi as escadas, passei pelos caixas – fazendo gestos obscenos para todos eles, filhos da puta que se comportam como traficantes e arrancam meu dinheiro –, pulei uma pilha de Wii Fit e corri para a rua. Pensei em atravessar a praça e ir me esconder na banca de jornal do outro lado, mas aí seria brincar demais com a sorte.

Vim me esconder aqui no trabalho. Estou aqui até agora. E só saio daqui as 22:00, depois que a Fnac fechar. Eu já procurei o CD do Iron Maiden na internet, e vi que se trata apenas de uma coletânea com músicas que eu já tenho. Ou seja, é um CD inofensivo.

Ou não. Porque se eu sair daqui agora, eu vou querer ver o CD. E se eu segurar o CD na mão, vai dar merda. Eu sei que vai.

Desculpe, Powerslave. Eu ainda não estou pronto.

E, como tenho que enrolar aqui até a Fnac fechar, deixo o Top 5 coisas que não vou parar de comprar / gastar nem a pau:

1. Churrascaria – Não me importo de ir numa churrascaria daquelas de R$1,99, que servem carne de cavalo e de menor-abandonado. Mas não tenho como perder dois vícios de uma vez.

2. Biblioteca Histórica Marvel – Em alguns momentos, eu gosto mais desses livros (caríssimos) que contam as primeiras aventuras dos heróis Marvel do que de mim mesmo.

3. Miniaturas de Chumbo de Star Wars – Mas aí não é gasto, é investimento. Eu nem gosto delas, mas estou comprando isso porque um dia vou ter um filho e ele vai gostar de ter isso em casa. Ele não vai poder encostar, claro, mas será dele também.

4. O disco novo do Judas Priest – Eles anunciaram o disco antes de eu decidir parar de gastar. Como a lei não é retroativa, eu posso comprar.

5. O disco novo do Alice Cooper – Ver motivo acima.

6 de julho de 2008

Por um Punhado de Dólares - Parte II

Me enchi de coragem, acendi um cigarro, e atravessei a rua com passos decididos. Estava na hora de mostrar ao mundo que eu controlo meu destino, e a Fnac não interfere com isso de forma alguma. As pessoas querem que eu seja maduro e responsável com meu dinheiro? Vou mostrar a elas o que é responsabilidade. Vou entrar na Fnac, andar pela loja inteira e sair de lá sem comprar nada. E eu faço isso a hora que quiser. Sou muito mais forte que isso.

Por outro lado, como eu sou eu, achei melhor deixar a carteira no trabalho.

Apaguei o cigarro, entrei e parei dois metros depois da porta. A Fnac parecia ter sobrevivido muito bem ao nosso rompimento. Pessoas de todos os tipos andavam para pela loja, conversando com os vendedores e escolhendo o que comprar. O perfume de produtos novos, prontos para serem adquiridos, invadiu minhas narinas e me deixou embriagado. TVs de plasma, computadores, CDs, DVDs, livros, aparelhos de som começaram a bailar na minha mente – usando uma enorme etiqueta de preço escrita “parcelamos em 10 vezes” como pista de dança. Aquilo era demais para mim. Meu coração estava disparado. Uma lágrima rolava pela minha face. Consegui apenas levantar os braços e gritar:

– Eu adoro o cheiro de comércio pela manhã!

O problema é que eu entrei na Fnac certo de pensando apenas em resistir a um determinado tipo de gasto. Existem dois tipos de produtos à venda: aqueles que você quer e aqueles que você só descobre que quer quando existe. Eu me preparei para não ser afetado pelo segundo tipo, mas ignorei o primeiro. E esse foi meu erro. Porque eu mal havia dado cinco passos dentro da loja, e vi um brilho estranho vindo da seção de videogames. Senti um aperto no estômago – eu sabia que o que quer que fosse aquele brilho, ele brilhava para mim – e fui até lá.

Parei atrás de um monitor de 29 polegadas e, ficando na ponta dos pés (1.60m mode: on), dei uma espiada por cima dele, na direção daquela luz mágica.

E vi uma pilha de caixas do Wii Fit.

Eu não senti mais as pernas. Eu estou lendo sobre o Wii Fit desde o começo do ano e a certeza de que eu compraria o negócio no momento em que eu o encontrasse em alguma loja aumentava a cada dia. Mas, por outro lado, eu não contava com o fato de ele ser lançado no meio do meu ramadã financeiro. Entrei em pânico. Todos os meus neurônios começaram a fazer coreografias, cada um com um par de pompons nas mãos, fazendo coro de “Consumo! Consumo!”. Só havia uma coisa a fazer. Peguei o telefone e liguei para a Sra. Gordon:

– Sabe o que eu acabei de ver na Fnac?

– Você não vai comprar!

– Não, eu estou até sem cartão. Queria apenas dizer que eles já receberam o...

– Esquece!

– Mas eu liguei só para dizer que eles já têm o...

– Rob, chega! Esquece! Você não vai comprar nada!

– Mas será que...

– Não!

– Mesmo?

– Sim.

– Esse “Sim” que você disse foi para o “Mesmo?”, certo? Esse “Sim” não foi para o... Hum... Para o... Ah, para aquela outra coisa. Você sabe.

– Rob?

– Oi.

– Tchau.

E desligou. Olhei meu celular. Será que a Fnac aceitaria um aparelho Sony Ericsson como entrada no Wii Fit? Por que aí seria escambo, eu não estaria comprando nada. É isso! Achei uma brecha na lei!

Comecei a andar até o vendedor mais próximo, preparando meu discurso. Se ele aceitasse, eu levaria o Wii Fit e para casa, pegaria o carregador do celular e traria para eles. Mesmo porque, com um Wii Fit em casa, eu não precisaria de celular mesmo, porque eu não iria atender ninguém. Estava limpando o celular na calça, para torná-lo mais atraente aos olhos do vendedor, quando senti uma vibração na mão. Era uma mensagem de texto da Sra. Gordon.

“Comprou, morreu.”

Suspirei e guardei o celular no bolso. Por mais que eu quisesse sair da loja, meu cérebro queria olhar o Wii Fit mais de perto. Tentei ir embora, juro. Mas, antes que eu percebesse o que minhas pernas estavam fazendo, eu estava na frente da pilha de caixas de Wii Fit, admirando aquilo de perto. Sim, ao lado da pilha tinha uma etiqueta com três algarismos – e o primeiro deles era 5 – mas nem dei atenção. Eu não conseguia tirar os olhos do Wii Fit.

Fiquei ali feito um dos macacos do começo de 2001, na cena em que o monólito aparece pela primeira vez. Eu tocava de leve na caixa e rapidamente tirava a mão, com medo de me machucar. Dei uma olhada para os lados e, como ninguém estava olhando, dei uma cheirada de leve na caixa. O perfume daquele papelão louco para ser aberto com uma tesoura na minha sala começou a me deixar maluco.

Tentei fazer um acordo com meu cérebro, dizendo que se ele me colocasse em uma espécie de transe e só fizesse eu voltar a mim na calçada, com o Wii Fit dentro uma sacola, eu não ficaria bravo com ele. Mas ele estava ocupado lendo as especificações técnicas do aparelho e não ouviu. Comecei a fazer contas. Se eu deixar de almoçar por ano, eu recupero esse dinheiro fácil. E, se alguém perguntar a razão disso, eu digo que a balança do Wii Fit disse que estou gordo. Merda, porque não acontece uma guerra civil no país? Assim, eu viveria daqueles mantimentos que a Cruz Vermelha entrega para os refugiados e poderia comprar meu Wii Fit. Merda de país.

Meus pensamentos foram interrompidos por um movimento ao meu lado. Era um dos vendedores da Fnac que se aproximou da pilha. Fiquei com medo de alguém estar comprando aquilo. Porque eu me conheço, se eu visse que alguém estava levando um Wii Fit para o filho, eu sairia da loja na mesma hora e esperaria a pessoa na calçada, com uma meia na cabeça, pronto para pegar aquilo e sair correndo pela Pedroso de Moraes. Mas não era nada disso, ele apenas colocou outra etiqueta em cima da pilha. Olhei de relance e li apenas:


EXCLUSIVAMENTE HOJE

COMPRE O WII FIT E GANHE...


Dei um berro histérico. Aquilo era demais. Eu nem li o resto, porque aquele era meu limite. Um brinde é tudo o que eu preciso para entregar a alma. Mesmo se o brinde do Wii Fit fosse um apontador de lápis, eu não iria resistir. Empurrei o vendedor e saí correndo, sem nem mesmo olhar a direção que eu seguia.

Eu precisava ficar apenas longe daquele maldito Wii Fit. Quase atropelei uma velhinha e desci correndo as escadas rolantes. Quando eu percebi onde estava, era tarde demais. Eu havia descido diretamente para um dos Círculos do Inferno.

Na ânsia de escapar do Wii Fit, acabei parando no coração da seção de CDs e DVDs. E eu sabia que dificilmente sairia vivo dali.

(continua...)

3 de julho de 2008

Por um Punhado de Dólares - Parte I

– Olá, meu nome é Rob Gordon.

– Oi, Rob Gordon!

– Eu queria dizer que estou há 36 horas sem comprar um CD.

(clap clap clap)

De uns meses para cá, comecei a perceber que os meses estavam se tornando mais longos. Era mais ou menos como aquele negócio de sensação térmica: eu sabia que o mês tem 30 dias, mas a impressão que eu tinha é que o ano era dividido em doze períodos iguais de 45 dias cada.

Entrei em todos os portais para ver se algo estava acontecendo com o Sol, mas não encontrei nada. Chequei todos os calendários e agendas que encontrei e, constatei que, ao contrário do que eu pensava, os meses continuavam com os mesmos 30 ou 31 dias – com exceção do sempre menosprezado fevereiro. Ou seja, tudo continuava igual. O planeta não havia saído de órbita, e o mundo não adotou o calendário asteca e eu não fiquei sabendo.

O problema era comigo.

Ou melhor, com minha conta bancária. De uns meses para cá, as contas começaram a não fechar no final do mês. Fui investigar o que estava acontecendo – torcendo para ser cagada do banco – peguei uns extratos e observei cuidadosamente. Vale dizer aqui que a minha desorganização financeira chega a níveis ridículos – eu já cheguei a emprestar dinheiro para um amigo e escrevi, no canhoto do cheque, “favores sexuais”, só para sacanear o cara.

Enfim, analisei os extratos e foi aí que o problema ganhou contornos robgordonianos. Uma pessoa normal teria percebido que estava gastando muito com jantares, CDs ou DVDs. Até mesmo com roupas. Eu olhei os extratos e percebi apenas que estou gastando muito, mas não sei com o que, como ou onde. Há um ralo na minha conta, mas eu não sei onde ele fica.

Ou melhor, sei.

Eu sou o ralo. Eu sempre fui o ralo.

Sim, porque eu sou Consumista (assim mesmo, com C maiúsculo) desde antes de aprender a ler. E sou um consumista com classe. Quando eu menor, minha mãe falava que eu gastava muito dinheiro com bobagens e eu respondia que “nem queria ter comprado isso aqui, mas alguém precisa fazer o dinheiro girar no país pelo bem da economia”.

Bom, hoje eu sou – teoricamente – um adulto e continuo gastando dinheiro com “bobagens”. Quer dizer, bobagens para vocês. Tudo o que eu compro – quadrinhos, DVDs, CDs, miniaturas – são extremamente importantes para minha formação como pessoa e me fazem um ser humano muito mais tolerante com as pessoas ao meu redor.

Por exemplo, imagine que o Iron Maiden lançou um novo CD. Bem, eu simplesmente não consigo ser feliz sabendo que logo ali do outro lado da rua, tão perto de mim, existe um CD do Iron Maiden que eu não tenho. Eu começo a definhar emocionalmente, me sinto como um diabético na Fantástica Fábrica de Chocolate. E aí eu me torno grosso, arredio, mais sarcástico que o normal... Resumindo, eu me torno um porre.

O problema é que agora a crise bateu à porta. Fui conversar sobre isso com a Sra. Gordon. Expliquei o problema e ela, pacientemente, me deu uma série de conselhos financeiros e dicas de como gastar menos e me organizar mais.

– Onde você acha que gasta mais?

– Com o aluguel.

– O aluguel não conta.

– Conta sim, olha o estrago que ele faz ali perto do dia 20.

– O que é isso aqui?

– Fnac.

– E esse?

– É... Hum... Fnac. Acho.

– Acha?

– Não, não. Fnac. Tenho certeza.

– E esse outro?

– Fnac.

– Mas é no mesmo dia do outro!

– É que era uma história do Homem-Aranha que continuava em outra revista. Eu não sabia disso quando comprei.

– Mas precisava comprar no mesmo dia?

– Eu não podia ficar sem o final da história! Sem o final, a história não faz sentido. Ou seja, eu teria jogado fora o dinheiro que gastei com a primeira revista!

– E esse outro aqui, no dia seguinte?

– Então... Nessa segunda revista, que tinha o final da história do Homem-Aranha, tinha uma história nova do Quarteto Fantástico. Mas ela continuava em outra revista e... E... Ok. Eu paro.

Algumas horas de conversa (e três hematomas) depois, eu havia me decidido: hora de maneirar. Estufei o peito: vou cortar tudo o que é supérfluo! No More Mr Spending Guy!

Mas, por mais que minha intenção fosse boa, como cortar gastos trabalhando a 50 metros da Fnac? É um problema quase igual ao do Michael Douglas, que é viciado em sexo e se casou com a Catherine Zeta-Jones, achando que isso iria ajudar. Eu olhava para a Fnac, do outro lado da rua, e me sentia como alguém que se mudou para a favela da Rocinha somente para largar o vício em cocaína.

Os primeiros dias foram difíceis. Às vezes, eu olhava pela janela e dava de cara com ela ali, cinzenta, tristonha, sentindo minha falta. Mas as noites eram piores. Eu entrava em casa e abraçava minha coleção de CDs, chorando e pedindo desculpas porque não trouxe nenhum amiguinho novo hoje. E as alucinações? Por causa da abstinência, eu acordava, de madrugada, vendo livros, CDs, DVDs e jogos de Wii flutuando pelo quarto e rindo da minha cara. Sonhava que estava na galeria do rock comprando pilhas de CDs e acordava gritando coisas como “Parcela em 5 vezes! Parcela em 5 vezes!!

Eu precisava comprar algo. Qualquer coisa.

Numa madrugada, cheguei ao fundo do poço. Tremendo e suando frio, tive que me controlar para não pegar meu cartão de crédito e descer até o térreo do prédio para perguntar ao porteiro se ele não queria me vender o interfone. Só não fui por medo da minha síndica.

Mas, aos poucos, as coisas começaram a se acalmar. Claro que passei por outros momentos difíceis, quando o dono de uma banda de jornais me expulsou do local porque eu estava lambendo um Homem de Ferro especial, ou quando o segurança de um shopping center pediu para eu parar de ficar apoiado na vitrine, de uma loja de DVDs e olhando para as pessoas lá dentro como um mendigo na janela de um restaurante.

Mas sobrevivi.

Um mês se passou. Hoje, um pouco mais calmo, achei que era hora de testar o vício. Me enchi de coragem e tomei a decisão que poderia mudar minha vida.

Fui até a Fnac.

(continua...)

15 de junho de 2008

Rob Gordon X Pokémon, Naruto e Cia.

Hoje em dia, só se fala no centenário da imigração japonesa no Brasil. Não importa onde você estiver, qual revista ou jornal você estiver lendo, é apenas uma questão de tempo até dar de cara com imagens de imigrantes orientais do começo do século ao lado de uma foto da Daniela Suzuki ou da Sabrina Sato – esta última vestindo seu tradicional nada.

Deixo, então, os cumprimentos à toda nação nipo-brasileira – algum leitor habitual daqui é japonês? –, mas com ressalvas. Sim, ressalvas. Afinal, os japoneses trouxeram muita coisa boa, como os filmes do Akira Kurosawa, os livros sobre o Musashi e centenas de jogos de videogames. Mas, por outro lado, eles trouxeram os mangás. E, com isso, surgiu um dos grupos sociais mais detestados por este blog: os leitores débil-mentais de mangá.

Antes que você pegue sua coleção de Cavaleiros do Zodíaco e comece a jogar em mim, deixe-me ressaltar uma coisa: não tenho problema nenhum com os leitores de mangás; meus problemas são com os leitores débil-mentais de mangá. Da mesma forma que existem leitores de mangás que são pessoas normais, tenho certeza de que o Homem-Aranha, a Mônica e o Tio Patinhas também devem possuir leitores que apresentam deficiência de fosfato no cérebro.

Além disso, existem, sim, mangás que eu gosto. Inclusive, para não parecer tendencioso, vou explicar o que é um leitor débil-mental usando como exemplo um leitor débil-mental de quadrinhos em geral.

Duas pessoas (um leitor normal e um leitor débil-mental) entram numa banca e vêem que um X-Men novo foi lançado.

Enquanto o leitor normal dá uma rápida folheada, provavelmente decidindo se compra agora ou depois, o leitor débil-mental pega a revista e fica em pé, lendo quadrinho por quadrinho. E ele faz isso no meio da banca (o que atrapalha quem quiser quer andar por ali) ou com o corpo colado na seção de quadrinhos (o que atrapalha quem quiser dar uma olhada das revistas daquela prateleira), babando, inerte e totalmente alheio ao mundo ao seu redor.

Você olha na cara dele e é óbvio que ele está numa espécie de transe. Ainda no exemplo dos X-Men, cada vez que a Vampira aparece, o leitor débil-mental dá uma discreta olhada ao redor para ver se ninguém está olhando e fica admirando os peitos dela no desenho e pensando como ela deve ser na cama. Looser demais. Mas o pior é quando ele está com os amigos, ocasião em que ele se sente na obrigação de, a cada 10 segundos, gritar uma frase (totalmente mal-elaborada, às vezes até mesmo sem um verbo) envolvendo as palavras “bem lôco” e “wolverine”.

Mas os leitores débil-mentais de mangá são os piores. Aliás, perto deles, os outros leitores débil-mentais são inofensivos. E isso se deve a alguns motivos, listados abaixo:

Os leitores débil-mentais de mangás só andam em grupo; e nunca é um grupo com menos de seis pessoas. Aliás, acredito que o número de integrantes de cada grupo varia de acordo com o universo preferido. Ou seja, se a turminha gosta de Cavaleiros do Zodíaco, eles andam em 12; se gostam de Battle Royale, andam em 45; e se gostam de Pokémon, andam em mais ou menos 650.

Agora, o pior é que eles incorporam os personagens. Primeiro, estão sempre fantasiados. Não é difícil você estar num shopping e dar de cara com uma manada de adolescentes usando capas, cartolas cheias de lantejoulas e botas azuis de vinil até o joelho – em grupos grandes, é normal até você avistar um deles portando um enorme machado feito de cartolina. E eles se chamam usando nomes dos personagens. Uma vez eu estava no McDonald’s e um grupo de guerreiros medievais de alguma dimensão paralela estava na fila ao lado. Um deles queria comprar uma casquinha, mas não tinha troco, então ele gritou ao amigo:

– Hiroshito-san, você tem 2 reais trocado? Depois eu pago!

Olhei para trás esperando ver um japonesinho e dei de cara com um loiro de olhos azuis mexendo na carteira. Ou seja, totalmente Hiroshito. Mais Hiroshito impossível. O nome dele deveria ser, provavelmente, Hans Hiroshito, Fritz Hiroshito, algo assim. E, quando o nipo-germânico emprestou o dinheiro, o amigo respondeu com uma piadinha do tipo:

– Depois eu uso minha magia azul para conjurar umas moedas da sorte!

E todos riram. Gargalharam. Se eu tivesse um virgem-detector na mão, ele teria sofrido uma sobrecarga e explodido.

Mas nada, nada, me incomoda mais que o comportamento deles dentro de uma banca ou de uma livraria. Toda vez que eu entro na Fnac para ver quadrinhos, eles estão ali. E aí o problema não são as capas, os machados e as botas. Nem os gritos. O problema é tudo.

Claro, começando pelo comportamento deles. Porque eles romperam as barreiras já conhecidas da inconveniência. Enquanto os leitores débil-mentais de qualquer coisa simplesmente encostam na prateleira de quadrinhos, tapando toda a visão – algo que eu resolvo com facilidade colocando o nariz atrás da orelha dele e fungando o mais alto que eu consigo – os leitores débil-mentais de mangás sentam no chão da livraria.

Veja bem, existe uma regra social não formalizada que implica no fato de que você só pode se sentar no chão de uma livraria se for criança. É quase um sistema de compensação: “como você não sabe ler, você está em desvantagem a respeito das outras pessoas que estão aqui dentro, então você pode se sentar no chão; mas, a partir do momento em que você aprende o alfabeto, você entende o que é uma livraria e aprende que só pode se sentar no sofá”.

Os leitores débil-mentais de mangás não sabem isso. Eles se sentam no chão, normalmente numa curva e ficam lendo aquelas merdas. Ou seja, toda vez que você anda pela livraria, você corre o risco de pisar em um deles a qualquer momento – o que não seria má idéia, a não ser pelo fato de que a turma dele pode estar perto e começar a lançar raios em você. A única coisa que sobra é você tratar o sujeito como se ele fosse uma bosta de cachorro: você olha com desprezo e desvia o caminho, torcendo para o segurança da livraria limpar aquilo logo.

Sexta-feira foi pior. Entrei na Fnac e fui ver os quadrinhos. Quem já entrou na Fnac de Pinheiros sabe que as edições especiais ficam na parte de baixo da seção de quadrinhos, numa espécie de degrau. Eu virei o corredor e dei de cara com um débil-mental lendo Naruto e, claro, sentado. Mas não no chão, e sim em cima das edições especiais. Os amigos dele estavam em outro corredor, vendo revista de mulher pelada e gritando que iriam “usar a magia da estrela no peito dela” ou algo assim.

Eu parei na frente do moleque e funguei. Bem alto. A livraria inteira olhou para mim, menos ele, que continuou babando em cima da porra do Naruto. Respirei fundo. Parei em pé na frente e esperei um pouco, para ver se ele se tocava. Nada.

Chutei (com menos força do que eu gostaria) o pé dele e ele olhou para mim, com aquele olhar tipicamente boçalizado. Eu disse a ele:

– Olhe, eu não tenho nada a ver com a sua vida, mas você está sentado sobre as revistas que eu quero ver.

Tudo que ele conseguiu arquitetar como resposta foi:

– Ahn?

Deus do céu.

– Eu quero ver as revistas que estão sob sua bunda.

– Ah.

E ficou me olhando.

– Não adianta falar “ah”. Tem que falar “ah” e levantar. Aliás, se levantar, não precisaria nem ter falado o “ah”.

– Ah, calma aí.

E começou a levantar. Sim, começou, porque se coordenação motora fosse modalidade olímpica, ele estaria longe de ser convocado. Manja aqueles moleques que crescem 25 centímetros em uma noite e não sabem mais como controlar o corpo? Então você sabe do que estou falando. Depois de uns 20 minutos, ele se levantou – processo com o qual exibiu seu cofrinho para a Fnac inteira – e saiu com suas pernas fora de controle, e segurando o maldito Naruto, para junto dos amigos.

Mais do que depressa, peguei meu Homem de Ferro especial e fui pagar, antes que um martelo de cartolina voasse na minha cabeça. E, na dúvida, agora, eu só vou na Fnac de chuteiras e entro ali parecendo um punk em show dos Ramones, dando chute para tudo o que é lado.

Não dizem que pisar na merda dá sorte? Os débil-mentais que lêem mangás no chão da Fnac que me aguardem.

E, antes que eu chute o primeiro deles, deixo vocês com o Top 5 Mangás Essenciais para qualquer ser humano (normal):

1. Gen

2. Akira

3. Gen

4. Akira

5. Gen

11 de janeiro de 2008

(Little) Lucy in the Sky with Diamonds

Hoje à tarde dei um pulo na Fnac para escapar um pouco do trabalho. Levei apenas o dinheiro para um café e deixei a carteira no escritório, porque eu tinha planos de entrar na parte de CDs. Sim, porque toda vez que coloco os pés lá dentro, a probabilidade da minha conta bancária sofrer danos é altíssima – uma vez cheguei a voltar correndo para o trabalho buscar meu cartão de crédito.

Enquanto descia a escada rolante, dei graças a Deus pela loja estar vazia. Nada me incomoda mais que a Fnac cheia de gente, especialmente na seção de música. De cada dez pessoas que entram lá, uma delas é um daqueles débeis-mentais que ficam ouvindo o CD com fone de ouvido e cantando junto, num volume que a loja inteira consegue ouvir. Normalmente cantam tudo errado e alguns ainda se dão ao luxo de dançar ou tocar uma bateria imaginária. Ô fase.

Cheguei à seção de rock internacional e, como eu me sentia seguro – a carteira ficou no trabalho, lembram? – me enfiei na prateleira de hard rock e heavy metal. No meio do caminho vi uma garota com cerca de doze anos passeando por ali com a mãe. Nem dei muita atenção, imaginando que seria mais uma daquelas mimadas atrás de Britney Spears ou Christina Aguilera, ou outra daquelas adolescentes metidas a rebeldes, procurando qualquer coisa do Green Day (e aí vale qualquer coisa, porque todos os CDs deles são iguais).

Comecei a vasculhar os CDs do Iron Maiden, algo que faço toda vez, rezando para que eu encontrasse algo que eu ainda não tinha. Quem sabe um CD de estúdio da década de 80 que eu simplesmente esqueci de comprar? Ou um disco ao vivo que eu não conheço? Até parece. Enquanto eu ia passando pelos CDs, seguindo o ritual do “Tenho... Tenho... Tenho... Tenho... Tenho...”, a menina passou pelo meu lado e eu pude ver algo escrito na camiseta dela.

Congelei. Não pode ser.

Não... Eu devo ter visto errado.

E continuei fuçando ali. “Tenho... Tenho... Tenho... Tenho...” Obviamente, eu tinha tudo. Andei alguns metros e comecei a fazer a mesma com AD/DC. “Tenho... Tenho... Tenho... Tenho... Merda, por que eles não lançam um CD por dia?” Comecei a rodar as outras prateleiras, e enquanto me decidia entre vasculhar Alice Cooper ou Black Label Society, a menina passou novamente por mim, com uns dois CDs na mão, seguida de perto pela mãe.

Desta vez, eu tive certeza do que estava escrito na camiseta dela.

LED ZEPPELIN.

Não pode ser verdade. Eu li errado. Ela tem 12 anos! Deve estar escrito “LED ZEPPELIN é uma bosta e Green Day é bem loco” e eu só consegui ler um trecho. Só pode ser isso. Desisti de ver os CDs e fui atrás dela. Eu precisava checar isso de perto. Ela começou a vasculhar uns CDs numa prateleira de promoções e eu parei ao lado dela, fazendo a minha tradicional cara de paisagem. Quando ela se distraiu, arrisquei uma olhada e vi claramente. Led Zeppelin e o famoso desenho do anjo.

Não. Não pode ser verdade. No mínimo essa camiseta é do irmão mais velho dela, ou ela ganhou numa rifa em alguma quermesse. Ela nem conhece a banda. Aliás, ela nem sabe que isso é uma banda. Ela achou legal por causa da imagem do anjo pegando fogo. Só isso. Ela está aqui atrás de Green Day. Ou coisa pior.

De repente, numa daquelas coincidências inexplicáveis, eu ouço aquele som totalmente inumano que o Robert Plant emite (aquilo não é um grito normal, eu não conheço um verbo que poderia descrever com precisão o ato de proferir aquele som) no começo de Immigrant Song. Algum dos vendedores da Fnac aproveitou o lançamento da nova coletânea da banda e colocou o DVD bônus para tocar numa das TVs de plasma.

Ótimo, eu pensei. Isso vai desmascarar essa menina. Olhei para o lado e lá estava ela, olhando a televisão hipnotizada. Ficamos os dois ali: ela em transe olhando a televisão, e eu em transe olhando para ela. Ainda bem que a mãe dela não estava olhando, ou seria capaz de chamar a polícia achando que eu era pedófilo – seria irônico, já que qualquer pessoa de 12 anos é mais alta que eu (1.60m mode: on). Enfim, a garota, hipnotizada, começou, discretamente, a cantar, a música, bem baixinho, para ela mesma, acompanhando o Robert Plant. Os olhos dela brilhavam. Os meus também.

Eis que chega a mãe dela e coloca a mão no seu ombro, dizendo:

– Aqui tem aquele que você queria.

Ela se vira para a mãe, perguntando algo como “sério?” e saiu correndo na direção de uma prateleira, para onde a mãe apontava. Eu, claro, fui naquela direção, tentando ver o que ela “queria”. Ela fuçou no meio de alguns CDs e, subitamente, pegou um, que parecia ser duplo, com a caixinha branca. Tentei ver o que era, mas não consegui. E, nem precisei, porque ela anunciou em alto e bom som para a mãe:

– O volume 2 do Anthology dos Beatles! O único que não tenho!

Foi demais para mim. Quase comecei a chorar. Fui embora na mesma hora, antes que eu passasse vergonha ali no meio. Ainda emocionado, subi as escadas olhando o mundo de outra forma. O mundo ainda tem salvação. A humanidade realmente não deu certo, mas essa menina, ao contrário, tem tudo para ser a exceção à regra.

Deus: eu sei que Você é um Cara ocupado e não deve ter muito tempo para ficar lendo blogs na internet. Mas, caso você leia esse post, por favor, prometa que a minha filha será exatamente igual a essa menina?

Ah, e Deus, sabe aqueles quatro adolescentes sujos que estavam entrando na Fnac no momento em que eu estava saindo? Aqueles que usavam as calças no meio das coxas e andavam cheios de correntes? Então, você pode relevar o encontrão proposital que eu dei naquele mais magrelo, que fez questão de não desviar o caminho quando me viu na frente dele? Além disso, eles deveriam estar entrando na loja para olhar os CDs do Green Day (e sem comprar nada, porque eles já devem ter baixado tudo da internet) e iriam atrapalhar a menininha lá embaixo, que já estava ocupada demais com o Led Zeppelin e os Beatles. Você entende, né?

Bem, enquanto deixo Deus pensando sobre isso, segue o Top 5 CDs que meu (minha) filho (a) vai ganhar antes mesmo de aprender a ler (Welcome to my Nightmare é assustador demais, só ganha quando entrar no ginásio):

1. Powerslave – Iron Maiden

2. Machine Head – Deep Purple

3. Back in Black – AC/DC

4. IV – Led Zeppelin

5. Master of Puppets – Metallica

17 de julho de 2007

Ô Fafe

O problema do Frans Café é que a empresa, aparentemente, atua em algum programa de reabilitação de excepcionais na sociedade e só emprega pessoas com baixo índice de fosfato no organismo (eufemismo mode: on), especialmente para ocupar o cargo de caixa. Não importa o que você pedir, o atendente vai olhar para você com aquela cara de interrogação tipicamente franscafeniana. E, até você conseguir pagar, terá que repetir o pedido detalhadamente umas três vezes. E ele não vai ter troco, porque eles nunca têm troco.

No Frans que fica aqui na Fnac em frente ao trabalho, então, a situação é pior ainda, porque as pessoas podem entrar pela loja ou pela rua, mas precisam dividir o mesmo caixa, que fica numa espécie de esquina do balcão, lá dentro. E essa característica da loja torna tudo complexo demais aos atendentes, que nunca sabem para que lado olhar. E isso independe da quantidade de clientes: se você estiver sozinho na loja, o atendente estará do mesmo jeito: olhando para o outro lado, pensando na vida e com cara de paisagem.

Hoje, porém, descobri que alguns deles possuem outro problema: fono. Cheguei ao caixa e o atendente – que, obviamente, estava de costas para mim quando encostei no balcão – me ignorou totalmente. Apelei para a tática da fungada, que, como de costume, se mostrou altamente funcional e ele se virou para me atender. Era um negrão que poderia facilmente jogar como zagueiro em qualquer time da segunda divisão. Isso, claro, tirando a bandana preta que eles usam na cabeça, agora, que certamente não é uma das peças mais másculas já criadas.

– Fim?, ele disse.

– Como assim, fim? Acabei de chegar, eu respondi, sem entender absolutamente nada.

– Qual feu pedido?

Percebi que ele tinha a língua presa, uma fração de segundos depois de sentir na pele (perdigotos mode: on) que ele tinha língua presa.

– Um chocolate quente grande e uma água sem gelo e sem gás.

– Fem felo?

– Quê?

– A água, é fem felo?

– Sim.

– E fem gáf?

Imaginei que ele estivesse falando sem gás, mas, a esta altura, eu já estava tão molhado que nem tinha mais sede. Não chovia há mais ou menos seis horas em São Paulo, e eu ali, encharcado. “Ô fafe”. Segurei a risada e respondi:

– Iffo... Hã... Sim, isso mesmo.

Ele virou para o outro atendente (seu affiftente, talvez?) e gritou:

– UMA ÁGUA FEM FELO E FEM GÁF! E UM...

Silêncio.

Ele me olhou com a já esperada cara de interrogação. Decidi ajudá-lo.

– E um chocolate quente

– E UM FOCOLATE QUENTE...

Silêncio.

Ele olhou para mim e perguntou:

– O focolate quente é pequeno ou grande?

– Grande, eu respondi, limpando o rosto.

– O FOCOLATE É GRANDE! UMA ÁGUA FEM FELO E FEM GÁF! E UM FOCOLATE QUENTE GRANDE!, ele gritou

A essa altura, o Frans já estava totalmente alagado. Noé, se estivesse tomando um café ali, morreria de infarto na mesma hora, logo depois de pensar “porra, de novo, não”.

Enquanto o affiftente preparava meu pedido, o caixa se virou para mim e eu perguntei, já temendo pelo pior:

– Quanto fica tudo?

Pelo amor de Deus, faça com que não seja um daqueles números cheios de “s”, por favor. Não me importo em pagar nove reais num chocolate quente e numa água, mas faça com que não seja um número cheio de “s”.

– Fai feif e feffenta.

Limpei o rosto e perguntei:

– Quanto?

– Feis reaif e feffenta fentavos.

Minha camisa já estava encharcada. Abri a carteira, paguei, peguei minhas coisas e fui sentar longe dele, num lugar seco. Mas, na metade do chocolate quente, eu já havia decidido meu próximo passo.

Amanhã mesmo vou voltar ali e dar um jeito dele falar a palavra “expresso”. Aposto que vai ser um fufesso!

Mas, por precaução, vou com guarda-chuvas e galochas.

Café efpreffo e capuffino.
Af delífias do Franf Café.

Em homenagem ao nosso amigo, seguem 5 fufestõef do Franf Café ditadaf pelo noffo amigo (todaf af bebidaf combinam tanto com afúcar como com adofante):

1. Café expreffo - frefquinho, tirado na hora.
2. Fubmarino - delifiofo leite quente com uma barra de focolate fubmerfa.
3. Pão de queivo - quentinho, affado na hora do pedido.
4. Fopa - Effelente pedida para o inverno, efpecialmente no pão italiano.
5. Fundae - Nof diaf quentef, nada melhor que um saborofo fundae. Efperimente também o milk fake.