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13 de agosto de 2012

Construção (De Um Tombo)


Acordou aquele dia como se fosse típico
Bebeu um café como se fosse próspero
Acendeu o cigarro como se fosse fósforo
E tirou toda a roupa se sentindo público

Entrou sob o chuveiro como se fosse líquido
Sorriu se ensaboando como se fosse cócega
Esfregou seu rosto como se fosse máscara
E cantarolou na água feito cantor de ópera

Pensou na vida como se escrevesse crônica
E planejou seu dia como se fosse célebre
Decidiu se enxugar como se fosse úmido
Começou a fechar a torneira num ato ínfimo

Escorregou no piso como se fosse pântano
Tentou se segurar como se fosse válido
Dançou no chão molhado feito um cômico
E se estatelou todo como se fosse óbito

Arrebentou o pulso como se fosse épico.


12 de outubro de 2006

As Mulheres de Chico

Após um longo e tenebroso onde trabalhei feito um cão e ainda tive uma gripe que me fez comprar um pacote de expansão para o termômetro, estou de volta. Sem mais delongas, vamos colocando a vida em dia.

Ontem, fui ao show do Chico Buarque. Sim, sim, pode parecer difícil de me ver num show do Chico depois das bandas que eu já discuti aqui no blog, mas Chico é foda. Sempre fui fã do cara, desde que coloquei as mãos no K7 de Construção do meu pai. Inclusive, sou da opinião que a MPB se divide em dois grupos: 1 - Chico Buarque e 2 - O resto. Enfim, não vou macular um post sobre Chico Buarque citando os malas da MPB (especialmente aquele que se expressa num idioma próprio, sempre citando a porra da baianidade; e o mala do Coringa, que acha "tudo lindo").

Enfim, ontem eu fui ao show. Eu não estava com saco de ficar disputando ingressos no tapa para as primeiras datas da turnê e esperei. Dei sorte de ele fazer essa apresentação extra para a gravação do DVD. Ou seja, todo mundo que jogou na minha cara que tinha ido no show e eu nao, quando vocês comprarem o DVD, daqui a alguns meses, lembrem-se disso: sim, vocês estarão assistindo a um show igual ao que vocês foram. E estarão assistindo ao show que eu fui. Ou seja: chupa, todo mundo (menos as pessoas que me falaram "que legal, você vai adorar!")

Anyway, ao show em si. Chico Buarque tem dois problemas.

O primeiro é o mesmo problema que Ray Charles tinha: se ele fizer um show com todas as músicas fudidas, o show teria que durar uns dois dias e meio (isso sem falar no bis, que, sozinho, deveria ter o tamanho de um show do Caetano Veloso - ih... falei o nome. Merda). Então, não importa o que ele toque, sempre irá faltar algo. A vantagem é que, como ele é o Chico Buarque, não importa o que ele tocar, vai ser bom.

Claro que tocam várias músicas do disco novo, Carioca (que eu não comprei), mas os (poucos) classicões que entram no setlist, especialmente A Bela e a Fera e Na Carreira (do tesudíssimo O Grande Circo Místico) e Bye Bye Brasil (que meu irmão ouviu pelo menos metade, via celular) ajudam um bocado.

Agora, Chico, na boa... E Construção (tanto o disco como a música)?? Porra, Construção é o melhor disco dele e não entrou no show! Eu ainda vou encontrar esse cara na rua, colocar uma arma na cabeça dele e mandar "Ou canta Construção, ou já era! Inteira, com todas as mudanças de letra de uma parte para outra!" E, tenho certeza de que se ele começar a cantar, ninguém na rua vai me impedir ou chamar a polícia - pelo contrário, vão parar pra ouvir. Eu iria também. Enfim, fica aqui a sugestão: já que é moda artistas fazerem shows, agora, interpretando um disco clássico na íntegra, chico poderia muito fazer um Construction Live ou algo do gênero. Eu iria, e em Cotidiano, eu já estaria sem voz. Aliás, nada me tira da cabeça que ele não tocou porque o show (e o disco) chama Carioca. Se chamasse Paulista, aposto que rolaria Construção, Deus lhe Pague, Samba de Orly e até mesmo Roda Viva no bis.

Enfim, sem problemas. Teve muita música. Afinal, Chico Buarque é o cara mais eficiente do mundo. Graças à timidez dele, Chico simplesmente não fala no show ("não posso errar a letra e nem ficar suado, porque estou gravando", foi a única frase além de dois ou três "obrigado São Paulo" que ele soltou no show), emendando uma música com outra. Não é arrogância, é timidez. Isso fica claro toda vez que o público aplaude, e ele olha para baixo, sorrindo. E a platéia aplaude mais ainda. Ou seja, o cara escreve melhor que eu, joga futebol melhor que eu, e é tímido com mais classe que eu. E ainda tem olhos verdes. É foda, não dá competir. E, na boa... Quando ele entra no palco, tímido ou não, ele podia dar aula de carisma para qualquer atorzinho da Globo. Bom, é o Chico, né?

Agora, o segundo problema do Chico. A classe e o carisma dele são inversamente proporcionais aos de boa parte do seu público. Uma vez, uma amiga minha disse que existem dois tipos de mulheres no mundo: “as que já deram para o Chico, e as que querem dar para o Chico”. Ok. Mas, no show de ontem, eu identifiquei quatro tipos de mulheres:

1 – As que gostam (de verdade) de Chico. Ocupam pelo menos metade da platéia. Assistem ao show deslumbradas, não tiram o olho dele e cantam TODAS as músicas junto. Chegam a chorar de emoção por ele estar ali, na frente deles, cantando Eu te Amo ali, na frente deles. Podem não ter todos os discos, mas pagaram para ver AQUELE cara cantar. Se fosse um show do Djavan, não iriam. Não queriam ir a um show, queriam ir a um show do Chico.

2 – As que querem que o mundo saiba que gostam de Chico. Como Chico Buarque está na mídia, graças ao disco novo e ao show, elas vão usar isso como o seu grande diferencial na faculdade. “Eu fui no show do Chico. Vocês, não. Eu sou foda.”, ela vai dizer pras amigas, com ar de superioridade. Ou seja, se fosse Caetano Veloso (foda-se, já falei o nome dele mesmo), elas iriam. Não estão ali para ver Chico Buarque, estão ali para ver o show do momento. Claro que conhecem uma ou outra música, mas não sabem diferenciar A História de Lily Braun de Futuros Amantes. Para elas, foi apenas mais um show, que, independente dela ter gostado ou não, ela vai sair falando que “foi do caralho”, para humilhar ainda mais as amigas que não foram. Ah, sim, vão colocar uma foto do show no orkut, dizendo que realizaram um sonho antigo ao ver Chico ao vivo, e coisas assim.

3 – As mal-comidas. São aquelas que estão ali para pegar homem. Como vai ser bem difícil chegar perto daquele cara de olhos verdes cantando em cima do palco, qualquer outro serve. Normalmente, são aquelas peruas velhas, que passaram perfume com Vaporetto antes de ir ao show. Umas três ou quatro delas ainda passavam o ridículo de gritar “Gostooooso!!!” entre uma música e outra. Acho que não tinha como ser mais ridícula. Das duas, uma: ou a maior qualidade que ela vê nos 40 anos de carreira do Chico é a sua suposta gostosura, achando as letras da música apenas um detalhe; ou essa é a maneira que a espécie dela encontra para atrair os machos ao redor, para acasalamento. Enfim, a noite de uma delas deve ter passado em branco, quando ela gritou “Gostoooso!” no final de uma música e a única resposta que ela recebeu foi um “sssshhhh” de metade da platéia.

4 – A imbecil. Estava do meu lado. Era uma criatura que mesclava algumas características do grupo 2 (não sabia direito onde estava) e do grupo 3 (não aparentava ser uma das mulheres mais difíceis do mundo). Enfim, quando começou o show, ela se levantou – só ela, Chico Buarque e o cara do contrabaixo estavam em pé – e começou a sambar. A sambar! Provavelmente, estava tão maconhada que achou que estava num sambão da Ibirapuera. Detalhe que nenhuma das músicas era samba e ela ali, se sentindo “A” passista. Felizmente, na quinta música, ela viu que não estava fazendo muito sucesso, já que as pessoas continuavam olhando o Chico, e não para ela, e foi se sentar. Mas, pelo jeito, ela fez escola. Na segunda metade do show (não lembro em que música), um casal perto de onde eu estava levantou e começou a dançar, como se estivessem num show do Frank Aguiar. Pronto, virou gafieira. Ainda bem que o Chico não viu isso. O cara já é tímido, iria morrer de vergonha.

Ah, sim. Antes do show, o Tom Brasil fez o jabazinho habitual e passou, no telão, quais seriam os próximos shows. Entre eles, Lenine (que é igualzinho ao Gary Oldman em Drácula), Skank e Deep Purple. Eu sei que é até heresia colocar Skank e Deep Purple na mesma frase, mas, enfim: adivinhem qual será meu próximo show?

5 Melhores Músicas de Chico Buarque (sem contar nenhuma que esteja em Construção – mas já aviso que essa lista muda toda hora)
1. Geni e o Zeppelim
– tudo o que Faroeste Caboclo queria ser
2. O Que Será (A flor da Terra) – uma música que rima as palavras alcovas / trovas / tocas é motivo suficiente para o Humberto Gessinger desistir de tudo e montar um comércio qualquer.
3. Trocando em Miúdos – quem nunca passou por isso?
4. Beatriz – Como alguém pode ter percebido que a palavra "atriz" está dentro do nome do Beatriz?
5. Roda Viva – a versão com o MPB4 é uma das mais paudurecentes do universo.

2 de agosto de 2006

Chico Buarque e os Dias-Suíça

Quem me conhece, sabe que sou consumista por vocação. Sempre fui, desde criança. Eu não podia entrar numa banca de jornais com a minha mãe que eu precisava sair com algo embaixo do braço, desde um Cebolinha ou um Almanaque Disney – naquele tempo, Marvel e DC, para mim, eram apenas revistas com capas muito legais, mas que não me interassavam além disso – ou 10 pacotinhos de figurinha de qualquer coisa. Se eu não achasse na banca, para não perder a viagem, eu literalmente descobria algo para comprar, como aquelas coleções vendidas em facículos semanais caríssimas e completamente inúteis, tipo "Cavalos Marinhos" ou "Guerreiros da Idade Média". Ou seja, se existisse uma faculdade de "consumismo desenfreado", eu seria ou tema de TCC ou nome de Centro Acadêmico.

Enfim, o tempo foi passando e, para felicidade da minha mãe, comecei a investir o meu próprio dinheiro nesse tipo de bobagem. E, se, por um lado eu aprendi a controlar (um pouco) a minha grana, já que palavras como aluguel e condomínio fazem parte da minha rotina, aprendi também a focar meu consumismo somente naquilo que gosto.

O problema, descobri, é que gosto de tudo.

E é aí que entram as minhas fases. Eu consigo focar em algo por apenas alguns dias, e depois foco em outra coisa. Passam-se mais uns dias, e descubro ou lembro de uma terceira coisa. E por aí vai, sucessivamente. E dá-lhe "3 vezes no cartão".

Quer um exemplo? Mês passado, eu acordei um dia e, enquanto escovava os dentes antes de ir para o trabalho, surgiu, na minha mente, em neon verde, o nome ALICE COOPER. Pronto, o estrago estava feito. Já saí de casa cantando e dançando Billion Dollar Babies, tendo como platéia meu cachorro que, apesar de não me entender completamente, já se acostumou com esse tipo de coisa. Até chegar ao trabalho, cantei trechos de School's Out, Poison, Only Women Bleed e I'm Eighteen. Saí para almoçar e dei de cara com a Fnac. Ela brilhava. Eu podia sentir o cheiro de Alice Cooper na rua. E, como sempre, menti para mim mesmo, dizendo que "vou até ali só para fazer a digestão do almoço". Obviamente saí de lá com uma sacola Alice-Cooperiana. E, fiquei, por umas 2 semanas, só com isso na minha vida. Escutava o dia inteiro, cantava o dia inteiro, ficava buscando lendo sites e matérias sobre ele.

2 semanas depois, estava vendo TV a tarde, em casa, e senti um arrepio no corpo: "Faz tempo que não leio nada sobre II Guerra Mundial". Pronto. Alice Cooper continua presente na minha vida, mas numa intensidade bem menor. Agora, a moda é II Guerra Mundial. Saio, compro 2 ou 3 livros, e me esqueçam: vou passar os próximos dias em alguma trincheira na Normandia, num campo de concentração nazista ou em alguma ilhota do Pacífico. E, antes da guerra acabar, no meio de algum tiroteio, eu vou ter um estalo: Quadrinhos! Jogo pra PC! ou West Wing!

E assim vou vivendo, à base de parcelamento sem juros no cartão de crédito.

Por isso que hoje eu achei que poderia entrar e sair impune da Fnac. Porque não estou em nenhuma fase dessas. Hoje, literalmente, eu estou no que eu chamo de 'dias-Suíça". Neutralidade total. Não quero nada e não tenho nada em mente para comprar. Não fico olhando para a minha coleção de CDs do Judas Priest para ver quais CDs faltam, ou colocando minha coleção de quadrinhos separada por título para ver o que preciso comprar. Chego a me sentir, por uns momentos, como uma pessoa normal.

Bom, é pior. Entrar sem foco numa loja dessas não significa que você vai partir impune. Pelo contrário, você é atacado por todos os lados. Ou seja, entrar numa loja atrás de Led Zeppelin, por exemplo, funciona como um escudo . "Não, não me importa que saiu um Homem-Aranha novo. Estou aqui atrás de Led Zeppelin". E hoje, eu estava ali. Sozinho, com meu cartão, entregue ao Deus dará.

E, para piorar tudo, eu não me ajudo. Você acha que vou olhar preços de televisão e home theater, que é algo que definitivamente não iria comprar assim, com displicência, depois de um almoço? Comprar uma TV de 29'' tela plana é como jogar contra o Boca Juniors, pela Libertadores, lá na Argentina: tem que ter planejamento e respeito, não pode ser tratado com descaso. Não rola de acabar de almoçar e falar: "vou comprar uma TV". Ou seja, é seguro ir lá em olhar TVs e mais TVs. Tela plana. Olha essa de plasma. Uau, olha aquela!

Mas, não, eu desço na parte de CDs e DVDs e começo a procurar encrenca. E, o que é pior, vou dizendo para mim mesmo: "vou só olhar". Em 3 minutos, eu pareço aqueles pioneiros de filmes antigos, andando no deserto com uma forquilha na mão, atrás de água. Uma força invisível vai me guiando pelas prateleiras. E hoje foi assim. Passei na parte de DVDs e ouvi uma voz dentro de mim "CDs Nacionais. Fui para a parte de Hard Rock / Heavy Metal e, dentro de mim, aquele ímpeto: "CDs Nacionais". Enlouquecido, tentei subir para o outro andar, onde ficam as revistas e ouvi, desta vez, um grito dentro de mim "CDS NACIONAIS, Ô BABACA!"

Temendo pelo pior, me virei para a maldita parte de música brasileira e lá estava, em destaque: "Chico Buarque – Os Primeiros Anos". Merda. Parece ser um pack. Merda. Os 3 primeiros CDs? Merda. Resmaterizados? Merda. Eu deveria ter entrado aqui atrás de Iron Maiden, eu tenho tudo sobre Iron Maiden, não iria correr risco nenhum. Mas, nãããão... Eu tinha que entrar aqui, exposto e indefeso.

Agora, são os 3 primeiros discos do Chico Buarque. Você acha que eu NÃO comprei?

E, agora estou aqui, ouvindo os discos. E enquanto Pedro Pedreiro está esperando o trem, o babaca aqui está esperando pela próxima fase. Ansiosamente. Odeio os malditos dias-Suíça.

5 Fases de Consumo mais Recorrentes na Minha Vida

1. Iron Maiden - uma das poucas bandas do mundo que fico puto por ter todos os discos. Por mim, eles lançavam um CD por dia. Aliás, esquece, é melhor continuar desse jeito, assim gasto menos.
2. Séries de TV - Você nunca acordou e, ao abrir os olhos, percebeu que jamais poderia ser feliz na sua vida sem a 4ª temporada de Família Soprano em casa?
3. Romances Históricos - Vira e mexe estou no Japão feudal, em alguma batalha na Idade Média ou no meio do Império Asteca.
4. Chico Buarque - Não é raro eu comprar uns 3 CDs dele de uma só vez - nem que seja só para ficar lendo as letras e tentando entender como ele consegue fazer aquilo.
5. Quadrinhos - Esse é o mais simples de todos. Acordo, vou na Comix e 2 horas depois, declaro falência.