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8 de abril de 2013

"Você quer copo ou Guerra de Canudos?"



Dia desses, entrei numa padaria. Uma daquelas grandes, famosas, que todo mundo já ouviu falar.

Estava morrendo de sede e precisava de uma Coca gelada. E como eu estava com pressa, meu plano era comprar a Coca e tomá-la no caminho. Assim, fui rapidamente até o balcão e pedi uma lata de Coca.

O atendente, uma daquelas pessoas cuja aparência desafia a lógica (ele poderia ter qualquer idade entre 45 e 890 anos) se aproximou e me entregou a bebida.

- Você quer copo ou canudo?

E, não, tomar a Coca direto na latinha não é uma opção para mim.

Antes que vocês pensem que eu fico lendo atentamente todos os e-mails informando sobre urina de ratazanas mutantes e alienígenas nas latas de refrigerante, e como beber direto da lata pode fazer com que seu corpo entre em contato com a urina e seus órgãos internos explodam, e que isso já aconteceu com um garoto no interior de Goiás que hoje está no hospital esperando por um transplante de corpo inteiro e repassem esta mensagem para o maior número de pessoas que você puder, eu explico.

Desde que eu comecei a ter problemas de inflamação na gengiva, anos atrás, tive alguns problemas com bebidas geladas – que normalmente implicavam em eu cair na rua gritando de dor após o primeiro gole depois de sentir a bebida gelada batendo na minha gengiva (algo que não acontece quando uso um copo ou um canudo).

Assim, meu corpo precisou se adaptar e desenvolver métodos de sobrevivência para bebidas geladas.

Foi mais ou menos o que aconteceu com as zebras. Quando elas descobriram que os leões eram perigosos, a Evolução, ao perceber que daria muito trabalho transformar as patas dianteiras dos animais em metralhadoras com lançadores de granadas, embutiu no cérebro delas que “olhe, chegar perto daqueles bichos ali é perigoso, então tome cuidado com eles”, deu-se por satisfeito e foi trabalhar em outra tarefa.

E a Evolução tomou o mesmo caminho com minha boca. Sem conseguiu bolar nenhum plano decente – como desenvolver uma terceira dentição ou criar uma carapaça metálica sobre a minha gengiva – tudo o que ele conseguiu foi fazer com que eu tivesse pavor de bebidas geladas.

Isso está melhorando, e às vezes até consigo tomar uma long neck no gargalo. Mas o pavor de bebidas geladas ainda está incrustado no meu DNA, então usar canudo, para mim, não é exatamente coisa de criança – inclusive eu cheguei a pedir uma receita médica para comprar canudos, mas minha dentista disse que não era possível (por outro lado, confesso que adoro quando dou a sorte de pegar um daqueles canudos que dobram na ponta, algo que classifico como uma das maiores invenções da humanidade).

Assim, voltamos à padaria, no momento em que o atendente pergunta se eu quero copo ou canudo.

Eu, com a latinha na mão, respondo “canudo”.

Ele olha para mim atentamente e, ao invés de me entregar os canudos, decidiu que seria melhor entregar uma nova pergunta.

- Você sabe onde ficam os canudos?

- Não. Caso contrário, eu não teria pedido, respondi naturalmente, olhando no relógio.

- CANUDOS FICA NA BAHIA!, ele urrou, fazendo eu dar um pulo para trás.

- Oi?

- Canudos fica na Bahia! Perto de Juazeiro!

Eu deveria ter respondido que “olhe, eu mudei de ideia e acho que prefiro um copo, pode ser?”, mas não tive tempo. Aparentemente, o espírito do Antônio Conselheiro havia possuído o corpo do sujeito. Se bem que, pela idade dele, talvez ele fosse o próprio Antônio Conselheiro, ou algum parente próximo. Talvez seu avô. Assim, me perdi nos pensamentos e acabei respondendo somente:

- Oi?

- Foi lá que teve a revolução de 32! Uma verdadeira insurreição!

Não, espere. Canudos foi antes disso. Todo mundo viu o filme com o José Wilker.

- 32? Não, foi...

- Foi lá que lutaram pela liberdade, e só perderam porque o governo americano ameaçou bombardear tudo aquilo! José Conselheiro!

Americanos? José Conselheiro? Achei melhor interrompê-lo, antes que ele colocasse Genghis Khan e os exércitos romanos no meio da salada.

- Olhe, eu acho que...

- Acredite em mim! Eu conheço a história de Canudos! Eu leio muito!

- Não, eu não estou duvidando, é só que...

- Eu li isso na Bíblia! Eu li a Bíblia inteira!

Algo dentro de mim começou a dizer que, dentro de instantes, o exército de Canudos teria sido transformado em sal depois de Antônio Conselheiro ser traído por Judas Iscariotes.

Meus neurônios foram mais longe e começaram a questionar se o Darth Vader iria aparecer na história também – dois deles inclusive começaram a fazer apostas sobre o tema, com um deles defendendo de que esta ideia poderia render um spin-off, batizado de Guerra de Canudos nas Estrelas.
- Certo. É que, na verdade, Canudos não aparece na Bíblia. Tem Canaã, eu acho, mas Canud...

- Eu li a Bíblia inteira! E mais de uma vez! Está tudo lá!


Desisto.

- Ok.

- E como eu posso lhe ajudar?

- Não, nada. Eu estava apenas procurando a câmera escondida. Sabe quando você tem a impressão de que está numa pegadinha?

- Como?

- Nada. Obrigado.

- Você não vai querer um canudo?

- Não. Deixa. Eu prefiro um copo.

- Saindo um copo!

Por favor, não use o copo como desculpa para me explicar a história do aeroporto de Viracopos, e não tente me convencer que o nome da capital da Dinamarca é Coponhagen.

- Obrigado.

Peguei a latinha e o copo, fui até a mesa e comecei a beber minha Coca, pensando em porque a vida é assim, porque essas coisas acontecem.

E, mais importante: porque precisa ser sempre comigo?

5 de maio de 2011

Killed in Action

“Senhores, eu tenho uma carta aqui, escrita há bastante tempo, destinada a um certo Senhor Gordon, de São Paulo. Gostaria que ouvissem.

Caro senhor:

Mostraram-me, nos arquivos do Departamento de Guerra, provas de que você é o pai de um dente molar que morreu gloriosamente no campo de batalha. Eu imagino o quanto inúteis e infrutíferas seriam minhas palavras para tentar aliviar uma dor tão arrebatadora.

Mas eu não posso me furtar a lhe apontar o conforto que pode ser encontrado nos agradecimentos da República que seu molar faleceu para salvar. Eu rezo para que Nosso Senhor possa aliviar seu sofrimento, lhe deixando somente com as memórias felizes deste dente amado e perdido, e com o enorme orgulho que você possa sentir pelo enorme sacrifício que colocou nos pés do altar da liberdade.

Com sinceridade e respeito, Abraham Lincoln.
’”

General George Marshall
(O Resgate do soldado Ryan)


Update: Após receber 35 mil comentários-spam neste texto, estou fechando os comentários.

22 de março de 2011

Fogo e Gelo - Parte I

O saloon é mal conservado. Suas paredes irregulares são feitas de madeira escurecidas que revelam a umidade do local e não deixam a luz do Sol entrar. Atrás do balcão negro e com manchas de copo, um homem de meia idade arruma algumas garrafas.

São poucos os fregueses. Um homem vestido de negro, sujo e mal barbeado, está apoiado no balcão, ao lado de uma escarradeira, de costas para a entrada. Ele bebe uísque. Próximo a única janela do local, quatro homens jogam pôquer em silêncio, mas com olhares desconfiados e nervosos. Todos estão armados. No andar superior, três prostitutas com ar cansado esperam por clientes.

A porta se abre e um homem vestido todo de branco, com roupas impecavelmente limpas, entra no recinto e caminha até o balcão. Todos o encaram em silêncio, mas ele não toma conhecimento disso. Encosta-se ao lado do homem de negro e chama a atenção do dono da espelunca. O homem pergunta o que ele deseja e ele responde com apenas uma palavra: “leite”.



A cena é clássica. Apesar de que, assim como o “elementar, meu caro Watson” e o “Mim, Tarzan. Você, Jane”, desconfio que elas pertençam mais ao imaginário popular (e aos desenhos do Pica-Pau) que a filmes de verdade.

Isso, claro, para vocês. Aqui, deste lado da tela, ela se tornou não apenas uma realidade como uma constante. Basta apenas trocar o saloon por qualquer restaurante que eu freqüento (até onde eu sei, sem escarradeiras) e os clientes amargos do texto acima pelos clientes amargos dos restaurantes que eu costumo ir.

E, mais importante que tudo, trocar o leite por um canudo.

Sim, um canudo.

Quem é leitor mais recente do blog não deve saber, mas eu sofro de periodontite, uma inflamação crônica na gengiva. Na verdade, eu não tenho periodontite, mas sim um grau mais avançado, que pode ser encontrado nos livros do assunto como Periodontite Crônica Aguda Ultra Power Isso Não Pode Ser Deste Planeta, o que faz com que minha gengiva tenha a mesma resistência de um papel de seda.

Sem exageros, em alguns momentos da minha vida bastava alguém olhar feio para mim na rua que minha boca começava a sangrar. Às vezes eu entrava em casa e minha mãe perguntava:

– Sua boca está cheia de sangue! Você brigou na rua?

– Não, está ventando.

E isso não tem cura. É como cheque especial, só pode ser administrado, e não resolvido.

E é genético, herdei do meu pai. Aliás, a genética é uma coisa fantástica. Eu me lembro do primeiro Superman, quando, antes do planeta Krypton explodir, o Marlon Brando, com um cristal, olha para o bebê Kal-El e diz: “tudo o que eu sou, tudo o que eu sei... Eu transmito a você, meu filho”. Aposto que meu pai fez isso na maternidade e tentou passar para mim tudo o que ele era e sabia. Mas provavelmente o cristal estava com problemas, e ele só conseguiu me transmitir a calvície e esta gengiva de merda. Ô fase.

Mas estou divagando, eu estava falando de canudos.

Isso porque eu tenho feito um tratamento para tentar evitar que uma foto da minha boca vá parar num daqueles livros de ortodontia, e visitado um dentista especializado no assunto. Encurtando a história: na última sessão, ele começou a fazer uma raspagem digna de uma sequência do Jogos Mortais na minha boca. Logo nesta sessão, tive que tomar doze anestesias para suportar o que ia acontecer lá dentro.

E, saindo do consultório, ele me preveniu.

– A anestesia deve passar em umas duas horas.

– Como assim?

– É o tempo normal dela.

– Não, não estou falando do tempo, mas sim do conceito anestesia. Como assim, ela vai passar?

– Quando acabar o efeito...

– Mas eu não quero que acabe. Não tem como implantar uma?

– Evidente que não.

– Posso levar algumas então?

– Não.

– Uma?

– Não.

– Eu pago. Vamos fechar um lote aí.

– Não. Até semana que vem.

Desanimado, saí do consultório. Aposto que a marca da anestesia era Domingo, porque nunca vi algo passar tão rápido. Em quinze minutos, comecei a sentir o meu nariz. Em vinte minutos, meus lábios. Em vinte e um minutos, eu senti um vento na rua.

E em vinte e um minutos e três segundos eu quase caí de dor. Me apoiei num muro, sentindo cada traço do vento que “partindo minha gengiva explode em sete cores revelando então as sete mil dores que eu guardei somente pra te dar, Rob” (Tom Jobim mode: on).

Mas não gritei. Fui homem.

Aguentei tudo em silêncio, me permitindo somente uma pequena lágrima.

Minha boca havia acabado de se mudar para a mesma cadeia alimentar do frio, mas ficando um andar abaixo dele. O frio agora era meu inimigo mortal. Minha vida seria dedicada a fugir dele – talvez migrando no inverno, feito um pássaro. Passaria as noites de inverno sentado no sofá da sala com uma espingarda apontada para a porta, e aterrorizado com as memórias daquela antiga propaganda das Casas Pernambucanas, na qual a menina ouve batidas na porta, pergunta “quem é?” e ouve, como resposta, “É o frio!”

Estava definido: eu precisaria me tornar um esquimó dentário. E talvez seguisse o exemplo dos esquimós de forma radical, escovando meus dentes com óleo de baleia todas as manhãs para protegê-los do vento.

O problema era... Onde arrumar óleo de baleia? Pensei em ligar para o meu irmão (perco o amigo mas não perco a piada mode: on), mas, a última vez em que o chamei de baleia, levei um murro na boca que perdi o rumo de casa. E levar um murro na boca não era exatamente o que eu precisava.

Não, vamos sem óleo de baleia. Vamos sem precisar migrar. Vamos ser um homem de verdade e encarar isso numa boa. Afinal, se o planeta já lidou com uma era glacial, eu consigo lidar com um ventinho de merda. Além disso, bastava andar com a boca fechada que não haveria problemas.

E comecei a me animar quando me lembrei de comida. Eu sempre gostei de comida muito quente, e isso me ajudaria bastante. Carnes. Massas. Calor, que delícia.Tudo quente. Talvez eu tentasse mastigar um pedaço de lã. Um cachecol, quem sabe... Não importa. Nunca mais algo gelado entraria na minha boca. Nunca mais.

Foi quando me lembrei do único elemento comum a todas as minhas refeições – todas, até mesmo àquelas que não possuem comida alguma (jornalista mode: on): a Coca Cola. A Coca Cola estupidamente gelada. No gargalo. Coca Cola é isso aí! Na latinha. Não tem sabor como esse aqui!

Foi demais para mim. Caí de joelhos na calçada e olhei para os céus.

– NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃAAAAAAAAAAAAAIIIIII!

E, sim, parei o grito na metade para urrar de dor porque foi só começar a gritar que o vento – usando coturnos – correu para dentro da minha boca, se aproximou da minha gengiva, e começou a distribuir botinadas como se estivesse num show dos Ramones.

Certo de que minha vida havia acabado, passei num boteco, comprei uma caixa de fósforos e fui para casa. A cada cinco metros, eu acendia um dos palitos e o jogava para dentro da boca, como se fosse uma bala. Não dizem que toda criança sonha em fugir de casa para acompanhar um circo?

Pois bem, eu iria fazer o mesmo, e me tornaria engolidor de fogo. Nunca mais sentiria frio nos dentes, e a jornada de trabalho deve ser menos puxada que a do jornalismo. E, se bobear, deve pagar mais.

Mas, meu Deus... Sem Coca?

Como?

(continua...)



19 de janeiro de 2011

Enquanto isso, em Kashyyyk...

Ele: E como foi de festas? Tudo bem?

Eu: TURRRRFGH!

Ele: Que bom. Eu fiquei por aqui mesmo, e você viajou?

Eu: GHAAAAAFFHHHH!

Ele: É bom, né? Para descansar um pouco... Relaxar a cabeça.

Eu: GHIIIIMF!

Ele: E agora você já está de volta ao trabalho?

Eu: EEEEEEEHHHHTT!

Ele: É, as férias sempre passam rápido. Você pegou essa chuva vindo para cá?

Eu: AGGGGGHHHHHH!

Ele: E ela já está passando. Pelo menos para esses lados, acho que não vai chover.

Eu: GHAAAAAAAAAAGHA!

Ele: Olha como o céu está abrindo. Dá para ver daí?

Eu: AGHSSSSSSTTTTTTT!

Ele: Bom, terminamos. Semana que vem no mesmo horário?

Disse que sim e me despedi.

E estou até agora pensando: será que meu dentista nasceu no mesmo planeta do Chewbacca, ou ele apenas finge que entende o que eu falo?

25 de novembro de 2009

Transformações Geológicas

Pela primeira vez nesta década – e isso não é exagero – estou de férias. Sim, descontando férias coletivas de final de ano, eu não tirava férias desde o ano 2000. Tudo bem, admito que quando troquei de emprego, anos atrás, fiquei uma três semanas parado. Mas sejamos sinceros, isso não são férias, ao menos no sentido exato da palavra.


Enquanto isso, um mundo distante
passa por alterações geológicas.



Daí meu sumiço do mundo virtual nesta semana. Larguei mão de blog, de Twitter, mal olhava o meu e-mail. Isso porque eu andava pela sala e, assim que colocava os olhos no computador, sentia náuseas.


Pedaços de terra que formavam um único continente
começam a se transformar, encolhendo em alguns pontos.



Sério, não conseguia chegar perto dessa máquina. O mais próximo de trabalho que eu chegava era assistir a DVDs – especialmente as segundas temporadas de Californication e Dexter. Mas o computador, não dava. Admito que na segunda-feira tentei escrever no blog, mas assim que abri o Word, comecei a sentir tontura. Acho que tive até um pouco de febre.


Após eras ocupando o mesmo espaço,
enormes trechos do solo começaram a recuar,
devido às ações do ambiente,
especialmente do vento e dos mares.



Ok, cheguei perto do computador sim, mas somente para jogar. Além do Farmville, estou tirando o atraso dos meus saudosos jogos de estratégia (Civilization, alguém?), que é algo que fazia tempo que eu não curtia direito. Então, esta semana, finalmente o computador se tornou lazer para mim.


Assim, o mundo sofreu transformações radicais.
Alguns espaços, antes ocupados por campos verdejantes,
florestas, ou até mesmo por desertos,
desapareceram totalmente.



Mas o que marcou minhas férias foram os livros. Finalmente coloquei a leitura em dia. Primeiro, terminei Watch You Bleed, a biografia do Guns N’ Roses, que é simplesmente sensacional, narrando como a banda foi do nada para o estrelato e voltou para o nada num período menor que cinco anos.


Alguns estreitos, baías e istmos sumiram;
outros, por sua vez, surgiram do nada.
Aos poucos, os mares iam avançando
sobre as diversas formações geológicas,
modificando totalmente a paisagem vigente.



E, assim que terminei o livro, fui para o quarto e escolhi o próximo a ser devorado. Não sei se cheguei a comentar aqui no blog, mas este ano eu descobri a magia dos pocket books. Agora, eu compro apenas pockets em inglês, porque tem muita coisa que eu sempre quis ler e que nunca foi publicada aqui (como alguns livros de Star Wars). E o preço dos pockets é ridiculamente bom: em qualquer Cultura ou Fnac, custam por volta de R$ 20,00.


No meio de alguns destes continentes,
extensos lagos surgiram.
Rios apareceram, recortando
ainda mais a nova geografia.



Enfim, acabei me decidindo por Storm Front, algo que eu não conhecia e descobri fuçando na Cultura. Trata-se do primeiro livro de um personagem chamado Harry Dresden, um mago que trabalha como detetive particular em Chicago. E, apesar de mexer com magia, está muito mais para Sam Spade e Phillipe Marlowe que para Harry Potter. Até agora, não achei sensacional, mas dá para ler gostoso.


Anos – ou décadas – depois, as mudanças
diminuíram de intensidade.
E, com o tempo, finalmente cessaram.
Mas só depois daquele mundo distante
ter todo o seu formato alterado.



Aliás, para mim, essa sempre foi a grande graça das férias. O número de opções que você tem. Você acorda numa manhã e percebe que, como não tem nada para fazer, você pode fazer o que você quiser. Se você escolher ir para a rua, pode. Ler durante a tarde no sofá? Pode também. Ligar o ventilador e ficar jogando PC? Também pode. Ou seja, você monta seus horários. Liberdade total. E isso não tem preço.


Graças às forças da natureza,
o planeta não tinha mais
um enorme e compacto continente.
Agora, ele era ocupado por diversos continentes,
separados por mares e oceanos.



Quer dizer, liberdade quase total. Já há alguns dias, uma dor no lado esquerdo estava me incomodando. Ela ia e voltava, ia e voltava. E, na segunda-feira, ela decidiu mostrar quem mandava aqui. Acordei gemendo de dor.


E, seja para o bem ou para o mal,
o mundo nunca mais voltaria
ao formato que tinha antes.



Era meu dente. Ou melhor, era minha boca. Estes parágrafos em itálico não são o início de um romance de ficção científica, mas sim algo que vem acontecendo na minha boca já há alguns anos.

O “mundo distante” na verdade, não é tão distante assim. É a minha gengiva. Isso porque eu herdei quatro coisas do meu pai: duas boas (talento para falar besteira e bater falta de trivela) e duas ruins (calvície e gengiva fraca). Ou seja, minha gengiva é oficialmente uma coisas mais frágeis criadas pela natureza.

Assim, hoje tive que ir correndo ao dentista, porque – graças à minha Ultimate Periodontite Aguda Extrema Crônica Hiper Power – um dos meus dentes estava ameaçando abandonar o corpo, como um daqueles refugiados cubanos que migram para Miami em jangadas. Aliás, descobri que alguns dos dentes se chamam molares porque, ao menos no meu caso, eles ficam moles da noite para o dia.

Não cheguei ao cúmulo de precisa extrair o dente, no meio das minhas férias.

Ao menos, não ainda.

Minha dentista resolveu brincar de E. R. e fez uma massagem cardíaca no dente. Aparentemente, ele ressuscitou. Ainda está na UTI, em observação (o estado é grave), mas está vivo. A chance de morrer ainda é grande.

Minhas férias? Continuam até o final da semana. E, com isso, eu permaneço com a mesma liberdade de antes: posso ler o que quiser, jogar o que quiser, dormir a hora que quiser... Mas, claro que agora eu tenho que tomar antibiótico a cada oito horas, e fazer gargarejo com um negócio que parece Super Bonder a cada 16 segundos.

Ou seja, eu estou de férias, mas meu azar continua trabalhando a todo vapor, provavelmente de olho em algum bônus de natal. E assim, vamos levando, tentando encarar a coisa de bom humor – mas sem exagerar, porque dói (demais) quando eu dou risada.

14 de outubro de 2007

Here Comes the Pain - Parte Final

(leia a parte II aqui)

Minutos depois, eu continuava deitado ali, com o lado direito do meu corpo paralisado. A maníaca estava debruçada em cima de mim, ainda com o chapéu de mineiro, mas parecia mais uma açougueira que uma dentista, pois seu jaleco já estava todo manchado de sangue. Meu sangue. Além disso, ela segurava um instrumento que parecia um daqueles ganchos usados em frigoríficos, o que não ajudava muito a diminuir meu medo.

O procedimento correto seria o seguinte: com aquele gancho, ela rasparia o tártaro da minha boca, gentilmente. Mas isso, claro, num mundo de sonhos. Mas, aqui, no mundo real, ela apoiava o joelho no meu peito, espetava aquele gancho na minha boca e puxava como se a vida dela dependesse daquilo. Gargalhando. E eu ali, paralisado e indefeso, assistindo a tudo aquilo, com a boca aberta. Comecei a ter dó do tártaro.

Os olhos dela brilhavam a cada enganchada. Eu chorava de dor, ela chorava de emoção. Na terceira vez que ela puxou o gancho, pensei em propor um acordo a ela. “Se você me deixar fumar um cigarro na sala de espera, prometo que volto e me comporto. E pago o dobro do valor do tratamento”. Mas claro que ela não iria aceitar. Aliás, tive vontade de acender um cigarro ali mesmo, mas mudei de idéia quando vi que ela ainda não tinha usado nem metade das ferramentas, especialmente aquela grandona, que ela comprou no Peg & Faça.

Foi a meia hora mais longa da vida. Em alguns momentos, eu achei que iria desmaiar. Tudo ficava preto e eu conseguia apenas ver o Coronel Kurtz, de Apocalypse Now, sentado num canto do consultório, na sombra, recitando “o horror... o horror...”. Mas o pior era quando ela parava para descansar o braço e me mandava cuspir. Isso, claro, poderia me proporcionar alguns momentos de alívio, mas o problema é que, para eu cuspir, eu precisava passar, antes, pelo terrível ritual do jato de água glacial na boca. Ela pegava o caninho de água e eu já me arrepiava de novo. Aí, ela espirrava aquele liquido congelado na minha boca, com os olhos trincando de prazer e realização pessoal.

IIIIIA(glub)AAAAAUU(glub)UUU!!!!!

– Pode cuspir.

– Água stá glada! Num tem água num tempratura conhecida plo hôme?, eu perguntei, com a minha boca anestesiada, modelo Dom Lázaro.

– Resistance is futile. Cospe.

Uma duas vezes pensei em cuspir na cara dela, aproveitar a confusão e sair correndo, mas como o lado direito do meu corpo não me obedecia, eu provavelmente rolaria pela escada do consultório durante a fuga e me quebraria todo. Mas, ao menos, eu aproveitava os intervalos para cuspir para recompor um pouco minha força, e criar coragem para deitar ali de novo. Umas três vezes, cheguei a ficar uns três minutos sentado, fingindo que cuspia.

– Vamos continuar?

– Eu inda tô cspindo!, mentia.

Mas, invariavelmente, eu voltava a deitar na maldita cadeira. Ela arrumava o capacete, estalava os dedos e continuava. Chegou uma hora em que eu comecei a perder a noção do que era pior: os ataques do Capitão Gancho (em um determinado momento, acho que ela chegou a ficar em pé em cima de mim puxando o maldito ferro com as duas mãos), ou os jatos de água gelada, que pareciam uma martelada na minha boca. As duas dores já se misturavam. Eram dois exércitos que se aliaram com o objetivo de me destruir, sob as ordens daquela encarnação do Stálin com diploma de ortodontia.

De repente, senti uma sensação estranha na boca. Uma sensação diferente. Acima das duas dores, uma nova dor apareceu. Enquanto as outras dores doíam apenas fisicamente, essa rompia as barreiras do tempo e do espaço. A minha vida doía. Cada momento que eu havia vivido até hoje e, cada segundo que eu viveria depois disso estavam doendo. Tudo ficou embaçado, depois escuro. Subitamente, me vi num túnel e lembro apenas de pensar repetidamente na frase “Fique longe da luz, Rob! Fique longe da luz!”. Quando voltei a mim, os olhos dela brilhavam como os de uma criança na manhã de natal.

– Enquanto eu raspava sua boca, achei uma cárie!, ela comemorou. Achei que ela fosse começar a dançar de felicidade.

– Deus du xéu...

– Doeu porque a anestesia não pegou a cárie, e eu acertei a cárie em cheio com o gancho!

– ....

Resultado, tivemos que parar tudo para ver a porra da cárie. Achei que ela fosse alugar um smoking para mexer na minha cárie (sim, eu percebi que isso era uma acontecimento especial na vida dela), mas um traje de gala não combinaria com a serra e o bate-estaca que ela usou a partir daí. Sinceramente, eu não lembro muito do que aconteceu. Provavelmente meu cérebro bloqueou essas memórias, e elas serão alcançadas apenas por hipnose. E, quando ela acabou com a cárie, começamos a raspagem de novo. Mas, aí, a raspagem já era fichinha.


Meia hora depois, ela saiu de dentro da minha boca e limpou o suor da testa. Até o meu celular estava doendo. Ela olhou para mim e disse:

– Pronto. Doeu muito?

– U ki vsse acha?, eu consegui balbuciar, com o lábio não me obedecendo.

– E olha que esse era o quadrante mais light. Doeu bastante por causa da cárie.

– Pdemus falar de ôtra cois?

– Sim, porque o arame entrou com tudo na cárie, que estava inflamada.

– Cual part de “pdemus falar de ôtra cois” vce num tendeu??

– Ok. Vamos dar uma última lavada e aí...

– Não!

Ela me ignorou e veio com aquele jato de água de novo. Acho que comecei a chorar na cadeira. Ela pegou um caderno e começou a rabiscar algo.

– Quinta-feira que vem você volta?

– Eu quero morrê... Por afor... Acaba ogo cumigu...

– Quinta-feira, mesmo horário, ta?. Ah, sim. Duas coisas. Primeiro, você não pode tomar gelado.

– Ah, jura? Eu jmais tria desconfiado.

– Sim, se você tomar gelado, vai doer. E aí você vai me ligar e dizer: [voz de criança] Doutora Ana, eu fiz o tratamento, mas minha boca está doendo?

– Eu num sou monglóide! Eu num ia falá assim!

– Vai doer porque seu dente está sensível após o tratamento.

– Num é só o denti. Eu tamém tô.

– Então, nada de gelado. Ah, e u gostaria que você não fumasse pelas próximas duas horas.

– Hum? Vsse nloqueceu!

– Sim. Sem cigarro por duas horas.

– Eu fumo cuando fico nervosu. Eu stou nervosu! O qui vsse fez acui na inha boca num foi gostoso. Eu vô fumá sim que coloca u pé na cualçada!

Percebi que estava soando como Homem-Elefante. Só faltou eu pega-la pelo colarinho e começar a gritar que “não sou um monstro, sou um ser humano!”. Mas, ela me convenceu a prometer que não fumaria pelas próximas duas horas, mostrando aquelas malditas fotos de pessoas com dente podres – todas elas exageradas, mostrando aquelas pessoas do meio da África que ficaram três encarnações sem escovar o dente. Aposto que foram os primeiros experimentos dela.

Quando eu prometi tudo aquilo – inclusive que sim, volto quinta-feira que vem – ela me deixou ir embora.

Fui para a rua e respirei fundo. Olhei no relógio e percebi que eu não estava vendo as horas, mas sim quanto tempo faltava para a próxima consulta. Ah, sinto muito. Já que eu vou começar a viver aterrorizado, vou ao menos ter um pouco de prazer, e mostrar que minha boca pode estar inutilizada, mas a minha alma ainda é de um guerreiro.

Dei a volta ao redor da casa, parei embaixo da janela do consultório e acendi um cigarro, dando uma longa tragada desafiadora. Ok, o cigarro quase caiu da minha boca por causa da anestesia, mas, ainda assim, o gesto não foi em vão. Aquilo não era uma simples tragada, era um gesto de resistência à toda e qualquer forma de tirania existente no planeta. Fiquei ali, fumando de forma desafiadora e olhando para a janela.

Quando eu ia gritar algo como “quer me pegar, eu estou aqui fora!”, ela apareceu na janela, ainda com o avental sujo de sangue. Antes que ela me visse, saí correndo – ou algo parecido com isso, porque metade do meu corpo ainda não me respondia – e me atirei dentro de um táxi.

– Me lev’embora dacui!, disse pro taxista.

– Quê?

– Vam! Vam bora!

E assim, parti para uma mais etapa da minha vida. A merda de etapa da Coca Zero sem Gelo. E, pior, quinta-feira que vem tem mais. Ô fase!

11 de outubro de 2007

Here Comes the Pain - Parte II

(se você não tem idéia do que está acontecendo, leia aqui)
Senti uma pontada em algum lugar da boca que eu não soube precisar e fechei os olhos novamente. O tempo se arrastava. Cerca de dez segundos depois (para mim, pareceu horas) eu ainda sentia a picada e achei isso estranho. Porra, é uma injeção, não tem segredo. Espeta, aperta e tira. Só isso. Não tem porque demorar tanto. Abri os olhos.

Foi a visão mais aterradora da minha vida. A dentista ainda estava aplicando a anestesia, mas, pelo meu ângulo de visão, a seringa parecia ter, mais ou menos, uns três kilômetros de extensão. E, lá no horizonte, atrás da seringa, eu conseguia ver a dentista com um olhar perdido, vago, provavelmente pensando no que iria almoçar. O descaso dela com meu sofrimento começou a me incomodar mais que a dor. Porém, ela olhou para mim e vendo que eu não devia estar muito à vontade – acredito que eu estava com os olhos arregalados e sacudindo as pernas, mas não lembro exatamente – perguntou:

– Você não sabia que anestesia na boca é mais demorada para aplicar?

Ela realmente esperava que eu respondesse à pergunta? Será que ela não considerou a hipótese de que é difícil falar claramente quando se tem uma seringa do tamanho da Transamazônica na boca? Olhei para ela com ódio e ela continuou, como se nada tivesse acontecido:

– Vamos torcer para que anestesia pegue na primeira vez. Senão, vou ter que aplicar novamente.

Eu não sentia mais os dedos do pé, de tanto que eles estavam encolhidos. Como se não bastasse o talento em causar dor física, a desequilibrada ainda domina a arte da tortura psicológica. Não é possível que ela ainda consiga caminhar livremente nas ruas, enquanto o resto do planeta fala apenas em combater os terroristas. Ela tirou a maldita seringa da minha boca e, olhando com cuidado a bandeja de instrumentos, apanhou alguma coisa metálica de espessura muito, muito fina.

– Vamos ver se anestesia pegou?

– Ver como?

– Começando a raspagem, claro.

– E se a anestesia não tiver pegado?

– Aplicamos outra. Sem anestesia, você não vai agüentar.

– Não tem outro jeito de ver se pegou? Um raio-x?

– Não, temos que tentar.

– Olhe, vamos fazer o seguinte: eu vou embora, trabalhar. Se eu não estiver sentindo nada na boca, é porque ela pegou. E aí eu juro que volto.

– Abra a boca.

– Você ao menos ouviu o que eu disse?

– Com a anestesia, você não irá sentir nada

– Você não sabe se eu estou anestesiado! Você vai usar o método da tentativa-erro. E o erro vai doer em mim, não em você!

– Eu acho que a anestesia pegou, vamos apenas nos certificar.

– Você está blefando!

– Quanto mais tempo você demorar para abrir a boca, mais tempo vou demorar para começar a mexer na sua boca. E se a anestesia tiver pegado, quanto mais tempo você demorar para abrir a boca, menor será o efeito dela.


Um retrato da anestesia utilizada pela minha dentista.
Eu sou a pedra.


Não tive como rebater essa última e abri a boca na mesma hora. Mas olhei para cima e pedi, mentalmente, por uma morte rápida e indolor. Talvez, se eu desejar com força, um satélite caia em cima do prédio e todos nós podemos morrer em paz e acabar logo com isso. Fechei os olhos e implorei por isso com determinação. Não aconteceu nada. Deus, por que me abandonaste?

– Abra a boca.

Respirei fundo e abri. Melhor acabar logo com isso. Com o canto do olho, pude ver que ela segurava um instrumento que faria o Wolverine se encolher de inveja e começou a mexer na minha gengiva. Se você já fez raspagem, sabe do que estou falando: ela estava, provavelmente com um capacete de mineiro, com metade do corpo dentro da minha boca, fuçando na minha gengiva com algo que parecia um ancinho.

E, curiosamente, eu não sentia nada. E não porque a anestesia deu certo. Foi justamente o contrário. Como a anestesia não fez efeito algum, acredito que meu sistema nervoso desligou automaticamente, graças ao instinto de auto-preservação, o que me impediu de sentir algo. Aliás, minto. Eu senti uma lágrima descendo pelo meu rosto. Mas provavelmente eu gritei – mesmo sem perceber –, porque ela tirou a cabeça de dentro da minha boca e perguntou:

– Está doendo?

– Claro que não. Está delicioso. Eu gritei porque não contive o prazer. Está um tesão tudo isso.

– Então, vamos contin...

– É claro que está doendo!!!

– Ah, a anestesia não pegou, então. Vamos tentar de novo.

Olhei no relógio e vi que a consulta não estava nem na metade. Suspirei, conformado, enquanto ela preparava uma nova anestesia. E não foi mais uma anestesia, foram três. Ficamos uns 15 minutos ali, com a mulher furando minha boca com aquele pedaço de metal.

Comecei a desconfiar que ela não era nazista, mas sim uma funcionária renegada da Paulipetro tentando desesperadamente encontrar petróleo na minha boca, mas mudei de idéia quando a recepcionista entrou na sala para perguntar algo. Não prestei muita atenção, mas tenho certeza de que a menina se dirigiu a ela como “mein Führer”. Ela respondeu qualquer coisa em tom ríspido e voltou sua atenção a mim.

Finalmente, a anestesia pegou. Aliás, pegou tanto que todo o lado direito do meu corpo ficou paralisado. Fiquei totalmente indefeso ali, entregue ao Deus-dará – e eu já havia percebido que Deus não iria se envolver com aquilo. Com esforço (porque eu parecia um mongolóide, sem conseguir controlar minha própria boca), abri o maxilar e me entreguei ao meu destino.

Sim, porque se a anestesia pegou, a insana saberia que era a hora dela me pegar.

Para o meu azar, a anestesia pegou.

Agora sim que ia começar a farra.

(continua)

8 de outubro de 2007

Here Comes the Pain! - Parte I

Em 1975, Hollywood criou aquele que talvez seja o maior monstro de sua história, com o filme Tubarão, de Steven Spielberg. Apesar de ser um daqueles filmes que todo mundo conhece – até mesmo quem nunca assistiu – nunca é demais relembrar. E, para isso, deixo você com a narração em off que abre o (maravilhoso) trailer do filme, que descreve o bicho de forma magistral.

“Há uma criatura que vive nos dias de hoje após sobreviver a milhões de anos de evolução. Sem mudanças. Sem paixão. E sem lógica. Ela vive para matar. Uma máquina comedora, sem cérebro. Ela irá atacar e devorar qualquer coisa. Seria como se Deus tivesse criado o demônio e dado a ele presas.”

Isso foi em 1975.

Hoje, 32 anos depois, essa história se repete, frase por frase, toda quinta-feira, quando vou ao dentista. Sim, porque minha simpática dentista, Dr. Ana (nome fictício, claro, pois tenho medo de represálias caso ela leia este blog) é muito simpática, conversa bastante, está sempre animada, mas certamente cursou a Escola Joseph Mengele de Ortodontia. Porque, sem sacanagem, aquilo não é tratamento, é um experimento para calcular até onde o ser humano pode suportar a dor.

Antes de continuar, devo avisar aqui que enquanto meus dentes são maravilhosos, minha gengiva sempre teve a mesma resistência de papel de seda. Basta alguém olhar feio para mim na rua e minha boca começa a sangrar. Sem exagero, a coisa é feia. E, logo na primeira consulta, ela já me diagnosticou como portador de periodontite-asmática-ultra-vox-power-venusiana-colorida-avançada.

Quando ela me disse esse nome, eu vi claramente que ela deu uma grande (e empolgada) entonação à palavra “avançada”. Por coincidência, foi ao pronunciar essa palavra que os olhos dela brilharam. E, não por coincidência, foi nessa hora que me encolhi o máximo naquela maldita cadeira, tendo a única reação que é permitida a uma pessoa naquela situação: encolher os dedos dos pés e começar a rezar. Não teve jeito. Segundos depois, ela (e tenho certeza de que ela estava sorrindo) anunciou:

– Teremos que fazer uma raspagem. E vai ser pesada. Bem dolorida.

Como assim, “pesada”? Todo dentista que eu conheço sempre fala que “não vai doer nada”, mesmo que ele tenha que colocar uma britadeira na sua boca. Acho que é altamente anti-ético uma profissional desse ramo avisar assim, casualmente, que vai doer. É contra o princípio dos dentistas. Comecei a pensar sobre isso (ainda com os dedos dos pés apertados) e cheguei a conclusão que ou eu estava no consultório de uma dentista que revolucionaria a profissão, usando psicologia reversa, ou a coisa ia realmente doer.

O brilho nos olhos dela me mostrou que ela não estava interessada em revolucionar nada, ia doer mesmo. Ia doer muito.

Sentou-se ao meu lado com uma bandeja cheia de instrumentos de metal de fazer inveja aos cirurgiões de Nip/Tuck. Eram mais ou menos 20. Todos eles altamente afiados. Enquanto ela mexia na bandeja, provavelmente lambendo os beiços e escolhendo qual usar primeiro, consegui levantar a cabeça rapidamente e olhar os instrumentos com o canto do olho. Tive quase certeza que uns 2 deles tinham o logo da Black & Decker estampados ao lado. Ela se virou para mim e eu rapidamente deitei a cabeça, olhando o teto, tentando parece o mais casual possível. Comecei a sentir câimbras nos dedos dos pés.

– Por qual quadrante você quer começar?

– Quê?

– Qual quadrante?

– Hum... Que tal por aquele aqui?, perguntei, apontando para a porta.

– Oi?

– Sim, aquela porta não é bem um quadrante, é mais um retângulo, mas ainda assim é um quadrilátero...

– Não, não. Fique calmo. Por qual quadrante da sua boca...

– Como assim calmo? Você já disse que vai doer!

– Sim, mas esse procedimento é necessário...

– Claro que é necessário! Você acha que vim até aqui porque não tinha nada legal na TV?

– Você vai querer anestesia?

– Geral? Vou.

– Não, local. Só no quadrante. Aliás, você precisa escolher qual quadrante você quer começar o tratamento.

– Qual você indica?

– Olha, o superior direito parece ser o pior deles, então...

Os olhos dela brilharam de novo.

– Então deixe esse para o final. Eu perguntei qual você indica e não qual vai ser mais divertido.

– Vamos começa pelo direito inferior, então.

– Hum... Tá. O que eu faço?

– Abre a boca.

Era tudo o que eu não queria ouvir. Fechei os olhos e assisti a minha vida inteira passando na minha frente. Então, é isso: com a frase “abre a boca”, eu morro. Simples assim. Vazio assim. Uma morte inútil. Sempre sonhei em morrer por uma causa nobre, resgatando alguém em um prédio em chamas ou fazendo um gol em cima da Argentina numa final de Copa do Mundo. Mas não assim, na cadeira do dentista, por causa da merda do tártaro na gengiva. Que morte inglória e sem propósito.

Comecei a me lembrar do final de Coração Valente, com o William Wallace sendo torturado em praça pública. Aposto que essa mulher iria fazer o mesmo comigo. Tive certeza de que se eu olhasse para o lado, veria uma multidão de camponeses miseráveis e imundos assistindo a tudo e se divertindo.

Sentindo a indignação pelo meu destino percorrendo cada fibra do meu ser, resolvi lutar contra o meu destino.

Vou enfrentar isso como homem, de olhos abertos. Klingons sempre morrem com os olhos abertos! (nerd mode: on). Abri os olhos e a encarei firmemente. Estava determinado a acabar com tudo aquilo o mais rápido possível. Uma vez, eu li em algum lugar que se você ignorar a dor, ela some. Ou era o frio? Bom, não importa. Não tenho tempo para pensar nisso agora, vai ter que ser a dor mesmo. William Wallace conseguiu, eu consigo também. Os camponeses querem um show? Bem, eles terão um show!
Ela olhou para mim e perguntou:

– Você vai querer anestesia?

FREEEEEDOOOOOOOOOOOM!!!!

– Pára com isso e responde, você vai querer anestesia?

– Claro, né? Vai doer para cacete!

A última coisa que eu me lembro é a imagem dela se aproximando da minha boca com uma agulha do tamanho da Torre Eiffel na direção da minha boca. Os olhos dela, claro, brilhavam. Tenho certeza que começou a tocar Wagner no consultório. A Cavalgada das Valquírias.

Apertei os dedos dos pés mais ainda e pensei: “Estou fudido”.