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24 de novembro de 2010

Rob Gordon contra O Satânico Dr. Alaor

Antes de tudo, vamos falar de matemática e explicar uma das equações que regem nossa vida.

Ela funciona da seguinte forma: digamos que “A” é o tempo que você gasta para interromper o que está fazendo, caminhar até o telefone que está tocando e atendê-lo. “B”, por sua vez, é o tempo em que a pessoa do outro lado da linha precisa para se convencer de que ninguém irá atender e desistir, colocando o fone no gancho.

Invariavelmente (ao menos comigo), A= B.

Foi o que aconteceu cerca de uma hora atrás. Eu estava em reunião na sala do meu chefe e, de lá, ouvia meu celular, que havia ficado na minha mesa, tocando incessantemente. Uma hora não agüentei, pedi licença e vim ver do que se tratava. Saí da sala dele e caminhei até a minha mesa, com o telefone tocando. Mas, como queremos demonstrar, A = B e no momento que peguei o aparelho, ele parou de tocar.

Eram duas chamadas perdidas. A identificação: “Número Privado”. Ou seja, boa coisa não era – dentro do universo das ligações telefônicas, números privados nunca são os portadores de boas notícias. Ninguém nunca recebeu um convite para jantar ou uma declaração de amor de um número privado. Não, números privados são como terroristas telefônicos, que se aproveitam do anonimato para explodir seu dia.

Com sorte, um número privado é apenas um atendente de telemarketing. Mas há o risco do número privado ser o seu gerente do banco informando que sua conta está no vermelho, seu cartão foi cancelado e o FBI acabou de descobrir que você fez transações ilegais envolvendo o cartel de Medelín e querem satisfações. O engraçado é que se o gerente do banco liga para desejar “feliz aniversário”, o número aparece no visor; quando ele liga porque deu merda, é “número privado”.

Mas o grande charme do número privado é que você não consegue retornar a ligação. Ou seja, se você perde a ligação (como acontece sempre que aplicamos a máxima A = B), você continua sem saber quem era. Tudo o que você pode fazer é se sentar ao lado do celular e esperar ele tocar de novo.

E foi o que aconteceu comigo: ele tocou novamente. Claro que somente cinco minutos depois, quando eu estava de volta à reunião. Ignorei. Ao voltar para minha mesa, peguei o celular e havia um recado de voz, deixado, aparentemente, por alguém perdido numa floresta durante uma nevasca.

– Sr. Gordon... bzzzzz....cartão do banco... sssshhhhh..... gerente Adriana.... bzzzz.... urgente.... café...... ssshhhh....telefone XYZ....bzzzzz.....urgente....CRAC!

Sim, a ligação terminava assim mesmo, com um CRAC! Altíssimo. Não sei de quem a pessoa que me ligou estava tentando escapar, mas a ligação claramente havia terminado, pois ele fora golpeado (ou alvejado?) pelos seus perseguidores.

Ouvi o recado mais duas vezes, e ele continuou sem fazer sentido.

Eu só tinha uma coisa a fazer: ligar para a tal da Adriana, no telefone indicado.

Aparentemente, ela saberia o que fazer. Não havia motivo para eu ficar nervoso. Evidentemente, a Adriana era uma espiã que já havia desmantelado quadrilhas internacionais de traficantes de jóias e eliminado criminosos na calada da noite. Ela provavelmente estava envolvida em alguma investigação internacional e precisava desesperadamente de alguma informação minha. Claro que eu teria que sair correndo da redação, pois agentes inimigos estariam monitorando tudo, mas no final, tudo acabaria bem, eu e a Adriana terminaríamos nossa aventura bebendo champanhe às margens do Sena, numa lancha, ao nascer do Sol. Eu usaria smoking e estaria com a gravata afrouxada.

Ansioso pela aventura que me esperava, liguei. Uma voz masculina atendeu do outro lado.

– Frans Café, Fenáqui.

– Oi?

– Frans Café, Fenáqui.

Fiz o que qualquer espião internacional teria feito. Resmunguei um “foi engano” e desliguei.

Analisei friamente a situação. Fenáqui, certamente, deveria ser Fnac. Frans Café... Sim, eu tinha ido ao Frans Café da Fnac meia hora antes, tomar um café. E o meu contato telefônico havia dito algo sobre um cartão. “Cartão do banco” foi a expressão exata que ele usou. E eu havia usado o cartão.

Abri a carteira e, ao ver meu cartão ali dentro, respirei aliviado. Assim, abandonei a carreira de espião internacional e voltei a ser jornalista, começando a fazer um texto.

Mas aquilo não saía da minha cabeça. Se o meu cartão estava comigo, porque alguém havia me ligado para falar do cartão, deixando o contato do Frans Café? Não fazia sentido. Ok, o pessoal do Frans Café aqui ao lado é bem tapado, mas nada disso fazia sentido. Deixei a matéria de lado e comecei a usar meus poderes dedutivos. O único motivo que faria alguém me ligar seria eu ter esquecido meu cartão lá, mas como ele estava comigo... A não ser, claro, que meu cartão estivesse comigo e não estivesse comigo ao mesmo tempo.

Sim. Quando você elimina o impossível, o que sobra, por mais improvável que seja, é a verdade (Sherlock Holmes mode: on ou Spock mode: on, fica à sua escolha). Abri a carteira e puxei o meu cartão, passando os olhos pelo nome.

Alaor Whatever

Holmes teria dito algo como “Basta apenas se ater aos detalhes, Watson”. Spock, por sua vez, pronunciaria algo do tipo: “A lógica deste raciocínio foi irrefutável e apontou para esta solução, capitão”. Mas eu sou eu. Tudo o que consegui foi esconder o rosto nas mãos e resmungar:

– Puta que pariu, tem que ser sempre comigo?

Chamei meu estagiário.

– Meu nome é Alaor?

– Oi?

– Responda. Meu nome é Alaor?

– Não. Não que eu saiba.

– Ok.

Peguei o cartão, saí da redação e fui ao Frans Café. No meio do caminho, quase fui atropelado por um camburão, na Pedroso. Era só o que faltava – todos os meus documentos indicavam que meu nome é Rob Gordon, mas meu cartão do banco indicava que eu era o Alaor. Ou seja, além de atropelado, eu seria preso por falsidade ideológica, talvez falsificação. Ô fase, hein, Alaor?

Felizmente, cheguei vivo e inteiro no Frans – até mesmo resisti à tentação de entrar na Fnac e comprar uma TV de Led 3D no cartão do Alaor. Entrei no Frans e me apoiei no balcão. Uma das atendentes veio me recepcionar com uma bandeja.

– Oi, eu estou procurando a Adria...

– O carioca com os pão de queijo é seu?

– Oi? Não, eu estou aqui por causa do me...

– O CARIOCA COM OS PÃO DE QUEIJO É DE QUEM?

Suspiro. James Bond tem conexões internacionais, e eu tenho essa imbecil.

Fiquei parado ali, esperando o enigma dos pães de queijo ser resolvidos. Eram das duas velhas da mesa ao canto. Com esta crise encerrada, podíamos cuidar do meu cartão. Ela voltou para o meu lado.

– Oi.

– Oi. Quero falar com a gerente.

– Você é quem?

Não aguentei. Estufei o peito e tentei levantar somente uma sobrancelha, no melhor estilo Sean Connery.

– Gordon. Rob Gordon.

– Ah, é você que perdeu o cartão?

Isso nunca aconteceu com James Bond. E eu sei que não, eu li os livros.

– Sim.

Ela deu as costas para mim.

– ADRIANA, O RAPAZ QUE PERDEU O CARTÃO TÁ AQUI!

O Frans Café inteiro olhou para mim, como se eu fosse alguém totalmente despreparado para viver em sociedade. Assim, eu me tornei o assunto do Frans Café. Ou, ao menos, da mesa do canto, onde as velhas devoravam seus pães de queijo falando mal de mim.

– Olhe o tamanho dele, ele não deve ter mais que oito anos de idade. Quem deixa uma criança pequena assim andar com cartão do banco?

– Mas ele tem algum problema, Elvira. Ele não tem cabelos, coitado.

– Credo, Maristela. Será que isso pega?

E foi sob esta chuva de olhares e comentários maldosos que a Adriana apareceu com um envelope em mãos. Aparentemente, a menina do caixa se atrapalhou e deu o meu cartão para o Alaor e vice-versa. Ela pediu milhões de desculpas, e eu desculpei logo, porque queria apenas recuperar e meu cartão e ir embora, pois não agüentava mais interpretar a criança-sem-cabelos-que-perdeu-o-cartão-do-banco.

Voltei para a redação e decidi que agora, no Frans, somente em dinheiro. E se o Alaor quiser continuar usando o cartão dele, problema dele.

Ele que se entenda com as velhas depois.

17 de julho de 2007

Ô Fafe

O problema do Frans Café é que a empresa, aparentemente, atua em algum programa de reabilitação de excepcionais na sociedade e só emprega pessoas com baixo índice de fosfato no organismo (eufemismo mode: on), especialmente para ocupar o cargo de caixa. Não importa o que você pedir, o atendente vai olhar para você com aquela cara de interrogação tipicamente franscafeniana. E, até você conseguir pagar, terá que repetir o pedido detalhadamente umas três vezes. E ele não vai ter troco, porque eles nunca têm troco.

No Frans que fica aqui na Fnac em frente ao trabalho, então, a situação é pior ainda, porque as pessoas podem entrar pela loja ou pela rua, mas precisam dividir o mesmo caixa, que fica numa espécie de esquina do balcão, lá dentro. E essa característica da loja torna tudo complexo demais aos atendentes, que nunca sabem para que lado olhar. E isso independe da quantidade de clientes: se você estiver sozinho na loja, o atendente estará do mesmo jeito: olhando para o outro lado, pensando na vida e com cara de paisagem.

Hoje, porém, descobri que alguns deles possuem outro problema: fono. Cheguei ao caixa e o atendente – que, obviamente, estava de costas para mim quando encostei no balcão – me ignorou totalmente. Apelei para a tática da fungada, que, como de costume, se mostrou altamente funcional e ele se virou para me atender. Era um negrão que poderia facilmente jogar como zagueiro em qualquer time da segunda divisão. Isso, claro, tirando a bandana preta que eles usam na cabeça, agora, que certamente não é uma das peças mais másculas já criadas.

– Fim?, ele disse.

– Como assim, fim? Acabei de chegar, eu respondi, sem entender absolutamente nada.

– Qual feu pedido?

Percebi que ele tinha a língua presa, uma fração de segundos depois de sentir na pele (perdigotos mode: on) que ele tinha língua presa.

– Um chocolate quente grande e uma água sem gelo e sem gás.

– Fem felo?

– Quê?

– A água, é fem felo?

– Sim.

– E fem gáf?

Imaginei que ele estivesse falando sem gás, mas, a esta altura, eu já estava tão molhado que nem tinha mais sede. Não chovia há mais ou menos seis horas em São Paulo, e eu ali, encharcado. “Ô fafe”. Segurei a risada e respondi:

– Iffo... Hã... Sim, isso mesmo.

Ele virou para o outro atendente (seu affiftente, talvez?) e gritou:

– UMA ÁGUA FEM FELO E FEM GÁF! E UM...

Silêncio.

Ele me olhou com a já esperada cara de interrogação. Decidi ajudá-lo.

– E um chocolate quente

– E UM FOCOLATE QUENTE...

Silêncio.

Ele olhou para mim e perguntou:

– O focolate quente é pequeno ou grande?

– Grande, eu respondi, limpando o rosto.

– O FOCOLATE É GRANDE! UMA ÁGUA FEM FELO E FEM GÁF! E UM FOCOLATE QUENTE GRANDE!, ele gritou

A essa altura, o Frans já estava totalmente alagado. Noé, se estivesse tomando um café ali, morreria de infarto na mesma hora, logo depois de pensar “porra, de novo, não”.

Enquanto o affiftente preparava meu pedido, o caixa se virou para mim e eu perguntei, já temendo pelo pior:

– Quanto fica tudo?

Pelo amor de Deus, faça com que não seja um daqueles números cheios de “s”, por favor. Não me importo em pagar nove reais num chocolate quente e numa água, mas faça com que não seja um número cheio de “s”.

– Fai feif e feffenta.

Limpei o rosto e perguntei:

– Quanto?

– Feis reaif e feffenta fentavos.

Minha camisa já estava encharcada. Abri a carteira, paguei, peguei minhas coisas e fui sentar longe dele, num lugar seco. Mas, na metade do chocolate quente, eu já havia decidido meu próximo passo.

Amanhã mesmo vou voltar ali e dar um jeito dele falar a palavra “expresso”. Aposto que vai ser um fufesso!

Mas, por precaução, vou com guarda-chuvas e galochas.

Café efpreffo e capuffino.
Af delífias do Franf Café.

Em homenagem ao nosso amigo, seguem 5 fufestõef do Franf Café ditadaf pelo noffo amigo (todaf af bebidaf combinam tanto com afúcar como com adofante):

1. Café expreffo - frefquinho, tirado na hora.
2. Fubmarino - delifiofo leite quente com uma barra de focolate fubmerfa.
3. Pão de queivo - quentinho, affado na hora do pedido.
4. Fopa - Effelente pedida para o inverno, efpecialmente no pão italiano.
5. Fundae - Nof diaf quentef, nada melhor que um saborofo fundae. Efperimente também o milk fake.