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12 de abril de 2017

Rob Gordon X Taxista Pensador

Assim que eu entrei no carro, disse para onde ia e o taxista deu a partida. Ainda no primeiro quarteirão, ele falou.

– Sabe o que eu queria?

Foi assim mesmo. A seco. Sem nenhuma preparação, sem nenhum assunto prévio, nada. Ele fez a pergunta como se estivesse concluindo uma longa conversa da qual eu não fazia parte. Mesmo assim, resolvi participar.

– O quê?

– Eu queria ser rico. Ser muito rico. Mas não rico por ser rico, e sim rico para poder ficar em casa. Eu queria ficar em casa sem fazer nada, apenas pensando. Queria ficar na frente do computador pensando o dia inteiro.

– Mas pensando sobre o q...

– Sabe? Acorda de manhã, começa a pensar. Liga o computador e continua pensando. Lê as notícias e continua pensando. Isso que é vida.

– Olhe, eu trabalho em casa na frente do computador e não é bem as...

– Aí vou almoçar pensando. Termino o almoço, volto para o computador e continuo pensando. Passar a tarde inteira pensando. E fico ali pensando até a hora do jantar.

– Então, mas eu trabalho na frente do computad...

– Queria ficar o dia inteiro pensando. Na frente do computador, pensando.

– Eu estou tentando falar qu...

– Pensando. Pensando. Pensando.

– Oi?

– Pensando. Pensando. Pensando. Pensando.

– Olhe, é só uma curiosidade, mas o senhor está tentando me hipnotizar?

– Se eu não pudesse passar o dia inteiro em casa pensando, sabe o que eu gostaria?

– Não.

– Ser político. É isso. Eu queria ficar pensando ou ser político.

– Eu concordo que essas atividades realmente parecem bem longe uma da outra, mas, nesse cas...

– Eu sempre adorei política. Aliás, quando eu disse que queria ficar pensando em casa, uma das coisas era pensar sobre política.

– Sabe o que eu queria? Terminar uma única fr...

– E ser político no Brasil é fácil. Você precisa de dinheiro, claro. Mas não só isso. Você precisa de promessas. Promete isso, promete aquilo, promete aquele outro ali e pronto. Com dinheiro, você ganhou a eleição. E aí sabe o que eu faria? Iria para casa pensar.

– Eu desisto.

– Ia acordar de manhã e ficar pensando. Ligar o computador e continuar pensando. Ler todas as notícias e continua pensando. Isso que é vida.

– Certo.

– Quer dizer, eu não ia ler todas as notícias. Ia ler só aquelas que me interessam. Aquelas que você vê que não está sendo manipulado. Agora... As outras... Aquelas que manipulam você... SABE O QUE EU IRIA FAZER COM ELAS?

– Hum... Não ia ler?

– ISSO! EU NÃO VOU PERDER MEU TEMPO LENDO UMA NOTÍCIA QUE ME MANIPULA!

– Olha, mas aí o senhor tem um problema. Porque para saber se a notícia é manipuladora, você precisa ler essa not...

– EU NÃO IA LER!

– Certo. Desculpe.

– Porque eu não vou fazer como aquelas pessoas que não leem nada, aí formam uma opinião errada e saem por aí repetindo burrices.

– Entendi.

– Mas eu não vou ler as notícias manipuladoras. Só as outras. Você sabe de quais eu estou falando.

– Sei?

– As que me fazem pensar!

– Entendi.

– O que você acha do meu plano?

– Olhe, eu acho que...

– Você não acha que ele pode funcionar?

– Então, eu acho que o senhor...

– Porque eu tenho certeza que eu vou ser uma pessoa melhor fazendo isso.

– Bem, o que eu acho parece não fazer muita diferen...

– Uma pessoa mais esclarecida.

– Sim.

– Eu ia ser melhor assim. Lendo e pensando. Lendo e pensando. Lendo e pensando.

– Isso é a hipnose de novo?

– Lendo e pensando o dia inteiro.

– E a política?

– A política também. Sendo político, lendo e pensando. Sendo político, lendo e pensando. Sendo político, lendo e pensando. O dia todo.

– Certo.

– E pensando sobre política também.

– Sim, eu já havia imaginado isso.

– Especialmente política internacional. Adoro política internacional. Você gosta de política internacional?

– Entra aqui à direita. É nessa rua.

– Eu adoro. Sabe o que eu queria?

– Ficar em casa pensando?

– Além disso.

– Ser político?

– Além disso.

– Ser político para poder ficar em casa pensando?

– Uma guerra entre Rússia e Estados Unidos!

– Meu Deus do céu.

– Mas isso nunca vai acontecer. Não enquanto eu estiver vivo.

– É na próxima quadra.

– E eu queria ver só para descobrir quem ia ganhar a guerra.

– Entendi.

– Porque aí, depois da guerra, eu ia para casa.

– E ficaria pensando?

– EXATAMENTE!

– Entendi. Olha, é naquele portão marrom ali.

– Sabe o que eu acho dos coreanos?

– Obrigado. Quanto deu?

Desci do carro e vi o taxista ir embora. E fiquei cinco minutos em pé na calçada, fumando um cigarro e tentando me convencer que nada daquilo tinha acontecido. 

19 de julho de 2015

007 Contra O Quinto Elemento

De repente, eu olhei para o lado e percebi que já havia visto aquilo em algum lugar. O cenário... A frase... Era tudo muito familiar, mas não era nada que eu tinha vivido antes. Mas eu já tinha visto aquilo antes... Um filme! Eu estava dentro de uma cena de um filme!

Isso já aconteceu com você alguma vez? Você olha ao redor e descobre que, de alguma forma, está vivendo uma versão distorcida de uma cena que está guardada em seu cérebro. Comigo aconteceu mais de uma vez. A mais recente foi sexta-feira.

Tive uma reunião no Itaim, no final da tarde. Decidido a ir e voltar de táxi, eu fucei na carteira e vi que tinha por volta de quarenta reais, o que daria para apenas uma corrida. Mas tudo estava sob controle: eu podia pegar o táxi, pagar com dinheiro e, depois da reunião, tomar um café e sacar dinheiro que é uma das coisas mais fáceis de fazer quando você está no Itaim.

Sim, eu sei que eu poderia usar o Easy Taxi para chamar um táxi que aceita cartão, mas acontece que eu tenho alguns problemas com tecnologia. E não porque eu sou velho e tenho medo de novidades tecnológicas, mas sim porque sou cliente da TIM, então tenho medo de qualquer tecnologia que dependa de 3G. Para mim, ainda é mais fácil sacar dinheiro e pegar um táxi no ponto do que ter que subir em um poste e ficar com o braço levantado para sinal e chamar um táxi pelo celular.

Na ida, deu tudo certo. Na reunião, também. Mas aí o problema começou quando saí da reunião. Andei dois quarteirões e cheguei ao banco 24 horas que eu tinha em mente.

Não gosto muito de caixas eletrônicos. Acho que eles têm uma burocracia ridícula e exagerada. Os bancos dizem que aquilo tudo é para nossa segurança, mas sempre que uso aquilo tenho a impressão que estou usando um daqueles brinquedos feitos para avaliar a coordenação motora de crianças.

Insira o cartão. Retire o cartão. Digite sua senha. Diga o que você quer. Insira o cartão. Digite sua senha. Retire o cartão. Coloque o dedo no leitor ótico. Insira o cartão. Retire o cartão. Levante a perna esquerda. Ainda com ela no ar, insira o cartão. Abaixe a perna e digite sua senha. Aponte para o Norte e retire o cartão. Digite sua senha. Dê duas voltas sobre você mesmo gritando seu nome.

Toda vez que uso o caixa eletrônico, tenho certeza de que estou sendo filmado, e novamente não por motivo de segurança, mas sim para o pessoal do banco dar gargalhadas enquanto assistem ao gordinho careca fazendo uma dancinha ou imitando uma galinha no meio da rua para conseguir pegar quarenta reais. É humilhante demais.

Entretanto, desta vez não tive que fazer nada disso, já que o procedimento foi abreviado. Insira o cartão. Retire o cartão. Digite sua senha. Diga o que você quer.

“Este terminal não está fazendo saques e agora você está em outro bairro com dois reais no bolso. Que beleza, hein? Tenha um bom dia!”

Chutei a máquina e fui embora. Agora, eu tinha três alternativas:

1 – Voltar a pé.
2 – Entrar na internet e procurar um banco 24 horas.
3 – Entrar na internet e chamar um táxi.

Ou seja, minha situação não era boa, já que eu tinha que escolher entre bancar o Lawrence da Arábia e atravessar três ou quatro bairros a pé ou usar o 3G da TIM. Por motivos óbvios (39 anos de idade) resolvi arriscar o 3G e chamar um táxi. Peguei o celular do bolso e fui andando pela rua, até descobrir que, trinta centímetros ao lado de um bueiro, o sinal pegava – o que me leva a pensar se o sinal da Tim não pega melhor no esgoto. Bastava eu dar um passo para qualquer lado e o sinal desaparecia.

Assim, tomando cuidado para não fazer movimentos bruscos, abri o Easy Taxi e chamei um carro. O mapa apareceu mostrando que o taxista estava a três quarteirões e o tempo de espera seria dois minutos.

O carro andou. Parou. Andou. Parou. E nunca mais andou. Virei o corpo na direção do bueiro e ele voltou a andar. E Parou. Três minutos depois, recebo uma mensagem do taxista:

“Já estou a caminho!”.

Certo. Olho para o mapa. O táxi está na mesma rua que eu. Andou. Parou. Andou. Parou. Parou... E desapareceu do mapa.

“O taxista sofreu um imprevisto e não pode completar sua corrida”.

Olhei indignado para o celular e para a rua e para o celular de novo – tudo isso sem poder me mexer ou dar as costas para o bueiro. Como assim um imprevisto? Ele estava a cinquenta metros de mim, que tipo de imprevisto? Um meteoro caiu no carro? O Godzilla emergiu das águas do Rio Pinheiros e decidiu que precisava ir até o Itaim, destruindo tudo em seu caminho, para pegar o meu táxi e arremessá-lo em Jundiaí?

“Deseja chamar outro táxi?”

Sim, é evidente que sim. Não é porque meu taxista caiu num portal que o levou à outra dimensão quando estava prestes a me encontrar que eu não preciso mais voltar para casa. Sim, desejo chamar outro carro. Sim, estou no mesmo lugar. Sim, a referência é a mesma. Sim, vou pagar com cartão.

Recebo a notícia que um novo carro está a caminho. É um táxi que está a dois quarteirões de mim. Parado. Parado. Parado. Parado. Parado. Parado.

Comecei a ficar enlouquecido. Minha vontade era andar os dois quarteirões a pé, dar um tapa na cabeça do motorista e falar que “Dá para ir logo até ali, onde estou esperando? Vai ligando essa merda aí e me encontra lá onde você acha que eu estou. Vai ser fácil de me achar agora que você sabe como é a minha cara”.

Andou. Andou. Andou. Andou. Andou. Andou. Andou.

E passou por mim. Com uma passageira – uma mulher de uns cinquenta anos e cara de azeda – no banco de trás.

Meu impulso foi procurar por uma pedra e jogar na cabeça do taxista. Uma fração de segundos depois, me lembrei de que não deve ser muito comum achar pedras no Itaim, então decidi que jogaria o celular mesmo. Com sorte, acertaria com a quina na têmpora. Mas aí me lembrei que o aparelho é novo e mudei de ideia – se fosse meu antigo Galaxy S2, o taxista teria passado a noite no hospital.

Assim, respirei fundo e peguei meu celular novamente. Imediatamente, cancelei a corrida.

“Cancelar a corrida pode prejudicar nossos taxistas. Você quer mesmo fazer isso?”

Sim, quero. Quero prejudicar esse taxista pelo resto da vida dele. Quero cancelar a corrida, fazer com que o Uber monte sua sede na frente do ponto onde ele trabalha. Quero que o carro dele exploda em uma manhã e, quando ele entrar em casa para procurar os papeis do seguro, vai me encontrar usando uma peruca da Glenn Close e cozinhando o coelhinho da sua filha.

Cancelei a corrida socando o celular e chamei outro táxi – sim, tudo isso sem sair de perto do bueiro.

Andou. Parou. Andou. Parou. Andou.

E parou ao meu lado. Entrei disposto a começar a resmungar, mas assim que olhei para o taxista, eu percebi que ele se parecia muito com alguém. Ele tinha cara de alemão, era gordo e completamente careca. Ele era a cara de uma versão careca de alguém. Se eu conseguisse imaginá-lo com cabelo, talvez eu descobrisse com quem ele era parecido.

Nesse momento, as luzes do meu cérebro se apagaram. Era como se uma enorme escuridão tivesse assolado meus pensamentos.

– Para onde o se-se-sesenhor vai?

Gago. Um taxista gago. O Easy Taxi fez isso de propósito, e fodeu com minhas corridas até me jogar na mão de um gago. Mas eu não me importei com isso, naquela hora. Eu precisava saber com quem aquele cara se parecia.

Foi quando um facho de luz branca se acendeu no meu cérebro. Agora, tudo estava escuro, menos este pedaço iluminado, que mostrava um pedestal e um microfone sobre um palco.  Meu Deus, com quem esse cara parece?

– Vila Mariana.

– O senhor tem algum ca-ca-caminho de prefe-fe-ferência?

Lentamente, um neurônio veio caminhando na direção do microfone. O neurônio usava um vestido dourado, de lantejoulas.

– Olha, acho que podemos ir pela Sena Madureira.

– Certo. Então eu vou su-su-subir por essa a-a-a-aqui...

Eu parei de ouvir, pois o neurônio se aproximou do microfone, ergueu os braços, ressaltando suas curvas com o vestido dourado, e gritou:

– GOOOOOOLDFINGEEEEER!!!!

– E vou cair ali na San-Santo Amaro...

– HE’S THE MAN... THE MAN WITH THE MIDAS... TOUCH!

Segurei a risada e abaixei o volume da música no meu cérebro. Outros neurônios pediram para eu perguntar algo como “ah, Goldfinger, você também vai almoçar na Casa Branca?”, mas como o taxista poderia responder que “não, Mr. Gordon, eu espero que você morra!”, achei melhor não falar nada. Assim, decidi escolhi que iria usar o Goldfinger careca para reclamar dos outros taxistas.

– Você é o terceiro táxi que eu chamei.

– Como assim?

– O primeiro cancelou a corrida e o segundo pegou outro passageiro.

– Mas às vezes a gente pe-pega outro passa-passa-passa-passageiro sem querer.

– Como assim?

– Você é cha-cha-chamado para pegar um passageiro na rua tal e vo-você vai. Ba-ba-bum.

Ok. O Goldfinger careca não é gago. Ele é gago e tem um tique nervoso que se manifesta num vício de linguagem.

– Oi?

– Aí você chega lá e tem outr-tra pessoa espe-perando o táxi e ela entra no carro. Ba-ba-bum.

– Baba o quê?

– Aí, aque-quele que chamou o carro fi-fica lá. Ba-ba-bum.

– Olha, acho difícil que isso tenha acontecido. A não ser que ele tenha me confundido com uma mulher de cinquenta e poucos anos.

– Ah, então deve ter sido de saca-saca-saca...

– Sacanagem?

– Ba-ba-bum.

E foi quando eu percebi que estava dentro de uma cena de um filme. E não, não era de 007 Contra Goldfinger. Era uma ficção científica: afinal, eu estava dentro de um táxi com uma pessoa que ficava falando Badabum o tempo inteiro. Sim, eu estava em uma versão distorcida de o Quinto Elemento.

E sim, eu sei que a pessoa ao meu lado estava longe de ser a Mila Jojovich usando pouca roupa. Na verdade, tudo o que eu conseguia pensar ao olhar para ele era que os vilões de 007 haviam dado uma festa a fantasia e o Goldfinger, com preguiça de escolher uma fantasia bacana, apenas raspou a cabeça e disse que “estou fantasia de vo-vovocalista do Parala-lamas do Su-sucesso, ba-ba-bum”.

Mas quem não tem Mila caça com Goldfinger careca mesmo. Assim, dei meu melhor sorriso Bruce Willis e olhei para ele.

– Yeah. Badabum.

Ele olhou para mim com cara de interrogação e eu completei:

– Big Badabum.

Passei o resto da viagem tentando encontrar uma maneira de usar a expressão Multipass na conversa, mas não consegui. Aliás, antes da metade do caminho eu já estava até to-tonto. Primeiro, porque ele era gago, segundo porque ele falava ba-ba-bum e terceiro porque ele não parava de falar. Polí-lítica. Ba-ba-bum. Esporte. Ba-ba-bum. Pessoa do ca-carro do lado. Ba-ba-bum.

Chegou uma hora que eu fechei os olhos e reparei que o neurônio vestido de Shirley Bassey ainda estava cantando. Então aproveitei e aumentei um pouco o volume.

– IT’S THE KISS OF DEATH... FROM MISTER... GOOOOOOOOOOOOOOLDFINGEEEEER!

E fui ouvindo a música até em casa, pegando apenas um ou outro ba-ba-bum da conversa.

6 de dezembro de 2014

O Dia que Peguei Táxi com Scott McKenzie

Dias atrás postei um texto sobre meu problema com o chuveiro de hotéis. Foi um texto postado diretamente de Anápolis, onde eu estava. Horas depois, voltei para São Paulo. Avião lotado – e na hora do embarque ficamos sabendo que era assento livre. Cumbica lotado. Ônibus de Cumbica até Congonhas lotado.

É importante lembrar que as palavras “lotado” do parágrafo acima não se referem à quantidade de pessoas, mas sim a de mal-educados. No avião, a pessoa à minha frente deitou o encosto do banco assim que se sentou, praticamente deitando a cabeça no meu colo. Estava quase perguntando se o sujeito queria um cafuné quando ele foi obrigado a subir o banco para o avião decolar.

O avião estava a meio metro de altitude quando o sujeito abaixou o banco de novo. O avião estava a cinco metros de altitude quando o sujeito começou a dormir. O avião estava a dez metros de altitude quando o sujeito começou a roncar. Foi assim até São Paulo – ou quase, já que sempre que ele roncava mais alto eu enfiava o joelho no encosto.

Em Cumbica? Desci e fui quase pisoteado por uma família que correu para entrar no ônibus que leva ao terminal, provavelmente para irem sentados. No aeroporto, fui atropelado por três carrinhos de bagagem. No ônibus até Congonhas, a menina à minha frente também deitou o banco, sendo que ela desceu na primeira parada (Tietê), dez minutos depois. É muita vontade de descer o banco.

Assim, depois de passar três dias trabalhando muito, dormindo pouco – e felizmente dando risadas com amigos que não via há muito tempo – e três horas sendo esmagado, pisoteado, amassado, despertado, empurrado, puxado, chutado e socado... Embarquei no táxi.

De Congonhas até minha casa daria coisa de dez minutos. Eram dez minutos que eu queria apenas ficar sozinho, em silêncio. Talvez, como eu adoro conversar com taxista, bater papo sobre a chuva, o frio que estava fazendo, sobre “como tem gente a essa hora na rua”... Mais nada.

Mas não deu certo.

Entrei no táxi e o som estava no máximo. O Frejat estava gritando alguma coisa sobre tudo o que ele oferecer é seu calor e seu endereço. Pensei em comentar com o taxista que a essa hora da manhã, voltando de viagem, ninguém tem um amor, grande amor, mas quando abri a boca o Frejat pediu para que o grande amor durasse apenas o tempo que mereça. Com a cabeça doendo, eu resmunguei um “puta que pariu, eu mereço” e o taxista deve ter achado que eu estava cantando junto.

Finalmente o Frejat calou a boca, dando lugar aos primeiros acordes de San Francisco (Be Sure to Wear Some Flowers in Your Hear) e nada do taxista abaixar o som. Nada contra a música, Scott McKenzie, flower power e tal... Mas às vezes a única música que a gente quer ouvir é o silêncio.

Assim, decidi começar a falar com o sujeito. Se ele não ouvisse o que eu estava falando, ele seria obrigado a abaixar o som do rádio. Plano de mestre.

Ou não, já que foi a pior decisão que tomei na vida.

Virei para ele e disse:

- Que horas começou a chover aqui?

- Olha, foi mais ou menos IF YOU’RE GOING TO SAN FRANCISCO ontem estava BE SURE TO WEAR SOME FLOWERS IN YOUR HAIR e agora está assim.

- Como?

- Ontem mesmo eu IF YOU’RE GOING TO SAN FRANCISCO e aí eu fui YOU’RE GONNA MEET SOME GENTLE PEOPLE THERE nunca mais volto.

- Eu não entendi o que FOR THOSE WHO COME TO SAN FRANCISCO

- E o mecânico que SUMMERTIME WILL BE A LOVE-IN THERE para mim? Eu nem quis IN THE STREETS OF SAN FRANCISCO foi o que eu disse.

- Como é?

- Eu não sou bobo para GENTLE PEOPLE WITH FLOWERS IN YOUR HAIR você não concorda?

- Eu não posso concordar, eu não estou ouvALL ACROSS THE NATION SUCH

- A STRANGE VIBRATION porque PEOPLE IN MOTION tô errado?

- Será que não dá para THERE’S A WHOLE GENERATION WITH A NEW EXPLANATIONosta de música hippie?

- Mecânico é MESMPEOPLE IN MOTION PEOPLE IN MOTION. Sempre foi assim. Depois não sabe porque FOR THOSE WHO COME TO SAN FRANCISCO preso.

- Quem está preso? Eu não Be Sure To Wear Some Flowers In Your Hair parar ali, naquele portão.

- Neste portãIF YOU COME TO SAN FRANCISCO reais.

- Toma. Pode ficar com o trSUMMERTIME WILL BE A LOVE-IN THERE

- ObrigadVOCÊ ESTÁ OUVINDO A RÁDIO

Desci do carro até tonto, antes que a próxima música começasse e entrei correndo em casa em busca de silêncio.

Mas como acredito que a gente aprende algo o tempo inteiro, desta vez aprendi que se você for para São Paulo, tenha a certeza de usar tampões de ouvido quando pegar o táxi no aeroporto.

19 de julho de 2011

Ida & Volta

Ida

- Posso pagar em cheque?

- Sim, claro.

- Ok. Que dia é hoje? Dezenove? Vinte?

- Dezenove.

- Obrigado.

- De julho.

- O mês eu sabia. Era só o dia. Obrigado.

- De 2011.

- Esse eu sabia também.

- Dezenove de julho de 2011.

- Depois de Cristo?

- Oi?

- Nada. Olhe, está aqui. Obrigado.


Volta

- Este ônibus passa no Largo de Pinheiros?

- Oi?

- Passa no Largo de Pinheiros?

- Oi?

- Passa no Largo de Pinheiros? O Largo da Batata, sabe?

- Oi?

- Você pode tirar esta merda de fone de ouvido da merda da sua orelha?

- Oi?

- Este ônibus passa no Largo de Pinheiros?

- Passa.

- Ok.

27 de fevereiro de 2009

Crise na Sala de Guerra - Parte Final

(leia a parte I aqui)

O supervisor, esbanjando autoridade, explicou que eu ficaria em silêncio apenas por alguns instantes, o que deixaria a bola no campo do taxista e, assim, poderiam observar que rumo a conversa tomaria. Com um pouco de sorte, o assunto cairia em política ou – melhor ainda – na chuva que não pára. Os outros neurônios, apesar de ainda desconfiados, acionaram o modo silêncio. O encarregado pegou um pequeno microfone, que era ligado a todas as partes do corpo e disse, calmamente: “Aqui é do cérebro. Quando eu terminar essa mensagem, o corpo inteiro deve ficar em silêncio por alguns segundos. Eu não quero ouvir o barulho de nada, nem de uma risada, nem de um copo caindo no chão” e desligou satisfeito. Ele queria fazer isso desde que tinha assistido a um filme de submarino, anos atrás. Recolocou o microfone sobre a mesa e instruiu ô neurônio ao seu lado: “Acione a cara de paisagem”.

–..., eu respondi.

O taxista permaneceu em silêncio. A tensão no meu cérebro era quase palpável. Todos os neurônios aguardavam ansiosamente pela resposta – menos o ruivinho espinhudo, que havia encontrado uma página com fotos pornográficas dos bailes no Rio. Uma descarga cavalar de endorfina estava pronta para ser liberada, dependendo do rumo que a conversa tomasse. “Esquece a Mocidade, esquece a Mocidade”, balbuciava o supervisor, temendo que a conversa ficasse insustentável. O taxista parecia concentrado no trânsito. Eu olhava fixamente para a frente e permanecia em silêncio.

– E a Vai-Vai, você viu? Perdeu por 50.

Os neurônios respiravam aliviados. A Mocidade havia sido deixada para trás. Alguns mais jovens – que ainda não lidavam bem com as emoções em crises – aplaudiram, mas o encarregado gritou que a crise ainda não passava. A frase “E a Vai-Vai, você viu? Perdeu por 50” apareceu num telão à frente de todos e em todas as outras telas da sala, fazendo o ruivinho resmungar um palavrão no canto. Felizmente para ele, ninguém ouviu. “Como respondemos isso? O que isso quer dizer?”, perguntou o supervisor. Um dos neurônios soltou a hipótese de que “talvez o taxista seja gago”, que foi logo refutada pelos outros. A questão não era identificar o que era Vai-Vai, já que tudo indicava que era outra escola de samba. A questão era saber se 50 era muito ou pouco. Afinal, ela ter perdido por 50 podia significar tanto que ela havia sido vice-campeã como a última colocada. Um dos neurônios que controlava meus batimentos cardíacos levantou-se e timidamente, sugeriu que usássemos a expressão neutra de espanto. Os outros neurônios permaneceram em silêncio, ainda em dúvida se a idéia teria algum efeito, mas foram convencidos quando ele lembrou que isso sempre funciona em filas de banco, quando velhinhas vêm conversar comigo. O encarregado não precisou ouvir mais nada. Apertou um botão vermelho no painel.

– Nossa!, eu disse, sem saber direito o porquê.

– 50 pontos é sacanagem, né?, respondeu o taxista.

Os neurônios aplaudiram e o autor da idéia sentou-se novamente, sem conseguir disfarçar o orgulho. O neurônio encarregado, porém, parecia preocupado. Estavam dançando num campo minado. O bate-papo sobre o carnaval ainda estava no raso, mas, a qualquer momento, o assunto mergulharia em águas profundas e nem eu nem meus neurônios saberíamos nadar. Em seu íntimo, o supervisor sabia que o desastre ainda era uma questão de tempo. Hora de mudar de assunto. Pegou o telefone e perguntou qual assunto tínhamos prontos para colocar na conversa. Aparentemente, a resposta não foi animadora, mas o neurônio não desanimou. “Não faz diferença se ele não lê o caderno de esportes desde domingo, futebol vai funcionar. Sempre funciona!”. Desligou o telefone e instruiu a todos que se sentassem e amarrassem seus cintos, pois tentaríamos uma mudança brusca de assunto. Vendo o medo nos olhos dos seus comandados, ele os acalmou, com segurança na voz, afirmando que já havíamos feito aquilo antes em situações piores. “Nós já fizemos isso uma vez numa briga com a namorada e conseguimos. Perto disso, o que vamos fazer hoje será como escorregar traquéia abaixo”. Ninguém entendeu direito o que ele quis dizer, mas a segurança que ele irradiava contagiou a todos. A sala, subitamente, passou a ser iluminada por luzes vermelhas e uma sirene começou a tocar. Na tela principal, apareceu o número 5, logo trocado por um 4. Os neurônios, apreensivos, observavam a contagem regressiva chegar até 1, quando o encarregado gritou “Acionar!”.

– Tem jogo hoje?, perguntei.

– Hoje, não, mas amanhã deve ter, é quarta-feira*. O que você está achando desse Paulistão?

As luzes voltaram ao normal e os neurônios, aliviados, começaram a aplaudir. Alguns se levantaram e começaram a se abraçar e dois deles foram até o encarregado. Faziam questão de apertar sua mão e lhe dar os parabéns. O telefone vermelho tocou e ele atendeu. Visivelmente embaraçado, não conseguiu disfarçar o sorriso e disse “obrigado, senhor, fiz o melhor que pude”.

Aos poucos, os neurônios foram guardando suas coisas e desligando as máquinas para ir embora. Mais uma crise havia sido superada. Alguns combinaram de continuar a comemoração no fígado (“é carnaval, deve ter bebida lá”) e o supervisor fez questão de acompanhá-los. Quando estava indo embora, reparou que um dos neurônios mais jovens, um ruivinho espinhudo, ainda estava sentado em sua estação de trabalho, mexendo no computador. Perguntou se o jovem não ia para casa e o rapaz, assustado com o fato de que haviam reparado nele ali, respondeu que “não, não, eu vou... hum... é... continuar uma pesquisa que estou fazendo aqui”.

“Que equipe maravilhosa”, pensou o supervisor, antes de ir embora.


* Apenas a título de ambientação, aviso que todo o post foi escrito na terça-feira de carnaval.

25 de fevereiro de 2009

Crise na Sala de Guerra - Parte I

Como eu deixei claro no post anterior, eu não entendo absolutamente nada de carnaval. E isso pode me colocar em situações difíceis nessa época do ano, já que todo brasileiro acha que todo brasileiro entende de carnaval – o que, se for verdade, me coloca na posição de “australiano passando férias no Brasil”. E, não, não é fácil manter uma conversa sobre esse assunto, como pretendo ilustrar no post abaixo.

Ontem eu fui até a Paulista e peguei um táxi para voltar para casa, por causa da chuva. Entrei no carro e expliquei que ia para Pinheiros. O taxista andou meio quarteirão em silêncio, até que soltou:

– E a Mocidade, hein?

Meu impulso foi responder que a mocidade não tem mais jeito, que essa geração é totalmente perdida, mas me contive. Alguns neurônios começaram a defender a idéia de que ele estava falando de carnaval. Fizeram uma reunião-relâmpago no meu cérebro e um dos neurônios conseguiu convencer os demais de que realmente o assunto era carnaval. A teoria foi provada quando mandaram o estagiário fuçar no arquivo morto do meu cérebro, onde ele descobriu indícios de que existe uma escola de samba com esse nome. Fizeram outro debate-relâmpago e chegaram a conclusão de que, na verdade, existem várias escolas de samba com esse nome, todas ligadas a palavras como Alegre, Feliz e Independente. Um dos neurônios mais idosos levantou a questão de que a expressão “Padre Miguel” estava ligada a uma dessas escolas. Mas não havia mais tempo para debate, o que deixou o neurônio enfurecido. Uma nova reunião foi marcada para esclarecer o assunto, mas foi decidido de que sim, o taxista estava falando sobre carnaval. Meus neurônios decidiram que o melhor seria ganhar tempo na conversa, e montar uma equipe de emergência que operaria diretamente da Sala de Guerra, até que a crise passasse.

– O que que tem?, respondi.

– Ganhou o carnaval.

Os neurônios se agitaram com a resposta. Um deles pegou um telefone vermelho, cuja linha é ligada diretamente ao escritório dos seus superiores, e balbuciou rapidamente um “o assunto realmente é carnaval, senhor!”. Os demais neurônios se dividiram, então, em três equipes: a primeira ficou encarregada de monitorar meus batimentos cardíacos e minha pressão arterial; a segunda teve como missão pesquisar tudo relacionado ao assunto, com prioridade para a apuração deste ano; o terceiro era formado pelo neurônio idoso, que ficou no meio da sala gritando que ele tinha razão, que ninguém ouvia ele e que a melhor saída era eu perguntar ao taxista se o nome Padre Miguel tem algo a ver com isso. O neurônio que havia falado no telefone chamou a segurança e pediu que o idoso fosse retirado da sala, e correu para o lado em que o grupo encarregado da pesquisa estava trabalhando, cada um em seu computador. Um dos neurônios mais jovens, com cabelos ruivos e o rosto coberto de espinhas, rapidamente fechou o site de pornografia que estava aberto em sua tela ao ver o supervisor se aproximando e abriu o Google, digitando “canarvl” de qualquer jeito, para fingir que estava procurando algo. Outro neurônio, aparentemente um pouco mais sério, levantou-se e explicou ao supervisor que não encontraram nada sobre o assunto, provavelmente porque ainda era muito recente. O máximo que haviam encontrado eram fotos do desfile e uma notícia sobre a dieta especial da Luma de Oliveira. O neurônio mais jovem fez uma anotação mental de procurar depois as fotos da Luma no desfile. Conversando rapidamente, os neurônios chegaram à conclusão de que a única saída seria usar o plano de contingência conhecido como “Nós apenas respondemos e deixamos a outra pessoa falar”. Foram correndo para o grupo que monitorava meus sinais vitais e, vendo que meus batimentos cardíacos estavam normais, decidiram seguir com o plano.

– Poxa, não estava sabendo.

– O resultado saiu agora, logo antes de você entrar no carro.

Senti um impulso enorme de perguntar se a expressão Padre Miguel tinha algo a ver com isso. Os neurônios perceberam isso e olharam ao redor. Aparentemente, o neurônio mais velho havia se livrado dos seguranças e voltado para a sala, onde estava em pé, mexendo em um dos computadores. Três neurônios pularam em sua direção e o jogaram no chão. Meus batimentos cardíacos aumentaram ligeiramente com a confusão. O neurônio cheio de espinhas, que continuava sentado em sua estação de trabalho, se assustou com o barulho e fechou a internet rapidamente, com medo de que alguém visse aquela mulata seminua na sua tela. O neurônio que comandava a operação exigiu que os seguranças encarcerassem o idoso em seu apartamento até que a crise passasse. Em seguida, pegou o telefone e pediu que liberassem um pouco de endorfina no meu cérebro, para trazer meus batimentos cardíacos de volta ao normal. Conforme minha pulsação abaixava, ele instruiu que a operação seguisse o plano anterior. “Deixem o taxista falar e não falem nada comprometedor!”, ele gritou.

– Mas foi merecido, certo?, eu disse.

O neurônio encarregado deu um soco na mesa e gritou um palavrão. Perguntar se foi merecido era um risco desnecessário, o taxista poderia acreditar que eu entendia do assunto. Este tipo de manobra só era aceitável em festas, quando a outra pessoa – que normalmente estava falando sobre esculturas ou bossa nova – estivesse bêbada o suficiente para não perceber o que eu havia dito. Mandou que todos ficassem em silêncio. O momento agora era decisivo. A conversa agora poderia mudar drasticamente, com o taxista entrando em assuntos como “ala das baianas”, “samba-enredo” e “desempenho da bateria”, o que levaria a situação para uma tragédia iminente e irreversível.

– Sim, o desfile deles foi sensacional. Gostei bastante, respondeu o taxista.

Todos os neurônios respiraram aliviados. Alguns aplaudiram, fazendo o neurônio espinhudo, que continuava do outro lado da sala, vendo algo na internet, e se virar para ver o que estava acontecendo. Foi quando o encarregado teve uma idéia. “Vamos deixar o Rob em silêncio. Liguem o modo de silêncio!”. Todos os neurônios olharam para ele. Um deles se levantou e disse que isso era mais arriscado ainda, pois o silêncio nunca funcionou direito. “O Rob sempre acaba falando algo, então é melhor que ele fale o que nós mandarmos”, gritou um deles.

(continua...)

26 de dezembro de 2008

Jim Morrison e o Maníaco do Táxi - Parte Final

(leia a parte II aqui)

Chegamos perto do Ibirapuera e o trânsito parou, por causa daquela porra daquela árvore de Natal cafona. O carro andando a 20km/h, todo mundo feliz, se abraçando, casais de mãos dadas sob a árvore, e eu ali, prestes a morrer. Eis que o esquecido por Deus do motorista, que estava em silêncio todo este tempo (sabe-se lá pensando em quê), vira e solta:

– É nos Estados Unidos ou em Paris que fica tudo iluminado no Natal?

– Oi?

– Onde eles enchem de luz no Natal? É em Paris? Ou nos Estados Unidos?

– Acho que é no mundo todo.

– Não, não é.

Ele me encarou novamente com aquele olhar que deixava claro que ele já havia decidido me matar, e estava apenas escolhendo como faria isso. Algo me disse que o termo “faca de pão” estava liderando as apostas, numa proporção de oito para um. Achei melhor fazer o jogo dele, pois, aparentemente, as luzinhas de natal o deixavam um pouco mais calmo.

– Ok. Tem razão. Acho que é Paris.

– Deve ser. Por causa da torre, né? Aquela torre é bem louca.

Ok. Como explicar que a torre não é louca, quem é louco é ele, mas sem ofendê-lo? Não, melhor ficar quieto e manter o foco na sobrevivência, e não na Torre Eiffel.

– É. Bem louca.

– É no Japão que eles não comemoram o Natal?

– Não sei.

– Acho que é lá. São os japoneses.

– Acho que sim.

– Japonês é tudo estranho.

Ah, sim, claro. E você é um exemplo de normalidade.

– Ou são os israelistas?, ele continuou.

– Os quem?

– Os israelistas.

– Ah, os israelit... Israelistas. Sim, sim. Podem ser eles também.

Ele ficou quieto novamente. Eu olhei para o céu, rezando para a Lua ter desaparecido atrás de uma nuvem, mas não: lá estava ela, altiva, brilhante, rindo da minha cara, afiando uma faca e com um guardanapo amarrado no pescoço. Passamos pela árvore de Natal, e ele em silêncio, alternando o olhar, agora, entre a Lua (45%), eu (45%), a árvore de Natal (9%) e os carros à frente dele (1%).

– É o ano novo!, ele gritou do nada, fazendo eu chegar perto de um infarto.

– Quê?

– É o ano novo dos israelistas que é diferente do nosso!

– Sim.

– Isso aí! Lembrei agora!

– É.

O fato de ter se lembrado disso, aparentemente, significou uma vitória pessoal para ele. Ele se debruçou na direção e deu uma gargalhada que parecia uma mistura de risada de vilão de desenho japonês e os guinchos de um porco sendo morto a pauladas. Desisti de pular do carro e correr para qualquer lado porque não sentia mais minhas pernas.

Entramos em Moema e começamos a nos aproximar da casa de espetinhos. Quando estávamos a algumas quadras, meu celular tocou novamente. Outra mensagem de texto. Para deixar claro a ele que eu não estava tentando me comunicar com a polícia, achei melhor explicar:

– É que eu estou atrasado, meus amigos estão preocupados comigo.

Jogada de mestre. Com isso, eu deixei claro que as pessoas saberiam onde eu estava, e que se algo acontecesse comigo, ele seria responsabilizado por isso. Na verdade, meus amigos estavam totalmente bêbados e mandando mensagens de texto associando o fato de eu estar atrasado com os hábitos sexuais da minha mãe, mas ele não precisava saber disso.

– Ah, você está atrasado?

– Sim.

– Então vamos chegar logo!

Eu não fazia idéia que um Gol 1000 conseguisse acelerar de 0 a 100 km/h em quatro segundos, mas foi isso que aconteceu. Ele parecia um cometa que havia chegado muito perto do planeta e se perdido dentro de Moema. Começou a costurar entre os carros, dar fechadas, buzinar, entrava derrapando nas curvas e ignorava todas as valetas possíveis – em uma delas, eu quase fui parar no banco de trás.

Pensei em pedir a ele para ir mais devagar, mas ele não me ouviria. Primeiro, porque ele estava sorrindo assustadoramente, e aparentemente, havia se esquecido de mim; segundo, porque ele o carro estava se movendo tão rápido que quando eu acabasse de falar “pode ir um pouco mais devagar?”, minha frase já teria ficado duas quadras para trás, correndo desesperadamente atrás do carro, e ele não ouviria nada.

Estávamos chegando perto da casa de espetinhos e ele mantinha a velocidade média de 80km/h (numa rua cujo limite é a metade disso). Timidamente, apontei para a frente e disse:

– É na próxima quadra.

Ele me ignorou e continuou na mesma velocidade. O sujeito parecia estar numa espécie de transe.

– Esse pedaço da cidade está bastante iluminado, você viu?, eu apontei para um prédio, na esperança de que as luzinhas de Natal fossem acalmá-lo novamente. Não deu certo.

Passamos pela última valeta – onde o carro quase decolou – e chegamos a poucos metros da casa de espetinhos.

– Chegamos. É logo ali.

E nada de diminuir a velocidade.

– Viu? É logo ali. Aquela casa à esquerda.

E nada de diminuir a velocidade.

– Eu vou aqui! Você está passando...

Ele deu um meio cavalo de pau e embicou na casa de espetinhos. Aliás, embicar é uma descrição educada do que aconteceu, já que ele quase entrou com carro e tudo no lugar. Tirei o cinto e me preparei para correr. O problema é que meu cérebro está acostumado a um certo padrão no final de uma corrida de táxi: o táxi pára, eu pago e vou embora. Como a corrida já estava paga desde a parte I desta saga, eu confesso que, agora que o carro estava parado, eu fiquei sem saber o que fazer.

– Bom... Já está pago, certo?

– Seus amigos estão putos com você por causa do atraso?

Na verdade, eu não sabia se nem eles estavam vivos, já que eu jurava ter visto alguém parecido com um deles ser atingido pelo carro antes dele parar. Mas, por um lado... Será que ele estava pensando em ir lá me defender dos meus amigos?

Interessante. Se eu conseguisse domesticar esse sujeito, eu teria o meu próprio psicopata. Qualquer pessoa que me contrariasse seria fatiada horas depois. Sim... Seria uma boa. Por outro lado, o que aconteceria comigo o dia em que eu me atrasasse para dar o almoço a ele? Porque se a Besta-fera faz represálias como rasgar o sofá ou destruir meu tênis, esse sujeito poderia resolver comer meu fígado. Literalmente. Não, melhor deixar para lá.

– Não, meus amigos estão tranqüilos, e já devem estar meio bêbados.

– É. Amigos são legais. Mas são foda também.

Não fiz idéia do que ele quis dizer com isso e achei melhor não ficar para descobrir. Saí do carro com as pernas tremendo e me despedi dele.

– Quando você quiser ir para a praia, já sabe, né?

– Sim.

– É só me procurar. 40 contos para ir, 40 contos para voltar.

– Dois casais.

– Isso aí!

Eu comecei a andar lentamente para trás, sem tirar os olhos dele. Claro que eu poderia entrar correndo na casa de espetinhos, mas algo me dizia que se eu fizesse isso, levaria uma flechada nas costas em questão de segundos.

– Bom... Eu vou entrar aqui. Tudo bem?

– Ok.

– Estão me esperando, sabe?

– Ok.

– É... Eu tenho mesmo que entrar. Tchau.

Ele deu ré, aumentou o volume do rádio e saiu cantando os pneus. Quer dizer, imagino que ele tenha cantado os pneus, mas não posso ter certeza, já que a única coisa que eu ouvi foi o Jim Morrison urrando “come on baby, light my fire”. Fiquei parado ali por alguns segundos, tentando me recompor e agradecendo a Deus por estar vivo.

Entrei na casa de espetinhos e, felizmente, meus amigos reconheceram minha cara de “não pergunte”. Apenas na metade do primeiro chopp que eu consegui me pronunciar, e fiz todos eles assinarem um guardanapo no qual estava escrito que, ano que vem, esse happy hour será feito numa noite sem Lua.

21 de dezembro de 2008

Jim Morrison e o Maníaco do Táxi - Parte II

(leia a primeira parte aqui)


Ele ficou em silêncio, por alguns segundos. Eu percebi que isso me deixava mais assustado do que quando ele estava falando. Começou a tocar (Break on Through) To Oher Side e eu comecei a ficar realmente preocupado com a possibilidade do sujeito se empolgar com a música, puxar qualquer objeto de metal do bolso e dar um break on through to the other side no meu olho.

Ou não.

Quem sabe tudo que eu tinha que fazer era ficar quieto e não tocar no assunto “praia”, e tudo acabaria bem. Talvez, com sorte, esta conversa já tivesse se perdido em algum lugar no labirinto que existia dentro daquela mente desequilibrada. O problema é que os conceitos “sorte” e “Rob Gordon” não costumam caminhar juntos. Ou seja, logo em seguida ele trouxe o assunto à tona.

– Você não gosta de praia?, e me encarou fixamente, como se estivesse me questionando sobre eu ter espalhado boatos a respeito da irmã dele pela vizinhança.

Engoli em seco e tentei responder da forma mais diplomática possível.

– Olha... Gosto. Acho bem legal. É que estão me esperando lá em Moema, eu já tinha marcado, sabe? Mas eu gosto mesmo de praia, viu?

– Não, não é hoje que você vai para a praia!, ele deu uma gargalhada que fez meu sangue gelar. Agora era oficial: eu não sabia se tinha mais medo quando ele estava em silêncio ou falando.

– É que se você quiser ir para a praia, eu alugo uma casa ali, ele continuou, depois de parar de rir.

– Ah.

– 40 paus para ir, 40 paus para voltar. E a casa é de graça.

De graça? Imagina o cafofo que deve ser.

– Ah.

– Se você quiser, é só falar comigo.

– Ok.

– Puta idéia, né? O pessoal paga só 80 contos e passa um fim de semana na praia. E eu levo e busco.

– Sim. Baita idéia.

– Mas só pode ser dois casais.

Pensei em perguntar a razão dos dois casais – afinal, a corrida deve custar 40 paus, independente do número de passageiros, já que a distância é a mesma – mas achei melhor ficar quieto, temendo que tivesse algo a ver com swing. Era só o que faltava: ele era um psicopata versátil, que, entre um ritual de magia negra aqui e mandar cartas escritas com sangue para a polícia ali, administrava uma casa de troca de casais na praia. E, para piorar, não seria das melhores, já que o preço era bem baixo e só admitia dois casais – o que, matematicamente, não permitia muitas combinações. Talvez fosse algo com um ambiente mais romântico e intimista, uma espécie de casinha de swing de sapê.

Meus pensamentos foram interrompidos pelo toque do meu celular, avisando que mais uma mensagem dos meus amigos havia chegado. Fingi que estava respondendo e usei isso como desculpa para ficar quieto.

Aparentemente, ele ficou satisfeito. Ou, ao menos, em silêncio.

Isso até ele entrar na Avenida Brasil e colocar meio corpo para fora do carro (sem diminuir a velocidade do automóvel), olhando alguma coisa no céu. Eu comecei a rezar baixinho. Quando ele entrou novamente no carro, estalou os olhos na minha direção e perguntou:

– Você viu a Lua hoje?

– Não.

– Olhe, ele respondeu. O tom de voz que ele usou condensava todas as ameaças de morte conhecidas em apenas quatro letras.

Eu olhei pela janela e vi que, realmente, a Lua estava linda. Mas óbvio que não dei muita atenção para isso, estava mais preocupado procurando uma viatura da polícia na rua. Ele continuou:

– A Lua, quando está cheia assim, me deixa louco.

(Neste momento, o pedaço do meu cérebro que ainda insistia em acreditar que nada demais aconteceria comigo e que essa história iria parar no meu blog alguns dias depois, percebeu a gravidade da situação, gritou “Meu Deus! Nós vamos morrer!” e saiu correndo para se esconder dentro de um armário.)

Bom, é isso, pensei. Eu vou ser morto em questão de minutos. Não há muito o que fazer. Merda de Lua. Logo, vai começar a tocar The End, ele vai puxar uma furadeira e enfiar no meu ouvido, e depois vai sair dirigindo pela cidade, todo sujo de sangue e com o meu cadáver ao lado, ouvindo People Are Strange no máximo.

– A Lua me deixa louco, ele repetiu.

– ...

– Adoro a Lua. Me deixa louco.

– Ah.

Comecei a elaborar um plano de fuga. Como eu estava a 3 quadras da igreja Nossa Senhora do Brasil, e o sinal ali está sempre fechado, eu teria tempo para abrir a porta do carro e sair correndo, procurando abrigo na igreja – talvez sob o altar ou na sacristia. Respirei fundo e me preparei. Coloquei a mão no bolso, me certifiquei de que a carteira estava firme, a chave de casa também, e comecei a me preparar psicologicamente para o sprint da salvação. O carro foi avançando, e ele alternando o olhar entre a Lua (45%), eu (45%) e os carros à frente dele (10%).

Mais alguns segundos, e eu estaria livre disso.

Ou não, já que como eu sou eu, o semáforo à frente da Igreja estava verde pela primeira vez na história do município. Aposto que os jornais noticiaram isso no dia seguinte. Todo meu plano de fuga foi por água abaixo. Jim Morrison começou a cantar Love me Two Times e ele aumentou o som do carro. Minha única alternativa, agora, esperar alguns minutos, sair correndo do carro e pular para dentro do Parque Ibirapuera. Mas descartei a idéia na mesma hora, porque se eu pulasse para dentro do parque depois das 8 da noite, o máximo que eu conseguiria seria sair dali sem carteira, sem relógio, sem celular e grávido.

Resignado, respirei fundo e resolvi aceitar meu destino.

(continua...)

17 de dezembro de 2008

Jim Morrison e o Maníaco do Táxi - Parte I

Na sexta-feira passada, aconteceu o happy hour de final de ano com meus amigos da faculdade. Isso é algo que certamente seria uma tradição anual, se não fosse tão difícil reunir todos nós. E olhe que não estou falando de 35 pessoas, mas sim de meia dúzia. Mas também não é de se espantar, já que era difícil conseguirmos nos reunir até mesmo na faculdade, pois estabelecemos um sistema de rodízio de faltas que permitia a todos do grupo “cabular assiduamente”.

Mas todos ano nós tentamos, e quando tentamos reunir pelo menos 50% do grupo (ou seja, três pessoas), nos damos por satisfeitos. E, na sexta-feira passada, após uma extensa troca de e-mails, fechamos o local: uma casa de espetinhos em Moema, as 22:00. O problema é que devido aos meus horários de travesti (quem mandou não estudar e ser jornalista mode: on), consegui sair do trabalho só à meia-noite, e fui correndo para o ponto de táxi ao lado da redação.

Vazio.

Fiquei parado ali feito um imbecil, esperando algum táxi aparecer, enquanto recebia demonstrações de carinho e apoio dos meus amigos por sms (coisas como “cadê você, caralho?”). Felizmente, menos de cinco minutos depois, um táxi passou na rua. Fiz sinal, ele parou e entrei.

Eu deveria ter desconfiado que não tinha sido uma boa idéia quando percebi que o sujeito não era apenas parecido, mas exatamente igual ao louquinho do Prison Break. E nem tanto por causa da barba ou do cabelo, mas sim por causa do olhar estalado e homicida. Bom, paciência, não é culpa dele, pensei. O cara nasceu assim. Vamos em frente.

Disse a ele que iria para Moema, mas ele não ouviu. Na verdade, nem eu ouvi o que havia dito, porque o rádio dele estava no volume máximo, tocando The Doors. Como ele percebeu que eu e o Jim Morrison estávamos falando ao mesmo tempo, ele abaixou o volume (mas não muito, foi do 30 para o 27) e eu disse novamente que ia para Moema.

O carro começou a andar.

Aproveitando que a música estava num momento mais calmo, só com baixo e bateria, avisei que não tinha dinheiro e perguntei se poderia pagar em cheque.

A estranheza da noite começou ali mesmo.

– Você tem cartão?, ele gritou

– Tenho. Mas você aceita cartão?, berrei de volta.

– Não, eu aceito gasolina.

– Quê?

– Gasolina!

– Abaixa o rádio!

– Você não gosta de Doors? É bem louco!

– Abaixa o rádio!

Ele abaixou (para o 22). Achei melhor recomeçar tudo de novo. Perguntei se podia pagar em cheque, e ele respondeu:

– Eu aceito gasolina. Coloca gasolina no meu carro e eu te levo para Moema.

Bom, Ok. Faz sentido.

Encostamos num posto, ele colocou 30 reais de gasolina, eu paguei e fomos. Assim que saímos de Pinheiros, ele começou a se vangloriar do seu modelo revolucionário de negócio.

– Muito bom, isso, né? Eu coloco gasolina no carro e você chega onde quiser.

A idéia não era tão genial assim, mas, como ele ficava me encarando com aquele olhar vidrado e levemente homicida, achei melhor não discordar.

– É. É uma boa idéia sim.

– Só eu faço isso.

– Ok.

– E é uma puta idéia, não é?

– É. É uma puta idéia. Você vai pela Brasil?, tentei desconversar.

– Você gosta de The Doors?

– Sim. Você vai pela Brasil?

– Eu acho muito louco. O jeito que os caras tocam a guitarra.... Não parece que eles estão dando uma com a guitarra?

– Sim. Você vai pela Brasil?

– Acho que sim. Você quer ir para a praia?

– Sim. Você vai pela... Espera, eu quero ir para onde?

– Para a praia.

Não tive como permanecer impassível. Olhei para ele e ele estava me encarando fixamente. Comecei a perceber que eu estava correndo risco de vida dentro do carro – e não porque ele estava dirigindo pelo corredor de ônibus da Rebouças sem olhar para a frente, mas porque se existisse uma escola de psicopatas, ele certamente seria o primeiro da classe. Olhei ao redor, procurando por um machado, um facão, uma foice, ou qualquer coisa que ele poderia usar como arma caso eu respondesse algo que ele não gostasse. Não vi nada, então fiquei um pouco mais tranqüilo e fui sincero.

– Não, eu quero ir para Moema.

– Ah, tá.

Espera, como assim, “ah tá?” Ele estava indo para a praia?

(Continua...)

11 de abril de 2007

O Último dos Moicanos - Final Alternativo

No dia seguinte à peleja entre Johnny e a gangue dos suspensórios, precisei pegar um táxi, na hora do almoço, e calhou de eu encontrar um carro somente na frente do (já lendário) Pão de Açúcar. Entrei no carro, e, assim que o motorista começou a subir a Teodoro, puxei papo com ele.


– O senhor viu o pau que deu aqui no mercado ontem?

– Vi, eu estava aqui na porta. Que coisa, hein, rapaz?

– É, foi feio.

– Mas aquele menino dos cabelos espetados é valente! Como é o nome daquilo, mesmo? Funk?

– Não. Punk.

– Ah é, tem razão. Funk.

– Não, não. Punk. Com “P”.

– Ah, sim. Verdade. Eu já vi isso na TV, a Globo sempre mostra esses funks aí. Esses caras são um perigo. Lá no Rio que tem muito disso, né? Parece que lá tem até baile disso.

Fui em silêncio o resto do caminho. Ou seja: o cara, além de apanhar e virar astro do meu blog, ainda passou a ser chamado de funkeiro entre os taxistas de Pinheiros.

Chupa, Johnny! Definitivamente, chupa.

21 de agosto de 2006

Portês para Principiantes

Talvez por ter morado em casa durante a vida inteira (moro em prédio faz só uns 4 meses) eu não falo absolutamente nada de portês. Portês, como diria um amigo, é o idioma dos porteiros - mas existem outros dialetos e regionalismos, praticado por taxistas e alguns garçons. Enfim, se houver um correspondente a "the book is on the table" em portês, eu não sei qual é. Não falo nada, mesmo. E isso tem me colocado em algumas situações, digamos, constragedoras.

Tem um ponto de táxi do lado do trabalho e a maioria dos taxistas de lá é bilíngue, falam tanto português como portês. Mas um deles, mais velho e purista, fala apenas portês. Arcaico. Ok, adivinha qual taxista eu pego em 50% das vezes?

– Oi, tudo bem? Eu preciso ir pra Paulista, perto da Brigadeiro.

– Cequerquesubaareboçasouatodoro?

– Hã?

– Atodoronumseicomotamaeuvimagorinhanareboçastatravada.

– Olha, Paulista com...

–Manatodorostiveparadagentepegaocorredodonibussaoraelivre.

– .... Brigadeiro

– Tãookvamopelareboçasnãotempobrema.

– É... Ok... Acho.


Me sinto como qualquer personagem de Snatch conversando com o Brad Pitt. E o pior é que ele insiste em conversar pelo caminho. O cara é gente boa, eu tento não ser grosso, mas é foda manter o auto-controle.

– Aicejadecidiuniquemvota?

– Hum?

– Leção.

– Leção?

– Leçãofinaldano.

– Dano? Que dano?

– Nufinaldanovaiteleção.

– Final dano? Ah, eleição!!!

– Leção.

– Não, não sei ainda.

E aí, claro, eu faço a cagada e pergunto:

– E o senhor?

– Numseindarapa. Nameiraveisvoteinopetemaisrecequenumfununciotaoto

– É...

– Sandonoauquimimastemsaloisalenaquemilaram

– Hum.... É... Que coisa, né? Tem razão.

– Queboamasrecequelaramquiulalevanomeiroturn.

– Tem razão.

– Atodorotáradaindabemquemosnareboças.

– Talvez eu vote nele também, nao sei ainda.

E por ai vai. De Pinheiros a Paulista, eu vou concordando. O cara pode estar xingando a minha mãe ou falando que vai me assaltar, fatiar meu corpo e jogar num matagal qualquer e eu ali, todo sorriso, "Sim, sim, claro". Foda.

Pelo menos, no meu prédio, os porteiros tiveram um curso básico de português, mas eles ainda se atrapalham um pouco com as classes gramaticais. E às vezes eles ainda falam trechos da frase em portês.

– Tregadotorantesaria.

– Oi?

– Entrega... do... restôrante-pissaria.

– Restaurante pizzaria?

– Isso. O rapaz do restôrante-pissaria.

– OK, tô descendo.

E assim, vamos levando... Ou "moevando", como diria o taxista aqui do lado.

O que me deixa curioso é que se você for para o interior do Maranhão e falar com qualquer pessoa que encontrar, você vai entender. OK, tem sotaque, palavras que você não conhece, mas ainda assim é português. Ou seja, não é preconceito da minha parte, antes que me acusem disso. Mas, just in case, eu queria dar uma olhada no estatuto dos porteiros, taxistas e demais profissões que exigem, por normas sindicais, o portês fluente, só para saber a justificativa disso.

5 Idiomas Falados em São Paulo (mais fáceis de aprender que o portês)
1. Adolescentês – qualquer coisa que você diga, ele responde "se pá, bem lôco!"
2. Surfistês – eles não sabem usar consoantes. De que outra forma se explica a frase: "Iiii, ó o auê aí!?
3. Standcentelês - À plimeila vista, palece ser uma coluptela de coleano. Mas, como eles aceitam cartão de "clédito", é só falar "vou levar" e dar o cartão que eles entendem.
4. Porteirodeboatês - Esse é mais complicado. Você passa na calçada e ele vem falar com você. Você entende tudo, mas, mesmo assim, 4 minutos depois, você está lá dentro, tomando o seguindo uísque e esperando as "tais das garotas novas que chegaram do Sul" aparecem.
5. Guardador de Carro - É o mais fácil de todos. A única coisa que você entende é "real". E ele não quer que você entenda outra coisa.