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27 de dezembro de 2016

A Princesa que Corria por Trás dos Carros

Quando eu criança, nós brincávamos de Guerra nas Estrelas. Sim, porque no começo dos anos 80, o nome era esse: Guerra nas Estrelas. Então, sorteávamos os papeis. Alguém era o Luke Skywalker e empunhava um sabre de luz feito com um cabo de vassoura; outro era o Han Solo, com uma pistola de plástico; o resto era o pessoal do Império (não tínhamos uma turma grande o suficiente para escalarmos wookies e robôs).

Normalmente, o objetivo da brincadeira era resgatar a Princesa Leia, que estava presa em alguma garagem transformada em Detenção da Estrela da Morte. Então, Luke e Han derrotavam os soldados imperiais e salvavam a princesa.

Fim da história? Não.

Pois aí chegava o momento de tentar alcançar a nave espacial para fugirmos de verdade. A tarefa não era fácil: a nave era o carro do pai de alguém que ficava em outra garagem, do outro lado da rua e algumas casas abaixo. E todos os soldados do Império já estavam em pé novamente.

Mas, dessa vez, os rebeldes eram três, pois a Princesa também estava armada e lutava de igual para igual com os meninos ao seu lado – muitas vezes, liderando o caminho; em outras, se aventurando sozinha por uma rota alternativa (que normalmente ficava atrás dos carros estacionados). Não era difícil ela derrubar mais inimigos que seus parceiros.

E a história sempre acabava bem. A nave entrava no hiperespaço e todos iam para suas casas, tomar banho e jantar.

Acho que posso dizer que eu não cresci com esses filmes, mas sim que eles me ajudaram a crescer. Quem me conhece, sabe que esses filmes me acompanharam pela vida inteira. Não só os filmes, mas os livros, os jogos, os quadrinhos. Outros universos surgiram, mas este – especialmente aquele, dos três primeiros filmes – sempre esteve ao meu lado. Ao lado dos meus pais. Ao lado do meu irmão. Ao lado da minha Esposa. A Força sempre foi forte na minha família.

De garoto apaixonado pela Princesa – e qual garoto dos anos 80 não foi apaixonado por essa Princesa? – e que sonhava em destruir a Estrela da Morte, me tornei um adulto que entende melhor o significado da Princesa, de sua luta e do Império. Quando comecei a entender melhor os personagens – e as transformações pelas quais eles passavam – os filmes se tornaram mais ricos. E à frente dessas transformações estava a Princesa.

Quando Luke Skywalker ainda estava preso na casa dos tios, ela lutava. Quando Han Solo ainda estava preocupado apenas consigo mesmo, ela lutava. É ela que move todas as engrenagens. É ela quem move as peças de forma que o fazendeiro vire guerreiro e que o contrabandista se transforme em herói.

Isso se reforça no filme novo. Quando o guerreiro se exilou, ela continuou lutando. Quando o herói voltou a ser bandido, ela continuou lutando. Tanto nos anos 70 ou agora, no século 21, sempre que a luta daquele pequeno grupo de guerreiros começava a ser perdida era ela quem mantinha o ideal vivo. Como Princesa, como Senadora, como General, era ela quem carregava o piano.

Ela lutou muito nos bastidores. Mas lutou ainda mais em primeiro plano. Foi caçada implacavelmente pelo maior vilão da galáxia e não esmoreceu ao ver seu planeta explodir. Transformada em objeto sexual pelo gangster mais temido da galáxia, não esperou pelo resgate, mas por uma única chance de mostrar que não se curvava a ninguém – e demonstrou isso o matando com suas próprias mãos.

Ela deixou uma marca enorme em uma galáxia muito, muito distante.

Hoje, essa galáxia está um pouco mais silenciosa. Mas, em alguma rua da minha infância, ela ainda está lá, correndo por trás dos carros estacionados junto com o contrabandista, ou se aventurando corajosamente pelo meio da rua, ao lado do Jedi. Abrindo caminho no meio de meninos que fingiam ser soldados do império. Disparando com sua pistola de plástico. Não desistindo nunca.

E mostrando, a cada passo, que a esperança é uma arma mais poderosa que uma estação espacial que destrói planetas inteiros.

Estamos falando de uma princesa que lutou até o final.

Estamos falando de uma princesa que, na minha infância, lutará para sempre. 

15 de agosto de 2016

O Capacetiano e a Fenda Temporal

Eu confesso que dei risada a primeira vez em que vi um daqueles cartazes dizendo que “é proibido entrar com capacete” que às vezes a gente vê em lojas e padarias. Sim, eu sei que isso é para evitar assaltos, mas não posso negar que acho uma determinação engraçada – talvez porque a ideia de uma pessoa ficar andando a pé com um capacete na cabeça soa meio... Não sei. Desenho animado.

Mas, enfim... Outro dia eu descobri que talvez esses cartazes sejam colocados por outro motivo diferente de assaltos. Vocês já tentaram conversar com alguém que está usando um capacete? É virtualmente impossível, e eu não fazia ideia disso até pedir uma pizza na semana passada.

Antes de continuar, eu preciso falar um pouco sobre a máquina de débito dessa pizzaria. Todas as comidas que pedimos aqui em casa são pagas no débito, então os entregadores trazem sua maquininha. Eles dão boa noite, eu entrego o cartão, eles me dão a maquininha, eu digito a senha, a operação é aprovada, eu pego a comida e pronto, todos ficam felizes.

Menos com essa pizzaria. A pizza deles é muito boa, mas o problema é que a máquina de débito deles não parece acompanhar esse padrão de qualidade. Ela deve ter um processador usado nos anos 80 e sua conexão deve ser feita com alguma antena que fica na região Centro-Oeste do país. Então, normalmente eu peço a pizza para jantar e só consigo entrar em casa com a minha pizza quando as pessoas já estão no dia seguinte, decidindo o que irão almoçar.

Acabou de me ocorrer aqui de que talvez eu não esteja pedindo pizzas, mas sim fendas no tecido do espaço-tempo. Aliás, posso até fazer um experimento e pedir pizza todas as noites durante cinco anos, para verificar se, depois desse tempo, eu envelheci na mesma proporção que meus vizinhos ou se eu experimentei outra velocidade temporal.

Mas, enfim... Sexta-passada nós pedimos uma pizza e, depois de uns trinta minutos a pizza chegou. Abri a porta e fui até o portão, onde o H. G. Wells que entrega pizzas ali estava me esperando com sua maquininha do tempo que faz pagamentos.

E, claro, usando seu capacete, que aparentemente funciona como um tradutor universal invertido: tudo o que ele fala se torna um idioma alienígena. Mas eu o cumprimentei normalmente.

– Boa noite.

– Mné.

– Oi?

– Ba-mné.

– Hã... Ok. Qual o valor?

– Trotoenta.

– Quanto?

– Troto...

– Olha, eu não estou...

–... Enta.

– Eu realmente não estou conseguindo...

Aparentemente, no planeta onde ele vive as pessoas estão mais acostumadas com esse tipo de situação, então o sujeito apenas me entregou a nota fiscal. Bati os olhos e descobri que trotoenta era trinta e oito e sessenta. Para você que está lendo isso pode parecer óbvio, mas não era, acredite. Dei de ombros e entreguei o cartão para ele.

– Ébi? Édi?

Respirei fundo, tentando lembrar se eu não tinha dinheiro na carteira, mas achei que não.

– Eu não entendi a sua perg...

– Ébi ou Édi?

– Eu tenho que escolher um dos dois, é isso?

– Ébi. Édi.

Ele apontou para a máquina e eu finalmente entendi. “Ébi” significava “débito” e “édi”, por sua, vez, “crédito”. Aparentemente, o capacetiano é um idioma com as palavras que têm variações muito sutis na sua pronúncia.

– Hã... Ébi.

Ele pegou meu cartão e colocou na maquininha. Agora sim estávamos chegando a algum lugar! Eu ainda estava aliviado quando ele me entregou a maquininha. E foi só a hora que eu peguei o objeto e me preparei para digitar a senha que me lembrei do poder destruidor que aquele aparelho tem no fluxo temporal. Ao invés de pedir minha senha, a máquina exibia apenas a palavra:


REGISTRANDO


Fiquei olhando para a máquina durante uns dez ou quinze segundos, mas a mensagem não se alterava. O embaixador do planeta Capacete Prime começou a ficar impaciente.

– Sanha?

– Oi?

– Sanha?

– Senha?

– Sanha!

Olhei para a máquina novamente.


REGISTRANDO


– Olhe, não está pedindo minha senha. Aqui diz que ainda está registrando.

– Cisassanha!

– Desculpe, eu não estou entendendo...

– Sanha! Cisassanha!

– Olhe, eu fiz faculdade de comunicação. Eu sei que faz tempo que eu me formei, mas tenho certeza que seus fonemas não estão se encaixando direito. Eu só posso fazer o que você quer se eu entender o que...

– Sanha! Sanha! Cisassanha!

– Talvez se você tirasse seu capacete? Porque eu acredito que a atmosfera aqui é respirável.

Ele olhou para a máquina e eu também.


TENTANDO CONEXÃO


– Viu? Ela está dizendo que ainda não é o momento da senha.

O capacetiano, impaciente, arrancou a máquina da minha mão e puxou meu cartão. Eu tentei dizer que isso só faria tudo demorar ainda mais, mas já era tarde. Ele já estava começando a toda a operação novamente.

– Ébi? Édi?

– Ébi. Eu acho.

Fez tudo isso e me entregou a maquininha. Olhei para os lados pensando que meus vizinhos deviam estar assistindo ao Jornal da Globo, enquanto eu ainda estava no horário do Jornal Nacional.


REGISTRANDO


– Sanha?

– Ainda está registrando.

– Sanha.

– Não. Ela precisa pedir a senha para eu colocar a senha. Todas as civilizações que usam o débito automático funcionam sob essa lei.

– Sassanha saissa.

– Como?

– Sassanha saissa.

– Sem senha?

– Sassanha saissa.

– Sem senha, sem pizza?

– Saissa.

– Olhe, eu não quero roubar sua pizza. Mas eu preciso esperar a máquina pedir a senha. E ela ainda não está pedindo, está vendo?


TENTANDO CONEXÃO


– Sassanha.

– Isso. Sem pedido de senha, sassanha. Quer dizer, sem senha. Entendeu?

– Bema tema.

– Como é que é?

– Tema.

– Não, você disse algo antes do tema. Pareciam duas palavras.

– Bema.

– Vem cá, você realmente não quer tirar esse capacete?

– Bema. Tema.

– Hum... Darmok e Jalad... Em Tanagra? (Star Trek: A Nova Geração mode: on)

– BEMA! TEMA!

– Eu não faço ideia do que você quer! A máquina ainda está tentando fazer algo! Olhe aqui!


REGISTRANDO


A paciência do capacetiano estava perto do fim. Ele gritou algumas palavras incompreensíveis e tentou puxar a máquina da minha mão. Mas desta vez eu resisti e não entreguei o aparelho.

– Não! Você não vai tirar meu cartão daqui!

– BEMA! TEMA!

– Não me importa! Se você tirar seu cartão daqui, a gente vai começar tudo de novo! E eu tenho planos de comer minha pizza e envelhecer como as outras pessoas da minha espécie! Eu não vou ficar preso aqui nesse limbo!

– BEMA!

– Não! Sinta-se livre para voltar para seu povo com a sua pizza, se você quiser! Mas você não vai tirar meu cartão dessa máquina.

– BEMA! TEMA!

Ele disse isso e desistiu de puxar a máquina, fazendo um gesto que poderia ser interpretado em qualquer lugar da galáxia como “você que se foda” (ou talvez ele estivesse sugerindo onde eu poderia enfiar a máquina, com cartão e tudo). Mas eu resisti e voltei a usar a diplomacia.

– Olhe, eu não sei como você fazem em Capacete Prime ou qualquer que seja o nome do planeta que você veio, mas nós precisamos trabalhar juntos para resolver esse problema.

– BEMA! TEMA!

– MAS EU PRECISO QUE VOCÊ TIRE ESSE CAPACETE E FALE COMO UMA PESSOA NORMAL!

– Tema.


HAHAHAHAHAHAHA


– Espere! Você viu isso?

– Vique?

– Sua máquina! Sua máquina está rindo de mim! Olhe aqui!

– Bema.

– Ela já tinha feito isso com outra pessoa?

– Bema. Tema.

– Isso é importante para você, certo? O lance do bema e tema?

– Bema.

– O que é bema? Por favor, me dá algo para eu poder trabalhar aqui? Uma imagem, um desenho, qualquer coisa.

Ele apontou para a máquina.

– Bema.

– Bema... Bema... Problema? É isso? Problema?

– Bema!

– Problema tema... No Sistema! Problema no sistema!

– Bema! Bema tema!


HAHAHAHAHAHAHA

VOCÊ É BABACA DEMAIS!



– Bom, sua máquina acabou de me chamar de babaca. Mas acho melhor eu confiar na sua palavra. Deve ser bema tema. Espero que seja.

– Bema tema.

Olhei para o lado e vi uma senhora de idade saindo da casa ao lado e me deu boa noite. Não tive certeza, mas ela se parecia bastante com a minha vizinha que, até aquela tarde, devia ter a mesma idade que eu. Talvez um pouco mais nova.

Quanto tempo já havia se passado?

– SANHA!

O capacetiano estava dando pulos e apontando para a máquina. Olhei para a pequena tela.


OLHA, VOU SER GENEROSA
E DEIXAR VOCÊ COMER.

SENHA:



Eu ignorei a primeira frase e apenas digitei minha senha. Poucos segundos depois, ela cuspiu o papel comprovando a transação.

– Cepéf?

– Oi?

– Cepéf?

– Se eu quero CPF na nota?

– Cepéf.

– Não. Nem fudendo. Me dá só dá a pizza.

– Issa. Ba-mné.

Finalmente entendi que o ba-mné devia ser boa noite. Mas apenas apanhei a pizza e me despedi rapidamente, voltando para dentro de casa.

E eu estava sozinho. Não havia mais ninguém em casa. Minha sala parecia ser como eu me lembrava, mas completamente deserta. Provavelmente, todas as pessoas que eu conheci estavam mortas há décadas.

Eu havia me tornado uma criatura deslocada no tempo. Em breve, eu seria detectado por cientistas que encontrariam em mim um objeto arqueológico inestimável. Passaria o resto da vida carregando minha caixa de pizza e sendo exibido em museus e exposições. Ficaria ali, parado, ouvindo as pessoas comentando coisas como “todo mundo era pequeno assim por volta do século 21?”, “como eles eram atrasados, eles ainda não sabiam lidar com a calvície naquela época!” e “papai, posso tirar um holograma ao lado do homem do passado?”.

– Você demorou!

Era minha Esposa! Ela estava na cozinha! E ela... Bem, ela parecia ser ela mesma!

– Quanto tempo eu fiquei fora?

– Bastante! Eu estava quase saindo para ver se tinha acontecido alguma coisa.

– Que dia é hoje?

– Como assim? É sexta-feira.

– Não! O ano! Que ano estamos?

– Você enlouqueceu?

– QUE ANO ESTAMOS?

– 2016. Mas porque você demorou tanto?

– Nada. Não quero falar sobre isso. As Olimpíadas já acabaram?

– Claro que não.

– Certo. Vamos comer a pizza e ver um pouco das Olimpíadas. Só isso.

– Não quer ver alguma série de ficção científica?

– De jeito nenhum. Eu vou pegar a Coca.

No dia seguinte, coloquei um aviso ao lado da campainha dizendo que pessoas com capacete são proibidas de tocar a campainha de casa.

Quando me perguntam por que fiz isso, digo que é porque tenho medo de assalto.

7 de agosto de 2016

Desodorante Gourmet para Axilas Refinadas

Dia desses fomos até a farmácia, porque precisávamos comprar várias coisas. Pedimos os remédios que precisávamos no balcão e depois saímos pelos corredores pegando os outros produtos.

Prometia ser uma visita normal à farmácia. E tudo estava acontecendo como planejado até a hora que paramos em frente à prateleira de desodorantes.

Se você fizer uma lista das cinco atividades mais difíceis do mundo moderno, “comprar desodorante masculino” teria lugar cativo na lista. Pelo menos, no meu mundo moderno. E eu vou explicar aqui como surgiu o meu drama.

Eu sempre gostei daqueles desodorantes à moda antiga, que espirram um jato composto de 99% de álcool e 1% de qualquer aroma artificial. E sim, isso por causa do álcool – desde a adolescência, um dos meus maiores prazeres era espirrar desodorante no peito e me sentar na frente do ventilador.

Mas, de uns anos para cá, os desodorantes desse tipo iniciaram um tipo de competição, onde cada marca disputa para ver qual apresenta o produto mais vagabundo. Se a embalagem é boa, o perfume é vagabundo. Se o perfume é gostoso, a embalagem é vagabunda. Se o perfume e a embalagem são bons, o desodorante é três vezes menor que os outros e custa cinco vezes mais. Se o perfume é gostoso, a embalagem é boa e o preço é justo, os efeitos do desodorante duram entre oito e onze minutos.

Então, de um tempo para cá, eu tenho experimentado novos tipos de desodorante. Isso não quer dizer que estou usando desodorante artesanal, e por dois motivos. Primeiro, até onde eu sei isso ainda não existe; segundo, o dia que inventarem isso quem vai usar serão aquelas pessoas com coque no cabelo que enchem o celular de músicas alternativas insossas que “cara, essa música toca muito no meio do coração”.

Não, nada disso. Prefiro que meu desodorante tenha um código de barras na embalagem mesmo. Só que, como eu disse, estou experimentando novos tipos de desodorante. O primeiro que experimentei foi um que era um spray, mas o nome tinha a palavra seco. Não lembro ao certo, era Alguma-Coisa-Seco.

Quando eu comprei, achei que aquilo era um erro de conceito. Como um spray que espirra algo líquido pode ser seco? Mas, comprei e experimentei.

E me arrependi na primeira aplicação. Porque ele não espirra um líquido, mas sim uma espécie de... Não sei, não é um pó. É como se fosse um novo estado da matéria, que não é líquido nem sólido nem gasoso e que deixa a pele com uma mancha completamente branca.

Não é exagero. Na primeira vez que usei, levantei o braço e me senti como se estivesse virando os farelos do saco de biscoito de polvilho em cima de mim. O cheiro? Acho que não era ruim, mas não tenho certeza, porque a cada vez que eu passava o desodorante o pó-que-não-é-pó-mas-também-não-é-líquido-e-não-chega-a-ser-gás se espalhava pelo banheiro e grudava na minha garganta, e eu tinha que sair correndo dali.

E não, o problema não era comigo, porque bastava eu colocar as mãos no desodorante e todos os gatos da casa desapareciam.

(Acabou de me ocorrer aqui que talvez o nome do desodorante seja Bomba de Efeito Moral – Seco, mas não tenho certeza).

Desisti disso e experimentei um desodorante roll on, que usa o mesmo princípio de todos os filmes pornográficos dos anos 80. Isso porque ao invés de espirrar o desodorante, você agarra o tubo com força e desliza com sua ponta arredondada e gosmenta suavemente pelo corpo – morder os lábios, virar os olhinhos e deixar um solo de guitarra tocando de fundo é opcional, mas pode enriquecer ainda mais a cena (mas deslizar a coisa pelo rosto deve ser apenas para os mais corajosos).

Na minha casa, essa transformação em Cicciolina funcionou nos primeiros dias, até o gato derrubar o maldito desodorante e quebrar a embalagem. Então, meu desodorante não ficava mais gosmento, mas encharcado e cada vez que eu saía do banho e passava o negócio, tinha a sensação de que havia caído em uma piscina de ectoplasma, e praticamente tinha que tomar outro banho.

Mas vamos voltar à farmácia. Olhando os desodorantes na prateleira, eu estava completamente decidido a resolver esse problema de uma vez por todas. Então comecei a olhar as embalagens spray procurando por alguma que parecesse funcionar direito e que tivesse um perfume aceitável.

Bem, todas pareciam funcionar direito. Quanto ao perfume... Acho que um dos maiores mistérios hoje é descobrir o odor de cada desodorante. Porque eles ficam lacrados, então você não pode abrir e espirrar na mão para experimentar. Assim, tudo o que você tem é o nome.

E o nome nunca é o perfume. Vamos pegar, por exemplo, um desodorante com perfume de menta (sim, eu sei que provavelmente isso não existe, mas vamos de menta mesmo, apenas como exemplo). Ele não vai se chamar Marca X – Menta, e sim Marca X – Correndo pelos Alpes no Sábado de Manhã.

Esses são os nomes dos desodorantes hoje. Momentos Inesquecíveis ao Lado dos Amigos. Passeio Romântico pelos Bairros Históricos. Dia a Dia Repleto de Conquistas e Vitórias. Exposição de Arte Seguida por um Capuccino com Pouco Açúcar. Regata no Mediterrâneo – Versão Competitiva.

Assim, eu fiquei olhando para os desodorantes como um tupi-guarani observando as primeiras caravelas portuguesas aparecerem no horizonte, com aquela sensação de que “eu não entendo o que é isso” mesclada com “isso marca o início do fim do meu tempo nessa Terra”, sem saber o que fazer. Até que vi as latas da Old Spice – que são muito mais bonitas que as outras.

A Esposa, ao meu lado, achou essas latas ao mesmo tempo e começou a olhar. Os nomes eram mais simples, mas também não queriam dizer muita coisa. Pegador. Matador. Zagueiro. Articulador. Guitarrista. Uma delas estava em destaque e a Esposa pegou.

– Olhe esse. Lenha.

– Oi?

– É o nome do desodorante. Lenha.

– Como assim, lenha?

– Provavelmente você vai ficar com cheiro de lenhador.

– Em primeiro lugar, lenhadores não existem a não ser nos jogos de estratégia. Se eu fosse um bonequinho de Age of Empires, eu usaria um desodorante chamado lenha. Aliás, eu não usaria, porque aí eu seria um lenhador e já teria cheiro de lenha.

– Ele é mais caro que os outros.

– Agora, se eu fosse outra coisa dentro do Age of Empires, um caçador ou fazendeiros, talvez eu usasse o Lenha para as pessoas acharem que eu sou lenhador. Porque se eu fosse um fazendeiro, jamais usaria o Desodorante Hortaliças. Usaria o Lenha.

– Será que ele é melhor que os outros?

– Isso, claro se eu não fosse o pescador. Se eu fosse o pescador, usaria qualquer um. Porque imagine aquela vila de Age of Empires. Ela já não é grande, todo mundo deve se conhecer ali. Então você ficar com cheiro de peixe todo dia... Todo mundo deve ficar comentando. Até os soldados.

– Do que você está falando?

– Nada. Estava apenas pensando alto. Talvez eu escreva uma crônica sobre Age of Empires. Por que você está com esse desodorante Lenha na mão?

– Por que você não leva esse?

– Você enlouqueceu?

– Ele parece bom.

– Mas ele tem cheiro de lenha! Olhe para mim!

– E daí?

– Você consegue me imaginar com cheiro de lenha? As pessoas vão achar que eu sou um pizzaiolo!

– Mas esse aqui...

– Não. Vamos pegar outro.

Comecei a olhar outra marca. Os desodorantes dessa tinham nomes mais simples, e não demorou muito até eu perceber que cada tipo significava o que a pessoa queria ser. Executivo. Atleta. Empreendedor. Publicitário. Engenheiro Químico. De repente, eu não estava mais comprando desodorantes e sim escolhendo minha profissão no Jogo da Vida. Mas eu não queria ser nada ali. Procurei coisas como Capitão de Nave Estelar, Atacante do Brasil da Copa de 70 ou General Aliado na II Guerra Mundial. Nada. Nenhum deles me interessava, até que...

– Achei!

– Você não vai levar esse!

– Claro que vou! Olha essa embalagem! O perfume deve ser demais.

– Esse é do Batman!

– E daí? Todo mundo quer ser o Batman!

– Quantos anos você tem mesmo?

Tentei fazer quarenta com os dedinhos, mas me atrapalhei e respondi.

– Tenho quarenta. Exatamente dois anos a mais que eu tinha no dia que comprei uma saboneteira do Homem-Aranha.

– Então, mas esse é do Batman é mais caro.

– É mesm... Não! Espere! Ele é mais barato! Porque é um kit! Você compra e ganha esse do Super-Homem junto!

– Certo.

– Vamos levar o kit! Vou colocar os dois em cima da pia e batizá-los de Kit de Higiene Pessoal Martha!

– Certo.

Assim, voltei para casa feliz da vida com meus novos desodorantes. Sim, o do Batman é daqueles que deixa os farelos de polvilho no corpo, mas não tem problema. Afinal, ele chama “Batman”, e não “Lenhador Com Aparência Bruta mas que na Verdade é Sensível e Sonha em se Apaixonar e Constituir Família”.


Aliás, estou pensando aqui em comprar mais uns dez kits, porque nada no mundo é fácil. Nem comprar desodorante.

28 de julho de 2016

Sábado Sci-Fi

Começou num dia como qualquer outro, porque é normalmente assim que as histórias fantásticas começam: quando ninguém está esperando por elas.

Era um sábado e eu estava sozinho em casa, trabalhando, quando os cachorros começaram a latir. Até aí, nada demais. Existe uma complexa rede de informações entre os animais dessa casa que funciona unicamente com o objetivo de não me deixar trabalhar. Basta eu abrir o computador para que um gato faça um sinal para o outro que corre até o quarto e faz sinal para um terceiro que vai até a janela e avisa os cães que eles podem começar a latir alucinadamente.

Normalmente, eu consigo resolver o problema indo até a cozinha e gritando para eles pararem. Foi o que eu fiz. Mas, quando voltei ao computador, vi que não havia adiantado nada. Na verdade, eles estavam latindo tanto que provavelmente nem me ouviram. Esperei alguns minutos e eles continuaram latindo.

Irritado, atravessei a casa novamente e fui até o quintal do fundo. Foi quando eu dei de cara com o Objeto. Era um enorme cubo colorido, completamente oco e com saídas circulares em cada um dos lados. E estava pousado no meu quintal.



Afastei os cachorros, que corriam ao redor do estranho cubo latindo freneticamente, e observei o Objeto de perto.

Nessas horas eu adoraria ser o Carl Sagan. Tenho certeza que ele teria se ajoelhado ao lado do Objeto e dito, de forma amistosa, algo como “sejam bem vindos ao pálido ponto azul”. Imediatamente, alienígenas deixariam a nave e colocariam os pés no nosso planeta pela primeira vez.

Começaria assim uma nova etapa na história humana, com eles nos ensinando mais sobre tecnologia em meses do que poderíamos aprender sozinhos em décadas. Doenças seriam curadas. A fome seria erradicada. A humanidade deixaria de lado suas desavenças internas e começaria a explorar a galáxia, descobrindo ser parte de uma comunidade imensa e variada, repleta de espécies diferentes, cada uma com a sua cultura.

Mas eu não sou o Carl Sagan, sou apenas o Rob Gordon. Então, observando o Objeto de perto, eu não dei as boas vindas e iniciei um relacionamento amistoso com outra espécie. Não, tudo o que eu fiz foi resmungar que “por que essas coisas sempre acontecem comigo? Eu tenho um texto para entregar ainda hoje, não tenho tempo para isso” e mandei os cachorros calarem a boca.

E, como toda criatura não desenvolvida, olhei para o céu, na esperança de encontrar alguma pista da origem do Objeto. Mas imediatamente percebi que se os donos daquilo estivessem me observando de alguma outra nave, eles poderiam achar que eu sou uma criatura que mal saiu da pré-história, e estava procurando algum indício da existência de deuses que explicasse aquele estranho acontecimento.

Aliás, talvez fosse exatamente isso que os donos do Objeto pensavam de mim. Aquilo não era uma nave espacial, mas sim uma sonda, como monólito de 2001. Algo que iria causar uma reação em cadeia e alavancar toda a evolução da nossa espécie, impulsionada por uma misteriosa raça alienígena, até que um dia um humano iria se aproximar de outro cubo desses e finalmente olhar para dentro dele, constatando que “meu Deus, está cheio de estrelas”, e então ele viraria um bebê-planeta e pronto, fim da história.

Ou não. Porque, convenhamos, o negócio não tinha exatamente o perfil disso. O monólito de 2001 era sério, completamente negro e respeitoso. Era evidente que aquilo havia sido construído por uma espécie elegante e refinada. Já o meu monólito tinha mais cores que o bom gosto recomendava e elas não combinavam entre si.

Talvez os alienígenas que construíram aquilo fossem daltônicos. Ou talvez fosse uma nave infantil... Sim, uma nave trazendo uma criança que seria o único sobrevivente de um planeta condenado. Ele seria criado por mim e desenvolveria poderes graças ao nosso Sol amarelo.

A ideia me pareceu atraente. Eu não veria problema nenhum em criar um filho alienígena e extremamente poderoso. Ensinaria o garoto a usar suas habilidades para combater o crime, mas enquanto isso você pode começar a fazer o bem usando seus poderes para trocar a resistência do chuveiro e fechar completamente aquela torneira do quintal que fica sempre pingando, é um inferno.

Além disso, eu teria uma nave com a voz do Marlon Brando. Se eu conseguisse ensiná-la a falar algumas frases de O Poderoso Chefão, ela se tornaria meu brinquedo preferido.

Olhei novamente para o Objeto, estudando-o mais de perto, mas percebi que não havia nem sinal de cristais lá dentro, muito menos uma caixa acústica por onde a voz do Marlon Brando sairia. Mas percebi que ele não parecia ser feito de um material resistente o suficiente para viajar pelo espaço.

Por outro lado, eu não sou exatamente um especialista em engenharia espacial e ligas metálicas alienígenas. E isso não é exatamente culpa minha. Se os extraterrestres quisessem fazer contato com alguém que entendesse desse assunto, que não caíssem na casa de alguém que fez o primeiro colegial durante três anos, recebendo tantas notas vermelhas em matérias de exatas, com boletins que fariam brilhar os olhos dos editores do Livro Guinness.

Estiquei o braço e toquei o negócio, apenas para descobrir que ele era feito de nylon. Mas o que me chamou atenção nesse minuto não foi exatamente seu material e sim que ele me parecia estranhamente familiar. Eu já havia visto aquilo em outro lugar.

Voltei para dentro de casa e comecei a estudar minha coleção de filmes. Eu tinha certeza que a resposta estava ali... Na verdade, era como se eu não guiasse meus passos, e o Objeto estivesse me levando até ali. Onde eu havia visto aquele negócio?

Com o pensamento me atormentando, peguei um cigarro e voltei ao quintal, apenas para descobrir que o Objeto tinha uma mancha em um dos lados. Uma mancha que não estava ali antes, com um líquido que saía de uma das laterais e escorria pelo chão. Ácido, talvez?

Não. Era pior. Um dos cachorros decidiu que era o momento de mostrar que ali era o seu planeta e resolveu marcar seu território.

Perfeito. Faz séculos que a humanidade espera por uma prova da existência de vida em outro planeta, e quando isso acontece, meu cachorro mija em cima do negócio. Certeza que em mil anos as enciclopédias galácticas mencionariam o Objeto como o motivo pelo qual aquele pequeno planeta azul do Sistema Solar ganhou o apelido de Favela na comunidade intergaláctica.

Afastei os cachorros e continuei observando o Objeto, tentando descobrir onde eu havia visto aquilo antes, mas a resposta parecia escapar sempre que chegava perto da minha consciência. Assim, eu decidi que a melhor coisa era fazer contato. Aproximei meu rosto do objeto e cantei baixinho:

– Tam-tam-tam... TAM-TAM!

Nada. Risquei Contatos Imediatos do Terceiro Grau da minha lista. Busquei mais uma frase na minha cabeça:

– Nave Tydirium, qual sua carga e destino?

Silêncio. O Retorno de Jedi também não funcionou. Então, resolvi pegar pesado. Respirei fundo e coloquei o máximo de autoridade na minha voz. Não era apenas autoridade, mas sim autoridade com uma pitada de arrogância.

– Aqui é o Capitão James Kirk, da Federação dos Planetas Unidos. Por favor, diga quais são suas intenç...

No meio da frase, a resposta pulou na minha mente. Era isso! Eu finalmente sabia onde havia visto aquilo. Era em Jornada nas Estrelas. Mas não era um Cubo Borg... A não ser, claro, que os borgs tivessem assimilado sem querer o Romero Britto e incorporado suas pinturas à Coletividade. Ou seja: chupa, Borg.

Mas não era isso... Era algo da Série Clássica. Algo colorido...

De repente, tudo ficou claro! Era uma das boias espaciais do episódio A Manobra Corbomite.



Como eu não havia percebido isso antes? Qual era mesmo o nome do alienígena bebê horroroso? Balok?

Agora mais confiante, olhei para um dos cachorros e declarei:

– O jogo não é xadrez, Sr. Spock. O jogo é pôquer.

O cachorro me olhou como se eu fosse um imbecil, mas não dei atenção. Me aproximei novamente do Objeto.

– Balok, você sabe que nossas naves são feitas com uma substância chamada Corbomite e que qualquer ataque é retornado com força ainda maior. Acho que você gostaria de saber que nas últimas décadas, nos aprimoramos ainda mais essa tecnologia, então eu aconselho você a não tentar nada.

Não tive resposta. Pelo menos, não a resposta que eu esperava. Subitamente, um enorme vento começou do nada, fazendo voar os jornais dos cachorros e quase derrubando os vasos. Olhei para o alto esperando ver a nave de Balok sobrevoando minha casa, mas não havia nada no céu. Apenas nuvens anunciando uma forte tempestade.

De repente, ouvi barulhos de coisas caindo. Mas não era na minha casa, e sim no vizinho. O muro que separa nossas casas é alto, mas a deles tem uma área que fica exatamente na altura do muro. É ali que eles fazem churrasco e guardam...

Os brinquedos das crianças.

Era isso. Não era em Jornada nas Estrelas que eu havia o Objeto. Minha carreira de capitão da Federação havia terminado. Levei o negócio para dentro da cozinha, saí de casa e toquei na casa ao lado. A vizinha atendeu e me deu boa tarde.

– Por acaso seus filhos tem uma cabaninha quadrada, toda colorida? Com buracos nas laterais?

– Sim. Como você sabe?

– Ela caiu no meu quintal por causa do vento. Eu vou ali pegar.

E ainda tive que limpar o mijo do cachorro do negócio. Ô fase.

16 de abril de 2015

Estamos em Casa

Mais de quinze anos atrás, eu deixei um trailer carregando na internet. Era a época da internet discada e para assistir a um trailer você precisava abri-lo e ir fazer qualquer coisa que durasse uma hora (ou mais) até que ele tivesse carregado totalmente. Era uma tarde e eu estava na minha casa com minha mãe, minha tia e meu primo.

Quando o trailer carregou, eu chamei todos para assistirem. Apaguei as luzes do quarto, fechei a janela... Eu queria transformar meu quarto num cinema antes de apertar o play.

Era o trailer de Episódio I. Na época, não sabíamos que o filme era ruim. E se soubéssemos disso, não nos importaríamos. Episódio I não foi um filme que passamos mais de dez anos para ser feito; foi um filme que passamos mais de dez nos perguntando se ele seria feito.

Desde que eu saí do cinema em Serra Negra, onde estávamos passando férias, após ver O Retorno de Jedi (eu já havia assistido ao primeiro filme, que ainda se chamava Guerra nas Estrelas, e a O Império Contra-Ataca, na televisão), eu queria mais um filme de Star Wars.

E o trailer estava ali, na minha frente. Lembro de falar um palavrão ao ver Darth Maul acionar seu sabre de luz duplo, e ter entrado em choque com a frase “Anakin Skywalker, meet Obi-Wan kenobi”. Minha vida mudou naquele dia. Não me importa se o filme é ruim. Ver aquele trailer foi um dos momentos mais felizes da minha vida.

Lembro que, ali no quarto, eu queria ver nas outras pessoas o que eu estava sentindo. Mas minha mãe disse que o trailer era legal e minha tia disse que parecia ser um filme bacana. Então, corri na direção do moleque.

– Ajude-me, meu primo. Você é minha única esperança.

– Achei legal.

– Legal?!

– Eu não conheço Star Wars. Nunca vi.

Não era culpa dele. Ele cresceu numa época em que Star Wars era algo esquecido, cultuado somente por gente mais velha que ele. Mas algo precisava ser feito. Afinal, a Força é forte na minha família. Eu tenho. Meu pai tem. Meu irmão tem. Meu primo precisava ter.

Coloquei-o na sala e iniciei uma maratona. Na metade de O Império Contra-Ataca a mãe dele surge na sala falando que eles iriam embora, e ele dispara “não, vou dormir aqui, quero terminar de ver esses filmes”.

Missão cumprida. Meses depois, ele entra no cinema ao meu lado para ver Episódio I no dia da estreia.

Mas não era a mesma coisa. Episódio II também não. Episódio III consegue ser um pouco melhor... Mas ainda não era a mesma coisa. Não nos importávamos, claro. Estávamos de volta àquela galáxia distante, onde o mundo parece fazer um pouco mais sentido que na galáxia onde moramos – mas ainda tenho mais carinho pelas vezes que fui ver as edições especiais no cinema e praticamente falei o filme inteiro junto com os atores.

Alguns anos depois de ver estre trailer, os créditos finais de Episódio III sobem pela tela e você pensa “agora, sim, acabou”.

Passei os anos revendo os filmes da saga, lendo os livros do Universo Expandido. Trabalhei com isso, como muitos leitores deste blog sabem; dei palestras em convenções de fãs, entrevistei atores da saga. Sempre com o maior profissionalismo do mundo (menos quando Anthony Daniels falou comigo com a voz do C-3PO, que quase me fez ter uma síncope no meio de uma entrevista). Vi Star Wars atravessar as mídias, indo do VHS para o DVD, do DVD para o Blu-ray (cheguei a brincar com a minha ansiedade para comprar a saga em Blu-ray aqui).

E, todas as vezes que assisto aos filmes – e aqui estou falando, sim da Trilogia Original – eu volto a ser o menino que se encanta com os filmes pela primeira vez. Quero ser Luke Skywalker e ganhar um beijo no rosto da Leia, quero ser o Han Solo e gritar que “certo, garoto, agora explode esse negócio e vamos embora”. Quero salvar a galáxia, que é algo que toda criança dos anos 80 queria fazer. E que é algo que toda criança precisa querer uma vez na vida.

Eu quero salvar a galáxia toda vez que assisto aos filmes. Mas eu sabia que nunca mais salvaria a galáxia de uma forma diferente da que conheço. Eu tinha apenas os três filmes originais que assisto como criança, e os três filmes novos que assisto ou como fã emburrado (vendo apenas os defeitos) ou como fã esperançoso (certo de que tem coisas boas ali). Mais nada.

E aí nós cortamos para hoje. O mundo sabe que um novo filme está sendo feito. O mundo sabe que os atores principais da primeira trilogia voltam. E o mundo sabe que a Millenium Falcon apareceu no primeiro teaser.

Mas foi no teaser lançado hoje que a coisa complicou. Novas cenas. Novas imagens. Novos cenários. Mas é no final do filme que surge um Han Solo envelhecido ao lado do Chewbacca. Eu já havia chorado em trailers antes – o primeiro Homem-Aranha foi a primeira vez, acho. Mas nunca desse jeito. Porque quando Han Solo abre a boca, ele não está falando com Chewbacca.

“Estamos em casa”.

Ele está falando com aquele menino que está eternamente saindo do cinema em Serra Negra querendo ter um sabre de luz e olhando para o céu e se perguntando “será que um dia...?”.

Trinta anos depois, esse menino finalmente está em casa. Navegando pelos planetas que ele se orgulhava de saber o nome de cor. Pilotando as naves que ele pesquisou como funcionavam. Usando armas que ele sabe para que servem. Peitando o Jabba, desviando de asteroides, explodindo a Estrela da Morte, enfrentando o Vader e dizendo que nunca vai para o Lado Negro - que é algo que todo menino precisa fazer um dia.

E foi esse menino que mora dentro de mim que começou a chorar compulsivamente nesse minuto. Nesta cena, eu vi minha vida inteira... Mas eu não sou importante. É este menino que importa. Quando se trata de Star Wars, é apenas ele que importa.

E, nesta única cena do teaser, esse garoto viu que pode sonhar para sempre.

Porque ele não é um garoto. Ele é um herói. Especialmente quando ele está ao lado dos seus velhos amigos.

Especialmente quando ele está em casa, numa galáxia muito distante.




27 de fevereiro de 2015

A Alma Mais Humana



Spock!

Eu não lembro a primeira vez que assisti Jornada nas Estrelas. Mas, por outro lado, eu não consigo imaginar a minha vida sem Jornada nas Estrelas. Quando eu era criança, meus heróis eram outros. Quando eu era criança, eu queria ser Luke Skywalker. Queria ser Han Solo. Queria ser Indiana Jones. Mas Jornada nas Estrelas já estava na minha vida desde essa época.

A paixão pela série é uma herança dos meus pais, que adoravam. Herança do meu irmão, cuja paixão pela ciência – hoje ele é físico – nasceu junto com as aventuras de uma espaçonave que explorava a galáxia, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve. De lá para cá, muitas outras espaçonaves surgiram na minha vida. Mas a Enterprise continua sendo meu lar.

Não sofra, Almirante.

Nunca deixei de admirar meus heróis de infância, e até ganhei heróis novos. Mas, conforme eu cresci, parei de sonhar em me transformar nos meus heróis. Comecei a perceber que eles viveram suas aventuras da mesma forma que eu estava vivendo a minha. A minha vida, como a de todos nós – e até mesmo a dos meus heróis – era uma enorme aventura. Talvez tudo o que a gente precise fazer, em alguns momentos, é imaginar que um garoto está assistindo nossa vida. Com isso, nossa aventura ganha cores. Com isso, sabemos que é preciso fazer o possível para nos tornarmos o herói desse garoto.

Entretanto eu não deixei de querer ser um herói por me tornar adulto, mas sim por me transformar em outro tipo de garoto. Mais crescido, mais responsável, mais maduro, mas ainda assim um garoto. Com algumas cicatrizes aqui e outras ali, com erros que fazem o que sou e – mais importante de tudo – sabendo qual o meu lugar no universo.

Eu nunca havia feito o teste do Kobayashi Maru até agora.

Quando eu era criança, eu queria me transformar em meus heróis. Adulto, eu não quero mais ser um herói do cinema ou da televisão. Mas, muitas vezes, assistindo a um episódio de Jornada nas Estrelas, eu pensava “isso é o que eu preciso ser”, ao ver o Capitão Kirk.  É outro tipo de heroísmo, que vai além de murros no queixo. É um heroísmo que envolve tomar decisões imediatamente, saber quando é melhor arriscar e quando optar pelo caminho mais seguro – e, mais importante, colocando o bem estar dos outros acima do seu. As necessidades da maioria (normalmente) têm mais peso que as da minoria. Ou que as necessidades de um.

Kirk não é herói pela sua coragem ou ousadia; Kirk é herói por carregar não fugir da responsabilidade de ter centenas de outras vidas dependendo de cada passo seu. “Quanto mais eu dou, mais ela toma; quanto mais eu dou, mais ela toma”, Kirk lamentou quase enlouquecido em um episódio da série. Ele estava falando da sua responsabilidade com a Enterprise. Quem nunca sentiu o mesmo sobre a vida?

O que você achou da minha solução?

Mas Kirk sempre prevaleceu. Sim, isso se deve a sua coragem, inteligência e ousadia. Pela capacidade de quebrar regras para um bem maior. Mas Kirk sempre prevaleceu por ter as pessoas certas ao seu lado. Especialmente o seu oficial de ciências meio vulcano, cujo intelecto e capacidade de raciocínio lógico eram menores apenas que sua lealdade ao capitão. Ao amigo. Uma lealdade que ele mesmo classificaria como lógica, mas que não era. Muito menos extraterrestre. Era uma lealdade humana. Afinal, como Kirk disse no funeral de Spock... “De todas as almas que encontrei em minhas viagens, a dele era a mais humana”. Era verdade. Nós não víamos isso quando víamos a série na TV entre e aula e a lição de casa, mas entendemos isso anos depois, mais adultos.

Eu não quis ser Kirk desde que nasci. Mas passei a vida inteira procurando ter Spocks ao meu lado. E passei a vida inteira procurando ser o Spock de todos os meus amigos. Provavelmente não consegui fazer isso sempre. Afinal, Spock só existe um. Mas, como Kirk, eu nunca desisti de tentar. Como McCoy, fiz questão de não ficar azedo com meus fracassos. Afinal, eu era humano.

Eu sempre fui...

Tive bons amigos. Muitos deles eram Spocks. Tive alguns McCoys também. Alguns estão na mesma nave que eu até hoje. Outros estão em outras missões, outras viagens. Mas eu sempre soube que é preciso ter um Spock ao lado. Alguém que se oferece para ir com você, e você responde “fique na nave, porque se algo der errado, é com você que eu conto para me tirar de lá”.

A Série Clássica de Jornada nas Estrelas é uma série sobre ficção científica, mas seus filmes para cinema (em especial a partir do segundo) são todos sobre amizade e passagem do tempo. Pois é preciso que o tempo passe para que você compreenda que sua viagem será curta e sem graça sem um amigo. É preciso que o tempo passe para que você compreenda que, para ser Kirk, é preciso ter Spock e McCoy ao seu lado. Afinal, como o próprio Kirk disse em Jornada nas Estrelas V, “eu sabia que não ia morrer porque vocês estavam comigo; e eu sempre soube que vou morrer quando estiver sozinho”. E hoje Kirk está sozinho. Magro morreu mais de dez anos atrás. Hoje morreu Leonard Nimoy.

...E sempre serei seu amigo.

Os sites dizem que era um ídolo de milhões de pessoas. Eu nunca o vi assim. Para mim, ele sempre foi um velho amigo. Isso aconteceu quando o vi pessoalmente, quando esteve no Brasil. Foi um dos poucos atores que vi de perto que fez minhas pernas tremerem. Dias depois da coletiva, novo encontro, um rápido aperto de mãos e um cumprimento. Minutos antes, eu estava quebrando o pau com uma assessora de imprensa totalmente débil-mental numa sala lotada – uma das únicas duas vezes que levantei a voz com uma assessora, a outra vez, ano depois, seria novamente com ela – e quase não consegui tirar uma foto com ele.


 Acabei tirando a foto junto com outra pessoa com quem nem tinha contato - e que por isso está fora da foto acima, já que ela não cabe aqui - mas hoje sei que era isso ou nada. No momento, eu queria ter falado sobre tudo o quanto ele era importante para mim e agradecido por tudo que aprendi com ele, mas não tive chance. Mas não era preciso. Afinal, ele era meu amigo de infância. Era meu velho amigo. E velhos amigos sempre sabem disso. E agora, em homenagem ao meu amigo, tudo o que preciso saber é que “ele nunca estará realmente morto enquanto nos lembrarmos dele”.

Vida longa e próspera.

31 de janeiro de 2015

Como Ver as Horas na Terra do Nunca

Quando você é criança, você quer ser adulto. Quando você é adolescente, você tem pavor da ideia de ser confundido com uma criança. Mas, quando você vira adulto, existem dois caminhos: ou você se orgulha de ser 100% adulto, ou você se orgulha de ainda ser meio criança.

Eu sou deste segundo grupo. Acho que puxei isso do meu pai, que também é assim. Fui um pouco menino quando era menino, fui um pouco menino quando era adolescente, e continuo sendo um pouco menino agora que sou adulto. Aliás, agora que sou adulto, sou mais menino que nunca. E veja bem, isso não quer dizer “infantil”, quer dizer “menino”.

Algumas pessoas dizem que existe um menino que não envelhece nunca – uma espécie de Peter Pan – morando dentro de mim, mas eu acho isso meio improvável, já que, com 1.60m de altura, qualquer menino de 12 anos já é maior do que eu e teria sérias dificuldades em morar dentro de mim. Mas gosto de ouvir isso, por um motivo básico: é verdade.

Na verdade, eu não me tornei “menino” depois de envelhecer, eu nunca deixei de ser menino. Brinco o tempo inteiro, fico criando mundos, histórias e personagens o tempo inteiro. Ou melhor, fico brincando de faz de conta comigo mesmo. Acho que a vida funciona melhor assim.

Um exemplo? Quando eu morava em Pinheiros, sozinho com Besta-Fera, eu não o chamava pelo nome seguido de um “vem aqui”. No melhor estilo Jornada nas Estrelas, sempre que eu o chamava era pela frase “Alferes Besta-Fera... Report to the Bridge!” (ah sim, porque como a fantasia é minha, eu sou o capitão). E, quando nós íamos dormir (“íamos” porque ele dormia na minha cama) eu corria para o quarto junto com ele, como se estivéssemos fugindo de zumbis imaginários ou coisa parecida e precisávamos chegar à cama a salvo – caso você esteja se perguntando, durante o dia eu chefe de redação e coordenava o trabalho de três pessoas e não sei quantos colaboradores externos.

Brinco o tempo inteiro dentro do meu mundinho. Outro exemplo? Se alguém me ultrapassa andando na calçada, eu imagino que a pessoa é meu rival numa corrida ou numa caça ao tesouro – ou qualquer outra corrida contra o relógio – e preciso ultrapassá-lo.

Minha cabeça funciona assim desde que eu sou criança. A primeira brincadeira de faz de conta que me lembro de fazer sozinho era na hora de dormir, quando eu tinha uns sete, oito anos. Eu sempre tive muita facilidade para dormir, mas às vezes o sono não vinha. E se eu levantasse e reclamasse disso para minha mãe, ela diz que bastava eu deitar e ficar quietinho que acabava dormindo.

Mas para mim, deitar e ficar quietinho não tinha graça... A não ser, claro, que eu fosse um soldado escondido em uma trincheira em território inimigo, protegido apenas pela escuridão. Assim, eu deitava e ficava imóvel para não denunciar minha posição e evitar ser capturado. Ficava me testando para descobrir quanto tempo eu poderia permanecer imóvel, atento aos barulhos ao meu redor para descobrir se os inimigos estavam perto de mim...

E acabava dormindo.

Os anos passaram. Eu me formei, comecei a trabalhar... Mas não mudei isso. Já assumi que é algo meu – talvez uma deficiência que faça um lado do meu cérebro permanecer com oito anos de idade – e pronto.

Fiquei pensando isso nos últimos dias em que fiquei sem relógio no quarto.

Vou explicar melhor: eu não durmo com o celular no quarto. Parto do princípio que como eu passo o dia inteiro na internet, a noite é minha. Dormia muito com o celular ao meu lado, mas quando decidi deixá-lo na sala na hora de dormir, alguns anos atrás, comecei a dormir melhor. E não pelo fato de que eu não escuto notificações de nada (para isso, bastaria tirar o som), mas sim pelo fato de que eu consigo encerrar o dia antes de ir para o quarto.

Mas, como isso, eu não tenho relógio, porque além de ser menino eu sou meio azarado (meu relógio estava sem bateria, fiquei meses me esquecendo de trocar a bateria, até que, um dia, fui ao shopping, troquei a bateria e no dia seguinte a pulseira quebrou). Assim, eu sobrevivia com o aparelho da TV por assinatura, que tinha um relógio. Acordava de madrugada, levantava a cabeça e via que horas eram.

Contudo, como trocamos o plano da TV, recebemos um aparelho novo que não tem horário nenhum, somente uma luz azul inútil que serve para nada no meio da madrugada.

E eu tenho um problema: se eu acordo, seja de madrugada ou de manhã, eu preciso saber que horas são. Assim, agora eu preciso saber que horas são, mas não tenho um celular, não tenho relógio e o aparelho da TV a cabo fica me olhando com sua luz azul e aquela expressão de “não sou empregado para ficar informando o horário”.

E, justamente por causa disso, eu tenho acordado muito durante a noite. Acordo e imediatamente me sento na cama – é automático, uma das heranças que recebi de quando tive depressão – e começo a me perguntar que horas são.

Olho ao redor do quarto e vejo que tudo está escuro. Ou seja, ainda deve ser madrugada, mas é tudo o que eu sei.

Aí eu começo a tentar me lembrar de todos os livros e filmes que vi que poderiam indicar alguma maneira de descobrir o horário. O problema é que a maioria deles mostra como saber o horário durante o dia, e nunca durante a noite. E minha mente começa a vasculhar tudo o que eu sei em busca de algum modo de agir.

De repente, não estou mais sentado na cama. Estou numa ilha. Sou um personagem de A Ilha Perdida (Coleção Vaga-Lume, alguém?), ou Robinson Crusoé, perdido no meio da floresta e preciso descobrir um modo de saber as horas. Assim, analiso a luminosidade e os barulhos dos animais ao meu lado, para tentar decifrar o horário.

E não consigo ver nada e o único animal que está por perto é um dos gatos, que está deitado ao pé da cama e me olhando com cara de sono e tentando entender por qual motivo – além de eu ser um imbecil – eu estou sentado na cama. Ou seja, nada de ilha.

Abandono a ilha e estou num planeta deserto. Preciso saber que horas são para me transportar para a nave, mas estou sem meu equipamento. Assim, tento adivinhar o que meu oficial de ciências vulcano – porque todo menino precisa ter um oficial de ciências vulcano – faria. Ele diria para eu estudar a posição das estrelas como os antigos navegadores, e deduzir as horas por isso.

Aí eu olho para o céu e não vejo merda de estrela nenhuma, somente o teto do meu quarto. Meu oficial de ciências vulcano sugere abrirmos um buraco no teto do quarto com tiros de feiser, mas abandono essa ideia rapidamente porque, mesmo sendo meio menino, sei que a casa é alugada e não podemos mais fazer isso.

E de repente estou no Oeste. Tudo o que preciso fazer é olhar em direção ao leste e tentar detectar o mínimo de claridade possível. Isso indicaria que o amanhecer está próximo – e nenhuma claridade indicaria que são menos de quatro horas da manhã, pois o Sol nasce cedo nas pradarias. Mas preciso estudar com cuidado, pois coiotes e índios estão sempre à espreita.

E olho em direção ao leste e vejo apenas minha coleção de quadrinhos.

E começo a buscar outra situação. Se eu estivesse em um castelo de vampiros, talvez encontrando a cripta eu conseguisse descobrir...

– Por que você está sentado na cama?

– Oi?

– Por que você está sentado na cama?

– Estou tentando descobrir um jeito de saber as horas.

E aí a Esposa pega o celular dela, aperta o botão e diz que são “quase cinco” da forma mais adulta – e mais sem graça – do mundo. E, da forma mais adulta do mundo, fala para eu dormir, deita e dorme.

Eu deito também. Mas depois de passar por uma ilha, por outro planeta, pelo Oeste, estou agitado demais e não consigo dormir. Assim, fico quietinho na cama, imóvel. E começo a imaginar que estou escondido numa trincheira em território inimigo, e estou sendo procurado. Não posso me mover de forma alguma, preciso aproveitar a escuridão.

E, em dois minutos, estou dormindo. Feito criança.

21 de setembro de 2014

Eram os Deuses Fãs de Ficção Científica?

Foi algumas horas atrás.

Estava indo rumo ao ponto de ônibus quando fui parado por três mulheres na rua. Duas delas deviam ter quarenta e poucos anos, mas a que parecia ser a líder devia ter quase setenta. E não parecia a líder por ser mais velha, e sim porque ela que veio falar comigo, enquanto as outras apenas observavam.

– Posso fazer uma pergunta?

– Pois não.

– O que você espera do futuro?

Na verdade, eu não espero muita coisa. Hoje é domingo, são 10 e pouco da manhã e estou indo pegar um ônibus para trabalhar. Detalhe que estou indo para fazer algo que não é minha função. Ou seja, eu não estou muito feliz com o presente. Tudo o que eu espero do futuro é que ele chegue, porque quando isso acontecer o presente vai ter se tornado passado. Mas não acho que seja isso que ela está perguntando.

– A senhora pode ser um pouco mais específica?

– O que você espera do futuro da humanidade?

Bom, em curto prazo, não espero nada. Aliás, às vezes eu acho que tudo o que espero do futuro é que ele não seja igual ao passado, mas duvido que isso vá acontecer, já que para cada passo à frente que damos, parece que damos outros dez passos, todos para trás. Em médio prazo, eu gostaria apenas que fosse um lugar onde eu ficaria tranquilo em ter um filho, sabendo que ele pode crescer num lugar minimamente justo e educado, e que, ao fazer o correto, ele será visto como uma pessoa normal, e não como um portador de uma doença contagiosa. Longo prazo? Espero que os vulcanos apareçam logo. Com a ajuda deles e com o uso do motor de dobra, poderemos começar a viajar pelo espaço, entrando em contato com novas vidas e civilizações, mostrando que o significado de “audaciosamente ir onde nenhum homem esteve” não diz respeito somente a visitar planetas inexplorados, e sim ser mais tolerante e generoso do que somos hoje. Mas não acho que seja isso que ela está perguntando.

– Em que sentido?

– Você acha que, no futuro, a humanidade vai piorar, vai continuar igual, vai melhorar?

Eu não deveria ter pensado em Jornada nas Estrelas, porque agora meu cérebro fundiu. Eu acho que a humanidade pode sim, melhorar, mas somente se as máquinas tomarem o controle do planeta. Com isso, ao invés de esconder nossas frustações atrás de fotos do Instagram, teríamos que pegar em armas e combater o exército da Skynet. Mas como ela parece estar falando sobre religião, meu argumento das máquinas não vai funcionar direito... A não ser, claro, que eu fale de Battlestar Galactica, que mexe com religião. Agora, o panfleto que ela está segurando fala de um único deus. Ela não acredita nos Lordes de Kobol, ela é monoteísta. Talvez ela seja uma cylon infiltrada. Ou talvez não seja isso que ela está perguntando.

– Olha, eu acho que...

– Piorar? Ficar igual? Melhorar muito?

A pergunta foi tendenciosa. O “melhorar” tem um “muito”, e o “piorar” não. Ela está encaminhando a conversa para o “mundo vai melhorar”, porque precisa provar isso para mim. Ou talvez ela precise provar isso para ela mesma. Não vou culpá-la. Uma pessoa que fica na rua perguntando este tipo de coisa precisa ver sua fé reafirmada o tempo inteiro, de preferência nas outras pessoas. É o princípio do Facebook. Damos nossas opiniões e temos a certeza de que ela está certa quando recebemos o “like” das pessoas que pensam exatamente como a gente e não estão dispostas a se questionar por um instante. Assim, podemos virar para nós mesmos e gritar que “so say we all!”. Mas chega de pensar em Galactica. Vou responder que vai piorar, mas não vou entrar no campo da projeção, e sim da retrospectiva. Vou alegar que nós pioramos a cada dia. Vou alegar que quando mesmo quando parece que não temos mais onde errar, inventamos um novo meio. Criamos uma nova intolerância, colocamos em prática uma nova injustiça, fechamos uma porta de diálogo. Até mesmo quem defende as coisas que o senso comum diz que são corretas fazem isso, então para mim existe claramente uma tendência ao erro. E é com isso que devemos trabalhar.

– Eu acho que vai p...

– De acordo com Deus, vai melhorar. Vai melhorar muito. Você não acha que vai melhorar?

Aqui, a manipulação se tornou evidente. Ela estava me cercando, esperando para me tirar todas as opções. Quando ela fez a pergunta “você não acha que vai melhorar?” faltou somente fazer um gesto com a mão e eu responder que “estes não são os dróides que estamos procurando. Sigam adiante! Sigam adiante!”. Desculpa, senhora, mas seus truques jedi não funcionam comigo.

– Na verdade, eu acho que vai p...

– Deus, em sua sabedoria, diz que o mundo vai melhorar.

Chega. Eu preciso trabalhar. Adoraria continuar nisso, mas eu preciso trabalhar.

– A senhora ainda precisa de mim?

– Como assim?

– A senhora está fazendo uma pergunta para mim, mas a senhora mesmo está respondendo. A senhora perguntou o que eu acho do futuro, e eu estou tentando responder. Mas a senhora não me deixa falar para dizer o que Deus acha do futuro. Se a senhora quer saber o que Deus acha do futuro, eu não posso responder, eu não posso falar por Ele. Não seria correto, porque nunca nem conversei com Ele a esse respeito.

– Mas Deus, em sua infinita sabedoria, se expressa por todos nós.

Essa era a hora que eu deveria responder que “com licença, por que Deus precisaria de uma espaçonave?”, mas isso é do filme dirigido pelo William Shatner, e só uma pessoa num grau avançado entenderia a referência. Então, resolvi encerrar a conversa pelas regras.

– Então a senhora não precisava de mim.

– Como assim?

– Se Deus se expressa por todos nós e a senhora já sabe que Ele acredita que o futuro vai ser melhor, eu vou obrigatoriamente ter que responder isso, concordando ou não. De acordo com sua lógica, qualquer pessoa vai ter que responder isso. Ou seja, a senhora faz a pergunta já sabendo a resposta. Então, acredito que a senhora não precise mais de mim aqui.

– Na verdade...

– Na verdade, estou com um pouco de pressa. Mas foi um prazer.

Sorri e fui embora. Andei cinco metros, resmunguei para mim mesmo que “humanos são completamente ilógicos”. Puxei o celular do bolso, apertei um botão e disse que “Scotty, um para subir” e fechei os olhos.

Nada aconteceu. Abri os olhos e continuava naquele estranho planeta, onde as pessoas precisam de outra pessoa para falar sozinhas e mostrarem para si próprias o quanto estão corretas. Olhei para as estrelas pensando o quanto eu gostaria de não estar mais aqui.

Quem sabe um dia.

Enquanto o dia não chega, preciso trabalhar. Guardei o celular no bolso e continuei andando até o ponto de ônibus.