- Beto, vem comer.
- Não.
- Oi?
- Não tenho fome.
- Bom, a comida está boiando aí. Quando você quiser, pode comer.
- Estou fazendo greve de fome.
- Quê?
- Não vou comer, sob forma de protesto.
- Protesto?
- Não concordo com algumas coisas aqui.
- Beto, você é um peixe, não um exilado político. Você não
pode apenas comer e ficar nadando quieto aí no aquário?
- Como meu guardião, é sua obrigação atender às minhas
demandas.
- Beto...
- É o seu dever!
- Certo, Beto. O que você quer?
- Mudar de nome.
- Oi?
- Vamos ser sinceros, aqui? Dar o nome de Beto a um peixe é
ridículo.
- Eu não acho. Você é um peixe beta. Logo, Beto fica legal.
Beto, o Beta.
- Sério... Qual a sua idade? Quatro? Cinco?
- Trinta e seis. E vai ser Beto.
- Aliás, Beto não é nem nome, é apelido. O meu Beto é
apelido de quê?
- Sei lá, Beto.
- Roberto?
- Pode ser, não sei.
- Humberto?
- Eu não pensei nisso!
- Adalberto?
- Eu não sei! Pensei apenas em Beto, o Beta.
- Beto, o Beta. É ridículo. Parece um daqueles personagens
de cartilha para as crianças aprenderem a ler. Tipo o Ivo.
- Que Ivo?
- Ivo viu a uva. É a mesma coisa.
- Não, não é.
- Beto, o Beta, botou
a bata no boto.
- Chega.
- Beto, o Beta, bateu o bote da Bete.
- Beto, vai comer. Eu tenho textos para fazer.
- Não se atreva a escrever sobre mim naquele blog se
referindo a mim como Beto!
- Olha, vamos deixar uma coisa clara aqui. Eu sou o dono desta
casa. O aquário está na casa. Você está no aquário. Logo, eu sou seu dono.
- Ah, então é isso! Trata-se de uma ditadura!
- Beto, por favor, é uma porra de um nome. Eu tenho mais
coisas para fazer.
- Sim. E a primeira delas é me dar um nome decente. Um nome
que imponha respeito.
- Ok, como você quer ser chamado?
- Kull, o Conquistador!
- Então, não é exatamente a sua cara. Você é um peixinho.
- Você consegue imaginar Beto, o Conquistador?
- Não.
- Então será Kull. Ou Conan.
- Beto?
- Diga.
- Vai comer.
- Como chama aquele pedaço de estopa?
- Que pedaço de estopa?
- Aquele pedaço de estopa que fica correndo pela casa.
- O cachorro? Besta-Fera.
- Pronto! Por que eu não posso então ser o Beta-Fera?
- Esquece. Nem pensar.
- Beto, o Beta-Fera?
- Não, Beto. Seu nome é Beto, o Beta. Pronto.
- Ok. E você será sempre Rob, o Babaca.
- Sério, por que eu não posso ter um bicho normal? Já chega
o cachorro...
- E lhe aviso que eu, Kull, o Conquistador, o farei pagar
pela sua insolência, cão maldito!
- Beto, podemos mudar seu nome para Sushi. Que tal?
- Estou avisando, é melhor você me levar a sério. Eu sou
capaz de ficar jogando água para fora do aquário.
- Olhe, vamos fazer o seguinte: eu vou dar duas alternativas
e você escolhe uma.
- Certo. Uma é Kull, o Conquistador. E a outra?
- Não. Uma é Beto, o Beta.
- E a outra?
- Peixe.
- Como assim? Peixe? Mais nada?
- Mais nada.
- Pode ser Peixe, o Conquistador?
- Não. Peixe. Peixe ou Beto, o Beta. Escolhe. Qual você
gosta mais?
- Eu me recuso a ser chamado de Peixe.
- Então, está decidido. Beto, o Beta. Parabéns!
- Filho da puta.
- Agora come.
- Rob, meu velho amigo... Você conhece o antigo provérbio
klingon que diz que a vingança...
- É um prato que se come frio. Sim, eu conheço.
- E é muito frio neste aquário.
- Então aproveite e coma sua comida que está boiando aí,
porque ela é fria. E uma última coisa.
- Diga.
- Eu fico bastante feliz por você ser um peixe que goste de
Jornada nas Estrelas. Mas eu não vou chamar você de Khan.
- Por favor?
- Não. Bom apetite, Beto, o Beta.
- Eu não me esquecerei disso.
- Coma tudinho, Beto, o Beta.
- Filho da puta.
(Nota do blog: este post está fechado para comentários por motivos de spam)
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