Se existe um gênero de não ficção que eu gosto de ler são
biografias.
Isso vale especialmente para pessoas que admiro – ou que
pertencem a um mundo que admiro – como músicos e diretores de cinema. E isso
vale mais pelo mundo ao redor da pessoa que pela pessoa em si. Claro que eu
adoro aprender sobre pessoas que admiro há anos, mas eu realmente fico muito
empolgado ao ver o biografado tropeçar em outras pessoas das quais sou fã.
Vou tentar explicar melhor. Vamos pegar como exemplo a
biografia do Eric Clapton. Talvez seja uma das melhores que eu tenha lido até
hoje, pela história do sujeito – se você não leu, leia; se você não leu e gosta
de música, leia agora. É doce e amarga ao mesmo tempo, e chega a ser incômoda
de tão comovente em algumas passagens.
Mas ela brilha de verdade em momentos que ele se aproxima de
outros sujeitos que, por si só, merecem ser biografados, como os Rolling
Stones, os Beatles. É mais ou menos assim: você está lendo sobre o Clapton e,
de repente, ele está num bar trocando confidências com o George Harrison. Você
está lendo sobre a vida do Ozzy Osbourne e de repente ele começa a conversar
com o Robert Plant. Você está lendo sobre John Huston e de repente ele está
bêbado no meio da África com o Humphrey Bogart.
Eu considero estes trechos, estas “participações especiais”,
como bônus em uma biografia. Você está aprendendo sobre a vida de uma pessoa e vê
um lampejo sobre a vida de outra. E assim você aprende um pouco mais sobre o
mundo da pessoa sobre a qual está lendo. Aprender sobre como o Eric Clapton se
sentia ao gravar um determinado disco faz você saber como ele se sentia. Ver sobre
o que o Eric Clapton e o George Harrison conversaram em um bar faz você se
sentir na mesa ao lado da mesa deles.
Isso talvez aconteça porque eu sempre fui apaixonado por
mundos. Para mim, o cenário de uma história é tão importante quanto a história
em si. Isso vale para uma biografia como para um filme. Neste ponto, isso vale
muito para ficção científica e fantasia.
E aqui eu vou divagar um pouco para tentar exemplificar
melhor essa sensação: lembro-me de ser criança e assistir O Império
Contra-Ataca e, na cena em que Luke e Vader se enfrentam pela primeira vez, na
Cidade das Nuvens, eu me senti privilegiado. Aquele combate é um dos momentos
mais importantes na história da galáxia, e provavelmente tema de comentários de
gerações e mais gerações, mas ninguém estava vendo aquilo. Eles lutam num lugar
vazio, sem testemunhas.
Ninguém estava vendo aquilo, a não ser eu. Eu estava vendo a
história acontecer na minha frente. Eu estava na mesa ao lado, ouvindo Clapton
e Harrison conversarem. É um privilégio.
Quando eu percebi meu privilégio em ver a batalha entre Luke
Skywalker e Darth Vader, eu entendi que havia uma história enorme por trás
daquilo que eu estava lendo. Talvez este momento tenha sido um ponto chave na
minha vida, algo que me fez querer contar histórias pelo resto da vida – talvez
não tenha sido, mas confesso que esta historinha em si é boa demais para não
ser contada.
Tracei esta fusão entre biografias e ficção para chegar
aonde eu queria: neste momento, estou lendo Marvel Comics – A História Secreta.
O livro traça a história da editora, desde os anos 30 até a potência que ela é
hoje.
E, nas primeiras páginas, eu percebi que teria uma
dificuldade em ler o livro. E não porque assim como Easy Riders & Raging
Bulls, é daqueles livros que pega algumas pessoas que admiro e não apenas o
humaniza, mas literalmente os apodrece. Mas por causa das participações
especiais. Você está lendo e testemunhando uma conversa entre Stan Lee e Jack Kirby.
E se sentindo privilegiado. Mas, de repente, surge, no meio do diálogo, o Reed
Richards.
E você se sente ainda mais especial por estar vendo tudo
aquilo acontecer, por estar assistindo a três nomes que significam demais na
sua vida...
Até que você abaixa o livro, respira fundo e lembra-se que o
Reed Richards não existe, ele é apenas um personagem de quadrinhos que lidera o
Quarteto Fantástico. E passa o resto do capítulo se forçando a acreditar que o
Sr. Fantástico não está na sala junto com Lee e Kirby. Porque ele não existe de
verdade.
A não ser, claro, na minha mente – o que certamente é o indício
de algum problema mental que eu possa ter.
Vai ser difícil ler este livro, pois eu vou precisar me
concentrar o tempo inteiro e ficar repetindo em voz alta que o Peter Parker não
existe. Porque, no fundo, eu sei ele existe, eu convivo com ele há quase 25
anos. Eu me sinto mais próximo dele que de muitos amigos meus – que, até onde
eu sei, existem.
Por outro lado, talvez não seja um problema mental. Talvez
seja o fato de que alguns personagens se tornam tão importantes na nossa vida
que eles se tornam reais. Eles deixam de ser imaginários e se tornam amigos e cúmplices
de verdade. O amigo Luke Skywalker, o parceiro Peter Parker, o cúmplice James
Kirk.
Existem personagens que são reais. E quem faz isso acontecer
é o público.
Vamos pegar o exemplo do garoto de Terapia. Ele não existe,
certo? Tudo o que ele fala foi escrito por mim e pela Marina. A cara dele é
criada pelo Mario. Todas as vezes que ele segura o choro ou explode de raiva,
não é ele. É o lápis do Mario obedecendo ao que eu e a Marina queremos que ele
sinta.
Mas, para mim, ele é real. Para o Mario e para a Marina,
também. E não porque ele “está dentro de nós” – isso seria clichê demais – mas porque
ele existe de verdade. Eu sei que ele está andando por aí nas ruas, mesmo sem
conhecer a gente. E espero de verdade que ele (ou eles, porque pode ser mais de
uma pessoa) nunca nos processe por mostrar a intimidade dele para tanta gente
que, assim como nós, sabem que ele existe de verdade.
Porque não somos poucos. Aposto que boa parte destes 700 e
tantos apoiadores da imagem abaixo acreditam nisso como a gente. Sim, muitos
compraram por admirarem o traço do Mário, outros por gostarem do que a Marina e
eu escrevemos. Alguns compraram pelo blues, outros pela psicologia. E, alguns, claro,
pela amizade que mantém conosco, por desejarem nosso sucesso nesta empreitada.
Mas eu tenho certeza que muitos compraram pelo garoto.
Porque sabem que já faz anos que este menino cheio de problemas e apaixonado
por blues se tornou amigo delas. E espero que cada um de vocês se sinta
privilegiado em estar ali naquele consultório vendo o menino contar tudo o que
pensa (ou quase tudo) e tudo o que sente (ou quase tudo) para seu terapeuta.
Foi difícil? Foi. Foram dois meses de ansiedade, querendo
ver essa HQ impressa. Em muitos momentos, eu achei que não ia dar. E me
surpreendi: não apenas batemos a meta antes do prazo, como atingimos a meta
máxima que estipulamos (R$ 40.000,00).
E já faz alguns dias que estou dormindo
com a sensação de dever cumprido. Não sobre o livro – o trabalho pesado começa
mesmo agora – mas sobre o garoto. Estes números mostram o que eu defendo neste
texto, algo que tanto a Marina como o Mario certamente concordam comigo.
Esta história é maior que a gente. Este personagem é maior
que a gente. E ele existe de verdade.
Ao menos, no coração de muitos de vocês.
E é nome deste meu amigo, o “Garoto de Terapia”, que eu
agradeço a cada um de vocês.





















