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22 de abril de 2013

A História sem Fim



Como escritor, eu sempre defendi a ideia de que as histórias estão em todo lugar, basta apenas saber procurar. E, na verdade, isso acontece com qualquer pessoa. Como já disse Neil Gaiman certa vez, todos têm ideias o tempo inteiro – a diferença é que o escritor percebe quando isso está acontecendo.

Foi mais ou menos o que aconteceu comigo dias atrás, dentro de um ônibus. Eu estava quieto no meu canto lendo um livro quando uma menina se sentou no bando ao lado do meu, e puxou o telefone da bolsa e ligou para alguém. Parecia nervosa.

- Você desligou o telefone na minha cara?

Assim que ela falou isso, não consegui mais ler. Boa parte dos meus neurônios correu para o lado esquerdo do cérebro, para ouvir melhor a conversa. Alguns deles tinham até mesmo blocos de papel e começaram a fazer anotações. Eles sempre fazem isso quando encontro uma história em potencial – a exceção são os neurônios responsáveis por funções básicas como respiração e coordenação motora, que possuem ordens de não abandonar suas estações de trabalho em hipótese alguma.

Fechei o livro e prestei atenção. A menina, que devia ter uns 25 anos, continuou.

- Você desligou o telefone na minha cara, ou a ligação caiu?

Meu cérebro começou a percorrer todas as alternativas possíveis, já em busca de uma história. A alternativa mais viável, claro, seria um namorado.

E, vamos ser sinceros, aqui. Presenciar uma briga de namorados que já começa com “você desligou o telefone na minha cara?” é muita sorte. É como ligar a televisão num domingo à tarde e dar de cara com uma decisão por pênaltis de um campeonato qualquer prestes a começar. Você terá drama e suspense, gritos e lágrimas para assistir de camarote, sem precisar se envolver.

E, como seu time não está envolvido, você pode assistir a tudo de camarote, sem se envolver ou ter uma ameaça de infarto quando descobre que o técnico escalou aquele zagueiro tosco que mal sabe correr e respirar ao mesmo tempo para cobrar o pênalti decisivo.

Era isso que ia acontecer no ônibus. Aparentemente, a garota no banco ao lado do meu estava parada na grande área, com as mãos na cintura, esperando pela autorização do árbitro. O estádio em silêncio. Ao soar o apito, ela escolheu o canto e respirou fundo. Correu, bateu e...

- Vem cá, qual seu nome mesmo?

Confesso que fiz um esforço muito grande para não me envolver – e não tenho certeza se consegui disfarçar a expressão de “como assim você não sabe o nome dele? Não é seu namorado?” que fiz ao olhar para ela. Mas respirei fundo e me conformei que não era o namorado.

Assim, comecei a pensar em quem poderia ser. Tudo o que eu sabia sobre a pessoa do outro lado da linha é que ela havia desligado o telefone na cara da menina. Pais não fazem isso – é algo grosso demais até mesmo para um namorado minimamente educado, que dirá então para pai e mãe? Poderia ser uma amiga, mas duvido que, se fosse esse caso, a menina ao meu lado teria ligado de volta.

Secretamente, rezei baixinho para não ser um atendente de telemarketing. Pois, convenhamos, alguém brigar com um atendente de telemarketing porque o sujeito desligou o telefone no meio da conversa não é exatamente uma história interessante: eu mesmo faço isso uma vez por mês, sempre que quebro o pau com a Tim. Ou com o Itaú. Ou com a TVA.

Resignado, assumi que ainda não tinha informações suficientes para escrever uma história. Assim, continuei calado, olhando na direção da menina, mas com minha melhor cara de-não-estou-olhando-para-lugar-algum-estou-aqui-pensando-na-vida-sem-ouvir-sua-conversa-com-a-pessoa-que-desligou-o-telefone-na-sua-cara e agucei os ouvidos.

 - Qual seu nome mesmo? Como você se chama?

Um dos meus neurônios anotou algo rapidinho no seu bloquinho, referente ao fato da menina falar como uma canção antiga de blues, repetindo sempre a frase anterior antes de falar uma frase nova.

Ele comentou isso com um neurônio ao lado, que achou a ideia boa e aproveitou para comentar que isso era parecido com todos os diálogos do Tom Cruise em De Olhos Bem Fechados. Ambos concordaram que esta ideia seria aproveitada no texto de alguma forma.

- Como você se chama, mesmo? Ícaro?

Agora eu tinha um nome. Ícaro. Mas isso mais me atrapalhou do que me ajudou. Pois, por mais que eu imediatamente tenha pensado que Ícaro é um daqueles nomes que não existem no mundo real, somente em novelas da Globo (algo que eu chamo de 1ª  Lei de Viriato) e que isso poderia me dar um fio condutor para a crônica, meus neurônios se agitaram com o som da palavra Ícaro.

Comecei a sentir certa agitação na cabeça e fechei os olhos, certo de que era o início de uma enxaqueca. Não era. Era a velha falta de foco dos meus neurônios, que não conseguem se concentrar no mesmo assunto por mais de alguns segundos.

Segundos depois, eu percebi que um enorme palco havia sido montado dentro do meu cérebro. Seis neurônios estavam sobre ele, cada um com um instrumento musical. E, depois de alguns instantes, um dos neurônios se aproximou do microfone e começou a gritar:

- Scream for me, cérebro do Rob!

Todos os neurônios responderam em uníssono. Até aqueles que estavam controlando a respiração.

- SCREAM FOR ME, CÉREBRO DO ROB!

Os neurônios gritaram ainda mais alto. Muitos deles fizeram sinais de demônios com as sinapses.

- THE FLIGHT OF ICARUS!!!!!

A banda cover de Iron Maiden formada pelos neurônios (que, acredito, leva o nome de Maidenômios) começou a executar a música – que, numa daquelas felizes coincidências, pertence ao disco Piece of Mind – para delírio da plateia.

Este palco foi montado próximo ao meu ouvido esquerdo.

Minha cabeça começou a chacoalhar. Se eu pedisse para eles abaixarem o som, eu teria uma enxaqueca de dias; se eu simplesmente desligasse a aparelhagem da banda, era capaz dos meus neurônios decidirem fazer greve até eu sofrer uma espécie de lobotomia auto infligida. Assim, deixei a banda tocando e tentei prestar atenção na conversa da menina.

- FLYYYY... ON YOUR WAY... LIKE AN EAGLE! FLY AS HIGH... AS... THE SUN!

Não deu certo. Esfreguei os olhos com força e reuni todas as minhas forças para me concentrar na conversa.

- Ícaro, nunca mais desligue o telefone na minha cara!

Agora sim. E aparentemente eu não havia perdido nada de importante. Tentei ignorar meus neurônios cantando o refrão junto com a banda e foquei na menina.

- Eu não posso te ajudar! Eu não tenho nada a ver com isso.

Nesta hora, eu percebi que seria bem difícil descobrir o contexto da história. A menina não soltava nenhuma informação importante – apenas que a pessoa do outro lado da minha era alguém que ela não conhecia – e duvido que ela estivesse disposta a interromper a conversa e ter a delicadeza de explicar para as pessoas do ônibus o que estava acontecendo, e quem era o tal do Ícaro. Eu teria que confiar na sorte.

- Eu não tenho nada a ver com isso!

Sim, sim, você já disse isso. Aproveite que meus neurônios acabaram de tocar Flight of Icarus e avance logo com a conversa, antes que eles comecem a próxima música.

- Olha, eu sou casada com o irmão da esposa do irmão dele!

Era tudo o que eu precisava. Além de não dar informação nenhuma, a menina ainda iria começar a falar como o Mestre dos Magos. Comecei a fazer contas nos dedos. Casada com o irmão da esposa do irmão dele. Então, ela é casada com o cunhado dele. Não. Com o cunhado da esposa. Não, tem algo errado. Se ela é casada com o irmão da esposa, então ela é cunhada. Mas o irmão, que também é casado, também é cunhado de alguém. Então, a esposa do irmão do cunhado...

Comecei a ficar sem ar. Aparentemente, todos meus neurônios ainda estavam no show da Maidenômios, com exceção do neurônio responsável pela respiração. Como eu comecei a pensar demais usando o único neurônio que havia sobrado, ele ficou sobrecarregado e se esqueceu de respirar.

Desisti de entender o parentesco antes que eu morresse asfixiado no ônibus e, instintivamente, olhei na direção da janela em busca de ar fresco.

Foi quando eu vi que meu ponto era o próximo.

Entrei em pânico. A menina continuava no telefone – o que será que o Ícaro estava falando? – mas eu ainda não tinha nada de concreto. Amaldiçoei o trânsito de São Paulo – que nunca está parado quando você precisa – e respirei fundo. Era hora de ser responsável (mesmo porque com poucos neurônios funcionando eu não gostaria de me aventurar num ponto de ônibus longe de casa).

Levantei e dei o sinal. Olhei para a menina com a minha melhor cara de “eu poderia ter feito você famosa”, mas ela nem me deu atenção. Caminhei em direção à porta do ônibus, pensando no que fazer com os fragmentos de história que eu tinha. Afinal, eu já havia sido mordido pelo bichinho da crônica, e pelo menos alguma coisa eu precisaria escrever.

Enquanto o ônibus parava, ouvi os primeiros acordes de Rime of the Ancient Mariner ecoando no meu cérebro. Imediatamente, percebi que ficaria até o final da semana sem conseguir pensar direito, já que a música dura quatro dias.

Desci do ônibus e fui para casa disposto a inventar uma história em cima disso. Talvez uma história sobre um agiota tímido que cobra as pessoas somente por telefone, ameaçando desligar o telefone na cara delas (“e eu já desliguei o telefone na sua cara, você sabe que eu não estou blefando”).

Ou algo com uma pegada um pouco mais policial, com uma policial que se infiltra numa organização criminosa disfarçada, sem contar para ninguém que ela é esposa do irmão da esposa do irmão de uma das vítimas – e quando ela fosse desmascarada, perto do clímax da trama, nenhum dos criminosos entenderia qual era o parentesco dela com a vítima.

Ou quem sabe, uma trama com...

Parei na calçada sem ar.

Eu tentava respirar, mas havia me esquecido de como fazer isso. Desisti de inventar uma história, ao menos enquanto meus neurônios continuavam assistindo ao show do Iron cover. Parei de pensar e, aos poucos, fui reaprendendo a respirar. Inspira. Expira. Inspira. Expira.

Caminhei para casa com cuidado, me apoiando nos muros, tentando não pensar muito no que eu estava fazendo com as pernas. Entrei em casa e liguei a televisão, assistindo um desenho animado sem prestar muita atenção, deixando espaço para que o neurônio da respiração pudesse trabalhar em paz.

Qualquer dia eu escrevo esta história.

30 de dezembro de 2012

Coisas da Vida XV

Estava dia desses no mercado, com a Esposa.

E mercado, no final do ano, é um assunto que sozinho renderia um blog. Aparentemente, entre os dias 20 e 31 de dezembro, os mercados fazem uma seleção de tudo o que de pior andou pelos seus corredores ao longo do ano.

São famílias de vinte pessoas que fazem compras de mãos dadas – sim, todos os vinte; a alma penada da senhora de idade que vaga pelos corredores e, sem saber que está morta, tenta puxar papo com as pessoas vivas; a mulher que faz compras com o cãozinho no colo (e descobre que levar o cachorro talvez não tenha sido boa ideia ao passar pela seção das carnes); o casal de namorados que resolve celebrar a paixão quase copulando na parte mais discreta da seção de vinhos.

E, no meio disso tudo, eu e a Esposa, com as compras de Ano Novo, tentando arrumar um lugar na fila de um dos caixas. Missão cumprida, precisávamos apenas escolher na fila de qual caixa entraríamos. Decidimos por uma fila um pouco mais vazia, que tinha somente duas pessoas – que aparentemente, estavam juntas – e começando a ser atendidas.

Assim, pedi a Esposa que esperasse um pouco na fila enquanto eu fosse fumar um cigarro na calçada. Mais que fumar, eu queria um pouco de ar e alguns minutos longe do barulho, visto que poucas horas antes eu havia sofrido uma crise de enxaqueca violenta – o que me fez fazer compras de óculos escuros.

Chovia aos cântaros em São Paulo. Parei num canto coberto, na porta da loja e acendi um cigarro, deixando meu cérebro descansar um pouco da multidão de pessoas do mercado. E, aos poucos, minha mente decidiu ir um pouco mais longe – algo que acontece sempre que eu fico mais de dois minutos sozinho.

Comecei a pensar a respeito da ceia de Ano Novo, no que eu espero para o próximo ano, quais as minhas resoluções e desejos para 2013. Pensei sobre meus planos, sonhos e expectativas, sobre como eu gostaria de estar dentro de um ano, sobre o velho com cara de bêbado que estava parado ao meu lado olhando fixamente para mim.

Sim. Havia um velho com cara de bêbado parado exatamente ao meu lado, olhando exatamente para mim. Aproveitando que estava de óculos escuros, olhei para ele sem mover a cabeça (o que fez a enxaqueca ranger dentro de mim). Carregava uma sacola do mercado que continha uma garrafa – que não devia ser de Fanta Laranja ou de água – e usava uma camisa azul de algum time de várzea (com aqueles nomes que somente times de várzea possuem, tipo Associação Esportiva Jardim Roberto ou Bar Ferreira Futebol Clube).

Decidi ignorá-lo. Tudo o que eu não queria era um maluco cutucando minha enxaqueca. Assim, novamente aproveitando meus óculos escuros, fingi que era cego e que nem havia percebido sua presença ali.

Fiquei imóvel, alheio a tudo. Na verdade, eu usei totalmente o pinball wizard mode: on e decidi que além de cego, eu também era surdo e mudo também. Para mim, a mensagem que eu passava ao sujeito era clara: se quiser falar comigo, arrume uma máquina de fliperama.

- UTIDI!

Quase enfartei quando o velho gritou do meu lado. E o problema é que, como não tenho muita experiência em enfartos, eu acabei demonstrando meu susto (pulando e quase jogando o cigarro para o alto). E assim terminaram meus planos de ignorar o velho.

Imediatamente, meus neurônios começaram a celebrar a presença de um maluco ao meu lado da sua forma tradicional: todos pararam o que estavam fazendo e correram para o meio do cérebro, entoando Can I Play With Madness, do Iron Maiden, e dançando.

Tentei ignorar a música que vinha de dentro da minha cabeça e me concentrei no velho.

O que mais me incomodou foi ele ter falado comigo na língua dos jawas. Sim, os jawas gritam “Utidi” nos filmes de Star Wars. Eu sei isso, e qualquer pessoa que, como eu, assistiu à Trilogia Clássica dezenas de vezes, sabe disso.

Enquanto meus neurônios ainda celebravam, eu fui obrigado a estabelecer contato com aquela forma de vida – mesmo porque o sujeito continuava parado ao meu lado, esperando por uma resposta.

- Perdão?

- UTIDI!

“Can I play with madness? The prophet stared at his crystal ball! Can I play with madness? There's no vision there at all!”, meus neurônios responderam, enquanto eu considerei um pouco as opções.

Veja bem, eu tenho 1.60m. Se eu estivesse de capuz, me tornaria praticamente um jawa e entenderia perfeitamente alguém gritar Utidi para mim. Além de baixinho, eu sou gordo. Ou seja, caso estivesse com uma roupa azul e branca, me tornaria uma espécie de R2-D2 do 3º Mundo, e entenderia perfeitamente alguém gritar Utidi para mim.

Mas não era o caso. Eu estava sem capuz e com uma camiseta preta dos Beatles. Não fazia sentido.

- Desculpe, mas...

- UTIDI!

(“Can I play with madness? The prophet looked and he laughed at me! Can I play with madness? He said you're blind, too blind to see!”)

Definitivamente, era um jawa. Lá estava eu, conversando com um jawa perdido na porta do Walmart da Avenida Jabaquara (que, agora estou pensando, deve ficar nas imediações de Tatooine). Não era uma situação das mais confortáveis, mas admito que poderia ser pior. Poderia ser um membro do Povo de Areia.

Contudo, isso não tornava minha vida mais fácil. Afinal, tudo o que eu falo na língua dos jawas é “utidi”, que eu nem sei ao certo o que significa. E o jawa com cara de bêbado parecia ansioso por uma resposta

Assim, decidi usar o único truque que comprovadamente funciona em todos os cantos do universo. Cavaleiros Jedi, vulcanos e os tripulantes da Galactica sempre se utilizam deste macete com sucesso. O velho e bom truque do “sorri e concorda”.

Olhei para o velho e sorri para ele.

- Sim. Utidi.

- UTIDI!

- Isso aí. Utidi.

O velho pensou um pouco, sorriu para mim e foi embora, ignorando a chuva. Eu terminei de fumar, enquanto meus neurônios terminavam sua canção e voltaram aos seus afazeres comuns. E, quando tudo parecia terminado, apaguei o cigarro e olhei para cima, em direção às nuvens negras.

- Vocês não desistem nunca, certo?

Tudo o que eu ouvi foram risinhos abafados vindo por trás das nuvens. Olhei ao redor, para as outras pessoas, e ninguém havia escutado nada, por causa da chuva. Somente eu. E eu sabia o que aqueles risinhos significavam.

Traduzindo em palavras, seria algo como um “O nosso 2013 promete, Rob Gordon”.

Ô fase.




28 de setembro de 2011

Rock in Life

Eu gostaria muito me lembrar de verdade do primeiro Rock in Rio.

Mas não me lembro. Talvez eu saiba mais sobre o festival de 1985 do que a respeito de muitos shows que eu fui pessoalmente, mas tudo o que sei foi porque aprendi depois, lendo e estudando.

Sei, por exemplo, que o Iron Maiden desviou totalmente a rota da turnê World Slavery Tour – que renderia o magnífico álbum Live After Death – para tocar na capital carioca, vindo dos Estados Unidos para o Brasil e voltando para os Estados Unidos, dando início a um verdadeiro caso de amor com o público brasileiro.

Mas falo de Iron Maiden por ser a banda de heavy metal que mais gosto. Havia outras, muitas outras, que vi pessoalmente anos depois. E acredito que devo isso ao Rock in Rio. Será que eu, no Brasil, teria a oportunidade de assistir a Ozzy Osbourne, AC/DC e Whitesnake ao vivo, caso estes grupos não tivessem tocado, anos antes no primeiro festival? Duvido.

Mesmo a respeito de bandas que nunca fui a um concerto, sei do caráter mítico do festival. Como por exemplo o Queen, cujos integrantes sempre apontaram sua performance como uma das maiores da história da banda; o Scorpions, que usou imagens de sua visita ao Rio no videoclipe de Still Loving You (“Time... We Need Time...”) feito para promover o álbum World Wide Live.

Mas eu me recordo muito da segunda edição do festival. Meu casamento com o heavy metal ainda era um namoro recente, mas, como todo relacionamento novo, a paixão era imensa. Assim, eu me recordo de devorar tudo o que consegui sobre as bandas deste estilo – e me lembro da dor no coração que senti ao não poder assistir aos shows pessoalmente.

Mas vi tudo pela TV. Tudo.

Vi um Sepultura que ainda gravava o álbum Arise subir ao palco; vi um Judas Priest promovendo “somente” o álbum Painkiller, que marcaria a despedida de Rob Halford da banda por anos e anos; vi um Megadeth tocando com garra as canções do seu então disco mais recente, Rust in Peace, hoje um clássico.

Mas, me recordo especialmente de ficar hipnotizado com o show do Faith no More, banda que sempre adorei e que pisava no país pela primeira vez, promovendo o disco The Real Thing, que considero um dos últimos grandes álbuns da história. Aliás, em algumas semanas eu assistirei a um show do Faith No More (junto com Megadeth, veja que coincidência) pela primeira vez. Será que eles teriam tocado tantas vezes no Brasil sem o Rock in Rio II? Duvido.

Mas não preciso sequer pensar para me recordar do show do Guns N’ Roses. Mais que um show, foi um evento, não apenas pela popularidade da banda – que estava em seu auge, antes de Axl Rose virar uma prima dona e desmantelar o conjunto – mas também porque foi nessa ocasião que o grupo apresentou, pela primeira vez, as músicas dos dois discos duplos (sim, duplos, pois estou falando de LPs) Use Your Illusion I e Use Your Illusion II.

Até hoje me recordo que a banda entrou ao palco ao som de Pretty Tied Up – era a primeira vez que o mundo ouvia a canção, e eu estava assistindo ao vivo pela TV. Me recordo do solo de guitarra de Slash, no qual ele executa passagens do tema de O Poderoso Chefão, e dos principais hits, como Sweet Child O’Mine, Patience e Paradise City, que fizeram Axl Rose perder totalmente a voz.

E me lembro claramente de, dias depois, ir ao centro comprar discos na lendária Woodstock e dar de cara com a jaqueta que Axl usou no show (de couro, branca, com o logo da banda nas costas) pendurada e sendo vendida por uma verdadeira fortuna. Lembro-me de esticar o braço e tocar na jaqueta. Justamente por isso que não consegui disfarçar o sorriso, ano passado, ao ler uma biografia importada da banda e descobrir que Axl deu um escândalo nos bastidores ao descobrir que a jaqueta havia sido roubada. E eu toquei na jaqueta.

Anos e anos se passaram, e eu comecei a assistir a shows pessoalmente.

Contudo, na segunda metade dos anos 90, minha paixão pela música deu lugar a novos amores, sobretudo o cinema – que também me acompanhava desde criança mas começou a tomar ares de profissão e os livros.

E, como se soubesse disso, o Rock in Rio deixou de acontecer.

Foi preciso um novo milênio para que eu voltasse para o rock e, por coincidência – ou não? – o Rock in Rio voltou.

Do Rock in Rio III eu também me lembro muito bem. E confesso que senti uma pitada de orgulho ao ver que a minha banda de heavy metal agora era o grande nome do evento. Mais importante que isso, o Iron Maiden vivia um momento especial, com o retorno de Bruce Dickinson ao posto de vocalista, numa apresentação que rendeu um CD e um DVD magníficos.

Outros nomes me saltam à memória. O Sepultura mostrou que existia vida numa era pós-Max Cavalera, e fazendo o caminho inverso, Rob Halford mostrando que sua voz potente não dependia dos músicos do Judas Priest – e o momento em que a plateia inteira canta Breaking the Law mais alto que ele, fazendo o inglês chorar no palco (algo que ele se orgulha até hoje) comprova isso.

Me lembro também da nova apresentação do Guns N’ Roses, numa fase negra da banda, que já parecia uma banda cover de luxo. Mesmo assim, assisti, pelo carinho que sempre tive a respeito do Guns, banda que me abriu os caminhos do rock, no final dos anos 80. E também me recordo de uma apresentação lendária do R.E.M., que colocou o grupo de vez no panteão do rock contemporâneo.

Isso faz dez anos. E eu me recordo de tudo.

Em todo o meu relacionamento com a música, o Rock in Rio sempre esteve presente, caminhando paralelamente ao meu gosto musical. Hoje, bandas que gosto, em especial Motörhead, Metallica – e, claro, Guns N’ Roses – estão se apresentando no Rock in Rio IV.

E, como um velho amigo, resolveu comemorar seu retorno ao Brasil nesta sua quarta edição me enviando um presente. Afinal, durante décadas eu pude assistir, mesmo que pela TV, a alguns dos maiores shows da história graças ao Rock in Rio.

E, a partir de agora, eu vou poder ouvir estas mesmas bandas graças ao Rock in Rio e a Philips, como se as bandas estivessem tocando na minha sala, somente para mim.

(aumente a foto para ler a carta)


Nada mais justo que eu escrevesse este texto como agradecimento.

Obrigado, pelo presente e pelas memórias.

Obrigado, velho amigo.

24 de fevereiro de 2011

Letra e Música

Todo blog que se preza, em algum momento de sua história, apresenta um post somente com um vídeo. Nada mais que isso: o título da postagem, e um vídeo – normalmente um clipe musical. Quando muito, além do vídeo, existem uma ou duas frases comentando a música em si.

Minha vez de tentar.





Pronto. O vídeo está aí.

Mas por mais que eu adore música, eu não consigo ficar sem letras.

E este é justamente o motivo do vídeo. Poucas horas atrás, fui convidado por um leitor do blog, o @RicoCorreiaUP, para participar do projeto Musicontos. A ideia consiste em “cronicar” uma música qualquer, interpretando a letra.

Sim, eu já tenho um texto assim, baseado no blues Love in Vain, do Robert Johnson e que está no Anônimos e Urbanos. Mas eu não queria reaproveitar o texto porque, primeiro, a ideia é boa demais para isso. Segundo, aquele texto pertence ao livro, e somente ao livro.

Não foi difícil escolher uma música. Muitos fãs de Iron Maiden detestam esta música, alegando que “a banda se vendeu”. Bobagem. Apesar de ser uma balada – a primeira na discografia do grupo –, ela não é uma música sobre amor, mas sim sobre solidão. Como eu queria escrever algo no estilo do Chronicles, seria perfeita. Além disso, o verso “in your eyes I see the hunger” é fortíssimo, serviu como excelente ponto de partida.

Assim, sentei na frente do PC, com a música tocando, e deixei me levar. Fiz o texto, literalmente, em questão de minutos. Sim, admito que ele e curto, mas mesmo assim é engraçado como alguns textos parecem estar prontos dentro da gente, apenas esperando para ser escritos. Este foi um deles.

Espero que gostem (está aqui). E, claro, convido vocês a conferirem os demais textos do projeto Musicontos.

13 de janeiro de 2011

Pequena Jornada Musical

Quando eu era adolescente, criei o hábito de dormir ouvindo música. Começou quando meus pais me deram, de aniversário, um dos modelos da linha Moving Sound, da Philips. Os mais velhos devem se lembrar: eram três aparelhos, com uma pintura invocada sobre um fundo cinza, claramente feito para jovens.

Assim, eu passava as tardes fazendo coletâneas dos meus vinis para fitas, e, antes de dormir, colocava a fita para tocar. Assim, eu deitava e ficava apostando comigo quantas músicas eu conseguiria ouvir antes de apagar – o normal eram duas ou três. E eu ainda tinha a vantagem de que o aparelho de som desligava sozinho após a fita acabar, o que não deixava aquele negócio consumindo energia a noite inteira.

Às vezes não eram coletâneas que eu fazia, mas fitas compradas (especialmente das coisas que eu ouvia antes de descobrir o hard rock e o heavy metal): Ultraje a Rigor, Raul Seixas e o best of dos Beatles que eu citei neste texto aqui.

Aliás, talvez eu nunca tenha falado disso aqui antes, mas minha primeira grande paixão musical foi Raul Seixas – o primeiro K7 que comprei dele foi Uah-Bap-Lu-Bap-La-Béin-Bum, na extinta Sunbird, do Shopping Ibirapuera (hoje, existe uma Riachuelo naquele lugar). Em pouco tempo, tinha K7s e mais K7s dele, e sou um dos poucos fãs que encontra muito valor também na fase anos 80 dele, quando ele já mal conseguia fazer algo por causa da bebida.

Enfim, logo o heavy metal surgiu na minha vida, e dá-lhe coletâneas. Passava os dias gravando músicas dos vinis para K7. Ia até uma banca perto de casa e comprava fitas de 90 minutos, para conseguir encaixar mais músicas. E as coletâneas eram sempre ordenadas, com fitas separadas por bandas, e em ordem cronológica, seguindo os discos originais.

Mas admito que às vezes eu mandava a conta de luz à merda e dormia com o rádio ligado. E aí tem um fato curioso: toda vez que o rádio tocava, no meio da madrugada, Patience, do Guns, eu acordava. Toda vez. Eu sempre adorei a música – ela é extremamente importante para a minha formação musical – mas nunca imaginei que isso pudesse acontecer. E aconteceu três ou quatro vezes. Eu acordava, do nada, e o Axl Rose estava cantando que “all we need is Just a little patience” no rádio.

Aí surgiu o CD. E, com eles, as trilhas de filmes.

Eu simplesmente parei de escutar rock durante anos (sim, parei, totalmente) e me dediquei somente às trilhas de filmes. Eu já era apaixonado por cinema, mas era muito difícil achar trilhas boas para comprar (a exceção era a Breno Rossi) – cheguei até mesmo a, com doze ou treze anos, ficar com o gravador colado na TV gravando, pelo alto falante do aparelho, as músicas dos créditos de Os Caçadores da Arca Perdida, para ter a música. E se alguém falasse alguma coisa na sala, ou se o telefone tocasse – e ele sempre tocava – eu tinha que começar tudo de novo.

Enlouqueci com trilhas sonoras. Acho que comecei a comprar por causa do meu irmão. Um dia ele chegou em casa com um disco (vinil ainda) e não me mostrou o que era, apenas pediu para eu sentar e escutar. Ele colocou o bolachão e assim que os primeiros acordes do tema de Star Trek ressoaram (Tá-tá-táááá... Tá-tá-tá-tá-tá... Tá-tá!) eu dei um pulo e gritei um “caralho!” (seguido por um “olha a boca!” gritado da cozinha pela minha mãe).

Assim, com os CDs, minha paixão por trilhas explodiu. Não podia entrar numa loja de CDs sem ir vasculhar. Comecei pelo básico: John Williams. Quando eu percebi que já tinha tudo dele que realmente valia à pena (Star Wars, Indiana Jones, Tubarão, Superman, ET, Contatos Imediatos), parti para outros nomes, em especial Ennio Morricone – que, em minha opinião, é o maior compositor do século 20 e consequentemente da história do cinema.

E a maioria dos CDs eram importada e caríssima, Lembro de que quase dei uma festa quando consegui comprar um CD alemão do Era uma Vez na América e o mesmo quando consegui o CD de Os Intocáveis (se você um dia estiver na Teodoro Sampaio e ouvir alguém assoviando o tema de Al Capone (música 2 do CD), olhe ao redor porque eu estou por perto). Comprei os 2 numa Planet Music – um dos funcionários havia se tornado amigo meu por ter trabalhado em uma loja de quadrinhos de Moema, mas esta loja é outra história.

Tem um caso interessante com Apocalypse Now. Uma vez descobri o CD da trilha original do filme na Saraiva do Shopping Ibirapuera. Era duplo e importado – ou seja, dava praticamente para bancar uma refilmagem do longa com o dinheiro do CD. E eu jurei a mim mesmo que iria comprar aquilo, juntando dinheiro, moedas espalhadas em casa, perguntando se alguém na minha casa não queria comprar meu corpo.

Mas e o medo do CD ser vendido? Assim, todo dia eu ia à Saraiva, pegava o CD, atravessava a loja e o escondia na prateleira de sertanejos, onde eles estariam seguros. Todos os dias. Terminou que um grande amigo meu me deu o CD de aniversário – da forma mais legal do mundo: ele abriu o CD e tirou o encarte, colocando dentro de um envelope. Nunca esqueci disso.

Tem outras histórias também, como eu ter entrado em casa de joelhos jurando para minha mãe que eu seria o escravo particular dela pelo resto da vida se ela me arrumasse dinheiro para comprar a trilha do M. A. S. H., do Altman (importada, claro), que havia surgido na Saraiva – era um CD curioso, praticamente o filme gravado em áudio. E também quando comprei os caríssimos CDs da série Television Greatest Hits, com temas de seriados de TV (eram 65 músicas por CD), e eu e meus amigos fazíamos jogos de adivinhações com as músicas em casa.

Com isso, criei uma coleção razoável de trilhas sonoras – me orgulho de nunca ter visto alguns daqueles CDs em outro lugar que não seja na minha casa (caso do próprio M. A. S. H. e do Primavera para Hitler – o original do Mel Brooks).

A esta altura, eu já tinha um aparelho de CD no quarto e dormia ouvindo um deles.

Era quase um ritual. Passava, às vezes, dez minutos escolhendo qual CD iria ouvir antes de dormir. Curiosamente, a situação que teoricamente seria perfeita – comprar um CD e escutá-lo a primeira vez ao deitar para dormir – era horrível: como o CD era novo, eu não dormia antes de escutá-lo inteiro.

E, com o tempo, o bom filho a casa (do demônio) volta e o heavy metal retornou com força total na minha vida. Assim, minhas canções de ninar se tornaram Iron Maiden, Metallica, Faith No More.

– Entrei no seu quarto ontem e estava tocando Master of Puppets. Como você consegue dormir ouvindo isso?, perguntava meu irmão.

Não faço ideia. Mas dormia. Colocava o CD, pesadíssimo, e dormia feito bebê. Dormir com música era um dos melhores momentos do meu dia. Às vezes, eu estava em casa vendo TV à noite e só de imaginar que “daqui a pouco eu vou colocar um CD para ouvir e dormir” já me deixava feliz.

Mas às vezes eu brigava com o CD. Como eu durmo sempre na 2ª ou 3ª música, eu ouvia sempre as mesmas. Então, descobri o shuffle. Mas, como eu queria deitar ouvindo minha música preferida, ficava desligando o CD e ligando de novo até o shuffle escolher, como “música de abertura da noite”, a que eu queria. Aí, apagava a luz e dormia, brincando de adivinhar “qual será a próxima música?” até fechar os olhos e sonhar.

Fiz muito isso morando sozinho em Pinheiros (menos com os Cds de trilhas, que ainda estão na sala da casa dos meus pais) até que comprei uma estante para guardar meus livros e, pela configuração do móvel, meu aparelho teve que se mudar para a sala.

Aí eu já era uma pessoa com novos gostos, sendo o blues e muita coisa de rock clássico os mais importantes.

Mas eu não ouvia mais música antes de dormir – cheguei até mesmo a pensar em ligar o aparelho de som na sala e ir dormir no quarto, mas isso certamente renderia uma multa de condomínio. Assim, dormia em silêncio.

Isso até ontem. Ontem eu estava me sentindo híbrido (meio homem, meio merda) e decidi resolver isso. Coloquei um banco na frente da estante e o aparelho de som em cima dele. Peguei uma coletânea de música clássica, liguei e apaguei a luz.

Deitei ouvindo os primeiros acordes da 5ª Sinfonia de Beethoven, e acredito que dormi de verdade no meio do Concerto de Brandeburgo Nº 3, de Bach.

E acordei outra pessoa hoje. Sonhei a noite toda (eu PRECISO sonhar para descarregar o cérebro e encontrar respostas para algumas coisas) e quase perdi a hora de manhã. A sensação é que dormi por uma vinte horas.

Não vejo a hora de ir para casa dormir hoje.


19 de agosto de 2010

Somewhere Back in Time

Foram semanas de espera e está aqui na minha frente.

Eu olho de soslaio, enquanto trabalho, e finjo que não está ali. Fico apenas saboreando a idéia de que é meu, que será sempre meu. Posso usar o dia inteiro, posso usar a hora que quiser.

E, me desafio a cada instante a deixar ali, quieto, à minha frente. Intocável.

E, enquanto escrevo, sei que estou sendo olhado. Finjo que não está ali, mas sei que ele está me observando. Implorando. Provocando. Brilhando. E eu, sádico – e masoquista – banco o difícil, não me entrego. Brinco comigo mesmo.

Porque eu sei que quando abrir, meu dia vai mudar. Vai explodir. Emocionalmente. Afinal, não é apenas ele, é tudo o que ele traz.

São memórias de quando eu era menino e sabia menos do que achava que sabia, mas me divertia. São lembranças de quando eu já era mais adulto – mas ainda sabia menos do que achava que sabia – e aprendia. E são reminiscências mais recentes, da semana passada, quando eu já não estava mais preocupado em medir o quanto eu sabia. E ele ainda estava lá.

Lembro-me de quando conheci. Lembro exatamente como foi, onde eu estava e qual foi minha reação. E do que senti. Tenho guardado em mim cada vez que encontrei pessoalmente: foram três, sendo que na última, em determinado momento, explodi em lágrimas, quando ouvi novamente as mesmas frases que ouvi no dia que conheci, e que me jogaram de volta aos catorze anos.

São vinte anos de relacionamento. Foram fases boas e ruins, mas acho que um relacionamento, qualquer que seja ele, é feito disso: de fases boas e ruins. Eu mudei, mas meu amor não mudou. Eu mudei, mas o significado disso nunca mudou. Aliás, mudou. Cresceu. Afinal, é difícil não crescer quando se percebe que algo acompanhou você durante a maior parte da sua vida.

E é difícil não pensar nisso tudo e não se emocionar quando é hora de reencontrar.

E logo vou reencontrar. Assim que eu terminar este texto.

Porque toda vez que eu compro um CD novo do Iron Maiden, eu faço isso: compro no primeiro momento que eu encontro na loja e deixo na minha mesa, ao meu lado, durante alguns momentos, saboreando a idéia de que eu tenho um CD novo deles, e que existem músicas deles que nunca ouvi, e que eu vou escutar pela primeira vez em alguns instantes.

Quem me conhece, sabe que eu tenho fases musicais. Às vezes mergulho no blues, em Chico Buarque, Beethoven, Beatles. Mas eu sempre volto ao heavy metal, especialmente às bandas dos anos 70 e 80. É onde me sinto em casa, musicalmente falando. Passo por Metallica, Black Sabbath, Judas Priest, Megadeth, Slayer.

E termino em Iron Maiden. Dentro da minha casa, Iron Maiden é o meu quarto. E, daqui a minutos, vou voltar aos meus catorze anos e me trancar dentro deste quarto para ouvir o disco novo.

E é por isso que eu reluto em ouvir – acabei de descobrir. É para evitar a sensação de que daqui a pouco mais de uma hora, eu estarei de volta ao “não existe nada do Iron Maiden que eu não tenha escutado”. Por isso eu adio, pelo tempo que consigo, colocar o CD para tocar.

Eu quero prolongar ao máximo aquela sensação que acontece a cada dois ou três anos, de “tem um disco inteiro – INTEIRO! – do Iron que eu nunca ouvi”.

Porque sentir isso me leva diretamente aos catorze anos, ao dia em que simplesmente enlouqueci assistindo ao clipe de Wasted Years no saudoso Clip Trip, da Rede Gazeta. Menos de uma hora depois, estava no Shopping Ibirapuera comprando o vinil de No Prayer for the Dying (peguei dinheiro escondido da carteira da minha mãe), que até hoje tem um significado especial demais para mim. Não é nem de longe o melhor disco deles (ainda é Powerslave), pelo contrário, é um dos mais fracos. Mas ainda é o MEU disco do Iron Maiden.

E, a partir daí, mergulhei – numa era pré-internet – na tarefa de descobrir mais sobre a banda, os discos, os integrantes, e, principalmente, as letras das músicas. Sim, eu já era “letras” nessa época, mesmo sem saber disso.

Hoje, eu tenho um disco novo para descobrir.

Hoje, eu tenho catorze anos e uma vida inteira pela frente.

Hoje, eu quis compartilhar esse momento, que acontece entre eu comprar um disco do Iron e colocá-lo para ouvir, com vocês.


4 de outubro de 2009

"I'm Made of Metal..."

Avenida Paulista, dia 1º de outubro, 7:30 da manhã. Esta foi a hora que cheguei para entrar na fila que começava a se formar na porta da Fnac, com o objetivo de comprar o ingresso do show do AC/DC. Saí de lá por volta das 11:00 da manhã (para quem não sabe, a loja abre apenas as 10:00), com o ingresso na mão.

Mas, mais que isso, saí de lá a um passo de fechar um ciclo na minha vida. Com o show do AC/DC, eu finalmente zero a lista de todas as bandas de rock que eu preciso ver ao vivo, antes de morrer.

Não estou falando aqui de shows que eu gostaria de ver. Existem toneladas de bandas e cantores que eu quero ver e ainda não tive oportunidade (Megadeth, Motorhead e o próprio Faith No More, que irá tocar em breve aqui, mas que eu abri mão em nome do AC/DC), ou de bandas que eu sempre quis ver e já consegui (Aerosmith, Whitesnake, Dio, Deep Purple).





Estou me referindo a uma seleta lista de shows que eu preciso ver. É outro patamar. Não são bandas que apenas admiro o som, mas sim que possuem enorme importância dentro da minha vida. São artistas e músicas que estão diretamente ligados à minha história. Afinal, suas músicas me acompanharam ao longo da vida inteira, em fases boas ou ruins (deles ou minhas).

Amigos foram e vieram, namoros começaram e terminaram. Apanhei muito, bati muito, conquistei uma coisa aqui, outra ali. Aprendi demais. Deixei de ser moleque e me tornei homem. Aprendi a ter responsabilidades em alguns aspectos – e, naqueles que eu (ainda) não aprendi, aprendi ao menos a me preocupar com isso.





Isso tudo não aconteceu da noite para o dia, mas sim lentamente, ao longo de anos. E estas canções sempre estiveram ao meu lado, nestes momentos.

Daí a importância de assistir a esses shows. Há muito tempo estes artistas deixaram de ser músicos que admiro e se tornaram amigos de anos. Existem bandas que eu preciso ir ao show não apenas por causa das músicas, mas para ver que aquelas pessoas – que me ensinaram tanto sobre a vida, especialmente em momentos onde eu precisava desesperadamente aprender algo – existem de verdade.

E, nestes shows, sou egoísta a ponto de achar que eles não estão tocando para uma platéia de dezenas de milhares de pessoas. Não, eles estão tocando para mim. Se você entendeu esta frase, você é parecido comigo. Se não entendeu isso de primeira, não tente: ela é absurdamente irracional – algumas verdades são.





Como qualquer leitor deste blog sabe, à frente desta lista está o Iron Maiden – não é coincidência que é a banda que eu mais vi ao vivo: (no longínquo) 1992, 2005 e 2008. Mas também há o Metallica (1994); Alice Cooper (2007), Judas Priest (2006) e Ozzy Osbourne (2008). Agora, com Kiss – no primeiro semestre deste ano – e AC/DC, eu fecho a lista.

Na verdade, o Guns estaria na lista também, mas infelizmente a banda acabou – ao menos, da forma que ela era importante para mim – então não conta.





Sim, todos eles têm os pés no heavy metal e no hard rock. Não adianta, estes são os MEUS gêneros musicais. Existem momentos nos quais me afasto deles, claro: há momentos da minha vida que eu mergulho, por exemplo, em Beethoven, e passo o dia inteiro escutando todas as nove sinfonias; às vezes, mergulho em blues e fico ouvindo Muddy Waters da hora em que acordo até ir dormir.

Mas, invariavelmente, eu sempre volto para o heavy metal.

É onde me sinto em casa. Não é questão de ser melhor ou pior que os outros gêneros, é pessoal. Agora mesmo estou numa fase Beatles, devido aos lançamentos das edições remasterizadas, e continuo achando A Day in the Life a música mais perfeita da história do rock. E, como acontece toda vez que eu estou numa fase Beatles, daqui a pouco eu descambo para o rock clássico em geral. Cream, Rolling Stones, Creedence, David Bowie... Pelas próximas semanas, só vou escutar isso. Eu me conheço.

Mas, em algum momento, eu vou sentir falta do heavy metal e vou colocar um CD do Iron Maiden para tocar, ou um DVD do Metallica. E logo nos primeiros acordes me virá aquela sensação de colocar os pés na sala da sua casa, após ficar semanas viajando. Ali é o meu canto. as minhas músicas não são melhores ou piores que as outras músicas. São minhas.





Isso porque o heavy metal está na minha vida desde os 14 anos. Às vezes mais próximo, às vezes mais distante, mas sempre esteve ali. É o som que me dá paz, que me tranqüiliza. Isso pode parecer uma incongruência dado o peso da música – meu irmão até hoje não entende como uma pessoa conseguia colocar Master of Puppets, do Metallica, no som do quarto, para dormir – mas tem apenas uma explicação. É o tipo de som que me faz feliz.

E não aquela felicidade que se confunde com saudosismo. Eu não ouço Iron Maiden para me sentir com 14 anos. Claro que um pouco desta sensação sempre aparece, mas o processo é diferente. Eu era uma pessoa em 1989; hoje, vinte anos depois, sou outra, bastante diferente. Mas as músicas continuam fazendo sentindo para mim. Ou seja, elas caminham comigo.

Não faço idéia de como ou onde estarei vivendo em 2029. Provavelmente, já terei filhos – e, como brinco às vezes com a Sra. Gordon, eles, em alguns momentos da infância, vão ter morrido de vontade de colocar as mãos nos “cds de caveira do papai” – e eles terão a liberdade de ouvir a música que quiserem, desde que faça bem para eles.





Claro que eu detestaria ter um filho que adora sertanejo, mas, se ele gostar disso, o que eu posso fazer? A coisa mais pesada que meu pai sempre ouviu é Maria Bethânia, mas, entre um “abaixa esta merda!” aqui e outro ali, sempre tive a liberdade de escolher do que eu gosto. E pretendo fazer o mesmo.

Mas, da mesma forma que meu filho terá liberdade para escolher quais as suas músicas (o que pode gerar alguns “abaixa esta merda!” da minha parte, já que será o meu direito de pai), eu continuarei ouvindo as minhas músicas. Porque, como eu disse, não faço idéia da pessoa que serei em 2029.

Mas sei que minhas músicas (e meus livros e filmes) estarão lá comigo. E ainda estarão me ensinando muito.


31 de dezembro de 2008

Top 5 2008 - Música



















5 - Along Came a Spider
Qual a probabilidade de algo dar errado num projeto que envolve Alice Cooper fazendo um disco conceitual sobre um assassino serial? Zero. Along Came a Spider mostra que a década atual tem sido excelente para o cantor, que vem lançando bons álbuns com uma regularidade impressionante. E este mais recente trabalho deixa claro que seu hard rock, feito com honestidade e sem frescuras, continua servindo como modelo para qualquer banda nova que deseje se aventurar pelo estilo.
























4 - Black Ice
Sem gravar desde o começo da década, muita gente jurava que o AC/DC já estava aposentado. Black Ice, porém, caiu como um petardo, reunindo os melhores elementos da sonoridade do grupo, com os vocais rasgados de Brian Johnson e a guitarra __________ de Angus Young (ainda não inventaram um adjetivo apropriado para isso). Só o primeiro single de trabalho, Rock N Roll Train, já mostra que o AC/DC tem muita lenha para queimar. Dedos cruzados para eles passarem por aqui este ano.
























3 - Death Magnetic
É um CD perfeito? Não, está longe de ser. Mas é um ótimo CD e – apesar disso já ter sido falado tantas vezes – é o melhor CD deles, desde o Black Album, do longínquo 1991. Não é um Master of Puppets ou um ...And Justice for All, mas é um ótimo disco, pesado e com o Metallica (finalmente) soando como Metallica. Sinal de que, quando os caras querem, eles conseguem fazer um som de qualidade. O próximo disco, porém, será definitivo: ou colocará a banda de volta ao topo, ou encerrará a carreira dos caras, mostrando que Death Magnetic foi apenas a “melhora-antes-da-morte”.


















2 - Show do Ozzy
Semanas antes do show, diziam que ele não se agüentaria de pé no palco. Estavam errados. Em sua passagem pelo Brasil, Ozzy fez um show irretocável, cantando (excelentes) músicas novas e clássicos obrigatórios. Desde o vídeo de abertura, com o Madman satirizando diversos filmes e séries de sucesso até o encerramento com Paranoid (passando, claro, por No More Tears), foi tudo praticamente perfeito. A voz dele falha, às vezes? Sim. Não importa. Paranoid, Iron Man e War Pigs significam mais para a história do heavy metal tudo o que o Linkin’ Park fez na vida.
















1 - Show do Iron Maiden
Sim, foi a terceira vez que eu assisti aos ingleses tocando em São Paulo, mas, foi, de longe, o melhor show da minha vida. Não apenas pelo desempenho – sempre irrepreensível deles – mas pelo setlist escolhido a dedo, com sucessos dos anos 80 - ou seja, todas as músicas que me ensinaram a gostar da banda e que eu apenas sonhava em assistir ao vivo, já que não eram mais executadas em turnês: Aces High, Rime of the Ancient Mariner, Powerslave, Wasted Years. Acredito que será difícil – ao menos por um bom tempo – outro show mexer tanto comigo.

19 de novembro de 2008

Pegando no Tranco

Vamos tentando espantar o bloqueio criativo com a arma mais clichê do mundo: memes. Ou, na verdade, um meme. A Mary deixou aqui nos comentários um convite (ao mesmo tempo em que o Tyler me passava isso por msn) e achei interessante: tenho que responder algumas perguntas sobre minha vida usando apenas nomes de canções de uma determinada banda.

Ou seja, no meu caso, é mais difícil escolher a banda do que responder: afinal, enquanto Iron Maiden é como religião para mim, os The Bits passam bastante tempo ao meu lado também. Na dúvida, resolvi fazer duas versões, uma para cada um.

Então, sem mais delongas, deixo as duas versões com vocês. E não vou indicar o meme para ninguém: se você quiser responder, por favor, sinta-se a vontade e faça o mesmo no seu blog, avisando aqui nos comentários (caso sua banda escolhida seja algo como Calcinha Preta, Calypso, ou coisa do gênero, NÃO me avise, por favor. E deixe meus leitores fora disso.)

Versão The Bits (inclui covers, já que algumas músicas são mais famosas na versão deles)

1) É homem ou mulher
Mr. Moonlight

2) Descreva-se:
The Fool on the Hill

3) O que as pessoas acham de você?
Nowhere Man

4) Como você descreveria o seu último relacionamento?
All Things Must Pass

5) Descreva o estado atual da sua relação com a sua namorada ou pretendente?
All my Loving

6) Onde gostaria de estar agora?
Yellow Submarine ou Octopus's Garden. Ou ainda na The Long and Widing Road

7) O que pensa a respeito do amor?
Magical Mistery Tour

8) Como é a sua vida?
With a Little Help from my Friends

9) O que pediria, se pudesse ter só um desejo?
Twist and Shout

10) Escreva uma frase sábia
Everybody's got Something to Hide Except fot Me and My Monkey


Versão Iron Maiden

1) É homem ou mulher
The Wicker Man

2) Descreva-se:
Stranger in a Strange Land

3) O que as pessoas acham de você?
Public Enema Number One. Ou The Nomad.

4) Como você descreveria o seu último relacionamento?
Holy Smoke (como bem lembrou o Tyler, meu último relacionamento foi com o cigarro)

5) Descreva o estado atual da sua relação com a sua namorada ou pretendente?
From Here to Eternity

6) Onde gostaria de estar agora?
22 Acacia Avenue.

7) O que pensa a respeito do amor?
Sea of Madness

8) Como é a sua vida?
Heaven can Wait

9) O que pediria, se pudesse ter só um desejo?
To Tame a Land

10) Escreva uma frase sábia
Only the Good Die Young

10 de julho de 2008

Por um Punhado de Dólares - Parte Final

Talvez se eu tivesse entrado diretamente na seção de CDs, sem ir olhar o Wii Fit, minha vida teria sido mais fácil naqueles corredores. Mas o Wii Fit estragou tudo. Todo o meu emocional estava abalado. Semanas de trabalho foram jogadas fora em poucos minutos. Meu corpo tremia, eu suava frio. Eu precisava comprar alguma coisa – qualquer coisa – e estava no lugar ideal para isso.

Minhas pernas, novamente, me traíram e resolveram assumir o controle da situação. Ou seja, a hora que percebi, já estava no meio da área com CDs de pop / rock. Peguei a minha chave e a encostei no pescoço, bem na jugular. Se as pernas tentassem me levar para a prateleira de hardo rock / heavy metal, eu acabaria com tudo ali.

Elas viram que eu não estava blefando e me deram um pouco de controle. Respirei fundo e arrisquei alguns passos entre as prateleiras. Eu andava na ponta dos pés, para não acordar os CDs. Não queria que eles me vissem ali naquela situação humilhante. E também não queria que eles soubessem que eu estava ali sem meu cartão – afinal, não é porque eu decidi parar de comprar tudo que isso me dá o direito de magoá-los dessa forma.

Dei uma volta por ali e meus dedos começaram a coçar. Eu precisava segurar alguma coisa. Eu precisava manusear um CD, sentir a textura da caixinha, ver o nome das músicas no verso. O problema é que, no estado que eu me encontrava, isso seria praticamente pedir para eu entrar em transe novamente e acordar na fila do caixa, com 19 CDs na mão.

A não ser que fosse algo deliberadamente ruim. Mas ruim mesmo, não ruim como um St.Anger do Metallica, que é péssimo mas eu quero assim mesmo por causa da coleção. Talvez essa seja a saída. Talvez eu deva começar a gostar só de coisas ruins. O problema é, que na minha ânsia de comprar qualquer coisa, se eu achasse algo ruim e barato, o tiro poderia sair pela culatra e eu tomar gosto pela coisa. Ou seja, eu deixaria de ser um colecionador e me tornaria num catador de lixo e passaria o resto da minha vida acumulando CDs de R$ 9,90 e implorando pela compreensão dos amigos.

– Rob, você tem todos os CDs do Judas Priest, mas tem todos do Latino também?

– É...

– Mas por que isso?

– Ah, eu estava no Carrefour e esses do Latino estavam baratos.

– Você tem um CD do Chiclete com Banana!

– É, é uma coletânea. Paguei R$ 11,00, lá na Teodoro.

– Mas, Rob, por quê?

– Eu não tenho mais dinheiro, ok? Já foi difícil demais ter que aprender a gostar dessas merdas, não preciso das pessoas me julgando também!

Abri os olhos e voltei à realidade. Eu estava chorando. Eu precisava ir embora dali. Mas, ao mesmo tempo, eu precisava segurar um CD. Talvez se eu achasse algo que fosse ruim e caro ao mesmo tempo, o plano funcionaria, ao menos nesse momento. Olhei ao redor e não vi ninguém perto de mim. Parei na letra B e comecei a olhar os CDs da Britney Spears. Peguei uns quatro CDs dela e fiquei admirando as capinhas, imaginando ter um box do Megadeth na mão.

A coceira nas mãos diminuiu um pouco. Não passou, mas se tornou suportável. Os Vigilantes dos Gastos ficariam orgulhosos de mim. Talvez, se eu segurar algo pior ainda – e caro – a coceira passe de vez. Decidi ir até a prateleira de rock nacional, certo de que acharia algo do CPM 22 ali. Bastava segurar o CD, imaginar que estava com um Best of duplo do Alice Cooper nas mãos e pronto. Isso me acalmaria.

Todo orgulhoso do meu plano, virei as costas apenas para dar de cara com uma prateleira repleta de CDs do Iron Maiden expostos. Ali, na minha frente. Todos eles me encarando, em silêncio e com olhar de decepção. Eles haviam me visto com os CDs da Britney Spears na mão! E, no meio deles, vi de longe uma capa que eu não reconheci de imediato. Era um CD do Iron Maiden que eu não tinha! Deus, por quê? Não bastava o Wii Fit? Mas, antes que eu pudesse olhar o CD com calma, um Powerslave, bem no centro da prateleira, deu uma tragada longa no cigarro e disse:

– Rob, você é nosso fã e nós amamos você. Mas nunca mais fique contra a famiglia novamente.

Joguei os CDs da Britney Spears para o alto e saí correndo e gritando “me desculpem!” e fui me refugiar no local mais seguro que encontrei: a prateleira de reggae, onde a chance de eu encontrar algo interessante é menor que zero. Me abaixei ali e comecei a chorar, decidido a ficar escondido naquele canto até todos aqueles CDs do Iron Maiden serem vendidos e eu poder ir embora. Mas o cheiro de maconha que vinha dos CDs do Bob Marley começou a me deixar enjoado. E a possibilidade de um CD novo do Iron estar a cinco metros de mim não ajudava muito.

Fazendo de tudo para que os CDs do Iron não me vissem ali, coloquei um pedacinho do rosto para fora da prateleira de reggae e arrisquei uma espiada com um olho só na direção do CD novo.

Era uma capa azul. Só consegui ver isso, porque, na mesma hora, um dos atendentes da Fnac parou na frente da prateleira e começou a arrumar os CDs. Eu sabia que não teria outra chance e precisava agir rápido. Aproveitando que ele estava entre eu e o CD novo, saí correndo para as escadas. No caminho, aproveitei e chutei uma pilha de The Shield – 4ª Temporada, para evitar que os packs me agarrassem. Subi as escadas, passei pelos caixas – fazendo gestos obscenos para todos eles, filhos da puta que se comportam como traficantes e arrancam meu dinheiro –, pulei uma pilha de Wii Fit e corri para a rua. Pensei em atravessar a praça e ir me esconder na banca de jornal do outro lado, mas aí seria brincar demais com a sorte.

Vim me esconder aqui no trabalho. Estou aqui até agora. E só saio daqui as 22:00, depois que a Fnac fechar. Eu já procurei o CD do Iron Maiden na internet, e vi que se trata apenas de uma coletânea com músicas que eu já tenho. Ou seja, é um CD inofensivo.

Ou não. Porque se eu sair daqui agora, eu vou querer ver o CD. E se eu segurar o CD na mão, vai dar merda. Eu sei que vai.

Desculpe, Powerslave. Eu ainda não estou pronto.

E, como tenho que enrolar aqui até a Fnac fechar, deixo o Top 5 coisas que não vou parar de comprar / gastar nem a pau:

1. Churrascaria – Não me importo de ir numa churrascaria daquelas de R$1,99, que servem carne de cavalo e de menor-abandonado. Mas não tenho como perder dois vícios de uma vez.

2. Biblioteca Histórica Marvel – Em alguns momentos, eu gosto mais desses livros (caríssimos) que contam as primeiras aventuras dos heróis Marvel do que de mim mesmo.

3. Miniaturas de Chumbo de Star Wars – Mas aí não é gasto, é investimento. Eu nem gosto delas, mas estou comprando isso porque um dia vou ter um filho e ele vai gostar de ter isso em casa. Ele não vai poder encostar, claro, mas será dele também.

4. O disco novo do Judas Priest – Eles anunciaram o disco antes de eu decidir parar de gastar. Como a lei não é retroativa, eu posso comprar.

5. O disco novo do Alice Cooper – Ver motivo acima.

6 de julho de 2008

Por um Punhado de Dólares - Parte II

Me enchi de coragem, acendi um cigarro, e atravessei a rua com passos decididos. Estava na hora de mostrar ao mundo que eu controlo meu destino, e a Fnac não interfere com isso de forma alguma. As pessoas querem que eu seja maduro e responsável com meu dinheiro? Vou mostrar a elas o que é responsabilidade. Vou entrar na Fnac, andar pela loja inteira e sair de lá sem comprar nada. E eu faço isso a hora que quiser. Sou muito mais forte que isso.

Por outro lado, como eu sou eu, achei melhor deixar a carteira no trabalho.

Apaguei o cigarro, entrei e parei dois metros depois da porta. A Fnac parecia ter sobrevivido muito bem ao nosso rompimento. Pessoas de todos os tipos andavam para pela loja, conversando com os vendedores e escolhendo o que comprar. O perfume de produtos novos, prontos para serem adquiridos, invadiu minhas narinas e me deixou embriagado. TVs de plasma, computadores, CDs, DVDs, livros, aparelhos de som começaram a bailar na minha mente – usando uma enorme etiqueta de preço escrita “parcelamos em 10 vezes” como pista de dança. Aquilo era demais para mim. Meu coração estava disparado. Uma lágrima rolava pela minha face. Consegui apenas levantar os braços e gritar:

– Eu adoro o cheiro de comércio pela manhã!

O problema é que eu entrei na Fnac certo de pensando apenas em resistir a um determinado tipo de gasto. Existem dois tipos de produtos à venda: aqueles que você quer e aqueles que você só descobre que quer quando existe. Eu me preparei para não ser afetado pelo segundo tipo, mas ignorei o primeiro. E esse foi meu erro. Porque eu mal havia dado cinco passos dentro da loja, e vi um brilho estranho vindo da seção de videogames. Senti um aperto no estômago – eu sabia que o que quer que fosse aquele brilho, ele brilhava para mim – e fui até lá.

Parei atrás de um monitor de 29 polegadas e, ficando na ponta dos pés (1.60m mode: on), dei uma espiada por cima dele, na direção daquela luz mágica.

E vi uma pilha de caixas do Wii Fit.

Eu não senti mais as pernas. Eu estou lendo sobre o Wii Fit desde o começo do ano e a certeza de que eu compraria o negócio no momento em que eu o encontrasse em alguma loja aumentava a cada dia. Mas, por outro lado, eu não contava com o fato de ele ser lançado no meio do meu ramadã financeiro. Entrei em pânico. Todos os meus neurônios começaram a fazer coreografias, cada um com um par de pompons nas mãos, fazendo coro de “Consumo! Consumo!”. Só havia uma coisa a fazer. Peguei o telefone e liguei para a Sra. Gordon:

– Sabe o que eu acabei de ver na Fnac?

– Você não vai comprar!

– Não, eu estou até sem cartão. Queria apenas dizer que eles já receberam o...

– Esquece!

– Mas eu liguei só para dizer que eles já têm o...

– Rob, chega! Esquece! Você não vai comprar nada!

– Mas será que...

– Não!

– Mesmo?

– Sim.

– Esse “Sim” que você disse foi para o “Mesmo?”, certo? Esse “Sim” não foi para o... Hum... Para o... Ah, para aquela outra coisa. Você sabe.

– Rob?

– Oi.

– Tchau.

E desligou. Olhei meu celular. Será que a Fnac aceitaria um aparelho Sony Ericsson como entrada no Wii Fit? Por que aí seria escambo, eu não estaria comprando nada. É isso! Achei uma brecha na lei!

Comecei a andar até o vendedor mais próximo, preparando meu discurso. Se ele aceitasse, eu levaria o Wii Fit e para casa, pegaria o carregador do celular e traria para eles. Mesmo porque, com um Wii Fit em casa, eu não precisaria de celular mesmo, porque eu não iria atender ninguém. Estava limpando o celular na calça, para torná-lo mais atraente aos olhos do vendedor, quando senti uma vibração na mão. Era uma mensagem de texto da Sra. Gordon.

“Comprou, morreu.”

Suspirei e guardei o celular no bolso. Por mais que eu quisesse sair da loja, meu cérebro queria olhar o Wii Fit mais de perto. Tentei ir embora, juro. Mas, antes que eu percebesse o que minhas pernas estavam fazendo, eu estava na frente da pilha de caixas de Wii Fit, admirando aquilo de perto. Sim, ao lado da pilha tinha uma etiqueta com três algarismos – e o primeiro deles era 5 – mas nem dei atenção. Eu não conseguia tirar os olhos do Wii Fit.

Fiquei ali feito um dos macacos do começo de 2001, na cena em que o monólito aparece pela primeira vez. Eu tocava de leve na caixa e rapidamente tirava a mão, com medo de me machucar. Dei uma olhada para os lados e, como ninguém estava olhando, dei uma cheirada de leve na caixa. O perfume daquele papelão louco para ser aberto com uma tesoura na minha sala começou a me deixar maluco.

Tentei fazer um acordo com meu cérebro, dizendo que se ele me colocasse em uma espécie de transe e só fizesse eu voltar a mim na calçada, com o Wii Fit dentro uma sacola, eu não ficaria bravo com ele. Mas ele estava ocupado lendo as especificações técnicas do aparelho e não ouviu. Comecei a fazer contas. Se eu deixar de almoçar por ano, eu recupero esse dinheiro fácil. E, se alguém perguntar a razão disso, eu digo que a balança do Wii Fit disse que estou gordo. Merda, porque não acontece uma guerra civil no país? Assim, eu viveria daqueles mantimentos que a Cruz Vermelha entrega para os refugiados e poderia comprar meu Wii Fit. Merda de país.

Meus pensamentos foram interrompidos por um movimento ao meu lado. Era um dos vendedores da Fnac que se aproximou da pilha. Fiquei com medo de alguém estar comprando aquilo. Porque eu me conheço, se eu visse que alguém estava levando um Wii Fit para o filho, eu sairia da loja na mesma hora e esperaria a pessoa na calçada, com uma meia na cabeça, pronto para pegar aquilo e sair correndo pela Pedroso de Moraes. Mas não era nada disso, ele apenas colocou outra etiqueta em cima da pilha. Olhei de relance e li apenas:


EXCLUSIVAMENTE HOJE

COMPRE O WII FIT E GANHE...


Dei um berro histérico. Aquilo era demais. Eu nem li o resto, porque aquele era meu limite. Um brinde é tudo o que eu preciso para entregar a alma. Mesmo se o brinde do Wii Fit fosse um apontador de lápis, eu não iria resistir. Empurrei o vendedor e saí correndo, sem nem mesmo olhar a direção que eu seguia.

Eu precisava ficar apenas longe daquele maldito Wii Fit. Quase atropelei uma velhinha e desci correndo as escadas rolantes. Quando eu percebi onde estava, era tarde demais. Eu havia descido diretamente para um dos Círculos do Inferno.

Na ânsia de escapar do Wii Fit, acabei parando no coração da seção de CDs e DVDs. E eu sabia que dificilmente sairia vivo dali.

(continua...)