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12 de setembro de 2022

O Estranho Mundo da Máquina de Lavar Louças

Quando eu era moleque, meu pai trouxe um Tangram para casa. Acho que ele tinha ganhado numa gráfica e me deu de presente. Para quem não sabe, Tangram é um quebra-cabeça chinês com sete peças de tamanhos diferentes, que você pode usar para montar quais figuras quiser.

Exatamente igual à máquina de lavar louças aqui em casa, com duas diferenças. A primeira é que as peças da máquina de lavar louças não são sete, mas sim cerca de 400. E elas mudam de formato cada vez que eu preciso colocar a louça para lavar.

Veja bem, eu sou totalmente a favor da modernidade. Acho fantástico poder comer em pratos limpos e saber que existe um aparelho por trás disso. O problema é que eu preciso que inventem outro aparelho que seja encarregado de colocar a louça na máquina, porque eu não tenho a menor capacidade de fazer isso sozinho.

A parte dos talheres eu confesso que é fácil. É tipo o level easy. Você tem um monte de espaços iguais e vai simplesmente colocando facas, colheres e garfos. E as colheres menores você coloca na lateral, em espaços parecidos.

A segunda gaveta, dos copos, também me parece ser de boa. Você coloca os copos ou canecas um do lado do outro, sempre virados para baixo. E tem até um espaço pequeno no meio para você encaixar xícaras pequenas e copos delicados.

Só que a zona já começa aí, porque coisas como faca de pão ou colher de pau – que, até onde imagino, são talheres – não vão junto com os talheres. Eles vão junto com os copos. E calma que as coisas pioram. Elas vão junto com os talheres sem ter um lugar para isso. Sim, é isso mesmo. Você coloca a colher de pau no meio dos copos e ela que lute lá dentro.

Para deixar mais claro, os talheres grandes formam um grupo étnico que não é protegido por lei nenhuma. É uma minoria vítima de preconceito que que está ansiosamente aguardando por uma reforma na Constituição.

Agora, o problema mesmo está na terceira gaveta. Teoricamente, é onde ficam os pratos. Mas, na verdade, o nome dessa gaveta é “Tudo aquilo que não é talher ou copo”. Então, estamos falando de pratos, mas também de travessas, panelas, potes, assadeiras e por aí vai (se quiser colocar talheres grandes aqui, pode colocar também, porque ninguém se importa com eles). E tudo isso num espaço, evidentemente, limitado.

Então às vezes eu tenho 8 pratos, 3 panelas e uma assadeira. Os oito pratos são fáceis, eles têm lugar marcado. Aí, com sorte, eu consigo colocar uma das panelas, meio por cima de tudo. Ela fica meio bamba, como se fosse o Bêbado e a Equilibrista ao mesmo tempo, mas consigo empurrar a gaveta e fechar a máquina (e depois que a máquina fecha, fica bem fácil ignorar que as coisas estão bagunçadas lá dentro e ir jogar videogame).

O problema é que eu ainda tenho um problema. Ou melhor, eu ainda tenho três problemas, na forma de duas outras panelas e uma assadeira.

É aí que entra o Tangram. Tira a panela e coloca a assadeira. Coloca uma das panelas por cima da assadeira. Grita que “não foi nada, não ouvi barulho nenhum, deve ter sido na rua” e pega a panela que caiu no chão. Tira a assadeira e coloca as três panelas empilhadas em cima dos pratos, para ver se elas têm alguma ideia. Tira as panelas e os pratos e coloca a assadeira. Tira a assadeira porque desse jeito cabem só dois pratos. Tira todos os pratos, a assadeira, as panelas e começa colocando as panelas. Descobre que assim não cabe prato nenhum. Tira as panelas e coloca os pratos. Pega a panela que caiu no chão de novo e grita que “esse barulho não foi na cozinha, deve ter sido o gato!”. Pensa se alguém iria sentir falta da assadeira se ela acidentalmente caísse pela janela. Tira os pratos para pensar com calma e coloca tudo de volta na pia. Descobre que tem uma vasilha na pia que você tinha esquecido na pia. Senta no chão e chora por dez minutos. Levanta, enfia os pratos na máquina e coloca a assadeira por cima deles. Sobe na máquina e fica pulando em cima da assadeira para abrir espaço para as panelas. Desiste de tudo e vai pedir ajuda para um adulto.

– Ana, você pode me ajudar aqui?

– O que foi?

– Essas coisas não cabem na máquina.

  Claro que cabe. Já coloquei mais coisas antes.

– Não cabe. Olha só. Os pratos vão aqui. Agora eu tenho um espaço de mais dois pratos, e três panelas e essa merda de assadeira.

– E essa vasilha.

– Sim! A vasilha também. Não cabe! Olha aqui como assadeira não entra.

– Aperta que entra.

– NÃO ENTRA! É APERTADO DEMAIS! OLHA SÓ!

– É só fazer com calma. Já tentou colocar por trás?

– POR TRÁS É AINDA MAIS APERTADO! NÃO DÁ!

De repente, eu paro e penso no que os vizinhos podem estar pensando sobre aquele diálogo. Aliás, podem não. Eles estão pensando. Eu sei porque eu pensaria o mesmo. Tudo que eu queria era lavar a assadeira, e consegui apenas me tornar algo alvo de fofocas no prédio.

– Pera aí, Ana. Deixa eu resolver isso antes.

Vou até a janela, coloco a cabeça para fora e grito.

– Oi! Sou eu aqui do primeiro andar! Não é nada disso que você estão pensando. É que a gente está usando uma máquina aqui. Beleza?

Durante dois segundos, tudo o que existe é um silêncio ensurdecedor vindo da rua... Até que ele cortado por uma gargalhada abafada vindo do segundo ou do terceiro andar. É quando eu percebo o que fiz.

– Eu não devia ter falado da máquina. Piorou toda a situação. Merda.

Papai, não fala merda.

– Tá bom, Felipe! Ana, me mostra como coloca isso aí.

Cara, é impressionante. Ela arregaça as mangas e olha para a máquina de lavar. Aí olha para a louça. De repente ela pega a assadeira e coloca ao lado dos pratos. Distribui as panelas de forma equitativa por cima dos pratos, com uma presa na outra, de forma que nenhuma caiba. E aproveita um pequeno espaço que sobrou para colocar a vasilha, que fica presa e dá mais firmeza para os pratos. Tudo isso em três segundos.

– Não vale. Você fez arquitetura. Aí fica fácil.

– Mas antes de você ligar, deixa eu ver como você colocou os talheres.

– Os talheres? Por que você quer isso? Os talheres eu sei fazer.

– Deixa ver.

Aí ela abre a gaveta dos talheres e descobre que metade das colheres está caída por cima da outra metade. Ou seja, tudo vai ficar meio sujo.

– Tá vendo?

– Mas, pera aí. Essa colher é grande.

– Sim. Ela é de sopa. E daí?

– E daí que ela tem tamanho suficiente para saber como se comportar dentro da máquina. Aliás, talvez essas duas colheres estejam abraçadas porque elas decidiram isso. Já pensou nisso? Elas são adultas e donas da própria vida. Eu acho que a gente tem que respeitar.

– Então...

– Se fosse essa pequenininha aqui, eu entendo. E concordo. Essa colher de café aqui é pequena demais e precisa de um cuidado especial. Tanto é que ela fica separada. Tá vendo?

– Essa colher não é de café. É de chá.

– Então, isso é elitismo da sua parte, Ana. Eu não fico rotulando as coisas desse jeito. Não acho isso correto. Existe colher pequena, colher média e colher grande. O ponto é que as colheres grandes podem fazer o que quiserem da vida delas.

– Concordo. E você pode depois colocar todas elas de volta para lavar mais uma vez.

Como rebater um argumento desses? Aí vou eu recolocar as colheres com calma, para evitar que a putaria comece assim que eu fechar a máquina. Faço isso já imaginando que a lava louças é um misto de sala escura com hidromassagem dos talheres, onde ninguém é de ninguém, os limites não existem e os prazeres são infinitos... E eu que tenho que limpar tudo depois.

Então, coloco tudo com calma e, antes de fechar, escorrego dois envelopes de camisinha lá para dentro, sem a Ana ver. Certeza que quando eu abrir a máquina, eles vão estar vazios. Aí fecho a máquina, aperto os botões na ordem certa...

E acende uma luz vermelha e dispara um alarme.

- CORRE ANA! PEGA O FELIPE E CORRE!

- Que foi?

– A MÁQUINA ACIONOU A AUTODESTRUIÇÃO! JÁ É TARDE PRA LOUÇA MAS VOCÊ AINDA PODE SE SALVAR! CORRE!

Aí eu corro pela sala – pisando nas malditas peças de Lego que vivem espalhadas pela casa – e me atiro atrás do sofá. Fecho os olhos e...

E nada.

Coloco os olhos para fora do sofá. A casa está inteira, a máquina está funcionando. E a Ana está parada olhando para mim.

– Essa luz vermelha é porque acabou o líquido secante.

– O o quê?

– O líquido secante. Como está sem, a louça vai estar molhada depois. É só isso.

– Espera. Líquido secante?

– Sim.

– LÍQUIDO. SECANTE. É isso mesmo?

– Sim.

– Isso não faz sentido. Como pode existir um líquido secante? Você molha a louça com um líquido para ela ficar seca? Isso é um erro de conceito.

Talvez no começo do casamento ela pacientemente me explicaria como isso funciona. Mas agora ela sabe que não vale mais a pena. Simplesmente vai continuar o que estava fazendo e me deixa ali.

Vou até a cozinha e olho para a máquina de lavar louças. Tirando a luz vermelha do maldito líquido secante, parece que está tudo bem lá dentro. Até coloco a orelha encostada nela, para ver se ouço alguma colher gemendo, mas escuto apenas o motor e a água mexendo.

E de repente percebo que me tornei um homem das cavernas que vê sua primeira tempestade. Eu não entendo direito como aquilo funciona, mas tenho certeza que os deuses estão envolvidos naquele processo de colheres que copulam, assadeiras que mudam de tamanho e líquidos mágicos que secam as coisas.

– Essa merda deve ser bruxaria.

– Papai, não fala merda.

– Tá bom, Felipe. Tá bom.

5 de março de 2018

(I Can't Get No) Vaccination

Faz mais ou menos duas semanas que estamos nos preparando, aqui em casa, para um evento razoavelmente importante: o dia do meu filho tomar as primeiras vacinas. Quer dizer, as segundas vacinas, porque as primeiras ele tomou na maternidade.

Na verdade, eu só percebi que essa ocasião seria algo marcante na minha vida quando comentava isso com as pessoas. Quem não tinha filhos, encarava como algo normal. Mas, aqueles que são pais, ao ouvirem que “no próximo sábado ele vai tomar vacinas”, apenas colocavam a mão no meu ombro e assumiam uma expressão que ficava no meio do caminho entre pena e preocupação.

“Boa sorte”, todos me diziam.

“Quem precisa de sorte é meu filho, né?”, eu respondia.

“Não.”

“Mas é ele quem vai tomar as vacinas. Eu só vou estar ali ao lado”.

Assim que eu respondia isso, eles suspiravam e me olhavam como se eu fosse uma criança dando palpites em conversas de adultos. Na terceira ou quarta vez que ganhei esse olhar, decidi simplesmente agradecer o boa sorte e mais nada.

Finalmente, no dia marcado, eu, a Esposa e meu filho entramos, debaixo de um calor infernal, na clínica que aplica as vacinas. A mulher da recepção nos recebeu com um sorriso de orelha a orelha e nos indicou para a sala de um médico. E aí começou o problema.

Veja bem, meu filho estava ali para tomar vacinas, e muitas delas poderiam ter reações adversas. E eu queria ouvir o médico, porque me recuso a olhar esse tipo de coisa na internet. Vocês já repararam como qualquer coisa relacionada à saúde é mais grave na internet? É só olhar o fórum de maternidade que a Esposa participa.

“Meu filho tomou a vacina X e o pinto dele caiu. Devo ir no pediatra?”

“Ontem minha filha tomou a vacina Y e agora ela está brilhando como uma lâmpada. Isso é  normal, meninas? Minha conta de luz vai aumentar?”

Não. Olhar na internet nunca funciona. Eu queria mesmo era falar com o médico. E essa conversa não seria complicada. Como já havíamos falado com o pediatra, achei que o médico fosse apenas confirmar tudo o que o pediatra disse.

Eu estava enganado. Quer dizer, talvez o médico tenha apenas repetido o que o pediatra disse. Mas eu não posso dizer isso com certeza, porque o médico da clínica tinha um problema de fala – parecia uma língua presa multiplicada à décima potência – que tornava algumas de suas palavras incompreensíveis. E o engraçado é que isso acontecia sempre nos momentos mais importantes de cada frase.

“Essa vacina aqui é extremamente importante, porque laqvaipedseufilplodi. E temos que tomar cuidado porque, às vezes, ançameçatardenejo e aí podemos ter castrementegravearo”.

“Oi?”

“Castrementegravearo. Entendeu?”

“Bem...”

“Mas, claro, senhor Rob, o seu filho pode semunetodpécidença e isso faria com que ele assecinasetassenolho. Mas isso somente em casos raros.”

“Espera, o que mesmo somente em casos raros?”

“Seu filho assecinasetassenolhar.”

“O que é isso mesmo?”

“Uma consequência da semunetodpécidença.”

“Ah.”

“Vamos tomar as vacinas?”

“Você pode falar um pouco mais sobre aquele castrementegravearo?”

“Está aqui no papel”.

“Ah. Ok. O papel está em português, né?”

Enfim, fomos até o caixa e pagamos as vacinas. Só achei meio engraçado o fato de que uma vacina para impedir uma doença provavelmente custa mais que o tratamento da doença; mas, acredite, quando você é pai, isso ainda é bom negócio. E, de repente, estávamos na sala de espera.

E foi aí que o pesadelo começou.

Aqueles dez minutos na sala de espera foram uma das experiências mais traumáticas da minha vida. Havia três portas fechadas a nossa frente. Atrás de cada porta, havia uma sala. Em cada sala, havia apenas (pelo menos) uma criança. Todas elas choravam desesperadamente. Ouvi também barulho de correntes vindo de uma sala – e tenho quase certeza que escutei um tiro sendo disparado atrás da porta do meio (coincidentemente, o som de choro daquele sala parou logo após o tiro).

E eu ali, com meu filho no colo, me sentindo como se estivesse na sala de espera do consultório do Mengele.

Na minha cabeça, todas as salas atrás daquelas portas eram sujas e escuras, parecidas com o porão de uma casa abandonada. Eu depositaria meu filho em uma cama suja, onde ele seria amarrado e, horas depois, abriria os olhos e encontraria ao seu lado algumas seringas de vacina e um pequeno gravador. Ao dar play, ele ouviria a frase:

“Hello, Filho do Rob. I want to play a game.”

Aos poucos, as crianças iam saindo da sala. Todas saíam chorando. Todas, menos uma, que saiu mancando, com os olhos arregalados e uma expressão de quem nunca mais iria sorrir na vida. Quando os pais dela se distraíram, eu me abaixei e perguntei baixinho:

“Cara, o que aconteceu lá dentro? Você tem alguma dica?”

O menino olhou para mim e vi que tentar qualquer tipo de comunicação seria inútil. Seu olhar era vazio, como alguém que havia visto a morte de perto – mas, ao invés de uma foice, a morte carregava uma seringa enorme. Aquela criança nunca mais iria falar coisas coerentes. Creio que foi nesse momento que eu decidi que se o Zé Gotinha se candidatar a qualquer cargo público, ele terá meu voto.

A fila foi andando e respirei fundo. Eu olhava as três portas, tentando imaginar onde entraríamos. Era como se fosse um programa de auditório roteirizado pelo Freddy Krueger. Demônios aplaudindo na plateia, cenário decorado com crianças sendo torturadas e o apresentador sorrindo e anunciando os próximos competidores – que, no caso, éramos nós.

“Rob! É hora de você e sua família escolherem uma porta! Uma delas leva a uma sala com centenas de cobras! Outra leva ao quinto círculo do inferno! E a terceira fará você experimentar uma chuva de navalhas! Onde você e sua família vão entrar?”

“Eu queria só ir embora daqui.”

“Não. Essa porta nós não temos.”

“A gente não pode ficar na sala de espera sem escolher porta nenhuma? Eu prometo que não vamos atrapalhar nem ficar no caminho de ninguém”.
“FILHO DO ROB GORDON!”
Ao ouvir meu nome, abri os olhos – eu nem havia percebido que eles estavam fechados – e dei de cara com a porta do meio aberta e uma enfermeira esperando por nós. Pelo que entendi, como demorei para escolher uma das portas, escolheram por mim. Assim, eu, a Esposa e nosso filho entramos na sala.

Era pequena, com uma maca no meio. Procurei por sinais de sangue no chão e nas paredes, mas não vi nada. Bom sinal. Na verdade, era uma sala normal, parecida com a de qualquer consultório médico. A única diferença era a enfermeira. Seu olhar era vidrado e o fato dela ficar dando risadinhas sempre que olhava para meu filho não ajudava em nada. Se estivéssemos num manicômio, eu teria certeza de que ela era uma paciente usando as roupas do enfermeiro que ela estrangulou horas antes.

“Vocês vieram tomar as vacinas, certo?”

“Não”, eu corrigi rapidamente. “Quem veio tomar é o bebê”.

“Certo, certo”. Ela deu mais uma risadinha, desta vez olhando diretamente para alguém atrás de mim. Virei a cabeça mas não havia ninguém ali. Quando olhei para ela de novo, percebi que ela encarava meu filho da mesma forma que um leão observaria um filhote de antílope. De repente, ela parou de sorrir e seus olhos ficaram ainda mais vidrados. Olhando para o vazio, ela murmurou:

“Vocês sabem dos perigos da vacina do rotavírus, certo?”

“Bem, nós sabemos que essa vac...”

“Não. Vocês não sabem. Ninguém sabe o poder do rotavírus. Mas eu vou explicar. A vacina para o rotavírus é muito violenta. E ela é violenta porque o rotavírus é violento com aqueles que são violentos com ele. Louvado seja o rotavírus.”

“Oi?”

“A vacina do rotavírus é violenta”.

“Sim. Essa parte eu entendi. O que você disse depois disso?”

“Nada. Eu estou apenas falando sobre a vacina do rotavírus. O seu filho irá receber os vírus vivos. E eles serão eliminados pelas fezes. Vocês vão precisar descartar as fezes do bebê”.

Pensei em perguntar o que ela achava que nós fazíamos com as fezes do meu filho, mas ela já estava falando novamente.

“As fraldas precisam ser descartadas”, ela disse. “Caso contrário, o rotavírus irá se espalhar pela casa. E, depois da casa de vocês, pelo mundo, dando início a uma era de fogo e destruição. O planeta será coberto de enxofre e a fome e a peste se sentarão ao lado do rotavírus. Louvado seja o rotavírus”.

“Espera. Quem vai se sentar do lado de quem?”

“Nada, nada. Vocês precisam descartar as fraldas”.

“Mas nós meio que já fazemos isso. Aliás, a fralda chama fralda descartável justamente por causa disso.”

“Ela não pode ficar no lixo dentro da casa. Caso contrário, a família inteira será infectada”.

Certo. Então, aprendemos que o rotavírus é perigoso. Mas não acho que isso seja surpresa, já que estamos falando de um negócio chamado ROTA vírus. O vírus tem nome de polícia, é claro que ele ia ser perigoso, ainda mais no Brasil. Aposto que ele infecta primeiro e pede os documentos depois. Tenho certeza que o Rotavírus fica andando pelas periferias da cidade fazendo chacinas.

De qualquer forma, fiz uma anotação mental para conversar com a Esposa sobre jogar as fraldas no quintal da vizinha que deixa a piscina descoberta como uma espécie de resort para os mosquitos da dengue, e voltei minha atenção para a enfermeira. Ela estava de costas mexendo em instrumentos sobre uma bancada. De onde eu estava, consegui ver uma serra (com marcas de sangue) e uma foice de metal. Enquanto ela fazia isso, cantarolava baixinho alguma coisa sobre o rotavírus. Subitamente, ela se virou para nós com um tubo na mão. Seus olhos brilhavam.

“Vamos começar? A primeira vacina é a do rotavírus.”

“Certo.”

E sim, a parte do rotavírus foi tranquila, já que a vacina é via oral. Quer dizer, pelas caretas que meu filho fez, a enfermeira podia muito bem estar dando a ele vacina temperada com água de esgoto e muco, mas, no geral, foi fácil. Especialmente se comparado à vacina seguinte. A enfermeira voltou para sua bancada e começou a mexer em novos instrumentos. Um alicate. Uma motosserra. Por fim, escolheu uma lança.

Foi só quando olhei com cuidado que vi que não era uma lança, e sim uma seringa.

“Segurem o bebê”.

O tom de voz dela foi tão gélido que meu filho começou a chorar só de ouvir a frase.

Você já segurou seu filho na hora dele tomar vacina? Bom, se você já fez isso, diga aqui para mim nos comentários qual é a sensação, porque eu nunca fiz isso na vida. O que rolou foi que meu filho estava no colo da Esposa, a enfermeira se debruçou por cima dele como um anjo da morte e eu... Bem, eu fiquei paralizado, no meio da sala, querendo olhar para outro lado mas sem conseguir desviar os olhos.

Mas o problema foi quando a vacina terminou. Meu filho estava aos berros e a enfermeira decidiu pegar um chocalho para acalmá-lo. Mas não era um chocalho na forma de ursinho ou de abelhinha ou de qualquer coisa que um chocalho possa ser. Na verdade, era uma lata de algodão vazia e com algumas coisas (Pedras? Feijão? Dedos fossilizados de crianças?) dentro dele.

A enfermeira começou a balançar aquilo na cara do meu filho e da Esposa de um jeito meio frenético, e dançandinho, como se estivesse numa espécie de transe. Foi quando eu comecei a desconfiar que talvez tudo aquilo fizesse parte de algum ritual, e a alma do meu filho estava sendo entregue como alimento para alguma divindidade chamada rotavírus. Talvez a enfermeira até mesmo estivesse possuída pelo rotavírus naquele momento.

Quando o ritual acabou, ela se virou para o meu filho.

“Você está mais calmo?”

Meu filho continuou a gritar. Eu pensei em avisar a enfermeira que “olha, ele ainda não fala”, mas estava aterrorizado demais para falar qualquer coisa.

“Então vamos tomar o outro pic-pic”.

“Desculpe”, dessa vez, eu interrompi. “Pic-pic seria o quê, exatamente?”

“A outra vacina”.

“Ah... Pic de... Picada. É isso?”

“Isso. A vacina”.

Tive vontade de perguntar como as pessoas cantavam “parabéns para você” na casa dela, querendo saber se, na hora do “é pique-pique-pique” os convidados ficam enfiando seringas no corpo do aniversariante. Mas meus devaneios foram mais uma vez interrompidos quando vi o tamanho da segunda agulha. Se um dia a enfermeira precisasse atravessar um rio, ela poderia usar aquela agulha como ponte.

“Esta vai doer um pouco.”

“Um pouco? Qual seu conceito de pouco? Porque parece que a primeira injeção já d...”

“Segurem o bebê”.

Meu filho começou a chorar novamente antes mesmo da agulhada. E eu não o culpo, já que eu mesmo estava quase chorando só de ficar no mesmo ambiente que a Psicótica do Pic-Pic. Mais uma agulhada. Mais um grito. Mais um suspiro de prazer da enfermeira. Mais uma alma devorada pelo rotavírus. Louvado seja o rotavírus.

“Pronto. A criança está vacinada.”

“Certo”, eu disse, pegando a Esposa pelo braço e indo embora da sala o mais rápido possível. A cada passo, eu pedia desculpas para o meu filho. Quando pisamos na sala de espera, arrisquei uma olhada para trás. A enfermeira estava parada na porta e vi, pela primeira vez, que seus olhos eram vermelhos.

“Até o mês que vem”, ela disse sorrindo e fechou a porta. Mesmo com meu filho gritando, ouvi o barulho do chocalho ritualístico sendo usado e uma espécie de cântico num idioma que não reconheci.

Mês que vem eu vou levar um padre comigo.

21 de dezembro de 2017

12:12

Eu ainda nem tinha tomado café quando tivemos que correr para o hospital e isso depois de já passarmos a noite no pronto socorro quando a gente descobriu que era alarme falso mas dessa vez tudo ia acontecer de verdade porque a bolsa tinha estourado e entramos no hospital com ela tentando contar as contrações eu falando para a médica que esquecemos o ultrassom por causa da correria e a médica respondeu que trazer o ultrassom sempre é importante e eu mandei ela esquecer a merda do ultrassom e examinar a minha esposa e ela começou a fazer uns exames e eu corri para a administração para ver os documentos da internação e de lá corri para o segundo andar junto com uma enfermeira para deixar as malas no quarto e fui de volta para o primeiro andar onde me deram uma roupa verde igual a dos médicos e mandaram eu colocar por cima da roupa que eu estava usando e a calça não entrava porque eu tinha dois celulares e duas carteiras comigo e eu comecei a pular por aquela sala que parecia um vestiário desesperado tentando enfiar a calça por cima da bermuda jeans e tive uma crise de ódio e gritei um palavrão porque minha carteira não deixava a calça entrar e voltei correndo para fora para pedir uma calça maior e essa finalmente entrou e eu atravessei os corredores o mais rápido que pude enquanto colocava uma touca na cabeça perguntando para todo mundo onde ela está e quando finalmente entrei na sala mandaram eu colocar uma máscara e eu não conseguia amarrar aquilo de jeito nenhum na cabeça porque minhas mãos tremiam mas consegui dar um jeito provavelmente amarrando errado mas não me importei muito porque minha esposa estava gritando e a médica falou algo atravessado e eu pensei que vou ter que segurar minha esposa antes que ela dê um tapa na cara dessa médica e os gritos aumentaram e todo mundo falando que ela estava indo bem que estava quase nascendo e continue fazendo força e eu fiquei ali me sentindo um pouco inútil porque eu queria fazer força junto com ela mas não podia e o pouco que eu podia fazer era conversar com ela e dizer que amo muito ela e que tudo vai dar certo e todas aquelas frases que a gente sabe que ela nem está ouvindo mas que você diz mesmo assim e lembro de ter limpado uma lágrima do rosto da minha esposa e de repente a médica e todas as enfermeiras começaram a falar ao mesmo tempo e eu não sabia em qual delas eu prestava atenção e mesmo se soubesse não ia conseguir prestar atenção em nada que não fosse minha esposa mas de repente a médica falou que essa vai ser a última contração e eu me lembro de pensar que se podemos esperar só mais uns dois minutos porque eu não sei se ainda já estou pronto para isso mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa alguém que estava na sala começou a gritar que está vindo está vindo está vindo só mais um pouco

E, exatamente às 12:12, minha vida ganhou pontuação.

Ele olhou na minha direção. Seus olhos eram escuros e pequenos mas pareciam maiores que o mundo. E quando ele começou a chorar, eu chorei junto. Éramos duas crianças. Ele chorava porque havia acabado de nascer. Eu soluçava porque havia acabado de nascer de novo.

Enquanto nós dois chorávamos juntos, meu passado ganhou um novo significado. Memórias de mais de quatro décadas começaram a se movimentar dentro de mim. Meus sorrisos de criança se uniram com tudo o que aprontei na adolescência e com cada coisa que aprendi depois de adulto. Todas as minhas lembranças começaram a se comportar como peças de um quebra-cabeça que decidiram, por conta própria, se juntar e revelar o segredo que escondiam.

E a imagem que o quebra-cabeça formou era o rosto dele.

Foi então que entendi que tudo o que vivi nesses mais de quarenta anos não eram fatos isolados, e sim capítulos de uma história maior. Cada lembrança doce, cada lição aprendida, cada pequena conquista... Tudo havia me levado até ali. Cada instante da minha história havia me conduzido até aquele momento. Em direção àquele menininho.

No meio da correria das pessoas de verde, do falatório apressado, do choro do meu filho e da enormidade do futuro que se abria na minha frente, com todos os sonhos e medos e receios e desejos e cuidados e erros e aprendizados... Eu respirei fundo e pensei no meu pai. Fechei os olhos e enxerguei exatamente o que o meu pai significa para mim.

E tudo ficou mais claro. Dali em diante, cada passo que eu der precisa garantir que ele seja uma pessoa feliz. Cada escolha que eu fizer precisa transformar esse menininho em um homem melhor que eu. Agora, tudo o que eu sou, tudo o que fui e tudo o que eu possa ser um dia, é dele.

Foi neste momento que me tornei pai. E foi neste momento que eu percebi que havia passado a vida inteira querendo ser o pai do Felipe.

Eram 12:12 quando tudo fez sentido.

Abri os olhos e vi que alguém havia colocado meu filho sobre minha esposa. Ele estava deitado e assustado como um enfeite de cristal que, depois de ser desembrulhado e colocado em uma estante, olha ao redor para compreender aquele novo mundo. Mas ele não era feito de cristal. Ele era feito de de tudo o que eu sou. Ele era feito de amor.

Pela primeira vez na vida, me aproximei do rosto dele e, pensando no meu pai e pensando no meu filho, eu disse baixinho:

“Eu sou seu pai. E meu amor por você é maior que a vida”.


Eram 12:13 e eu ainda estava chorando.

Eram 12:12 quando eu comecei a
escrever o maior texto da minha vida.

23 de agosto de 2017

O Menino que Ainda Não Conheço e Outras Histórias de Amor

Foi de repente.

Minhas roupas estavam molhadas quando o sonho se transformou em notícia. Era uma sexta-feira à noite de abril e tínhamos acabado de entrar em casa. Havíamos saído para comer um sanduíche e, na volta, atravessamos uma tempestade daquelas que você fica encharcado só de correr até o carro.

Não foi a primeira tempestade que cruzou nosso caminho. Mas essa se tornou inesquecível porque ainda estava caindo quando ouvi a primeira vez sobre o Menino que Ainda Não Conheço. A Esposa foi até onde eu estava e mostrou o teste. Foi assim, de repente. Eu a beijei e a abracei e comecei a andar pela sala com as roupas pingando, tentando entender a ideia de que eu vou ser pai.

Foi de repente que tudo mudou.

Eu não me recordo do que pensei no momento. Mas quanto mais eu penso sobre isso, mais eu percebo que tudo o que vivi antes da tempestade dessa sexta-feira não pertence mais a mim. Eu já fui muitas coisas. Mas hoje entendo que tudo o que sou existe apenas em função do Menino que Ainda não Conheço.

Os filmes que vi de madrugada. Os gols que fiz no estacionamento do supermercado. Os livros pelos quais me apaixonei. As paixões que me fizeram sonhar. As gargalhadas que saíram alto demais. As músicas que decorei a letra. As brigas comigo mesmo e com os outros. As lágrimas que teimaram em escapar. As piadas entre goles de cervejas.

Quanto mais penso, mais percebo que nada disso é só meu. Quando mais entendo, mais fica claro que eu mesmo não sou mais só meu. Tudo o que eu sou, tudo o que eu fui e tudo o que possa ser um dia, agora, pertencem ao Menino que Ainda não Conheço.

Foi de repente que tudo mudou para sempre.

Hoje, acordo todos os dias e pego meu café. Ainda com a caneca na mão, enxergo um sentido novo no meu dia. Afinal, nada mais lógico – e mágico – que a mulher que me mostrou como fazer as pazes com a vida carregue uma vida dentro de si. E descubro um sentido novo em mim, ao me olhar no espelho e pensar sobre o tamanho que a “eu vou ser pai” pode ter.

Hoje eu vou dormir, todas as noites, pensando no Menino que Ainda Não Conheço. Brinco de adivinhar qual sua primeira palavra ou para qual lado ele dará seus primeiros passos. E, com ele não apenas ao meu lado, mas sim ao meu redor, fecho os olhos e peço para ser pelo menos metade do pai que meu pai foi para mim.

Porque tudo o que eu quero é olhar um dia para o Menino que não Conheço e saber que ele se tornou melhor que eu. Tudo o que eu quero é olhar um dia para o Menino que Ainda não Conheço e ter a certeza de que ele se tornou um Menino Feliz. E fazer isso é o meu papel. Porque desde aquela sexta-feira chuvosa, eu estou escrevendo o texto mais bonito da minha vida. Eu estou escrevendo sobre o Menino que Ainda não Conheço.

E, de repente, cada dia é uma história de amor. Para sempre.

Isso é apenas um teaser. A estreia é em dezembro.

22 de agosto de 2017

O Clube dos Não Pagadores de Pedágio

“Não temos dinheiro!”

“Como assim, não temos dinheiro? Nada?”

“Talvez tenha na minha carteira. Olha aí.”

“Dez. Vinte. Vinte e cinco. Trinta e cinco...”

“Reais?”

“Não, centavos. Quarenta...”

“Não temos dinheiro!”

Depois de meses de crise econômica, gastos inesperados e um eventual esbanjamento aqui ou ali, o gosto da miséria finalmente dominou minha boca. Não havia mais saída. Era hora de enfrentar o destino. Respirei fundo e tentei disfarçar o medo enquanto lia a placa que passava pela janela do carro.

PEDÁGIO – 500 METROS

Pessoalmente, acho que o problema de você ficar sem dinheiro é não ter a menor pista do que irá acontecer com seu futuro. Quer dizer, o problema de ficar sem dinheiro é ficar sem dinheiro, mas assim que isso acontece, a falta de perspectiva começa a cair sobre tudo o que você faz, como se fosse uma espécie de garoa.

E essa incapacidade de planejar o futuro é ainda pior quando se trata de algo que já é misterioso por natureza, como pagar o pedágio na estrada.

Vamos ser sinceros: uma pessoa normal não faz a menor ideia do que pode acontecer se você não pagar o pedágio. Se você não pagar a conta de luz, a luz da sua casa é cortada. Se você não pagar o cartão de crédito, o cartão é cancelado. Mas o que acontece se você não pagar o pedágio? Você é obrigado a dar ré na estrada até voltar para casa? Você é exilado do país? É obrigado a trabalhar numa mina de sal?

PEDÁGIO – 200 METROS

As consequências de não pagar o pedágio, na minha cabeça, formam um dos maiores mistérios do mundo moderno. Eu sempre me perguntei isso, mas tudo o que consegui descobrir é que pessoas que já deixaram de pagar o pedágio participam de uma espécie de seita que, como todo seita, possui regras próprias (Primeira regra: você não fala sobre não pagar o pedágio. Segunda regra: você NÃO FALA sobre não pagar o pedágio. Terceira regra: se alguém gritar “pare”, o não pagamento do pedágio está cancelado. Quarta regra: apenas um carro por cabine. Quinta regra: um pedágio de cada vez. Sexta regra: sem notas, sem moedas. Sétima regra: o não pagamento do pedágio dura o tempo que for necessário. Oitava regra: se esta é sua primeira viagem no clube dos não pagadores de pedágio, você precisa deixar de pagar o pedágio) e fazem segredo absoluto sobre esse assunto.

“Você já deixou de pagar o pedágio na estrada?”

“Como assim?”

“Você viaja toda hora, não é possível que você não tenha deixado de pagar o pedágio pelo menos uma vez.”

“Não sei do que você está falando.”

“Olhe, eu só quero saber se a pessoa é enviada para uma mina de sal ou...”

“Vamos mudar de assunto?”

Desde que sou criança e passo por um pedágio, fico imaginando o que aconteceria com alguém que driblasse a tarifa do pedágio. E agora havia chegado a hora de descobrir isso da pior mateira possível. O preço do pedágio era de R$ 4,10 e nós tínhamos exatamente R$ 0,70 e uma bala de hortelã que devia estar no carro desde 2009.

PEDÁGIO – 100 METROS

Encostamos na fila. Enquanto os carros da frente obedeciam às regras sociais e pagavam a tarifa, eu comecei a me sentir como o sujeito que para na porta do banco e começa a observar a segurança enquanto carrega uma escopeta escondida em seu casaco. Eu estava prestes a cruzar uma linha sem volta, enveredando para o mundo do crime junto com a Esposa. Meu futuro agora era claro. Procurados pela lei. O terror dos pedágios de São Paulo. Bonnie e Clyde da Anhanguera.

“Não esquece de dar bom dia para a mulher”, eu disse.

“Oi?”, a Esposa perguntou.

“Nós não temos nada para negociar. É melhor ser simpático. Tenta sorrir também.”

O carro da frente andou e chegou a nossa vez. A mulher abriu o vidro, sem desconfiar que estava frente a frente com dois criminosos em potencial.

“Oi, tudo bem?”, a Esposa disse para a funcionaria do pedágio.

“Não esquece de sorrir!”, eu cochichei.

 “Nós realmente esquecemos do pedágio”, a Esposa continuou falando com a garota dentro da cabine, “e estamos sem dinheiro.”

“Que cabelo lindo!”, eu gritei para a garota do pedágio.  “Você faz hidratação?”

“Cale a boca, estou falando com ela”. A Esposa voltou sua atenção para a mulher do pedágio. “Como a gente deve fazer agora?”

“Fala que a gente não quer ir para a mina de sal. Fala que deve ter um jeito de negociar isso.”

A garota mal olhou para nós – e eu achei isso bom, pois assim ela teria dificuldades em nos identificar na delegacia depois – e disse que deveríamos passar a cabine e esperar um pouco.

“É só encostar aqui e esperar?”, a Esposa perguntou.

“Você quer essa bala de hortelã? É novinha, acabamos de comprar!”

“Deixa eu ouvir o que a mulher está falando!”

Pelo que a mulher explicou, era isso mesmo que devíamos fazer: encostar na zebra e esperar até que alguém aparecesse para falar conosco. O problema é que ela não disse quem iria aparecer. Um torturador importado de alguma ditadura asiática? Um pelotão de fuzilamento? Oficiais nazistas? Enquanto eu procurava mais balas de hortelã para usar como possíveis subornos, a Esposa avançou alguns metros com o carro e encostou ali.

Ficamos parados na estrada, logo atrás da cabine.

Foi um dos momentos mais curiosos da minha vida. Eu fechei os olhos e esperei o carro explodir com um tiro de bazuca, mas nada teria me preparado para o que aconteceu a seguir, quando uma sirene altíssima disparou da cabine atrás de nós.

“ELES ESTÃO MANDANDO OS AVIÕES PARA CIMA DE NÓS! VAMOS SAIR DO CARRO E TENTAR CORRER PARA O MATO!”


Este homem não pagou pedágio.

“Não, essa sirene deve ser para chamar alguém.”

“Eu vou até a cabine! Eu vou me render e dizer que estou pronto para ir para as minas de sal!”

“Fica quieto”.

A Esposa estava certa. A sirene era para chamar alguém. De repente, outra mulher carregando uma prancheta apareceu ao lado do carro.

“Oi”, a Esposa disse. “É com você que precisamos falar? A gente esqueceu o dinheiro...”

“Pergunta se ela é da Gestapo.”

A Esposa usou o cotovelo para pedir que eu calasse a boca e começou a negociar com a mulher. Eu olhei ao redor procurando por soldados armados, mas não vi nada, apenas as pessoas dos outros carros passando por nós e olhando em nossa direção com curiosidade e um pouco de apreensão. A mulher falou alguma coisa para a Esposa e entregou um papel e uma caneta.

“Não assina nada!”, eu gritei. “Diz que a gente tem direito a um telefonema!”

A Esposa me ignorou. Assinou o papel e entregou para mim. Eu corri os olhos pelo papel procurando expressões como “mina de sal”, “pena de morte” ou “perder a alma”. Mas tudo o que o papel dizia era que a Esposa estava ciente de que essa tarifa precisaria ser paga em até cinco dias, caso contrário receberíamos uma multa.

 “Só isso?”, a Esposa perguntou.

“Só isso. Tenham uma boa viagem.”

E foi isso. Fomos embora. Confesso que eu fiquei um pouco decepcionado com o “só isso”. Esperava que a consequência de deixar de pagar um pedágio fosse mais grandiosa. Mas, conforme prosseguíamos a viagem, eu comecei a olhar esse acontecimento com outros olhos e percebi que havia passado por uma espécie de ritual de iniciação do mundo moderno.

Enquanto jovens de tribos antigas precisavam escalar uma árvore, derrotar um urso com uma faca e enfiar a mão numa caixa cheia de vespas, para provar que eram adultos, eu passei pelo meu próprio rito de passagem ao ficar parado no meio da estrada enquanto uma sirene tocava atrás de mim.

A diferença é que os membros das tribos antigas, ao cumprirem o ritual, podiam ser chamados de guerreiros, e eu, ao esquecer o dinheiro do pedágio, posso agora ser chamado de imbecil. Quando percebi isso, afastei esse pensamento da cabeça. Peguei a bala de hortelã com a validade vencida, coloquei na boca e seguimos viagem.

Só espero que, pelo menor, as outras pessoas que deixaram de pagar o pedágio alguma vez conversem comigo normalmente sobre esse assunto a partir de agora.

25 de julho de 2017

Antropologia da Mudança

Não, eu não encerrei o blog.

Não, eu não parei de escrever ficção.

Mas foram várias semanas – na verdade, foram alguns meses, mas “várias semanas” soa menos agressivo – sem escrever no blog por pura falta de tempo. Foram semanas sem postar no blog, mas escrevendo muito; foram semanas sem postar no blog por causa de muita coisa acontecendo. Aos poucos, vou falando sobre isso aqui. Mas sim, os blogs ainda estão de pé e a ideia é que voltem à frequência normal de agora em diante.

E para provar isso, vou contar uma pequena história, sobre a mudança de casa. Sim, enquanto eu escrevo isso estou cercado de pilhas de livros e caixas vazias (ou, dependendo da caixa, com um gato dentro) porque vamos nos mudar para outro bairro.

Você já mudou de casa? É a coisa mais desesperadora do mundo. E não estou falando daquele processo que envolve colocar tudo o que você tem dentro de caixas, levar para outro lugar e tirar tudo o que você tem de dentro das caixas. Aliás, poucos eventos ilustram tão bem o quanto a humanidade é atrasada quanto se mudar para uma casa nova.

Vamos voltar para a aurora do homem (2001 – Uma Odisseia no Espaço mode: on) e pensar nos primeiros homens. Eles eram nômades, ou seja, não tinham endereço fixo – o que deveria dificultar muito a vida dos carteiros e das empresas de cobrança. Eles moravam no mesmo lugar até a comida daquela região acabar. Quando isso acontecia, eles juntavam tudo o que tinham e, sei lá, embolavam tudo em folhas de bananeira, colocavam nas costas e levavam para outro lugar.

E é mais ou menos que eu faço hoje com as caixas de papelão. Milênios de evolução, avanços científicos e descobertas fantásticas, e tudo o que conseguimos a respeito das mudanças foi trocar as folhas de bananeira por caixas de papelão. O resto ficou exatamente igual.

Não é possível que pessoas como Leonardo da Vinci ou Thomas Edison sequer pensaram que o processo de mudança podia ser mais fácil.

– Leonardo? Vem almoçar!

– Já vai. Estou pensando um modo de fazer a mudança ficar mais fácil.

– Que mudança?

– Quando as pessoas mudam de uma casa para outra. Isso não devia ser tão difícil.

– Mas você vai mudar?

– Não. Mas se houvesse um jeito de transportar os objetos de uma casa para outra sem que eles fossem carregados...

– Isso é impossível.

–Talvez se eles pudessem ser arremessados da casa antiga para a nova...

– Depois você pensa nisso! A comida está esfriando!

– OK.

Aí depois do almoço um mercador chamado Giocondo entrou ali pedindo ao Leonardo da Vinci para pintar um quadro da esposa dele. Como o Leonardo não estava planejando mudar de casa e também tinha contas para pagar, ele acabou perdendo o foco e pronto: o processo de mudança continua o mesmo. Por causa disso: séculos depois eu preciso ir até o mercado.

– Você tem caixas de papelão para me arrumar?

– Você vai comprar algo?

– Bom... Não. Eu queria só as caixas.

– As caixas são apenas para os clientes.

– Certo. Então vou levar esse chocolate. Você tem caixas de papelão?

– Tenho essas três.

– Não tem maiores?

– Não, senhor.

– Mas é que essas duas são do tamanho de uma caixa de sapatos. E esta outra aqui parece um porta joias.

– Mas elas são de papelão, como o senhor queria.

– Ah.

– Algo mais?

– Você não tem folhas de bananeira, tem?

– O senhor vai comprar algo?

– Esquece. Obrigado.

Então, nesse quesito, ainda estamos na pré-história. A única vantagem é que pelo menos eu posso ficar colocando as coisas dentro da caixa sem ter medo que a Era Glacial comece um dia antes da previsão do tempo. Por outro lado, nós conseguimos ainda inventar uma desvantagem em relação aos primatas. Porque quando os pré-históricos queriam se mudar de um lugar para o outro, eles simplesmente iam.

E nós precisamos falar com as imobiliárias.

Em algum momento, uma parte da humanidade fez alguma curva errada no caminho evolutivo e chegou a um beco sem saída. Assim, sem conseguir se desenvolver direito, esses indivíduos foram trabalhar com imóveis para tentar sobreviver. Vamos ser sinceros? Se existissem imobiliárias na pré-história, a raça humana já estaria extinta.

– Senhor Rorgh?

– Sim.

– Aqui quem fala é Ugh, da Cenozoica Imóveis. Tudo bem com o senhor?

– Sim, obrigado.

– Eu tenho um recado aqui que o senhor está procurando uma caverna em região tropical com caça abundante para o senhor e sua tribo. É isso mesmo?

– Sim.

– Eu tenho uma oportunidade ótima para o senhor. Tenho um lançamento com três pinheiros que estão com preços ótimos.

– Pinheiros?

– Isso. São perfeitos para quem adora dormir em cima de galhos, com toda aquela segurança que só um pinheiro consegue proporcionar. Isso sem falar na vista, que é maravilhosa. E tem um lago ali perto que é uma ótima área de lazer.

– Mas eu pedi uma caverna.

– Mas esses pinheiros estão por um preço ótimo. E é uma região do Alasca que vai valorizar bastante.

– No Alasca? Onde é isso?

– O senhor está onde, hoje?

– Na Amazônia.

– Ah, o Alasca é pertinho. O senhor não vai nem sentir a diferença. E é uma área muito charmosa. E a caça é ótima. Está cheio de alces, ursos-polares...

– O que são alces?

– Alces são tipo cavalos com chifres. A carne é bem gostosa. Vamos agendar uma visita? Pelas minhas contas, o senhor deve demorar cerca de vinte meses para chegar ao imóvel. Então, que tal agendarmos uma visita para 28 de março de 104.029 antes de Cristo? Está bom para o senhor?

– Bom, eu preciso falar com a minha esposa.

– Então, ótimo. Amanhã eu volto a ligar. Foi um prazer, senhor Rorgh.

A visita foi agendada. Rorgh juntou toda sua tribo e começou um longo processo de imigração, atravessando um continente inteiro para conhecer o imóvel. Foram meses enfrentando o clima, animais selvagens e outras tribos. Muitos de seus amigos e parentes ficaram pelo caminho. E, no dia marcado chegaram ao seu destino.

Esperaram um mês e meio ao lado dos Pinheiros, até se convencerem de que o corretor não iria aparecer. Então decidiram retornar para a Amazônia, apenas para descobrir que a região onde moravam estava ocupada por outra tribo e estavam sendo processados pelo proprietário por mais de três anos de aluguel atrasado.

Ultimamente, tivemos que falar com vários descendentes de Ugh aqui em casa. São primatas que não sabem a diferença entre casa e apartamento, casa e chácara (e, em um dos casos, casa e túnel) e que acreditam que tanto a Vila Mariana como Londrina e Kosovo estão na Zona Sul de São Paulo.

Mas finalmente conseguimos uma casa nova. Mas, antes mesmo de sair procurando por caixas ou folhas de bananeira, começaram os problemas com a imobiliária que, prometo, contarei no post seguinte. 

9 de dezembro de 2016

007 Contra a Infiltração Generalizada

Faz alguns meses que começaram umas infiltrações aqui em casa – e você pode ler sobre isso aqui

Caso você acompanhe esse blog, deve imaginar que o problema das infiltrações passou, porque eu não toquei mais no assunto. Bom, durante alguns meses, achamos que elas realmente tinham parado.

Mas às vezes eu pensava sobre o assunto, especialmente sobre o fato de que não havia nenhum motivo para elas terem parado. Só que, sempre que isso acontecia, eu achava mais confortável ir até a cozinha, olhar o teto durante alguns instantes e deduzir que “bom, deve ser alguma mágica, não vou reclamar”.

Claro que eu estava me enganando. Porque elas não tinham parado, e sim ido buscar reforços. Então, sim, as infiltrações da cozinha passaram... Para a sala. Para um dos banheiros. Para o hall de entrada. Em chuvas mais fortes, minha vontade era construir uma arca usando a madeira da mesa sala e colocar um casal de bicho ali dentro.

Agora, o problema nem é o fato de que minha casa estava inundando. Quer dizer, esse não era o único problema, porque eu também não consigo levar o assunto a sério, por causa do nome. “Infiltração”, para mim, é um termo de filmes de espionagem, e eu não consigo associar essa palavra para água escorrendo pelas paredes.

Então, sempre que eu pensava no assunto – aliás, isso ainda acontece – eu começava a imaginar uma gota de água vestida de preto, se arrastando pelo telhado, na calada da noite, até encontrar uma telha meio solta. Aí, ela se esgueirava para dentro da casa e falava em seu pequeno microfone.

– Ok, I’m in.

Nesse momento, em sua base secreta, o supervisor recebe a mensagem de que a gota já está dentro do complexo inimigo, e esta informação vai subindo a cadeia de comando até alguém se aproximar do presidente e informar que “a primeira gota já se infiltrou na casa do Rob”. Assim, todos correm para a sala de situação e acompanham toda a infiltração de goteiras na minha sala (provavelmente gargalhando enquanto eu coloco baldes na sala).

Bom, chegou o momento de impedirmos essa operação de guerra em casa, então falamos com a proprietária da casa, para ver se ela conseguia indicar um especialista em contraespionagem. E ela indicou um homem.

– O Israel é ótimo, ele faz de tudo.

– Ele vasculha o telhado procurando câmeras e aparelhos de escuta? Ele consegue reorganizar a segurança? Se precisarmos interrogar alguma gota prisioneira, é ele mesmo quem faz?

– Do que você está falando?

– Desculpe. Eu não sei lidar direito com a palavra infiltração. Esse Israel é bom?

– Sim. Confio plenamente nele.

– De quais missões ele já participou?

– Ele quem pintou minha casa. Ficou ótimo.

Não era o que eu esperava, mas teria que servir.

Assim, uns dias atrás o especialista apareceu em casa. E os problemas começaram porque ele tocou a campainha logo cedo e eu ainda não havia tomado café. Ou seja, meu HD cerebral ainda estava inicializando. Então, atendi a porta sabendo apenas três coisas: 1) aquela pessoa não morava na minha casa; 2) ele estava ali para ver algo do telhado; 3) o nome dele era algum país do Oriente Médio.

– O senhor é o seu Rob?

– Isso. E você é o senhor Iraqu... É... Você veio ver o telhado, certo?

– Sim. Meu nome é Israel.

– Sim, sim, eu sabia disso. Estava esperando o senhor.

Abri o portão e ele entrou. Primeiro olhou toda a parte interna da casa. Íamos andando enquanto eu indicava os pontos em que a segurança precisava ser reforçada. Ou melhor, onde rolavam os vazamentos. Tudo ia muito bem até a hora que ele decidiu subir no telhado.

– O senhor tem uma escada grande?

– Não. A escada que tenho não chega até o telhado.

– Certo.

E realmente, a escada aqui em casa mal dá para trocar lâmpadas. Ou, pelo menos, é o que eu acredito, já que não troco lâmpada nenhuma porque tenho medo de altura. Mas como eu sempre me ofereço como voluntário para o cargo de “segurar a escada” enquanto a Esposa faz a troca, sei que ela é bem baixa.

Aparentemente, isso não foi empecilho para o sujeito. Ele pediu a escada mesmo assim, e usou para subir no muro. Do muro, foi para o telhado do vizinho, do telhado do vizinho para o meu telhado. Tudo isso como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Assim, o sujeito começou a andar pelo telhado com a naturalidade de alguém que está indo até a cozinha da própria casa pegar água. Sério, nem mesmo o Coronel Telhada (esse é o nome que eu dei para o gato quemora aqui no telhado de casa), faria melhor.
 
Aliás, isso poderia me criar um problema. Porque eu já cuido de um gato que mora no telhado, e o Faz Tudo com Nome de País do Oriente Médio parecia bem à vontade andando no meu telhado. Ele estava visivelmente no seu elemento. E tudo o que eu não precisava é que ele gostasse do lugar e começasse a morar ali, e eu tivesse que cuidar dele também. O que diabos um Faz Tudo come? Será que ele e o Telhada vão começar a brigar?

Era sobre isso que eu estava pensando quando vi uma das coisas mais impressionantes da minha vida. O sujeito arrancou duas telhas do telhado, deixando um buraco de mais ou menos uns cinquenta centímetros de largura e... E sumiu.

Não estou exagerando. Ele mergulhou para dentro do telhado e desapareceu ali. Certeza que se alguém mandasse esse sujeito fazer um teste vocacional, os resultados seriam 50% ilusionista, 50% ninja.

Eu ainda estava tentando entender como ele tinha feito aquilo, quando o sujeito reapareceu no telhado. Olhou para mim, desceu para o telhado do vizinho, do telhado do vizinho para o muro, do muro para o chão. Eu pensei em pegar um pouco de ração do Telhada e oferecer a ele, me explicando que “é só o que eu tenho hoje, mas se você tiver algum pedido especial, eu posso tentar arrumar”, mas ele foi mais rápido e começou a falar.

– Vai ter que trocar tudo menos as telhas.

Certo. Tudo menos as telhas. O problema é que todo o meu conhecimento de telhados se resume às casinhas que eu desenhava quando criança. Ou seja, na minha cabeça, um telhado é um organismo composto por: telhas. Talvez uma chaminé – toda casa de desenho de criança tem uma chaminé, mas acredito que isso seja opcional no mundo dos telhados. Então, tentei fazer a pergunta da forma menos estúpida que eu consegui.

– O que é tudo menos as telhas?

– Tudo.

– Certo. Vamos tentar de outro jeito. O que precisa trocar?

– As ripas e os rufos.

Eu sabia o que eram ripas. Mas rufos...

– Rufus não é o cachorro do Dennis, o Pimentinha?

Existem momentos que são determinantes na forma que a gente se relaciona com outras pessoas. São instantes aparentemente insignificantes, que fazem com que a outra pessoa admire você pelo resto da vida, seguindo seus passos para dentro de batalhas impossíveis e o chamando de líder.

Mas por outro lado, existem momentos em que a outra pessoa percebe que você é um idiota e nada irá mudar isso. E, pelo olhar do sujeito, eu e ele estávamos vivendo um desses momentos mágicos. Qualquer respeito que aquele cara pudesse ter sobre mim escorreu pelo ralo. Tudo o que me restava era tirar meu time de campo.

– Olha, minha Esposa é arquiteta, é melhor você falar com ela. Porque eu... Bem, eu só moro aqui, sabe? Acho que será melhor se eu... Eu vou chamar um adulto para conversar com você, acho que é melhor.

Assim, ele e a Esposa discutiram todo o processo de trocas das ripas e rufos.

E eu fiquei no meu canto, imaginando o sistema de segurança que o ninja ilusionista vai instalar na minha casa para impedir a infiltração de gotas de água inimigas. E torcendo para que ele deixe brincar com as câmeras de segurança.

Essa reforma promete.

7 de agosto de 2016

Desodorante Gourmet para Axilas Refinadas

Dia desses fomos até a farmácia, porque precisávamos comprar várias coisas. Pedimos os remédios que precisávamos no balcão e depois saímos pelos corredores pegando os outros produtos.

Prometia ser uma visita normal à farmácia. E tudo estava acontecendo como planejado até a hora que paramos em frente à prateleira de desodorantes.

Se você fizer uma lista das cinco atividades mais difíceis do mundo moderno, “comprar desodorante masculino” teria lugar cativo na lista. Pelo menos, no meu mundo moderno. E eu vou explicar aqui como surgiu o meu drama.

Eu sempre gostei daqueles desodorantes à moda antiga, que espirram um jato composto de 99% de álcool e 1% de qualquer aroma artificial. E sim, isso por causa do álcool – desde a adolescência, um dos meus maiores prazeres era espirrar desodorante no peito e me sentar na frente do ventilador.

Mas, de uns anos para cá, os desodorantes desse tipo iniciaram um tipo de competição, onde cada marca disputa para ver qual apresenta o produto mais vagabundo. Se a embalagem é boa, o perfume é vagabundo. Se o perfume é gostoso, a embalagem é vagabunda. Se o perfume e a embalagem são bons, o desodorante é três vezes menor que os outros e custa cinco vezes mais. Se o perfume é gostoso, a embalagem é boa e o preço é justo, os efeitos do desodorante duram entre oito e onze minutos.

Então, de um tempo para cá, eu tenho experimentado novos tipos de desodorante. Isso não quer dizer que estou usando desodorante artesanal, e por dois motivos. Primeiro, até onde eu sei isso ainda não existe; segundo, o dia que inventarem isso quem vai usar serão aquelas pessoas com coque no cabelo que enchem o celular de músicas alternativas insossas que “cara, essa música toca muito no meio do coração”.

Não, nada disso. Prefiro que meu desodorante tenha um código de barras na embalagem mesmo. Só que, como eu disse, estou experimentando novos tipos de desodorante. O primeiro que experimentei foi um que era um spray, mas o nome tinha a palavra seco. Não lembro ao certo, era Alguma-Coisa-Seco.

Quando eu comprei, achei que aquilo era um erro de conceito. Como um spray que espirra algo líquido pode ser seco? Mas, comprei e experimentei.

E me arrependi na primeira aplicação. Porque ele não espirra um líquido, mas sim uma espécie de... Não sei, não é um pó. É como se fosse um novo estado da matéria, que não é líquido nem sólido nem gasoso e que deixa a pele com uma mancha completamente branca.

Não é exagero. Na primeira vez que usei, levantei o braço e me senti como se estivesse virando os farelos do saco de biscoito de polvilho em cima de mim. O cheiro? Acho que não era ruim, mas não tenho certeza, porque a cada vez que eu passava o desodorante o pó-que-não-é-pó-mas-também-não-é-líquido-e-não-chega-a-ser-gás se espalhava pelo banheiro e grudava na minha garganta, e eu tinha que sair correndo dali.

E não, o problema não era comigo, porque bastava eu colocar as mãos no desodorante e todos os gatos da casa desapareciam.

(Acabou de me ocorrer aqui que talvez o nome do desodorante seja Bomba de Efeito Moral – Seco, mas não tenho certeza).

Desisti disso e experimentei um desodorante roll on, que usa o mesmo princípio de todos os filmes pornográficos dos anos 80. Isso porque ao invés de espirrar o desodorante, você agarra o tubo com força e desliza com sua ponta arredondada e gosmenta suavemente pelo corpo – morder os lábios, virar os olhinhos e deixar um solo de guitarra tocando de fundo é opcional, mas pode enriquecer ainda mais a cena (mas deslizar a coisa pelo rosto deve ser apenas para os mais corajosos).

Na minha casa, essa transformação em Cicciolina funcionou nos primeiros dias, até o gato derrubar o maldito desodorante e quebrar a embalagem. Então, meu desodorante não ficava mais gosmento, mas encharcado e cada vez que eu saía do banho e passava o negócio, tinha a sensação de que havia caído em uma piscina de ectoplasma, e praticamente tinha que tomar outro banho.

Mas vamos voltar à farmácia. Olhando os desodorantes na prateleira, eu estava completamente decidido a resolver esse problema de uma vez por todas. Então comecei a olhar as embalagens spray procurando por alguma que parecesse funcionar direito e que tivesse um perfume aceitável.

Bem, todas pareciam funcionar direito. Quanto ao perfume... Acho que um dos maiores mistérios hoje é descobrir o odor de cada desodorante. Porque eles ficam lacrados, então você não pode abrir e espirrar na mão para experimentar. Assim, tudo o que você tem é o nome.

E o nome nunca é o perfume. Vamos pegar, por exemplo, um desodorante com perfume de menta (sim, eu sei que provavelmente isso não existe, mas vamos de menta mesmo, apenas como exemplo). Ele não vai se chamar Marca X – Menta, e sim Marca X – Correndo pelos Alpes no Sábado de Manhã.

Esses são os nomes dos desodorantes hoje. Momentos Inesquecíveis ao Lado dos Amigos. Passeio Romântico pelos Bairros Históricos. Dia a Dia Repleto de Conquistas e Vitórias. Exposição de Arte Seguida por um Capuccino com Pouco Açúcar. Regata no Mediterrâneo – Versão Competitiva.

Assim, eu fiquei olhando para os desodorantes como um tupi-guarani observando as primeiras caravelas portuguesas aparecerem no horizonte, com aquela sensação de que “eu não entendo o que é isso” mesclada com “isso marca o início do fim do meu tempo nessa Terra”, sem saber o que fazer. Até que vi as latas da Old Spice – que são muito mais bonitas que as outras.

A Esposa, ao meu lado, achou essas latas ao mesmo tempo e começou a olhar. Os nomes eram mais simples, mas também não queriam dizer muita coisa. Pegador. Matador. Zagueiro. Articulador. Guitarrista. Uma delas estava em destaque e a Esposa pegou.

– Olhe esse. Lenha.

– Oi?

– É o nome do desodorante. Lenha.

– Como assim, lenha?

– Provavelmente você vai ficar com cheiro de lenhador.

– Em primeiro lugar, lenhadores não existem a não ser nos jogos de estratégia. Se eu fosse um bonequinho de Age of Empires, eu usaria um desodorante chamado lenha. Aliás, eu não usaria, porque aí eu seria um lenhador e já teria cheiro de lenha.

– Ele é mais caro que os outros.

– Agora, se eu fosse outra coisa dentro do Age of Empires, um caçador ou fazendeiros, talvez eu usasse o Lenha para as pessoas acharem que eu sou lenhador. Porque se eu fosse um fazendeiro, jamais usaria o Desodorante Hortaliças. Usaria o Lenha.

– Será que ele é melhor que os outros?

– Isso, claro se eu não fosse o pescador. Se eu fosse o pescador, usaria qualquer um. Porque imagine aquela vila de Age of Empires. Ela já não é grande, todo mundo deve se conhecer ali. Então você ficar com cheiro de peixe todo dia... Todo mundo deve ficar comentando. Até os soldados.

– Do que você está falando?

– Nada. Estava apenas pensando alto. Talvez eu escreva uma crônica sobre Age of Empires. Por que você está com esse desodorante Lenha na mão?

– Por que você não leva esse?

– Você enlouqueceu?

– Ele parece bom.

– Mas ele tem cheiro de lenha! Olhe para mim!

– E daí?

– Você consegue me imaginar com cheiro de lenha? As pessoas vão achar que eu sou um pizzaiolo!

– Mas esse aqui...

– Não. Vamos pegar outro.

Comecei a olhar outra marca. Os desodorantes dessa tinham nomes mais simples, e não demorou muito até eu perceber que cada tipo significava o que a pessoa queria ser. Executivo. Atleta. Empreendedor. Publicitário. Engenheiro Químico. De repente, eu não estava mais comprando desodorantes e sim escolhendo minha profissão no Jogo da Vida. Mas eu não queria ser nada ali. Procurei coisas como Capitão de Nave Estelar, Atacante do Brasil da Copa de 70 ou General Aliado na II Guerra Mundial. Nada. Nenhum deles me interessava, até que...

– Achei!

– Você não vai levar esse!

– Claro que vou! Olha essa embalagem! O perfume deve ser demais.

– Esse é do Batman!

– E daí? Todo mundo quer ser o Batman!

– Quantos anos você tem mesmo?

Tentei fazer quarenta com os dedinhos, mas me atrapalhei e respondi.

– Tenho quarenta. Exatamente dois anos a mais que eu tinha no dia que comprei uma saboneteira do Homem-Aranha.

– Então, mas esse é do Batman é mais caro.

– É mesm... Não! Espere! Ele é mais barato! Porque é um kit! Você compra e ganha esse do Super-Homem junto!

– Certo.

– Vamos levar o kit! Vou colocar os dois em cima da pia e batizá-los de Kit de Higiene Pessoal Martha!

– Certo.

Assim, voltei para casa feliz da vida com meus novos desodorantes. Sim, o do Batman é daqueles que deixa os farelos de polvilho no corpo, mas não tem problema. Afinal, ele chama “Batman”, e não “Lenhador Com Aparência Bruta mas que na Verdade é Sensível e Sonha em se Apaixonar e Constituir Família”.


Aliás, estou pensando aqui em comprar mais uns dez kits, porque nada no mundo é fácil. Nem comprar desodorante.

5 de junho de 2016

BLOSCH

Eram quatro horas da manhã e eu dormia o sono dos justos.

Na verdade, eu precisava ter trabalhado durante boa parte da madrugada, mas depois de seis horas de reunião – caso nunca alguém contou para você, uma das desvantagens de trabalhar em casa é que não existe sábado, domingo ou feriados – eu voltei para casa querendo apenas dormir.

O plano era perfeito. Eu ia dormir cedo, acordar cedo e começar a trabalhar. Não tinha como dar errado.

A não ser pelo fato de que eram quatro horas da manhã e eu dormia o sono dos justos e acordei com sede. Assim, levantei para beber água. Fazia um frio desgraçado e eu estava com meu pijama de inverno (a saber: um par de meias, uma calça de moletom mais antiga que muitos leitores deste blog e uma camiseta qualquer).

Enquanto eu andava na direção da cozinha, escutei que caía uma tempestade bíblica do lado de fora. E provavelmente eu sorri, porque poucas coisas me fazem sorrir tanto quanto acordar de madrugada, descobrir que está chovendo e lembrar que não preciso sair de casa pela manhã.

E, ainda sorrindo, eu entrei na cozinha pensando em tudo o que eu deveria fazer no dia seguinte. Iria acordar e finalizar o roteiro X, depois responderia e-mails e partiria para o roteiro Y, esperando as respostas que preciso para os textos A, B e C chegarem, e então eu...

BLOSCH.

Como assim, “blosch”?

Será que eu estava sendo seguido pelo Monstro da Lagoa Negra? Eu estava no meio da cozinha, a alguns metros da pia e senti minha meia encharcar. Mas, antes que meu cérebro processasse isso, dei um novo passo.

E ouvi um novo BLOSCH e minha outra meia encharcou.

Eu estava pisando em água. Não. Era pior. Eu estava pisando em água usando apenas meias. Algo estava acontecendo na cozinha. Assim, apressei o passo em direção ao interruptor que fica ao lado da pia.

BLOSCH. BLOSCH. BLOSCH. BLOSCH.

A cozinha estava inundada. Não “inundada nível Jornal Nacional”, com móveis boiando e o Gato Ridículo navegando em cima de uma tábua, mas inundada o suficiente para encharcar minhas meias. Metade da cozinha eram poças de água. A outra metade, eu acho que ainda estava seca, mas nem olhei, porque, na minha cabeça, o pior havia acontecido.

Vou explicar para vocês: minha casa tem um corredor lateral que é um dos maiores mistérios da natureza. É uma extensão do quintal que se liga ao hall de entrada e que possui uns quarenta centímetros de largura. Sabe aqueles filmes de ação que o herói precisa escapar de uma sala onde as paredes estão encolhendo? Todos eles são filmados aqui nesse corredor.

E no final desse corredor tem um ralo, que é por onde toda a água do quintal escoa. Mas com plantas e três cachorros, não é difícil esse ralo perder sua vazão em tempestades. São folhas e pelos e pelos e folhas e pequenos galhos que se acumulam ali e a água começa a acumular.

É aí que a magia acontece, pois isso faz com que a água comece a acumular no quintal, mas, também, no hall de entrada (ela começa a entrar por baixo da porta). Uma vez isso aconteceu. Estávamos na rua e, ao voltar para casa, abri a porta e...

BLOSCH.

Então, de volta às quatro da manhã. Morrendo de medo, atravessei a cozinha correndo em direção ao hall para ver se ele estava inundado.

BLOSCH. BLOSCH. BLOSCH. BLOSCH. BLOSCH. TUM. TUM. TUM. TUM.

A boa notícia: o hall estava seco e o ralo trabalhando normalmente. A má notícia? A cozinha continuava cheia de água e eu não fazia ideia do que estava acontecendo. Voltei para a cozinha em busca de pistas e, ao olhar para cima, descobri o que estava acontecendo.

TUM. TUM. TUM. TUM. BLOSCH. BLOSCH. BLOSCH. BLOSCH. BLOSCH.

Imagine que um dia um fã de Sergio Reis decida entrar para o Livro dos Recordes e realizar o maior tributo da história à música sertaneja, reunindo milhares de pessoas para cantar que “nessa casa tem goteira, pinga ni mim” ao mesmo tempo, e num local temático, repleto de goteiras de verdade para dar aquele charme e fazer todo mundo entrar no clima.

Aparentemente, era isso que estava acontecendo no forro da cozinha. Na minha casa tinham dezenas de goteiras e todas elas pingavam ni mim, encharcando minhas meias.

Isso já havia acontecido antes. Uma enorme infiltração surgiu no forro da cozinha e nós, desconfiando que a calha que fica bem em cima do local estivesse entupida, chamamos o cara da Porto Seguro. Ele chegou em casa, subiu no telhado, agachou-se, tirou uma bolinha de plástico que o filho do vizinho jogou ali sem querer e resolveu o problema. Deve ter sido o trabalho mais fácil da vida dele.

E devia ser aquilo de novo.

Então, eu tinha três alternativas. A primeira envolvia sair na chuva, pegar a escada, subir no telhado, tirar a bolinha do vizinho, secar a cozinha e voltar para a cama. Mas eu não faria isso de madrugada e na chuva.

A segunda, na verdade, era uma versão da primeira, mas com final alternativo. Eu devia sair na chuva, pegar a escada, subir no telhado, tirar a bolinha do vizinho, secar a cozinha, colocar uma roupa, pular na casa do vizinho, invadir o quarto do menino, enfiar a bola na boca dele e ficar repetindo que “você inundou a cozinha errada” até ter certeza que ele havia se asfixiado, pular de volta para minha casa e voltar para a cama. Não, eu também não faria isso de madrugada e na chuva.

Sobrava apenas a terceira alternativa. Enxugar o chão e encher a cozinha de baldes.

Assim, eram quatro e meia da manhã e eu experimentei o momento mais solitário da minha vida.

A cidade estava em silêncio, embalada pela chuva fria. Milhões de pessoas dormiam, sonhando com mundos fantásticos onde eram heróis e amantes, guerreiros e poetas. Outras deviam estar fazendo sexo enlouquecidamente para espantar a solidão da vida urbana. Bebês aninhavam-se nos cobertores, adolescentes se apaixonavam na internet, casais faziam as pazes... São Paulo estava em paz.

E eu estava ali no meio da cozinha, com as meias completamente encharcadas e esfregando panos no chão feito uma alma condenada a não dormir nunca mais.

Quinze minutos e alguns bloschs depois, o trabalho estava terminado. Fui até o quintal e peguei todos os baldes possíveis e fiz uma nova decoração na minha casa, transformando minha cozinha numa espécie de monumento à casa do Feios, Sujos e Malvados.

Voltei para o quarto, tirei as meias, enxuguei os pés e deitei.

E adormeci ouvindo a sinfonia feita pelas gotas caindo nos baldes da cozinha. E finalmente sonhei. Um sonho estranho, onde eu deixava de ser uma pessoa e me tornava um personagem de Graciliano Ramos e ria sozinho, no meio da aridez, ao descobrir que eu havia me tornado um personagem de Vidas Secas. Minhas meias estavam cheias de areia, mas estavam secas, que era o importante.

E acordei com duas certezas: a primeira é quando você deseja se tornar um personagem de Vidas Secas, é porque sua vida chegou ao fundo do poço. E a segunda é que o pior não é chegar ao fundo do poço, e sim descobrir que o fundo do poço tem água o suficiente para encharcar suas meias.