Mostrando postagens com marcador Quadrinhos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Quadrinhos. Mostrar todas as postagens

17 de fevereiro de 2016

O Espírito que Anda

“O que ele está falando aqui?”

Eu fiz essa pergunta muitas vezes para o meu pai. Apontava para o sujeito de roupa vermelha e olhos brancos, escondidos por uma máscara, querendo saber cada palavra daquele balão cheio de símbolos estranhos acima da sua cabeça.

Meu pai me explicava e, por alguns minutos, eu podia voltar a apenas olhar os quadrinhos, entendendo a ação do meu jeito – e provavelmente inventando as lacunas que eu não podia compreender. Alguns minutos depois, porém, eu atravessava a sala novamente e apontava para outro quadrinho.

“E aqui? O que ele está falando?”

Pouco depois, eu comecei a aprender a entender aqueles símbolos. Acho que fizeram um bom trabalho, já que hoje eu trabalho com eles. Mas, antes disso, tudo o que eu podia fazer era olhar os quadrinhos. E isso devia me encantar, já que eu fazia isso o tempo inteiro.

Não eram os únicos desenhos que eu olhava. Além do homem vestido de vermelho, eu também tentava decifrar as aventuras de um guerreiro baixinho gaulês e seu amigo de traços ruivos. Isso sem falar nos livrinho infantis que me cercavam, normalmente estrelados por um camundongo e um pato com roupa de marinheiro.

Mas quem eu queria mesmo saber o que estava falando era o sujeito de vermelho. Queria entender o que ele falava para o bandido que apontava uma arma em sua direção e que ordem ele havia dado para o seu cachorro. Aliás, quando meu pai me explicou que não era um cachorro, e sim um lobo, eu fiquei com isso dias na cabeça. Afinal, na cabeça de um menino de cinco anos que combatia o crime no chão da sala, a ideia de ter um lobo é certamente uma das coisas mais legais do mundo.



Quando eu atravessei a fronteira que dividia os mundos “ver os quadrinhos” e “ler quadrinhos”, o homem de vermelho veio comigo. Mas, graças ao meu pai, eu já sabia que o nome dele era Fantasma, que ele morava na África, numa caverna em forma de caveira, que era a segunda coisa mais legal que um menino de cinco anos poderia querer (porque a primeira, como vocês devem imaginar, era um lobo) e combatia a pirataria.

Porém, quando eu comecei a ler de verdade, entendi que as pessoas achavam que ele era imortal (“por isso que ele chama Fantasma!”), mas na verdade ele era um homem comum, como eu e como meu pai. O segredo é que sempre que um Fantasma morria, seu filho assumia seu lugar, então todos achavam que era sempre o mesmo sujeito há quatrocentos anos.

Também descobri que o lobo chamava Capeto, que seu cavalo se chamava Herói e sua namorada, Diana. E mais importante, aprendi que seu nome era Kit Walker e que nunca víamos seu rosto sem a máscara, pois “aquele que olha nos olhos do Fantasma morre” (velho ditado da selva).

E eu descobri isso porque era uma época em que ele ocupava um bom espaço nas bancas. Fantasma. Almanaque do Fantasma. Superalmanaque do Fantasma. Hiperalmanaque do Fantasma. Fantasma Especial. Fantasma Extra. Arquivos Secretos do Fantasma. Todas essas revistas iam para casa, e sempre havia briga para ver quem ia ler primeiro. Eu, meu pai, minha mãe, meu irmão. Todos nós queríamos ver a nova aventura.

Os anos passaram e eu nunca mais consegui só olhar os quadrinhos. Depois que se aprende a ler, olhar não satisfaz mais. E eu nunca mais parei. Fui para Patópolis, brinquei com a Turma do Bairro do Limoeiro, briguei com a Turma da Zona Norte. Um dia, já na adolescência, caí no meio de uma Nova York habitada por outros heróis fantasiados. Aquele que escalava paredes, aquele que arremessava o escudo, os quatro que eram uma família.



Eu ainda estou em todos esses lugares, até hoje.

Mas, conforme o tempo avançou, eu descobri que um pedaço do meu coração ficou na costa de Bengala, no território habitado pelos temíveis pigmeus bandar e suas flechas envenenadas. Eu ainda me surpreendo, às vezes, vasculhando as salas dos tesouros, visitando a cripta ou folheando os arquivos. Ou apenas correndo pela floresta ao lado de Capeto. E ainda me surpreendo querendo um anel da caveira e outro com a marca do bem.

Fiz tudo isso desde a hora que acordei, quando descobri que o Fantasma está completando 80 anos – sua primeira tira foi publicada em 17 de fevereiro de 1936. São 80 anos de vida e quase 40 na minha vida, já que, como eu disse no começo desse texto, eu lia Fantasma antes mesmo de aprender a ler.

E o Fantasma está comigo até hoje. Quando eu era criança, eu precisava entender o que acontecia nos mundos que visitava; hoje, adulto, eu trabalho criando mundos e descobrindo o que acontece dentro deles. Nada me deixa mais feliz que ter uma ideia para escrever. Abro a tela em branco e começo a escrever, sabendo que vou descobrir o que acontece nesse mundo e com as pessoas que moram dentro dele.

É por isso que sempre que eu me olho no espelho eu enxergo o rosto da minha mãe, mas também a alma do meu pai. Ao seu modo, ele também precisa de aventuras em mundos diferentes o tempo inteiro, seja na África ou a bordo de uma nave espacial. É isso que o deixa feliz.

Assim como o Fantasma, eu sou igual ao meu pai.

A única diferença é que eu não precisei pegar uma caveira e fazer um juramento para me tornar meu pai. Eu precisei apenas atravessar a sala com uma revista em quadrinhos na mão e perguntar:

“O que ele está falando aqui?”

Pois, assim como meu pai, eu não sobrevivo sem esses mundos fantásticos e seus heróis maravilhosos. É a minha vida.

É o que eu sou.

“E meus filhos, e os filhos de meus filhos, me seguirão.”


7 de abril de 2014

Arkham Street

Já faz alguns dias que ganhamos um novo vizinho aqui em casa.

Ou melhor, já faz algumas noites que ganhamos um novo vizinho. Isso porque se trata de um morcego que se mudou para uma árvore aqui na rua. Parece ser um morcego bem feliz, porque ele passa a maior parte da noite voando em círculos e dando rasantes na rua.

Eu vi a primeira vez uns dias atrás. Fui fumar lá na frente e lá estava ele voando. Voava pela rua à minha frente, passava pela casa do meu vizinho Bruxa do Kurosawa, fazia uma curva e voltava para a árvore por cima da minha cabeça.

Como a probabilidade do morcego se enroscar no meus cabelos se aproxima do zero absoluto (e não por falta de vontade do morcego, mas pela total ausência de matéria-prima para isso na minha cabeça), fiquei fumando ali e observando o morcego, o qual carinhosamente apelidei de Bobônica.

Antes de continuarmos, cabe uma explicação sobre o termo Bobônica.

Quando eu morava com meus pais, nossa rua tinha dois vigias. Eu não sei como eles surgiram. Um dia, não tínhamos vigia nenhum. De repente, tínhamos dois: um de dia e um à noite. Era quase uma espécie de máfia: um dia, alguém que você não nunca tinha visto na vida batia na sua casa cobrando por proteção. Caso você não pagasse, seu carro era roubado (eu vi isso acontecer mais de uma vez), sua casa era assaltada (eu vi isso acontecer uma vez) e sua família inteira era empalada (bem, talvez aqui eu esteja exagerando um pouco, admito).

Enfim, o guarda que vigiava a rua durante o dia entra no Top 5 Criaturas Mais Estranhas que eu encontrei na vida. Ele devia ter uns quarenta anos e estava constantemente naquele estado intermediário entre o “sóbrio” e o “coma alcoólico”. E, no fundo, era eficiente como vigia, mas de uma forma não muito ortodoxa. Ele não espantava os ladrões por ser um guarda (mesmo porque sua única arma era um galho de árvore, ainda com folhas, que ele levava consigo quando fazia a ronda no quarteirão) mas sim por ser mais bandido que qualquer outro ladrão.

Puxando pela memória aqui, me lembro dele ser preso ali na rua pelo menos duas vezes. Talvez três. E em todas elas tinha mulher no meio. Era a empregada da rua do lado, a copeira do escritório do outro quarteirão... O guarda não perdoava nenhuma.

É importante lembrar que o guarda do dia era o melhor dos dois guardas, já que o da noite costumava espantar o tédio da madrugada dando tiros para o alto e gritando que “vou matar bandido e trevéstizi!” (confesso que demorei alguns segundos até entender que “trevéstizi” era o plural de “travesti”).

Enfim, a molecada da rua, claro, estava sempre ali perto dos guardas. E o guarda do dia tinha uma palavra... Não, na verdade era uma espécie de bordão, que ele repetia o tempo inteiro: “bobônica”. Tudo era “bobônica”, “feito a bobônica”, “da bobônica”.

– Vai cair uma chuva da bobônica!

– Essa mulé da outra rua é boa mas é brava, que parece a bobônica!

– Os bandido da bobônica vinheram aqui de madrugada!

E claro que a gente perguntava o que diabos era bobônica. E a resposta mudava constantemente. Na equação da vida do guarda da rua, bobônica era uma variável.

– Bobônica é a féb do rato!

– Bobônica é a fome!

– Bobônica é o rato que avoa!

Juntando as informações que tínhamos (e levando em conta que “féb” era “febre”), calculamos com o tempo que bobônica era a peste bubônica (o que tornava o guarda da rua dos meus pais numa espécie de profeta e arauto do apocalipse, que previa a chegada de uma nova Peste Negra).

A palavra bobônica virou gíria entre a molecada da rua – e a molecada da rua inclui meu pai, que de vez em quando ainda grita uns “bobônica” e cai na risada sozinho – e eu a trouxe comigo.

E se uma das definições de bobônica é “o rato que avoa”, nada mais justo que batizar o morcego aqui ao lado de “Bobônica”.

Isso explica o nome do morcego, mas não explica o que está acontecendo com meu bairro. Vamos mudar um pouco de assunto?

Já faz uns quatro ou cinco meses que meu bairro está diferente.

Uma das grandes qualidades desse bairro é que 90% da população dele é formada por velhinhos que moram aqui desde... Desde... Sei lá, desde a bobônica.

Você sai na rua, e lá estão eles: os velhinhos que dividem seu tempo entre ver TV, dar um pulo na igreja, comprar suas coisinhas no mercado, ver mais um pouco de TV e cochilar um pouco no sofá porque esse negócio de ver TV cansa demais.

Parece uma cidade do interior. Aos domingos, quase não tem ninguém na rua. Nos outros dias, chega oito horas da noite e você não escuta mais nada – descontando o fato de que a mãe do Bruxa do Kurosawa, a japonesa-mais-velha-que-o-Japão assiste TV no volume 130 (o link para isso está lá em cima). Mas meu ponto é que o bairro é sossegado, silencioso, tranquilo. Sabe quando tem feriado e São Paulo fica vazia? Aqui não precisa de feriado para isso.

Mas isso está mudando.

Já faz alguns meses que estou vendo pessoas novas pelo bairro. E não se tratam dos filhos dos velhinhos que vieram visitá-los. São barbas, chapéus, camisetas de bandas que nunca ouvi falar, tatuagens da moda (porque nada mais demonstra sua individualidade que fazer uma tatuagem igual a de todos os outros), barbas milimetricamente mal feitas, piercings (em lugares nunca dantes navegados por um piercing), e aquele expressão de “vou postar no Instagram a foto desta lata jogada na rua para mostrar que existe amor em São Paulo e que é preciso democratizar o espaço público, cara”.

São hipsters.


Uma praga de hipsters está começando a se instalar no bairro.

Não sei se é culpa da especulação imobiliária, se a Vila Mariana se tornou um bairro cult, ou se é um processo que faz parte da migração natural da espécie.  O ponto é que eles estão em todos os lugares. Na rua. No mercadinho. Na padaria ao lado de casa. Na banca de jornal. No restaurante por quilo. Só não estão no Starbucks porque ainda não abriu nenhum Starbucks aqui.

Ainda.

Sim, eu sei o quanto isso pode mudar a cara de um bairro. E eu falo com propriedade, já que morei cinco anos em Pinheiros. E estou temendo pelo pior. Com o tempo, os arredores aqui vão começar a se transformar. Vai ser quase imperceptível, mas vai acontecer. Vai abrir um coletivo de arte aqui, vai inaugurar um restaurante de comida indiana vegetariana ali. De repente, vão começar os restaurantes gourmet, e as lojas de roupas horríveis e de sementes e comidas naturebas.

E, um dia, a revistaria que eu frequento vai fechar e dar espaço para uma baladinha indie. Este será o dia que eu pegarei em armas e levarei justiça às ruas do bairro.

Mas eu tenho tentado evitar que a coisa chegue a este ponto.

Sempre que estou fumando lá na frente e um hispter passa pela rua – sozinho, acompanhado de outros hipsters ou de um cachorro cuja raça está na moda – eu fico resmungando e olhando com minha expressão de “saia do meu gramado, seu moleque maldito”. Eu normalmente faço isso ouvindo coisas como Slayer ou Suicidal Tendencies, então deve dar alguma credibilidade, mas não tem surtido o efeito necessário.

Eles continuam aparecendo.

Ontem, por exemplo, eu fui até a padaria com a Esposa. Eram umas oito horas da noite de domingo. Teoricamente, só nós estaríamos na rua. Mas não. Quatro deles estavam na porta da padaria, conversando e segurando garrafas de cervejas importadas.

Uma das meninas usava minissaia, meias-calças coloridas (acho que uma de cada cor) e coturno. Seu cabelo estava preso com duas marias-chiquinhas. Já um dos caras usava calças vermelhas e camiseta branca, acompanhados de uma espécie de showroom de acessórios: suspensórios, gravata borboleta de bolinhas e chapéu coco – era quase um membro da família Restart fazendo cosplay de figurante daquelas novelas das seis sobre imigrantes italianos.

Quando eu olhei o sujeito do chapéu-coco com calma, nem consegui mais olhar os outros dois. Porque você usar gravata borboleta e chapéu-coco já não é mais ser hispter. Isso já é outro nível que só poderia ser entendido como provocação.

Maria-Chiquinha e Chapéu-Coco, meus novos vizinhos.

Mas não fiz nada. Apenas olhei para o Chapéu-Coco e resmunguei algo sobre “você me parece ser uma daquelas pessoas cuja única qualidade é ser biodegradável” e comprei o que precisava. Ainda resmungando. E voltei para casa. Ainda resmungando. Deixei as coisas na cozinha e fui fumar lá na frente. Ainda resmungando.

Bobônica, feliz, voava ao meu redor. Foi quando eu somei A com B e vi que...

Bem, eu não tinha nada a perder.

Esperei bobônica passar perto de mim e disse:

– Você viu que a galera do Arkham está lá na esquina? Perto da padaria?

Bobônica continuou voando. Deu uma volta e passou novamente perto de mim. Eu continuei:

– Eu vi o Chapeleiro Louco e a Arlequina. Mas tinha mais gente.

Bobônica deu mais uma volta e voou por cima da minha cabeça.

– Ali na padaria, Bobônica. Não tem como errar.

Bobônica voltou até a árvore, deu meia volta e saiu dando rasantes e batendo as asas. Mas, ao invés de dar a volta, seguiu reto em direção à esquina. Rumo à padaria.

Eu sorri, sabendo que agora o bairro está protegido. Tenho certeza que nós próximos, relatos de hipsters espancados na Vila Mariana vão começar a surgir nos jornais, falando também sobre um enorme morcego que está atacando as pessoas no bairro.

A partir de agora, meu nome é Rob Gordon, mas vocês podem me chamar de Comissário Gordon. Já estou construindo um Bat-Sinal no quintal dos fundos e devo estreá-lo ainda esta semana.

E, hipsters... Sejam bem vindos a Gotham.


10 de novembro de 2013

O Colecionador

Eu estou fazendo uma coleção. Faz algumas semanas que...

Não. Comecei errado. Eu não “estou fazendo” uma coleção, eu “faço” coleções. Desde que me conheço por gente, eu coleciono tudo que gosto. Era moleque e colecionava chaveiros, times de futebol de botão, adesivos, tampinhas de garrafa... E, claro, quadrinhos.

Minha paixão por quadrinhos começou antes de eu descobrir as HQs de super-heróis. Começou quando eu era criança, com os quadrinhos da Disney, que eu organizava com cuidado em casa. Na verdade, até hoje eu suspeito que aprendi a contar somente para poder deixar meus quadrinhos organizados por data de lançamento.

E naquela época já não era difícil eu descer a escada da casa dos meus pais aos berros:

- Onde está o meu Almanaque Disney 136?

- Oi?

- O meu Almanaque Disney 136! É aquele que tem a história em que o Tio Patinhas vai para a Patagônia! Onde está?

- Sei lá. Você lembra onde você deixou?

- No único lugar onde ele deveria estar! Depois do Almanaque Disney 135 e antes do Almanaque 137! Na pilha que fica ao lado da minha pilha de Disney Especial!

Ou seja, como todo colecionador, eu já sofria de algum grau de TOC desde criança.

Mas o problema mesmo era quando eu inventava alguma coleção nova e precisava correr a cidade atrás de números atrasados. Foi assim com Homem-Aranha. A primeira edição que li foi a de número 73, da editora Abril (sim, eu me lembro dessas coisas, como todo colecionador lembra). A paixão foi imediata e comecei a comprar todos os meses.

O problema, claro, é que eu tinha um enorme buraco de 72 edições a ser tapado. Porque, claro, eu queria ter todos. Não ter todos era algo impensável. Assim, comecei a rodar o bairro atrás de números antigos, achando um esquecido numa banca ali, outro abandonado em outra banca ali.

Como estamos falando de uma época sem internet e Mercado Livre ou afins, era tudo no peito. Com uns doze anos de idade, eu cheguei a desenhar um mapa do bairro numa folha de cartolina, com todas as bancas de jornal assinaladas. Com isso, eu planejava minhas andanças para garimpar revistas que faltavam na minha coleção.

Quando as bancas do bairro acabavam, eu ia para outros bairros, em busca de sebos, com listas dos números que eu precisava dentro da carteira. O dia que eu encontrei o Homem-Aranha 1 num sebo no Anhangabaú foi quase uma vitória pessoal, me senti como um arqueólogo que, após anos sendo chamado de louco, finalmente havia conseguido provar a existência de uma civilização antiga.

Entretanto, colecionadores, por definição, não são pessoas exatamente éticas. Veja bem, coleção é fetiche e com fetiche não se brinca. Nunca cheguei a roubar por causa de uma coleção, mas certamente contei uma mentira ou outra.

Afinal, quando um amigo seu que não coleciona quadrinhos está se livrando dos gibis que ele tem em casa e você descobre que lá no meio tem um Homem-Aranha 13, você não vai gritar dizendo que “este quadrinho vale uns cinquenta reais em qualquer sebo, eu preciso disso e serei seu escravo!”.

Claro que não. Você vai falar que “isso é um gibi velho, troco por uma Coca”. E se ele reclamar que é muito pouco, você ainda diz que “olha, a capa ainda está um pouco amassada. Essa merda é velha e deve ser ruim. Quer a Coca ou não?”. E, com a transação feita, você se controla para não gritar de emoção na frente do seu amigo. Vai para casa, coloca o Homem-Aranha entre o 12 e 14 e fica admirando a coleção, cada vez mais completa, por alguns minutos.

Já menti valores, já atravessei a cidade, já chamei de gibi velho (e pedi desculpas ao gibi quando o levei para casa), já briguei com gente que chegou perto demais da minha coleção sem autorização.

Pois uma coleção não é feita de quadrinhos, CDs, filmes, livros. Uma coleção é feita de pequenas vitórias pessoais. Você passa todos os dias da sua vida em busca de oportunidades e maneiras de aumentar sua coleção. E, quando sua coleção está completa, você se sente realizado... Pelo menos, por alguns meses, até você descobrir que adora Hulk e que não vai fazer mal algum começar a colecionar Hulk também. E começa tudo de novo.

E agora voltamos ao começo do post. Estou fazendo uma coleção nova. É aquela coleção de graphic novels da Marvel, que a Salvat lançou. Comprei o primeiro por curiosidade – não, minto, comprei o primeiro sabendo que eu compraria todos, mas gosto de me enganar às vezes – me apaixonei pelos volumes e estou comprando todos os meses.

Isso, claro, até eu perder o Número 5. Comprei o quatro, fiquei umas semanas sem ir à banca e, quando voltei, só tinha o 6. E um monte de números 4. Aí a mulher da banca explicou que o vol. 5 acabou. Isso, claro, porque a história é o primeiro arco dos Supremos, famosa, adorada.. (eu tenho a história original aqui, mas como estou fazendo esta coleção específica, preciso deste novo volume).

Passei dias rodando bancas de jornal feito um débil-mental, sempre ouvindo uma negativa e xingando as pessoas que só compraram este volume, que elas não respeitam quem comprou os quatro primeiros, que todas elas deveriam morrer, que não merecem ter esta história. E, em uma das bancas, a pessoa me disse que “olha, você não vai conseguir isso. Só daqui a alguns meses, quando for possível pedir”.

E este é o tipo de coisa que não se fala para mim. Dizer que “você não vai conseguir este item da sua coleção” automaticamente faz com que conseguir o negócio seja a razão da minha existência. A partir daí, comecei a intensificar a busca. Ninguém diz o que eu posso ou não ter na minha coleção. Todo colecionador sabe isso.

Dia desses, passei numa praça e vi a banca em que comprei o primeiro volume. É uma banca pequena e apertada. A dona é uma japonesa de uns 70 anos de idade, sempre acompanhada do seu tataravô, um japonês de 1300 anos que fica sentado em uma cadeira olhando a rua. Certeza que se você fuçar ali você encontra o Gizmo ou as escamas dos replicantes do Blade Runner sendo vendidas.

Fui direto falar com a japonesa, já que o tataravô dela parece todas as bruxas dos filmes do Kurosawa.

- Oi. Esta coleção da Marvel... Você tem o número cinco?

- Não. Não saiu ainda.

- Saiu sim. Eu já comprei o seis, mas perdi o cinco.

- Já está no seis?!

- Sim.

- Eu não tenho recebido! O último que eu recebi foi o quatro!

- Bom, já está no volume seis.

Virei as costas e fui embora. E ela começou a falar em japonês com o velho – que também me olhou indignado quando eu disse que a coleção já estava no seis. Começaram a discutir, em japonês mesmo. Eu entendi apenas a palavra “Marvel” uma duas vezes e fui embora, até outra banca...

Onde achei um volume cinco esquecido. Provavelmente, o último volume cinco que sobrou perto da minha casa. Peguei a revista, soquei o ar, fiz a dancinha da vitória, pedi licença ao dono da banca, levantei a revista e dei a volta olímpica ao redor da banca, paguei e fui embora.

E, no meio do caminho, passei pela banca dos japoneses.

Estava fechada.

Ao lado, uma placa: “vende-se esta banca”. Juro.

Já menti valores, já atravessei a cidade, já chamei de gibi velho (e pedi desculpas ao gibi quando o levei para casa), já briguei com gente que chegou perto demais da minha coleção sem autorização.

Mas eu nunca tinha acabado com o negócio de uma família. Mesmo.

Bom, paciência. É coleção. E quando é coleção... Bem, pergunte a qualquer colecionador.

Agora eu vou embora. Vou até a banca da mulher que falou que eu jamais conseguiria encontrar o número cinco e ficar chutando a banca dela até ela sair e reclamar. Quando ela fizer isso, vou esfregar o livro na cara dela e gritar “chupa!”. E voltar correndo para casa e colocar ele com os outros volumes da coleção.

Mas vou esfregar o livro na cada dela com cuidado, porque, vocês sabem... É de coleção.

2 de outubro de 2013

Entre a Ficção e a HQ Terapia

Se existe um gênero de não ficção que eu gosto de ler são biografias.

Isso vale especialmente para pessoas que admiro – ou que pertencem a um mundo que admiro – como músicos e diretores de cinema. E isso vale mais pelo mundo ao redor da pessoa que pela pessoa em si. Claro que eu adoro aprender sobre pessoas que admiro há anos, mas eu realmente fico muito empolgado ao ver o biografado tropeçar em outras pessoas das quais sou fã.

Vou tentar explicar melhor. Vamos pegar como exemplo a biografia do Eric Clapton. Talvez seja uma das melhores que eu tenha lido até hoje, pela história do sujeito – se você não leu, leia; se você não leu e gosta de música, leia agora. É doce e amarga ao mesmo tempo, e chega a ser incômoda de tão comovente em algumas passagens.

Mas ela brilha de verdade em momentos que ele se aproxima de outros sujeitos que, por si só, merecem ser biografados, como os Rolling Stones, os Beatles. É mais ou menos assim: você está lendo sobre o Clapton e, de repente, ele está num bar trocando confidências com o George Harrison. Você está lendo sobre a vida do Ozzy Osbourne e de repente ele começa a conversar com o Robert Plant. Você está lendo sobre John Huston e de repente ele está bêbado no meio da África com o Humphrey Bogart.

Eu considero estes trechos, estas “participações especiais”, como bônus em uma biografia. Você está aprendendo sobre a vida de uma pessoa e vê um lampejo sobre a vida de outra. E assim você aprende um pouco mais sobre o mundo da pessoa sobre a qual está lendo. Aprender sobre como o Eric Clapton se sentia ao gravar um determinado disco faz você saber como ele se sentia. Ver sobre o que o Eric Clapton e o George Harrison conversaram em um bar faz você se sentir na mesa ao lado da mesa deles.

Isso talvez aconteça porque eu sempre fui apaixonado por mundos. Para mim, o cenário de uma história é tão importante quanto a história em si. Isso vale para uma biografia como para um filme. Neste ponto, isso vale muito para ficção científica e fantasia.

E aqui eu vou divagar um pouco para tentar exemplificar melhor essa sensação: lembro-me de ser criança e assistir O Império Contra-Ataca e, na cena em que Luke e Vader se enfrentam pela primeira vez, na Cidade das Nuvens, eu me senti privilegiado. Aquele combate é um dos momentos mais importantes na história da galáxia, e provavelmente tema de comentários de gerações e mais gerações, mas ninguém estava vendo aquilo. Eles lutam num lugar vazio, sem testemunhas.

Ninguém estava vendo aquilo, a não ser eu. Eu estava vendo a história acontecer na minha frente. Eu estava na mesa ao lado, ouvindo Clapton e Harrison conversarem. É um privilégio.

Quando eu percebi meu privilégio em ver a batalha entre Luke Skywalker e Darth Vader, eu entendi que havia uma história enorme por trás daquilo que eu estava lendo. Talvez este momento tenha sido um ponto chave na minha vida, algo que me fez querer contar histórias pelo resto da vida – talvez não tenha sido, mas confesso que esta historinha em si é boa demais para não ser contada.

Tracei esta fusão entre biografias e ficção para chegar aonde eu queria: neste momento, estou lendo Marvel Comics – A História Secreta. O livro traça a história da editora, desde os anos 30 até a potência que ela é hoje.

E, nas primeiras páginas, eu percebi que teria uma dificuldade em ler o livro. E não porque assim como Easy Riders & Raging Bulls, é daqueles livros que pega algumas pessoas que admiro e não apenas o humaniza, mas literalmente os apodrece. Mas por causa das participações especiais. Você está lendo e testemunhando uma conversa entre Stan Lee e Jack Kirby. E se sentindo privilegiado. Mas, de repente, surge, no meio do diálogo, o Reed Richards.

E você se sente ainda mais especial por estar vendo tudo aquilo acontecer, por estar assistindo a três nomes que significam demais na sua vida...

Até que você abaixa o livro, respira fundo e lembra-se que o Reed Richards não existe, ele é apenas um personagem de quadrinhos que lidera o Quarteto Fantástico. E passa o resto do capítulo se forçando a acreditar que o Sr. Fantástico não está na sala junto com Lee e Kirby. Porque ele não existe de verdade.

A não ser, claro, na minha mente – o que certamente é o indício de algum problema mental que eu possa ter.

Vai ser difícil ler este livro, pois eu vou precisar me concentrar o tempo inteiro e ficar repetindo em voz alta que o Peter Parker não existe. Porque, no fundo, eu sei ele existe, eu convivo com ele há quase 25 anos. Eu me sinto mais próximo dele que de muitos amigos meus – que, até onde eu sei, existem.

Por outro lado, talvez não seja um problema mental. Talvez seja o fato de que alguns personagens se tornam tão importantes na nossa vida que eles se tornam reais. Eles deixam de ser imaginários e se tornam amigos e cúmplices de verdade. O amigo Luke Skywalker, o parceiro Peter Parker, o cúmplice James Kirk.

Existem personagens que são reais. E quem faz isso acontecer é o público.

Vamos pegar o exemplo do garoto de Terapia. Ele não existe, certo? Tudo o que ele fala foi escrito por mim e pela Marina. A cara dele é criada pelo Mario. Todas as vezes que ele segura o choro ou explode de raiva, não é ele. É o lápis do Mario obedecendo ao que eu e a Marina queremos que ele sinta.

Mas, para mim, ele é real. Para o Mario e para a Marina, também. E não porque ele “está dentro de nós” – isso seria clichê demais – mas porque ele existe de verdade. Eu sei que ele está andando por aí nas ruas, mesmo sem conhecer a gente. E espero de verdade que ele (ou eles, porque pode ser mais de uma pessoa) nunca nos processe por mostrar a intimidade dele para tanta gente que, assim como nós, sabem que ele existe de verdade.

Porque não somos poucos. Aposto que boa parte destes 700 e tantos apoiadores da imagem abaixo acreditam nisso como a gente. Sim, muitos compraram por admirarem o traço do Mário, outros por gostarem do que a Marina e eu escrevemos. Alguns compraram pelo blues, outros pela psicologia. E, alguns, claro, pela amizade que mantém conosco, por desejarem nosso sucesso nesta empreitada.




Mas eu tenho certeza que muitos compraram pelo garoto. Porque sabem que já faz anos que este menino cheio de problemas e apaixonado por blues se tornou amigo delas. E espero que cada um de vocês se sinta privilegiado em estar ali naquele consultório vendo o menino contar tudo o que pensa (ou quase tudo) e tudo o que sente (ou quase tudo) para seu terapeuta.

Foi difícil? Foi. Foram dois meses de ansiedade, querendo ver essa HQ impressa. Em muitos momentos, eu achei que não ia dar. E me surpreendi: não apenas batemos a meta antes do prazo, como atingimos a meta máxima que estipulamos (R$ 40.000,00).

E já faz alguns dias que estou dormindo com a sensação de dever cumprido. Não sobre o livro – o trabalho pesado começa mesmo agora – mas sobre o garoto. Estes números mostram o que eu defendo neste texto, algo que tanto a Marina como o Mario certamente concordam comigo.

Esta história é maior que a gente. Este personagem é maior que a gente. E ele existe de verdade.

Ao menos, no coração de muitos de vocês.


E é nome deste meu amigo, o “Garoto de Terapia”, que eu agradeço a cada um de vocês.

30 de agosto de 2013

Rob Gordon X Porta do Santander



Aconteceu há alguns minutos, quando tive que ir até o Santander resolver umas coisas.

Já saí de casa com o meu Sentido de Aranha disparando feito um sino de igreja na hora da missa, porque sempre que eu vou ao banco, alguma coisa acontece. E, em 50% das vezes, é algo envolvendo o maldito detector de metais da porta.

Eu não entendo aquele detector de metais. Na verdade, ele também não me entende.

Já tivemos várias discussões e uma vez, anos atrás, eu arrebentei uma porta do Itaú porque o detector de metais não me deixava sair do banco. Sim, sair. Ou ele achou que eu havia roubado um clipe de papel do banco, ou ele entendeu que eu era um criminoso em potencial, e deveria ser mantido dentro do banco até a polícia chegar, no melhor esquema Minority Report – A Nova Lei. Meti o pé na porta e saí – meia hora depois, passei na frente do banco e dois técnicos estavam consertando a porta.

Enfim, o que me incomoda nos detectores de metais é que, aparentemente, somente quem pode entrar no banco é barrado. Quanto menos metal você tiver, maiores as suas chances da porta travar. Aliás, se os detectores de metal do banco fossem usados numa questão de vestibular, ela seria mais ou menos assim.

Qual destas pessoas será barrada no detector de metais de um banco?

(  ) Homem de Ferro
(  ) Dr. Destino
(  ) Homem de Aço
(X) Você

E é sempre assim. Eu sou barrado. Você é barrado. Ladrões não são barrados. Sequestradores não são barrados. Tropas Imperiais – mesmo usando roupa de metal – não são barrados.

Claro que agora, no Santander, isso aconteceu. Entrei no banco e já fui direto deixar tudo o que eu tinha de metal: uma chave, uma carteira (que deveria ter algumas moedas) e um isqueiro. Fui até a porta, girei...

E travou.

Fui surpreendido por uma voz robótica, que parecia vir de todos os lugares. Era quase como se o C-3PO tivesse se tornado onipresente e encarregado da segurança do banco.

- Senhor, foi detectado o excesso de metal em seus pertences.

- Sim, eu deixei todos eles ali, à mostra. Você pode detectar um monte de metal ali, depois que me deixar entrar.

- Senhor, o metal foi detectado em você. A porta não irá abrir.

Olhei para cima e vi um pequeno alto-falante. Era dali que vinha a voz. E era um alto-falante de metal.

- Você é um alto-falante de metal. Talvez seja você que esteja sendo detectado, já pensou?

- Senhor...

- Eu não tenho nada de metal. E você é feito de metal, e acha que o problema é comigo. O problema é com você. Você está detectando a si mesmo. Sua programação está falha.

- Como, Senhor?

Desisti. A brincadeira seria boa, mas aparentemente não era à prova de imbecis. E eu estava com pressa.

- Nada.

- O senhor tem algo de metal?

- Olhe, só aqui no meu iPod tem um monte de coisa. Iron, Judas, Megadeth, Anthrax. Você curte também?

- Senhor?

- Tem Motörhead também. Mas o próprio Lemmy diz que eles não são metal, são rock. Então, acho que não vai influenciar.

- Senhor...

- Tem AC/DC também. Mas só a imprensa americana fala que eles são metal. Não são. AC/DC é hard rock, como você deve  saber.

- Senhor, eu preciso que todos os objetos de metal sejam retirados.

Chega de brincar.

- Certo. Olhe, é o seguinte, eu posso ficar pelado aqui que não vai adiantar, por causa do meu joelho. Eu tenho um pino no joelho.

Mentira. Sim, meu joelho até hoje amarga anos e anos de futebol de rua. E ele estala o tempo inteiro – ou seja, se tivesse alguma coisa dentro não seria um pino, mas sim uma castanhola.

- O pino no joelho do senhor é de metal?

- Sim. É eu coloquei quando sofri um acidente no Canadá. É de adamantium.

- Ok. O senhor pode entrar.

Aproveitando que 1) tenho adamantium no corpo (ao menos, na versão oficial divulgada ao androide do Santander) e 2), tenho 1.60m, a oportunidade era boa demais para ser perdida.

Olhei para cima e sorri:

- Valeu, xará.

E entrei no banco torcendo, claro, para ser atacado por ninjas e ter que fatiar alguém. E descolar um charuto e uma cerva.

26 de março de 2013

"Espero que goste! Rob."




Normalmente, se assina um trabalho somente quando ele está terminado.

No caso da foto acima (feita durante o DossiêHQ, na Gibiteria) faço uma promessa: estamos apenas começando.


Longa vida para #TerapiaHQ.


22 de março de 2013

É Hoje!


Dia: 22 de março de 2013
Horário: a partir das 19h30
Local: Gibiteria (Praça Benedito Calixto, 158, 1º andar - (11) 3167-4838)
e-mail: contato@gibiteria.com
Twitter: @gibiteria

Eu estarei lá, junto com os demais autores, participando de debate e autografando o álbum!

Nos vemos lá!

15 de março de 2013

O Que Você Vai Fazer Sexta que Vem?



Na próxima sexta, 22 de março, acontecerá mais um Dossiê HQ na Gibiteria, comic shop localizada no bairro de Pinheiros, em São Paulo. O evento conta com um debate envolvendo convidados e sessão de autógrafos.

Os participantes desta edição são a equipe do Petisco (entre eles, os autores de TerapiaHQ), envolvendo os lançamentos dos álbuns Petisco Apresenta - Vol. I e Km Blues (de Daniel Esteves).

A entrada é franca. Esperamos vocês por lá!


Dia: 22 de março de 2013
Horário: a partir das 19h30.
Local: Gibiteria (Praça Benedito Calixto, 158, 1º andar - (11) 3167-4838)
e-mail: contato@gibiteria.com
Twitter: @gibiteria



14 de novembro de 2012

O Petisco está Servido!



Mais informações – não apenas sobre o evento – mas sobre o envio dos livros por correio, você pode conferir aqui.

Infelizmente, não poderei estar presente, mas outro evento sobre o álbum está marcado para o início de dezembro, também em São Paulo – e nesse estarei, sem falta. Em breve, mais informações aqui mesmo no blog.

Aproveitando: já estou separando as páginas originais e autografas do roteiro de todos os leitores que contribuíram com o projeto e me enviaram o pedido. Aguardem contato por e-mail em breve.

E para ninguém achar que não tem texto novo, tem duas crônicas novas no Chronicles: uma com jeitão de Neil Gaiman; outra mergulhada na ficção científica. Gostei bastante de ter escrito as duas e adoraria que lessem e deixassem um comentário com suas opiniões por lá.

16 de outubro de 2012

Vamos Falar de Quadrinhos?


Eis aqui, (quase) em primeira mão para vocês.



Como um dos autores envolvidos no projeto, eu ainda não tenho palavras suficientes para agradecer o apoio de todos vocês ao fazerem este sonho se tornar realidade. Muito, muito obrigado, em nome de toda a equipe de Terapia, e das outras séries do Petisco!

O álbum, com 96 páginas e preço de R$ 30,00, traz histórias inéditas e exclusivas das séries Nova Hélade, Nanquim Descartável, Demetrius Dante, Beladona, Macacada Urbana e Terapia. Os lançamentos oficiais serão no Fest Comix (19 a 21 de outubro, em São Paulo) e na GibiCon (24 a 28 de outubro, em Curitiba).

E sim, teremos tarde de autógrafos, em São Paulo, provavelmente no mês de novembro. Assim que for marcado, postarei o convite aqui.


Importante: Já recebi diversos e-mails de leitores apontando qual página do roteiro querem receber autografada. Estão todos guardados aqui: peço apenas que esperem até o fim do mês (quando a vida profissional voltará ao normal) para que eu responda todas com calma e comece a enviar por correio.

20 de setembro de 2012

Um Sonho Possível


Sinceramente?

Sinceramente, em muitos momentos eu achei que não fosse dar certo. Afinal, R$ 15 mil pode ser uma quantia pequena quando se comparada a um sonho, mas está longe de ser pouco dinheiro.

E olhe que todos nós trabalhamos em torno disso durante bastante tempo. Cavamos espaço de divulgação, pedimos aos amigos, fizemos promoções por conta própria. Sempre em nome de um único objetivo. Sempre em nome de um sonho.

Mas claro que todos nós sabíamos que seria difícil. Não apenas pelo montante, mas também pelo pouco tempo disponível.

Eu sabia que seria difícil. Mas nunca pedi a esperança. Nenhum de nós perdeu. As cartas estavam na mesa, era hora de esperar e trabalhar.

A esperança se tornou maior quando a quantia arrecadada chegou aos cinco dígitos. Mas conforme a esperança crescia, o tempo diminuía.

Foi quando começou a corrida final. Os últimos dias. A última semana.

E aí eu vi um fenômeno acontecer.

Os leitores tomaram a ideia para si e começaram a ajudar como podiam: contribuindo, divulgando, torcendo. Alguns me confessaram que olhavam o site três ou quatro vezes por dia. No Twitter, alguns leitores divulgavam a ação até mesmo mais que nós. Alguns contribuíram financeiramente mais de uma vez.

Foi uma das coisas mais bonitas que eu vi acontecer desde que este blog nasceu.

A ideia não era mais apenas nossa. Era de todos.

E é graças a este enorme “todos” que a ideia vai deixar de ser apenas uma ideia, e vai virar livro.


O álbum com a coletânea do Petisco HQ vai ser produzido!

E, sim, graças a vocês!

Mas é agora que o trabalho começa de verdade. Não há tempo a perder. A corrida, mais uma vez, é contra o relógio. É hora de abrir o Word e começar a...

Não. Nada de abrir o Word agora.

Antes disso, é preciso fazer algo mais importante.

É preciso agradecer vocês.


Pelo carinho, pelo apoio, pela contribuição. Por comprarem um sonho que era somente nosso e agora é de todos nós. Pela ajuda, pela divulgação, pela torcida. Por fazerem Terapia chegar ao papel pela primeira vez, com a companhia das outras histórias do Petisco.

Vocês, leitores... Leitores do Champ que se tornaram leitores de Terapia; leitores de Terapia que se tornaram leitores do Champ... Vocês são impressionantes.

E isso é algo que não tem preço – ou texto que pague.





Agora sim. Agora é hora de começar a trabalhar.

É hora de abrir o Word e pensar em uma história nova. Totalmente diferente, mas ligada ao universo de Terapia. Personagens diferentes, situações diferentes, universos diferentes.

Escrevendo, desta vez, para o papel. Outra experiência nova será escrever para páginas em preto e branco – o que aposto que vai possibilitar muita coisa nova, visualmente falando. Coisas muito boas.

Agora é hora de escrever. Conforme as coisas forem caminhando, posso soltar uma ou outra dica sobre a história, o tema, os personagens. Mas não prometo isso.

O que eu prometo é que nós vamos entregar a melhor história possível. Por que é o mínimo que vocês merecem.

Muito obrigado!


PS: Neste post aqui, eu avisei que sortearia cinco páginas originais do roteiro de Terapia autografadas entre os leitores que comentaram ali.

Mudei de ideia.

Não haverá mais sorteio. Todos os leitores que comentaram ali, informando terem contribuído para o projeto, ganharão uma página. Isso inclui um grande amigo que foi um dos primeiros a contribuir e que me avisou por mensagem no Twitter, explicando que não comentaria por receio de soar arrogante.

Assim, todos que comentaram ali: favor enviar seus endereços e o roteiro de qual página vocês querem receber para champ.vinyl.blog@gmail.com. Assim que possível, eu encaixo o roteiro desta página em uma única folha (mesmo que tenha que reduzir a fonte) e envio o impresso, em papel de luxo.

Mais uma vez: muito, muito obrigado!

4 de setembro de 2012

Terapia: Sobre Entrevistas e Doações


O que eu faço hoje?

Muita coisa. Escrevo nos dois blogs e faço textos de todos os tipos e formatos para os frilas que caem no meu colo. Mas não é segredo para ninguém que, hoje em dia, poucas coisas me trazem tão orgulho quando escrever a HQ Terapia, junto com o Mario Cau e a Marina Kurcis.

E este orgulho não vem somente pelos elogios dos leitores, ou por termos recebido um HQMix. Claro que isso – bem como o fato de escrever uma história em quadrinhos – conta muito, mas tem algo ainda mais importante: o formato. Porque, se dois ou três anos atrás alguém me falasse que eu escreveria uma HQ, eu responderia apenas que “é impossível, eu não sei escrever isso, eu nunca escrevi algo assim.”

Aparentemente, deu certo: hoje, já são 60 páginas publicadas. E meu orgulho vem disso: assim como na maior parte das coisas da minha vida, eu não aprendi porque me ensinaram, eu aprendi fazendo. Isso vale para jornalismo, publicidade, escritor... E roteirista de quadrinhos.

Assim, eu queria convidá-los a saber um pouco mais sobre isso, lendo esta entrevista que respondi para o blog do Thiago Cardim, companheiro de longa data. Lá, eu falo sobre o prêmio, sobre como eu vejo os quadrinhos na internet e, mais importante, sobre as possibilidades de Terapia ser publicado em papel.

Aliás, já que estamos falando sobre Terapia: o projeto de publicarmos um álbum coletânea do Petisco, com uma história inédita de cada uma das HQs publicadas no site continua rolando. Se você quer saber mais sobre o assunto, eu falo sobre isso na entrevista, mas também já fiz um post especial sobre isso aqui.

E se você quiser ajudar a faze este álbum virar realidade – e concorrer a diversos brindes (e uma página do roteiro autografada por mim, caso o projeto alcance a quantia necessária), basta clicar aqui!


 Aviso: Para concorrer à página do roteiro autografada, além de doar é preciso que você se identifique nos comentários deste post aqui – não é preciso dizer a quantia doada – pois o sorteio será feito com base naqueles comentários.

14 de agosto de 2012

X-Men: Origens - Rob Gordon


- Onde está sua tala?

- Que tala?

- A tala do seu braço!

- Ah, eu tirei. Meu pulso está ótimo.

- Você precisa ficar com a tala.

- Eu não consigo digitar com essa tala!

- Não importa. Onde está a tala?

- Esqueça a tala. Estou cem por cento.

- Ainda está inchado!

- Não, é impressão sua. Meu pulso está novo em folha.

- Não, ele está inchado. Você usou a tala dois dias, não tem como melhorar assim.

- Tem, sim. Você está se esquecendo do meu fator de cura.

- Oi?

 - Meu fator de cura.

- Ah. Fator de cura. Sei.

- Sim. Eu tenho um fator de cura avançado.

- Certo. Onde está sua tala?

- EU SOU O WOLVERINE!

- Sei.

- Tudo se encaixa! Tenho fator de cura e sou baixinho! Sou o Wolverine!

- Certo.

- E tenho instintos animais também!

- Ah, tem?

- Sim. Estou sentindo cheiro de bife. Meu olfato apurado me diz que alguém está fritando bifes em algum lugar do bairro.

- Sim, sou eu. Estou fritando os bifes e não é "em algum lugar do bairro". É aqui na cozinha, e a casa inteira está com esse cheiro.

- Sim, mas estou sentindo o cheiro faz muito tempo! Instintos animais!

- A tala. Onde você colocou?

- Cuidado, xará. Sou o melhor no que faço, e o que faço não é nada agradável.

- Do que você me chamou? Xará?

- Não. Falei Ana. Te chamei de Ana.

- A tala. Onde está?

- WOLVERINE!

- Pára de gritar isso e correr pela sala! Você está assustando os gatos!

- WOLVERINE!

- Sério... Quantos anos você tem?

- Ninguém sabe!

- Oi?

- Por causa do meu fator de cura, eu envelheço mais devagar, xará. Ninguém sabe minha idade.

- Certo. Chega. Arrume essa mesa.

- Não. Agora eu quero uma cerva, xará.

- Não. Você quer colocar a tala no seu braço. E se me chamar de xará de novo, eu...

- Cuidado. Já fatiei muita gente por menos que isso. Fica esperta, gata.

- Aquilo ali no sofá é a sua tala?

- WOLVERINE!

- Desce do sofá e coloca a tala!

- Não preciso de tala! Instintos animais, fator de cura. Sabe quem eu sou?

- Sei, o Wolverine. Agora você pode colocar a tala?

- Pode me chamar de Logan.

- A tala.

- Não preciso. Meu fator de cura vai...

-Seu fator de cura vai ficar sem bifes se você não colocar a tala.

- Oi?

- A tala. Agora.

- Mas...

- Agora.

- Ok. Mas meu fator de cura...

- Agora!

- Ok.

- E arruma um espaço aí na mesa, que eu vou servir o jantar.

- Ok.

- Já venho.

- Vai ter volta. Fica esperta, xará.

- Oi?

- Nada, estou arrumando a mesa aqui. É difícil, com essa tala aqui. Não aguento mais usar essa merda.

2 de julho de 2012

Um Dia para Relembrar

Na hora em que fomos chamados pelo Serginho Groisman, tudo o que eu consegui fazer foi soltar um “...caralho...” baixinho e dar um beijo na Esposa. Eu estava tão nervoso que nem me lembro de descer as escadas do teatro do Sesc Pompéia. Quando eu vi, já estava no palco, ao lado do Mario e da Marina. E com o microfone na mão.

Minutos depois, eu voltei para o meu assento. Não foi difícil me encontrar ali, porque o sorriso da Esposa brilhava ali no meio. Dei mais um beijo nela e, ainda sem saber ao certo o que fazer, eu discretamente escapei pela porta dos fundos para fumar um cigarro e me acalmar.

Quando voltei, perguntei a ela se tinha eu tinha ido bem. E minha pergunta foi honesta: eu não lembrava a maior parte do que havia falado lá embaixo.

Na verdade, quando eu voltei para o meu lugar, tudo o que eu me lembrava de ter falado era que, mesmo com Terapia sendo a primeira HQ – e hoje eu tenho mais certeza que nunca que é só a primeira – eu faço quadrinhos desde pequeno, porque eu sempre fui pequeno.

E me lembrava também de ter usado a expressão “estou muito feliz”, ou algo parecido com isso. Na verdade, eu queria falar mesmo era que “eu estou feliz pra caralho com tudo isso!”, porque era o que eu estava sentindo. Mas não ia pegar muito bem soltar um “pra caralho” ali no palco, na frente de todo mundo.

Mas isso era tudo o que eu me lembrava de ter falado.

O resto? Do resto eu me lembro de tudo. De cada segundo.

Porque é um pouco difícil se esquecer de um dia no qual pessoas que você não conhece pessoalmente fazem questão de vir até você, se apresentar e lhe dar os parabéns pelo trabalho. É impossível esquecer momentos nos quais artistas que você foi fã a vida inteira conversam com você de igual para igual.

Vai ser impossível esquecer um dia como sábado.

Mas foi fácil esquecer o que eu falei no palco.

Ainda bem que filmaram. Aí eu tenho certeza de que não falei nenhuma bobagem lá em cima – ou melhor, lá embaixo.

Ainda bem que filmaram, pois assim eu posso compartilhar isso com vocês. E a vontade de mostrar isso para vocês é enorme, porque, bem...




Agora que estou aqui no sofá de casa, sozinho, sem ninguém olhando... Posso ser sincero?

Estou feliz pra caralho!!!!



(O vídeo original, do Caio Yo, está aqui.)

17 de abril de 2012

Terapia indicado ao HQMix!


Quando eu fui convidado para escrever os roteiros da webcomic Terapia junto com a Marina Kurcis, a primeira coisa que fiz foi avisar o Mario Cau:

- Eu nunca escrevi quadrinhos na vida. Nem sei como se faz isso.

Claro que eu tomei o cuidado de avisar ao Mario que não entendia nada do assunto somente depois de aceitar o convite, mas eu não estava mentindo. Por mais que eu sonhasse em escrever uma HQ um dia, eu não fazia ideia nem de como começar a rabiscar os roteiros.

Porém, como leitor de HQs desde a infância, alguma coisa sobre o assunto eu devia saber. Afinal, o melhor caminho para se aprender a escrever é lendo, e ler quadrinhos também é ler – e, cá entre nós, conheço meia dúzia de quadrinhos que me ensinaram a escrever melhor que muitos livros. E, claro, sempre pode se argumentar que “escrever é escrever, não importa onde”.

Mas se existe algo que eu aprendi neste último ano é que “escrever” e “escrever quadrinhos” são coisas bem diferentes entre si.

As técnicas são diferentes, a própria linguagem é diferente. Ao escrever uma crônica, escrevo para mim; já ao escrever uma página, junto com a Marina, precisamos sempre ter em mente de estamos praticamente escrevendo para o Mario, que irá traduzir tudo em imagens.

E confesso que para mim, especialmente no início, foi difícil deixar de lado alguns textos para que eles fossem expressos somente pela arte. Se meu personagem está triste, por exemplo, meu instinto de escritor pede para que eu elabore um parágrafo inteiro mergulhando naquilo que ele está sentindo. Contudo, o Mario mostra esta tristeza em somente um quadro, sem palavra alguma.

Sem usar uma palavra! Como ele consegue isso?

Hoje, cerca de um ano depois de começarmos a trabalhar nisso, temos dezenas de páginas publicadas e mais um punhado delas em produção. Algumas destas páginas saíram totalmente diferente do que eu imaginava; outras saíram exatamente como eu pensei. Tenho minhas páginas preferidas – da mesma forma que a Marina e o Mario devem ter as suas, assim como os leitores devem sentir o mesmo.

Porém, confesso que, depois de 44 páginas publicadas e diversos elogios, eu ainda encaro tudo isso como “estou aprendendo a escrever histórias em quadrinhos”. Claro que já a produção é muito mais tranquila, com cada um conhecendo o estilo do outro, mas me sinto aprendendo mais e mais sobre como escrever HQs a cada diálogo, a cada quadrinho, a cada página.

E talvez venha daí a minha surpresa com a notícia que recebi semana passada: 


Terapia foi indicada ao HQMix na categoria Melhor Web Comic de 2011.


Pode parecer clichê, mas somente a indicação já é um enorme prêmio para nós. Afinal, nunca pensamos em prêmios ou nada desse tipo – nosso objetivo sempre foi entregar a melhor página possível (em termos de textos e arte) para os leitores. Mais nada.

Aparentemente, deu certo. Para quem não conhece, o HQMix é o maior prêmio brasileiro da indústria de quadrinhos, e a honra de ser indicado ao lado de tanta gente talentosa, como Angeli, Lourenço Mutarelli, Fábio Moon e Gabriel Bá é enorme – sem falar no amigo Raphael Fernandes, indicado pela ótima Ditadura no Ar. A lista completa dos indicados está aqui!

Assim, queria aproveitar este post para agradecer a todos os leitores, tanto aqueles que acompanham a história desde a primeira página como aqueles que descobriram Terapia mais recentemente. Eu e a Marina escrevemos; o Mario desenha; mas nada disso seria possível sem o apoio de vocês.

Muito obrigado por terem tornado Terapia em algo muito maior do que poderíamos imaginar!