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29 de dezembro de 2022

O Dia em que Eu Almocei com um Rei

 “O Pelé está atrasado”.

Éramos uma seis pessoas naquela sala luxuosa e todos se remexeram um pouco por causa da ansiedade. Afinal, não estávamos ali para almoçar. Estávamos ali para ver um rei.

Corta para algumas semanas antes.

Muito tempo atrás, quando trabalhava com cinema e vídeo, participei da cabine de imprensa e da coletiva de lançamento de Pelé Eterno. No meio da multidão de jornalistas que queria ver Pelé, eu puxei a assessora de imprensa do filme de canto.

“Você me deve uma meia dúzia de favores”, eu disse a ela. “Todos eles estão pagos se você me arrumar dois minutos com ele”.

Ela disse que iria ver o que conseguia, mas que não era exatamente fácil. Eu disse que ia esperar e fui embora certo que a conversa tinha morrido ali. Mas não morreu. Alguns dias depois, ela me liga.

“Você tem compromisso amanhã?”

“Não sei. Preciso ver”.

“Se tiver desmarca. Você vai almoçar com o Pelé”.

Acho que passei a noite em claro. Afinal, eu não ia apenas conhecer o maior jogador de futebol de todos os tempos. Eu ia conhecer o sujeito que havia sido o herói de infância do meu pai. Passei horas da minha vida ouvindo meu pai descrever gols e lances do Pelé como se eles estivessem acontecendo na minha sempre. O passe para o Carlos Alberto. A puxeta contra País de Gales. O chapeu no sueco. Para mim, tudo parecia meio mágico na voz do meu pai.

E era mágico.

Porque não era um jogador. Era um rei.

E eu ainda estava na casa de Aníbal Massaini, o diretor de Pelé Eterno, tentando entender que ia encontrar esse Rei quando ouvi que ele estava atrasado. Éramos um grupo de jornalistas – eu não conhecia nenhum – e Massaini. Conversamos mais um pouco até que finalmente ouvimos uma movimentação na porta da frente.

E de repente ele aparece na sala. Estava com um ou dois assessores, sorrindo e pedindo desculpas pelo atraso.

O problema é que eu não conseguia enxergá-lo direito.

Acho que nunca disse aqui, mas eu colecionava selos quando era moleque. Minha coleção era enorme e quase toda de selos comemorativos do Brasil. E três desses selos, eram sobre a conquista das Copas de 68, 62 e 70. E tudo o que eu conseguia ver na minha frente era o selo de 1970.

Eu olhava para ele e enxergava apenas essa imagem aqui.

Só consegui enxergá-lo de verdade quando se aproximou de mim e me cumprimentou. E me lembro claramente de, enquanto apertava a mão dele, tocar de leve seu braço. Menos para ter certeza de que ele estava ali, e mais para ter certeza de que ele existia. Porque a pessoa que fez aqueles lances que meu pai contou não podia ser real.

Ele era real.

Real e humano, pelas histórias que contou.

Almoçamos e ficamos batendo papo, ouvindo histórias de todos os tipos. A Copa de 66 foi tão violenta que até os argentinos reclamaram. O Cosmos colocou tanto dinheiro na mesa que era impossível falar não. Se você dominasse a bola de costas para o ataque no meio de campo, o Waldemar de Brito parava o jogo e mandava repetir o lance, falando que você tinha que virar sem tocar na bola, porque o gol era do outro lado. E se vocês acham que eu jogava bem, vocês precisam ver o que eu sei fazer com um pião. Aliás, eu tenho um pião no carro, posso ir buscar para mostrar para vocês.

“Não, não precisa, Rei”.

Sim, todos ali se dirigiam a ele como Rei. Não foi combinado, não foi pensado. Era apenas natural.

E, até hoje, carrego alguns momentos do dia comigo. O primeiro foi logo depois do almoço, quando fui usar o banheiro. Abri a porta indicada e... Lá estava o Rei, fazendo seu xixi.

“Rei, me desculpa! Eu não sabia que você estava aí!”, e fechei a porta.

Instantes depois, ele sai do banheiro. Eu peço desculpas de novo, mas ele pede diz que a culpa foi dele epor distração não trancou a porta do banheiro. E aí diz que isso fez ele lembrar uma história de quando estava fazendo uma excursão com o Santos. Estavam na Itália, jantando no hotel, e antes de subirem para o quarto, ele foi usar o banheiro do lobby.

“Senhores, o almoço está servido”, interrompeu um dos funcionários.

“Me dá dois minutos que eu quero contar essa história para ele”, disse o Rei.

Sim, ele pediu para as pessoas esperarem porque estava contando uma história para mim. E a essa altura eu não era mais jornalista. Eu era um garoto ouvindo o astro das histórias do meu pai. A história terminava com ele no banheiro e um italiano entrando em choque por ver o Pelé ao lado dele e, com o susto, mijando nas pernas do Pelé.

Ele gargalhou, colocou a mão no meu ombro e disse “vamos almoçar”.

O outro momento foi no final da tarde. Eu entreguei para ele o release do filme e pedi que autografasse para o meu pai. Enquanto ele fazia isso, eu arrisquei.

“Meu pai odeia você”.

Ele parou de assinar e olhou para mim, curioso.

“Meu pai é palmeirense”, expliquei.

Ele riu e terminou o autógrafo. Me entregou o release.

“Fale para o seu pai que eu peço desculpas para ele. Não era nada pessoal com ele. Eu só fazia aquilo que eu tinha que fazer”.


E é isso, né? Reis fazem o que reis precisa ser feito. Talvez seja por isso que sejam reis.

E agora o Rei está morto. Longa vida aos dribles e fintas. Longa vida aos passes e lançamentos. Longa vida às cobranças de falta e pênaltis. Longa vida aos gols - de placa ou de bico, como meu pai sempre diz. Longa vida ao choro em 58 e a foto com sombreiro em 70. 

Longa vida ao Rei.


20 de julho de 2014

Sobre Débora e Sobre a Copa

Eu parei de ver o jogo contra a Alemanha assim que saiu o terceiro gol. Fui para frente do PC e comecei a tuitar sobre a tragédia, enquanto ouvia a própria tragédia se desenrolar no PC. Quatro a zero. Cinco a zero. Quando acabou o jogo, eu pensei:

– O que diabos eu vou fazer com a Débora?

Sim, a Débora foi uma das primeiras coisas que pensei. Acho que é natural, já que eu passei a Copa inteiro ao lado dela, desde o primeiro jogo. Ninguém esperava por uma goleada de sete a um. Eu, ao menos, não esperava. E tenho certeza que a Débora também não.

Para quem não sabe do que estou falando, explico aqui: pouco antes da Copa, o leitor e amigo deste blog Cesar da Mota me propôs um desafio pelo Twitter: escrever um texto para cada jogo do Brasil na Copa, que se tornaria a edição 2014 da série Minha Vida em Copas, na qual eu escrevo minha biografia usando as Copas do Mundo para isso.

Confesso que, num primeiro momento, descartei a ideia. Acho que o ponto forte do Minha Vida em Copas é justamente o distanciamento (todos os textos foram escritos antes de 2010; o texto de 2010 foi escrito justamente horas antes do jogo contra a Croácia, agora em 2014). Aquilo do que me lembro anos depois da Copa – e, da mesma maneira, o que eu esqueço – dizem mais sobre o que eu sou do que um texto onde lembro de tudo, porque tudo aconteceu na véspera.

Mas, da mesma forma que descartei escrever sobre mim deste jeito, o formato me atraiu muito. Um texto para cada jogo, contando uma única história, e com continuidade? Do alto do meu teclado, parecia um desafio muito grande. Talvez maior que o 24 Horas, 24 Crônicas, quando eu passei um dia inteiro escrevendo crônicas com temas sugeridos na hora pelos leitores.

Claro que varar uma noite escrevendo um texto por hora cansa muito mais; mas ali eram temas soltos, eu podia escrever uma crônica sem me preocupar com a anterior ou com a seguinte. Mas ter que inventar a continuação de uma história a cada jogo – ou seja, eu só poderia pensar no capítulo seguinte depois do final do jogo, e a até o Brasil chegar à semifinal eu não fazia nem ideia de quantos capítulos a trama teria – era um desafio grande demais. Irresistível demais.

Nascia, assim, a saga da Débora (cujo primeiro capítulo está aqui), que mostra o protagonista – louco por futebol e apaixonado por Copas do Mundo – reencontrando uma antiga ex-namorada em um bar, no primeiro jogo do Brasil. Claro que isso mexe com ele (mais até do que a Copa do Mundo) e, a partir daí, cada jogo vai explorando este reencontro de todas as formas possíveis – ou, ao menos, que eu achei possíveis. Mais ou menos como eu fiz no conto Adolescência, alguns meses atrás (aliás, as histórias de Mateus e Júlia e da Débora não têm nada a ver uma com a outra, mas, dentro do meu cérebro, elas pertencem ao mesmo universo).

E, no terceiro texto, eu já havia me convencido que não estava mais escrevendo um enorme conto, mas sim um romance. Escrevendo um livro praticamente em tempo real – todos os textos eram postados antes do jogo seguinte – com os capítulos sendo postados em intervalos de dias. Aliás, eu perceber que era um livro foi a melhor coisa que aconteceu à trama. Eu queria desenvolver bem os personagens – falando de amor aqui, de futebol ali, de um gol ali e de um grande amor lá – mas os textos começaram a ficar muito grandes – mesmo para o meu padrão. Mas, no momento que eu percebi que era um livro, desapaguei de me preocupar com tamanho e apenas escrevi, me lembrando de algo que eu aprendi depois de anos e anos escrevendo: todo texto encontra seu público.

Foi o que aconteceu. As pessoas começaram a comprar a ideia. Os personagens caíram no gosto dos leitores, e eu comecei a receber não apenas comentários, mas também mensagens em todas as redes sociais me cobrando pelo final da trama, pelo destino dos personagens, por um desfecho, uma conclusão.

Como de costume, eu respondi a todos – se você é leitor meu e veio falar comigo sobre um texto e eu lhe deixei sem resposta, acredite: eu não vi sua mensagem. Juro.  Assim, agradecia os elogios, mas mentia quando dizia que “calma, o final vai sair”. Seria muito mais sincero eu ter dito que:

- Eu também não faço a mínima ideia de como essa história vai acabar.

Isso seria 99% verdade. Afinal, eu precisava dos jogos para saber o que iria acontecer. De repente, os personagens estavam vivos, ali no bar da esquina da minha casa – ou da casa dos leitores – e eu precisava assistir ao mesmo jogo que eles para saber o que aconteceu com eles e voltar para o PC. Eu não mandava mais neles, apenas escrevia sobre suas vidas. Quem estava dando as ordens eram os jogos da seleção.

(O 1% que seria mentira é porque eu imaginava o desfecho da trama desde o primeiro jogo, porque uma cena do último capítulo estava na minha cabeça desde que comecei a trama, e sabia que tudo terminaria ali – e não digo qual esta cena aqui porque talvez você ainda não tenha lido a história da Débora e não quero estragar a surpresa).

Mas, aparentemente, deu certo – cá entre nós, diferente da nossa Copa. Quem já estava acostumado com meus textos gostou muito. Alguns falaram que é a melhor coisa que escrevi (coisa que sempre duvido, mas que abri uma exceção – muito pessoal – desta vez, a respeito de um dos textos). Além disso, a saga ainda está sendo descoberta por novos leitores, que não conheciam meu trabalho – ou, se conheciam, não achavam que ele era digno de nota nas redes sociais.

Não sei se foram meus melhores textos. Mas foi, sem dúvida, um dos meus projetos mais ambiciosos. Não apenas em termos de tamanho de texto, mas em brincar com a própria mídia, da mesma que fiz com o 24 Horas, 24 Crônicas, quebrando um pouco a relação entre quem escreve e quem lê, algo que só é possível na internet mas que muita gente que escreve, infelizmente, deixa de lado.

Agora é esperar mais um tempo para desapegar destes personagens e pensar em outra história a ser contada – sugestões são bem vindas, apesar de eu ter umas quatro ou cinco ideias aqui – e voltar à vida normal. Mas, enquanto isso, agradeço mais uma vez todos os elogios, todos os comentários falando sobre as lágrimas que derramaram e as risadas que deixaram escapar com a Débora.

Vocês não fazem ideia do valor que isso tem para quem escreve.


Em tempo, a Copa rendeu dois outros textos meus publicados fora dos blogs. Falei sobre meu jogo inesquecível em Copas do Mundo para o Visitantes, e contei como foi a primeira goleada da história, ainda no Paraíso, para o Papo de Homem, em mais uma aventura do Adão.

12 de junho de 2014

Uma Vida em Copas: África do Sul - 2010






Eu lembro muito pouco da Copa de 2010. Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, em todos os aspectos da minha vida, fez com que eu carregasse comigo poucas imagens desta Copa. Além disso, vejo esta falta de memória como um prenúncio da depressão que eu sofreria no ano seguinte – minha falta de memória sobre 2011 é intensa demais, lembro muito pouco daquele ano e tenho lacunas enormes.

Não acho que na Copa eu já estava com depressão – apesar de que depressão é uma daquelas doenças que você nunca sabe direito quando ela começa ou quando ela termina – mas eu certamente já estava caminhando ladeira abaixo. Assim, tenho memórias pontuais da Copa. Algumas boas, outras ruins. Mas a primeira delas é que eu, ao contrário da maioria dos brasileiros, acreditava no time do Dunga.

Talvez seja pelo fato dele ter interrompido a bagunça de 2006, quando o time do Brasil entrou nos campos alemães como celebridades desfilando num evento. Talvez seja pelo fato dele ter dado início a um processo de renovação que deveria ter começado na Copa anterior. Ou – o mais provável – pelo fato do Dunga estar associado demais à vitória de 94. Sim, Baggio perdeu o pênalti, Romário jogou muito... Mas eu tenho comigo a certeza de que aquele time não seria o mesmo sem Dunga carregando o piano no meio de campo.

E, claro, eu queria Copa. Estava ansioso por causa dela, mas atolado de trabalho. Dentro das lembranças pontuais que possuo, me lembro de sair correndo da redação – que ficava a seis, oito quarteirões de onde eu morava – e ir correndo para casa, ouvindo a euforia nas ruas.  Pessoas gritavam, buzinas disparavam, rojões explodiam, enquanto eu andava pelas ruas de Pinheiros minutos antes do jogo.

Talvez seja neste caminho entre o trabalho e a minha casa que a Copa do mundo me pegou de vez. Eu saí da redação como um adulto, jornalista, chefe de redação... E, ao entrar no meu apartamento, já havia voltado a ser um menino assistindo sua primeira Copa e querendo ver seu time campeão.

Lúcio, Júlio Cesar, Juan, Maicon, Gilberto Silva e Felipe Melo.
Michel Bastos, Robinho, Elano, Kaká, Luís Fabiano.
Eu acreditava. Eu era um dos únicos, mas acreditava.
 
Vi o jogo sem ninguém ao meu lado, somente meu cachorro. A estreia do Brasil em 2010 foi o primeiro jogo do Brasil numa Copa do Mundo que eu vi totalmente sozinho – algo que eu julgaria impossível de acontecer quando criança, caso tivesse pensado sobre o assunto. E, se o jogo contra a Coreia do Norte foi um magro 2 x 1, para mim ele foi vencido antes da bola rolar, quando eu tive uma crise de choro na frente da televisão, durante o hino.

Se nos meses seguintes eu teria novas crises de choro ao ficar sozinho em casa por não entender o que estava acontecendo com a minha vida (e também por me culpar por coisas das quais eu não era culpado), meu choro durante o hino foi diferente. Foi o modo que o futebol encontrou para me dizer que tinha uma Copa acontecendo e que, durante 90 minutos, eu podia deixar tudo de lado. Durante 90 minutos, eu podia ser menino de novo, ali, sozinho em casa.

A Copa de 2010, para mim, começou naquele hino.

Dali em diante, as memórias são muito vagas – mais ou menos como a Copa de 1998, que meu cérebro guardou numa sala secreta onde ninguém tem acesso, deixando expostos apenas os dois gols que o Zidane marcou na final, que são exibidos constantemente num telão dentro do meu cérebro.

É assim, por exemplo, com os 3 x 1 em cima da Costa do Marfim. Mas ali tem o gol do Luís Fabiano que não dá para esquecer. Bola num braço, chapéu, outro chapéu, bola no outro braço, gol. E eu gritava na frente da televisão, sabendo que havia assistido a um dos gols mais bonitos da história das Copas. Foi mão? Foi, mas a gritaria não deixou ninguém se importar com isso. A falta de memórias permanece com o 0 x 0 contra Portugal, que prometia ser o grande jogo da primeira fase e acabou sendo uma partida morna, sem graça, sem brilho algum.

Foi mão? Foi.
Mas eu estava ocupado demais gritando na frente da televisão para me importar.

Enquanto escrevo, estou tentando lembrar onde eu vi Brasil X Chile, pelas oitavas de final. Pesquisei aqui e vi que era uma segunda-feira, então imagino que eu esteja assistindo na redação – mas pode ser a memória novamente me pregando peças, já que eu assisti ao primeiro jogo das oitavas de final de 2006, contra Gana, no trabalho.

É um jogo do qual não tenho recordações – mas imagino que, agarrado às minhas superstições, vi o jogo um bom presságio, já que o Chile havia cruzado nosso caminho também em 1962. Dito e feito: 3 x 0 e o país passou a acreditar. De repente, o time de Dunga começou a repetir tudo o que havia acontecido antes da Copa. Jogando feio (mas de forma eficiente), ele começou a deixar todos os adversários para trás.

E entrou em campo nas quartas de final para enfrentar a Holanda, o que só aumentava o bom presságio. Nas Copas do Mundo, Brasil e Holanda tem o hábito de orbitarem um ao outro, com seus caminhos se cruzando com frequência. Se em 74 perdemos para eles, em 94 o jogo contra a Holanda marcou o momento em que o Brasil decolou; quatro anos depois, despachamos novamente a Holanda, desta vez nos pênaltis, e fomos para a final.

E foi com esse espírito que o Brasil entrou em campo contra a Holanda: voando em campo. O time estava afinado. Robinho decidiu jogar bola e até mesmo Felipe Melo – que minutos depois se tornaria vilão da Copa – fez um lançamento que deixaria Gerson orgulhoso. O primeiro tempo terminou 1 x 0, mas foi injusto: com direito a gol anulado e toque de bola primoroso, o Brasil poderia ter goleado.

Eu? Eu não vi nada disso.

Eu estava no meio de uma maternidade na Avenida Paulista, esperando meu sobrinho nascer. Vi algumas cenas do jogo em televisões no saguão ou na mesa das enfermeiras, mas passei a maior parte do tempo olhando não a televisão, mas sim uma janela por onde eu via aquele bebê que tem os olhos do meu irmão – e, consequentemente, os meus olhos e os da minha mãe.

Algumas das melhores lembranças que eu tenho ao lado da minha família têm a Copa do Mundo como pano de fundo. Sou eu de joelhos na sala dos meus pais, de mãos dadas com a minha mãe, vendo Baggio perdendo o pênalti. Sou eu correndo pela rua em busca do meu pai – que não viu os pênaltis com medo de não aguentar de nervosismo – para abraçá-lo e gritar que o “agora eu também sou campeão” que eu queria gritar desde 82. Sou eu chorando compulsivamente, na mesma sala, depois do segundo gol contra a Alemanha, quando eu fiz as pazes com o futebol. Tenho memórias ruins também. Memórias de um Brasil X Itália morando acima do Equador, memórias de um Brasil X Argentina na casa de campo.

O álbum de família que eu carrego na memória tem muitas fotos em Copas do Mundo. Nada mais justo que a família crescesse justamente numa Copa do Mundo. Justamente com o Brasil em campo.

Eu não vi quase nada do jogo contra a Holanda. Mas não preciso assistir para saber que algo aconteceu dentro daquele vestiário no intervalo. De repente, o time voltou em pânico. E as falhas surgiram onde ninguém esperava. O melhor goleiro do mundo falhou. A zaga falhou. Felipe Melo expulso não mudou o jogo, foi apenas o retrato de um time que se desesperou em campo.

O Brasil entra em pane.
Eu, dentro de uma maternidade, não vi a Copa acabar para nós.

E eu vendo ali tudo picado, apenas imagens esparsas. Não sabia quanto tempo faltava, como o time estava jogando, o que a Holanda estava fazendo, o que o Brasil estava deixando de fazer.

E a Copa acabava para nós. E eu não vi.

E, pela primeira vez, eu não senti nada quando a Copa acabou para nós. Saindo do hospital e andando pela Avenida Paulista rumo ao trabalho, vendo um mar de camisas amarelas e azuis, todas com cinco estrelas e sem sorrisos. E eu não conseguia sentir nada.

Lembro que fiz piadas sobre o menino ser pé-frio, mas lembro de agradecer silenciosamente o fato dele acabar de nascer e nunca se lembrar desta derrota. Porque agora a criança das Copas era ele, e uma derrota quando você é criança dói demais. Meu pai viu 50. Eu vi 82. Meu sobrinho não viu 2010, mas certamente terá seu quinhão de derrotas. E é isso que fará ele gritar com tesão quando for a hora de ver uma vitória.

O resto da Copa passou deste jeito: sem eu sentir nada. E, de repente, a Espanha que todos tinham a certeza que daria show digno de sul-americano ficou naquele futebol europeu mesmo, e foi chegando aos trancos e barrancos. De repente, tínhamos uma final entre dois países que nunca haviam ganhado uma Copa, o que na minha cabeça era o cúmulo do anticlímax. A Holanda, com mais experiência em amarelar, amarelou. O mundo era vermelho.

Todos esperavam um show. Não veio.
Mas, de repente, o mundo era espanhol.

Mas eu já não estava prestando muita atenção na Copa. Assisti a todos os jogos, mas nenhum deles me marcou como deveria acontecer com uma Copa de verdade, o que hoje vejo como um presságio do inferno pessoal para onde eu desceria nos meses seguintes.

Escrevo este texto cerca de cinco horas antes do Brasil entrar em campo. Hoje começa uma nova Copa, e estou começando a ficar ansioso. Mas eu tenho convicção de que esta Copa não é mais minha. Dias atrás, encontrei meu sobrinho. Com ele no colo, perguntei:

- Vai ter Copa!

- Vai, tio!

E sorriu aquele riso de criança em Copa – mesmo ainda não tendo idade para saber o que é uma Copa.

Naquele momento, eu entendi que todas as Copas que aconteceram desde 1982 não foram mais do meu pai, ele deu cada uma delas para mim. E, como meu irmão não gosta de futebol, eu sei que a partir de hoje a Copa do Mundo não é mais minha, é do neto do meu pai. O avô viu cinco títulos. Eu vi dois. O neto não viu nenhum. Ainda.

Meu sobrinho ainda não sabe a importância de assistir a uma Copa ao lado do avô – especialmente do avô que ele tem – mas não tem problema. O tio dele está aqui, escrevendo tudo, para sempre que ele quiser ver. Mas acho que não vai ser preciso. Você vai lembrar, Moleque.

Porque a nossa família é assim. Sua primeira Copa começa hoje. E, assim como seu avô antes de mim e eu antes de você, você vai se lembrar. Talvez não de tudo, mas do que vale a pena ser lembrado.

Ouça seu tio: você vai se lembrar.

6 de setembro de 2013

Quando os Gigantes Caminhavam sobre a Terra



Eu devia ter uns oito, dez anos e estava jantando com meus pais num restaurante alemão perto de casa. Era um restaurante que íamos sempre e que ainda existe, perto do Shopping Ibirapuera.

Engraçado que minha memória não inclui meu irmão, mas é provável que ele estivesse na mesa. Afinal, ele deveria ter uns 14 anos, e certamente estava com a gente. Na verdade, minha memória também não diz nada sobre a minha mãe. Mas, diferente do meu irmão, eu sei que ela estava lá, porque eu jamais sairia para jantar com meu pai sem minha mãe ao lado. Então, na verdade, eu não lembro nem da minha mãe nem do meu irmão, mas eu sei que ela estava lá e acho que ele estava lá.

Porque minha memória daquela noite – que eu gosto de pensar que foi uma sexta-feira – envolve mais meu pai e o senhor negro que passou caminhando atrás de mim. Ele estava indo embora do restaurante com mais duas pessoas mais jovens que ele. Andava devagar, com certa dificuldade.

- Esse cara é um dos maiores ídolos da história do seu time, meu pai disse baixinho.

Eu olhei curioso.

Ele não tinha tamanho de ídolo. Muito menos o porte de um ídolo, andando com os pés arrastados. Mas o seu andar lento pareceu normal para mim. Afinal, ele era velho. Como eu era criança, não soube adivinhar quantos anos ele tinha. Para mim ele era apenas “velho como minha avó”.

Mas o que me chamou a atenção mesmo foi seu tamanho. Ele não era nada grande. Pelo contrário, era pequeno. Pequeno e meio cabeçudo. Além disso, tinha olhos estranhos, meio esbugalhados. No auge da minha sabedoria de oito, dez anos de idade, ele era apenas um velhinho.

- Quem é ele?

- O Leônidas.

Eu arregalei os olhos. Eu já começava a ler sobre futebol nesta época. Numa época onde a internet não era sequer imaginada, eu me virava com edições históricas da Placar e os saudosos Almanaques do Zé Carioca. E lia muito o maior livro sobre futebol que vi na vida: meu pai, um dos poucos sujeitos que admite gostar mais do esporte que do próprio time.

Assim, eu sabia quem era Leônidas. Sabia até o sobrenome dele: da Silva.

Leônidas da Silva. O Diamante Negro.

- O da bicicleta? É ele?

- Ele mesmo.

Olhei de volta. De repente, ele não era mais um velhinho com o andar arrastado. Ele era o cara que havia inventado a bicicleta, o lance que todo garoto que joga futebol sonha em fazer – mas que 99% deles, eu incluso, acabam desistindo e se contentando em acertar um passe de calcanhar.

Olhei de volta e ele estava na porta. Morri de vontade de correr até ele. Talvez hoje, com celulares à mão, eu teria feito isso e pedido para fazer uma foto. Na época tudo o que eu conseguiria seria um autógrafo. Mas, com oito anos de idade, a vergonha de fazer isso foi maior que a vontade. Fiquei quieto, olhando, e me enganando por alguns minutos que “ah, não teria dado tempo, ele já estava indo embora”.

Meu pai passou o resto do jantar contando histórias do Leônidas, provavelmente aprendidas com o pai dele. Contou sobre a Copa de 1938, sobre o gol feito com pé descalço, sobre os títulos que ele ganhou no São Paulo. E senti orgulho do meu time, senti orgulho de um sujeito como ele ter jogado com a camisa que eu já havia aprendido a amar.

Aquela noite eu aprendi que, antes dos heróis do meu pai (leia-se “a geração de Pelé”) existiram outros heróis, com histórias ainda mais românticas que as das Copas de 58, 62 e 70.

Até hoje eu me lembro dessa noite. Foi a noite em que Leônidas da Silva, que hoje completaria 100 anos, deixou de ser um nome nos almanaques de esporte e se tornou quase um amigo para mim, mesmo com décadas nos separando. Contei para todos os meus amigos que tinha visto o sujeito num restaurante, e ficava bravo caso algum deles não soubesse de quem eu estava falando.

Porque, para mim, todos tinha a obrigação de conhecer aquele velho pequenininho que passou atrás de mim.

Porque ele não era um velho pequenininho.

Era um gigante.

1 de fevereiro de 2013

O Torcedor


Era famoso pela paixão que sentia pelo seu time. Há quem diga que ele não era exatamente uma pessoa apaixonada, mas sim radicalmente burro. Porém, ele logo respondia que não era culpa sua se os outros não entendiam de futebol.

Discordava veemente de qualquer opinião contrária à sua, especialmente quando o seu time era o tema da conversa. Sim, porque só existia uma torcida de verdade: a do seu time. Torcedores dos outros times não entendiam de futebol, não acompanhavam o time como ele. Acreditava piamente que os outros torcedores não amavam o próprio time como ele, pois seu time era o mais popular, o mais técnico, o mais sofrido, o mais guerreiro, o mais rico, o mais vitorioso. Quando criticavam seu time, era por inveja.

Para ele, existia somente um time e somente uma torcida. Os outros times e torcidas eram tentativas menores e incompetentes de competir com seu time, impávido colosso do esporte nacional. Soltava fogos até em jogo de aspirantes – mas, quando torcedores dos outros times comemoravam jogos decisivos com rojões, olhava com desdém e dizia que isso já era certo exagero, mesmo porque seu time já havia ganhado aquele mesmo campeonato.

A imprensa, coitada, penava na sua mão. Ao noticiar uma crise no seu clube de coração, era atacada por ele como um órgão corrupto criado somente para desmoralizar seu time, que conseguia ser maior que a seleção nacional. Mas, bastava um jogo do seu time ser exibido na televisão para bradar aos quatro ventos que esta era a prova definitiva de que seu time era o mais popular, o representante do esporte nacional.

E, nos dias de jogo, se tornava virtualmente insuportável. Quando seu time ganhava, era a melhor equipe do mundo; quando perdia, foi por acidente ou azar. Ou por causa dos erros do árbitro, já que todos os juízes perseguiam seu time numa cruzada pessoal.

Pênalti contra seu time? Roubado. Pênalti a favor do seu time? É evidente que havia sido pênalti – e o juiz ainda errou ao não expulsar o adversário infrator. Invariavelmente, seu time era roubado. Ao menos, aos seus olhos. E, quando um jogador era suspenso, reclamava aos berros que a federação perseguia seu time – caso fosse um jogador adversário, a suspensão havia sido justa. Até mesmo branda.

Reclamava até mesmo das partidas em que o time havia sido vencedor. O juiz não deixou o time jogar, o outro time foi desleal quando percebeu que seria derrotado, ou a torcida adversária não soube se comportar. Pois, se a partida fosse honesta, seu time teria goleado o adversário. Pois, em qualquer partida honesta, seu time golearia qualquer adversário. Mesmo jogando com a equipe reserva.

Chegava até mesmo a brigar por causa de patrocínios dos clubes. O patrocinador do seu clube era sempre o melhor, o mais envolvido com esporte, o mais milionário. E contava para quem quisesse ouvir – quase ninguém, na verdade – que os patrocínios dos outros times eram pífios, e refletiam apenas a grandeza do seu próprio clube.

Discutia até mesmo as vitórias dos adversários – apesar de jurar que nem assistia aos jogos dos outros times. Bastava um rival ser campeão para ele desvalorizar o time vencedor, dizendo que seu time já havia vencido este campeonato anos antes – e, numa situação inversa, caso alguém usasse este argumento com ele, dizia apenas que não vivia de passado, que o que importa é o campeonato atual, e que o campeão era o seu time, e imediatamente começava a relembrar aquele jogo em que seu time, nos anos 40, goleou o adversário e que a torcida do outro não tem nada para celebrar.

Vivia assim, acreditando que seu time era uma instituição superior a qualquer outra. Seu estádio comportava 281 torcedores a mais que o estádio do rival; um antigo presidente da empresa que patrocina o rival fora condenado por corrupção 76 anos atrás; seu time tinha mais títulos que o rival nos principais campeonatos – mesmo porque os campeonatos que os rivais haviam vencido mais, alguns internacionais, inclusive, não valiam nada. E os jogadores do seu time eram mais técnicos, mais guerreiros, mais esclarecidos e humildes.

E ai de quem reclamasse do seu comportamento. Começava a esbravejar, argumentando que a pessoa não entendia de futebol, não gostava do próprio time como ele, não queria encarar os fatos de que seu time era superior a tudo. Por isso, perdeu os amigos.

Ninguém mais conversava sobre futebol com ele – e ele jurava que este ódio era somente por causa da superioridade do seu time. Mas acabou precisando arrumar outro assunto para voltar a conversar com os amigos e, quase por acidente, começou a se interessar por política.

E acabou se identificando com um partido qualquer.

Semanas depois, estava esbravejando com os amigos, afirmando que o deputado do seu partido que fora preso por corrupção havia sido injustiçado e massacrado por um complô da imprensa, que o certo era prender o deputado do outro partido, que todo mundo sabe que rouba, que sempre roubou, que sempre vai roubar. E acusando os amigos de serem totalmente alienados por acharem que alguém dentro do seu partido poderia roubar e que o outro partido poderia ter alguém honesto e comprometido.

E xingando a todos de ingênuos por acreditarem que a foto que saiu em todos os jornais mostrando o presidente do seu partido recebendo uma mala de dinheiro era verdade, e não uma montagem fotográfica barata, fruto de um golpe arquitetado por milionários e jornalistas para derrubar seu partido, o mais correto, o mais honesto.

Era famoso pela paixão que sentia pelo seu time. Há quem diga que ele não era exatamente uma pessoa apaixonada, mas radicalmente burro. Mas ele logo respondia que não era culpa sua se os outros não entendiam de política.

29 de outubro de 2012

Tarde Demais Para Esquecer


Meus pais liam jornal de maneiras diferentes.

É uma das lembranças mais antigas que tenho.

Meu pai lia no sofá, sentado de pernas cruzadas e com o jornal aberto. Eu mal via meu pai: ele estava escondido atrás daquele papel cinza, cheio de textos e fotos em preto e branco.

Minha mãe, por outro lado, lia o jornal na mesa da cozinha, virando as páginas e lendo as notícias enquanto tomava café. Mas isso só nos dias da semana. Aos domingos, com mais tempo para ler, ela preferia se sentar no chão da sala, com o jornal aberto e espalhado sobre o tapete.

Eles liam de formas diferentes, cada um do seu modo, mas sempre o mesmo jornal.

O Jornal da Tarde.

Sempre foi o jornal lido na minha casa, desde que eu me conheço por gente. Era o Jornal da Tarde de segunda-feira aos sábados e, no domingo, o Estadão. Pesado, robusto. Eu, quando era criança, mal conseguia segurar direito o Estadão e sua infinidade de cadernos. Gostava mais do Jornal da Tarde. Era um jornal menor, mais de acordo com meu tamanho.

Curiosamente, o jornal não cresceu de tamanho, mas eu sim – o que me leva a pensar que talvez o jornal já fosse adulto quando eu o conheci.

Mas não posso negar que, enquanto eu crescia, o jornal se tornou parte importante da minha vida. Especialmente dois cadernos específicos: o de esportes e o Divirta-se, que era o nome do suplemento cultural.

Não sei por qual dos dois me apaixonei primeiro. Talvez tenha sido ao mesmo tempo, já que minha paixão por cinema e livros nasceu praticamente junto com a que sinto por futebol.

Eu devia ter uns oito ou nove anos. E me lembro da ansiedade com que eu pegava o jornal todas as manhãs nos dias seguintes aos jogos do meu time. Para mim, era quase tão importante quando o jogo em si – que provavelmente eu havia escutado no rádio, na noite anterior, quietinho no meu quarto. Passava um bom tempo lendo a matéria sobre o jogo, quais notas dadas davam cada jogador, as entrevistas...

Mas o meu tesouro mesmo era a ficha técnica da partida, sempre no final da matéria principal. Era um pequeno quadradinho com as escalações dos times, o local da partida, quem fez os gols, público pagante, renda e trio de arbitragem. Toda vez que eu via aquilo, me dava vontade de começar a recortar e guardar todos estes quadrados em um caderno ou uma pasta e montar a minha história do time.

Não sei se cheguei a fazer isso. E, se fiz, abandonei a ideia pouco depois, por qualquer motivo. Hoje eu me arrependo bastante de nunca ter levado o meu projeto infantil adiante, mas gosto bastante dessa memória.

Da mesma forma que eu gosto de me lembrar da seção com as resenhas dos filmes que seriam exibidos na televisão, assinadas pelo Rubens Ewald Filho. Lia todos os dias, de ponta a ponta. E, com isso, aprendia não apenas nomes de filmes, mas principalmente de atores e diretores. Meu amor pelo cinema é herdado do meu pai, mas ele só se manifestou de verdade quando eu comecei a ler sobre o assunto nas páginas do Jornal da Tarde. Pois foi lendo a coluna de Filmes na TV que comecei a descobrir as matérias maiores, com entrevistas e críticas sobre as grandes estreias que me interessavam. E, de lá, para as matérias sobre livros.

Anos depois disso eu passaria muito tempo escrevendo sobre cinema, escrevendo sobre o assunto. Mas nunca para o Jornal da Tarde.

Claro que, mesmo criança, eu ainda me encantava com algumas descobertas em outros cadernos, que hoje são momentos marcantes do jornal. De alguns, eu “escapei”, como a clássica manchete com o garoto chorando a derrota da Copa de 1982, pois na época eu morava em Manaus – e fico feliz pelos meus pais, pois acho que tudo o que eles não precisavam com aquela derrota era ver as lágrimas de outro menino que não o filho deles.

Mas, durante um bom período de tempo, eu e meu irmão corríamos todas as manhãs para abrir o jornal e ver o tamanho do nariz do Maluf. Foi na época que ele prometeu encontrar petróleo em São Paulo e, conforme nada acontecia, o Jornal da Tarde publicou um desenho do Maluf cujo nariz crescia a cada dia – algumas semanas depois, o nariz do Maluf já ocupava quase duas páginas inteiras, cortando os textos e empurrando fotografias para o lado.

E eu e meu irmão ríamos alto, e fazíamos adivinhações sobre o tamanho do nariz do Maluf no dia seguinte.

Conforme fui amadurecendo, comecei a me aventurar pelos outros cadernos. Política, economia, internacional. De todos estes, sempre tive uma queda pelas notícias de cidades. Na minha adolescência, algo que acontecia no meu bairro ou em algum lugar perto da minha casa me parecia mais real que uma notícia sobre a economia da Europa.

Além disso, o caderno de cidades sempre teve um gosto de crônica para mim. Normalmente, são histórias de pessoas comuns em situações incomuns. Pensando hoje, com dois livros de crônicas publicados, não vejo como eu não poderia me apaixonar por algo assim.

Devo muito a esse jornal. Seja por tudo o que ele me ensinou quando criança, quando eu o pescava da cesta de revistas da casa da minha mãe; seja por me fazer companhia quando eu, adolescente, voltava para casa quando o Sol estava nascendo e bêbado, recolhendo o jornal da garagem e o lendo em silêncio na cozinha, até o porre passar. E no dia seguinte eu relia tudo, pois não me lembrava de nada do que havia lido.

Mas devo muito principalmente ao caderno de esportes e ao Divirta-se, que foram dois dos melhores amigos que tive na vida. Nos últimos anos que morei com os meus pais, era sabido que eu não saía de casa sem folhear estes dois cadernos enquanto tomava café. E ao chegar tarde da noite, jantava sozinho lendo o caderno de esportes. As notícias já eram velhas, mas não me importava: eram as minhas notícias e eu ainda não havia lido.

Em dois dias, este jornal vai parar de circular. Em dois dias, eu vou perder a certeza de que sempre o Jornal da Tarde estava sempre ali na banca, ou na casa dos meus pais, me esperando. Dizem que é o progresso, que hoje será tudo online, e que não há espaço para jornais assim.

Talvez tenham razão.

Alias, provavelmente estão certos.

Então, o mínimo que eu posso fazer é deixar, neste blog, um pouco da história deste “antigo” jornal de papel. Afinal, a cidade pode ter perdido um excelente jornal, mas eu perdi um grande amigo.

Além do mais, dificilmente este blog existiria hoje se eu não tivesse crescido rodeado pelos jornais lidos que meus pais liam. Meu pai lia sentado no sofá, e minha mãe lia na mesa da cozinha ou no chão da sala.

Eu? Eu não faço ideia de como lia o jornal. Na sala, na cozinha, não lembro. Tentei me lembrar disso enquanto escrevia este texto, mas não consegui. Acho que eu não tenho uma posição preferida de ler jornal. Mas se você me perguntar qual jornal eu leio... Bem, isso eu sei responder.

Eu leio o Jornal da Tarde.

E vai demorar muito tempo até eu me acostumar com qualquer outra resposta.

14 de janeiro de 2012

Num Sábado de Sol



Eu me lembro apenas que era um sábado e fazia sol. Com oito anos de idade, eu já estava começando a me apaixonar por futebol, um amor herdado do meu pai. Santista de nascimento, ele havia assistido a toda a geração de ouro do futebol brasileiro de pertinho, no estádio.

E sempre que me contava os feitos desses atacantes, armadores e até mesmo de goleiros lendários, eu me encantava cada vez mais com o esporte e sua história. Nesse sábado em especial, minha paixão entrou em campo num campeonato da escola. Todas as turmas da minha série disputariam o torneio, cada uma delas defendendo a camisa de um grande time brasileiro. No sorteio, minha classe ganhou as cores e o brasão do Flamengo.

Claro que se tratava de um futebol disputado por crianças, ou seja: dois meninos no gol e outros vinte amontoados e gritando ao redor de uma bola. Mas, para mim, aquilo tinha um sabor de Copa do Mundo, especialmente por um grande charme: a cada partida, um pai seria o técnico do time. No primeiro jogo, entramos em campo obedecendo às instruções do meu pai.

(Leia mais aqui)

30 de maio de 2011

Garotos Incríveis

Ai, que saudades que eu tenho
dos meus doze anos,
que saudade ingrata!
Dar banda por aí,
fazendo grandes planos
e chutando lata.




Esta é rua em que eu nasci.

É rua pequena e com cerca de vinte casas, no meio de Moema. Meus pais compraram a casa ali anos antes de eu nascer, quando o bairro era somente um pântano, com poucas casas e quase nada de comércio. Hoje, o bairro é entupido de prédios e avenidas. Tem até um Shopping Center que, durante minha adolescência, foi quase o meu segundo lar.

Mas, enquanto eu crescia nesta rua, as coisas eram diferentes – apesar de não possuir uma memória do bairro sem os prédios. A rua era mais tranqüila (mas menos sossegada do que as fotos mostram), porque, na verdade, acho que a vida era mais tranqüila.

Não me lembro do dia em que cheguei lá pela primeira vez, mas durante quase três décadas, esta rua foi meu mundo. Era aqui que meus pais me levavam para tomar Sol quando eu era bebê e devo ter começado a aprender a andar em algum lugar destas fotos. Apesar de eu me lembrar bem pouco de tudo isso, sei que a rua estava ali, comigo.

Já um pouco mais velho, lembro de me deitar na cama do meu quarto – cuja janela dava para a rua – e demorar a dormir por causa do medo que eu sentia do barulho dos aviões esquentando os motores no aeroporto de Congonhas. E adorava quando acordava pela manhã e o barulho havia sumido. À noite, aquele barulho era um monstro, mas, durante o dia, o som dos aviões pousando e decolando era apenas o “barulho do aeroporto”.

Tenho poucas memórias da infância, mas todas – especialmente aquelas vinculadas a esta rua – são doces.

Lembro-me de estar voltando de algum lugar com a minha mãe e, ao descobrir o carro do meu avô (acho que era um Corcel marrom) estacionado, gritar que “o vovô está em casa” e sair correndo em direção ao portão. Lembro do medo – sim, hoje até mesmo este medo é doce – do dia em que minha mãe deu permissão para que eu fosse à banca de jornal, sozinho pela primeira vez. Não lembro qual era o dia, mas lembro que estava frio, com o céu totalmente acinzentado e que eu mal conseguia andar direito com tantos casacos.

E, por morar lá desde que nasci, lembro-me de cada uma das casas e de quem morava nelas, especialmente durante minha infância. Especialmente a dos meus amigos – sim, várias casas desta rua tinham crianças da mesma idade. Quando éramos crianças, éramos uma espécie de benção da rua; já mais velhos, nos tornamos o inferno do bairro.

Foi nesta rua, ao lado deles, que eu cresci. Esta rua me viu crescer e aprender a falar palavrão, a brincar de barra manteiga, esconde-esconde, pega-pega, polícia e ladrão e Guerra nas Estrelas. Sim, brincávamos de Guerra nas Estrelas, e brigávamos para escolher quem iria interpretar cada papel. Ou, nos dias de chuva, nos reuníamos na casa de um deles – às vezes era a minha – para jogar videogame ou algum outro jogo de tabuleiro.

Mas, nos dias de Sol, estávamos na rua. Jogávamos taco, andávamos de rolimã, e me lembro de algumas vezes termos estendido uma corda entre um portão e outro para usar como rede de vôlei. Mas o nosso negócio era mesmo futebol. Ao menos o meu. E, quando a bola começava a rolar pela rua, ela deixava de ser uma rua e se tornava meu palco.

Durante anos, fiz gol de tudo que era jeito. Fiz gol de placa e gol de bico. Fiz gol tirando o goleiro, por cobertura, fiz o gol que o Pelé não fez contra o Uruguai (deixando a bola passar por baixo das pernas e enganando o goleiro), fiz gol entrando com bola e tudo. Isso tanto em jogos “de brincadeira” com meus amigos, como nos “grandes clássicos” disputados contra turmas de outras ruas – cuja maioria dos jogos terminava em briga.

Tudo isso no campinho que pintamos um dia e cujo cheiro da tinta me fez vomitar à noite inteira dentro de casa. Tínhamos um campo e tínhamos regras. Além da ”prensada é da defesa”, regra máxima do futebol de rua, era proibido fazer gol tabelando com alguma coisa (portão, veículo) e lateral somente quando a bola caía em uma garagem.

Mesmo sendo o menor do time, inventava, às vezes, de jogar no gol. E fazia algumas defesas bonitas, especialmente porque conseguia esconder dos atacantes o fato de que eu não sabia pular para a esquerda. E gritava com o time inteiro – às vezes minha mãe precisava vir até o portão e me mandar parar de gritar palavrões – arrumava a defesa, saía do gol dando carrinho ou espalmava para escanteio.

E, quando a bola caía em alguma cobertura, eu era um dos primeiros a subir pelos portões para buscá-la, porque na época eu não tinha medo de altura. Ou, se tinha, não sabia disso. Eu estava sempre andando por cima das coberturas, atrás da bola ou atrás de farra.

E foi justamente assim – correndo atrás da bola ou correndo atrás de farra – que eu cresci.


Ai, que saudades que eu tenho
duma travessura,
um futebol de rua.
Sair pulando muro,
olhando fechadura
e vendo mulher nua.


Mas claro que conforme o tempo foi passando, e a proporção mudou: de repente, eu passava mais tempo correndo atrás de farra do que da bola. Minha mãe deve ter odiado quando o filho caçula dela começou a aprender a beber e a fumar, algo que aconteceu nas calçadas desta rua. Descobri músicas, filmes e livros, que me acompanham até hoje, conversando nestas calçadas.

Sim, porque às vezes apenas não fazíamos nada. Apenas conversávamos. Sentávamos na calçada e conversávamos sobre tudo: mulheres, futebol, amizade, escola, família, vida. E conversávamos de verdade. Não existia internet. Era uma época em que, para conversar com alguém, era preciso ligar para a casa da pessoa – ou, no caso dos meus amigos da rua, ir até a casa da pessoa e tocar a campainha.

Assim, a comunicação era mais direta, mais humana. E mais verdadeira. Mentia-se menos, porque quase tudo era olho no olho e mentir desta forma é muito difícil. Se você estava chateado com alguém, ao invés de ficar invisível no Messenger, bastava chamá-lo de canto, sair para dar uma volta no quarteirão e resolver o problema. Em casos extremos era preciso até mesmo sair na porrada para se resolver, mas se resolvia. Porque um olhava para a cara do outro, e não para a um punhado de emoticons que poderiam ter sido digitados enquanto a pessoa falava mal de você para um terceiro, em outra janelinha.

Não era mais fácil (porque sair na chuva para chamar o amigo era bem mais complicado que chamá-lo no Messenger ou no Gtalk), mas era mais honesto (justamente porque você saía na chuva para chamar seu amigo, ao invés de chamá-lo no Messenger ou no Gtalk). Era uma época que você sabia exatamente como cada pessoa era, também porque você sabia como a família de cada pessoa era – vivíamos uns nas casas dos outros, sempre.

E se você um dia pisasse na bola com alguém (seja por causa de mulher, seja por ter espalhado mentiras sobre esta pessoa, seja por qualquer outro assunto) você era desmascarado em dias e recebia o maior castigo possível: ia para a geladeira e era totalmente ignorado pelo resto da molecada. E lá você ficava até pedir desculpas publicamente para todo mundo.

Talvez por isso que até hoje, para mim, o Messenger não seja suficiente. Adoro conversar por ele – não sou avesso à tecnologia, pelo contrário – mas sei que não é suficiente para mim. Sinto falta do olho no olho, do bate papo na calçada. Porque foi batendo papo na calçada, olhando nos olhos, que eu aprendi a crescer e formei boa parte do meu caráter. Ali, olhando nos olhos.

Mas foi também nesta rua que estraguei boa parte do meu caráter. Ao menos, é o que a minha mãe iria colocar aqui se tivesse a senha do meu blog. Eu não vejo como “falha de caráter”, mas como “aprontar”.

Tínhamos alguns alvos preferidos, como a Velha Louca que morava na esquina (na casa com muro verde, à direita da foto que abre o post), porque se existe uma constante na natureza é que “toda rua que possui uma turma de moleques certamente terá também uma Velha Louca”. Explodíamos o muro dela com bombinhas, e era impossível passarmos em frente à casa dela sem tocar a campainha e sair correndo. Qualquer dia eu falo melhor dela aqui.

Outro alvo nosso era uma família de gorduchos que se mudou para a rua quando eu já devia ter uns 14 anos. A família tinha um moleque da nossa idade e o ritual (nunca oficializado) é que qualquer garoto não nascido na rua precisaria sofrer antes de entrar para a turma. Era uma espécie de batizado.

Eu nem me envolvi muito – acho que estava em semana de provas –, até um dia em que o Gordinho, da janela do quarto, jogou um ovo na minha direção quando eu passeava com meu cachorro. Fui até o portão – o moleque estava rindo na janela – e disse a ele simplesmente que ele havia comprado uma briga maior do que ele poderia agüentar.

O moleque continuou a rir. Nos meses seguintes, a vida de todos que moravam naquela casa se tornou um inferno. Fizemos coisas que não caberiam em um post (por exemplo, pulei no quintal da família com uma lata de spray e passei boa parte da madrugada pintando todas as plantas, folha por folha, de vermelho). E mais não digo, pois em dez minutos minha mãe já estaria gritando para o meu pai pegar o testamento da família e uma borracha. Mas certamente contarei estas histórias para o meu filho (sem a mãe dele saber, claro).

Mas não aprendi apenas a jogar bola, a ter caráter e a aprontar.

Mas outras descobertas minhas aconteceram nessa rua, conforme eu crescia. Subíamos nas coberturas para ver a mulher do vizinho – linda – se trocando ao sair do banho. Tomei porres homéricos, chegando a vomitar as tripas em algumas destas esquinas e até mesmo a cair na fogueira (literalmente) durante uma festa junina, junto com outro amigo bêbado. Comemorei gols do Brasil em Copas do Mundo gritando pela rua e correndo de braços abertos em direção a um abraço, como se o gol tivesse sido meu.

Algumas das minhas primeiras paixões nasceram nesta rua, seja na calçada ou em bailinhos nas garagens, com o portão coberto por uma lona e dançando de rosto colado depois de criar coragem para ir falar com a garota. E voltava para casa totalmente apaixonado, sem conseguir tirar a garota da cabeça e certo de que havia descoberto a mulher da minha vida.

Mas também aprendi – existe uma grande diferença entre aprender e descobrir – nesta rua. Muitas vezes voltei para casa tarde da noite, sozinho e com lágrimas nos olhos, por ver paixões minhas jogadas no lixo, me questionando o sentido de tudo aquilo e se existiam regras para aquele jogo que eu queria jogar.

Mas poucas coisas – isso, contando até hoje – doeram tanto quanto o dia que meu pai me levou para tomar um chopp e disse que meu basset hound havia morrido. E ao entrar em casa, percebi que nunca mais o veria correndo na minha direção pelo corredor lateral do quintal.

No momento em que vi o quintal vazio, entendi que havia perdido o meu melhor amigo, sem sequer ter me despedido dele. O choro que eu estava segurando desde a hora que recebi a notícia escapou feito uma tempestade. Perdi a força nas pernas, caí sentado no chão e chorei compulsivamente por um dez minutos, sem conseguir parar de chorar ou me levantar, sem me importar se alguém na rua estava vendo.

Mas foi nesta rua que aprendi a beijar e a abraçar. Foi nesta rua que aprendi a confiar e a desconfiar. Foi nesta rua que aprendi que você xinga e brinca de luta somente com aqueles que gosta muito, tratando cordialmente e com respeito aqueles que você jamais viraria as costas. Foi nesta rua que aprendi a proteger (e escolher) meus amigos.

Foi morando nesta rua que aprendi a amar, a me apaixonar, a querer o bem de quem me quer bem. Foi morando nesta rua que aprendi a contar histórias. Quer dizer, primeiro foram piadas; depois as histórias, transformando-me no contador de histórias das noites de bebedeira. Ou seja, foi morando aqui que eu aprendi a escrever, mesmo sem escrever nada, apenas falando.

Foi morando nesta rua que me tornei o que sou. E se você quer realmente saber como sou, sente-se comigo em uma calçada e converse comigo, sobre qualquer assunto, durante horas. Porque é assim que eu fui criado: olhos nos olhos e com a bola rolando na rua. Nesta rua.

Na rua em que cresci.



Ai, que saudades que eu tenho
dos meus doze anos,
que saudade ingrata!
Dar banda por aí,
fazendo grandes planos
e chutando lata.



Nota: Ultimamente, tenho escrito bastante no Chronicles. Aliás, escrito mais rápido do que é possível acompanhar, como já vieram me dizer. Então, caso tenha perdido os últimos textos dali, convido a ler Louco de Amor, Ligue os Pontos e O Cadáver de Terno Cinza.