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30 de maio de 2011

Garotos Incríveis

Ai, que saudades que eu tenho
dos meus doze anos,
que saudade ingrata!
Dar banda por aí,
fazendo grandes planos
e chutando lata.




Esta é rua em que eu nasci.

É rua pequena e com cerca de vinte casas, no meio de Moema. Meus pais compraram a casa ali anos antes de eu nascer, quando o bairro era somente um pântano, com poucas casas e quase nada de comércio. Hoje, o bairro é entupido de prédios e avenidas. Tem até um Shopping Center que, durante minha adolescência, foi quase o meu segundo lar.

Mas, enquanto eu crescia nesta rua, as coisas eram diferentes – apesar de não possuir uma memória do bairro sem os prédios. A rua era mais tranqüila (mas menos sossegada do que as fotos mostram), porque, na verdade, acho que a vida era mais tranqüila.

Não me lembro do dia em que cheguei lá pela primeira vez, mas durante quase três décadas, esta rua foi meu mundo. Era aqui que meus pais me levavam para tomar Sol quando eu era bebê e devo ter começado a aprender a andar em algum lugar destas fotos. Apesar de eu me lembrar bem pouco de tudo isso, sei que a rua estava ali, comigo.

Já um pouco mais velho, lembro de me deitar na cama do meu quarto – cuja janela dava para a rua – e demorar a dormir por causa do medo que eu sentia do barulho dos aviões esquentando os motores no aeroporto de Congonhas. E adorava quando acordava pela manhã e o barulho havia sumido. À noite, aquele barulho era um monstro, mas, durante o dia, o som dos aviões pousando e decolando era apenas o “barulho do aeroporto”.

Tenho poucas memórias da infância, mas todas – especialmente aquelas vinculadas a esta rua – são doces.

Lembro-me de estar voltando de algum lugar com a minha mãe e, ao descobrir o carro do meu avô (acho que era um Corcel marrom) estacionado, gritar que “o vovô está em casa” e sair correndo em direção ao portão. Lembro do medo – sim, hoje até mesmo este medo é doce – do dia em que minha mãe deu permissão para que eu fosse à banca de jornal, sozinho pela primeira vez. Não lembro qual era o dia, mas lembro que estava frio, com o céu totalmente acinzentado e que eu mal conseguia andar direito com tantos casacos.

E, por morar lá desde que nasci, lembro-me de cada uma das casas e de quem morava nelas, especialmente durante minha infância. Especialmente a dos meus amigos – sim, várias casas desta rua tinham crianças da mesma idade. Quando éramos crianças, éramos uma espécie de benção da rua; já mais velhos, nos tornamos o inferno do bairro.

Foi nesta rua, ao lado deles, que eu cresci. Esta rua me viu crescer e aprender a falar palavrão, a brincar de barra manteiga, esconde-esconde, pega-pega, polícia e ladrão e Guerra nas Estrelas. Sim, brincávamos de Guerra nas Estrelas, e brigávamos para escolher quem iria interpretar cada papel. Ou, nos dias de chuva, nos reuníamos na casa de um deles – às vezes era a minha – para jogar videogame ou algum outro jogo de tabuleiro.

Mas, nos dias de Sol, estávamos na rua. Jogávamos taco, andávamos de rolimã, e me lembro de algumas vezes termos estendido uma corda entre um portão e outro para usar como rede de vôlei. Mas o nosso negócio era mesmo futebol. Ao menos o meu. E, quando a bola começava a rolar pela rua, ela deixava de ser uma rua e se tornava meu palco.

Durante anos, fiz gol de tudo que era jeito. Fiz gol de placa e gol de bico. Fiz gol tirando o goleiro, por cobertura, fiz o gol que o Pelé não fez contra o Uruguai (deixando a bola passar por baixo das pernas e enganando o goleiro), fiz gol entrando com bola e tudo. Isso tanto em jogos “de brincadeira” com meus amigos, como nos “grandes clássicos” disputados contra turmas de outras ruas – cuja maioria dos jogos terminava em briga.

Tudo isso no campinho que pintamos um dia e cujo cheiro da tinta me fez vomitar à noite inteira dentro de casa. Tínhamos um campo e tínhamos regras. Além da ”prensada é da defesa”, regra máxima do futebol de rua, era proibido fazer gol tabelando com alguma coisa (portão, veículo) e lateral somente quando a bola caía em uma garagem.

Mesmo sendo o menor do time, inventava, às vezes, de jogar no gol. E fazia algumas defesas bonitas, especialmente porque conseguia esconder dos atacantes o fato de que eu não sabia pular para a esquerda. E gritava com o time inteiro – às vezes minha mãe precisava vir até o portão e me mandar parar de gritar palavrões – arrumava a defesa, saía do gol dando carrinho ou espalmava para escanteio.

E, quando a bola caía em alguma cobertura, eu era um dos primeiros a subir pelos portões para buscá-la, porque na época eu não tinha medo de altura. Ou, se tinha, não sabia disso. Eu estava sempre andando por cima das coberturas, atrás da bola ou atrás de farra.

E foi justamente assim – correndo atrás da bola ou correndo atrás de farra – que eu cresci.


Ai, que saudades que eu tenho
duma travessura,
um futebol de rua.
Sair pulando muro,
olhando fechadura
e vendo mulher nua.


Mas claro que conforme o tempo foi passando, e a proporção mudou: de repente, eu passava mais tempo correndo atrás de farra do que da bola. Minha mãe deve ter odiado quando o filho caçula dela começou a aprender a beber e a fumar, algo que aconteceu nas calçadas desta rua. Descobri músicas, filmes e livros, que me acompanham até hoje, conversando nestas calçadas.

Sim, porque às vezes apenas não fazíamos nada. Apenas conversávamos. Sentávamos na calçada e conversávamos sobre tudo: mulheres, futebol, amizade, escola, família, vida. E conversávamos de verdade. Não existia internet. Era uma época em que, para conversar com alguém, era preciso ligar para a casa da pessoa – ou, no caso dos meus amigos da rua, ir até a casa da pessoa e tocar a campainha.

Assim, a comunicação era mais direta, mais humana. E mais verdadeira. Mentia-se menos, porque quase tudo era olho no olho e mentir desta forma é muito difícil. Se você estava chateado com alguém, ao invés de ficar invisível no Messenger, bastava chamá-lo de canto, sair para dar uma volta no quarteirão e resolver o problema. Em casos extremos era preciso até mesmo sair na porrada para se resolver, mas se resolvia. Porque um olhava para a cara do outro, e não para a um punhado de emoticons que poderiam ter sido digitados enquanto a pessoa falava mal de você para um terceiro, em outra janelinha.

Não era mais fácil (porque sair na chuva para chamar o amigo era bem mais complicado que chamá-lo no Messenger ou no Gtalk), mas era mais honesto (justamente porque você saía na chuva para chamar seu amigo, ao invés de chamá-lo no Messenger ou no Gtalk). Era uma época que você sabia exatamente como cada pessoa era, também porque você sabia como a família de cada pessoa era – vivíamos uns nas casas dos outros, sempre.

E se você um dia pisasse na bola com alguém (seja por causa de mulher, seja por ter espalhado mentiras sobre esta pessoa, seja por qualquer outro assunto) você era desmascarado em dias e recebia o maior castigo possível: ia para a geladeira e era totalmente ignorado pelo resto da molecada. E lá você ficava até pedir desculpas publicamente para todo mundo.

Talvez por isso que até hoje, para mim, o Messenger não seja suficiente. Adoro conversar por ele – não sou avesso à tecnologia, pelo contrário – mas sei que não é suficiente para mim. Sinto falta do olho no olho, do bate papo na calçada. Porque foi batendo papo na calçada, olhando nos olhos, que eu aprendi a crescer e formei boa parte do meu caráter. Ali, olhando nos olhos.

Mas foi também nesta rua que estraguei boa parte do meu caráter. Ao menos, é o que a minha mãe iria colocar aqui se tivesse a senha do meu blog. Eu não vejo como “falha de caráter”, mas como “aprontar”.

Tínhamos alguns alvos preferidos, como a Velha Louca que morava na esquina (na casa com muro verde, à direita da foto que abre o post), porque se existe uma constante na natureza é que “toda rua que possui uma turma de moleques certamente terá também uma Velha Louca”. Explodíamos o muro dela com bombinhas, e era impossível passarmos em frente à casa dela sem tocar a campainha e sair correndo. Qualquer dia eu falo melhor dela aqui.

Outro alvo nosso era uma família de gorduchos que se mudou para a rua quando eu já devia ter uns 14 anos. A família tinha um moleque da nossa idade e o ritual (nunca oficializado) é que qualquer garoto não nascido na rua precisaria sofrer antes de entrar para a turma. Era uma espécie de batizado.

Eu nem me envolvi muito – acho que estava em semana de provas –, até um dia em que o Gordinho, da janela do quarto, jogou um ovo na minha direção quando eu passeava com meu cachorro. Fui até o portão – o moleque estava rindo na janela – e disse a ele simplesmente que ele havia comprado uma briga maior do que ele poderia agüentar.

O moleque continuou a rir. Nos meses seguintes, a vida de todos que moravam naquela casa se tornou um inferno. Fizemos coisas que não caberiam em um post (por exemplo, pulei no quintal da família com uma lata de spray e passei boa parte da madrugada pintando todas as plantas, folha por folha, de vermelho). E mais não digo, pois em dez minutos minha mãe já estaria gritando para o meu pai pegar o testamento da família e uma borracha. Mas certamente contarei estas histórias para o meu filho (sem a mãe dele saber, claro).

Mas não aprendi apenas a jogar bola, a ter caráter e a aprontar.

Mas outras descobertas minhas aconteceram nessa rua, conforme eu crescia. Subíamos nas coberturas para ver a mulher do vizinho – linda – se trocando ao sair do banho. Tomei porres homéricos, chegando a vomitar as tripas em algumas destas esquinas e até mesmo a cair na fogueira (literalmente) durante uma festa junina, junto com outro amigo bêbado. Comemorei gols do Brasil em Copas do Mundo gritando pela rua e correndo de braços abertos em direção a um abraço, como se o gol tivesse sido meu.

Algumas das minhas primeiras paixões nasceram nesta rua, seja na calçada ou em bailinhos nas garagens, com o portão coberto por uma lona e dançando de rosto colado depois de criar coragem para ir falar com a garota. E voltava para casa totalmente apaixonado, sem conseguir tirar a garota da cabeça e certo de que havia descoberto a mulher da minha vida.

Mas também aprendi – existe uma grande diferença entre aprender e descobrir – nesta rua. Muitas vezes voltei para casa tarde da noite, sozinho e com lágrimas nos olhos, por ver paixões minhas jogadas no lixo, me questionando o sentido de tudo aquilo e se existiam regras para aquele jogo que eu queria jogar.

Mas poucas coisas – isso, contando até hoje – doeram tanto quanto o dia que meu pai me levou para tomar um chopp e disse que meu basset hound havia morrido. E ao entrar em casa, percebi que nunca mais o veria correndo na minha direção pelo corredor lateral do quintal.

No momento em que vi o quintal vazio, entendi que havia perdido o meu melhor amigo, sem sequer ter me despedido dele. O choro que eu estava segurando desde a hora que recebi a notícia escapou feito uma tempestade. Perdi a força nas pernas, caí sentado no chão e chorei compulsivamente por um dez minutos, sem conseguir parar de chorar ou me levantar, sem me importar se alguém na rua estava vendo.

Mas foi nesta rua que aprendi a beijar e a abraçar. Foi nesta rua que aprendi a confiar e a desconfiar. Foi nesta rua que aprendi que você xinga e brinca de luta somente com aqueles que gosta muito, tratando cordialmente e com respeito aqueles que você jamais viraria as costas. Foi nesta rua que aprendi a proteger (e escolher) meus amigos.

Foi morando nesta rua que aprendi a amar, a me apaixonar, a querer o bem de quem me quer bem. Foi morando nesta rua que aprendi a contar histórias. Quer dizer, primeiro foram piadas; depois as histórias, transformando-me no contador de histórias das noites de bebedeira. Ou seja, foi morando aqui que eu aprendi a escrever, mesmo sem escrever nada, apenas falando.

Foi morando nesta rua que me tornei o que sou. E se você quer realmente saber como sou, sente-se comigo em uma calçada e converse comigo, sobre qualquer assunto, durante horas. Porque é assim que eu fui criado: olhos nos olhos e com a bola rolando na rua. Nesta rua.

Na rua em que cresci.



Ai, que saudades que eu tenho
dos meus doze anos,
que saudade ingrata!
Dar banda por aí,
fazendo grandes planos
e chutando lata.



Nota: Ultimamente, tenho escrito bastante no Chronicles. Aliás, escrito mais rápido do que é possível acompanhar, como já vieram me dizer. Então, caso tenha perdido os últimos textos dali, convido a ler Louco de Amor, Ligue os Pontos e O Cadáver de Terno Cinza.



3 de agosto de 2010

Adivinhe quem Vem para Jantar

Entreguei meus exames ao médico.

Como todo médico, ele fez aquela cara que não deixa transparecer nada. Fiquei observando o rosto dele, na esperança de ver algum indício do que iria acontecer em seguida, mas nada. Pelo olhar dele, eu poderia ter a saúde do Super-Homem depois de um banho de Sol, ou estar no estágio terminal de uma doença raríssima. Aposto que na faculdade de medicina deve existir uma matéria “Expressão Neutra”, com possibilidade de especialização em “Expressão Neutra ao Analisar Exames”.

E ele foi passando pelos exames, com aquela expressão de jogador profissional de pôquer. E eu, ansioso, resolvi pagar para ver logo de uma vez.

Minha ansiedade era justificada: este era meu primeiro check-up completo. Minha vida estava toda em cima da mesa. E, dada a minha rotina (eu só não tomo café da manhã em churrascarias porque elas não estão abertas; 70% do corpo das outras pessoas são formados por água, mas o meu é formado de Coca; fumo; durmo no máximo seis horas por noite), minha vida não devia valer muito.

– Está tudo bem?, perguntei, me segurando para não perguntar logo “eu não vou morrer, né?”.

– Até agora seus exames estão normais...

Antes que eu pudesse pegar um dos raios X da mão dele e dar a volta olímpica ao redor da mesa, ele continuou:

– ... Mas agora vamos ver o de sangue.

Gelei. Eu sabia que o meu exame de sangue, naquela situação, corresponderia à matemática ou química no meu colegial. Eu iria bombar, com certeza. Ao menos, diferente do colegial, desta vez minha mãe não estava na sala.

Ele foi descendo os olhos pelo papel. Num determinado momento, ergueu os olhos e me encarou por alguns segundos. Provavelmente, ele havia olhado o valor do meu triglicéris e achou melhor checar visualmente se eu estava vivo.

Abaixou os olhos e observou o exame novamente. Numa fração de segundos, olhou assustado para mim, por alguns instantes. Provavelmente, agora ele havia lido o valor do meu colesterol e achou melhor checar visualmente se eu era realmente humano.

– O colesterol e o triglicéris estão um pouco altos.

“Um pouco altos” foi gentileza dele. Eu havia visto os valores antes de ir ao médico. Se eu pudesse dar o meu colesterol como entrada num imóvel, eu compraria um apartamento de quatro quartos nos Jardins.

– Vamos ter que entrar com medicação.

Assim, ele me receitou um remédio caríssimo, que ao menos serve tanto para o colesterol quanto para o triglicéris. Peguei a receita, agradeci e tentei sair apressado da sala. Ele segurou meu braço e olhou atentamente para mim:

– E com dieta.

Ai.

Pensei em convidá-lo para discutirmos o assunto da dieta numa churrascaria que existe ali perto, comendo costela, mas algo me disse que ele não iria aceitar. Assim, me sentei novamente.

Ele abriu uma gaveta e pegou dois ou três papéis, com indicações do que eu posso comer. Lá, os alimentos ficam em categorias: “Recomendado”, “Com Moderação” e “Evite”. Passei os olhos pelo “Recomendado” e me senti como um escoteiro caminhando por uma floresta. Era só mato.

Deixei o “Com Moderação” de lado e fui direto para o “Evite”. Fraldinha. Picanha. Costela. Cupim. Refrigerante. Aquilo não era uma lista de alimentos, era minha biografia. Mas estava faltando algo. Um fio de esperança se acendeu. Passei os olhos novamente e não encontrei. Eu havia encontrado uma brecha na lei! Sem conseguir disfarçar o sorriso e o ar de triunfo, disse:

– Bem, eu vou seguir a dieta à risca. Mesmo porque o bacon não está no “Evite”.

– Olhe na margem direita do papel.

Ao lado do “Evite”, havia uma quarta categoria, escrita à caneta mesmo. O nome da categoria era “Comeu, Morreu” e tinha apenas um item: a merda do bacon.

Dei de ombros, admitindo a derrota. Assim, saí de lá e me preparei para uma nova vida. Manja aqueles filmes sobre a máfia nos quais, a pessoa, antes de ser presa, faz uma festa de despedida? Foi a mesma coisa. Na mesma noite, me encontrei com a @gabibianco e o @ericfranco no Galinheiro e enfiei o pé na jaca (e ai do médico se ele reclamasse, porque jaca é fruta e, de acordo com meu papelzinho, fruta pode). Passei o final de semana com a Sra. Gordon, comendo todos os tipos possíveis e imagináveis de porcarias.

Mas chegou o dia de me apresentar à lei.

Assim, ontem passei no mercado. A mulher do caixa, ao ver minhas compras, deve ter se assustado. Talvez ela até tenha pensado que eu estava sendo sequestrado, e escolhi aquelas mercadorias para dar algum tipo de sinal.

Ainda bem que ela não perguntou "o senhor não vai levar linguiça ou espetinhos hoje?", porque eu iria agredi-la com um soco. Mas não, eu não iria levar linguiça ou espetinhos. Isso porque segue o Top 5 Minha Lista de Compras:

1. Alface - a única coisa boa da dieta é que vinagre está no “Recomendado”. Se você é novo aqui, saiba que eu sou viciado em vinagre.

2. Leite desnatado – Tem uma sigla no leite (UHT? UTH? Raios UV? Não lembro ao certo, sei que tinha "U") que eu não faço a menor idéia do que quer dizer.

3. Filé de peito de frango – Vou fazer na churrasqueira elétrica. No começo, ela se recusou a assar o negócio, e até mesmo perguntou se eu havia virado veado, mas aí eu mostrei a receita médica e ele acalmou um pouco. Mas ainda está me olhando torto.

4. Suco de morango – Ok, ao menos, é de morango. Morango pode. E morango é bom. Com chantilly, então, fica... Não, pára. Sem chantilly. Só morango. Rob, repete comigo: Morango pode e morango é bom. Morango pode e morango é bom. Morango pode e morango é bom.

5. Chá – Como eu não posso mais beber Coca-Cola, ao menos durante a semana, vamos de chá mate mesmo. E comprei numa promoção que vem duas caixas e ainda ganhei um Bule da Associação Profissional dos Bebedores de Chá, que provavelmente eu não vou saber usar.

Olha, doutor, eu juro que estou levando isso a sério. Juro. Mesmo que isso custe minha vida social. Afinal, sejamos sinceros: com um cardápio envolvendo alface, filé de frango e suco, a resposta ao título deste post é apenas “ninguém”, porque nenhuma pessoa sairia de casa para comer essas mer... Bem, para comer isso.

Mas eu vou levar a sério, prometo.

Ah, nicotina: pára de rir aí no canto que você é a próxima.

Update: vieram me perguntar no Msn se o correto não é triglicérides. Fui checar e aparentemente, ninguém, a não ser os médicos, sabe como se escreve isso (triglicéris, triglicérides). Mas o nome não importa. O que importa é que o meu está no cheque especial, com o limite estourado.

23 de julho de 2010

Kong - A Barbeira Demoníaca da Rua Cardeal Arcoverde

Quando eu comecei a trabalhar em Pinheiros, antes mesmo de me mudar para cá, descobri que na Cardeal Arcoverde, existe um pequeno corredor repleto de salões de beleza, cabeleireiros e barbeiros.

Fica bem perto da redação, entre a Pedroso de Moraes e o Largo da Batata, em meio aos botecos decadentes e aos puteiros com nomes escrits em neon (o “escrits” não foi erro de digitação, mas sim uma homenagem ao fato de que o neon destas casas noturnas invariavelmente tem uma das letras queimadas). Ou seja, já faz anos que eu corto o cabelo em um cenário que lembra a Los Angeles de Blade Runner, mas habitada pelos personagens de Mad Max.

Porque eu corto lá? Porque é barato. Como eu não sou internacionalmente conhecido pela cabeleireira, desde os vinte e poucos anos eu uso o cabelo raspado. Antigamente, era ou máquina um ou máquina zero, mas, por ordens expressas da Sra. Gordon, pulei para máquina dois. E faço o mesmo com a barba: máquina dois.

Assim, como eu apenas raspo a cabeça, me recuso a pagar os trinta, trinta e poucos reais de um barbeiro normal. Afinal, num curso de barbeiro, “raspar a cabeça” não deve ser uma das matérias mais difíceis do currículo – se a pessoa pegar DP disso, melhor trancar o curso e ir tentar outra coisa da vida.

Hoje, como as coisas na redação estavam mais tranqüilas, aproveitei que estava na hora do almoço e fui para lá, pois a situação já estava feia: como sou careca, e a barba também estava grande, eu estava parecendo uma espécie de chaveiro do Rasputin. Assim, almocei mais rápido e fui pra minha “sessão mulherzinha”.

E, como de costume, assim que coloquei os pés na calçada daquele quarteirão, começaram as propostas. Se você nunca passou por ali, explico: cada salão de beleza tem uma emissária, que fica na calçada, oferecendo seus serviços aos pedestres. Mais ou menos como uma prostituta capilar.

– Qué cortá?

– Vâmu arrumá esse cabelo, gato?

– Tem menina nova na casa, campeão. Quer conhecer? (esse, claro, não é barbeiro, mas sim o porteiro de uma das casas com o nome escrits em neon).

– Tá n’óra de apará esse barba, amô!

Eu ignoro todas. Porque sempre fui fiel a uma das casas, que leva o singelo nome de Arquitetos da Beleza. Eu sei. Pode rir. Pode zoar nos comentários. Eu zoaria. O nome é tosco. Mas não vou lá por causa do marketing bem elaborado e agressivo, e sim porque é um dos únicos limpos que existem ali na região.

O problema é que sempre vou lá, sou atendido por uma pessoa diferente. A coisa funciona assim: na recepção, digo o que quero (cabelo e barba) e a menina vê quem está livre. O problema é que sempre dá confusão, porque nem todos que trabalham ali sabem fazer barba (aparentemente, isso é um segundo estágio no mundo dos salões de beleza).

Assim, já peguei profissionais excelentes (um deles foi um sósia do Ian Gillan, mas com idade para ser avô do vocalista do Deep Purple, que me deixou com uma das barbas mais bem feitas na vida), como gente mais tosca, que não domina tão bem a arte da tesoura.

Mas sempre deu para o gasto, especialmente em vista do preço que pago, que sempre gira em torno de 10, 12 reais. Mas hoje a coisa foi diferente. Entrei ali carregando minha Placar e fui até a recepção. Dei boa tarde e pedi:

– Quero cortar o cabelo e aparar a barba.

– Só tem a Kong disponível.

– Oi?

A recepcionista me ignorou e pegou um microfoninho tosco que fica ao seu lado, começando a falar: “Kong, recepção. Kong, recepção”. Meu sentido de aranha disparou.

A terra começou a tremer. Primeiro, de leve, de forma quase imperceptível. Aos poucos, os tremores aumentaram de intensidade. Copos começaram a tremer, canetas rolavam pelo balcão e caiam no chão. E não paravam de aumentar – em determinado momento, tive que me agarrar ao balcão da recepcionista para não ser jogado ao chão.

– É cabelo e barba?

Olhei para o lado e lá estava a Kong. Devia ter uns 25 anos, morena, cabelos pretos e lisos. Quase 1.90m de altura e um peso que tinha, facilmente, três dígitos. Em arrobas.

Na mão, uma navalha.

Não vou sair vivo daqui, pensei. Meu sentido de aranha aparentemente concordava, tanto que ele nem se preocupou em me alertar do perigo. Na verdade, ele gritou algo como “eu te espero na Fnac” e saiu correndo Cardeal Arcoverde acima.

Eu estava sozinho.

– Você pode me acompanhar?

E eu era homem de dizer “não”? Claro que fui, tentando ignorar a navalha na mão dela. Cruzamos todo o salão e ela se aproximou da última cadeira, no canto mais escuro e desolado do local. Ao lado dela, uma gaiola com três periquitos – provavelmente, era sua marmita.

Contudo, assim que ela se aproximou da sua estação de trabalho, reparou que a cadeira estava afastada do espelho. Assim, sem grandes cerimônias, ela ajeitou a posição do móvel dando-lhe um chute, com a delicadeza de um zagueiro argentino disputando uma final de Libertadores.

Os periquitos ficaram em silêncio. Eu também.

Olhei para eles com uma expressão de “vou morrer”, e eles me devolveram o olhar, concordando.

Sentei-me à cadeira e ela começou a levantá-la, usando aquele pedal que ergue a cadeira um pouco a cada vez que é apertado. Ok, eu sou baixinho. Normalmente, o barbeiro precisa pisar no pedal umas quatro vezes, mas oito (sim, eu contei) como a Kong fez, já é exagero.

Assim, lá estava eu, balançando os pezinhos e numa altura equivalente à Cordilheira dos Andes – mas ainda assim menor que ela – quando a Kong perguntou:

– Como você quer o corte?

Tentando esquecer o fato de que tenho medo de altura, ainda estava me acostumando com o vento e o ar rarefeito da altitude. Logo, não pude responder “tanto faz, só seja gentil comigo, por favor, eu não quero morrer”, mas, sem oxigênio suficiente para isso, resmunguei apenas um “máquina dois em tudo”.

Sem esconder a decepção, ela largou a navalha e pegou a máquina, ligando o aparelho. Máquinas de raspar cabelo normalmente já têm um barulho desagradável, mas a da Kong deveria ser um modelo único e feito sob medida, pois ela não fazia ruídos, e sim guinchava como um porco sendo esfolado vivo.

Com os olhos injetados de sangue e salivando, ela aproximou aquilo da minha cabeça e começou a cortar meu cabelo. A primeira passada e a segunda de máquina passada foram tranqüilas, mas a terceira quase arrancou minha orelha esquerda.

– Ai!

– Mal aí.

E quase arrancou minha orelha de novo. Felizmente, sou careca, e, sem mais o que cortar ali, ela logo teve que mudar para o outro lado – mais umas duas passadas de máquina iguais àquela, e eu teria que a) correr para o Hospital das Clínicas com minha orelha no bolso, ou b) aceitar meu destino e mudar logo meu nome para Vincent van Rob.

Evidentemente, quase perdi a orelha direita também. Me senti como um daqueles soldados da Guerra da Secessão que são obrigados a amputarem suas pernas tendo somente meia garrafa de rum como anestesia. E não, não havia rum ali. Aliás, eu estava próximo ao Largo da Batata: qualquer bebida alcoólica que vendesse ali me prejudicaria mais que a perda das orelhas. Assim, fechei os olhos e agüentei firme – para não irritá-la, eu baixei o tom de voz dos meus “ai!”.

A barba foi mais tranqüila. Tirando, claro, as duas vezes em que ela colocou metade da máquina dentro da minha narina direita ao aparar meu bigode. Minto. Ela não estava aparando meu bigode; o termo correto era “arando”. Se ela usasse uma enxada, talvez doesse menos.

Quando ela desligou a maquininha, percebi um silêncio estranho no ar. Discretamente, tateei as laterais da minha cabeça para checar se minhas orelhas ainda estavam ali. Estavam. Mas havia algo de errado.

Os periquitos. Os periquitos estavam em silêncio, como normalmente os pássaros ficam, quando sentem um predador por perto.

Olhei para baixo – sim, eu estava mais alto que a gaiola – e entendi o motivo da ausência de trinados. Dois deles estavam pálidos e escondidos num canto, e o terceiro havia se enforcado na gaiola com um cadarço velho.

A Kong ignorou tudo isso.

– Você quer lavar o cabelo.

Sim, assim mesmo, com ponto final. Ela não perguntou nem ofereceu, ela determinou que eu queria lavar o cabelo.

– Não, obrigado, eu estou com um pouco de pres...

– Você quer lavar o cabelo.

– Ok...

Chutou o pedal e a cadeira desceu novamente, como um daqueles elevadores que despencam em parques de diversões. Quase fui ao chão com o impacto.

Ela já estava me esperando em uma daquelas cadeiras especiais para lavar o cabelo. Olhei ao redor e percebi que ela estava entre eu e única saída. Não havia como escapar.

Aproximei-me e, disfarçadamente, procurei vestígios de sangue no lavatório. Nada. Tive certeza de que ela limpa aquilo após cada vítima, aquilo tinha cara de ser um abatedouro. Aposto que o pessoal do CSI faria a festa ali com uma garrafa de luminol.

Sentei-me, protegendo meu peito com os braços, feito uma virgem passeando de biquíni por dentro de um presídio. Fechei os olhos e respirei fundo. Água quente começou a cair pela minha cabeça. Senti algo gelado e imaginei que era o xampu.

Só deu tempo de imaginar.

Levei uma porrada na cabeça que me deixou zonzo. E outra. E mais uma. Eu não era mais um Rob Gordon, eu era uma massa de pão. E ela ali, socando o xampu na minha cabeça. E tomo socos, tapas, e puxões, e espirra xampu para todos os lados. Como diria Chico Buarque, “ela fez tanta sujeira, lambuzou-se a tarde inteira, até ficar saciada”.

E, finalmente, ela ficou saciada.

“Com um suspiro aliviado, eu me virei de lado, e tentei até sorrir”. Não consegui. Ela já havia enfiado uma comanda na minha cara.

– Pague no caixa.

Os dois periquitos que ainda permaneciam vivos, vendo que ela havia terminado comigo, se agitaram na gaiola. Agradeci a Kong, fazendo questão de pedir desculpa por qualquer coisa e fui até o caixa. A menina pegou minha comanda e resmungou:

– Deu 15 reais.

– Oi?

– 15 reais.

– Não, está errado. Foi cabelo e barba.

– Ela cobrou apenas um corte.

Então é isso. Como se não bastasse a surra que levei e o terror moral que fui obrigado a experimentar, ainda tive que sair de lá humilhado.

Sou tão careca que pago meia para cortar o cabelo. Ô fase.

2 de junho de 2010

Capelletti a Champ Vinyl

(rende 01 porção)



Ingredientes Necessários:

01 pacote de capelletti de carne
01 porção de cebola (ou alho)
02 porções de bacon frito picado
02 porções de alcaparras
02 porções de azeitonas pretas picadas
01 porção de calabresa cortada em cubos
02 conchas de molho bolognesa

Modo de preparo:

Imprima esta receita e leve o papel ao Spoleto mais próximo da sua casa. Entregue ao cozinheiro. Espere o prato ficar pronto. Adicione queijo ralado a gosto. Dirija-se ao caixa e peça uma Coca Zero.

8 de fevereiro de 2010

O Despertar dos Mortos

Eu sempre tive problemas para acordar. Sempre.

Quando eu era moleque e morava com meus pais, eu chegava ao cúmulo de acordar às 6:30 da manhã, me vestir em 0,3 minutos e deitar de novo, de roupa e tudo, para dormir mais meia horinha antes de ir para a escola. Às vezes, eu chegava até a sonhar nesse chorinho de sonho. Isso, claro, quando eu conseguia dormir de verdade, já que normalmente essa meia horinha de sono, tão vital para mim, era atrapalhada pela minha mãe, que ficava berrando da sala para eu acordar, resmungando que “todo dia é esse inferno para você sair da cama!”.

Mas tem outras histórias dessa época. Meu irmão, quando acordava no mesmo horário que eu, conta que não era difícil ele ir escovar os dentes e, no caminho, colocar a cabeça dentro do meu quarto. Segundo ele, eu estava sentado na cama, imóvel, com uma das pernas da calça vestida e a outra ainda no chão, olhando fixamente para um pé de meia na minha mão. Provavelmente, eu estava tentando entender o que era aquele pedaço de pano – se era uma luva, uma meia ou um gorro – e como colocá-lo no meu corpo.

Tudo isso porque meus neurônios não ligam antes da hora do almoço. Eu sempre fui vespertino. Meu dia começa, de verdade, às 14:00. Antes disso, eu sou uma espécie de morto-vivo dos filmes do Romero, me arrastando em busca de alimento e murmurando palavras incompreensíveis.

Eu sempre fui assim. E sempre achei que o mundo estivesse acostumado com a idéia de meu cérebro, ao menos antes do almoço, funcionar com a velocidade de um 386. Antes das 14:00, não adianta tentar fazer nada, meu cérebro ainda está dando boot.

Mas, agora, minha mãe, mesmo sabendo que este sempre foi meu jeito, cismou que a coisa é pessoal com ela.

Às vezes, ela vai até minha casa, para dar um “jeitinho no apartamento” – coisa de mãe, vocês sabem. Eu costumo dar graças a Deus, porque meu apartamento é um daqueles lugares que, para ser arrumado, não precisa de uma faxineira, mas sim de uma equipe da defesa civil, cães farejadores (que procuram pelo maldito pé de meia que sempre some) e voluntários da população local.

Ou seja, minha mãe decidir ir até ali “dar um jeitinho” é uma graça divina. O problema é que ela normalmente chega quando eu ainda estou dormindo. Levanto da cama, quase sempre, quando ela está entrando.

Ela, como sempre, já está a todo vapor.

Eu? Eu não estou nem com as caldeiras acesas.

Resmungo um oi, dou um beijo nela e me arrasto até o computador para ver meus e-mails, carregando meu baldinho de Nescafé e desviando da Besta-Fera, que, sempre que alguém entra em casa, decide começar a correr pela sala como se fosse uma versão canina do Carl Lewis.

E é aí que começa o conflito. Minha mãe quer conversar (e eu entendo o lado dela, claro), mas eu não consigo responder. O motivo é simples: eu não entendo absolutamente nada do que ela está falando. E, para piorar, ela começa a falar sobre todos os assuntos possíveis. E meu cérebro, que ainda estava tentando processar o “oi” dela, começa a se atrapalhar.

– Está tudo bem com você?

– Você foi dormir tarde ontem?

– Eu vi no jornal que tem apartamentos para vender no Butantã.

– Você pegou a roupa na lavanderia?

E eu fico olhando para ela, em silêncio, tentando ganhar tempo para decifrar o que ela está falando, porque nada daquilo faz sentido para mim. Assim, começo a balbuciar respostas do tipo:

– Tá.

– Não sei.

– Tá.

– Não sei.

E eu não respondo dessa forma para ser grosso, cortar o assunto ou deixar claro que não quero conversar. Eu respondo assim porque não estou entendendo absolutamente nada do que está acontecendo ao meu redor. Durante os primeiros goles de café, eu não faço idéia de quem sou eu, de quantos anos tenho ou do que faço para viver. Se, naquele momento, alguém falar que eu trabalho numa plataforma de petróleo, eu não apenas vou acreditar como vou até o quarto procurar meu capacete, antes de sair para o trabalho.

Não é exagero. Abro um Uol qualquer e fico olhando a tela do monitor, e meu cérebro, aos poucos, começa o seu processo de inicialização, tentando deduzir se eu devo ir para o trabalho ou para a escola; qual porta da sala leva para o meu quarto e qual leva para o elevador; e se aquele cachorro correndo pelo apartamento já estava ali ontem. Imagine, então, se eu vou saber se busquei a roupa na lavanderia ou o que diabos é um Butantã.

E ela, como toda mãe, continua:

– Você tem dentista essa semana?

– Você está tomando seus remédios para o dente?

– As coisas estão muito apertadas na redação?

– A Besta-fera tomou banho?

Assim, quando as perguntas se acumulam, os três neurônios que estão no cérebro (que pertencem ao turno da noite, e sabem apenas sonhar) ficam sobrecarregados. E eu acabo, invariavelmente, soltando um “não sei! não sei!” um pouco mais grosso do que deveria.

E aí complica mais ainda.

– Mas que mau humor!

– Não é mau humor. Eu não estou entendendo absolutamente nada do que você fala!

– Eu venho aqui e você fica com essa cara feia.

– Não é porque estou de olhos abertos e andando pela casa que estou acordado. Eu não estou. Eu estou dormindo.

– Você foi dormir tarde ontem?

– Eu não sei, eu não sei o que fiz ontem. Eu não sei nem quem eu sou.

Na verdade, eu não sei direito nem que ela é – deve ser da minha família, pois, a esta altura, já me lembro vagamente de ter passado um ou outro natal com ela – mas, por segurança, guardo esta dúvida para mim. E, felizmente, quando ela percebe que as chances de arrancar uma frase coerente de mim são nulas, desiste e vai para o outro canto da casa.

Aí, aos poucos, eu começo a acordar. Logo, meus neurônios estão se reunindo no refeitório, onde tomam café e enrolam mais um pouco, antes de começarem a trabalhar.

Minha mãe, claro, percebe isso – toda mãe percebe o que acontece dentro do próprio filho minutos antes dele – e volta a se aproximar. Mas os neurônios ainda estão no refeitório, não há muito que fazer.

– As coisas estão pesadas na redação?

– Sim.

– Você tem falado com seu irmão?

– Sim.

– Você tem comido direito?

– Sim.

– Onde você está colocando suas correspondências de banco?

– Sim.

– Sim o quê?

– Sim.

– Desisto. Não dá para conversar com você.

– Sim.

Novamente: não estou sendo grosso. Estou apenas usando o único recurso que tenho na parte da manhã: uma capacidade de raciocínio semelhante ao de uma lontra.

Mas minha mãe tem sua parcela de culpa, também. Enquanto eu sou um 386, com um Windows 3.11, ela quer ligar o PC e imediatamente checar e-mail, navegar em três sites diferentes (um deles com vídeos) e abrir o Word. É claro que vai travar.

E os neurônios, coitados, ainda enrolando no refeitório e comentando sobre o jogo de ontem. Na verdade, eles ficam ali até umas 11. Quem costuma me salvar são os neurônios estagiários, que, proibidos de tomarem café da manhã junto com os outros, assumem seus postos de trabalho e começam a enviar respostas para minha boca. Não é nada muito elaborado, mas dá para enganar.

Na verdade, as respostas não são muito coerentes, basta colocar o “mãe” no final da frase e ela já fica um pouco mais satisfeita. Eu continuo sem saber quem ela é, e o que significa “mãe”, mas parece surtir efeito.

– Mas como está chovendo esses dias, não?

– Sim, mãe.

– Você viu a enchente na Zona Norte?

– Sim, mãe.

– Que horror, não?

– Sim, mãe.

– Você tomou chuva ontem?

– Não, mãe.

(Vale dizer aqui que esta última resposta não é mérito dos neurônios, mas meu. Faz anos que meu instinto de sobrevivência aprendeu isso. Sempre que sua mãe perguntar se você tomou chuva, a única resposta aceitável é “não”. Mesmo se o Jornal Nacional exibir uma matéria de cinco minutos mostrando você preso numa enchente e debaixo de uma tempestade, negue até a morte. Mães encaram o fato de seus filhos tomarem chuva quase como uma traição, uma ofensa pessoal, e não perdoam isso facilmente.)

E, assim, colocando “mãe” no final da frase, dá para arrancar um empate. E às vezes, chego a virar o jogo, quando de repente eu me levanto, dou um abraço e um beijo nela e solto um:

– Mã, faz mais café?

Talvez você esteja se perguntando por que motivo eu não faço isso desde que ela chega. Porque para me lembrar disso, seria preciso ter um cérebro. Mas, enquanto escrevia este texto, tive uma idéia: na véspera, vou pendurar uma cartolina na porta do meu apartamento com a inscrição:

Rob:
Abrace, beije, chame de Mã e peça café.
Confie em mim, depois explico.
Abraços,
Rob.


O bom é que como a cartolina vai estar na porta, minha mãe vai ficar de costas para ela quando entrar no apartamento. Com sorte, ela só vai ver a cartolina quando eu já estiver no trabalho.

Mas, se algo der errado, ela avistar a cartolina e me perguntar o que é aquilo, eu não vou saber explicar. E não porque vou ficar sem graça, mas porque eu não faço a menor idéia de como aquela cartolina chegou ali, do que aquilo se trata e quem diabos é o Rob.

28 de janeiro de 2010

Um Estranho numa Terra Estranha - Parte Final

(leia a parte II aqui)

Assim, decidi comprar a bolsa.

Mas logo percebi que minha praticidade masculina não funcionaria nesse assunto. Afinal, bolsas são diferentes de roupas: elas precisam ser bonitas e úteis, diferente das roupas. Na escala evolutiva dos presentes femininos, elas estão num degrau mais avançado. E, como qualquer outro homem, eu possuo um cérebro que analisa, divide e cataloga as bolsas em apenas duas categorias: tamanho (pequena ou grande) e cor (clara e escura).

Ou seja, todo cuidado era pouco. Se eu comprasse uma bolsa linda que não coubesse nada, teria perdido tempo e dinheiro; se eu comprasse uma bolsa que coubesse uma casa inteira, mas que fosse horrível, também teria perdido tempo e dinheiro. Sim, porque eu já cansei de ver mulheres reclamando que “esta bolsa é maravilhosa, mas não combina com minhas roupas”, ou dizendo que “esta bolsa é pequena, mas tem muitas divisórias”.

Divisórias? Cores? Combinar com as roupas? Eu não sabia nem por onde começar. Assim, liguei para uma amiga em busca de instruções. Eu mal havia terminado a primeira frase e ela já soltou:

– O que está muito na moda é nude.

– Nude?

– Nude.

– O que é nude?

– É uma cor.

Fechei os olhos e tentei me lembrar das caixas de lápis de cor HB que eu tinha quando era criança. Aqueles estojos possuíam lápis de algumas cores que nem mesmo existiam (o famigerado “ocre”, por exemplo, é uma cor que existe apenas nos lápis HB, e não no mundo real). Se eu conseguisse me lembrar do lápis nude, saberia do que ela estava falando.

Fui do branco ao preto, passando por todas as cores das quais me lembrava, e nada de nude. Será que é uma cor nova, criada recentemente num laboratório? Uma cor transgênica?

– Olhe, eu sei que a pergunta é meio difícil, mas você pode descrever essa cor?

– É tipo cor da pele.

– Ah, eu disse, ainda sem entender direito. Afinal, como leitor de ficção científica, eu já “encontrei” alienígenas de todas as cores possíveis.

– Como se fosse um bege.

Pronto, agora sim estamos chegando a algum lugar.

Nude é um tom de bege. Por isso que eu não achei o lápis na minha memória. Na caixa HB, ele não estaria como “nude”, mas sim como “bege-nude”. Mas a grande informação que consegui com ela não foi ter uma idéia do que é nude, mas o nome de uma loja de bolsas na Vila Madalena, que, pelo que ela disse, é meio cultuada pelas mulheres.

Agora sim, eu sabia por onde começar: eu tinha uma cor e uma loja. Isso reduziu bastante o meu universo de procura. À noite, em casa, entrei no site da loja e peguei o endereço.

Fui deitar e tentei ler um pouco na cama, mas não consegui. Meu cérebro ficava incessantemente tentando se lembrar dos lápis de cor, atrás da merda do bege-nude. Desisti de ler e fui dormir.

No dia seguinte, fui até a loja. É uma lojinha pequena, bem no meio da Vila Madalena, com as paredes cobertas de bolsas de todos os tamanhos e cores. Assim que entrei, a vendedora se levantou e veio me atender.

– Oi, posso ajudá-lo?

Atrás dela, havia uma bolsa cor bege pendurada num gancho. Eu ignorei o que ela havia dito e atravessei a loja, em passos decididos, sem tirar os olhos da bolsa. Segurei-a com as duas mãos e me virei para ela:

– Isso aqui é nude?

– Sim.

Olhei a bolsa com atenção. Não me lembrava de nenhum lápis HB dessa cor. Mas, em todos os casos, o problema estava resolvido. Meus neurônios, que haviam passado a noite trabalhando nisso, deram o caso por encerrado e foram dormir. Finalmente sabendo o que é nude, larguei a bolsa e me aproximei da vendedora:

– Pronto. Agora podemos começar. Eu preciso de uma bolsa. Quer dizer, não preciso, não é para mim. É presente.

– Ok, seja bem vindo. Qual seu nome?

– Rob.

– O meu é Renata, prazer. Você está procurando uma grande ou uma pequena?

– Grande.

Afinal, eu podia errar na cor e no modelo, mas jamais aceitaria uma falha tão amadora como “tamanho”. Até eu sei o que é grande ou pequeno. Ela pegou três bolsas e colocou no balcão.

– Tenho estas. Marli, Joana e Vânia.

Olhei para ela assustado, procurando sinais de loucura nos seus olhos. Eu também brinco de dar vida aos meus objetos, mas nunca cheguei ao cúmulo de dar nomes a eles. Minha TV, por exemplo. Eu converso com ela sim, mas o nome dela é TV.

– Oi?

– Aqui, nossos modelos de bolsas têm nomes de mulheres.

– Ah.

– E estas três estão em promoção.

Me senti como um viajante que havia sido convidado a conhecer o harém do sultão, escolhendo uma odalisca para passar a noite comigo. Olhei para as três mulheres na minha frente.

A Marli era meio feiosa, mas parecia simpática. Ou seja, ocuparia o posto de amiga. A Joana era meio fresca, com enfeites pendurados, descartei logo de cara. A Vânia era elegante, classuda. Ponto pra Vânia.

– Hum... Têm outras?

Ela foi até a parede e me apontou outras três.

– Estas são a Roberta, a Gabriela e a Cláudia.

A Roberta era bonita, ao menos por fora. Mas parecia ser meio antipática, daquelas que empurram as outras no banheiro para pegar o melhor lugar no espelho. Peguei a Gabriela nas mãos e vi que ela era uma falsa-gorda, ou melhor, uma falsa-grande. Por fora, parecia capaz de abrigar um carro, mas, por dentro, mostrava ter espaço suficiente para algumas lantejoulas. Gabriela está fora. A Cláudia era simples, sem nada de especial, mas parecia ser bastante eficiente, com dezenove mil divisórias dentro dela. Deu Cláudia.

Esta cena se repetiu diversas vezes. Comecei a perder, já que tinha mais mulheres ali que numa loja de roupas em dia de liquidação.

Assim, como bom homem-em-ano-de-Copa, comecei a encarar as bolsas como times em campeonatos. Dividi as bolsas em grupos de quatro e escolhia uma, que era a campeã do grupo. Assim, eu colocava em espera e a deixava treinando, já que ela iria enfrentar a campeã de outro grupo, nas oitavas de final.

Quase meia hora depois, consegui chegar a um quadrangular final, que seria disputado por Vânia, Cláudia, Ana Maria e Maristela. E agora não eram mais jogos eliminatórios: todos jogavam contra todos e o vencedor deste grupo da morte seria o campeão.

Mas, antes de começarem as partidas, um nome começou a pipocar na minha mente. Uma das primeiras bolsas que eu havia visto não havia disputado jogo nenhum, sabe-se lá por qual motivo. Na dúvida, perguntei para a vendedora.

– Você não tinha me mostrado uma chamada Renata?

– Não. Renata sou eu.

– Ah. Desculpe.

Felizmente, a vendedora foi simpática e ignorou o fato de que meu rosto não era mais bege-nude, e sim, roxo-vergonha.

Assim, ela deu o apito inicial e começaram os jogos. A Maristela, uma das grandes favoritas, se mostrou uma mentira: colocada frente às adversárias, mostrou-se logo ser uma bolsa média, e não grande. A Cláudia, mesmo tendo grandes variações táticas – ela poderia ser usada na frente do corpo, atrás, como uma mochila, ou ao lado, como uma bolsa normal – acabou sendo prejudicada no tamanho da alça, que não era regulável.

Sobraram Vânia e Ana Maria. As duas disputando a liderança do grupo, frente a frente. Ana Maria saiu na frente, por causa da cor. Mas a Vânia empatou logo em seguida, quando mostrou ter bolsinhos na parte traseira, algo que a Ana Maria nem sonhava em ter.

E tudo mudou no segundo tempo, quando a Vânia fez uma substituição. A vendedora tirou outra bolsa de trás do balcão. Era uma Vânia em outra cor. Assim, a Vânia de cor comum foi para o banco e entrou a Vânia escura, e com um negócio meio mágico, que a fazia brilhar, mas sem ser brilhante. A vendedora disse que o nome disse é “cobreado”, ou algo assim.

Os minutos que se seguiram, na história do futebol, são comparáveis aos primeiros minutos de Brasil X URSS na Copa de 58. Daqui a décadas, jornalistas incluirão estes momentos entre os mais sublimes da história do futebol. A Vânia engoliu a partida, não deixando espaço em campo para a Ana Maria. No final do jogo, a Ana Maria ainda colocou um novo atacante (que era uma Ana Maria com detalhes em vermelho), mas já era tarde.

Saldo final: Vânia 3 x 1 Ana Maria.

Mandei embrulhar a Vânia. O preço era meio salgado, mas não importa. “Copa do Mundo é Copa do Mundo”, como diria o Galvão.

Além disso, eu pretendo me tornar cliente da loja. Não porque eu gosto de bolsas, mas sim para me tornar amigo da vendedora e tentar convencê-la a começar a batizar bolsas, especialmente as mais delicadas, com os nomes dos meus amigos.

Sim, vai ser caro. Mas sempre fui assim: perco o dinheiro (e os amigos), mas não perco a piada.

26 de janeiro de 2010

Um Estranho numa Terra Estranha - Parte II

(leia o post anterior aqui)


Cerca de quinze anos atrás. São Paulo, Brasil.

Um dia eu decidi comprar uma carteira nova. Os motivos são mais ridículos do que vocês imaginam. Digamos que eu e minha antiga carteira, que ainda estava boa, simplesmente brigamos. Qualquer dia eu conto a história inteira aqui (e fecho o blog e mudo de nome e de país no mesmo dia).

Enfim, peguei uma nota de R$ 10,00 (quinze anos atrás, se comprava muita coisa com R$ 10,00), um amigo (acredito que o Rbns) e fui até o Shopping Ibirapuera. Entrei numa loja daquelas que as vendedoras usam roupas de academia e passam o tempo (ou seja, entre um cliente e outro) dançando.

Escolhi uma carteira e chamei uma vendedora. A menina parou de dançar e veio até mim.

– Posso ajudá-lo?

– Sim. Quanto custa esta carteira?

– Dez reais.

– Dez?

– Dez.

– Hum... Temos um problema.

– Como assim?

– Eu tenho apenas dez reais comigo.

– E qual o problema? Você tem dinheiro suficiente.

– Para que você acha que eu vou usar a carteira?

– Não sei.

– Pense.

– Para guardar dinheiro?

– Exatamente. E eu possuo apenas dez reais. Se eu gastar todos os meus dez reais na carteira, ficarei sem dinheiro nenhum. Logo, não precisarei mais da carteira.

Ela me olhou fixamente. Talvez na hora eu tenha pensado "ela está fazendo contas para acompanhar meu raciocínio brilhante". Hoje, mais experiente, eu sei que ela devia estar pensando algo como “porque é sempre no meu turno?”

(Aliás, hoje eu sei também que ela deve ter olhado meu amigo e pensado: “e esse babaca não poderia ao menos disfarçar quando olha para o meu decote?”)

– Você está brincando?

– Evidente que não. Se eu gastar tudo o que tenho para comprar a carteira, não terei o que guardar dentro dela. Logo, a carteira perderá seu propósito de existir na minha vida.

Era um lance arriscado. Se ela falasse "e você não vai guardar seus documentos?", eu ficaria totalmente sem resposta. Felizmente, ela não era um gênio dedutivo, e sim uma garota cuja maior realização, provavelmente, tinha sido dançar entre as prateleiras.

– Mas o que eu posso fazer?

– Me dar um desconto.

Lembro de ver meu amigo se escondendo atrás de uma prateleira, não sei se de vergonha ou se para rir. Provavelmente, ambos.

– Eu preciso falar com a minha gerente.

– Ok. Eu espero aqui. E eu não estou apenas pechinchando. Avise a ela que nós temos um paradoxo em andamento.

Minutos depois, ela voltou e, sem disfarçar a cara de saco cheio, me deu um desconto de uns 5%, o que me permitiu sair dali com a carteira e algumas moedas enfiadas nela.

Este foi um dos primeiros (e maiores) momentos Sheldon Cooper da minha vida.

E foi neste momento que os deuses do comércio marcaram meu rosto e juraram vingança. Um deles, das profundezas de seu reino, que se assemelha a um estoque, com caixas e mais caixas empilhadas, marcadores de preços e catálogos do Shoptime, disse:

– Rob Gordon, em um dia, daqui a anos, decidirás comprar uma bolsa. Neste dia, eu estarei por perto, para atar um nó em sua mente.

Claro que na hora eu não ouvi isso. E claro que no último sábado, como disse no post anterior, eu decidi comprar uma bolsa de presente.

(continua...)

24 de janeiro de 2010

Um Estranho numa Terra Estranha - Parte I

Quando você é homem e entra na adolescência, não é apenas o seu corpo que passa por transformações, mas sua mente também. Assim, enquanto você é criança, suas maiores ambições são terminar determinado jogo de videogame ou fazer um gol de calcanhar; mas, conforme você cresce, todas suas aspirações se resumem a uma só: fazer sexo.

Um dos grandes motivos para isso – descontando o fato de que, nesta idade, você está produzindo hormônios em escala industrial, o que resulta num apetite sexual semelhante ao de alguém que passou vinte anos numa cadeia – é que esse é um dos maiores rituais de passagem para a vida adulta. Afinal, adultos fazem sexo, e crianças não – ao menos na teoria.

Ou seja, o sexo sempre foi vendido como o grande rito de passagem da infância para a maturidade. Mas sejamos sinceros, isso se deve muito ao fato de que o sexo envolve peitos de fora (e qualquer coisa com peitos de fora tem apelo da mídia e vende mais). Mas, no auge dos meus 34 anos, posso dizer com certeza aqui que um homem não vira adulto quando começa a transar, mas sim quando ele começa a comprar sozinho presentes femininos.

E isso acontece normalmente muito tempo depois da adolescência. Eu, por exemplo, até os 30 anos de idade, não me arriscava a comprar este tipo de coisa. Dava sempre livros, CDs e DVDs de presente (mas claro que com certo bom senso; jamais dei coisas como o DVD de Predador ou um livro com a história dos campeonatos brasileiros). Mas, de uns anos para cá, eu comecei a me arriscar nisso. Já estava na casa dos 30, era hora de virar homem de verdade.

Evidente que eu faço isso do meu jeito, que é o mais masculino possível. Mesmo porque eu não consigo entender como as mulheres fazem isso. Às vezes, observo como uma mulher se comporta dentro de uma loja de roupa. Ela pega um vestido e olha a estampa. Aí, procura uma peça do tamanho correto e começa a alisá-lo. Passam a mão por ele, apertam a barra, deslizam os dedos pelas alças. Se você olhar de longe, é capaz de achar que ela está ficando com o vestido.

Após quase um minuto fazendo isso, ela pega o vestido e o coloca junto ao corpo. Repare no olhar dela, neste momento: ela está em transe. Ela está se imaginando naquele vestido, mas usando como cenário todos os ambientes nos quais ela já esteve um dia (casa, praia, campo, trabalho, clube) ou que ela possa vir a estar (festa do Oscar, Saturno). Ou seja, elas perdem quase 10 minutos em cada vestido. Multiplique isso por 500 peças de roupas, e o resultado tende ao infinito.

Sério, as mulheres devem ter o mesmo tato do Demolidor. Elas passam o dedo pelo tecido e conseguem saber coisas como o país onde foi feito, se os funcionários ganhavam bem ou eram crianças escravas, se o tecido não vai desbotar na primeira vez que lavar.

Eu? Eu passo a mão no vestido e consigo, quando muito, ver que ele é feito de pano. Aliás, para mim, existem quatro tipos de tecido: cetim (que engloba seda), veludo, jeans e pano.

Assim, eu coloco minha praticidade masculina em campo, toda vez que preciso comprar um presente feminino. Normalmente, eu passo a noite anterior assistindo a filmes como Três Homens em Conflito e Os Doze Condenados para entrar nas lojas suando testosterona e praticidade. Aliás, nas lojas, não. Na loja.

Isso porque eu entro em apenas uma. Eu ando pelo shopping olhando as vitrines – e se a vitrine não tiver preços, eu passo reto.

Faço isso até achar algo que parece ser bonito. Quando encontro, entro na loja, e chamo a vendedora.

– Oi. Eu quero aquele negócio verde da vitrine.

– O vestido ou a saia?

(Cabe dizer aqui que até pouco tempo eu não sabia a diferença entre vestido e saia. Para mim, os dois eram exatamente a mesma coisa, e podiam ser definidos da seguinte forma: vestido ou saia são não têm pernas; e calças têm.)

– O verde.

– Temos duas peças verdes nesta coleção.

– É o verde-claro.

– Tanto o vestido quanto a saia são verde-claro.

– Vamos até a vitrine e eu mostro.

Pronto. Vou até a vitrine, aponto (“eu quero isso, no tamanho P”), pago e saio com a sacola. Mas claro que às vezes a vendedora tenta me complicar. Ela separa o que você pede, aí vira e solta um:

– Olhe, eu tenho este outro modelo aqui, que custa somente R$ 15,00 a mais.

– Por quê? O que ele tem de diferente?

– Ah, o tecido deste é .................................. (insira aqui um termo técnico qualquer, como “panamenho” ou “algodão bordado”).

– Ok. Em termos práticos, qual a diferença dele?

– Ah, este aqui ................................... (insira aqui algo inútil como “possui as alças não esgarçam nunca” ou “tem as cores mais vivas por causa do jeito que foi costurado”).

– Não, obrigado. Eu vou levar aquele mesmo.

– O modelo clássico?

– Não sei. O modelo clássico é o verde?

– Isso.

– Então, sim. O verde.

Mas confesso que este estágio em que estou é um grau mais avançado. Afinal, implica em você ver algo numa vitrine e gostar. Agora, quando comecei a comprar presentes femininos, eu tratava isso da mesma forma que encarava Biologia, no colegial: como eu não entendo, eu decoro.

Assim, andando com o alvo do presente – seja mãe, seja sra. Gordon – pelo shopping, reparava quando ela gostava de algo. Decorava o modelo e o nome da loja (no caso do Shopping Paulista, era obrigado a decorar também o local da loja e a jogar feijões pelos corredores, senão nunca mais encontraria o lugar).

Dias depois, eu voltava ao lugar, entrava na loja e chamava a vendedora.

– Oi, tudo bem?

– Posso ajudá-lo?

– Sim, eu quero um sapato azul marinho, fechado, com um lacinho em cima.

Sempre que há outras clientes na loja, elas olham para mim assim que acabo de pronunciar esta frase. E me olham com inveja, com olhar de “queria ser decidida como essa bichinha careca, eu estou aqui há vinte minutos e não sei qual eu levo”. Um dia, eu ainda vou pegar o sapato, olhar com cuidado e perguntar para qualquer velhinha que estiver ao meu lado se “será que vai ficar bem em mim?”, só para ver a reação dela. Confesso que já quase fiz isso uma duas vezes.

Mas, voltando à vendedora. Apesar de contar uma descrição precisa (não devem existir muito modelos de sapato com lacinhos e na cor azul marinho na loja) ela começa com as perguntas técnicas.

– Você sabe se é da nova coleção?

– Não, é da coleção de sempre. Ela coleciona sapatos há anos.

– Não, as coleções da loja.

– Ah. Não sei.

– Por que acabamos de receber a coleção outono. Você não quer dar uma olhada?

– Olhe, eu vou ser sincero. Eu mal sei em qual estação nós estamos. Eu quero aquele azul marinho com lacinho.

– Ele tem salto?

– Sei lá. Tudo o que eu sei é isso. É azul marinho, fechado e tem um laço em cima. Estava na vitrine aí, outro dia. E, se ajudar, tenho quase certeza que eram dois, um para o pé esquerdo, outro para o direito.

– Ah, isso está parecendo ser da coleção nova. Você sabe o material dele?

– Não, ele estava na vitrine e eu estava fora da loja. Ou seja, do meu ponto de vista, ele era feito de vidro. Mas era um material azul. E tinha um lacinho.

– Ah, senhor, se ao menos eu soubesse a coleção. Assim fica difícil.

Assim, eu faço a mulher justificar o salário dela e descer com todos os sapatos de lacinho que ela possui na loja e ir me mostrando um por um, até minha mente encontrar um “perfect match”. E, acreditem: eu não saio dali até a mulher achar.

Quando ela encontra, eu pago, mando embrulhar e vou embora.

E, quer saber? Até que tenho me dado bem – sempre levando em conta que não é apenas o cartão que é mais importante que o presente, mas sim a forma que você entrega o presente.

Mas eu ainda tenho muito a aprender. No auge da minha arrogância, depois de treinar menos de um mês com um sabre de luz, achei que seria capaz de dar uma surra no Darth Vader. Depois de comprar meia dúzia de vestidos e pares de sapato, eu achei que seria fácil comprar uma bolsa.

Como eu descobri ontem, eu não poderia estar mais enganado.

(continua)

15 de novembro de 2009

O Amor nos Tempos do Cólera

A Besta-Fera está, neste exato momento, se digladiando com uma mosca que está presa na porta de vidro da varanda. A luta não tem favoritos, porque ambos enfrentam grandes desvantagens: enquanto a mosca não consegue entender que aquilo é uma porta, e fica tentando voar para fora através do vidro, a Besta-Fera, com sua famosa miopia, perde o inseto de vista a cada 10 segundos.

Mas, pelo andar da carruagem, se eu fosse obrigado a fazer uma aposta agora, colocaria R$ 10,00 na mosca.

Contudo, o ponto não é esse. O ponto é que estava no computador procurando algum assunto para escrever, e acabei me distraindo com isso. E fiquei pensando sobre o estilo de vida do meu cachorro.

Hoje, logo depois que acordei, fui obrigado a brincar com ele e com um dos seus brinquedos destruídos. Eu jogo o negócio para o outro lado da sala, ele sai correndo, morde o bicho e traz de volta para mim. Às vezes, ele banca o difícil e não devolve o brinquedo, fica apenas ameaçando colocá-lo na minha mão, e eu sou obrigado a arrancar da boca dele para começar a brincadeira de novo.

E assim, ele passa seus dias: ontem, por exemplo, tive que brincar de luta com ele. Aliás, não é luta, é luta e dança, porque eu e ele dançamos, às vezes. Aliás, se alguém for escrever um dia minha biografia não-autorizada, deixo uma dica aqui: eu danço apenas quando estou a) bêbado o suficiente ou b) quando estou sozinho em casa com meu cachorro. Isso, claro, sem contar as danças lentas, de rosto colado, já que um dos meus hobbies sempre foi tirar minha mãe (às vezes, minha avó) para dançar no meio da cozinha, enquanto elas faziam almoço.

Mas voltando à Besta-Fera: minha conclusão é que eu queria ter os problemas dele. Seu dia se resume a brincar comigo, dormir, ou brincar sozinho (ele está se aprimorando cada vez mais na arte de pegar meu travesseiro na cama e trazer para a sala). E seus problemas se resumem a eu cuidar dele (o que envolve desde dar comida a brincar). Ou seja, os problemas dele, na verdade, são meus.

Assim, não é preciso muita análise para descobrir qual de nós dois leva uma vida de cão.

Mas ele tem seu papel social aqui em casa, e o desempenha com esmero. Mais que um animal de estimação, ele é um roommate. Já tive outros cães antes. Aliás, cães e gatos. Mas a Besta-Fera é diferente, justamente porque eu moro sozinho. Ele é minha válvula de escape, às vezes, meu confidente, quase minha consciência.

Ontem, voltei para casa lá pela meia noite e me sentei no chão, encostado na porta, para brincar com ele. Mas, assim, que eu coloquei os pés em casa – ainda estava em pé, colocando minhas coisas na mesa – ele já havia explodido de alegria.

Eu estava fora há algumas horas, mas a felicidade dele era de uma sinceridade notável. Sim, eu sei que isso acontece todos os dias com quem tem cachorro, mas resolvi escrever sobre isso hoje. Porque, para quem tem cachorro, essa demonstração de alegria é algo banal: toda vez que você entra em casa, seu cachorro faz festa por causa disso. Ou seja, não valeria a pena nem começar a escrever sobre isso.

Por outro lado, uma demonstração de alegria como essa, tão sincera, tão “simplesmente feliz”, é algo raro hoje em dia. Chega a ser curioso você ser recepcionado por alguém (sim, ainda estou falando do meu cachorro, apesar do termo “alguém”) que está feliz apenas porque você está ali, e faz questão de demonstrar isso.

Porque a regra, hoje em dia, é você ganhar um sorriso daqueles que dizem “que bom te ver, mas ainda temos que resolver tal assunto”, “é bom te ver, mas estou muito chateado com o que você falou” ou o clássico “que bom te ver, mas estou meio sem tempo hoje, depois a gente se fala”. E ele não. Ele sempre tem tempo.

O que estou tentando mostrar aqui é que ele tem tempo não graças ao fato de não fazer nada, ele tem tempo porque, mesmo se não tivesse, ele arrumaria.

Quando eu coloco os pés em casa, ele arruma tempo e engole todas as nossas brigas e vem apenas mostrar que está feliz porque estou ali. Talvez seja o jeito dele demonstrar que, se eu estou ali e ele está ali, mais uma vez, talvez a briga que tivemos não tenha sido tão séria assim. Ou talvez seja, mas jamais será maior que a gente.

Claro que não estamos falando de um organismo psicologicamente perfeito. Descontando tudo o que falo dele aqui no blog, ele ainda tem um temperamento um tanto quanto difícil de lidar, especialmente na teimosia. Por outro lado, eu, sem parar para pensar muito, tenho toneladas de defeitos (incluindo a teimosia) – ou seja, provavelmente a desvantagem fica com ele.

Mas o número de defeitos dele – ou os meus – não importa. Porque algo está mais do que claro aqui. Mais do eu aceitar os defeitos dele e vice-versa, nós nos gostamos justamente por causa dos nossos defeitos (eu ia usar o termo “amamos”, mas dois amigos homens não fazem isso). Os meus defeitos me tornam menos “dono da casa” aos olhos dele; e os defeitos dele o tornam mais humano aos meus olhos.

Nossos defeitos, mesmo sendo diferentes, nos transformam em iguais. Essa é a graça da coisa. Assim, ele me admira como eu sou, incluindo defeitos e qualidades. E eu e ele sempre deixamos claro um para o outro que pedidos de desculpas são necessários apenas quando um de nós faz algo errado, e mais nada. Ele jamais teve que me pedir desculpas por ser quem ele é, e eu jamais tive que pedir desculpas a ele por ser quem sou.

Aliás, essa é a base da nossa convivência: a partir do momento em que nos gostamos por causa dos nossos defeitos, é fácil aprender a cada um de nós lidar com os defeitos do outro. E, com isso, as qualidades se sobressaem. Porque, sejamos sinceros: quando há amor (agora tive que usar, Besta-Fera que me desculpe) dos dois lados, há respeito. Ele me respeita, e eu o respeito. Logo, não existem defeitos, existe apenas a frase “é o jeito dele”.

E aí, penso no relacionamento que ele construiu comigo. Aliás, penso na forma que ele construiu este relacionamento. Explodindo de alegria quando eu entro em casa; pedindo para brincar quando está com vontade; não perdendo nunca uma oportunidade de ficar do meu lado – o que inclui também quando estou dormindo; colocando a cabeça sobre meu pé quando estou no computador, apenas para “ficar junto”.

E acredito que todo cachorro seja assim. Mudam as manias, as brincadeiras, as demonstrações de afeto, mas a essência é a mesma. E a nossa essência... Bem, é aquilo que conhecemos.

Nunca temos tempo para nada, sempre temos algo nos preocupando, estamos sempre chateados com fulano, com o saco cheio das atitudes de sicrano. E nunca encontramos tempo (ou vontade, ou coragem) de dizer para alguém, quando encontramos com esta pessoa, o quanto estamos felizes por ela estar ali. O quanto estamos felizes apenas por isso, por ela estar ali, com todas as qualidades e defeitos que ela possa ter.

E isso é algo que o meu cachorro, como qualquer outro cachorro, faz todos os dias.

Assim, toda vez que penso nisso, fico com uma pergunta na cabeça: quem são os verdadeiros animais: eles ou nós?

Eu sempre disse que a humanidade não deu certo. Cachorros, por outro lado, deram. Não seria nada mal se a gente conseguisse aprender um pouco com eles. Porque eu acho que eles teriam a paciência de nos ensinar - ao contrário de nós, que não temos paciência para mais nada.

O nome disso não é Preguiça; é Consciência Tranquila.

15 de setembro de 2009

Válvula de Escape - Parte Final

(leia a parte I aqui)

Mas a minha decisão de não usar mais o banheiro implicaria num rompimento doloroso.

Abri a geladeira e olhei a peça de fraldinha que esperava ansiosamente para ser assada algumas horas depois. Peguei um banquinho, me sentei na frente da geladeira aberta e comecei a conversar com ela. Tentei explicar que nosso relacionamento não teria futuro, que havíamos nos conhecido num momento errado da minha vida. Usei até o clichê “o problema não é você, sou eu” (o que não deixava de ser verdade, já que eu era o dono do banheiro, não ela).

Assim como toda separação, foi dolorido para nós dois. Mas ela entendeu.

Voltei para a sala e me sentei no sofá, me preparando para me alimentar somente de oxigênio durante as próximas horas. Lembrei-me do Batman dizendo que “a fome alimenta o espírito”, mas logo em seguida imaginei o número de banheiros que ele deve ter na Batcaverna e achei hipocrisia demais da parte dele.

Meu organismo, por outro lado, sabendo da minha impossibilidade de usar o banheiro, resolveu contra-atacar, mostrando que quem manda aqui não é o cérebro, mas sim os intestinos. Comecei a ouvir barulhos semelhantes a trovões dentro de mim, anunciando que logo o tempo ficaria feio lá dentro. Malditos Delgado e Grosso.

Olhei para o relógio. Das doze horas, haviam se passado... Quarenta minutos.

Respirei fundo e decidi que o melhor a fazer era me distrair.

Peguei O Poderoso Chefão, deitei no sofá e continuei a ler. Fui atravessando as páginas, mas aquele bando de mafiosos discutindo assassinatos enquanto comiam fetuccines e vitelas começou a me fazer mal. Muito mal. Delgado e Grosso não estavam apenas tentando fazer chover dentro de mim, como estavam tentando arrombar a porta do meu estômago com uma marreta.

Mas aí cheguei no trecho em que o Michael vai jantar com Sollozzo. Eu conheço a história de cor, então sabia o que me esperava algumas páginas adiante. Em poucos minutos, Michael se levanta, vai até o banheiro e encontra uma arma colocada atrás de onde? Da descarga.

Comecei a me contorcer de cólicas no sofá.

Joguei o livro longe e comecei a reconsiderar tudo. A Fnac não era mais opção. Não daria tempo.

Mas o meu banheiro também não era uma opção.

Aposto que na Pré-História, um neanderthal que não conseguisse sair da caverna para usar o matinho seria expulso da tribo, por emporcalhar o lugar em que vivia. Era expulso e humilhado, com direito a ter que abandonar a tribo (enquanto os outros primatas o xingavam de “porco, sujo e nojento!” e jogavam cascas de frutas nele) para viver como um paria, sozinho, no meio da floresta. Ele se tornaria um aleijado social, um excluído.

E eu corria o mesmo risco, já que, obviamente, minha síndica deve ser adepta da mesma filosofia. Se eu usasse o banheiro aqui em casa, logo seria identificado por ela. Seria amarrado e levado para um julgamento no salão de festas do prédio, chamado de porco, sujo e nojento e expulso do prédio. Quase pude ouvir ela falando “não vou jogar você aos porcos porque você é sujo demais para eles”.

Eu seria expulso do prédio – e, minha síndica ainda me obrigaria a pagar o conserto da descarga, mostrando que a única evolução que ela desenvolveu dos primatas foi a financeira.

Comecei a suar. Uma sirene de alerta vermelho começou a tocar no meu corpo, e todos os órgãos do meu aparelho digestivo correram para os postos de combate.

Delgado e Grosso haviam conseguido abrir um buraco na parede do meu estômago e estavam enfiando dinamite lá dentro. Murmurei algo como “se eu comer umas duas maçãs agora à noite, vocês me deixam em paz?” Eles riram.

Bom, mas eu ainda fazia parte da civilização. Eu ainda não havia sido expulso de lugar algum. Assim, resolvi aproveitar as vantagens do mundo moderno para encontrar uma saída. Corri para a frente do computador e acessei o Google. Mas antes que eu pudesse digitar “+ descarga não funciona + intestinos funcionam + socorro!!!!” meu Messenger apitou. Era o Tyler.

Expliquei a situação para ele da melhor forma que podia – suando frio, tremendo – e ele deu um conselho: “jogue baldes de água lá dentro, costuma funcionar”. Tive tempo apenas de digitar “Tyler Bazz, the Sanitary Master!” e corri para o banheiro, abrindo as calças.

Obviamente, não vou entrar em detalhes aqui. Basta vocês imaginarem o bairro de Pinheiros visto de cima e a Ode a Alegria, da 9ª de Beethoven, ecoando por toda a zona Oeste de São Paulo.

Mais recuperado, abotoei a calça e fui para a lavanderia. Enchi um balde de água e atravessei a sala com ele, em direção ao banheiro, e sob os olhares de desprezo da Besta-Fera. Entrei no banheiro, respirei fundo e virei o conteúdo do balde dentro do vaso.

Eu estava de volta à civilização!

Tudo bem, eu ainda não estava de volta ao século 21, pois, cá entre nós, depender de baldes para esse tipo de situação é digno dos pioneiros de filmes do John Wayne, mas o século 17 já era um lugar muito mais confortável que a Pré-História.

Fora que a técnica do balde me daria tempo para agüentar até o técnico checar no dia seguinte, e me colocar novamente no ano 2000. Aliás, como os comentários do post anterior deixaram claro, eu era a única pessoa no planeta que não conhecia a técnica do balde. Shame on you, Rob Gordon, shame on you.

Aliviado, abri a geladeira e expliquei para a fraldinha que havia me precipitado, eu estava apenas com medo de me envolver demais, mas gostaria de tentar. Convidei-a para jantar comigo naquela mesma noite, e ela aceitou.

Fechei a geladeira e, como um adolescente que consegue seu primeiro encontro, dei um pulo de felicidade. Fui tomar banho, passar perfume e me arrumar. Mas, prevendo uma noite inesquecível, já deixei dois baldes de água prontos na lavanderia.

Afinal, não sei se o seguro realmente morreu de velho. Mas, com certeza, ele viveu num lugar limpo e respirável.

26 de agosto de 2009

Rob Gordon X Falta de Concentração

Tem dias que é assim.

Mas, tem dias que eu simplesmente não funciono direito.

– Rob?

– Sim?

– Você já falou com aquele colaborador novo da revista?

– Liguei para ele e ele ficou de me ligar de volta.

– Quando ele ligar, pergunte a ele o que ele acharia de fazer mais três páginas de texto.

– Ok.

– Porque eu estava pensando o seguinte. A pauta da revista...

Bom, amanhã eu devo tomar um café com esse colaborador, ele só vai me ligar para confirmar isso. Putz, mas amanhã é dia de feijoada, e eu sempre almoço mais tarde. Será que consigo jogar esse café para o final da tarde? Seria ideal. Mas se bem que todo dia tem chovido no final da tarde. Será que vai chover hoje também? Só faltava essa. Queria sair cedo daqui e ir jantar fora, mas se chover, vou ter que ir para casa mesmo. Se eu for para casa, devo chegar lá umas 9 da noite, e o que vou fazer até a hora de dormir? Ver filme? Não sei, não consigo me lembrar de nada que eu esteja com vontade de assistir. Espera, ele ainda está falando. Melhor prestar atenção.

– ... aí fechamos com essas três páginas. O que você acha?

– Acho ótimo.

– Porque aí o outro colaborador...

Ah, já sei, vou assistir Uma Família da Pesada. Dá para assistir pelo menos uns três episódios antes de dormir. Não, depois eu penso nisso. Preciso prestar atenção, parece ser importante.

– ... e ele pode entregar o texto até sexta que vem.

– Perfeito.

Pronto, essa parte do texto na sexta que vem eu consegui pegar. Já é um começo. Agora, só preciso descobrir de qual colaborador estamos falando. Espera, eu tinha algo para fazer na sexta-feira. O que era mesmo? Jantar com alguém? Não consigo me lembrar... Aliás, o que eu vou comer hoje? Lasanha? Aí eu teria que passar no mercado. Eu precisava comprar algo no mercado, o que era? Será que era Pinho Sol? Acho que sim. Mas, se for Pinho Sol, tenho que comprar alguma outra bebida, porque as pessoas sempre me olham como se eu fosse um demente quando estou carregando lasanha e Pinho Sol no mercado. Será que eles acham realmente que eu vou jantar isso? Aliás, eu sempre achei graça nisso. Eu já escrevi isso no blog? Aliás, não chequei os comentários do blog hoje, será que tem coisa...

– E o texto sobre os lançamentos em DVD?

Espere, isso é importante. Esse texto sou eu quem vai fazer. Quer dizer, acho. Se for o texto que eu estou pensando.

– Devo entregar tudo no começo da semana que vem.

– Então, estamos dentro do prazo.

Ah, era o meu texto mesmo. Acertei.

– Sim.

– Mas a grande sacada com esse colaborador é conseguir...

Ou seja, vou ter que trabalhar no final de semana para terminar isso. Bom, paciência. Aí, aproveito e escrevo no Chronicles, estou com vontade de escrever ali. O problema é o assunto. Será que aquele casal brigando na rua vira post? Ah, lembrei! Sexta-feira eu preciso pagar o condomínio. Preciso anotar isso em algum lugar. Ou será que era outra coisa? Merda, eu pensei nisso vindo para cá de manhã, e agora não consigo lembrar o que era. Pense. Você estava em frente aquela loja de CDs vagabunda quando pensou nisso. Cumprimentou o vendedor, que te conhece de vista. O que você estava pensando? Hum... Será que aquela loja tem umas coletâneas de blues baratas? Nunca procurei blues ali, preciso dar uma passada...

– Beleza?

– Beleza, fique tranquilo que eu cuido disso.

Ah, já sei, vou ver algo do Clint hoje, com certeza! Já vou ter que trabalhar no fim-de-semana mesmo, então vou dormir um pouco mais tarde hoje.

– Ok. Qualquer coisa me avise aqui.

Três Homens em Conflito? Dirty Harry?

– Ok.