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31 de julho de 2019

Proteção


De uns tempos para cá, venho sentindo vontade de voltar a ser criança. Normalmente acontece quando estou fazendo algo que me deixa confortável. E é uma sensação que sempre chega sem avisar. Estou lendo está um momento interessante do livro ou um diálogo num filme qualquer e de repente sinto uma espécie de coceira, mais gostosa que incômoda, que parece não ter lugar específico.

Mas, para ser sincero, não é algo que experimento o tempo inteiro. Na verdade, acontece com pouca frequência. Porém, sempre preciso para o que estou fazendo e dar atenção para ela.

Já descobri que não adianta procurar de qual lugar do meu corpo vem essa sensação. Uma vez tive certeza que era no lado esquerdo, pouco acima da cintura, mas assim que prestei atenção nesse local ela se assustou e partiu como uma folha levada rua abaixo pelo vento.

Por isso, comecei a prestar atenção nessa pequena coceira com o canto dos olhos, sem que ela perceba que está sendo estudada. Finjo que continuo concentrado no livro ou que presto atenção na conversa na televisão, enquanto tento entender o que essa sensação quer comigo. Na primeira vez que fiz isso, não enxerguei muita coisa, mas na segunda consegui identificar que, junto com a coceira, alguns sentimentos haviam escapado de algum lugar da minha memória e surgiram em forma de palavras, dançando como insetos ao redor de uma lâmpada.

Eu não sou bom com palavras como gostaria de ser, então agarrei num gesto rápido a primeira palavra que passou na minha frente. Abri a mão com cuidado para que ela não escapasse e lá estava ela.

Proteção.

Não era uma proteção qualquer, mas uma proteção de criança. Uma proteção de quem está brincando no tapete da sala sem horário ou compromissos, sabendo que é vigiado pela mãe, que observa atenta da porta da cozinha. Ou de quem passa o dia com a certeza que o pai atravessará a porta em algum momento antes do jantar.

Pode ser também uma proteção ainda mais elaborada, experimentada por uma criança que descobriu que os dias seguem uma espécie de padrão no qual nada de errado acontece – deixando de lado um eventual tombo na cozinha. Quando ficamos mais velhos, uma sensação como essa pode causar tédio, mas isso não acontece em uma criança que, mesmo sem fazer ideia disso, tem todo o tempo do mundo pela frente.

Fechei a mão com cuidado e senti a proteção se debatendo dentro dela. O til, o risco do t e até mesmo a cedilha se moviam freneticamente, raspando minha pele mas sem machucar. Me senti um pouco cruel por fazer com que justamente a palavra proteção pudesse se sentir tão desprotegida e cheguei a pensar em aproximar minha mão dos lábios e sussurrar uma palavra de conforto. Palavras de conforto sempre trazem segurança.

Mas mudei de ideia.

Me levantei do sofá com cuidado para não assustá-la ainda mais e caminhei em direção à escada. Subi contando mentalmente os degraus – eu sei que são quinze, mas conto todos assim mesmo, talvez em busca de um pouco de proteção ao ver que todos estão ali – e no andar de cima, caminhei calmamente até o berço.

Meu filho dormia. Enrolado em um cobertor com apenas um dos pés descoberto, sua cabeça estava virada para o lado. Tive a certeza de que ele estava sonhando, apesar de nada me mostrar isso, e tentei adivinhar sobre o que seria o sonho. Estava imaginando algo que parecia ele correndo desajeitado em um enorme gramado com muitas árvores ao fundo. Tudo acontecia numa manhã ensolarada – na minha cabeça, não era uma manhã comum, mas sim uma manhã de sábado – e ele ria a cada metro percorrido.

O sonho do meu filho desapareceu da minha cabeça quando a palavra voltou a se debater dentro da minha mão, descobrindo que, com certo esforço e um pouco de sorte, poderia escapar por entre meus dedos. Assim, me debrucei e aproximei a mão do rosto do meu filho, abrindo os dedos lentamente.

A palavra não saiu voando. Ela olhou ao redor, girando suas letras para todos os lados. Devia estar pensando sobre como havia chegado até ali. E, quando observou meu filho, deslizou rapidamente por entre meus dedos, encostando com cuidado no travesseiro. Primeiro a letra “o”, depois o “ã” até finalmente o P. E, como um cachorrinho, a proteção deu três voltas ao redor de si mesma antes de deitar virada de frente para meu filho.

Observei os dois por mais alguns instantes, até dar meia volta e sair do quarto com cuidado para não acordá-lo ou não assustar a palavra. E, quando estava no meio da escada, pude ouvir ele rindo. Ele faz isso às vezes. Gargalha enquanto dorme, talvez para mostrar ao mundo que está sonhando. Correr naquele gramado ensolarado deve ser uma experiência fascinante.

Voltei para sala descobrindo que a coceira havia dado lugar à certeza de que a palavra proteção ficaria com meu filho pelo resto da noite. Talvez, no dia seguinte, quando ele acordar ela ainda esteja lá. E ele passará o dia com ela, explicando para sua nova amiga qual a sensação de correr no gramado e brincando com a palavra em seus dedinhos, enquanto investiga a forma de cada letra. Completamente protegido.

E, ao saber que a palavra estava lá, me senti seguro, quase como se fosse uma criança.

Me senti protegido.

E voltei a ler mais um pouco do meu livro.

27 de julho de 2019

O Monólogo que se Tornou Diálogo


– Olha, Felipe! Um ônibus!

– Adê?

– Ali! Ele é todo amarelo!

– Adê?

– Viu? Que grande! Dá tchau para o ônibus!

– Dadá!

– Tchau, ônibus!

– Hunf.

– Quer ir para o chão?

– Adê?

– Anda do lado do papai.

– Ah-ah.

– Vamos, Felipe.

– Ah-ah.

– Felipe?

– Ah-ah.

– Felipe? Vamos?

– Ah-ah.

– Larga esse pauzinho. Vamos passear.

– Adê?

– Tá bom. Vamos levar o pauzinho.

– Dadá!

– Agora, vamos.

– Hmmmmmmm...

– Felipe? O que você está fazendo?

– Hmmmm...

– O pauzinho não é uma colher, Felipe.

– Adê?

– Isso. É só um pauzinho. Não dá para comer com ele.

– Hmmmmmmm...

– Tá bom. Vamos passear? Vem com o papai.

– Adê?

– Não, Felipe. Para o outro lado.

– Ah-ah.

– Isso. Junto com o papai.

– Adê?

– Devagar, Felipe. Você vai tropeçar.

– Hmmmmm...

– Felipe, ou corre ou usa o pauzinho como colher. Os dois não dá.

– Hmmmmm...

– Aliás, você podia escolher nenhum dos dois. Nem correr, nem se alimentar com o pauzinho.

– AH! AH!

– Olha! Outro ônibus! Esse é verde!

– Dadá!

– Tchau, ônibus verde!

– Dadá!

– Felipe, pra esse lado.

– Adê?

– É só um portão.

– Adê?

– Sim, está cheio de carros lá dentro.

– Adê!

– Olha, aquele carro! Que grande!

– Dadá!

– Tchau, carro grande.

– Dadá!

– Vamos?

– Dadá!

– Tchau, carro grande. Tchau! Pronto, Felipe. Vamos.

– Dadá!

– Agora o carro vai nanar, Felipe. Vamos?

– Ah-ah.

– Para esse lado, Felipe. Junto com o papai.

– Hmmm...

– Felipe, onde você arrumou essa folha?

– Hmmmmm...

– Olha, Felipe! É a mamãe!

– Adê?

– Ali! A mamãe chegou!

– AH! AH!

– Oi, mamãe!

– Hmmmmm...

– Larga a folha, Felipe, e dá oi pra mamãe.

– Hmmmmmmmmm...

– O que vocês estavam fazendo?

– Conversando.

21 de dezembro de 2017

12:12

Eu ainda nem tinha tomado café quando tivemos que correr para o hospital e isso depois de já passarmos a noite no pronto socorro quando a gente descobriu que era alarme falso mas dessa vez tudo ia acontecer de verdade porque a bolsa tinha estourado e entramos no hospital com ela tentando contar as contrações eu falando para a médica que esquecemos o ultrassom por causa da correria e a médica respondeu que trazer o ultrassom sempre é importante e eu mandei ela esquecer a merda do ultrassom e examinar a minha esposa e ela começou a fazer uns exames e eu corri para a administração para ver os documentos da internação e de lá corri para o segundo andar junto com uma enfermeira para deixar as malas no quarto e fui de volta para o primeiro andar onde me deram uma roupa verde igual a dos médicos e mandaram eu colocar por cima da roupa que eu estava usando e a calça não entrava porque eu tinha dois celulares e duas carteiras comigo e eu comecei a pular por aquela sala que parecia um vestiário desesperado tentando enfiar a calça por cima da bermuda jeans e tive uma crise de ódio e gritei um palavrão porque minha carteira não deixava a calça entrar e voltei correndo para fora para pedir uma calça maior e essa finalmente entrou e eu atravessei os corredores o mais rápido que pude enquanto colocava uma touca na cabeça perguntando para todo mundo onde ela está e quando finalmente entrei na sala mandaram eu colocar uma máscara e eu não conseguia amarrar aquilo de jeito nenhum na cabeça porque minhas mãos tremiam mas consegui dar um jeito provavelmente amarrando errado mas não me importei muito porque minha esposa estava gritando e a médica falou algo atravessado e eu pensei que vou ter que segurar minha esposa antes que ela dê um tapa na cara dessa médica e os gritos aumentaram e todo mundo falando que ela estava indo bem que estava quase nascendo e continue fazendo força e eu fiquei ali me sentindo um pouco inútil porque eu queria fazer força junto com ela mas não podia e o pouco que eu podia fazer era conversar com ela e dizer que amo muito ela e que tudo vai dar certo e todas aquelas frases que a gente sabe que ela nem está ouvindo mas que você diz mesmo assim e lembro de ter limpado uma lágrima do rosto da minha esposa e de repente a médica e todas as enfermeiras começaram a falar ao mesmo tempo e eu não sabia em qual delas eu prestava atenção e mesmo se soubesse não ia conseguir prestar atenção em nada que não fosse minha esposa mas de repente a médica falou que essa vai ser a última contração e eu me lembro de pensar que se podemos esperar só mais uns dois minutos porque eu não sei se ainda já estou pronto para isso mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa alguém que estava na sala começou a gritar que está vindo está vindo está vindo só mais um pouco

E, exatamente às 12:12, minha vida ganhou pontuação.

Ele olhou na minha direção. Seus olhos eram escuros e pequenos mas pareciam maiores que o mundo. E quando ele começou a chorar, eu chorei junto. Éramos duas crianças. Ele chorava porque havia acabado de nascer. Eu soluçava porque havia acabado de nascer de novo.

Enquanto nós dois chorávamos juntos, meu passado ganhou um novo significado. Memórias de mais de quatro décadas começaram a se movimentar dentro de mim. Meus sorrisos de criança se uniram com tudo o que aprontei na adolescência e com cada coisa que aprendi depois de adulto. Todas as minhas lembranças começaram a se comportar como peças de um quebra-cabeça que decidiram, por conta própria, se juntar e revelar o segredo que escondiam.

E a imagem que o quebra-cabeça formou era o rosto dele.

Foi então que entendi que tudo o que vivi nesses mais de quarenta anos não eram fatos isolados, e sim capítulos de uma história maior. Cada lembrança doce, cada lição aprendida, cada pequena conquista... Tudo havia me levado até ali. Cada instante da minha história havia me conduzido até aquele momento. Em direção àquele menininho.

No meio da correria das pessoas de verde, do falatório apressado, do choro do meu filho e da enormidade do futuro que se abria na minha frente, com todos os sonhos e medos e receios e desejos e cuidados e erros e aprendizados... Eu respirei fundo e pensei no meu pai. Fechei os olhos e enxerguei exatamente o que o meu pai significa para mim.

E tudo ficou mais claro. Dali em diante, cada passo que eu der precisa garantir que ele seja uma pessoa feliz. Cada escolha que eu fizer precisa transformar esse menininho em um homem melhor que eu. Agora, tudo o que eu sou, tudo o que fui e tudo o que eu possa ser um dia, é dele.

Foi neste momento que me tornei pai. E foi neste momento que eu percebi que havia passado a vida inteira querendo ser o pai do Felipe.

Eram 12:12 quando tudo fez sentido.

Abri os olhos e vi que alguém havia colocado meu filho sobre minha esposa. Ele estava deitado e assustado como um enfeite de cristal que, depois de ser desembrulhado e colocado em uma estante, olha ao redor para compreender aquele novo mundo. Mas ele não era feito de cristal. Ele era feito de de tudo o que eu sou. Ele era feito de amor.

Pela primeira vez na vida, me aproximei do rosto dele e, pensando no meu pai e pensando no meu filho, eu disse baixinho:

“Eu sou seu pai. E meu amor por você é maior que a vida”.


Eram 12:13 e eu ainda estava chorando.

Eram 12:12 quando eu comecei a
escrever o maior texto da minha vida.

23 de agosto de 2017

O Menino que Ainda Não Conheço e Outras Histórias de Amor

Foi de repente.

Minhas roupas estavam molhadas quando o sonho se transformou em notícia. Era uma sexta-feira à noite de abril e tínhamos acabado de entrar em casa. Havíamos saído para comer um sanduíche e, na volta, atravessamos uma tempestade daquelas que você fica encharcado só de correr até o carro.

Não foi a primeira tempestade que cruzou nosso caminho. Mas essa se tornou inesquecível porque ainda estava caindo quando ouvi a primeira vez sobre o Menino que Ainda Não Conheço. A Esposa foi até onde eu estava e mostrou o teste. Foi assim, de repente. Eu a beijei e a abracei e comecei a andar pela sala com as roupas pingando, tentando entender a ideia de que eu vou ser pai.

Foi de repente que tudo mudou.

Eu não me recordo do que pensei no momento. Mas quanto mais eu penso sobre isso, mais eu percebo que tudo o que vivi antes da tempestade dessa sexta-feira não pertence mais a mim. Eu já fui muitas coisas. Mas hoje entendo que tudo o que sou existe apenas em função do Menino que Ainda não Conheço.

Os filmes que vi de madrugada. Os gols que fiz no estacionamento do supermercado. Os livros pelos quais me apaixonei. As paixões que me fizeram sonhar. As gargalhadas que saíram alto demais. As músicas que decorei a letra. As brigas comigo mesmo e com os outros. As lágrimas que teimaram em escapar. As piadas entre goles de cervejas.

Quanto mais penso, mais percebo que nada disso é só meu. Quando mais entendo, mais fica claro que eu mesmo não sou mais só meu. Tudo o que eu sou, tudo o que eu fui e tudo o que possa ser um dia, agora, pertencem ao Menino que Ainda não Conheço.

Foi de repente que tudo mudou para sempre.

Hoje, acordo todos os dias e pego meu café. Ainda com a caneca na mão, enxergo um sentido novo no meu dia. Afinal, nada mais lógico – e mágico – que a mulher que me mostrou como fazer as pazes com a vida carregue uma vida dentro de si. E descubro um sentido novo em mim, ao me olhar no espelho e pensar sobre o tamanho que a “eu vou ser pai” pode ter.

Hoje eu vou dormir, todas as noites, pensando no Menino que Ainda Não Conheço. Brinco de adivinhar qual sua primeira palavra ou para qual lado ele dará seus primeiros passos. E, com ele não apenas ao meu lado, mas sim ao meu redor, fecho os olhos e peço para ser pelo menos metade do pai que meu pai foi para mim.

Porque tudo o que eu quero é olhar um dia para o Menino que não Conheço e saber que ele se tornou melhor que eu. Tudo o que eu quero é olhar um dia para o Menino que Ainda não Conheço e ter a certeza de que ele se tornou um Menino Feliz. E fazer isso é o meu papel. Porque desde aquela sexta-feira chuvosa, eu estou escrevendo o texto mais bonito da minha vida. Eu estou escrevendo sobre o Menino que Ainda não Conheço.

E, de repente, cada dia é uma história de amor. Para sempre.

Isso é apenas um teaser. A estreia é em dezembro.

13 de dezembro de 2016

Meu Telhado Parece Vazio

– O Telhada está morto embaixo do carro.

Enquanto frases normais são apenas faladas, existem aquelas que gostam de atravessar a sala correndo até dar um tabefe na sua cara. Você precisa reagir, ou pelo menos mostrar que recebeu a mensagem, talvez demonstrando espanto ou susto ou raiva ou o que for... Mas tudo o que você consegue é ficar estático, sentindo o rosto arder.

Foi essa minha reação no último sábado, quando a Esposa entrou na sala com essa notícia nas mãos. Ela estava nervosa, mas eu consegui apenas ficar parado – por alguns segundos que pareceram metade do dia – tentando entender o que ela havia falado. As palavras estavam todas lá. A frase estava construída perfeitamente. Seu sentido era claro.

Mas, para mim, ela não fazia sentido nenhum.

O Telhada estava bem quando o vi pela última vez. E acho que eu ainda estava tentando lembrar se isso havia acontecido uma ou duas noites antes, quando percebi que estava de pé, na frente da Esposa. Não lembro o que eu perguntei, muito menos o que ela respondeu. Afinal, mesmo sem entender o que estava acontecendo, eu sabia que não havia nada a ser feito.

Não me lembro de descer a escada, mas sim de me agachar na garagem e ver ele deitado de costas. Não me lembro de contornar o carro, mas sim de estar em pé, olhando ele deitado de costas para mim, e me lembrar de todos os filmes e livros e quadrinhos com uma cena parecida com essa, e que alguém diz que “ele parece estar dormindo”.

Ele não estava dormindo. E eu soltei um palavrão com a pergunta “o que aconteceu com você?” escondida em cada sílaba. Ele não me respondeu. Ele nunca mais iria responder nada.

De repente, eu estava na rua, fumando e indo até um pet shop aqui ao lado. Vocês podem retirar o corpo de um gato? Não? Eu não sei o que fazer. Vocês tem alguém para me indicar? Onde fica? Descendo a Lins? Certo. Obrigado. Não. Obrigado.

Fui para o outro lado do bairro. Ele ainda estava embaixo do carro, mas também dentro da minha cabeça.

Não era meu gato. Era apenas um gato que havia aparecido no telhado dois anos atrás, visivelmente com fome. Escrevi sobre ele. Passei semanas subindo no muro para dar comida para ele, até que ele se acostumou e – para alegria dos meus joelhos, que rosnavam sempre que eu descia do muro – criou coragem de entrar na garagem. E ele sempre voltava.

Não era meu gato. Provavelmente, não era de ninguém. Mas sabendo que precisava ser de alguém, recebeu o apelido óbvio de Coronel Telhada. Eu saía para fumar à noite e ele estava sentado na escada, esperando pela ração. Assim que eu aparecia, ele corria para a calçada e ficava me observando até eu trocar a ração. E ele sempre voltava.

Não era meu gato. Nunca sequer encostei nele – o mais perto que consegui chegar foram três metros, antes dele sair correndo, desconfiado. Mas nunca precisei encostar. Conversava com ele quando ele estava na escada, ou na laje acima da porta da sala, observando cada movimento que eu fazia no quintal. Fumava e conversava com ele. E ele sempre voltava.

Não era meu gato, mas era minha responsabilidade. Especialmente quando apareceu miando de fome. Especialmente agora quando parecia dormindo. E foi por isso que eu entrei em outro pet shop.

Vocês retiram corpo de um gato? Só se eu trouxer aqui? Olhe, era um gato de rua que eu cuidava. Eu tenho três outros gatos, eu não quero tocar no corpo dele porque eu não sei do que ele morreu. E, assim, por mais que ele não fosse meu... Bom, eu e minha Esposa nos apegamos a ponto de... Desculpe. Olhe, eu pago. De verdade, tudo o que eu quero é resolver isso da forma mais rápida e mais limpa possível. Eu pago.

Não cobraram nada, além da taxa da prefeitura, e voltei com a menina para casa. Ela com um saco vazio e eu com um saco de histórias sobre o gato. Como ele havia aparecido. Como ele se comportava. E, quando mencionei como ele me esperava na escada quase todas as noites, o pequeno nó que se formou na minha garganta apertou a frase “ele não era meu gato”.

Foi tudo rápido e limpo. Havia um pouco de sangue no quintal e mais um pouco embaixo da cabeça dele, mas eu não quis saber as alternativas do que pode ter acontecido. Algumas explicações podiam ser cruéis, outras podiam ser pacíficas, mas todas elas jogariam a frase “é minha responsabilidade” num bueiro.

E foi isso que eu pensei quando fiquei parado no portão, observando aquele saco preto que podia ter qualquer coisa dentro indo embora. E é isso que ainda penso que sempre que eu vou fumar e, olhando para o alto, percebo como meu telhado parece um pouco mais triste.

– O Telhada está morto embaixo do carro.

Existem frases que precisam de tempo. E algumas delas deixam claro que não há nada que você pode fazer, a não ser aceitar. Todas as vezes que olho para o alto e percebo o quanto meu telhado parece mais triste.

E percebo que preciso aceitar que o gato que nunca foi meu, mas que era meu amigo, desta vez, não irá voltar.

12 de novembro de 2016

That Special Place

Eu tenho uma facilidade muito grande de chorar em shows. Às vezes o choro vem em capítulos, como nas três vezes que chorei ao assistir a um show do Paul McCartney pela primeira vez; ou ele explode de uma vez e me faz soluçar, como quando o Iron Maiden tocou Wasted Years – já falei aqui neste blog que foi a primeira música deles que ouvi.

E, às vezes, ele é discreto e apenas deixa meus olhos molhados, como aconteceu quando o Guns N’ Roses entrou no palco ontem.

Não foi um momento fácil para mim. Guns N’ Roses foi a primeira banda que eu declarei ser minha, lá pelos idos de 1989 – eu ouvi Beatles antes de ouvir Guns, mas Beatles entrou no rol de “minhas bandas” somente anos depois. Sim, existiram muitas bandas que foram “minhas”.

E o Guns foi a primeira. Assistia ao Clip Trip esperando pelos clipes deles. Acompanhei todas as notícias possíveis sobre Use Your Illusion. Me lembro da fila quilométrica na porta da Woodstock no dia do lançamento, e eu gastei uma fortuna para voltar com os dois álbuns duplos para casa.

Por isso, quando a música começou, eu não olhava para o palco e enxergava três músicos que admiro, e sim três dos maiores heróis que tive na adolescência. Eu bato olho e reconheço as tatuagens, o modo de cada um deles andar pelo palco. Não são ídolos, são os amigos mais velhos que eu admirava. Isso não tem a ver com talento musical, com gênero, com qualidade das músicas. Isso tem a ver com paixão – e paixão, especialmente as adolescentes, não se explica. Elas se vivem.


E a minha paixão por Guns sempre orbitou ao redor de Sweet Child O’ Mine. Musicalmente, não é nem a canção deles que considero a melhor – fico sempre em dúvida entre Civil War e Estranged – mas é a minha preferida. Eu descobri Guns com o vídeo de Knocking on Heaven’s Door, mas a fagulha de verdade se acendeu com o vídeo de Sweet Child O’ Mine.

Tudo ali era perfeito na minha cabeça de catorze anos. A atitude. O som. A voz. O refrão. Tudo – isso inclui a forma que o Slash vira a guitarra no final do solo. Com 14 anos, aquilo não era algo que eu gostava, era algo que eu queria. Não algo que eu queria ter, mas sim algo que eu queria ser.

Por isso, todos os dias, ao voltar da escola, eu colocava o Appetite for Destruction para ouvir enquanto almoçava. Todos os dias. E me sentava à mesa ouvindo os primeiros acordes de My Michelle, porque era sempre o Lado B. Sim, o Lado A tinha Welcome to the Jungle, Mr. Brownstone, Paradise City – mas o Lado B tinha Sweet Child O’ Mine (meu cérebro ainda sabe que era a terceira música). E eu queria essa música antes de tudo.

E, quando ela começava, meu dia começava a fazer sentido.

Sim, quando você tem catorze anos, é fácil assim.

Como eu disse acima, eu tinha todos os motivos do mundo para chorar em Sweet Child O’Mine. Foi escrevendo esse texto que eu descobri porque algumas músicas me fazem chorar: não basta ela ter sido especial para mim; é importante que, em algum momento, eu tenha experimentado a certeza de que nunca a veria ao vivo.

Foi assim com Wasted Years, que o Iron havia deixado de lado nos setlists; foi assim com From Out of Nowhere, do Faith No More (a música abre o lado A do The Real Thing, o disco que substituiu o Appetite for Destruction como trilha sonora do meu almoço quando o Axl Rose já estava até rouco na minha cópia); pois a banda havia acabado. Foi assim com a primeira música dos Beatles que o Paul tocou no Brasil (All my Loving, a terceira do setlist), pois ele passou décadas sem vir ao Brasil.

Na minha vida, esses momentos não são musicais. Eles praticamente encerram ciclos. Como tratam-se de músicas que eu passei anos com a certeza de que nunca as veria ao vivo, ver isso acontecer é consumar uma paixão platônica de anos. É fazer o impossível.

Após ler esse texto, aposto que você tem certeza de que eu iria chorar quando Sweet Child O’Mine começasse a tocar no estádio. Até eu e quem me conhece tinha a certeza.

Mas eu não chorei. O nó na garganta apareceu, mas – e ainda não sei como isso aconteceu – ele se transformou no maior sorriso que eu dei em anos. Em alguns momentos antes do refrão, eu cheguei a rir baixinho, sem conseguir entender minha reação ou mesmo controlá-la.

Talvez meus 14 anos tenham assumido o controle. Talvez eu e meus 14 anos tenhamos nos abraçado. Não sei.

Mas eu sei que cantei a música aos berros – como fiz em 80% do show, e hoje estou completamente sem voz, coisa que não acontecia desde o show do Judas Priest em 2005. E, no final da música, abracei a Esposa e o Enteado e pulei cantando junto toda a parte final.

Agora eu sei que não estava cantando, mas sim conversando comigo mesmo. Eu havia acabado de consumar a maior paixão platônica da minha vida, então, abracei minha família e, junto com Axl Rose, perguntei “para onde nós vamos? para onde nós vamos agora?”.

Porque, eu realmente, não sei para onde ir depois desse momento.

Mas, se existe algo que eu aprendi nos quase trinta anos que eu vivi ouvindo música pelo menos uma vez por dia na minha vida, é que não importa onde eu for, mas sim essas músicas estarem ao meu lado e ao lado de quem amo.

Importa eu saber que o moleque que eu fui com 14 anos ficaria muito orgulhoso de mim por ter chorado em todos esses shows. Mas ele ficaria mais orgulhoso ainda do show que eu não chorei. Afinal, esse show foi a maior paixão platônica que ele teve.

E agora ela está consumada.

8 de setembro de 2016

Estas São as Viagens...

Eu não me lembro do primeiro episódio de Jornada nas Estrelas que assisti na vida.

A franquia completa 50 anos hoje. Mas a Série Clássica ainda devia ter menos de quinze anos quando eu caminhei pelos corredores da Enterprise pela primeira vez. Foi no final dos anos 70. Alguns anos depois, quando eu estava entrando na adolescência, esses passeios viraram paixão. Logo, essa paixão se transformou em amor.

Nas últimas décadas, eu voltei sempre para aquela Enterprise. Mas também conheci outras naves, outros tripulantes, outras civilizações.

Lutei ao lado de Kirk, debati com Picard, jantei com Sisko, explorei com Janeway, mapeei com Archer. Nas últimas décadas, a aventura humana aconteceu diante dos meus olhos. E dos olhos dos meus amigos que moram nas estrelas.

Já adulto, eu enxergo em Star Trek boa parte do que vivi.

Ainda menino, eu enxergo em Star Trek muito do que quero ser.

Como eu disse, eu não lembro qual foi o primeiro episódio de Jornada nas Estrelas que assisti na vida. Mas sei qual foi o último. E, na última cena desse episódio, a capitã Janeway, da USS Voyager, dá uma ordem:

– Trace um curso... Para casa.

Foi assim que, com uma única frase, ela resumiu tudo o que eu sinto quando me sento no sofá para assistir a um episódio de Jornada nas Estrelas. Faz décadas que o espaço é minha casa. Faz mais de trinta anos que Jornada nas Estrelas é meu lar.

Hoje, Jornada nas Estrelas completa cinquenta anos.

Hoje, eu decidi levar esse amor na pele.


24 de agosto de 2016

A Medalha de Ouro do Irmão Leão

Aconteceu quando eu estava na 2ª ou 3ª série – ou seja, na primeira metade dos anos 80.

Eu estudava num colégio tradicional aqui de São Paulo, daqueles com milhares de alunos e centenas de funcionários. E uma das figuras mais adoradas por todos – alunos, ex-alunos, pais de alunos, professores – era um irmão marista (sim, o colégio era marista) conhecido como Irmão Leão.

Na verdade, eu não sei direito nem qual era o cargo dele no colégio, mas não havia aluno que não o conhecesse. Era louco por esporte, e estava sempre apitando jogos de futebol entre os garotos. Um dos seus maiores prazeres era organizar os campeonatos entre classes, que eram disputados aos sábados.

Lembro bastante do seu rosto, mas essa é a única memória mais exata que tenho dele.

Para mim, ele era um gigante, mas sua altura podia ser bem menor. Afinal, ele era visto pelos olhos de um menino de oito ou nove anos que só não foi o menor aluno da classe em uma ocasião – fiquei surpreso ao descobrir que existia um garoto da minha idade menor que eu no colégio (seu nome era Márcio, um japonês minúsculo; estudamos juntos na quarta série e fomos muito amigos naquele ano).

Mas o Irmão Leão era um gigante moral. Sempre que algum aluno passava por ele no corredor, fazia questão de cumprimentá-lo. E bastava ele colocar os pés em uma das salas de aula para que todos os alunos ficassem em silêncio. Isso acontecia também quando os diretores entravam nas salas, claro, mas com o Irmão Leão era diferente. O silêncio na presença dos diretores era por medo. No caso do Irmão Leão, era respeito.

E o Irmão Leão estava sempre nas salas, porque ele tinha outro grande prazer: tomar tabuada das crianças. Ele entrava nas turmas do primário e fazia uma competição ente os alunos. Competição mesmo, com medalha e tudo mais.

Então você ia até a frente da sala e tinha que responder coisas como 9 x 4, 6 x 8 e coisas do gênero, ali, sem parar para pensar. Hoje parece fácil; na época, não era. Acho que os campeonatos de tabuada do Irmão Leão foram o primeiro trabalho com prazo apertado que eu tive na vida.

Mas eu me dava bem. Eu era um excelente aluno. Excelente mesmo, e sempre fui um dos melhores da sala, até o colegial. Aí eu descobri que minhas responsabilidades escolares podiam tanto ser diluídas no álcool do boteco atrás da escola, como virar fumaça junto com os cigarros que eu fumava na porta da escola.

E assim, lá estava eu, com oito ou nove anos, em pé na frente de toda a sala e encarando o Irmão Leão nos olhos.

Ele jogou umas oito ou dez contas para mim, mas eu dei uma pequena amarelada em algum momento– deve ter sido na tabuada do 7, que eu sempre achei uma das mais difíceis (eu e o 7 x 8 vivemos um clima de guerra fria durante boa parte da minha infância).

Enfim, não consegui a medalha de ouro. E eu queria. Eu queria voltar para casa com aquilo no peito e mostrar para os meus pais.

Mas agora eu preciso ser sincero: eu não me recordo se ganhei a medalha de prata ou a de bronze. Algo me diz que foi prata, mas em alguns momentos tenho certeza que foi a de bronze. Como estamos em um desses momentos, vamos assumir aqui que foi bronze e continuar a história.

A entrega das medalhas acontecia depois de alguns dias. Durante esse tempo, o Irmão Leão terminava de percorrer as outras salas desafiando as crianças com contas de multiplicação. Depois, ele publicava um papel com os premiados de cada turma em todas as salas de aula e, finalmente, entregava as medalhas.

E assim, um dia, ele voltou a passar na sala. Colocou o papel com os premiados numa parede e fez questão de ler em voz alta os alunos daquela classe que seriam premiados (eram uns três ou quatro nomes para cada medalha). E eu ali, ansioso, esperando pelo meu nome na medalha de bronze.

Mas ele não veio.

Quando ele terminou de ler os premiados com bronze e eu não ouvi o meu nome, minha barriga congelou. Onde estava minha medalha? Mas fiquei quieto – e, claro, com a sensação idiota de que a classe inteira estava olhando para mim. Aí ele leu os medalhistas de prata.

– Fulano. Rob Gordon. Beltrano.

Não é demais lembrar que caso eu tivesse ganhado a medalha de prata e minha memória está me enganando, meu nome foi citado no ouro. De qualquer forma, alguma coisa havia acontecido e eu havia subido um degrau no pódio. E isso só tinha duas explicações: ou algum aluno com marca melhor que a minha havia sido desclassificado por doping, ou o Irmão Leão havia cometido algum erro.

Mas eu não iria falar isso. Não ali, na frente da classe. Afinal, eu tinha menos de dez anos, e jamais iria a) chamar a atenção para mim na frente da sala (apesar de que eu fazia isso com piadas a aula inteira); e muito menos b) levantar e dizer que o Irmão Leão estava errado, algo que nunca devia ter acontecido na história da escola.

Durante alguns segundos, enquanto o Irmão Leão saía da sala, eu pensei em deixar aquilo tudo morrer. Seria mais fácil assim. Eu não me meteria em problemas. Não arrumaria confusão. E ainda voltaria com uma medalha melhor para casa. Do alto dos meus oito ou nove anos de idade, eu só via vantagens nisso.

E ainda estava com todas essas vantagens dançando na minha cabeça quando me levantei e fui até a professora. Falando baixinho, pedi permissão para sair da sala porque eu precisava falar com o Irmão Leão. Ela autorizou e eu fui atrás dele.

Lembro claramente da imagem dele andando pelo corredor, de costas para mim, alguns metros na minha frente (é meio assustador pensar que isso aconteceu há mais de trinta anos). Eu corri.

– Irmão Leão!

Ele parou e se virou na minha direção. Ficou me observando enquanto eu me aproximava dele. Talvez ele não tenha percebido, mas eu não sabia o que fazer. Quer dizer, eu sabia o que fazer, mas não sabia como fazer. Então, despejei logo de uma vez:

– A minha medalha está errada.

– Está?

– Sim. Você leu meu nome na medalha de prata. E eu ganhei bronze.

– Tem certeza?

Quando você é criança, a pergunta “tem certeza?” é algo que você normalmente escuta quando está errado. Mas eu estava certo.

– Sim. Eu ganhei bronze. Eu demorei na hora de responder (insira aqui qualquer conta da tabuada do 7) e (insira aqui outra conta da tabuada do 7).

O Irmão Leão ficou em silêncio, como se estivesse puxando meu desempenho pela memória. Não falou nada por alguns instantes, até me dizer que:

– Você tem razão. Eu me lembro. Você ganhou a medalha de bronze.

Eu não respondi nada, mas ele me deu um sorriso que eu não entendi na hora.

– Você não quer a medalha de prata?

Eu queria. Claro que eu queria. Queria ganhar aquela medalha na frente de toda a sala. Mas eu sabia que não podia voltar para casa com uma medalha que não era minha. Isso seria pior que não voltar com medalha nenhuma.

– Quero. Mas eu não ganhei prata. Eu ganhei bronze. Eu quero a de bronze.

Foi quando ele fez algo que me fez entender o sorriso que havia dado. Algo que, ali naquele momento, confuso e com um pouco de medo, eu tive certeza de que nunca mais esqueceria. Ele se ajoelhou e colocou seu rosto na altura do meu.

– Então você vai ganhar sua medalha de bronze. Mas eu quero que você saiba que isso que você fez hoje merecia uma medalha de ouro. Isso que você fez hoje é mais importante que qualquer tabuada. Nunca se esqueça disso.

Eu obedeci, porque todo mundo obedecia ao Irmão Leão. Eu nunca me esqueci.

E levei isso comigo a vida inteira.

Um ou dois anos depois, o Irmão Leão morreu. Morreu numa manhã qualquer e no meio do campo do futebol apitando um jogo de futebol, que era o que ele mais gostava de fazer na vida. Acho que foi parada cardíaca. Meu irmão, na época, estudava numa sala que ficava em frente ao campo – que hoje, se não me engano, é uma quadra e tem o nome dele – e viu tudo acontecer. Eu estudava à tarde e não tive aula naquele dia.

Acho que todo mundo que andou por aqueles corredores naquela época, tem alguma história com o Irmão Leão. Essa é a minha.

E eu carrego no meu peito até hoje a medalha de ouro que ele disse que eu merecia. E passei a vida inteira tentando conquistá-la. Faço isso ainda hoje.

Já ganhei essa medalha diversas vezes, e perdi em outras tantas. Ela é difícil demais de ser conquistada. Muitas vezes eu não fui bom o suficiente, em outras eu simplesmente desisti da medalha porque era mais fácil, por medo, comodismo ou qualquer outro motivo. Mas encontro um pouco de conforto sabendo que mais importante que ter perdido a medalha é o fato de que eu não me orgulho disso.

Mas eu ganhei várias vezes. No trabalho. Em relacionamentos. Na vida. E isso não me torna melhor que os outros. Essas medalhas me tornam apenas... Melhor. Cada vez que, eu recebo a medalha de ouro do Irmão Leão, dentro da minha cabeça, eu me transformo numa pessoa melhor. E isso basta.

Hoje eu sei que a medalha de ouro do Irmão Leão não é uma meta e sim um caminho. Por que existem competições onde a disputa é com você mesmo. E, muitas vezes, você é o maior adversário que você terá pela frente. Mas, de vez em quando, o Irmão Leão aparece e coloca uma medalha de ouro no meu peito, dizendo que eu estou no caminho certo.

E eu sorrio. Como qualquer pessoa que já perdeu essa medalha várias vezes, eu sei o quanto é difícil andar pelo caminho certo. E que cada passo nesse caminho vale muito.

Como ele disse, vale mais que qualquer tabuada.


(Esse post é dedicado aos donos da empresa onde trabalhei durante quase dez anos, e que colocam todos seus bens nos nomes de outras pessoas para não me pagarem, na justiça, apenas e nada mais do que me devem. Mas a vida é assim: cada um com a sua medalha).

27 de abril de 2016

O Menino de Nove Anos e o País que Iria Dar Certo

Um dia, Chico Buarque apoiou um candidato do PDMB chamado Fernando Henrique Cardoso.

Isso aconteceu nas eleições para prefeito de São Paulo em 1985. É a famosa eleição que Fernando Henrique, líder nas pesquisas, posou na cadeira do prefeito antes da votação e acabou perdendo por pouco mais de cem mil votos – Jânio, o vencedor, talvez a pessoa mais pitoresca da política nacional, fez questão de dedetizar a cadeira (publicamente) antes de ocupá-la.



Esse talvez não tenha sido o primeiro jingle político que conheci, mas é o mais antigo que me lembro. Eu completei dez anos durante a campanha (sou de setembro) e me lembro de assistir o horário político junto com meus pais.

Mas esse não foi meu primeiro contato com política. Entre 1980 e 1982, eu morei em Manaus, e me lembro de assistir a campanha política das eleições de 1982. Ainda vivíamos numa ditadura e os candidatos não podiam falar na TV – era apenas uma foto do sujeito e uma narração em off contando quem ele era e o que tinha feito. Lembro que eu e meu irmão não perdíamos aquilo por nada, e ficávamos escolhendo quais fotos eram as mais bizarras.

Em 1985, já morando em São Paulo de novo, lembro que fomos um dia até a Avenida 23 de maio (é do lado da casa dos meus pais). Ela estava fechada e esperamos algum tempo no canteiro central, enquanto as pessoas ali iam crescendo até se tornarem uma multidão. O dia já seria inesquecível para mim simplesmente por estar no canteiro central da Avenida 23 de Maio (na minha cabeça, eu e a multidão ao meu lado éramos as primeiras pessoas a colocar o pé naquela terra cercada de carros em alta velocidade por todos os lados).

Mas eu mal me lembro disso (na verdade, essa memória surgiu agora enquanto eu escrevia esse texto). O que eu lembro mesmo é o carro de bombeiros e o caixão coberto com uma bandeira do Brasil. Eu não sabia direito o que era um presidente – provavelmente, eu enxergava esse cargo como “alguém que manda em todo mundo” – mas eu sabia que dentro daquele caixão tinha um presidente.

E um presidente que, aparentemente, as pessoas gostavam.  Quando o carro de bombeiros passou, vi muitas pessoas chorando. Diferente de hoje, choravam sem se preocupar com o filtro da foto. Apenas choravam. Algumas pareciam ter perdido um ente querido.

Eu chorei também. Chorei porque todos estavam chorando, e chorei porque eu já tinha ouvido, nas últimas semanas, que aquele homem que estava dentro do caixão ia fazer o Brasil crescer. Eu não sabia direito o que era “fazer o Brasil crescer”, então meu cérebro de nove anos criou uma imagem para traduzir isso: um homem trabalhando no campo, com uma enxada na mão e sorrindo.

Era como se fosse um desenho, com um traço bem parecido com o das histórias do Mauricio de Sousa. Até hoje eu não sei o motivo desse meu brasileiro imaginário usar uma roupa de operário já que ele trabalhava no campo, mas eu sei por que eu o imaginei sorrindo enquanto trabalhava.

Ele sorria porque estava feliz, e estava feliz porque o Brasil estava crescendo.

Sim, quando você é criança, é fácil assim.

Depois que o carro de bombeiros passou, a multidão se dispersou. Fomos embora. Eu estava de mãos dadas com a minha mãe, e vi que com a outra mão ela limpava as lágrimas dos olhos. Eu sabia que eu e minha mãe estávamos chorando por motivos diferentes. E por mais que eu não entendesse o motivo dela, eu percebi naquela hora que era certo chorar por aquele presidente dentro do caixão.

Meses depois, começou a campanha política para prefeito. E eu me encantei por esse vídeo do Chico Buarque na campanha do Fernando Henrique, por vários motivos. Primeiro, era o mesmo cantor que eu via nas fitas K7 do meu pai (Construção e aquele outro disco que não lembro o nome agora e que abre, se não me engano, com Feijoada Completa).

Aprendi a gostar de Chico Buarque com meu pai, porque eu tive a sorte de ter um pai que não gosta de Chico Buarque, mas sim um pai que gosta de Chico Buarque e explicava o significado das letras para o filho de nove anos.

Além disso, o Fernando Henrique – veja bem, não era Fernando Henrique Cardoso, nem FHC; era apenas “Fernando Henrique” – era um cara que parecia muito mais com meu pai ou com os pais dos meus amigos que com um politico.

Os políticos para mim eram velhos que usavam terno e gravata e tinham nomes difíceis como Ulysses e Aureliano, enquanto o Fernando Henrique era um cara com um nome normal, que não estava de terno falando coisas que eu não entendia, e sim de calça e camisa sambando com o Chico Buarque no meio da rua, cercado de pessoas felizes. Sobre a música, eu nem preciso comentar nada (a não ser que assistindo agora, depois de trinta anos, entendi a referência genial ao Jânio no verso “a renúncia de um fujão”).

Eu tinha nove anos. Era uma criança.

E, como eu disse, quando você é criança, é fácil assim.

Mas esse texto não é sobre o Fernando Henrique, nem sobre o Chico, nem sobre o Jânio. Esse texto é sobre 1985, o ano em que eu chorei, sem saber direito o motivo, por causa de um político; e sorri, sem saber direito o motivo, por causa de outro político. Talvez o Brasil ainda fosse para frente mesmo sem aquele presidente que passou na minha frente num carro de bombeiros.

Hoje eu sei que eu não acreditava que o Brasil fosse crescer por causa da música do Chico, por Fernando Henrique estar sem gravata ou por todos estarem dançando. Eu acreditava nisso porque eu via claramente que meus pais acreditavam nisso.

Eu via isso nos rostos dos dois. E quando você tem nove anos, se os seus pais acreditam em algo, você acredita. Porque, quando você é criança, é fácil assim.

Aliás, não eram só eles. Os pais dos meus amigos, meus professores na escola... Depois de duas décadas de silêncio (que eu ainda não sabia que haviam existido) todo mundo estava pronto para ver e fazer o Brasil crescer. Algo tinha mudado. Eu não fazia ideia do que isso poderia ser, mas sentia isso o tempo inteiro. Estava na cara dos meus pais, nas conversas dos adultos, no jornal que passava na TV.

Independente do que poderia acontecer, a certeza de que iria dar certo estava no ar. Tudo iria dar certo para meus pais, para meus professores, para as pessoas que eu via na rua, para o taxista que uma vez levou minha mãe a algum lugar e, conversando com ela, chamava aquele presidente no caixão de “Tranquedo”, para o meu brasileiro imaginário com roupa de operário que trabalhava no campo. Essa sensação estava nos olhos de cada um deles, na tom de voz, no sorriso.

Isso não quer dizer que as pessoas tinham a mesma opinião. Muitos discordavam do caminho a ser seguido. Mas todos concordavam sobre qual devia ser o objetivo. Talvez por isso a discordância fosse apenas isso: uma discordância. Não se terminava uma amizade por causa disso. Não se agredia ninguém por gostar de outro partido. Não se ofendiam, nem se batiam. Era um país onde ninguém cuspia e tudo o que se odiava era o passado. Era um país diferente.

Talvez todos fôssemos crianças de nove anos, e não apenas eu.

E, quando você é criança, é fácil assim.

Naquela época, pelo menos, parecia ser.

21 de janeiro de 2016

O Dia em que a Inspiração Apareceu




A mulher apareceu no sofá de repente e sem aviso. Ninguém reparou na sua presença, pois a única pessoa na sala estava de costas para ela.

Em agosto eu escrevi essas duas frases no Word. Era um dia em que eu estava sem muito para fazer e, como às vezes acontece em momentos assim, a ideia para uma crônica simplesmente caiu no meu colo e eu vim para o PC escrever.

Mas, quando eu estava na metade da segunda página, comecei a perceber que aquilo poderia virar algo ainda maior. Duas páginas depois, eu voltei para o começo e transformei essas duas frases acima em um capítulo – sim, um capítulo de duas frases – e continuei escrevendo. Creio que no dia seguinte eu tinha a primeira versão. Mandei para algumas pessoas e recebi ótimos comentários.

E decidi guardar a história junto com os comentários.

Escrevi outras coisas. Posts, contos. E foi só em novembro que peguei aquela mulher que apareceu no sofá de repente e sem amigo e mergulhei numa espécie de maratona. Aumenta aqui. Revisa. Corta ali. Revisa. Reescreve lá. Revisa. Vai dormir que são duas da manhã e amanhã você ajusta aquele diálogo acolá.

Outras pessoas leram. Respostas ainda mais positivas. E quando recebi a capa, vi que era hora de dar um passo inédito, algo que eu há tempos queria fazer, mas ainda não havia rolado.

E assim, O Dia em que a Inspiração Chegou se tornou meu primeiro conto publicado na Amazon. É uma história de fantasia – ou melhor, uma fantasia urbana, como a Amazon gentilmente me sugeriu – mas é um declaração de amor ao ato de escrever, que hoje é mais que uma carreira e se tornou praticamente minha identidade.

Mas também é uma declaração de amor à leitura, e, principalmente, às histórias. Sim, é uma história sobre histórias. E, no momento em que escrevo esse post, posso garantir que esse conto é um dos pedaços mais importantes da minha história.

Então, eu convido você para saber mais sobre o que estou falando. Clique aqui para comprar – fiz questão de colocar pelo menor preço possível, justamente para que você possa descobrir essa história. E se gostar, recomende aos amigos, deixe sua resenha na Amazon (ou em seu site, caso você escreve sobre isso), divulgue nas redes sociais. Faça essa história crescer. Sim, estou pedindo isso em meu nome, para você que acompanha meu trabalho e gosta do que escrevo.

Mas também estou pedindo isso em nome da história.

Afinal, nada é mais gostoso que ver seu filho dando os primeiros passos na rua. Ainda mais um filho do qual você se orgulha tanto.

10 de setembro de 2015

ENTA


So understand
Don't waste your time always searching for those wasted years,
Face up, make your stand,
And realize you're living in the golden years.


Vinte e seis anos atrás eu ouvi essa música pela primeira vez. Mas eu não me lembro de ter prestado atenção na letra. Afinal, eu tinha catorze anos, e entender melhor as letras de músicas era algo que podia esperar. Pois, quando se é jovem, você tem todo o tempo do mundo.

Parece que foi ontem. As pessoas dizem que o problema do tempo é que ele passa devagar quando devia passar rápido, e passa rápido quando devia passar devagar. Mas esse não é o problema do tempo. O problema, mesmo, é que ele voa quando a gente não está olhando.

E a gente quase nunca está olhando.

Um dia, eu tive catorze anos. Hoje, completo quarenta. E não tenho mais todo o tempo do mundo.

Mas se tem algo que eu aprendi em algum momento desses vinte e seis anos é que não adianta procurar pelos anos que se foram. O segredo é saber que estou vivendo meus anos de ouro.


Sendo assim... Que venham mais quarenta.

Estou pronto.

15 de maio de 2015

The Thrill is Gone

Eu lembro quando descobri o blues.

Era pré-adolescente e como muita gente da minha idade, meu primeiro contato com o blues foi assistindo a Os Irmãos Cara-de-Pau. Lembro até hoje de assistir ao filme com meu irmão e, ao vermos um velho tocando na rua numa cena rápida, ele comentou “esse cara deve ser um monstro do blues e a gente não sabe”. Era verdade. Eu não fazia ideia de quem era aquele velho. Mas sabia que eu nunca tinha visto tanto carisma em uma pessoa (a cena, estendida, está aqui).

Mas se eu descobri o blues cedo demais, só fui me apaixonar por ele tarde demais, por volta dos vinte e cinco anos. Até então eu escutava e apenas gostava. Sentia-me atraído por aquele som doce e simples, com letras poderosas.  Mas nunca tinha me aprofundado de verdade naquele mundo.

Até eu me apaixonar por blues.

Foi no dia que a música “How Blue Can You Get?” cruzou meu caminho. Como qualquer pessoa, eu já conhecia BB King, mas nunca tinha escutado aquela canção. Sua letra é universal e conta como um homem não sente nada além de tristeza por causa da uma mulher ingrata e egoísta, tudo isso contrastando com uma guitarra doce e melódica que transformava aquela tristeza em esperança do dia seguinte ser melhor.

Porque o blues não é apenas sobre tristeza.

O blues é, na verdade, sobre a esperança de que amanhã será melhor.

Minha vida mudou. Eu não me senti tragado para dentro da música, mas sim para dentro de algo maior. Naquele dia, eu não me apaixonei por uma música ou por um disco, mas sim por um mundo completamente diferente daquele que eu encontrava em outras músicas.


Comecei a ouvir – e ler sobre – blues o dia inteiro. Fui atrás dos grandes nomes do passado e comecei a conhecer melhor aquele mundo, povoado por pessoas comuns que viviam em lugares reais e experimentavam problemas que todos nós temos. Um mundo amargo e alegre, solitário e erótico, violento e adocicado. Tudo ao mesmo tempo. Um mundo onde a dor não é grandiosa, mas ela é tudo que existe. E a única maneira de lidar com ela é com a música, que entrega uma espécie de redenção (eu tentei descrever como me sinto ouvindo blues aqui).

Um mundo que não foi feito para ser compreendido, mas sim experimentado.

E, em algum momento, eu descobri que não me apaixonei pelo blues tarde demais. O blues me ajudou a sair de uma depressão. O blues me ajudou a fazer a transição do jovem para o adulto. Não, eu não me apaixonei pelo blues tarde demais.

Eu me apaixonei pelo blues na hora certa.

Mais ou menos quinze anos se passaram desde que dei meus primeiros passos nesse mundo. E hoje não consigo me imaginar fora dele. Tenho o blues tatuado no braço porque eu preciso levar esse mundo comigo para onde vou. Escrevo uma história em quadrinhos em que o blues é um dos elementos mais importantes no roteiro porque, como qualquer pessoa que habita esse mundo, me sinto na obrigação de mantê-lo vivo e contar sua história.

Pois sua história faz parte da minha história.

E sempre que eu olhava para trás na minha história, pensando sobre a importância que esse mundo tem na minha vida, enxergava BB King no começo de tudo. Ele não era meu bluesman preferido, mas estava além. Ele era meu marco zero.

Eu tive muita sorte. Para entrar nesse mundo habitado por pessoas comuns, foi preciso que um rei aparecesse com sua guitarra no ombro, me pegasse pela gola da camiseta e me desafiasse:

– How blue can you get, boy?

Eu estou até hoje tentando responder essa pergunta. Por isso, às vezes, eu voltava para o portão desse mundo e mergulhava em BB King.

Passava o dia ouvindo a voz e a guitarra melódica daquele rei que um dia, desceu de seu trono e convidou um garoto para fazer parte do seu reino. E sempre começando por aquela música sobre aquela mulher ingrata – que, hoje eu sei, mudou minha vida. E, a cada vez que eu ouvia aquela música, sentia uma espécie de arrepio pensando em como o blues faz de mim o que sou hoje.

E hoje o rei está morto.

Dizem que reis não morrem de verdade. Assim, acredito que ele permanecerá vivo em estradas lamacentas, espeluncas lotadas, campos de algodão e quartos abafados, contando histórias de paixões que esfriaram, de empregos ingratos, de mulheres egoístas, de amores impossíveis.

E a tristeza pela sua morte será diminuída – mas jamais esquecida – no momento que alguém, em algum lugar do mundo, empunhar um violão e cantar seu nome ao lado de uma dose de uísque.  Afinal, eu disse acima que o blues não é sobre tristeza e sim sobre a esperança de que amanhã será melhor. Isso é algo que eu aprendi com aquele rei.

Porém, nem todo o uísque do mundo mudará o fato de que ele está morto. Pois o rei também foi o primeiro a me falar que o blues sempre foi sobre verdades. E a verdade é que o rei está morto.

Hoje, a pergunta “how blue can you get?” não me traz arrepios, apenas tristeza. Mas o rei já havia previsto isso. Com seu ar de “as coisas são assim mesmo”, ao cantar que the thrill is gone, the thrill is gone away, ensinou que nada é para sempre, nem mesmo aquilo que a gente acredita que é para sempre.

O rei ensinou muitas coisas. Essa foi sua última lição, pois hoje o rei está morto.

Longa vida ao rei.


27 de fevereiro de 2015

A Alma Mais Humana



Spock!

Eu não lembro a primeira vez que assisti Jornada nas Estrelas. Mas, por outro lado, eu não consigo imaginar a minha vida sem Jornada nas Estrelas. Quando eu era criança, meus heróis eram outros. Quando eu era criança, eu queria ser Luke Skywalker. Queria ser Han Solo. Queria ser Indiana Jones. Mas Jornada nas Estrelas já estava na minha vida desde essa época.

A paixão pela série é uma herança dos meus pais, que adoravam. Herança do meu irmão, cuja paixão pela ciência – hoje ele é físico – nasceu junto com as aventuras de uma espaçonave que explorava a galáxia, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve. De lá para cá, muitas outras espaçonaves surgiram na minha vida. Mas a Enterprise continua sendo meu lar.

Não sofra, Almirante.

Nunca deixei de admirar meus heróis de infância, e até ganhei heróis novos. Mas, conforme eu cresci, parei de sonhar em me transformar nos meus heróis. Comecei a perceber que eles viveram suas aventuras da mesma forma que eu estava vivendo a minha. A minha vida, como a de todos nós – e até mesmo a dos meus heróis – era uma enorme aventura. Talvez tudo o que a gente precise fazer, em alguns momentos, é imaginar que um garoto está assistindo nossa vida. Com isso, nossa aventura ganha cores. Com isso, sabemos que é preciso fazer o possível para nos tornarmos o herói desse garoto.

Entretanto eu não deixei de querer ser um herói por me tornar adulto, mas sim por me transformar em outro tipo de garoto. Mais crescido, mais responsável, mais maduro, mas ainda assim um garoto. Com algumas cicatrizes aqui e outras ali, com erros que fazem o que sou e – mais importante de tudo – sabendo qual o meu lugar no universo.

Eu nunca havia feito o teste do Kobayashi Maru até agora.

Quando eu era criança, eu queria me transformar em meus heróis. Adulto, eu não quero mais ser um herói do cinema ou da televisão. Mas, muitas vezes, assistindo a um episódio de Jornada nas Estrelas, eu pensava “isso é o que eu preciso ser”, ao ver o Capitão Kirk.  É outro tipo de heroísmo, que vai além de murros no queixo. É um heroísmo que envolve tomar decisões imediatamente, saber quando é melhor arriscar e quando optar pelo caminho mais seguro – e, mais importante, colocando o bem estar dos outros acima do seu. As necessidades da maioria (normalmente) têm mais peso que as da minoria. Ou que as necessidades de um.

Kirk não é herói pela sua coragem ou ousadia; Kirk é herói por carregar não fugir da responsabilidade de ter centenas de outras vidas dependendo de cada passo seu. “Quanto mais eu dou, mais ela toma; quanto mais eu dou, mais ela toma”, Kirk lamentou quase enlouquecido em um episódio da série. Ele estava falando da sua responsabilidade com a Enterprise. Quem nunca sentiu o mesmo sobre a vida?

O que você achou da minha solução?

Mas Kirk sempre prevaleceu. Sim, isso se deve a sua coragem, inteligência e ousadia. Pela capacidade de quebrar regras para um bem maior. Mas Kirk sempre prevaleceu por ter as pessoas certas ao seu lado. Especialmente o seu oficial de ciências meio vulcano, cujo intelecto e capacidade de raciocínio lógico eram menores apenas que sua lealdade ao capitão. Ao amigo. Uma lealdade que ele mesmo classificaria como lógica, mas que não era. Muito menos extraterrestre. Era uma lealdade humana. Afinal, como Kirk disse no funeral de Spock... “De todas as almas que encontrei em minhas viagens, a dele era a mais humana”. Era verdade. Nós não víamos isso quando víamos a série na TV entre e aula e a lição de casa, mas entendemos isso anos depois, mais adultos.

Eu não quis ser Kirk desde que nasci. Mas passei a vida inteira procurando ter Spocks ao meu lado. E passei a vida inteira procurando ser o Spock de todos os meus amigos. Provavelmente não consegui fazer isso sempre. Afinal, Spock só existe um. Mas, como Kirk, eu nunca desisti de tentar. Como McCoy, fiz questão de não ficar azedo com meus fracassos. Afinal, eu era humano.

Eu sempre fui...

Tive bons amigos. Muitos deles eram Spocks. Tive alguns McCoys também. Alguns estão na mesma nave que eu até hoje. Outros estão em outras missões, outras viagens. Mas eu sempre soube que é preciso ter um Spock ao lado. Alguém que se oferece para ir com você, e você responde “fique na nave, porque se algo der errado, é com você que eu conto para me tirar de lá”.

A Série Clássica de Jornada nas Estrelas é uma série sobre ficção científica, mas seus filmes para cinema (em especial a partir do segundo) são todos sobre amizade e passagem do tempo. Pois é preciso que o tempo passe para que você compreenda que sua viagem será curta e sem graça sem um amigo. É preciso que o tempo passe para que você compreenda que, para ser Kirk, é preciso ter Spock e McCoy ao seu lado. Afinal, como o próprio Kirk disse em Jornada nas Estrelas V, “eu sabia que não ia morrer porque vocês estavam comigo; e eu sempre soube que vou morrer quando estiver sozinho”. E hoje Kirk está sozinho. Magro morreu mais de dez anos atrás. Hoje morreu Leonard Nimoy.

...E sempre serei seu amigo.

Os sites dizem que era um ídolo de milhões de pessoas. Eu nunca o vi assim. Para mim, ele sempre foi um velho amigo. Isso aconteceu quando o vi pessoalmente, quando esteve no Brasil. Foi um dos poucos atores que vi de perto que fez minhas pernas tremerem. Dias depois da coletiva, novo encontro, um rápido aperto de mãos e um cumprimento. Minutos antes, eu estava quebrando o pau com uma assessora de imprensa totalmente débil-mental numa sala lotada – uma das únicas duas vezes que levantei a voz com uma assessora, a outra vez, ano depois, seria novamente com ela – e quase não consegui tirar uma foto com ele.


 Acabei tirando a foto junto com outra pessoa com quem nem tinha contato - e que por isso está fora da foto acima, já que ela não cabe aqui - mas hoje sei que era isso ou nada. No momento, eu queria ter falado sobre tudo o quanto ele era importante para mim e agradecido por tudo que aprendi com ele, mas não tive chance. Mas não era preciso. Afinal, ele era meu amigo de infância. Era meu velho amigo. E velhos amigos sempre sabem disso. E agora, em homenagem ao meu amigo, tudo o que preciso saber é que “ele nunca estará realmente morto enquanto nos lembrarmos dele”.

Vida longa e próspera.