Entreguei meus exames ao médico.
Como todo médico, ele fez aquela cara que não deixa transparecer nada. Fiquei observando o rosto dele, na esperança de ver algum indício do que iria acontecer em seguida, mas nada. Pelo olhar dele, eu poderia ter a saúde do Super-Homem depois de um banho de Sol, ou estar no estágio terminal de uma doença raríssima. Aposto que na faculdade de medicina deve existir uma matéria “Expressão Neutra”, com possibilidade de especialização em “Expressão Neutra ao Analisar Exames”.
E ele foi passando pelos exames, com aquela expressão de jogador profissional de pôquer. E eu, ansioso, resolvi pagar para ver logo de uma vez.
Minha ansiedade era justificada: este era meu primeiro check-up completo. Minha vida estava toda em cima da mesa. E, dada a minha rotina (eu só não tomo café da manhã em churrascarias porque elas não estão abertas; 70% do corpo das outras pessoas são formados por água, mas o meu é formado de Coca; fumo; durmo no máximo seis horas por noite), minha vida não devia valer muito.
– Está tudo bem?, perguntei, me segurando para não perguntar logo “eu não vou morrer, né?”.
– Até agora seus exames estão normais...
Antes que eu pudesse pegar um dos raios X da mão dele e dar a volta olímpica ao redor da mesa, ele continuou:
– ... Mas agora vamos ver o de sangue.
Gelei. Eu sabia que o meu exame de sangue, naquela situação, corresponderia à matemática ou química no meu colegial. Eu iria bombar, com certeza. Ao menos, diferente do colegial, desta vez minha mãe não estava na sala.
Ele foi descendo os olhos pelo papel. Num determinado momento, ergueu os olhos e me encarou por alguns segundos. Provavelmente, ele havia olhado o valor do meu triglicéris e achou melhor checar visualmente se eu estava vivo.
Abaixou os olhos e observou o exame novamente. Numa fração de segundos, olhou assustado para mim, por alguns instantes. Provavelmente, agora ele havia lido o valor do meu colesterol e achou melhor checar visualmente se eu era realmente humano.
– O colesterol e o triglicéris estão um pouco altos.
“Um pouco altos” foi gentileza dele. Eu havia visto os valores antes de ir ao médico. Se eu pudesse dar o meu colesterol como entrada num imóvel, eu compraria um apartamento de quatro quartos nos Jardins.
– Vamos ter que entrar com medicação.
Assim, ele me receitou um remédio caríssimo, que ao menos serve tanto para o colesterol quanto para o triglicéris. Peguei a receita, agradeci e tentei sair apressado da sala. Ele segurou meu braço e olhou atentamente para mim:
– E com dieta.
Ai.
Pensei em convidá-lo para discutirmos o assunto da dieta numa churrascaria que existe ali perto, comendo costela, mas algo me disse que ele não iria aceitar. Assim, me sentei novamente.
Ele abriu uma gaveta e pegou dois ou três papéis, com indicações do que eu posso comer. Lá, os alimentos ficam em categorias: “Recomendado”, “Com Moderação” e “Evite”. Passei os olhos pelo “Recomendado” e me senti como um escoteiro caminhando por uma floresta. Era só mato.
Deixei o “Com Moderação” de lado e fui direto para o “Evite”. Fraldinha. Picanha. Costela. Cupim. Refrigerante. Aquilo não era uma lista de alimentos, era minha biografia. Mas estava faltando algo. Um fio de esperança se acendeu. Passei os olhos novamente e não encontrei. Eu havia encontrado uma brecha na lei! Sem conseguir disfarçar o sorriso e o ar de triunfo, disse:
– Bem, eu vou seguir a dieta à risca. Mesmo porque o bacon não está no “Evite”.
– Olhe na margem direita do papel.
Ao lado do “Evite”, havia uma quarta categoria, escrita à caneta mesmo. O nome da categoria era “Comeu, Morreu” e tinha apenas um item: a merda do bacon.
Dei de ombros, admitindo a derrota. Assim, saí de lá e me preparei para uma nova vida. Manja aqueles filmes sobre a máfia nos quais, a pessoa, antes de ser presa, faz uma festa de despedida? Foi a mesma coisa. Na mesma noite, me encontrei com a @gabibianco e o @ericfranco no Galinheiro e enfiei o pé na jaca (e ai do médico se ele reclamasse, porque jaca é fruta e, de acordo com meu papelzinho, fruta pode). Passei o final de semana com a Sra. Gordon, comendo todos os tipos possíveis e imagináveis de porcarias.
Mas chegou o dia de me apresentar à lei.
Assim, ontem passei no mercado. A mulher do caixa, ao ver minhas compras, deve ter se assustado. Talvez ela até tenha pensado que eu estava sendo sequestrado, e escolhi aquelas mercadorias para dar algum tipo de sinal.
Ainda bem que ela não perguntou "o senhor não vai levar linguiça ou espetinhos hoje?", porque eu iria agredi-la com um soco. Mas não, eu não iria levar linguiça ou espetinhos. Isso porque segue o Top 5 Minha Lista de Compras:
1. Alface - a única coisa boa da dieta é que vinagre está no “Recomendado”. Se você é novo aqui, saiba que eu sou viciado em vinagre.
2. Leite desnatado – Tem uma sigla no leite (UHT? UTH? Raios UV? Não lembro ao certo, sei que tinha "U") que eu não faço a menor idéia do que quer dizer.
3. Filé de peito de frango – Vou fazer na churrasqueira elétrica. No começo, ela se recusou a assar o negócio, e até mesmo perguntou se eu havia virado veado, mas aí eu mostrei a receita médica e ele acalmou um pouco. Mas ainda está me olhando torto.
4. Suco de morango – Ok, ao menos, é de morango. Morango pode. E morango é bom. Com chantilly, então, fica... Não, pára. Sem chantilly. Só morango. Rob, repete comigo: Morango pode e morango é bom. Morango pode e morango é bom. Morango pode e morango é bom.
5. Chá – Como eu não posso mais beber Coca-Cola, ao menos durante a semana, vamos de chá mate mesmo. E comprei numa promoção que vem duas caixas e ainda ganhei um Bule da Associação Profissional dos Bebedores de Chá, que provavelmente eu não vou saber usar.
Olha, doutor, eu juro que estou levando isso a sério. Juro. Mesmo que isso custe minha vida social. Afinal, sejamos sinceros: com um cardápio envolvendo alface, filé de frango e suco, a resposta ao título deste post é apenas “ninguém”, porque nenhuma pessoa sairia de casa para comer essas mer... Bem, para comer isso.
Mas eu vou levar a sério, prometo.
Ah, nicotina: pára de rir aí no canto que você é a próxima.
Update: vieram me perguntar no Msn se o correto não é triglicérides. Fui checar e aparentemente, ninguém, a não ser os médicos, sabe como se escreve isso (triglicéris, triglicérides). Mas o nome não importa. O que importa é que o meu está no cheque especial, com o limite estourado.
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3 de agosto de 2010
1 de junho de 2010
Fome de Viver
Acordei com as galinhas hoje. Aliás, antes delas. Tudo porque algumas semanas atrás fui ao médico fazer um check-up, e ele me pediu uma tonelada de exames. Aparentemente, ele está disposto a provar ao planeta que sou um alienígena, porque pediu exames de tudo, desde os mais comuns até aqueles indiscretos, passando por alguns inusitados, como ultrassom do coração, que eu nunca havia feito.
Não estou exagerando, é capaz até de eu ter que fazer exames de geografia e história nos próximos dias. Estou me sentindo como um paciente em um episódio qualquer de House – e, como eu sou eu, provavelmente, eu vou ter lúpus.
Enfim, hoje, antes das 7 da manhã, eu estava entrando no Fleury ali da Rua Mato Grosso, em Higienópolis. E verde de fome, já que eu estava em jejum desde as 19:00 de ontem. Batman disse uma vez que “a fome alimenta o espírito”, mas aposto que ele nunca teve que jantar às 18:30 e ficar sem comer até o dia seguinte. Aliás, tenho certeza de que ele carrega um pacotinho de biscoitos – ou ao menos um Sonho de Valsa – naquele cinto de utilidades.
E o meu azar é que o Sol ainda não tinha nascido (eu tenho uma teoria de que o Sol acorda todos os dias às 6 horas, mas, no inverno, ele não sai da cama antes das 8 horas), ou eu teria me encostado num muro para tentar fazer um pouco de fotossíntese e enganar a fome. Como não foi possível, eu ia respirando pela boca, torcendo para o oxigênio enganar meu aparelho digestivo, antes que meu estômago decidisse queimar um rim em troca de energia.
Enfim, cheguei ao Fleury e fiquei espantado. As instalações são muito bonitas – me segurei para não comer uma folha de um vaso na recepção – e o atendimento é ótimo, mas, caso um dia você entre ali, tenha em mente que aquilo é um laboratório médico e não um hotel, apesar das aparências.
Isso porque bastou eu me distrair alguns segundos e pronto: lá estava eu, jogado no canto de uma pequena sala, com uma seringa espetada no braço, feito um drogado às portas de uma overdose. Minha sorte é que eu estava em Higienópolis. Se o laboratório fosse mais para o centro, perto da República ou da Santa Ifigênia, capaz de eu ser preso junto com o pessoal da crackolândia – o que não seria má idéia, já que, ao menos na prisão, eu conseguiria fazer ao menos uma refeição.
Felizmente, assim que tiraram a seringa de mim (depois de extrair uma quantidade de sangue suficiente para alimentar meia temporada de True Blood), me indicaram o “lugar do café”, para o qual eu fui me arrastando. Certo que encontraria duas garrafas térmicas vagabundas, uma com chá e outra com café, me surpreendi ao encontrar uma espécie de cantina, com uma atendente fornecendo alimentos de graça.
Quase pulei em cima da mulher.
Só mudei de idéia porque, no último instante, executei uma operação matemática na minha cabeça, concluindo que “Rob Gordon - 6 ampolas de sangue + pulo = tombo”. Assim, apenas me apoiei no balcão e passei os olhos pelo cardápio. Como não encontrei nenhuma parte de grelhados, fui para o básico.
– Quero chocolate quente. Litros e litros de chocolate quente. E todos os biscoitos de chocolate que você tiver.
Eu não era mais um paciente, eu era um país da África afligido por uma guerra civil, e ela, um caminhão da Cruz Vermelha. Peguei os mantimentos e cambaleei para um canto, tentando adivinhar quantos biscoitos eu conseguiria colocar na boca ao mesmo tempo. Mas nem tudo são flores. Estava na metade do segundo biscoito quando outro atendente chamou, no saguão:
– Sr. Gordon! Sr. Rob Gordon!
Suspirei e olhei para os biscoitos, que estavam rindo de mim (o chocolate quente começou a fazer uma espuminha, então acredito que ele estava gargalhando também). Estava quase respondendo que “olha, tinha um loiro alto e forte aqui na outra mesa, mas ele precisou ir embora, talvez fosse esse Sr. Gordon que você está procurando”, mas o atendente, dotado de poderes paranormais (provavelmente após ter se alimentado com meu sangue), olhou fixamente para mim:
– Sr. Gordon?
Não havia escapatória. Dei uma última mordida num biscoito e ainda estava mastigando quando me colocaram numa outra maca, com uma enfermeira esfregando gel no meu peito. Assim que ela virou as costas, tive o impulso de pegar um pouco do gel com os dedos para chupar, mas mudei de idéia quando um médico entrou na sala, ligou uma televisão e enfiou um sensor (cuja temperatura lembrava uma manhã nublada no Ártico) no meu peito.
Ah, as maravilhas da ciência. Meu coração apareceu numa televisão ao meu lado. O médico – provavelmente recém-formado – se encantou com aquilo.
– Este é seu coração batendo, ele disse.
Que ótimo. Quer dizer que eu ainda não morri de fome. Ainda.
E ele começou a me explicar onde era o miocárdio, onde era a aorta, o que era isso, o que era aquilo. E eu ali, pensando nos biscoitos. Cheguei a pensar até mesmo em dizer a ele que meu coração não estava batendo, mas sim rosnando de fome, e que seria bom se trouxessem uns biscoitos para que eu pudesse alimentá-lo (eu diria até que “a última vez que ele ficou com fome e eu não o alimentei, ele comeu um poodle inteiro, é melhor não arriscar, sabe?”), mas não tive tempo. Talvez fosse a primeira vez que ele usava aquele aparelho, pois não parava de discursar sobre seu encantamento com as imagens. Se meu ultrassom sair em DVD, capaz de ele comprar a edição dupla, com extras.
Tudo acabou e ele me mandou colocar a blusa. Estava planejando voltar ao refeitório antes do próximo exame e oferecer uma propina qualquer para a mulher da cafeteria em troca de um hambúrguer. Claro que não deu certo, porque me mandaram para outra sala de espera. E, claro, era uma sala biscoito-free. E, pior, com uma televisão exibindo o programa da Ana Maria Braga. O assunto?
Biscoitos.
Ela havia convidado uma gordinha de Minas Gerais que ganhava a vida fazendo biscoitos de todos os tipos. De chocolate. De coco. E eu ali salivando. Close nos biscoitos. Amanteigados, Suspiros. Ana Maria Braga come um biscoito. Gordinha come um biscoito. Louro José elogia os biscoitos.
– Sr. Gordon?, disse uma atendente que entrou na sala.
– Oi, sou eu.
– O senhor estava lambendo a televisão?
– Oi? Não, é... Eu vi algo estranho ali na tela e fui olhar mais de perto. Acho que era um mosquito, mas já espantei.
Era mentira, claro. Se fosse um mosquito mesmo, eu teria comido. Ela me entregou um papel.
– O senhor precisa assinar esta autorização antes do exame.
Peguei o papel e li. As palavras “anestésico”, “acompanhante”, “risco”, “biscoito”, “óbito” saltaram aos meus olhos. Sacudi a cabeça e palavra “biscoito” sumiu, sobraram apenas as outras quatro. A pergunta “este anestésico aqui é de comer?” quase escapou, mas me contive e li o cabeçalho da autorização.
"Autorização de Realização – Endoscopia Aguda."
Endoscopia? Não, eu não ia fazer endoscopia nenhuma, ainda mais aguda. Ninguém havia me falado nada de endoscopia – a não ser, claro, que o meu médico tivesse ligado para o laboratório em segredo antes de eu chegar e combinado com as pessoas dali.
– Eu não vou fazer endoscopia. É um eletrocardiograma.
– Tem certeza?
– Absoluta. Mesmo porque você não precisa de uma endoscopia para saber o que tem no meu estomago. Não tem nada nele.
– Só um minuto, vou checar.
Ela virou as costas e eu entrei em pânico. Era evidente que ela retornaria em segundos, acompanhada de dois seguranças, apontando para mim e dizendo que “é ele ali, o carequinha, que não quer fazer a endoscopia, vamos sedá-lo!”. Para minha sorte, foi outra atendente que retornou, com outro papel. E sozinha.
– Sr. Gordon, vamos começar o eletrocardiograma?
Respirei aliviado e comecei a segui-la pelos corredores. Entrei na sala indicada, onde outra atendente me aguardava. Seguindo suas instruções, tirei a blusa e deitei na maca. Em segundos, ela já havia plugado uns vinte sensores em mim, com cabos e tudo o mais, me deixando parecido com uma espécie de mini-mim do Frankenstein ali na maca.
Não ia demorar muito para começar a relampejar ali mesmo, dentro da sala, até que um raio me atingisse e ela, ensandecida, gritasse “It’s Aliiiive!”, mas fui surpreendido pela chegada de outra médica, que invadiu o recinto, antes que o experimento se concretizasse, felizmente.
Ou não.
Aparentemente, a doutora havia se formado em medicina em alguma faculdade de Berlim, na década de 30, e feito residência em Auschwitz, tendo como orientador o próprio Mengele. Ela pediu para eu subir na esteira e disse:
– Vozê vai comezarr bem devagarr e nós vamos medir seu prezón.
A esteira ligou e eu comecei a caminhar – sim, com todos aqueles cabos ligados em mim – normalmente. A cada trinta segundos, a assistente (que, calculei, deveria se chamar Igor, apesar de não ser corcunda) vinha tirar minha pressão. Estava encarando tudo na boa, até que ela disse:
– Agorra, vamos aumentarr o velozidade.
Fui obrigado a andar mais rápido. Olhei discretamente para o lado e vi os olhos da médica brilhando enquanto ela acompanhava meus batimentos cardíacos num monitor. Isso se repetiu por mais uns três minutos – sempre com o Igor medindo minha pressão – tempo suficiente para ela perceber que meu corpo poderia ser testado de forma mais intensa.
– Vamos caminhar um pouco mais rápida, Herr Gordon. Agorra!
E mexeu num botão, fazendo a esteira girar (muito) mais rápido. Não sei se ela falou sério quando disse “caminhar”, ou se for sarcasmo da parte dela, porque eu já estava correndo. Gotas de suor começaram a descer pelo meu rosto, minha respiração ficou pesada. A Herr Doktor lambia os beiços de excitação, enquanto a Igor media minha pressão.
– Está conzeguindo?
Eu teria respondido “evidente que não” se não estivesse desesperado em busca de oxigênio. Ela, claro, entendeu meu silêncio como um consentimento.
Ou pior, como um desafio.
– Agorra, vamos correr de verdade!, gritou, mexendo em todos os botões da esteira.
Respirei fundo e fui. Meu rosto estava encharcado. A música tema de Carruagens de Fogo começou a tocar nas caixas de som. Minha calça de moletom, fiel companheira de anos, começou a cair. Não satisfeito em ser um experimento nazista, eu era um experimento nazista com meia bunda de fora – e eu não podia fazer nada a respeito, pois qualquer movimento em falso me faria cair de cara no chão.
– Já vamos acabarr com a passeio! Corragem!
Passeio? Que passeio? Eu não estava passeando numa alameda florida, eu estava me transformando lentamente num queniano. Mas não aqueles quenianos que correm na São Silvestre, e sim em um que ainda mora no Quênia, no meio da floresta, e precisa correr o dia todo para escapar de leões. Estava quase me agarrando nos cabos dos sensores e implorando clemência, quando a esteira começou a diminuir a velocidade, até eu poder voltar a caminhar.
– Congratulazões, Herr Gordon. A exame acabou!
Eu não estava mais me segurando nos braços da esteira. Eu estava apoiado em um deles, tentando me manter em pé ali. A Igor mediu minha pressão novamente (devia estar 1000 por 1000) e a esteira foi desligada.
Quando voltei a mim, a Herr Doktor já havia desaparecido – provavelmente estava trabalhando com outros prisioneiros – e fui dispensado. Mais que depressa, coloquei minha blusa e, mesmo com as pernas bambas, saí apressado de lá. E não volto tão cedo.
Afinal, tenho certeza de que a mulher da endoscopia ainda está me procurando, provavelmente deixando biscoitos nos corredores como iscas, para me atrair. E eu, que não sou bobo, não iria cair nessa - saí correndo para um Mc Donald's e estabeleci um novo recorde: Big Mac com fritas e meio litro de Coca as 9:15 da manhã.
Não estou exagerando, é capaz até de eu ter que fazer exames de geografia e história nos próximos dias. Estou me sentindo como um paciente em um episódio qualquer de House – e, como eu sou eu, provavelmente, eu vou ter lúpus.
Enfim, hoje, antes das 7 da manhã, eu estava entrando no Fleury ali da Rua Mato Grosso, em Higienópolis. E verde de fome, já que eu estava em jejum desde as 19:00 de ontem. Batman disse uma vez que “a fome alimenta o espírito”, mas aposto que ele nunca teve que jantar às 18:30 e ficar sem comer até o dia seguinte. Aliás, tenho certeza de que ele carrega um pacotinho de biscoitos – ou ao menos um Sonho de Valsa – naquele cinto de utilidades.
E o meu azar é que o Sol ainda não tinha nascido (eu tenho uma teoria de que o Sol acorda todos os dias às 6 horas, mas, no inverno, ele não sai da cama antes das 8 horas), ou eu teria me encostado num muro para tentar fazer um pouco de fotossíntese e enganar a fome. Como não foi possível, eu ia respirando pela boca, torcendo para o oxigênio enganar meu aparelho digestivo, antes que meu estômago decidisse queimar um rim em troca de energia.
Enfim, cheguei ao Fleury e fiquei espantado. As instalações são muito bonitas – me segurei para não comer uma folha de um vaso na recepção – e o atendimento é ótimo, mas, caso um dia você entre ali, tenha em mente que aquilo é um laboratório médico e não um hotel, apesar das aparências.
Isso porque bastou eu me distrair alguns segundos e pronto: lá estava eu, jogado no canto de uma pequena sala, com uma seringa espetada no braço, feito um drogado às portas de uma overdose. Minha sorte é que eu estava em Higienópolis. Se o laboratório fosse mais para o centro, perto da República ou da Santa Ifigênia, capaz de eu ser preso junto com o pessoal da crackolândia – o que não seria má idéia, já que, ao menos na prisão, eu conseguiria fazer ao menos uma refeição.
Felizmente, assim que tiraram a seringa de mim (depois de extrair uma quantidade de sangue suficiente para alimentar meia temporada de True Blood), me indicaram o “lugar do café”, para o qual eu fui me arrastando. Certo que encontraria duas garrafas térmicas vagabundas, uma com chá e outra com café, me surpreendi ao encontrar uma espécie de cantina, com uma atendente fornecendo alimentos de graça.
Quase pulei em cima da mulher.
Só mudei de idéia porque, no último instante, executei uma operação matemática na minha cabeça, concluindo que “Rob Gordon - 6 ampolas de sangue + pulo = tombo”. Assim, apenas me apoiei no balcão e passei os olhos pelo cardápio. Como não encontrei nenhuma parte de grelhados, fui para o básico.
– Quero chocolate quente. Litros e litros de chocolate quente. E todos os biscoitos de chocolate que você tiver.
Eu não era mais um paciente, eu era um país da África afligido por uma guerra civil, e ela, um caminhão da Cruz Vermelha. Peguei os mantimentos e cambaleei para um canto, tentando adivinhar quantos biscoitos eu conseguiria colocar na boca ao mesmo tempo. Mas nem tudo são flores. Estava na metade do segundo biscoito quando outro atendente chamou, no saguão:
– Sr. Gordon! Sr. Rob Gordon!
Suspirei e olhei para os biscoitos, que estavam rindo de mim (o chocolate quente começou a fazer uma espuminha, então acredito que ele estava gargalhando também). Estava quase respondendo que “olha, tinha um loiro alto e forte aqui na outra mesa, mas ele precisou ir embora, talvez fosse esse Sr. Gordon que você está procurando”, mas o atendente, dotado de poderes paranormais (provavelmente após ter se alimentado com meu sangue), olhou fixamente para mim:
– Sr. Gordon?
Não havia escapatória. Dei uma última mordida num biscoito e ainda estava mastigando quando me colocaram numa outra maca, com uma enfermeira esfregando gel no meu peito. Assim que ela virou as costas, tive o impulso de pegar um pouco do gel com os dedos para chupar, mas mudei de idéia quando um médico entrou na sala, ligou uma televisão e enfiou um sensor (cuja temperatura lembrava uma manhã nublada no Ártico) no meu peito.
Ah, as maravilhas da ciência. Meu coração apareceu numa televisão ao meu lado. O médico – provavelmente recém-formado – se encantou com aquilo.
– Este é seu coração batendo, ele disse.
Que ótimo. Quer dizer que eu ainda não morri de fome. Ainda.
E ele começou a me explicar onde era o miocárdio, onde era a aorta, o que era isso, o que era aquilo. E eu ali, pensando nos biscoitos. Cheguei a pensar até mesmo em dizer a ele que meu coração não estava batendo, mas sim rosnando de fome, e que seria bom se trouxessem uns biscoitos para que eu pudesse alimentá-lo (eu diria até que “a última vez que ele ficou com fome e eu não o alimentei, ele comeu um poodle inteiro, é melhor não arriscar, sabe?”), mas não tive tempo. Talvez fosse a primeira vez que ele usava aquele aparelho, pois não parava de discursar sobre seu encantamento com as imagens. Se meu ultrassom sair em DVD, capaz de ele comprar a edição dupla, com extras.
Tudo acabou e ele me mandou colocar a blusa. Estava planejando voltar ao refeitório antes do próximo exame e oferecer uma propina qualquer para a mulher da cafeteria em troca de um hambúrguer. Claro que não deu certo, porque me mandaram para outra sala de espera. E, claro, era uma sala biscoito-free. E, pior, com uma televisão exibindo o programa da Ana Maria Braga. O assunto?
Biscoitos.
Ela havia convidado uma gordinha de Minas Gerais que ganhava a vida fazendo biscoitos de todos os tipos. De chocolate. De coco. E eu ali salivando. Close nos biscoitos. Amanteigados, Suspiros. Ana Maria Braga come um biscoito. Gordinha come um biscoito. Louro José elogia os biscoitos.
– Sr. Gordon?, disse uma atendente que entrou na sala.
– Oi, sou eu.
– O senhor estava lambendo a televisão?
– Oi? Não, é... Eu vi algo estranho ali na tela e fui olhar mais de perto. Acho que era um mosquito, mas já espantei.
Era mentira, claro. Se fosse um mosquito mesmo, eu teria comido. Ela me entregou um papel.
– O senhor precisa assinar esta autorização antes do exame.
Peguei o papel e li. As palavras “anestésico”, “acompanhante”, “risco”, “biscoito”, “óbito” saltaram aos meus olhos. Sacudi a cabeça e palavra “biscoito” sumiu, sobraram apenas as outras quatro. A pergunta “este anestésico aqui é de comer?” quase escapou, mas me contive e li o cabeçalho da autorização.
"Autorização de Realização – Endoscopia Aguda."
Endoscopia? Não, eu não ia fazer endoscopia nenhuma, ainda mais aguda. Ninguém havia me falado nada de endoscopia – a não ser, claro, que o meu médico tivesse ligado para o laboratório em segredo antes de eu chegar e combinado com as pessoas dali.
– Eu não vou fazer endoscopia. É um eletrocardiograma.
– Tem certeza?
– Absoluta. Mesmo porque você não precisa de uma endoscopia para saber o que tem no meu estomago. Não tem nada nele.
– Só um minuto, vou checar.
Ela virou as costas e eu entrei em pânico. Era evidente que ela retornaria em segundos, acompanhada de dois seguranças, apontando para mim e dizendo que “é ele ali, o carequinha, que não quer fazer a endoscopia, vamos sedá-lo!”. Para minha sorte, foi outra atendente que retornou, com outro papel. E sozinha.
– Sr. Gordon, vamos começar o eletrocardiograma?
Respirei aliviado e comecei a segui-la pelos corredores. Entrei na sala indicada, onde outra atendente me aguardava. Seguindo suas instruções, tirei a blusa e deitei na maca. Em segundos, ela já havia plugado uns vinte sensores em mim, com cabos e tudo o mais, me deixando parecido com uma espécie de mini-mim do Frankenstein ali na maca.
Não ia demorar muito para começar a relampejar ali mesmo, dentro da sala, até que um raio me atingisse e ela, ensandecida, gritasse “It’s Aliiiive!”, mas fui surpreendido pela chegada de outra médica, que invadiu o recinto, antes que o experimento se concretizasse, felizmente.
Ou não.
Aparentemente, a doutora havia se formado em medicina em alguma faculdade de Berlim, na década de 30, e feito residência em Auschwitz, tendo como orientador o próprio Mengele. Ela pediu para eu subir na esteira e disse:
– Vozê vai comezarr bem devagarr e nós vamos medir seu prezón.
A esteira ligou e eu comecei a caminhar – sim, com todos aqueles cabos ligados em mim – normalmente. A cada trinta segundos, a assistente (que, calculei, deveria se chamar Igor, apesar de não ser corcunda) vinha tirar minha pressão. Estava encarando tudo na boa, até que ela disse:
– Agorra, vamos aumentarr o velozidade.
Fui obrigado a andar mais rápido. Olhei discretamente para o lado e vi os olhos da médica brilhando enquanto ela acompanhava meus batimentos cardíacos num monitor. Isso se repetiu por mais uns três minutos – sempre com o Igor medindo minha pressão – tempo suficiente para ela perceber que meu corpo poderia ser testado de forma mais intensa.
– Vamos caminhar um pouco mais rápida, Herr Gordon. Agorra!
E mexeu num botão, fazendo a esteira girar (muito) mais rápido. Não sei se ela falou sério quando disse “caminhar”, ou se for sarcasmo da parte dela, porque eu já estava correndo. Gotas de suor começaram a descer pelo meu rosto, minha respiração ficou pesada. A Herr Doktor lambia os beiços de excitação, enquanto a Igor media minha pressão.
– Está conzeguindo?
Eu teria respondido “evidente que não” se não estivesse desesperado em busca de oxigênio. Ela, claro, entendeu meu silêncio como um consentimento.
Ou pior, como um desafio.
– Agorra, vamos correr de verdade!, gritou, mexendo em todos os botões da esteira.
Respirei fundo e fui. Meu rosto estava encharcado. A música tema de Carruagens de Fogo começou a tocar nas caixas de som. Minha calça de moletom, fiel companheira de anos, começou a cair. Não satisfeito em ser um experimento nazista, eu era um experimento nazista com meia bunda de fora – e eu não podia fazer nada a respeito, pois qualquer movimento em falso me faria cair de cara no chão.
– Já vamos acabarr com a passeio! Corragem!
Passeio? Que passeio? Eu não estava passeando numa alameda florida, eu estava me transformando lentamente num queniano. Mas não aqueles quenianos que correm na São Silvestre, e sim em um que ainda mora no Quênia, no meio da floresta, e precisa correr o dia todo para escapar de leões. Estava quase me agarrando nos cabos dos sensores e implorando clemência, quando a esteira começou a diminuir a velocidade, até eu poder voltar a caminhar.
– Congratulazões, Herr Gordon. A exame acabou!
Eu não estava mais me segurando nos braços da esteira. Eu estava apoiado em um deles, tentando me manter em pé ali. A Igor mediu minha pressão novamente (devia estar 1000 por 1000) e a esteira foi desligada.
Quando voltei a mim, a Herr Doktor já havia desaparecido – provavelmente estava trabalhando com outros prisioneiros – e fui dispensado. Mais que depressa, coloquei minha blusa e, mesmo com as pernas bambas, saí apressado de lá. E não volto tão cedo.
Afinal, tenho certeza de que a mulher da endoscopia ainda está me procurando, provavelmente deixando biscoitos nos corredores como iscas, para me atrair. E eu, que não sou bobo, não iria cair nessa - saí correndo para um Mc Donald's e estabeleci um novo recorde: Big Mac com fritas e meio litro de Coca as 9:15 da manhã.
Este post é dedicado a
Renata, a "Noiva de Vitória",
que, nos últimos dias,
atravessou (correndo) uma ponte
um pouco maior que a Austrália.
Renata, a "Noiva de Vitória",
que, nos últimos dias,
atravessou (correndo) uma ponte
um pouco maior que a Austrália.
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