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2 de outubro de 2014

'eba'e 'olí'ico

Estava no boteco, bebendo uma Coca, quando começou a gritaria.

Aliás, gritaria em boteco é um negócio estranho, que não obedece às leis da Física. Toda gritaria normal tem um momento inicial definido. Numa gritaria na rua, no escritório, ou em casa, existe um Grito-D específico que dá início a outro grito, que leva a outro grito, formando a gritaria. Não importa o assunto, ela começou com um berro.

Mas, num boteco, não há um grito inicial. As pessoas estão conversando, mas os ânimos esquentam, o tom começa a subir e de repente você está no meio de uma gritaria que há dois minutos não existia, mas que ao mesmo tempo parece que sempre esteve ali e você que não tinha reparado.

A do boteco foi assim. Quando eu me sentei, o bar estava em silêncio. Quando eu estava na metade da lata de Coca, percebi que as pessoas estavam gritando sabe-se lá há quanto tempo no bar. E o assunto era política.

- Então vota no PT! Quer fazer merda? Então vota no PT e não enche o saco!

Quem disse isso foi um sujeito que, com alguns minutos, aprendi que atende pela alcunha de Alemão. Suas propostas eram claras: Alemão é daquelas pessoas que é “contra tudo isso que está aí”, mas seu tom raivoso mostrava que se estourasse uma guerra civil, ele seria o primeiro a pegar em armas. Mas não para derrubar o poder, e sim nocautear seu adversário com uma coronhada e beber em paz.

Seu adversário permanece um mistério para mim. Tinha uns 60 anos. Negro. E foi só o que consegui decifrar. Não consegui entender seu nome, muito menos quais propostas ele defendia, e não porque seu raciocínio era confuso, mas sim porque ele era fanho, e parecia ter alguns problemas com os “r”, os “t”, os “d” e os “p”.

- Eu vo’o em que eu quise’! Eu ‘enho esse ‘i’eito! E mesmo assim vota’ não a’ian’a na’a! Que se fo’a-se!

(Sim, que “se foda-se”.)

- É porque você pensa assim que o país tá uma bosta! Sabe como as pessoas votam? Elas pegam o santinho no chão e escolhem o candidato assim!

- E o que você que’? Vai vo’a’ em quem?

Achei a pergunta bem colocada. Bem colocada e objetiva.

- É tudo uma bosta! O país tá uma bosta!

Bom, o Alemão aparentemente conhece a primeira regra da política, que implica em não responder com clareza. Numa situação normal, isso o colocaria em vantagem. Mas, como o problema fonético do seu adversário fazia com que ele nem mesmo perguntasse com clareza, o debate prometia ser equilibrado. Aliás, naquele momento eu apostaria no Fanho.

- O que você ‘efen’e?

- Como assim?

- O que você ‘efen’e?

- Não entendi!

Eu também não.

- O que você ‘efen’e? O que você que’?

Ah! “O que você defende?”. Entendi. Mas como não era comigo fiquei quieto – caso seja do seu interesse, naquele momento eu defendia que aquele debate durasse horas – e deixei a resposta para o Alemão.

- Como assim, o que eu quero?

- Se eu p’ome’’e’ aqui que vou a’’uma’ sua vi’a, vou ‘a’ ‘inhei’o! Você vo’a nimim?

- Não!

- Eu vou ‘a’ ‘inhei’o p’a você! Vai vota’ nimim?

Se a pergunta fosse para mim, provavelmente eu perguntaria se posso pegar minha parte em quadrinhos. Mas o Alemão não gostou do rumo que a conversa estava tomando. Sua integridade estava sendo discutida.

- Não! Porque é dinheiro sujo! E dinheiro sujo eu não quero!

Em sua réplica, o candidato Fanho elaborou uma reposta que provavelmente estabeleceu o recorde de maior número de letras “d”, “t”, “r” e “p” reunidos no mesmo lugar, porque eu não entendi absolutamente nada (entendi apenas um “i-i-ica”, então desconfiei que ele estava imitando um rato). Mas o alemão me ajudou ao gritar:

- Tiririca!?

I-i-ica. Tiririca. Eu devia ter pensado nisso.

- I’i’ica! Isso mesmo!

- Você vota no Tiririca!

O tom do Alemão era claro: ele estava tentando desqualificar seu adversário, com aquele ar de “você vota no Tiririca, então sua opinião não vale”. Eu continuei bebendo minha Coca, escutando e torcendo para que o Fanho não tentasse trazer a Petrobras para a conversa. Não por causa da situação da estatal, mas sim porque ele cuspiria no bar inteiro ao falar o nome da empresa.

- Ele fez seis ‘’oje’os!

- Tiririca!

- Seis ‘’oje’os! Mais que você!

- Tiririca!

- ‘i’i’ica sim!

- Esse país não é sério!

Bom, nisso eu concordo com o Alemão.

- O que você que’? O que você que’ ganha’?

- Eu quero igualdade!

- Igual’a’e não exis’e”!

- Eu quero igualdade!

- Po’ exemplo, eu sou Á’ies! E você?

Oi?

- Oi?

- Seu signo! Eu sou Á’ies! E você? Você é de á’ies?

- Não!

- Tá ven’o? Nunca vai ‘er igual’a’e!

O argumento foi demais pra mim. Levantei e fui até o caixa pagar a Coca. Paguei e o dono do boteco resmungou que:

- Esses imbecis ficam discutindo política no bar. Enche o saco isso.

Sorri e agradeci.

E saí do bar disposto a me informar mais sobre o dono do bar e suas propostas. É sempre bom ter uma terceira via. Especialmente uma que parece enxergar a realidade de trás do balcão.

3 de fevereiro de 2011

Brilho Eterno de um Mentos sem Lembrança

Atravessei a rua correndo e cheguei ao boteco aqui em frente à redação desesperado. Tudo o que eu queria era um chocolate, mas o motivo da minha pressa era outro: a chuva.

Em questão de segundos, iria chover. Muito. O céu de Pinheiros estava tão negro que se houvesse uma filial da Ku-Klux-Klan nas redondezas, seus diretores certamente já teriam emitido uma reclamação formal à prefeitura alegando falta de respeito com suas crenças.

Até aí, tudo bem, já tomei chuva antes. Aliás, uma das melhores lembranças da minha adolescência era jogar bola na rua durante tempestades. O problema é que com o braço engessado não posso me dar a este luxo, já que qualquer garoa pode me transformar em uma espécie de Sonrisal andando pelas ruas, especialmente porque eu não tenho o hábito de andar com um saco plástico no bolso.

Ou seja, eu me tornei uma espécie de Cascão. Basta eu ver uma nuvem preta no céu que preciso correr para algum lugar coberto, e me encolho ali tremendo de medo. E como São Paulo está na época das monções, estou até mesmo pensando em levantar o assunto com minha psicóloga, já que eu passo os dias olhando os céus e tendo ataques de pânico.

Então, imagine o desespero que senti quando, no limiar da tempestade, entrei no boteco e dei de cara com ninguém menos que a proprietária, atrás do balcão.

Quem é mais antigo aqui no blog deve-se lembrar dela (sobretudo pelo post que satirizava Star Trek). Aos mais novos, explico: ela é tão devagar que chega até mesmo a desafiar as leis da Física, criando uma espécie de bolha temporal dentro do bar. Funciona assim: você entra, pede uma Coca, bebe sua Coca e paga. Tudo isso em cinco minutos. Mas, quando você sai, descobre que, no mundo real, se passaram mais ou menos seis dias – e para completar ela ainda deu o troco errado.

Sem exageros, se ainda vivêssemos nos anos 80, com a inflação galopante, o período de tempo entre você pedir a Coca e ela entender o que você deseja seria suficiente para o preço do refrigerante subir uns 80%.

Como se não bastasse ter a velocidade média inferior a de uma árvore, ela ainda tem o mesmo poder de concentração de uma criança hiperativa brincando com um caleidoscópio. O cérebro dela é um emaranhado de pop-ups que vão abrindo (com a velocidade de um 286, com conexão discada) e se amontoando sobre o diálogo.

E, às vezes, ela simplesmente trava e fica olhando para você, com uma interrogação se desenhando lentamente em seu rosto. Uma duas vezes eu cheguei a ter o impulso de segurar o pulso dela e dar uma chacoalhada, pois ela entra em modo de economia de energia frequentemente.

Então, se você é novo no blog, agora você tem bagagem para entender isso, então repito o que disse acima: “imagine o desespero que senti quando, no limiar da tempestade, entrei no boteco e dei de cara com ninguém menos que a proprietária, atrás do balcão.”

Pensei em mudar de ideia (mesmo porque seria mais fácil eu iniciar uma plantação de cacau e começar a fabricar meus próprios chocolates) mas, como eu já estava ali, resolvi arriscar a sorte.

Assim, me aproximei do balcão e disse:

– Oi. Eu queria um Charge.

– Você gosta de Mentos?

Foi neste momento que minha sorte soltou um “Desisto!”, apagou a luz da sala e foi embora, decidida a tirar o resto do dia de folga e repensar toda sua vida profissional.

– Oi?, foi tudo o que eu consegui dizer.

– Você gosta de Mentos?

Confesso que nunca pensei muito sobre o assunto, mas fiquei com receio de assumir isso. Aquilo parecia ser importante para ela.

– Sei lá. Acho que sim.

– Eu comprei uns novos, você viu?

– Não vi... Posso ver depois?

– Tem esse preto aqui, que é...

Ela pegou a embalagem de Mentos e começou a analisá-la minuciosamente, procurando por algum indicativo do sabor. Para os neurônios dela, provavelmente o Mentos preto era uma espécie de monólito do 2001 – Uma Odisséia no Espaço, que causaria todo um salto evolucionário dentro do seu cérebro. Em pouco tempo, seus neurônios conquistariam o espaço. Antes que eu pudesse sugerir que ela mudasse o nome do estabelecimento para Bar e Lanches HAL 9000, ela concluiu:

– Não sei o sabor dele. Mas é esse preto aqui.

Podem ignorar aquela parte do salto evolucionário. Aparentemente, eles permaneceriam macacos para sempre, sem entender o que era aquela enorme pedra negra com a inscrição Mentos. E passariam a eternidade ouvindo Assim Falou Zaratustra e tentando escapar do leopardo que mora ali perto.

– Olhe, eu estou com um pouco de pressa...

– Qual será o sabor deste Mentos preto?

– O céu está preto também, você viu? Talvez seja sabor nuvem.

Sei que não foi uma grande frase, mas eu precisava introduzir o assunto “chuva” na conversa de alguma forma. E urgentemente. Tudo o que eu consegui, porém, foi que a atenção dela se voltasse para outro Mentos, com a embalagem meio roxa.

– Tem esse aqui de Uva com...

– Charge, você tem? O chocolate?

– Com... Com...

– Com pressa?

– Não, acho que é com limão.

Era inútil. Ela estava aprisionada num mundinho próprio, formado por Mentos de todas as cores e sabores.

– Olhe, eu juro que experimentarei todos um dia. Mas o Charge...

– Nossa! Isso foi um trovão?

Obrigado, Poderoso Thor, por chamar a atenção dela. Te devo uma.

– Isso! Foi um trovão! Isso!

– Acho que vai chover...

Se ao invés de procurar por Noé, Deus tivesse decidido falar com ela, o Dilúvio teria durado uns 300 dias. 260 dias para ela entender o que iria acontecer e construir o barco, e 40 dias de chuva. Isso sem falar na zona que ela faria com aquele negócio de reunir os animais - imagine ela andando pela arca berrando coisas como "alguém viu os castores?", sem ter resposta alguma. Mas aproveitei minha deixa:

– Sim. Vai. Vai chover. Muito. Inclusive...

Esta minha última resposta foi acompanhada de um gesto: enquanto eu falava, levantei o braço direito e apontei o gesso com a mãe esquerda. Não tinha como ser mais óbvio.

Mas foi em vão. A informação climática fez soar algum alarme na mente dela. Assim, sem grandes cerimônias, ela se virou para dentro do bar e gritou para qualquer funcionário que estivesse nas imediações:

– Tem que recolher as cadeiras! Vai chover!

Ninguém respondeu, mesmo porque ela parecia estar sozinha no bar. Mas não dei atenção para isso, pois, assim que ela disparou a ordem aos seus comandados invisíveis, voltou-se para mim e sorriu:

– Oi.

Aparentemente, seu cérebro havia reiniciado por algum motivo e estava abrindo todos os programas novamente. Aproveitei que eu era a bola da vez e dancei conforme a música.

– Oi. Tudo bem? Eu queria um Charge.

Ela me entregou o chocolate e pegou as moedas que joguei no balcão. Seus olhos brilharam. O balcão é de vidro e, ao olhar as moedas, ela avistou os Mentos ali, e claramente seus neurônios detectaram alguma importância naquelas balas. Alguma coisa fazia aquelas embalagens terem um significado enorme para ela.

E foi assim que ela entrou em transe novamente.

Eu saí correndo de volta para o prédio, sentindo as primeiras gotas de chuva. Já comi o chocolate, já choveu, já parou de chover... E aposto que ela ainda está paralisada, tentando entender o que são aqueles Mentos.

Ou ao menos descobrir qual o sabor do Mentos preto.



26 de julho de 2010

Champ Games – Detonado: Super Rob World

1ª Fase – Teodoro Sampaio

Nesta primeira fase, o tempo é essencial. Como o Rob sempre acorda atrasado, ele tem poucos minutos para cruzar a Teodoro. Assim, o segredo é correr por entre os camelôs – a cada vez que um deles esbarra no Rob, ele perde 5 segundos. Então, não perca tempo coletando os objetos que caem das barras dos mendigos – normalmente, são porcarias falsificadas que não dão bônus algum. Mas cuidado especial com o mendigo (além de tempo, ele tira uma barra de energia, por causa do cheiro) e a velha com sacola: se ela entrar na sua frente, é quase impossível ultrapassá-la.

No último quarteirão antes do chefe, as pedras da calçada estão soltas. Não tente andar – isso fará o Rob cair em cima de uma das barracas de camelô, derrubando tudo e fazendo com que ele perca 30 segundos (é quase impossível terminar a fase se isso acontecer). O segredo é ir pulando de pedra em pedra (e não adianta decorar: a cada partida, as pedras soltas mudam de posição), tomando cuidado para não bater a cabeça nos toldos.

Chefe: o chefe é uma espécie de Rei dos Camelôs, que fica atrás de uma barraca, atirando objetos no Rob. O que você precisa fazer é pegar três objetos específicos (o boneco falsificado do Homem-Aranha com roupa de mergulhador, um CD pirata do Calcinha Preta e uma trufa que já azedou no Sol), para montar uma arma capaz de derrotá-lo. Assim, desvie de todos os objetos menos dos que você precisa. Ao montar a arma, aperte o botão de ataque e dê um tiro para cima. A polícia irá aparecer para ver do que se trata e o camelô irá fugir.


2ª Fase – Redação

Nesta fase, o tempo continua sendo um fator importante, mas a memória também conta – e é preciso bastante paciência. O importante é saber que o Rob não pode ficar mais de 3 minutos longe do teclado, ou ele morre. Assim, você precisa cumprir todas as tarefas (representadas pelos símbolos que aparecem no monitor da mesa do Rob), na ordem que são passadas. Desta forma, o Rob precisa ir até a sala do chefe, falar com o diagramador, pautar o fotógrafo, revisar textos, sempre sem ficar muito tempo afastado do teclado. E não adianta tentar cumprir as missões antes de elas serem anunciadas, para ganhar tempo (entre na sala do chefe sem ser chamado e perca uma vida instantaneamente).

Entretanto, esta fase é que mais traz bônus. Caso aparece o rosto de um menino na tela, aperte o direcional para cima duas vezes, para ativar o Estagiário (com isso, o Rob ganha uma xícara de café que repõe suas energias). Se aparecer o símbolo da Psicologia (parece um garfo), você pode entrar em uma sessão apertando o botão 2. Mas cuidado: a Terapia é sorte pura. O Rob pode sair mais aliviado de lá (o que sobra sua velocidade por alguns segundos), ou mais confuso (e aí fica difícil controlá-lo, se você aperta o direcional para a direita, ele vai para a esquerda; se você aperta para cima, ele vai para baixo etc). E, caso apareça um portão na tela, é possível entrar no minijogo do porteiro: Aqui, o Rob precisa roubar o controle remoto do porteiro e abrir o portão (porque o porteiro não sabe fazer isso sozinho) sem ser pego, e em 10 segundos. Caso ele consiga fazer isso, ganha mais horas de sono e sua barra de energia enche totalmente.

Chefe: Este é um dos chefes mais difíceis, pois é preciso muita concentração. Aparentemente, é simples: basta pular em cima de todas as pautas que o assessor de imprensa envia, na coluna da direita, casando o assunto (explicitado com um desenho) com as fotos que o fotógrafo envia. Mas é preciso cuidado: algumas pautas (as que têm uma caveira) significam uma matéria na Zona Leste, o que fará o Rob perder o resto do dia. Outras, com um porquinho desenhado, significam que é dia de feijoada – isso deixa o Rob com sono e mais lerdo. O objetivo é casar o maior número de pautas e fotos em menos tempo. Lembre-se que cada vez que você deixa de pegar o material do fotógrafo, ele começa a ficar mais preguiçoso e, consequentemente, passa a enviar menos fotos – o que dificulta (e muito) sua tarefa.


3ª Fase – Restaurante

Aqui, é bom ficar esperto desde o começo. Já na porta do restaurante, você precisa pular os clientes imbecis que ficam se amontoando na calçada, sem saber se entram ou saem. Cuidado: não tente agachar (com o botão 3) e passar por baixo deles – isso fará o Rob tropeçar no capacho, na porta, e cair de cara no chão, perdendo energia preciosa. Mas, ao pular, é preciso aterrissar logo após a porta, ao lado da menina que entrega as comandas (para isso, aperte o botão de agachar quando o Rob estiver no ar). Sem comanda, ele é expulso do restaurante e precisa começar tudo de novo.

Dentro do restaurante está um dos inimigos mais chatos do jogo: o maitre. Não permita que ele encoste no Rob de forma nenhuma – caso isso aconteça, ele leva o Rob para a mesa errada (às vezes, ele até mesmo coloca o Rob na calçada, o que faz com que o jogador precise passar por toda a fase de novo). Assim que você conseguir se sentar na mesa preferida do Rob (fica no segundo andar, perto da janela, com uma flecha vermelha indicando o local), tome cuidado com o garçom. Ele ficará arremessando copos de Coca Zero no Rob – desvie daquelas que tem uma bolinha verde dentro (é geli-limão) – e sobremesas (evite os bolos-prestígio e agarre as mousses de chocolate).

Chefe: Este é um dos chefes mais divertidos do jogo. Ele vai andando por entre as mesas, deixando cair ingredientes que ele trouxe da cozinha. Assim, o segredo é misturar os ingredientes para formar os pratos mais estranhos do mundo (camarão com diamante negro, pizza com sucrilhos, peixe à milanesa com amendocrem), acumulando pontos. Quando mais estranho o prato, mais pontos você faz (cuidado: ao criar um prato normal, misturando, por exemplo, alface e tomate, você perde uma vida). Ao chegar em 100 pontos, o cozinheiro é derrotado.


4ª Fase – Boteco

Esta fase requer muita, muita paciência. Aqui, o objetivo é conseguir uma lata de Coca. Mas isso não será tarefa fácil. Primeiro, é preciso chamar a atenção da dona do bar, que está sempre olhando para o outro lado. Para conseguir isso, é preciso pegar uma laranja do chão e jogar para um canto do bar. Na mesma hora, ela irá olhar para o outro lado. Corra para lá e fique pulando na frente dela. Dica: quando estiver no ar, aperte novamente o botão de pulo, para gritar. Isso fará com que ela olhe mais rápido para você. É preciso paciência: primeiro, ela traz uma Fanta. Na caixa de diálogo, aperte “não”. Depois, um tomate. Aperte “não” novamente. Na terceira vez, ela traz uma galinha viva. Mais uma vez, escolha “não”. Na quarta vez, ela traz a Coca.

Com a Coca em mãos, é preciso pagar. E é aí que a fase fica complicada. A dona do bar some, dentro da cozinha, e é preciso chamar sua atenção. O problema é que ela não sai da cozinha enquanto o Rob estiver no bar. Assim, é preciso ir olhando nas outras mesas, para conseguir se disfarçar. Na mesa da esquerda, há um par de óculos escuros. Na terceira mesa da esquerda para a direita, há um chapéu (sob a cadeira). E, na mesa da direita, mexa nos pratos para encontrar um bigode falso. Aperte o botão de pulo duas vezes (para gritar) e a dona do bar irá aparecer. Assim que ela aparecer, prepare-se para enfrentar o chefe.

Chefe: O chefe desta fase é um velho gigantesco que freqüenta o bar e fica gritando feito louco (sempre que estiverem saindo raios de sua boca, é porque ele está gritando. Se o Rob chegar perto dele, seus gritos farão com que o disfarce caia, e a dona do bar, reconhecendo o Rob, voltará para a cozinha. Aí, o velho some e é preciso fazer todo o parágrafo acima. Agora tome cuidado com o cesto de lixo – como o velho perdeu os seus óculos no lixo do bar (Nota do editor: isso aconteceu de verdade), toda vez que ele se aproxima do cesto, começa a procurar os óculos, jogando lixo para os lados – se uma mísera casca de banana acertar o Rob, ele perde uma vida.


5ª Fase – Pão de Açúcar

Esta é a última fase do jogo. O problema é que como ela se passa no fim do dia, o Rob já está cansado, e sua velocidade diminui consideravelmente. Assim, todo cuidado é pouco. O objetivo aqui é percorrer os corredores do supermercado para encontrar uma garrafa de Coca Zero e uma lasanha de calabresa congelada. De cara, as coisas já são difíceis porque como a equipe de limpeza do mercado está trabalhando, diversos corredores estão fechados.

Assim, para pegar a lasanha, é preciso entrar no corredor dos produtos de limpeza (é o de número 3), ir até o final, virar à direita na altura da seção de pães, descer metade do corredor de congelados, pular a geladeira de espetinhos e pegar a lasanha na quarta porta. Para pegar a Coca, pule novamente a geladeira de espetinhos para o corredor de congelados e suba até a seção de pães novamente. Vire à direita e ande até o final deste corredor, entrando no corredor 8 (de utensílios para o lar). Lá, procure por uma passagem abaixo das panelas e, usando o comando de se agachar, passe por ela, para o corredor de bebidas. Desvie dos adolescentes imbecis – sempre que eles derrubam uma garrafa de vinho, o segurança aparece e persegue o Rob, que precisa largar as mercadorias e se esconder dentro da geladeira de iogurte.

Chefe: Com as duas mercadorias em mãos, desça o corredor de bebida (cuidado com os adolescentes) até os caixas. Antes, suba o corredor 4 e pegue os ossinhos para cachorro, você vai precisar deles. Aqui, o truque é o seguinte: o Rob precisa encontrar, entre os 20 caixas abertos, um que tenha troco e não tenha um imbecil na fila. Identificar os que têm troco é fácil (basta escolher o caixa com uma moeda acima da cabeça da funcionária). Quando você achar um deles, é preciso checar se há um imbecil na fila. Para isso, é preciso parar ao lado da pessoa. Se ela começar a conversar com o Rob, é porque é imbecil. A fila não vai andar. Mas, se você pegou os ossinhos de cachorro, aperte o botão C duas vezes e use o Besta-Fera. Ele se aproximará do imbecil, que, sem perceber que ele é um cachorro, olhará para o lado e começará a conversar com ele. Ainda agachado, passe pelo outro lado do imbecil (tomando cuidado para não encostar no inimigo, pois fará com que ele perceba o que está acontecendo – o mesmo vale para os pacotes de Fandangos ao lado do caixa, pois o barulho irá chamar a atenção dele. Cuidado porque às vezes os imbecis estão em dupla (eles ficam um em cada fila) assim, tente passar o mais discretamente possível, dando toques de leve no direcional, para nenhum deles perceber. Parece fácil, mas, como o Rob está cansado, fica difícil controlá-lo. Mexa no direcional com bastante cuidado. No caixa, pague a lasanha, a Coca e vá para casa.

Game Over.

You Win.

Perfect. (Quer dizer, com um dia desses, o "perfect" é na medida do possível, claro.)

16 de março de 2010

Star Trek - Primeiro (e último) Contato

"Pinheiros. A fronteira final. Estas são as viagens da nave estelar USS Rob Gordon. Sua missão: explorar novos mundos, descobrir novas civilizações, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve."

Diário do Capitão. Data estelar 5493.2. Após horas finalizando matérias para enviar ao diagramador, nosso engenheiro-chefe, Sr. Scott, alertou de que o suprimento de Coca Zero na nave estava baixo. Assim, desviamos nosso curso até o planeta Boteco IV para conseguirmos alguns suprimentos.


Sulu: Capitão, estamos nos aproximando de Boteco IV.

Kirk: Saia da velocidade de dobra, Sr. Sulu, e assuma órbita padrão.

Sulu: Sim senhor.

Kirk: Tenente Uhura, abra freqüência de saudação.

Uhura: Frequência aberta, senhor.

Kirk: Aqui é o capitão James Kirk, da USS Rob Gordon. Gostaríamos de negociar com vocês a compra de uma lata de Coca Zero.

Uhura: Sem resposta, senhor.

Kirk: Estranho. Sr. Spock?

Spock: Análises não mostram nada de errado no planeta, capitão.

Kirk: Tente novamente, tenente.

Uhura: Frequência aberta, senhor.

Kirk: Boteco IV, aqui é a espaçonave USS Rob Gordon. Vocês estão passando por dificuldades?

Uhura: Ainda não responderam, senhor. Mas o canal está aberto. Aparentemente, eles receberam a mensagem.

Spock: Capitão, presumo que eles não estejam respondendo por vontade própria. Não há nada atrapalhando a comunicação.


"Estranho..."


Kirk: Isto está estranho demais. Sr. Checov, vá para alerta amarelo.

Chekov: Alerta amarelo acionado.

Uhura: Capitão, estou captando algumas imagens.

Kirk: Na tela.

Spock: Esta é a regente de Boteco IV, senhor.

Kirk: Ela pode nos ouvir?

Uhura: Sim, senhor.

Kirk: Aqui é o capitão James Kirk. Vocês estão enfrentando algum problema de comunicação?

Uhura: Sem resposta, senhor.

Kirk: Estranho. Ela está olhando para nós, fixamente. Mas não responde.

Spock: Fascinante.

Kirk: Tenente, peça ao Dr. McCoy se apresentar à ponte.

Uhura: Sim, senhor. Capitão, recebi uma mensagem de alta prioridade da Frota Estelar. A USS Diagramador está precisando de umas fotos para completar uma página, e devemos nos encontrar com eles em no máximo uma hora.

Kirk: Isso pode esperar um pouco. Precisamos de Coca Zero.

McCoy: Em que posso ajudá-lo, Jim?

Kirk: Magro, não estamos conseguindo fazer contato com esta forma de vida. Aparentemente, ela pode nos ouvir, mas não responde. Alguma sugestão?

McCoy: Jim, fica difícil analisar apenas olhando uma imagem, mas os olhos vazios e sem expressão indicam que a criatura está num estágio de dormência.

Kirk: Como assim? Não é possível que ela não nos veja, estamos na frente dela.

Spock: Acredito, capitão, que o Doutor McCoy está se referindo a um estágio de torpor. Algo semelhante a computadores que entram em modo de descanso, para poupar energia.

Kirk: Sugestões, senhores?

Spock: Devemos tentar chamar a atenção dela de alguma forma, para despertá-la. Talvez um torpedo fotônico disparado nos arredores do planeta seja suficiente.

Kirk: Dr. McCoy?

McCoy: Não vejo nenhum mal nisso.

Kirk: Alferes, lance um torpedo na atmosfera. Com cuidado.

Checov: Sim, capitão.

McCoy: Olhe, Jim! Aparentemente deu resultados! Ela mexeu os olhos!

Spock: Fascinante.

Regente de Boteco IV: Oi?

Kirk: Aqui é o capitão James Kirk, da USS Rob Gordon. Gostaríamos de negociar suprimentos de Coca Zero com vocês. Posso preparar uma equipe de desembarque e...

Regente de Boteco IV: Que vocês querem mesmo?

Kirk: Coca Zero.

Regente de Boteco IV: Ah.

Kirk: ...

Regente de Boteco IV: ...

Kirk: Está tudo bem com vocês?

Regente de Boteco IV: Tudo, e você?

Kirk: Hã... Sim, mas...

Spock: Fascinante. Seu cérebro funciona de forma cíclica.


"O cérebro dela não funciona como o nosso, capitão.
Isso, claro, partindo do princípio de que ela possua um cérebro"



Regente de Boteco IV: O que vocês querem?

Kirk: Precisamos de Coca Zero.

Regente de Boteco IV: Tá.

Kirk: Podemos descer para buscar, ou posso transportar os suprimentos para a nave...

Regente de Boteco IV: Coca normal, certo?

Kirk: Zero! Coca Zero!

Regente de Boteco IV: Desculpe, estou atrapalhada. Tem muita gente aqui hoje.

Kirk: Vocês precisam de alguma assistência?

Regente de Boteco IV: Não, está tudo sob controle.

Spock: Capitão, me pergunto se eles não estão enfrentando problemas com os klingons.

Kirk: Regente, você mencionou que várias pessoas estão aí. Que tipo de pessoas?

Regente de Boteco IV: Oi? Ah, um velho veio aqui de manhã comprar cigarros.

Kirk: Quem mais?

Regente de Boteco IV: Ninguém.

Kirk: Como assim?

Regente de Boteco IV: É, veio o velho comprar cigarro e, agora, vocês. É movimento demais, estou confusa.

Uhura: Capitão, nova mensagem da Frota. A USS Diagramador está precisando das fotos.

Kirk: Não responda ainda, tenente.

Regente de Boteco IV: Quantas latas de guaraná vocês querem?

Kirk: Coca, regente! Coca Zero!

Regente de Boteco IV: Ah é. Coca Zero. Como vocês pretendem pagar por isso?

Kirk: Nossa idéia era trocarmos alguns cristais de dilítio pela Coca.

Regente de Boteco IV: Ih, mas eu não vou ter troco. Pode ser bala?

Spock: Fascinante.

Kirk: Regente, nós temos que continuar nossa missão. Você pode ficar com o troco.

Regente de Boteco IV: Ah, então tá.

Kirk: Quais as coordenadas para transportarmos a Coca?

Regente de Boteco IV: Não, espere. Eu tenho que pegar lá na geladeira. Preciso de uns dez minutos.

Kirk: Regente, isto é tempo demais. Precisamos de apenas uma lata.

Regente de Boteco IV: É, mas eu tenho que ir até a geladeira, procurar, trazer para cá...

Kirk: Sr. Spock?

Spock: Os sensores indicam que a geladeira está a aproximadamente 1,5m dela.

Kirk: Não temos alternativa, a não ser esperar. Caso contrário, poderíamos criar um incidente diplomático aqui. Regente, nós já estamos transportando os cristais para o planeta.

Regente de Boteco IV: É? Mas eu nem sei quanto deu. Preciso ver o preço da Coca.

Kirk: Não tem importância. E se você nos passar as coordenadas da geladeira, nós transportaremos a Coca para a nave.

Regente de Boteco IV: Tá. Espera aí que eu tenho que achar as coordenadas. A menina do caixa guarda sempre isso aqui, mas ela foi ao banco.

Spock: Não há registros de Menina do Caixa no banco de dados, senhor. Acredito que ela esteja se referindo a uma divindade.

Regente de Boteco IV: Oi? Vocês ainda estão aí?

Kirk: Sim.

Regente de Boteco IV: Encontrei um papel aqui, acho que são as coordenadas. O que vocês querem mesmo? É uma Coca?

Kirk: Sim!

Regente de Boteco IV: Tá. Estou transferindo.

Kirk: Scotty, transporte uma lata de Coca Zero nas coordenadas que estamos recebendo, direto para a engenharia.

Scott: Sim, capitão.

Kirk: Obrigado, regente.

Scott: Capitão, transporte executado com sucesso.

Kirk: Regente, vocês receberam os cristais de dilítio?

Regente de Boteco IV: Sim, acho que sim. Alguém me falou algo aqui sobre isso.

Kirk: Então, não tomaremos mais seu tempo. Obrigado. Sr. Sulu, saia de órbita e trace um curso até a última posição da USS Diagramador.

Sulu: Sim, senhor. Saindo de órbita. Curso traçado.

Kirk: Dobra quatro. Acionar.

Sulu: Dobra quatro.

Uhura: Capitão?

Kirk: Sim, tenente?

Uhura: O Sr. Scott está na engenharia. Ele informa que a regente de Boteco IV não enviou Coca Zero, mas sim duas latas de suco e uma garrafa de chá gelado.

Spock: Fascinante.

Kirk: Estamos atrasados para o encontro com a USS Diagramador, tenente. Diga ao Sr. Scotty para se virar com isso mesmo. E, tenente?

Uhura: Sim, senhor.

Kirk: Envie uma mensagem à Frota Estelar, alertando a todas as naves que evitem, a qualquer custo, contato com o planeta Boteco IV.

Uhura: Alegando qual motivo, senhor?

Kirk: Informe que os nossos sensores não encontraram vida inteligente neste local.

"Ninguém irá estabelecer contato com este planeta
até segunda ordem, senhores."

10 de março de 2010

O Céu é o Limite

Mais uma do boteco aqui em frente à redação.

Dias desses estava vindo para o trabalho e percebi que tinha somente dois cigarros. Como eu já estava em fechamento – na verdade, eu não sei se eu estava em fechamento de novo, se eu ainda estava em fechamento ou se eu já estava de novo em fechamento – dois cigarros me manteriam vivo por aproximadamente 0,0078% do meu dia.

E como eu percebi isso já quase chegando ao trabalho, não tive alternativa a não ser parar no botequim.

Antes de entrar no bar, olhei no relógio e comecei a fazer contas. Eram 10h15min. Com sorte, eu seria atendido às 10h45min. O funcionário demoraria cerca de vinte minutos para entender o que eu queria, mais uns quinze para pegar o cigarro e calcular o troco. Podemos colocar aí uns cinco minutos adicionais para eu brigar por causa do troco errado e pronto: eu estaria na redação com cigarros às 11h30min, mais ou menos.

Ou seja, ainda daria para salvar um pouco da manhã.

Mas os anos em que eu trabalho aqui não me preparam para este boteco – seus atendentes conseguem me surpreender a cada dia.

Entrei no bar e me encostei ao balcão.

Não havia ninguém ali. O bar estava deserto. Olhei para cima e constatei que as luzes estavam acesas – o que indicava que o bar estava oficialmente aberto. Não havia nenhum sinal de presença humana ou animal (o que no caso dos atendentes é a mesma coisa) no local.

Sem saber ao certo o que fazer naquele ambiente desolado e apocalíptico, resolvi tomar a iniciativa.

– Hã... Oi?, disse em voz alta.

Nada. O vento soprava. Tufos de mato passavam rolando pela calçada. Comecei a considerar a hipótese de a cidade estar sofrendo um ataque de mortos vivos e eu ser o único a não saber de nada. A idéia me pareceu atraente – sim, eu sou problemático e fico bolando estratégias de sobrevivência a ataques de zumbis o tempo todo – mas logo voltei à realidade e lembrei que eu precisava apenas de cigarros para poder ir trabalhar.

– É.... Bom dia?, eu repeti.

Não tive resposta. Estiquei o corpo por cima do balcão, esperando encontrar o cadáver de um dos atendentes no chão, mas não vi nada disso, apenas a tradicional gordura de chão de boteco e um pacote de latas de Coca Zero. Na mesma hora, percebi que se minha teoria dos mortos vivos se confirmasse, aquelas latas de Coca seriam um bem precioso, eu poderia levar aquilo para casa e estocar...

– Pófalá!

Em uma fração de segundos, eu dei um pulo, quase enfartei e tive o impulso de golpear a pessoa que estava atrás de mim com o porta-guardanapo que vi sobre o balcão. Mas, enquanto eu ainda estava na parte da parada cardíaca, consegui me virar e dei de cara com uma das atendentes (na verdade, era o gênio matemático que trabalha ali).

Ela estava parada na calçada, segurando uma vassoura. Se eu não estivesse branco de medo, teria perguntado a ela se a vassoura era para espantar os mortos vivos. Além disso, não tive tempo de perguntar nada, ela insistiu:

– Pófalá!

– É... Eu queria dois Marlboro Box.

– Eu to varrendo a calçada, entra lá e pega!

– Oi?

– Eu tô varrendo a calçada!

– Sim, essa parte eu havia entendido. Mas o cigarro...

– Entra lá e pega!

Olhei para os lados, procurando a câmera escondida. Nada. Ela estava falando sério, não era pegadinha nenhuma. Ou, claro, ainda não havíamos chegado ao clímax da coisa (provavelmente haveria uma cascavel escondida atrás do balcão). Dei de ombros e aceitei a estratégia do self service adotada pelo botequim, fazendo o que ela mandou – afinal, ela tinha uma vassoura nas mãos e eu estava totalmente desarmado, tendo apenas o porta-guardanapo à disposição.

Contornei o balcão e fui até a parte do caixa, pegar os cigarros. E, claro, rezando baixinho, para que ninguém que eu conhecesse resolvesse passar por ali naquele momento.

E, quando meu dia parecia não poder ficar pior, os astros se alinharam de uma determinada forma que todo o constrangimento do universo se irradiou em mim.

– Oi? É... Bem... Eu meio que não alcanço o lugar dos cigarros.

Merda de altura. Merda de 1.60m.

– Quequeé?

Não, por favor, não me faça repetir isso. Olhei para cima e vi os cigarros, no alto daquela prateleira que, para mim, parecia uma montanha.

Também vi, por trás dos cigarros, um grupo de anjos debruçados numa nuvem apontando para mim e gargalhando. Um deles estava filmando tudo. Segurei meus impulsos de fazer um gesto obsceno na direção da câmera, mas, por outro lado, prometi a mim mesmo que não ficaria dando pulinhos atrás do balcão do bar para tentar alcançar os cigarros.

Estiquei o braço o melhor que pude, fiquei na ponta dos pés, como se executasse um passo de A Morte do Cisne naquele palco engordurado (“procurando bem, todo mundo tem cigarro, só a bailarina que não tem”, cantaria Chico Buarque em minha homenagem) e nada de alcançar os cigarros.

Não tinha jeito.

– Eu não alcanço os cigarros.

– Tem um banco aí!

O grupo de anjos havia se transformado em uma multidão. Olhei ao redor e vi o tal do banco, de plástico verde e mais engordurado que o chão do boteco.

Peguei o banco e, ignorando meu medo de altura, subi em cima dele e, com os olhos fechados, comecei a passar os dedos pelos maços de cigarro, tentando identificar os Marlboro pelo tato (demolidor mode: on) e ignorando o fato de que aquela merda não parava de tremer sob meus pés.

Não deu.

Abri os olhos – percebi que os anjos estavam fazendo coreografias e agitando bandeiras –, peguei os boxes de Marlboro com uma mão e, usando a outra para me apoiar na caixa registradora como se minha vida dependesse disso – e dependia – desci com cuidado do banco.

E, claro, ainda rezando, mas não mais para não ser visto, e sim para que o banco não virasse e eu me estatelasse no chão, tendo um traumatismo craniano. Afinal, se eu caísse ali, os funcionários do boteco só perceberiam isso no meio da tarde, e aí já seria tarde demais.

Apoiei os pés no chão, com calma - se o chão não fosse tão engordurado, eu teria bancado o Papa e beijado o piso, mas apenas arrumei minha camisa, saí do boteco e me aproximei da vendedora, com o pouco de dignidade que me restava. Paguei minha conta e vim trabalhar, tentando fingir que aquilo era absolutamente normal.

Mas, sinceramente, eu preferia os mortos-vivos.

6 de fevereiro de 2010

O Urso Adormecido e o Gênio Matemático

Eu adoro a frase “aqueles que não compreendem o passado estão fadados a repeti-lo”. E acho que isso é verdade. Se você passa por um determinado acontecimento diversas vezes na sua vida, é porque você não entendeu ainda o que está acontecendo. Ou seja, a culpa é exclusivamente sua.

Ou não.

A atendente do boteco aqui em frente à redação é um exemplo do “ou não”.

Aparentemente, ela não entende o passado, mas também não tem muita intimidade com a matemática. E, assim, ela é obrigada a atravessar mais de uma vez algumas situações, mas sempre me carregando a tiracolo.

Lembram-se deste post aqui? Pois bem, o que vou relatar agora aconteceu ontem.

Cheguei ao boteco e pedi dois boxes de Marlboro. Ela me deu os cigarros e disse, em alto e bom e som:

– Oito e cinqüenta.

Eu abri a carteira, puxei uma nota de R$ 10,00 e entreguei. Ela pegou a nota e falou alguma coisa incompreensível. Na dúvida, eu apenas sorri.

E ela me devolveu uma nota de R$ 2,00.

Calculei que ela deveria ter falado algo como “estou com pouco troco aqui, depois você me devolve 50 centavos”. Afinal, esta seria a única explicação para ela ter me voltado R$ 2,00. Num mundo normal, se eu lhe desse, então, cinquenta centavos, tudo estaria resolvido. Assim, abri a carteira e disse:

– Olhe, eu tenho duas moedas de 25 centavos aqui. Já fica certo.

– Ah, ok.

Ela pegou as moedas e analisou o que estava acontecendo. Talvez fossem muitos números para ela, mas ela assumiu, imediatamente, a expressão de “este programa executou uma operação ilegal e será fechado”. Puxou uma nota de R$ 1,00 e me devolveu.

– Agora eu te dou mais um real e fica certo.

– Como assim?

– Cinqüenta centavos que eu estava te devendo com mais estes cinqüenta centavos, dá um real. Pronto.

– Eu estava devendo cinqüenta centavos.

– Não, você me deu dez reais.

– Sim, e você me devolveu dois.

– E agora estou dando mais um real, por causa dos cinqüenta centavos.

Foi neste momento a China acordou. China é a dona do boteco. Eu a chamo assim por causa da II Guerra Mundial, quando falavam que a China era o urso adormecido. A diferença é que, de acordo com os historiadores, se a China acordasse, a guerra tomaria rumos totalmente diferentes. Agora, se a dona do boteco acordar um dia, ninguém vai perceber, porque ela vai continua imóvel. Aliás, é provável que ela apenas se espreguice e resmungue um "Guerra? Que guerra? Calma, acabei de acordar".

Não é exagero meu. Ela é praticamente uma medusa que se esqueceu dos próprios poderes e, ao se pentear uma manhã, olhou no espelho e virou pedra.

Ela estava ao lado da atendente, alheia a tudo o que acontecia, com seus tradicionais olhos perdidos e aparentemente presa em algum canto do seu mundinho. Mas, a confusão envolvendo centavos e reais pareceu tê-la incomodado e ela despertou momentaneamente do transe. Demonstrando uma perspicácia ímpar naquele boteco, ela disse

– Ele está certo, pega a nota de um real.

A atendente olhou para ela com cara de interrogação. Depois olhou para mim e para a nota de um real. Todas as fibras do seu ser gritavam que ela estava sendo enganada em algum momento, mas isso estava além da sua compreensão. Com olhos de “a conta não fecha”, suspirou e pegou a nota.

Eu virei as costas e saí do boteco. O urso voltou a adormecer. E, como a atendente não entendeu nada do que aconteceu, ela vai ter que passar por tudo isso de novo, e em breve.

Adivinhem com quem.

20 de agosto de 2009

O Velho e o Bar

Aqui na frente do trabalho tem o famigerado boteco do qual já falei algumas vezes. Sim, aquele boteco (leia aqui e aqui). Por sinal, outro dia eu procurei no Google e descobri que ele é relativamente conhecido aqui na Zona Oeste. Aqui no blog, ele é razoavelmente famoso pela incompetência dos funcionários, que chega às raias do absurdo.

Entretanto, me ocorreu outro dia que eu nunca havia falado do Velho do Boteco. Assim mesmo, em maiúscula. Velho do Boteco. É o nome dele. Trata-se de uma entidade que, talvez por algum tipo de maldição, ou por simplesmente não ter o que fazer (o que é mais provável), escolheu o bar aqui da frente como habitat natural.

Ele não vai ao bar, ele mora no bar.

Ou, em outras palavras, ele nunca está no bar. Ele É no bar.

Não importa a hora do dia que você for ao boteco, este lá, sentado no balcão, ou numa cadeira ao lado do caixa – sim, ele move as cadeiras do boteco ao bel-prazer - fazendo o que ele faz de melhor: nada. Ele fica sentado ali, observando o mundo passar (se você é novo aqui e não clicou nos links acima, vale dizer que ele não fica observando as pessoas serem atendidas porque ninguém consegue ser atendido naquele boteco).

E não, ele não é daqueles alcoólatras solitários que afoga as mágoas da vida num bar. Ele apenas fica ali o tempo todo, sem fazer nada.

Quando eu comecei a trabalhar aqui, reparei no velho logo de cara. Primeiramente, achei que ele tivesse algum tipo de problema mental, já que o layout dele não ajuda muito. Seus braços e pernas não são exatamente proporcionais, e ele anda encurvado, como se estivesse eternamente brincando de Corcunda de Notre Dame, mas sem a corcunda.

Além disso, ele mesmo não se ajuda muito. Está sempre com uma calça jeans que se esforça, mas não consegue de jeito nenhum chegar até o final da perna (imagine o Mazzaropi, ou um daqueles adolescentes que cresceu 25 cm em apenas dois dias e as calças não servem mais).

Até aí, ok. Eu estou longe de ser uma das pessoas mais lindas do mundo, mas a feiúra do velho tem o agravante de que ele é chato. Ele é muito chato. Além do fato de você não conseguir entrar ali nem para pegar um chocolate sem ter que olhar para a cara dele, ele consegue ser inconveniente em todos os minutos.

Se agir de forma inconveniente é uma arte, o Velho do Bar é uma espécie de Van Gogh. Um gênio, décadas à frente de seu tempo, e cujo trabalho criou uma nova escola no mundo da inconveniência.

Em primeiro lugar, é o volume. Ele não consegue se comunicar usando um número de decibéis menores que o de Boeing. Outro dia, para variar eu não consegui almoçar, e, no meio da tarde, desci para comer uma coxinha no boteco. Óbvio que ele estava sentado no balcão, lendo o cardápio – apenas por curiosidade, já que eu nunca vi o Velho pedir nada.

Sentei uns dois bancos ao lado dele, pedi a coxinha (que, como de costume, chegou dez minutos depois) e comecei a comer lendo o jornal de esportes – sim, porque, nesse bar, o atendimento é tão lerdo que eles até colocam jornais no balcão, como se fosse uma sala de espera.

De repente, um estrondo ao meu lado. (A propósito, um dos donos do bar é conhecido por uma palavra que é o mesmo nome de um peixe. Para preservar a identidade dos envolvidos, vou trocar por outro peixe).

– TUCUNARÉ! POSSO USAR O TELEFONE?

Dei um pulo do banquinho, quase caindo no chão. Óbvio que era o Velho. O dono do bar fez que sim com a cabeça e ele começou a discar.

– EU VOU LIGAR PARA A MINHA FILHA, TUCUNARÉ!

Eu olhei para ele e suspirei, ao menos para ver se ele se tocava. Nada.

Enquanto a maldita da filha dele não atendia, ele achou que seria de bom tom explicar ao dono do bar, a mim, e a todas as pessoas num raio de 2 km os motivos de sua ligação.

– PORQUE HOJE MINHA FILHA VAI AO MÉDICO, TUCUNARÉ! E EU VOU TER QUE CUIDAR DO FILHO DELA!

Pobre criança.

A filha, obviamente, não atendeu ao telefone – deve ter Bina em casa, e reconheceu que a ligação era do bar do Tucunaré.

– ELA NÃO ATENDEU!

E é assim todos os dias, todas as horas.

As pessoas que estão no bar não são apenas obrigadas apenas a conviver com o Velho do Bar, mas também a saberem quais seus pratos preferidos, os seus compromissos diários (todos fictícios, já que ele não sai do bar) e seus palpites sobre a previsão do tempo.

O único intervalo é quando ele almoça no bar (o único momento no qual ele consome algo), ao lado de duas pessoas: um velho com o layout mais estranho ainda (metade do tamanho do Velho do Bar, o mesmo penteado do Einstein e sempre de suspensórios) e um moleque de cerca de vinte anos, que deve ter sofrido alguma maldição e foi condenado a almoçar com essas duas figuras pelo resto da vida.

Mas provavelmente ele almoça em silêncio, para recuperar o fôlego e voltar a gritar a tarde inteira no boteco. E sempre coisas desinteressantes, que servem apenas para elevar a poluição sonora da cidade. Não importa quanto tempo você fique no boteco, você será brindado com umas das perolas de sabedoria do Velho do Bar, como:

– O DIA HOJE ESTÁ FEIO, NÉ, TUCUNARÉ? (quando está chovendo torrencialmente)

– TUCUNARÉ! HOJE TEM RODADA DO BRASILEIRÃO! (E só isso. Ele não tem mais nada a dizer sobre o assunto, apenas essa frase.)

– TUCUNARÉ! VOU TER QUE IR ATÉ A PREFEITURA HOJE! (Mas não vai. Ele fala isso e senta na cadeira ao lado do caixa).

Mas o cúmulo foi ontem. Eu estava tentando pagar por um chocolate, e o Velho ali, ao meu lado, sentado na cadeira, olhando o mundo. De repente, ele olhou para dentro do bar e viu que o chapeiro estava guardando algumas centenas de salsichas no congelador. Obviamente, ele não perdeu tempo:

– ISSO AÍ É SALCHICHA?

Sal-SI-cha. Velho tapado.

O chapeiro ergueu os olhos para mim, pedindo ajuda com os olhos. Eu dei de ombros, deixando claro que aquilo não era problema meu. Ele voltou a olhar para o velho e fez que sim, com a cabeça.

– ENTÃO ME DÁ DUAS!

Deixe os almoços de lado. Tudo o que eu vi o Velho consumir até agora, no bar, foi isso: duas salsichas congeladas. Não tem como ser mais tosco. Mas, ao menos, ele foi educado. Porque, quando eu estava voltando para a redação, já no meio da rua, ainda ouvi:

– TUCUNARÉ! PEGUEI DUAS SALCHICHAS CONGELADAS AQUI!

Suspirei e continuei andando. O problema não é que a humanidade não deu certo. O problema é que ela aparentemente se orgulha disso.

15 de junho de 2009

R$ 0,25 - The Number of the Beast

Acabei de voltar daquele boteco habitado por criaturas interdimensionais que fica aqui embaixo da redação. Comprei algo para beliscar – durante o fechamento da revista, almoço é algo raro – e fui pagar. Quem estava no caixa era a nova aquisição do grupo, uma baixinha de cerca de 40 anos.

Vale dizer aqui que minha primeira experiência com ela já não havia sido boa. Uns dias atrás, eu desci para comer um sanduíche. Encostei-me no balcão e, depois de longos minutos – isso é padrão neste boteco –, ela veio me atender.

– Eu queria um X-Salada, por favor.

– E o que você quer?

– Hã?

– Você disse que queria um X-Salada. Então você não quer mais. O que você quer?

Aquilo me deixou paralisado. Minha primeira reação foi fazer minha careta de mongolóide e dar meu grito retardado de felicidade – sim, eu faço isso às vezes – mas a tentativa de humor dela travou minha mente (uma janela apareceu no meu cérebro informando que “este programa executou uma operação ilegal e será fechado”). De lá para cá, eu não tive outro contato direto com ela. Até hoje.

Fui ao caixa pagar - minha conta havia dado R$ 4,25. Entreguei uma nota de R$ 5,00. Ela me devolveu uma moeda de R$ 0,25.

Fiquei olhando para ela, esperando alguma piadinha. Mas ela não disse nada: aparentemente, ela havia se refugiado dentro de algum mundo próprio, onde R$ 4,25 + R$ 0,25 = R$ 5,00.

Olhei para ela e disse:

– Você me deu troco a menos.

– Não. Você me deu uma nota de 5 reais.

– Sim. E isso apenas confirma o que eu disse: você me deu troco ao menos, eu respondi, mostrando a moeda.

Ela olhou a moeda na minha mão e pareceu considerar as hipóteses do que poderia ter acontecido. Mas, algo me diz que, enquanto ela executava aquela intricada operação matemática, seus poucos neurônios começaram a brigar entre si e, aparentemente, deixaram de se falar, magoados. Assim, ela voltou ao argumento anterior.

– Você me deu uma nota de 5 reais.

Suspirei. Nós já havíamos passado por isso.

– Sim, e você me deu 25 centavos de troco.

Foi neste momento que ela teve uma idéia brilhante, que iria revolucionar toda a matemática moderna. Com tom de voz decidido, ela pediu a moeda de R$ 0,25. Eu entreguei e ela me devolveu uma moeda de R$ 1,00.

– Pronto.

– Pronto o quê?

– Seu troco.

– Mas agora você me deu troco a mais. Não tem como acharmos um meio termo?

– Não, com essa moeda de 25 centavos, você me deu R$ 5,25. Eu devolvo um real e fica tudo certo.

A genialidade daquilo me comoveu. Como uma pessoa sozinha poderia caminhar por essa linha de raciocínio, e com tanta agilidade assim? Fiz uma nota mental para não me esquecer de mandar um e-mail para os organizadores do prêmio Nobel sobre ela, assim que voltasse para a redação.

Segurei a moeda de R$ 1,00 e, pacientemente, disse:

– O seu raciocínio é impecável, a não ser pelo fato de que eu não dei a moeda de 25 centavos. Você me deu. Eu apenas devolvi.

– Você acabou de me entregar a moeda!

– Sim, porque você havia me dado como troco errado!

– Olhe, você me deu 5 reais. Sua conta era R$ 4,25. Aí, você me deu os 25 centavos...

– Vamos começar de novo?

– Oi?

– Vamos começar de novo. Me devolve os 5 reais, por favor.

Ela abriu o caixa, pegou a nota de R$ 5,00 e me entregou, desconfiada. Eu perguntei:

– Quanto é minha conta?

– R$ 4,25.

– Isso. E estou pagando 5 reais. Logo, você me devolve, de troco, 75 centavos. Mais nada.

– Mas os 25 centavos...

– Deixe os 25 centavos de lado. Mantenha seu foco na nota de 5 reais que está na minha mão.

– Ok.

Entreguei a nota. Ela abriu o caixa e me deu R$ 0,75. Eu agradeci e comecei a guardar na carteira. Olhei para ela, e percebi que ela analisava a nota de R$ 5,00 que tinha nas mãos. Ela tinha o olhar aguçado de um perito em arte que analisa dois quadros iguais para tentar identificar qual deles era a réplica. Guardei meu troco na carteira e comecei a ir embora.

– Obrigado. Até logo.

– Mas este 25 centavos aqui...

– Tchau!

Virei as costas e deixei ela e a moeda se entenderem ali. Mas algo me diz que isso ainda não acabou. Deixo, então, o Top 5 Alternativas que a Mulher do Boteco Estará Fazendo na Próxima vez que Eu Passar Ali:

1. Em pé, em frente ao caixa, observando atentamente a moeda e a nota, tentando descobrir o que deu errado.

2. Jogando a moeda para o alto e gritando como uma primata, ao som de Assim Falou Zaratustra (2001: mode on)

3. Resolvendo uma enorme equação envolvendo os valores R$ 5,00, R$ 0,25, R$ 1,00 e R$ 0,75 na lousa que eles usam como cardápio.

4. Me esperando na porta do prédio onde trabalho, para me entregar a moeda de R$ 0,25. Afinal, ela é brasileira e não desiste nunca.

5. Pendurando uma placa com a inscrição “Não aceitamos moedas de R$ 0,25” ao lado do caixa.

5 de setembro de 2008

O Circo Chegou à Cidade

Há muito tempo atrás, eu falei de um botequim que fica na frente da redação, e que conseguia oferecer o pior atendimento da Zona Oeste de São Paulo. E, com o meu novo hábito de só comprar cigarros soltos – a quem possa interessar, estou mantendo a média de 5 ou 6 por dia, antes de desferir o golpe final no vício – me recuso a ir até este boteco, por uma questão de matemática: não seria lógico eu esperar quinze minutos para ser atendido e comprar algo que eu consumiria em cinco minutos.

Com isso, minhas opções foram restritas a uma: o boteco boca de porco, que fica uns dez metros na frente. Na verdade, eu procurei por outra alternativa durante alguns dias, mas 1) a padaria aqui perto não vende cigarro solto, e 2) o atendimento do Frans Café consegue ser pior que o do primeiro boteco. Ou seja, não me sobraram muitas opções.

Antes de continuar, quero deixar claro que a escolha não foi fácil. O boteco é boca de porco até mesmo para os meus padrões – vale lembrar que, com 16 anos, não era difícil eu e mais dois amigos beber pinga ao lado de pedreiros e guardas-noturnos nos botequins de Moema. Ou seja, eu não tenho muita frescura com esse tipo de coisa. Mas esse boteco abusa do direito de ser nojento. É daqueles bares em que as luzes ficam apagadas boa parte do dia, o chão dá sempre a impressão de estar molhado e o balcão aparente não ser limpo desde a Copa de 70 - e ainda é mais limpo que os torresmos, pedaços de costela e coxas de frango que ficam expostos ali, ao Sol.

Um dia, a vontade de fumar apertou, e eu olhei para o botequim caindo aos pedaços, e apliquei a teoria desenvolvida por Graciliano Ramos no destino na cachorra Baleia em Vidas Secas: “não tem tu, vai tu mesmo”. Ou seja, já faz algumas semanas que eu entro ali umas três vezes por dia para comprar um cigarro solto. No começo, foi difícil para os atendentes entenderem o que eu queria, mas, agora, é só eu colocar os pés lá dentro e a mulher do caixa já separa um Marlboro para mim.

Ou, ao menos, separava.

Parece que o bar mudou de dono e o novo proprietário escolheu os membros de sua nova equipe provavelmente pesquisando as sobras de algum circo. Na verdade, o estabelecimento já tinha uma tendência para isso. Um dos funcionários do turno da manhã é a coisa mais próxima de um lobisomem que eu já vi, e ele aparentemente não faz nada, a não ser andar pelo bar carregando um engradado de cerveja vazio. Ele só faz isso, já há uns cinco anos. Enfim, agora, parece que a bizarrice foi adotada oficialmente como estratégia comercial lá dentro. E isso vale para os funcionários antigos, que tiveram que aderir à nova filosofia da empresa.

Outro dia entrei no bar e pedi:

– Me dá um Marlboro solto?

A mulher do caixa pegou o cigarro e me deu. Ela ficou olhando para mim. Eu acendi e perguntei:

– Quanto é?

– O seu foi o que mesmo?

Olhei ao redor. Eu era o único cliente do bar.

– Como assim?, respondi.

– Qual foi seu pedido?

– Meu pedido foi o cigarro. Aquele que você me deu agora, sabe?

– Foi só isso?

– Hum... Vamos ver. Eu acabei de entrar aqui. Você me viu entrando. Eu me encostei no balcão, pedi um cigarro solto. Você se virou de costas, pegou o cigarro, voltou a ficar de frente para mim. Me entregou o cigarro. Eu acendi e perguntei quanto eu devo. Hum... É. Acho que foi só isso.

– Trinta centavos.

Paguei e saí de lá. Achei, sinceramente, que ela não estava num bom dia, só isso. Ledo engano.

Hoje a coisa foi pior.

Pedi um cigarro, paguei e pedi para ela me emprestar o isqueiro. Ela revirou os bolsos e colocou um abridor de garrafas no balcão e foi lá para a cozinha. Eu fiquei imóvel, sem saber o que fazer. Olhei o abridor de garrafas; o abridor de garrafas olhou para mim, prestes a dizer que aquilo não era culpa dele; o cigarro olhou para o abridor de garrafa, depois para mim e começou a rir. E eu fiquei ali com o cigarro apagado na mão. Mas ela voltou:

– Pois não?

Achei melhor ignorar o fato de que, aparentemente, ela estava acreditando que eu havia acabado de entrar no bar. Pelo jeito, a cada dez minutos o cérebro dela dispara um comando de reinicialização - e, pior, não salva nenhum documento que estava aberto. Resolvi não explicar a ela que já estava no bar e fui direto ao ponto:

– Você me empresta o fogo?, perguntei, mostrando o cigarro.

Ela olhou fixamente para mim. Seus olhos brilharam. Aparentemente, ela havia me reconhecido.

– Eu não te emprestei o isqueiro agora mesmo?

– Não. Você me emprestou o abridor de garrafa. Eu agradeço, mas o cigarro já estava aberto. Eu queria mesmo era acender.

– Ah. Espera.

Virou as costas e voltou para a cozinha. O abridor de garrafas deu de ombros e fez uma cara de “não me pergunte”. De onde eu estava, pude vê-la conversando com o lobisomem lá dentro. Comecei a ficar com medo. Eles conversaram durante alguns segundos. Pensei em ir embora e conseguir um fósforo em outro lugar, mas ela voltou antes que eu pudesse sair e arremessou uma caixa de fósforos em mim. Isso não é erro de digitação. Ela não me entregou os fósforos, ela arremessou em mim – o que me faz estar, até agora, agradecendo o fato de ela ter sido mais gentil quando me entregou o abridor de garrafas. Acendi o cigarro e saí dali.

Mas, agora, à noite, a coisa é pior. Isso porque um dos novos contratados é um “it” negro, de uns 20 anos. Digo “it” porque ele não é nem “he” ou “she”. Vejam bem, ele não é gay. Ele (ou ela) é apenas não classificável. Ele (a) já me atendeu umas quatro vezes, mas ainda não sei qual o seu sexo. Mas o genial é o estilo de atendimento do it, que consiste, literalmente, na técnica hit & run. Ele (a) usa táticas de guerrilha, aparecendo e sumindo em segundos. Ontem, entrei lá com um amigo e o it veio me atender.

– Pois não?

– Eu queria uma Coca Zero e ele quer um café. E eu quero um Marlboro solto.

– Uma Coca Zero e um Marlboro solto. E você quer um café. Com leite?

– Puro, meu amigo respondeu.

– Uma Coca Zero e um Marlboro solto. E um café puro. Só um minuto.
E, assim, que acabou de dizer isso, virou as costas e sumiu dentro do bar. Sumiu. Desapareceu totalmente. Foi erradicado (a) do bar. Tive que esperar outra atendente chegar e repetir o pedido. Acabei a Coca, meu amigo acabou o café, e o it ainda não havia retornado. É a quarta vez que ele (a) me atende, é a quarta vez que ele (a) faz isso.

Este boteco está me levando a crer que parar de fumar pode ter sido a atitude mais razoável que eu tomei na minha vida. Mas, enquanto ainda preciso freqüentá-lo, deixo vocês com o Top 5 Coisas mais nojentas vendidas lá dentro:

1. Costela de Boi
– fica exposta numa travessa, envolva num líquido (acredito que seja óleo) amarelo, curtindo ao Sol.

2. Coxa de Frango
– consegue ser mais nojenta que a costela de boi, pois, além do óleo, contém rodelas de cebola que estão ali desde a Idade Média, se fundindo com a bandeja. Mas acaba em segundo lugar porque fica na sombra.

3. Torresmo
– na verdade, nem é tão nojento. Mas como a gordura da costela de boi fica pingando nele, seu desempenho na escala de escatologia sobre bastante.

4. Carne assada
– é aquela carne que tem uma cenoura enfiada no meio, no melhor estilo Mário Gomes de ser (vocês conhecem a lenda, certo?). Mas a aparência dela indica que o boi sofria de uma quatro doenças (uma delas já estava em estágio terminal) antes de ir para o prato.

5. Costela de Boi
– sim, ela entra duas vezes na lista.

20 de abril de 2007

Direitos Iguais!

Nos Estados Unidos, o coreano Cho Seung-hui assassinou 32 pessoas na universidade da Virginia e se suicidou logo em seguida.

No Rio de Janeiro, um tiroteiro entre policiais e traficantes em plena manhã de terça-feira resultou em 13 mortos - além de três feridos.

No Iraque, mais de 200 pessoas (entre elas, civis) morreram durante um conflito ao longo da semana.

Em meio a tanta violência, deixo aqui a seguinte pergunta:

Por que ninguém faz nada com os sujeitos que ficam, toda sexta-feira, cantando pagode no boteco ao lado do meu trabalho?*

Enquanto ninguém responde, seguem 5 rimas obrigatórias em qualquer letra (eufemismo mode: on) de pagode:

1. Saudade / Vontade
2. Neném / Meu Bem
3. Mais / Atráis (sim, eles falam "atráis" mesmo)
4. Coração / Paixão
5. Amor / Dor

* por uma questão de bom gosto, esse post não será incluído na tag "música".

14 de setembro de 2006

Hulk na Encruzilhada... E Jaime no Boteco.

Quem gosta de quadrinhos e tem por volta de 30 anos deve lembrar da saga do Hulk na Encruzilhada. Isso foi publicado aqui no Brasil (acho que) por volta de 88 ou 89, ainda no tempo dos formatinhos. Enfim, a história era um tesão: o Hulk, totalmente selvagem e irracional, era exilado da Terra pelo Dr. Estranho e vai parar na tal Encruzilhada, que era um portal que ligava diversas dimensões. Em cada história da saga, ele entrava numa dimensão diferente, tentando achar o caminho de volta. Ou seja, literalmente, você não sabia o que esperar a cada capítulo.

Exatamente como o boteco aqui da frente.

Cada vez que eu entro ali, me sinto como o Hulk. Não sei que tipo de seres vou encontrar ali; não sei como serei tratado no local; não sei se vou sair vivo dali. A única coisa que eu tenho certeza é de que, caso eu seja atendido, eu serei mal atendido. O boteco em questão (que não é sujo como um boteco deveria ser, mas também não é limpo como a lanchonete que os donos acreditam que aquilo seja) é um mundo complexo, um ecossistema fechado, que reage mal à presença de estranhos. É um micro universo formado pelos seguintes organismos:

O Chapeiro (ou O Killer Beast): deve ser extremamente perigoso, já que passa o dia trancado num cubículo com uma chapa e um fogão. Seu único contato com o mundo exterior se dá por meio de rápidas olhadas que ele arrisca, através da fresta na qual ele entrega os sanduíches. Uma vez, numa dessas olhadas, arrisquei cumprimentá-lo e ele apenas estreitou os olhos antes de sumir novamente. Quando está fazendo Sol (e quando ele acerta no X-Salada, o que é bem difícil), o deixam sair por cinco minutos e fumar um cigarro acorrentado na árvore da calçada.

A Garçonete (ou A Nutricionista): é a única garçonete do universo que escolhe o que os clientes vão comer. Um dia eu cheguei lá morrendo de pressa e pedi uma coxinha. A resposta dela foi categórica: "Não. Ontem você já comeu uma coxinha. Hoje você vai comer o prato do dia, porque faz bem". Tentei argumentar, mas não deu certo. Só funcionou quando eu disse que "ok, eu como o prato, mas vou pagar só uma coxinha". Ela fez cara feia e praticamente jogou a coxinha em mim.

O Garçom (ou a Aberração): se fosse realizado um concurso para definir as pessoas mais escrotas do planeta, ele receberia um prêmio especial do Júri. Saído diretamente da rua de Faça a Coisa Certa, do Spike Lee, ele se acha a coisa mais malandra do mundo. Chama toda mulher de "gata" e todo homem de "bródi". Quando você pergunta o que tem para comer hoje, ele responde como "o misto quente tá bem lôco". A última vez que o vi, ele estava deitado na calçada do boteco, sem camisa, tomando Sol. E eu ali, no balcão, esperando para ser atendido.

O Regente (ou o Não Tem): é o mais gente boa do lugar, mas, infelizmente, ele É do lugar. Eu acredito que ele seja sócio, mas minoritário, porque somente tem acesso a uma das portas da geladeira que fica sob o balcão. Qualquer coisa que você peça a ele (seja uma Coca, seja um Marlboro, seja um chocolate) ele abre a porra da portinha, fica 4 minutos olhando na geladeira e volta com cara de decepcionado, dizendo que "Não tem. Acabou."

A Imperatriz (ou a Gorda): é a pior de todas. É a dona do lugar, mas trabalha com a competência de um estagiário. Ela está sempre sentada, batendo papo com alguém e com aquele olhar perdido, fitando o infinito. Manja o De Niro no Tempo de Despertar? É igualzinho, com a diferença que o De Niro foi indicado ao Oscar. Às vezes o bar está totalmente vazio e eu entro. Sento no balcão na frente dela e sou sumariamente ignorado por 5 minutos, que é o tempo que o cérebro dela deve demorar para processar a informação de que há um cliente no lugar. Eu tusso, assobio, finjo que falo no celular. Tudo para chamar a atenção dela. Em vão. O cérebro dela funciona num ritmo próprio e isso precisa ser respeitado. Ao perceber que estou ali, ela vira e faz a pergunta do ano:

– Você vai querer alguma coisa?

Penso em responder que "não, estou apenas admirando a sua beleza", mas sei que a diplomacia num caso desses é essencial. Ainda mais quando você está no território deles.

– Uma Coca.

– Geli-limão? (auto-reference mode on)

– (suspiro) Não.

Aí ela começa a gritar com a Nutricionista (que não está à vista) que "um cliente quer uma Coca!". O chapeiro se assusta com o barulho e espia rapidamente pela fresta antes de se esconder novamente. A Nutricionista surge (sabe-se lá de onde), e vem pegar a Coca, que estava a mais ou menos meio metro da Gorda. Ela me entrega a lata e pega um copo, perguntando:

– Geli-limão?

– Não.

– Por que você não toma um suco ao invés disso?

Mas o acontecimento-símbolo do boteco foi um dia que eu cheguei lá e a Gorda estava sozinha, falando no telefone. Na mesma hora eu me conformei: "Bom, se ela está no telefone, hoje vai demorar mesmo. Hoje vai demorar de verdade". Sentei no balcão e comecei a ouvir a conversa:

– Sim, é esse número mesmo, mas não tem ninguém aqui com esse nome.... Isso, não conheço ninguém com esse nome...

Eu comecei a chamar a atenção dela através de gestos e ela olhou para mim. Hum... Fizemos contato visual. Bom começo. Assim que ela desligar o telefone, o cérebro dela pode começar a trabalhar a idéia de que estou aqui. Ela fez um sinal para eu esperar (provavelmente, um reflexo inconsciente) e continuou no telefone.

– Olha, o número está correto, mas não tem ninguém com esse nome. Sim, sim, o número é esse mesmo... (ela olhou para mim novamente) Olha, você me aguarda só um minuto?

O que? Ela pediu para a pessoa no telefone esperar para me atender? Uau! Ganhei o dia! Ela tira o telefone do ouvido, vira para mim e pergunta, de forma inocente:

– Seu nome é Jaime?

– Olha... Eu só queria uma Coca.

– Mas seu nome é Jaime?

– (suspiro) Não.

Ela pega o telefone novamente.

– Estou falando para você, não tem nenhum Jaime aqui. Tenho certeza de que você anotou o número errado.

Eu suspirei e fiquei ali, quieto, esperando minha Coca.

Em Roma, faça como os romanos. Mesmo que eles sejam imbecis.


5 Frases Mais Ditas pelos Funciónários do Boteco ao Lado

1. Hum?
2. Não tem.
3. Geli-limão?
4. Acabou, bródi (ou gata). Pede outra coisa aí, que eu vejo se tem.
5. Você já foi atendido?