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12 de abril de 2017

Rob Gordon X Taxista Pensador

Assim que eu entrei no carro, disse para onde ia e o taxista deu a partida. Ainda no primeiro quarteirão, ele falou.

– Sabe o que eu queria?

Foi assim mesmo. A seco. Sem nenhuma preparação, sem nenhum assunto prévio, nada. Ele fez a pergunta como se estivesse concluindo uma longa conversa da qual eu não fazia parte. Mesmo assim, resolvi participar.

– O quê?

– Eu queria ser rico. Ser muito rico. Mas não rico por ser rico, e sim rico para poder ficar em casa. Eu queria ficar em casa sem fazer nada, apenas pensando. Queria ficar na frente do computador pensando o dia inteiro.

– Mas pensando sobre o q...

– Sabe? Acorda de manhã, começa a pensar. Liga o computador e continua pensando. Lê as notícias e continua pensando. Isso que é vida.

– Olhe, eu trabalho em casa na frente do computador e não é bem as...

– Aí vou almoçar pensando. Termino o almoço, volto para o computador e continuo pensando. Passar a tarde inteira pensando. E fico ali pensando até a hora do jantar.

– Então, mas eu trabalho na frente do computad...

– Queria ficar o dia inteiro pensando. Na frente do computador, pensando.

– Eu estou tentando falar qu...

– Pensando. Pensando. Pensando.

– Oi?

– Pensando. Pensando. Pensando. Pensando.

– Olhe, é só uma curiosidade, mas o senhor está tentando me hipnotizar?

– Se eu não pudesse passar o dia inteiro em casa pensando, sabe o que eu gostaria?

– Não.

– Ser político. É isso. Eu queria ficar pensando ou ser político.

– Eu concordo que essas atividades realmente parecem bem longe uma da outra, mas, nesse cas...

– Eu sempre adorei política. Aliás, quando eu disse que queria ficar pensando em casa, uma das coisas era pensar sobre política.

– Sabe o que eu queria? Terminar uma única fr...

– E ser político no Brasil é fácil. Você precisa de dinheiro, claro. Mas não só isso. Você precisa de promessas. Promete isso, promete aquilo, promete aquele outro ali e pronto. Com dinheiro, você ganhou a eleição. E aí sabe o que eu faria? Iria para casa pensar.

– Eu desisto.

– Ia acordar de manhã e ficar pensando. Ligar o computador e continuar pensando. Ler todas as notícias e continua pensando. Isso que é vida.

– Certo.

– Quer dizer, eu não ia ler todas as notícias. Ia ler só aquelas que me interessam. Aquelas que você vê que não está sendo manipulado. Agora... As outras... Aquelas que manipulam você... SABE O QUE EU IRIA FAZER COM ELAS?

– Hum... Não ia ler?

– ISSO! EU NÃO VOU PERDER MEU TEMPO LENDO UMA NOTÍCIA QUE ME MANIPULA!

– Olha, mas aí o senhor tem um problema. Porque para saber se a notícia é manipuladora, você precisa ler essa not...

– EU NÃO IA LER!

– Certo. Desculpe.

– Porque eu não vou fazer como aquelas pessoas que não leem nada, aí formam uma opinião errada e saem por aí repetindo burrices.

– Entendi.

– Mas eu não vou ler as notícias manipuladoras. Só as outras. Você sabe de quais eu estou falando.

– Sei?

– As que me fazem pensar!

– Entendi.

– O que você acha do meu plano?

– Olhe, eu acho que...

– Você não acha que ele pode funcionar?

– Então, eu acho que o senhor...

– Porque eu tenho certeza que eu vou ser uma pessoa melhor fazendo isso.

– Bem, o que eu acho parece não fazer muita diferen...

– Uma pessoa mais esclarecida.

– Sim.

– Eu ia ser melhor assim. Lendo e pensando. Lendo e pensando. Lendo e pensando.

– Isso é a hipnose de novo?

– Lendo e pensando o dia inteiro.

– E a política?

– A política também. Sendo político, lendo e pensando. Sendo político, lendo e pensando. Sendo político, lendo e pensando. O dia todo.

– Certo.

– E pensando sobre política também.

– Sim, eu já havia imaginado isso.

– Especialmente política internacional. Adoro política internacional. Você gosta de política internacional?

– Entra aqui à direita. É nessa rua.

– Eu adoro. Sabe o que eu queria?

– Ficar em casa pensando?

– Além disso.

– Ser político?

– Além disso.

– Ser político para poder ficar em casa pensando?

– Uma guerra entre Rússia e Estados Unidos!

– Meu Deus do céu.

– Mas isso nunca vai acontecer. Não enquanto eu estiver vivo.

– É na próxima quadra.

– E eu queria ver só para descobrir quem ia ganhar a guerra.

– Entendi.

– Porque aí, depois da guerra, eu ia para casa.

– E ficaria pensando?

– EXATAMENTE!

– Entendi. Olha, é naquele portão marrom ali.

– Sabe o que eu acho dos coreanos?

– Obrigado. Quanto deu?

Desci do carro e vi o taxista ir embora. E fiquei cinco minutos em pé na calçada, fumando um cigarro e tentando me convencer que nada daquilo tinha acontecido. 

12 de dezembro de 2014

Minha Manhã em Uma Frase

Você liga para a Vivo e uma gravação atende dizendo que está tentando identificar sua assinatura pelo seu telefone mas logo em seguida diz que não consegue e pede o seu CPF que você prontamente digita e a gravação começa a dar dezenas de opções sendo que nenhuma delas remete a um humano e você espera pacientemente até que uma pessoa atenda o telefone e você explica a ela que contratou o serviço de fibra ótica mas como já é cliente quer saber se é preciso cancelar a internet do mesmo endereço ou se isso acontece automaticamente e ela diz que não trabalha com fibra ótica apenas com banda larga e não pode te ajudar e você diz que é justamente sobre banda larga que você quer falar mas ela não te escuta e manda você ligar em outro número e você faz isso apenas para dar de cara com a gravação novamente que tenta reconhecer o seu telefone e não consegue e que então pede que você digite seu CPF mas você não consegue porque está tão suado por causa do calor que está fazendo em São Paulo que o celular está molhado e você aperta um ele escreve dois, você aperta sete ele escreve nada e você aperta nove ele escreve batata e a gravação pede seu CPF novamente e você tenta digitar e não consegue e grita um palavrão e vai fumar um cigarro antes de ligar de novo e quando você liga de novo a gravação atende de novo e tenta te reconhecer pelo telefone de novo e não consegue de novo e pede o seu CPF e você que estava evitando encostar o celular na orelha para ele não transpirar junto com você digita seu CPF e a gravação diz que vou fazer algumas perguntas para o atendimento e pede para que você diga claramente qual o motivo da sua ligação e você diz que precisa falar sobre o plano de internet e ele diz que não entendeu e pede para você repetir e você diz que você quer falar sobre banda larga e ele diz que não entendeu e pede para você repetir e você diz mais alto que precisa falar sobre a internet e ele diz que não entendeu e pede para você repetir e você grita que precisa falar com um pessoa que trabalhe aí caralho e ele diz que não entendeu e pede para você repetir e você grita apenas internet e ele diz todo pimpão que entendi e que agora eu vou passa o protocolo do atendimento para você anotar sete oito nove dois um sete oito três cinco quatro zero nove oito sete um quatro cinco três oito um nove dois zero três cinco e você sente seu cérebro derretendo quando ele dá dezenove opções para você discar e aquela que faz você falar com uma pessoa é a última e você disca o nove e fica mais ou menos sete minutos escutando um misto de dança do ventre com bossa nova até que a mulher atende e pergunta o que você quer e você explica que acabou de comprar a fibra ótica e quer saber como é o procedimento com o plano antigo de internet e se é preciso cancelar ou se é automático mas a mulher interrompe você e pede o seu CPF e você confirma o CPF e ela pede seu nome completo e seu endereço e você confirma o nome completo e o endereço e então ela pergunta no que você pode ajudar e você diz que acabou de comprar a fibra ótica e ela diz que não trabalha com fibra ótica e você pede para que ela espere você terminar de falar porque você comprou a fibra ótica mas precisa saber o que fazer com o plano de internet antigo e ela diz que não pode ajudar porque não trabalha também com a outra internet e você se pergunta então porque me deram o seu telefone mas ela apenas diz que você precisa ligar em outro número e você agradece e desliga o telefone socando as paredes da sala e pedindo por um morte rápida e indolor que acabe logo com tudo de uma vez porque seria muito mais fácil e você liga para o outro número achando que é uma estranha coincidência que o telefone tem apenas cinco números e três deles formam o número da besta e assim que acaba de digitar você implora para que a gravação tenha saído para almoçar e uma pessoa atenda o telefone mas quem atende é a gravação que diz que vai tentar identificar você pelo número de telefone, mas logo avisa que não conseguiu e pede para você digitar o seu CPF e você não consegue digitar nada porque o celular está molhado de suor novamente e quando você digita um ele escreve cinco e quando você digita zero ele disca três três três três e você desliga o telefone antes de jogá-lo na parede e vai fumar outro cigarro pensando se é fácil conseguir o endereço da Anatel e onde será que vendem explosivos até que você liga novamente e a gravação atende e diz que vai tentar localizar você pelo número de telefone e tudo o que você fazer é responder com uma gargalhada histérica e a gravação diz que não consegue localizar e precisa do seu CPF e você digita o CPF esmurrando o telefone e torcendo para que ele não digite nada pois é o único motivo que você precisa para ir até o quintal e arremessá-lo na rua de preferência embaixo de um ônibus e desistir de celular e de internet e de fibra ótica e ir morar numa caverna sem nunca mais falar com ninguém mas o CPF digita e ele pede para que você diga de forma clara o que você deseja e você responde que quer falar sobre o plano de internet e ele diz que não entendeu e pede para que você diga de forma clara o que você deseja e você diz que precisa falar com um atendente e ele diz que não entendeu e pede para que você diga de forma clara o que você deseja e você grita morrer e ele diz que não entendeu e pede para que você diga de forma clara o que você deseja e você resmunga apenas internet olhando ao redor para suas coisas e pensando se isso é vida e se não tem algum tipo de existência em que as coisas valham a pena talvez uma casa no meio do nada com uma hortinha umas duas ou três galinhas e mais nada mas aí a gravação começa a dar alternativas para você discar dependendo do seu problema e nenhuma das alternativas diz respeito a você até que finalmente ele diz que você pode falar com uma pessoa digitando algo e você digita algo e ele informa que o protocolo do atendimento é sete cinco nove três quatro oito três um dois cinco nove sete cinco quatro cinco seis oito sete nove dois três e se você quer que ele repita e tudo o que você consegue pensar é se trancar no quarto e beber até morrer mas quando você está escolhendo qual garrafa de uísque levaria com você a atendente surge no telefone e pede o seu CPF e você não reclama que já digitou o seu CPF e dá assim mesmo e pede o seu nome completo e o seu endereço e você fala o nome completo e o seu endereço e pergunta no que pode ajudar e você diz que contratou a fibra ótica e quer saber o que você faz com o plano antigo se ele é cancelado automaticamente se ele é atualizado ou se você pode usar o plano antigo para se enforcar no banheiro no meio da madrugada e ela diz que você precisa cancelar mas que o cancelamento é imediato e pergunta se pode cancelar e você diz que não que não pode ficar sem internet até a fibra ótica ser instalada porque você ainda não se enforcou no banheiro nem foi morar numa caverna ou num sitiozinho no meio do nada e ela diz que no dia que a fibra ótica for instalada é preciso entrar em contato novamente e solicitar o cancelamento e você pergunta se tem algum jeito de eu ligar direto para você sem precisar falar com aquela gravação que trata as pessoas como deficientes mentais e ela diz que não e você agradece e ela agradece e diz que sua ligação importante e você diz que ok e ela deseja uma boa tarde e desliga o telefone e você senta no chão da sala e começa a chorar porque de repente tudo parece tão vazio que você precisa apenas ficar sozinho um pouco.

20 de setembro de 2013

Pequenos Diálogos do Tomate Verde



- Cara, me faz um X-Salada? E eu quero uma Coca Zero só gelada.

- Ok.

- Você consegue tomate verde?

- Oi?


Sim, eu gosto de tomate verde no hambúrguer.


- Tomate verde. Ao invés do tomate maduro, tomate verde.

- Não sei se vai ter.

- Se não tiver, eu quero sem tomate, por favor.

- Sem tomate?


Sim, isso vai ser divertido.


- Sim.

- Mas o tomate verde você vai querer?

- Sim.

- Não pode ser qualquer tomate?


Sim, o garçom aparentemente é daltônico, e não quer que as pessoas da padaria saibam disso.


- Não. Eu prefiro tomate verde.

- Certo.

- Obrigado.

- O seu sanduíche é qual mesmo?


Sim, o garçom tem problema de memória recente.


- Um X-Salada.

- Certo. Um X-Salada.

- Com tomate verde.

- Você quer o tomate verde dentro do pão?


Sim, eu dormi ontem no mundo real e acordei dentro de um episódio de Além da Imaginação.


- É. Junto com a carne.

- Entendi.

- Na verdade, é um X-Salada como outro qualquer. A diferença é que eu quero que o tomate seja verde.

- Um X-Salada?


Sim, eu sinto um profundo cansaço mental às vezes.


- Sim.

- E para beber?

- Uma Coca Zero. Só gelada.

- Geli-limão?


Sim. Pode ser. Tanto faz. Na verdade, acho que eu quero só ficar sozinho um pouco.


- Não. Só gelada.

- Coca normal?

- Coca Zero.

- Certo.

Contrariando todas as expectativas, ele trouxe tudo certo.

A humanidade ainda consegue me surpreender.

30 de agosto de 2013

Rob Gordon X Porta do Santander



Aconteceu há alguns minutos, quando tive que ir até o Santander resolver umas coisas.

Já saí de casa com o meu Sentido de Aranha disparando feito um sino de igreja na hora da missa, porque sempre que eu vou ao banco, alguma coisa acontece. E, em 50% das vezes, é algo envolvendo o maldito detector de metais da porta.

Eu não entendo aquele detector de metais. Na verdade, ele também não me entende.

Já tivemos várias discussões e uma vez, anos atrás, eu arrebentei uma porta do Itaú porque o detector de metais não me deixava sair do banco. Sim, sair. Ou ele achou que eu havia roubado um clipe de papel do banco, ou ele entendeu que eu era um criminoso em potencial, e deveria ser mantido dentro do banco até a polícia chegar, no melhor esquema Minority Report – A Nova Lei. Meti o pé na porta e saí – meia hora depois, passei na frente do banco e dois técnicos estavam consertando a porta.

Enfim, o que me incomoda nos detectores de metais é que, aparentemente, somente quem pode entrar no banco é barrado. Quanto menos metal você tiver, maiores as suas chances da porta travar. Aliás, se os detectores de metal do banco fossem usados numa questão de vestibular, ela seria mais ou menos assim.

Qual destas pessoas será barrada no detector de metais de um banco?

(  ) Homem de Ferro
(  ) Dr. Destino
(  ) Homem de Aço
(X) Você

E é sempre assim. Eu sou barrado. Você é barrado. Ladrões não são barrados. Sequestradores não são barrados. Tropas Imperiais – mesmo usando roupa de metal – não são barrados.

Claro que agora, no Santander, isso aconteceu. Entrei no banco e já fui direto deixar tudo o que eu tinha de metal: uma chave, uma carteira (que deveria ter algumas moedas) e um isqueiro. Fui até a porta, girei...

E travou.

Fui surpreendido por uma voz robótica, que parecia vir de todos os lugares. Era quase como se o C-3PO tivesse se tornado onipresente e encarregado da segurança do banco.

- Senhor, foi detectado o excesso de metal em seus pertences.

- Sim, eu deixei todos eles ali, à mostra. Você pode detectar um monte de metal ali, depois que me deixar entrar.

- Senhor, o metal foi detectado em você. A porta não irá abrir.

Olhei para cima e vi um pequeno alto-falante. Era dali que vinha a voz. E era um alto-falante de metal.

- Você é um alto-falante de metal. Talvez seja você que esteja sendo detectado, já pensou?

- Senhor...

- Eu não tenho nada de metal. E você é feito de metal, e acha que o problema é comigo. O problema é com você. Você está detectando a si mesmo. Sua programação está falha.

- Como, Senhor?

Desisti. A brincadeira seria boa, mas aparentemente não era à prova de imbecis. E eu estava com pressa.

- Nada.

- O senhor tem algo de metal?

- Olhe, só aqui no meu iPod tem um monte de coisa. Iron, Judas, Megadeth, Anthrax. Você curte também?

- Senhor?

- Tem Motörhead também. Mas o próprio Lemmy diz que eles não são metal, são rock. Então, acho que não vai influenciar.

- Senhor...

- Tem AC/DC também. Mas só a imprensa americana fala que eles são metal. Não são. AC/DC é hard rock, como você deve  saber.

- Senhor, eu preciso que todos os objetos de metal sejam retirados.

Chega de brincar.

- Certo. Olhe, é o seguinte, eu posso ficar pelado aqui que não vai adiantar, por causa do meu joelho. Eu tenho um pino no joelho.

Mentira. Sim, meu joelho até hoje amarga anos e anos de futebol de rua. E ele estala o tempo inteiro – ou seja, se tivesse alguma coisa dentro não seria um pino, mas sim uma castanhola.

- O pino no joelho do senhor é de metal?

- Sim. É eu coloquei quando sofri um acidente no Canadá. É de adamantium.

- Ok. O senhor pode entrar.

Aproveitando que 1) tenho adamantium no corpo (ao menos, na versão oficial divulgada ao androide do Santander) e 2), tenho 1.60m, a oportunidade era boa demais para ser perdida.

Olhei para cima e sorri:

- Valeu, xará.

E entrei no banco torcendo, claro, para ser atacado por ninjas e ter que fatiar alguém. E descolar um charuto e uma cerva.

3 de junho de 2013

O Jogo da Vida

Xeque. Sai de trás do monitor! Saia daí! Você vai soltar os cabos mais uma vez! Xeque. Parem de latir! Eu estou tentando escrever aqui dentro! Xeque. Que barulho é esse? Você vai comer esse plástico de novo? Gato pentelho! Pare com isso! Xeque. Alô. Não, não é este número. Não, não conheço nenhum Geraldo. Ok. Xeque. Por que essas filhas do vizinho não calam a boca por um minuto? Calem a boca! Xeque. Parem de latir! Eu não estava gritando com vocês! Eu estou tentando escrever! Xeque. Que inferno essa campainha! O que será agora? Xeque. Pare de comer o plástico! Eu preciso ver a campainha! Se você estiver comendo o plástico quando eu passar por aqui de novo, eu vou matar você! Xeque. Não, não tenho nada hoje. Desculpe. Ok. Xeque. Pare de comer o plástico! Saco! Você é imbecil? Xeque. Meu Deus do céu, essas filhas do vizinho devem ter algum problema. Xeque. Eu proponho uma troca. Se vocês conseguirem fazer as filhas do vizinho calarem a boca, eu deixo vocês latirem por meia hora. Fechado? Xeque. Sai de trás do monitor! Você vai soltar o cabo! Xeque. Seis bilhões de pessoas no mundo, e as duas retardadas obcecadas com o disco do Carrossel se mudam para a casa ao lado da minha. Perfeito. Xeque. Parem de latir, pelo amor de Deus! Xeque. Alô? Não, o técnico não veio ainda. Sim, é evidente que a minha internet continua uma merda! Ok, eu espero. Faz só uma semana mesmo. Ok. Xeque. Pelo amor de Deus! O que vocês querem para parar de latir e para eu poder escrever? É dinheiro? Xeque. Alô? Pare de latir! Desculpe, não era com você. Pois não. Não, eu já disse que não é esse número! Não, eu não conheço o Geraldo! É evidente que eu não posso! Como eu posso passar um recado para alguém que eu não conheço! Quer saber? Eu passo o recado! Só não ligue mais, por favor! Xeque. Quantas vezes eu vou ter que tirar você de trás do monitor? Xeque. Maldito disco do Carrossel. Maldita professora Helena. Xeque. Desisto. Vou responder os comentários do blog. Xeque. Internet filha da puta! Não consigo fazer nada! Xeque. Para de comer a porra do saco plástico! Xeque. Alô? Não! Não! Olhe, o Geraldo morreu! Não ligue mais! Xeque. Desisto. Pode ficar aí atrás do monitor. Vou ver televisão. Xeque. Por que só está pegando Ana Maria Braga? Quem mexeu nos cabos? Xeque. Parem de latir! Foda-se tudo. Não aguento mais. Vou deitar. Inferno de vida.

Demônio: Derrubou o Rob?

Demônio-Assistente: Sim, desisto.

Demônio: É uma pena. Eu daria o xeque-mate em dois lances, usando o cara da internet.

Demônio-Assistente: É muito difícil assim.

Demônio: Vamos jogar de novo?

Demônio-Assistente: Sim, mas agora você joga com o Rob e eu jogo com o resto do mundo.

Demônio: Nem a pau. 

5 de março de 2013

Rob Gordon X Rob Gordon

Foi numa manhã de domingo. Eu estava em casa com o Word aberto, trabalhando um pouco, quando a campainha tocou. Confesso que me levantei reclamando. Tenho para mim que devia existir uma lei proibindo as pessoas de tocarem a campainha da cada dos outros no domingo de manhã.

Antes que eu pudesse atender a porta, a campainha tocou novamente.

Abri a porta e dei de cara com um baixinho careca, fumando na calçada. Assim que ele me viu, deu uma última tragada e jogou o cigarro fora.

- Bom dia.

- Pois não?

- Você tem um blog, não tem? O Champ Vinyl?

A pergunta me pegou de surpresa. Existem mais pessoas do que eu imagino que acompanham este blog, e dois ou três leitores já me contaram, na internet, que me viram na rua e me reconheceram. Mas estou longe de ser famoso. Ou seja, não deveria ser um fã. Restava apenas esperar que não fosse um processo, muito menos alguém querendo tirar satisfação sobre algo que escrevi.

- Bem, tenho... respondi, sem saber direito como lidar com a pergunta.

- Posso falar com você um minuto?

- Sobre o blog?

- Sim. Eu sou o Rob Gordon.

Aparentemente, aquele domingo era o dia das frases-que-pegam-de-surpresa. Mas, desta vez, eu soube lidar melhor com a situação, e respondi quase automaticamente que:

- Não. Eu sou o Rob Gordon.

- Não. Eu sou o Rob Gordon. Eu sempre fui o Rob Gordon. Você apenas escreve sobre mim. Você...

E antes que eu pudesse responder, ele emendou dizendo meu nome verdadeiro. E eu fiquei sem ação novamente, pensando como aquele sujeito poderia saber meu nome. Ele notou minha preocupação e sorriu discretamente.

- Não se preocupe. Eu só quero falar com você por um minuto.

- Certo. O portão está só encostado.

- Com licença.

- Pode entrar.

Entramos na sala e ele se sentou. Eu num sofá, ele no outro. E ele se sentou na mesma posição que eu.

- É estranho estar aqui, ele disse mais para si mesmo que para mim, olhando ao redor e estudando a sala.

Resolvi continuar a conversa de onde ela parou, na calçada.

- Você disse que você é o Rob Gordon?

- Isso. Sempre fui.

- Então, isso não é possível. Eu escrevo no blog somente sobre as coisas que acontecem comigo. Eu sou o Rob Gordon.

Ele respirou fundo e esfregou as mãos no rosto. Exatamente como eu faço.

- Olhe, eu não sei como aconteceu. Talvez você tenha escrito sobre o Rob Gordon tanto tempo que eu acabei criando vida. Um dia, eu não existia. Ou, ao menos, não me lembro de nada. No dia seguinte eu estava indo ao banco, à padaria, comprando livros, pegando metrô... E sempre ouvindo sua voz na minha cabeça narrando tudo o que acontecia ao meu redor.

- Isso não faz sentido.

- Não. Não faz. Mas eu não me importo. Já desisti de entender. Essa é a vantagem de ser o Rob Gordon.

- Como assim?

- Eu não preciso entender nada. Eu sei que vou ao banco e que vai acontecer algo estranho, bizarro. Porque é o que sempre acontece. E a sua voz ali, narrando tudo dentro da minha cabeça. Mas, quando o texto acaba, eu simplesmente deixo de existir. Ao menos, até o próximo texto. Quer dizer, eu não me lembro de nada que eu tenha feito entre um texto e outro. Eu posso sumir. Você não. Você continua existindo. Pensando sobre a vida, pensando sobre o que escrever. Você precisa entender. Eu não. Eu sou apenas um personagem.

- Então, mas você não pode ser um personagem. O personagem sou eu. Tudo o que eu escrevo...

- Eu sei, aconteceu com você. Mas aconteceu comigo também. Por exemplo, este texto aqui. Você vai começar escrevendo com “Foi num domingo de manhã”.

- Vou?

- Vai. Eu ouvi sua voz na minha cabeça começando a narrar o texto segundo antes de eu tocar a campainha. Foi quando eu descobri também que você iria escrever sobre nosso encontro, e percebi que eu havia feito o certo em procurar por você.

- Aliás, como você me achou?

- Na última vez que eu fui ao banco, decorei algumas das frases que você disse dentro da minha cabeça, e joguei no Google. Na primeira vez, não apareceu nada, pois você ainda não tinha escrito o post. Tentei umas horas depois, e encontrei o texto, narrando tudo o que aconteceu comigo. Li seu blog inteiro, e tudo o que está ali, eu vivi. Cada post. Quer dizer, menos os que você marca como “antes do Champ”. Esses eu não vivi, mas depois que eu li, sei que são memórias minhas também.

- Mas são as minhas memórias.

- Sim. São as minhas de Rob Gordon. E as suas, com seu nome verdadeiro. São as memórias do R...

- Eu sei meu nome. Não precisa me dizer.

- Certo. Era apenas para ilustrar o raciocínio.

Ficamos em silêncio alguns minutos. Eu tentando entender o absurdo da situação. Ele um pouco encantado em ver a sala onde escrevo sobre sua vida. Seria quase como se alguém subisse ao céu e visitasse a oficina onde Deus projetou o homem. Só que duvido que Deus tenha um notebook. Eu tenho, e isso chamou a atenção do sujeito.

- É nesse notebook que você escreve?

- Sim. Quer dizer, às vezes. Tem dias que escrevo no PC do escritório.

- Mas eu nasci aí?

- Não. Eu criei o blog com um computador que nem possuo mais. Então, eu não tenho mais o computador onde... Não. Você não nasceu. Você nunca foi criado. Você é apenas o nome que eu assino os textos.

Ele puxou o maço de cigarros de bolso.

- Se nós vamos começar a discutir isso de novo, eu gostaria de fumar.

- Eu também. Mas eu não fumo na sala. Vamos até o quintal.

Saímos de casa e começamos a fumar, quietos. Ele rompeu o silêncio.

- Você ia escrever no blog, hoje?

- Não sei. Estou fazendo um freela, não sei que horas vou acabar.

- É legal?

- Oi?

- O freela que você está fazendo. É sobre algo legal?

- Não. Na verdade, não.

- Mas paga bem, ao menos?

- Não. Mas é o único que tenho atualmente. Então...

- Entendi.

Ele se acomodou num pequeno banco preto, ao lado da janela. Cruzou as pernas como eu cruzo, deu mais uma tragada no cigarro e olhou ao redor.

- Eu vim até aqui pedir para você maneirar um pouco.

- Maneirar?

- É. Pegar um pouco mais leve.

- Como assim? Mudar os posts?

- Não. Se você tiver que ir ao banco e se ferrar por causa de uma velhinha na fila, vá. Se você tiver que ir até o mercado e seu dia estragar por causa do sujeito do caixa, vá. Faça tudo isso e escreva. É o que você sabe fazer melhor.

- Obrigado.

- Mas vim pedir para você é que não se cobre tanto. Você gosta de escrever, certo?

- Sim. É a única coisa que eu sei fazer.

- E esse é exatamente o problema.

- Como assim?

- De uns tempos para cá, você escreve porque acha que é a única coisa que sabe fazer na vida. Isso não é verdade, mas depois eu falo sobre isso. E, ao achar que é a única coisa que você sabe fazer na vida, você se cobra o tempo inteiro. Muito. Talvez, mais do que você aguente.

- Como assim?

- Quando você começou a escrever no blog, você escrevia não por ser a única coisa que sabia fazer, mas porque gostava de escrever. Você escrevia simplesmente por escrever.

- Quando eu comecei a escrever, meus textos eram ruins.

- Não, não eram. Talvez os atuais sejam melhores, mas eles não eram ruins, apenas diferentes. Mas eu não estou falando dos textos. Estou falando de você. Você escrevia por simplesmente gostar de escrever. Então, você não se cobrava. Só o ato de escrever já lhe dava prazer.

- Mas ainda dá.

- Não do mesmo jeito. Hoje você escreve esperando que as coisas aconteçam.

- Mas...

 - E não me entenda mal. Eu realmente acho que você merece que elas aconteçam. E tenho certeza de que elas ainda vão acontecer. Mas na hora certa.

 - Bem...

- Então, quando você diz que a única coisa que sabe fazer é escrever, é porque você aprendeu a escrever. E só aprendeu porque gosta disso.

- Sim. Tem razão.

Ele se levantou e guardou o maço de cigarros no bolso. Como sempre faço isso na hora de ir embora, eu percebi que ele estava se preparando para se despedir.

- Então, não se esqueça disso. Você escreve porque é o que você ama. Sim, você se preocupa com a qualidade do texto. Mas lembre-se sempre de que o que importa é o amor por escrever. Esta sempre precisa ser a grande recompensa.

- Entendi. Acho.

- Você entendeu. E escrever não é a única coisa que você sabe fazer. E agora eu preciso ir embora.

Fiquei sem saber o que dizer. Ele estendeu a mão e eu apertei, pensando se aquele aperto de mão era igual ao meu. Devia ser.

- Foi um honra. De verdade.

- Igualmente.

Caminhou até a sala e eu abri a porta para ele. Olhou para mim e colocou a mão no meu ombro.

- Eu vou continuar vivendo normalmente, e ouvindo sua voz dentro da minha cabeça. E certo de que vou encontrar textos bons sobre a minha vida, horas depois. Eu vou continuar vivendo e você vai continuar escrevendo. Pois você sabe, talvez até melhor que eu, que um texto é algo incompleto até ser lido. Você sabe que é o leitor quem completa o texto.

- Verdade.

- Se uma única pessoa gargalhou com o texto, se uma única pessoa chorou com o texto... É porque o texto se completou.

- Sim.

- E isso acontece com seus textos. Mais que você pensa ou sabe.

- Não sei...

- Confie em mim. Agora eu preciso ir.

- Certo.

- Até logo.

Parado na porta, o observei descendo as escadas do jardim e abrindo o portão. Partiu sem olhar para trás. Mas, quando estava na calçada, me lembrei de perguntar uma última coisa.

- Você disse que escrever não é a única coisa que eu faço bem. O que mais eu faço bem?

Ele se virou para mim e sorriu, da mesma forma que eu sorrio quando sou sincero.

- Viver. E isso você faz melhor que eu. Como eu disse, eu deixo de existir quando o texto termina. Você não. Você continua aí. Viver é algo que você faz muito bem. Talvez até melhor do que imagina.

Ele sorriu, acenou com a mão e foi embora.

Eu fiquei ali, parado, até me lembrar de fechar a porta. Novamente dentro da sala, voltei para o sofá e coloquei o notebook no colo.

Abri o Word e digitei:

Foi numa manhã de domingo.”

Reli a frase e respirei fundo. Enxuguei uma lágrima e agradeci baixinho por estar com vontade de escrever. E comecei a redigir um texto novo.

13 de fevereiro de 2013

Rob Gordon X Vivo - Rounds 3 & 4


(Leia os Rounds 1 e 2 aqui)

Round 3

- Vivo, Atendente de Nome Estranho, bom dia. Qual o código do assinante?

- 123456789.

- Em que posso ajudá-lo?

- Minha internet está fora do ar. Novamente. Mais uma vez. De novo.

- Estou checando aqui e o senhor está com um débito em aberto.

- Eu imaginei.

- O senhor já estava sabendo do débito?

- Não. É que toda vez que eu preciso ligar para vocês, vocês me dizem que estou com um débito em aberto. Qual o valor que vocês acham que estou devendo agora?

- Dez reais.

- Dez? Como eu posso dever dez reais para vocês?

- É o que o meu sistema diz.

- Sabe, dez reais é dívida que a gente tem com amigos, não com empresas. Eu não me lembro de virar para vocês e dizer “paga uma coxinha e uma Coca para mim, depois te dou dez reais”, ou “paga essas cervejas aí, quando eu sacar dinheiro te pago dez reais”. Eu nunca vi alguém dever dez reais para uma empresa de internet. Nem sabia que isso era possível.

- Meu sistema diz que...

- Bom, eu tenho uma proposta. Vocês ligam a minha internet e bloqueiam alguns sites até dar dez reais. Que tal?

- Como assim?

- Por exemplo, o Ig. As notícias do Ig valem quanto? Uns 50 centavos? Duvido que seja mais, só falam da Ivete Sangalo naquele site. Globo.com deve valer um pouco mais, porque tem videos. Eu não assisto nenhum, mas reconheço o esforço deles. Vamos chutar... Hum... Dois reais pelo Globo.com. Já temos dois reais e cinquenta centavos abatidos da conta, é só bloquear estes sites. Faltam sete e cinquenta. O site de vocês vale quanto? Um real? Pode bloquear também. Faltam seis e cinquenta, certo?

- Senhor, eu não tenho como proceder desta forma.

- Certo. O que eu preciso fazer para que minha internet seja religada?

- O senhor precisa fazer um depósito identificado no valor de dez reais.

- Depósito identificado. Certo. Para isso, eu preciso ir ao banco.

- Sim, senhor.

- Bem, não sei se você reparou, nós estamos no meio do carnaval. Os bancos estão fechados. Então, deixe eu ver se entendi. Eu preciso esperar os bancos abrirem para poder pagar uma dívida que eu não tenho, senão eu fico sem internet?

- Isso.

- Vou fazer uma contraproposta. O que você acha de vocês ligarem minha internet e eu me comprometo a não explodir o prédio de vocês hoje de madrugada?

- Senhor, não precisa ficar nervoso.

- Eu não estou nervoso. Eu fiquei nervoso até a terceira vez que vocês me deixaram sem internet. Depois disso, eu entrei no estágio de tristeza e fiquei chorando porque meu provedor de internet é um lixo. Agora, estou no estágio de negação. Estou dizendo para todo mundo aqui em casa que a internet está funcionando sim, basta saber usar.

- Não estou entendendo, senhor.

- São os estágios do luto. Como minha internet morreu, eu preciso atravessar por essas fases. Eu não sei qual a ordem específica deles, mas não tenho como procurar no Google agora, já que estou sem internet. Mas só estou mostrando que não estou nervoso.

- Entendi, senhor.

- Olhe, vamos fazer o seguinte. Esses dez reais que vocês acham que eu devo... Eu nem vou perder tempo tentando descobrir de onde vocês tiraram este valor. O que você acha de ligar minha internet e, no dia que os bancos voltarem a funcionar, eu faço o depósito desta extorsão?

- Sendo assim, posso religar sua internet, senhor. O processo demorará de quinze a quarenta minutos.

- Você sabe que isso é mentira, certo? Toda vez que vocês me falam isso, a internet começa a funcionar imediatamente, ou ela não é religada.

- Senhor, o processo demora de quinze a quarenta minutos.

- Tenho uma ideia! Esses dez reais que estou devendo. Se você deixar de lado esse negócio de quinze a quarenta minutos e ativar minha internet agora, eu pago 20% a mais, por fora, direto para você. Que tal? Dois reais inteirinhos, só para você. Fica sendo um segredo só nosso.

- Senhor, o processo demorará de quinze a quarenta minutos. Não há nada que eu possa fazer.

- Tenho certeza de que se eu tivesse oferecido dois mil reais, você já estaria passando seus dados bancários, e minha internet estaria com a velocidade de um foguete aqui. Mas, tudo bem. Eu aguardo.

- Posso ajudá-lo em algo mais?

- Pode. Se vocês inventarem mais uma dívida minha ainda hoje, será que vocês conseguem me ligar avisando sobre ela amanhã logo cedo? Porque como eu vou no banco depois do almoço, eu faço uma viagem só, e pago as duas dívidas ao mesmo tempo.

- Senhor, tudo o que o senhor deve é dez reais.

- Na verdade, eu não devo nada. Mas tudo bem, eu pago. E minha internet?

- Será religada em até quarenta minutos.

- Ok.

- Posso ajudá-lo em algo mais?

- Não.

- A Vivo agradece sua ligação e tenha um bom dia.


Round 4

- Vivo, Atendente de Nome Mais Estranho Ainda, bom dia.

- Bom dia.

- Em que posso ajudá-lo?

- Preciso de uma informação. Tem como você acessar meu cadastro?

- Qual o código do assinante?

- 123456789.

- Pronto, senhor.

- Você está com meu cadastro aberto?

- Sim, senhor. Qual informação você precisa?

- Quer saber se vocês acham que eu sou palhaço.

- Senhor?

- Sim, quero saber isso. Tem algum lugar marcado aí no meu cadastro dizendo “este aqui é palhaço, pode sacanear?”

- Senhor?

- Porque se não tiver nada aí na tela, aposto que está no cadastro impresso. Se você pegar minha ficha impressa aí, tenho certeza de que a palavra “palhaço” vai estar escrita num cantinho do papel, a mão mesmo. Porque vocês tem algum problema comigo. Ou isso, ou a meta da empresa para este mês é conquistar mil novos clientes e fazer um cliente antigo sofrer um enfarto.

- Senhor, não sei como posso ajudá-lo.

- Eu vou dizer como. Vocês inventaram que eu tenho uma dívida com vocês. O valor é de... Você promete não rir?

- Senhor?

- Promete, senão não falo. Promete não rir?

- Sim, senhor.

- Certo. O valor é de dez reais. Não comece a rir! Você prometeu! Se você rir, eu nunca mais falo com você!

- Senhor...

- Enfim, eu disse que vou pagar quando o banco abrir depois do carnaval. É até bom porque como o valor é alto demais, eu ganho uns dias para pensar em como vou levantar esta fortuna. Mas, claro, isso é problema meu. Enfim, conversando com a atendente, eu expliquei que sim, vou pagar apesar de não saber como eu posso estar devendo esse dinheiro. Mas eu pedi para que a minha internet fosse religada. A atendente concordou, e  disse que eu teria internet num prazo de quinze a quarenta minutos, e eu, mesmo sabendo que isso é mentira, acreditei. Agora, olhe só, já se passou mais de uma hora e eu continuo sem internet.

- Aqui no meu cadastro diz que a sua internet já foi religada este mês.

- Sim, ela já foi religada e desligada. Olhe, eu vou tentar explicar o que está acontecendo. Toda hora minha internet cai. Aí eu sou obrigado a ligar para vocês e pedir para que ela seja religada, e vocês me dizem que só vão religar se eu der um trocado para vocês irem comprar uma Coca na padaria. O problema não é nem a chantagem, mas a frequência. Como vocês fazem isso semana sim, semana também, é evidente que minha internet já foi religada este mês. Mais de uma vez.

- Meu sistema diz que eu não posso reativar sua internet.

- E daí? O meu sistema diz que você não merece viver. E não é por isso que eu estou usando este argumento.

- Senhor, o máximo que a internet pode ser reativada é uma vez por mês.

- Sabe, eu admiro muito a criatividade de vocês. Cada vez que eu ligo, tem uma informação nova. Eu ligo porque estou sem internet, e vocês dizem que estou devendo. Eu digo que paguei, vocês dizem que vão ligar a internet. Eu digo que a internet não foi ligada, vocês dizem que não podem. Eu reclamo disso, vocês dizem que estou devendo. Eu digo que não estou devendo, vocês dizem que a internet não pode ser ligada este mês.

- Senhor...

- Daqui a pouco, eu vou ligar para dizer que estou sem internet e vocês vão responder que não podem religar porque estou sem camisa e almocei bisteca. Vocês são bons demais.

- Senhor...

- Cada atendente aí escreve seu próprio material, ou vocês têm uma equipe só para isso?

- Senhor...

- Bom, o papo está ótimo, mas eu preciso ir. Tenho um monte de coisas para fazer hoje, e vou passar o dia na internet trabalhando. Ah, a propósito, você pode religar minha internet? Que cabeça a minha, quase me esqueci de pedir.

- Senhor, sua internet não pode ser religada novamente este mês.

- Olhe, é o seguinte... É.... Espere. Você me dá um minuto?

- Sim, senhor.

- Só um segundo, por favor.

- Sim, senhor.

- Só mais um instante.

- Sim, senhor.

- Pronto. Estava vendo uma coisinha aqui na Internet e me desconcentrei. Desculpe. O que você estava dizendo?

- Que sua internet não pode ser religada mais uma vez este mês.

- Puxa. Que notícia ruim. E como posso fazer para ter internet novamente?

- O senhor precisa pagar o débito em aberto.

- Os dez reais, né?

- Isso.

- Caso contrário, eu fico sem internet para o resto da vida?

- Caso contrário, eu não posso religar sua internet.

- Entendi. Bom, tudo bem. Eu assumo meus erros e minha dívida. E peço que me perdoe.

- Senhor, não é necessário...

- Eu faço questão. O erro foi meu e eu mereço ficar sem internet. Estou me sentindo péssimo e com vergonha. Quero desligar. Espero que você possa me perdoar um dia.

- Posso ajudá-lo em algo mais?

- Não, obrigado. Eu tenho que lidar com a minha consciência sozinho.

- A Vivo agradece sua ligação e tenha um bom dia.

- Obrigado. E mais uma vez, me desculpe.

Desliguei o telefone, fiz um café e me sentei no PC para ver as notícias na internet.

Pois no momento em que pedi para a atendente aguardar alguns minutos, minha internet – aquela mesma que não poderia ser religada – havia voltado a funcionar, com sites, vídeos e e-mails abrindo normalmente. Ou a atendente da Vivo encontrou um modo de driblar o problema, hackeando o sistema da operadora e religando minha internet, ou era tão toupeira que clicou em “ligar a internet desse cara” sem nem perceber.

Agora, como ela nem percebeu que eu disse: “desculpe, estava vendo uma coisinha aqui na internet e me desconcentrei” quando voltei ao telefone, acho que a segunda opção é a mais provável.

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