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31 de dezembro de 2012

Carta Aberta ao Meu Velho Amigo


Meu Velho Amigo:

Como faz tempo que não nos falamos, estou escrevendo esta carta para você ter algumas palavras minhas ao seu lado na virada do ano. E também para colocar o papo em dia. Afinal, muita coisa aconteceu em 2012. O ano em que o mundo não acabou foi cheio de coisas boas e ruins.

Aposto que isso vale para você. Certamente vale para mim.

Este ano, por exemplo, eu perdi minha avó e meu cachorro. O cachorro, felizmente, eu recuperei poucas horas depois, mas a avó não. Minha família se tornou menor, e, justamente por isso, ainda mais unida. Meu irmão hoje mora na mesma rua que meus pais; meu sobrinho cresce a olhos vistos. Aprendeu muitas palavras novas e já sabe reconhecer os números, mas ainda não fala meu nome direito. A propósito, meus pais continuam os melhores pais do mundo, e mandam beijos.

Assim como você, meus outros amigos continuam fazendo, todos os dias, aquilo que fazem melhor que qualquer pessoa: sendo meus amigos. Alguns estão espalhados em diversas cidades do mundo; outros moram perto, mas a correria do dia-a-dia faz parecer longe.

Então, quando a vida permite, a gente mata um pouco da saudade. Num jantar, num telefonema ou até mesmo numa carta como esta... Porque ser amigo sem querer matar a saudade não é “ser amigo”, é “ser colega”. E “ser colega” qualquer um consegue. Não é preciso empenho, amor nem sinceridade.

Algo que você vai gostar de saber é que 2012 foi o ano da HQ Terapia. Não lancei nenhum livro este ano, mas a série ganhou uma história inédita para o álbum de coletânea do Petisco. Também recebemos um HQMix, que é o maior prêmio de quadrinhos do Brasil. Espero que você esteja acompanhando as páginas novas, mesmo que aí, à distância. É algo que me deixaria bastante orgulhoso.

Mas, mesmo com tudo isso, neste ano eu tive bastante dificuldade para escrever. Talvez você não acredite quando falo que passei meses brigando com os textos. Muita gente acha que estou exagerando. Mas, em alguns momentos, cheguei a ponto de questionar se eu não tinha desaprendido (ou se eu realmente soube algum dia) como se faz isso. Você, que sabe o quanto gosto de escrever, pode imaginar o quanto isso foi difícil para mim.

Ainda bem que foi só uma fase. Com o tempo, voltei a me entender com as letras. Algo que ajudou muito para isso foi um trabalho que fiz no segundo semestre. Foi bastante puxado, de domingo a domingo, e durou quatro meses. Quando nos encontrarmos pessoalmente, conto com mais detalhes.

Mas o que quero que saiba é que neste trabalho reencontrei ótimas pessoas com quem já havia trabalhado e conheci outras. Todas apostaram no meu talento e, antes que eu percebesse, estava escrevendo como sempre escrevi: por instinto e quase sem pensar. Foi uma experiência inesquecível e que me ensinou muito.

Mas de todo 2012, nada foi mais importante que meu casamento. Eu e a Ana estamos morando juntos há quase um ano, agora, e eu não consigo imaginar minha vida sem ela. Mais que minha esposa, a Ana se tornou também minha melhor amiga, minha cúmplice e minha parceira, e juntos vamos enfrentando tudo, dia após dia, colecionando vitórias aqui e aprendendo com derrotas ali.

E eu precisei aprender, do dia para a noite, a ser pai de um adolescente de 16 anos. Tento fazer o melhor que posso, mas sei que ainda estou aprendendo. Aliás, acho que a grande vantagem que tenho é que eu aprendo com o filho da Ana na mesma proporção que ele aprende comigo. E acho que estamos indo bem, eu e ele. Não vejo a hora de você conhecê-lo.

Mas algo que eu queria comentar é o bem que a Ana me faz. E não estou falando da “vida de casado”, mas sim da Ana, em si. Emocionalmente, este ano foi muito difícil, e nos primeiros meses eu ainda sentia todos os efeitos da depressão que tive em 2011. Hoje, eu estou bem melhor, e devo isso a Ana.

Talvez eu não tenha conseguido ser a melhor pessoa do mundo este ano. Vontade para isso não faltou, mas sou o primeiro a admitir que nem sempre consegui. Passei ainda um bom tempo muito confuso comigo mesmo a respeito de diversos assuntos. Mas, se hoje eu sei que as pecinhas estão voltando ao seu lugar, sei também que nada isso estaria acontecendo sem a Ana. Como eu disse outro dia para a Ana, “estou voltando de verdade”.

A Ana pode ter feito muitas coisas este ano – e ela fez. Mas a mais importante (e a mais difícil) que ela fez foi me salvar.

E ela me salvou em todos os dias de 2012. Às vezes, se esforçou para me salvar; às vezes, me salvou sem nem mesmo perceber. Mas me salvou em todos os dias de 2012.

Hoje, moramos numa casa alegre e barulhenta. Temos bichos, livros, filmes, músicas. Corremos atrás de grana, de uma vida melhor, e nem sempre as coisas dão certo. Mas a gente não desanima, pois descobrimos o que importa de verdade.

É o fato de que a casa em que moramos tem bichos, músicas, alegrias, sim. Mas tem muito amor. E é este amor que faz nossos problemas se transformarem em algo pequeno, e cada pequena vitória que conseguimos ser uma conquista memorável.

E é isso que desejo para você, sempre. Muito amor. Especialmente dentro da sua casa, da porta para dentro. Pois o que eu aprendi este ano é que o amor que você tem dentro de casa é o mesmo amor que você leva para as ruas, para o seu trabalho, para seus amigos. Torço, como sempre, para que o seu ano seja cheio de saúde, paz e felicidade.

Mas o que eu quero mesmo é que o seu ano seja repleto de amor. E não qualquer amor, mas sim “amor de verdade”. Aquele amor que a gente só encontra da porta da sala para dentro.

Agora eu preciso ir. A Ana – que manda beijos – e eu precisamos comprar coisas para a ceia.

Assim, me despeço ainda mais com saudade do que estava quando comecei a escrever a carta, e torcendo para que a gente possa se ver mais neste ano que começa. E pedindo, sempre, para que você leia meus textos sempre que encontrar um tempinho. Pois você sabe que tem um pouco de você e de todos os meus amigos em cada um deles.

Um grande beijo, e obrigado por tudo, sempre.

Muita saudade,

Rob

PS– A última vez que nos vimos, você comentou o quanto eu estava magro. Queria que soubesse que já recuperei todos os quinze quilos que perdi por causa da depressão que tive ano passado. A Ana adora cozinhar e faz isso muito bem. Torço que você possa descobrir isso jantando conosco ainda em breve.

17 de setembro de 2012

Nova Carta Aberta ao Sr. Barata Cichetto


Caro senhor Barata Cichetto:

Vamos por partes aqui.

Em primeiro lugar, eu ainda não respondi seu comentário no meu blog, em resposta à Carta Aberta que publiquei a respeito do seu texto, por pura falta de tempo. Falha minha, admito. Mas confesso que este motivo (a falta de tempo) foi válido somente para um primeiro momento.

Afinal, sua atitude em apagar covardemente seu comentário cerca de três ou quatro horas depois de postá-lo – ignorando o fato de que eu teria acesso ao texto no meu e-mail – não apenas mostrou muito a respeito do seu caráter como, no meu entendimento, automaticamente encerrou a discussão. O fato de eu tê-lo postado em meu blog, por conta própria, não anula isso.

Com seu comentário, eu havia percebido apenas que você se comporta como dono da verdade, ignorando o fato de que qualquer verdade que possua um dono deixa de ser verdade. Em momento algum, você rebate, discorda ou derruba qualquer um dos meus argumentos. Eu apresentei fatos. Datas. Músicas.

Você, não.

Tudo o que você diz é que eu preciso me informar melhor.

Engraçado que você não aponta nenhum erro meu. Não apresenta nenhum dado novo, nenhuma correção, nenhuma informação. Você apenas age seguindo a cartilha do “quem concorda com meus argumentos é iluminado; quem discorda ou rebate é um ser prepotente e que não tem metade dos meus conhecimentos”. E, diga-se de passagem: o final do seu comentário (“passar bem... mal!”) demonstra certa imaturidade.

Mas o que me importa, por enquanto, é que você apagar seu comentário mostra que você é covarde. Covarde a ponto de me atacar dentro do meu próprio blog e voltar atrás. E isso mostrou mais a respeito do seu caráter do que qualquer texto que você escreva.

Mas esta, claro, é a minha opinião. E que, a bem da verdade, nem seria postada visto que 1) o assunto havia se encerrado no momento em que você mostrou sua verdadeira cara e apagou seu comentário; 2) eu mal me recordava de você.

Entretanto, você fez questão de me relembrar de sua existência no momento em que tomei conhecimento de um novo post seu no Whiplash, desta vez sobre os plágios cometidos pelo Led Zeppelin. Curioso, comecei a ler e dei de cara com um enorme parágrafo dedicado à minha pessoa, na introdução do texto.

Antes de tudo, gostaria de esclarecer dois pontos.

O primeiro deles é que você parece ter se ofendido particularmente com a frase “E, como se trata de um texto seu, é claro que também está errado” que usei no meu texto. Você cita esta frase no comentário apagado bem como no parágrafo dedicado a mim. Aparentemente, você entendeu isso como um ataque pessoal a você.

Assim, sou obrigado a demonstrar que não se trata de um ataque pessoal, apelando para números.

Eu uso esta frase a comentar o item oito de seu texto (Elvis Presley). Até então, eu já havia identificado e corrigido pelo menos cinco erros sobre a história do rock no que você escreveu (especificamente nos itens 3, 4 e 5). Contando o erro do oitavo item, são seis erros.

Seis erros em oito itens. A média é bem alta.

Com isso, acho que a minha frase E, como se trata de um texto seu, é claro que também está errado” se torna totalmente justificada. Afinal, você ainda não havia publicado nenhuma informação correta. Todos os seus argumentos, até então, são errados ou distorcidos (que nada mais é que um modo educado de dizer que eles são “errados”).

Em tempo: vale lembrar que você ainda faz o favor de dar razão a mim e à frase ao cometer novo erro (corrigido por mim) no item nove. Grato. Então, se foi um ataque pessoal, ele foi validado por você.

E, nunca é demais lembrar, você não contestou nada do que eu disse. E eu faço questão de ressaltar este fato. Pelo contrário. Sua resposta foi apenas que “eu preciso me informar mais”. É uma resposta pobre e vazia, mas você tem todo o direito de emiti-la.

Contudo, não venha alegar que esta frase foi um ataque pessoal. Não foi. Ela é um ataque ao seu texto pobre e desinformado. Em momento algum ataquei “Barata  Cichetto, a pessoa”, mas sim “Barata  Cichetto, o autor do texto”, mesmo porque nunca tive sequer curiosidade para ir atrás da pessoa Barata  Cichetto, visto que ela me é totalmente desinteressante.

Mas eu voltarei a isso em breve.

Antes, vamos ao segundo ponto.

No momento em que afirmei que iria redigir meu texto como jornalista, apenas deixei claro que não estaria respondendo como fã, usando um discurso inflamado e ofendido. E, veja bem, não estou “me explicando” aqui, mas percebi que é necessário ajudar você a compreender meu texto, algo que você parece ser incapaz de fazer sozinho.

A prova disso é que você construiu todo um discurso me julgando com base na minha profissão, como se eu tivesse me colocado na posição de dono da verdade.

Visivelmente ofendido porque eu desmantelei sua cultura de almanaque – repleta de falhas e anedotas de bastidores – que você deve usar para impressionar pessoas mais jovens em conversas sobre músicas, você partiu simplesmente para ofensas, elaborando uma grandiosa teoria da conspiração na qual eu, o jornalista déspota, preciso me defender de qualquer pessoa que possa tomar “meu status de dominador da opinião pública”, que estou sentado “em cima do meu rabo perfumado em redações de jornais e estúdios de televisão”.

Você ataca a mim, à minha profissão, elaborando todo um discurso – também de almanaque e sem aplicação prática nenhuma – sobre a democratização da informação, as mudanças ocorridas pela Terceira Onda. Tudo muito bonito.

Mas você simplesmente se omite de apontar meus erros.

E isso acontece somente por um motivo: aos seus olhos, meu erro foi mostrar que seu texto é vazio, repleto de informações erradas. Meu erro foi mostrar que seu texto não tem fundamento algum, e pretende causar polêmica apenas para alimentar seu ego.

Não importa se estou certo ou não – e eu estou até o momento em que você mostrar o contrário, algo que você perdeu a chance. Para você, meus argumentos não valem nada. Você se recusa a dar atenção a eles somente por eles contrariarem os seus.

Mais uma vez, bastante maduro.

Com isso, encerramos o segundo ponto e podemos seguir em frente.

Como eu disse acima, a pessoa Barata  Cichetto me é totalmente desinteressante. Na verdade, o texto poderia ser assinado por qualquer outra pessoa que minha resposta teria sido a mesma. Não me importa nenhum dado sobre o a pessoa Barata  Cichetto, salvo aquelas que estão publicadas no texto. O que me importa é o texto em si. Meu problema é com ele, e não com seu autor.

Mesmo porque eu – ao contrário do que você possa imaginar – sou totalmente a favor de que qualquer pessoa tenha o direito de expor sua opinião sobre um assunto. Mesmo que a opinião dela seja uma bosta. Mesmo que esta pessoa se chame Barata  Cichetto.

Agora, chega a ser engraçado uma pessoa que promove toda uma cagação de regra a respeito da liberdade de expressão ataque pessoalmente uma pessoa que simplesmente discorda de seus argumentos. Ou seja, eu havia apontado em alguns momentos que seu texto era contraditório e tendencioso. Mas eu estava errado: o problema não é com seu texto, é com você. Você é contraditório e tendencioso.

E a prova disso é que você defende a democratização da informação, mas se ofende quando alguém discorda da sua opinião. Por mais que eu me esforce, a imagem de um garoto de 14 anos usando uma camiseta que ofende a Rede Globo me vem à mente o tempo todo. Ou seja, seu discurso vale somente para você; jamais para os outros.

Pois seu texto é vazio. Seus argumentos são vazios.

E isso não é um ataque pessoal, é uma mera conclusão.

Ataque pessoal, por outro lado, foi o que você fez ao me chamar de “ameba”, de “idiota”, e usar como argumento textos isolados do meu blog (interpretados de forma totalmente errada, como parece ser um hábito em seu trabalho), ou a descrição do meu perfil – que você certamente não deve ter identificado como a citação de um livro.

Isto sim é um ataque pessoal. Foi o que você fez comigo e foi o que fez ao longo de todo o texto sobre rock, que originou a discussão. Você não sabe agir de outro modo que não seja com análises rasas e tacanhas.

Mas, a partir do momento que você fez isso comigo, eu teria o direito de devolver na mesma moeda. Eu poderia me ofender com o conteúdo da sua mensagem e dar ouvido aos diversos leitores que vieram me mostrar seu trabalho. Ah sim, bastante munição chegou aqui. Eu poderia discorrer aqui sobre seu trabalho com textos e poesia, suas intervenções musicais, sobre sua autobiografia não autorizada, usando termos não elogiosos e tentando construir sua personalidade com base nisso.

Eu poderia fazer isso, pois foi exatamente o que você tentou fazer comigo. Seria fácil de fazer. E, sinceramente, seria divertido de fazer.

Mas eu me recuso a fazer o mesmo, por três motivos. O primeiro é que respeito demais meus leitores para colocar todos eles em contato com o seu trabalho – algo que seria necessário aqui. O segundo motivo é que, independente da qualidade (ou falta dela) em seu trabalho paralelo, seu texto continua tendencioso e sem argumentos – e é isso que me importa.

Por fim, o terceiro e mais importante motivo: isto me dá a chance de colocar em prática algo que aprendi de uns anos para cá:

Jamais se rebaixe ao mesmo nível de um imbecil. Você certamente vai ser derrotado, pois ele tem mais experiência neste campo que você.

Mais uma vez: isto não foi uma ofensa pessoal. Foi uma conclusão natural a respeito da reação que você teve com meu texto.

Assim, encerro a discussão, deixando claro que enquanto o debate manteve-se num bom nível, você perdeu. Desculpe ser tão direto assim, mas quem decretou isso foi você. No momento em que você começou a me ofender, é porque até você percebeu que seus argumentos são ridículos, e passou a lidar com isso da melhor forma que sua maturidade encontrou.

Enquanto a discussão esteve em bom nível, você perdeu para mim. No momento em que ela foi para o esgoto, você perdeu também. Desta vez, para você mesmo, visto que jogou sozinho.

E você continuará jogando sozinho (e perdendo para você mesmo), pois qualquer resposta da sua parte a partir de agora será ignorada, em respeito aos meus leitores, a mim mesmo e ao bom senso.  

E isto não tem absolutamente nada a ver com o fato de eu ser jornalista, de eu ter informações sobre música que você não tem apenas porque não pesquisou, tampouco por eu ter me ofendido com seu texto.

Tem a ver com o fato de você ser você.

Obrigado por me dar razão.

Passar bem,

Adeus.

Rob

Em tempo: gostei bastante do seu artigo sobre Raul Seixas.

5 de setembro de 2012

Carta Aberta ao Sr. Barata Cichetto


Caro senhor Barata Cichetto:

Tive a oportunidade de ler seu texto O Suprassumo doSuperestimado: Os 11 Mais (Ou Menos), publicado no portal Whiplash, do qual sou leitor.

Na verdade, eu já havia lido a primeira parte de seu ensaio, abordando o tema, mas com foco na MPB. Confesso que não dei muita atenção por motivo de gosto pessoal. Entretanto, esta nova postagem, que aborda o rock, me chamou a atenção, dado que é meu gênero musical preferido.

Contudo, confesso que li sem dar muita atenção, visto que a maior parte dos argumentos que você utiliza para nomear as onze pessoas mais superestimadas do rock são a) errados; b) burros; c) reflexos do seu gosto pessoal. Contudo, lendo pela segunda e com um pouco mais de calma, concluí que alguém precisava desfazer o enorme desserviço que você prestou.

Assim, quero pedir licença e esclarecer seus erros ou desfazer frases que você coloca como verdade absoluta (mesmo sendo baseadas no seu gosto pessoal ou na sua falta de pesquisa), sobretudo em nome dos fãs mais novos, que estão conhecendo o rock agora e poderiam ser influenciados pelo seu texto imbecil; ou em nome de fãs destes artistas que possam ter se ofendido com suas palavras.

Mas, antes de continuarmos, um aviso: eu não escrevi este texto como fã. Sou fã de alguns artistas citados por você; não gosto de outros. Assino este texto como jornalista, e meu objetivo é desfazer alguns pontos citados por você;

Assim, respeitando a ordem do seu post original, vamos a alguns comentários – e aos demais leitores, peço desculpas antecipadas pelo tamanho desta postagem.

1 – John Lennon
Lennon é considerado um dos maiores nomes – se não o maior – da história do rock, justamente pelo legado que ele construiu com suas composições à época dos Beatles, certamente o auge do seu trabalho. Tudo o que ele fez posteriormente ganhava peso somente graças ao seu trabalho com os Beatles. Assim, para provar que ele é superestimado, é preciso mostrar que suas composições à frente dos Beatles (ou seja, toda a base da fama e respeito que ele conquistou) são, na verdade, ruins.

E você simplesmente ignora isso. Você fala de canções solos de natal, do relacionamento dele com seus filhos, de casacos de pele, de sua riqueza... E só. Você se mantém o tempo todo no campo da fofoca pessoal, sem a coragem de mencionar o trabalho de Lennon durante os anos 60, sabendo que isso vai derrubar todo o seu argumento.

Com tudo isso, você não consegue justificar a inclusão de Lennon na lista. Aliás, tudo o que você consegue é mostrar que seus conhecimentos sobre a história do rock como um todo estão bem além da sua compreensão. Criticar a carreira de John Lennon sem sequer mencionar os Beatles demonstra muita falta de conhecimento. Ou de coragem.

Ou de ambos.

 
2 – Yoko Ono
Não conheço uma pessoa ou veículo de comunicação que valorize o trabalho da Yoko Ono. Suas intervenções artísticas, com seus experimentalismos típicos da avant-garde da época – tanto nas artes plásticas como musicais – nunca receberam atenção, salvo da imprensa especializada (cujas publicações nunca romperam o meio artístico). A prova disso é que, por parte do público, ela continua sendo vista apenas como “ex-mulher de John Lennon”, já que sua carreira nunca decolou.

Na verdade, até hoje eu vi apenas uma pessoa superestimando o trabalho de Yoko Ono: você. Com isso, você não apenas empobrece seus argumentos como comete exatamente o erro do qual acusa as “grandes massas burras”. Parabéns!

 
3 – Ritchie Blackmore
Ritchie Blackmore é um sujeito difícil? Bastante. Dio teve problemas com ele? Muitos. Mas se isso é suficiente para colocá-lo na lista de superestimados, então Tony Iommi – com o qual Dio quase se pegou no tapa durante a mixagem do CD ao vivo Live Evil, em 1982 – deveria estar na lista também. Se a regra vale para um, deve valer para todos. Independente do seu gosto pessoal.

Aqui, entretanto, você demonstra um pouco mais de coragem ao acusar o plágio de Black Night. Entretanto, seus conhecimentos sobre rock, que já se mostraram pequenos, parecem encolher a cada parágrafo.

O Deep Purple (bem como muitas outras bandas de rock da época) tem inúmeros plágios em sua discografia. Isso é errado? Sim. Mas também é errado acusar Ritchie Blackmore de plágio, e, no mesmo texto, apontar como “gênio” o mesmo Jimmy Page que meteu a mão descaradamente em músicas inteiras do blues dos anos 50 – especialmente de Willie Dixon, o que rendeu um processo na justiça (perdido pelo Led Zeppelin, que foi obrigado a creditar Dixon). Novamente, se a regra vale para um, vale para todos. Novamente, independente do seu gosto pessoal.

Mas vamos voltar a Black Night: o riff original não é de Ritchie Blackmore, muito menos dos americanos do Blues Magoos, como você menciona. Originalmente, o riff está presente na versão de “Summertime”, de Rick Nelson, gravada em 1962. Quatro anos depois, a banda The Liverpool’s Five meteu a mão e o utilizou na música “She’s Mine” e, logo em seguida, os Blues Magoos fizeram o mesmo em “(We Ain't Got) Nothing Yet”. Em 1970, Blackmore usou o mesmo riff em Black Night. Ah, em tempo: o Deep Purple assumiu publicamente que o riff não havia sido composto por eles.

Então, pesquise um pouco mais antes de pensar em publicar um novo texto.

 
4- David Coverdale
Numa lista com onze músicos superestimados, temos aqui o segundo integrante do Deep Purple. Não seria mais fácil economizar verbetes e falar da banda como um todo? Ah, não, porque aí ataques pessoais se tornariam mais difíceis.

Aliás, seu argumento aqui parece ser extremamente pessoal, visto que, colocando de forma simplificada, “David Coverdale não canta nada e está na banda porque é bonito”.

Uma história: Coverdale e Glenn Hughes foram escolhidos para integrar o Deep Purple somente porque Blackmore queria que a banda soasse com um pouco mais de “groove”, fugindo do hard rock tradicional (que, a esta altura, ganhava popularidade com Alice Cooper, Kiss e Aerosmith). Coverdale, que sempre gostou da música negra norte-americana, em especial do blues (como fica claro nos primeiros anos do Whitesnake) foi contratado por este motivo. Se ele era bonito – e deve ser, já que você aponta isso o texto inteiro – e iria atrair o público feminino, melhor ainda para a banda. Agora, achar ele bonito é uma coisa; achar que ele não canta bem somente porque é bonito... Bem, aí é caso de terapia.

Ah, uma correção: a popularização do hard rock nos anos 80 (quando o som migra para “trilha sonora de cigarros”) não aconteceu com o Whitesnake, uma banda inglesa, e sim com os grupos de hair metal norte-americanos de Los Angeles. Novamente: pesquise um pouco mais, antes de publicar coisas que você deve ter lido em fóruns da internet.

 
5 – Ian Gillan
E aqui temos o terceiro membro do Deep Purple. Sabe, acho que você poderia economizar seu tempo – e o do resto do mundo – afirmando que não gosta da banda. Mas, não, você precisa embasar seu gosto pessoal para mostrar que entende de música mais que as outras pessoas.

Certo. Aqui, seu principal argumento é que ele envelheceu e perdeu a voz. Sim, está correto – a prova é que a banda não executa mais Child in Time ao vivo justamente por esse motivo. Agora, com exceção de você, alguém superestima o Ian Gillan dos tempos atuais? Até onde eu sei, ele é respeitadíssimo como vocalista justamente pelo trabalho desenvolvido à frente do Deep Purple, o que lhe conferiu o apelido de “Silver Voice”.

Assim, aqui você trilha o mesmo caminho que já havia feito com John Lennon: você simplesmente ignora o auge da carreira do artista, para chamá-lo de superestimado. Assim fica fácil. É o mesmo que eu falar que Pelé não é o maior jogador da história analisando somente sua carreira no Cosmos.

E uma correção: Bananas não e um disco solo de Ian Gillan, como você deixa a entender. É um disco do Deep Purple.

 
6 – Ozzy Osbourne
A primeira frase do seu texto é: “A não ser os fanáticos, todos os outros seres humanos sabem que Ozzy é um péssimo cantor”.

Certo, então ele não é superestimado, a não ser pelos fanáticos. E por você.

Próximo?


7 – Yes
Novamente, o gosto pessoal. E ele fica claro em uma frase: “Uma banda tecnicamente perfeita, fantástica... Mas extremamente, potencialmente, absolutamente... Chata.” Sabe... Se a banda é “tecnicamente perfeita, fantástica”, ela não é superestimada. Pelo contrário, ela é ótima – e você é o primeiro a admitir isso.

Chega a ser curioso você admitir isso e, logo depois, confessar nunca ter comprado um álbum do grupo. Realmente, mostra um preparo e um profissionalismo invejáveis para se escrever um texto.

Já considerou dar aulas em alguma faculdade de jornalismo?

 
8 – Elvis Presley
Li certa vez, que não existe uma lista de rock que esteja completa sem a presença de Elvis. Aparentemente, você também ouviu isso e decidiu que colocá-lo na lista seria uma ótima estratégia de marketing para chamar ainda mais a atenção.

Na verdade, beira a recalque. Aparentemente, todos os seus argumentos se referem ao fato de que ele se tornou maior que Johnny Cash. Pelo que constatei, você considera Cash o verdadeiro “Rei do Rock”, o grande injustiçado da história, o homem que merecia ser Elvis.

De todos os seus argumentos, este é, de longe, um dos mais pobres. É o mesmo que falar que o time que ganhou do meu não é tudo isso. É pobre e, também, infantil.

E, como se trata de um texto seu, é claro que também está errado.

Sugiro que reescreva seu texto, trocando “Johnny Cash” por “Carl Perkins”. O argumento vai continuar pobre e infantil, mas, ao menos, o texto estará um pouco mais correto no que diz respeito à história do rock.
E isso, para um texto assinado por você, já está de bom tamanho.

 
9 – Kiss
Vou começar desfazendo sua historinha, que é um dos maiores boatos da história do rock.

Reza a lenda que o Kiss havia copiado a maquiagem do Secos & Molhados por conta de uma viagem da banda brasileira ao México. Bem, esta viagem aconteceu em março de 1974, sendo que o primeiro álbum do Kiss foi lançado em 18 de fevereiro de 1974. E, para não ficar qualquer dúvida, o Kiss começa a usar maquiagem já em 1972, quando se apresentavam com o nome de Wicked Lester – a influência deles para isso foi o New York Dolls.

E o momento em que você abre seu argumento com um boato, mostra o quanto você pesquisou. Posso fazer uma sugestão? Que tal um texto falando sobre como Paul McCartney é um músico superestimado porque ele morreu num acidente de moto, sendo substituído por um sósia?

 
10 – Robert Plant
Novamente, o gosto pessoal.

Como você já havia citado ao falar sobre Yes, você não gosta de músicos que cantam usando falsete. É um direito seu. Mas, daí a falar que “é ruim porque não gosto”, demonstra mais uma vez sua imaturidade ao falar de música – e desta vez é música como um todo, visto que esta técnica não é típica das bandas progressivas, mas do barroco.

Fora que aqui você ainda consegue novamente apresentar problemas com o fato de a pessoa ser bonita. Sério, você deveria conversar com alguém sobre isso. De verdade.

Vou dar duas dicas: quer ouvir Led Zeppelin sem Robert Plant? Compre os discos do Yardbirds. Todo o embrião da sonoridade do Led está ali, e os vocais não são em falsete. E, por fim: você tem problemas com vocalistas bonitos e que usam falsete? Compre os CDs do Motörhead.

 
11 – Roger Waters
Mais uma vez, você aparenta ter problemas em separar a pessoa do artista.

Sim, Roger Waters é uma das pessoas mais megalomaníacas do meio musical. Egocêntrico, egoísta e todos os outros “egos” que você quiser. Isso não diminui em nada o valor de suas composições. Continuam geniais. Assim, se você quiser falar que ele é superestimado, fale sobre a música, ao invés de argumentar usando meia dúzia de histórias de bastidores, simplesmente para mostrar que as conhece.

E você é extremamente contraditório, ao apontar que ele “criou um álbum totalmente genial, The Wall”. Ou seja, você reconhece a genialidade da pessoa quando lhe convém, mas, logo em seguida, aponta que as pessoas que assistem aos shows atuais deste compositor genial como “uma massa de carne moída que paga fortunas pelas suas apresentações”.

Mais uma vez, me cheira a recalque. Aparentemente, você é fã do Pink Floyd e não suportou a separação do grupo, precisando escolher um culpado para a sua frustração infantil. Mais ou menos como o fã de Pantera que, sem suportar o final da banda, elegeu Dimebag Darrell como grande vilão do rompimento, assassinando o guitarrista durante o show com três tiros na cabeça. A única diferença entre você e este sujeito e que ele tinha uma arma e você tem um texto burro.

Com tudo isto colocado em pratos limpos, gostaria de encerrar comentando a abertura do seu texto.

Ela é prepotente. Ela é prepotente como todo o seu texto.

Ela é prepotente no momento em que você comenta que o texto não alcançou a polêmica que você imaginava porque “existe mais gente com percepção clara da realidade e com bom gosto”, ou que “tem muito mais gente alienada e massificada que sequer dispõe a ler algo que ‘fala mal’ de seus ídolos”. Em momento algum, você considera a hipótese de que talvez seu texto tenha sido uma bosta.

Talvez você seja prepotente a ponto de superestimar seu próprio texto. Talvez você seja prepotente a ponto de superestimar a você mesmo.

Deixe-me explicar uma coisa a você. Saber diferenciar os conceitos de “o que é bom” e “o que eu gosto” é a maior prova de maturidade no que diz respeito a gostar de música. E seus argumentos (basicamente, o “é ruim porque eu não gosto” é imaturo, como superestima a sua própria opinião que se mostra falha e tacanha em todo o texto).

E você ainda tem o destempero de dizer que não quer causar polêmica, alegando que “Não causo polêmicas, sou a própria”. Desculpe, isso é argumento de um menino imberbe que, ao invés de acrescentar algo, pretende chamar a atenção com opiniões que fogem do lugar comum.

Não, senhor Barata Cichetto, você não é a polêmica.

Você é a desinformação. Você é a opinião sem conteúdo. Você é o gosto pessoal travestido de cagação de regra, como se gosto pessoal fosse algo justificável. Você é o texto raso e ofensivo, escrito para chamar a atenção. Você é muitas coisas. Mas você não é a polêmica. E pensar o contrário seria superestimar você.

Sinto muito.

Sem mais,

Rob Gordon.

**********


Update: Hoje (06/09) pela manhã, vi que o senhor Barata Cichetto havia comentado o post, com dois comentários idênticos – provavelmente a cópia foi um acidente. Alguns leitores leram suas mensagens e responderam diretamente a eles, nos comentários do texto.

Para minha surpresa, algumas horas depois – antes que eu pudesse responder aos comentários – vi que suas duas mensagens haviam sido apagadas pelo autor, por motivos que desconheço.

Assim, tomo a liberdade de postar abaixo o conteúdo do comentário original, que está arquivado em meu e-mail. Segue:


Cheguei ao seu texto através de um alerta do Google. Claro que não vou me dar ao trabalho de responder a você, Sr. JORNALISTA. Apenas digo o seguinte: "E, como se trata de um texto seu, é claro que também está errado." E acho que quem tem que se informar melhor é você. Passar bem.. Mal!


Estou publicando este comentário por alguns motivos, que seguem abaixo:

Caso ele tenha se arrependido do que escreveu, deveria ter pensado antes de publicar. O mesmo vale para o seu texto original.

Além disso, em respeito aos (muitos) leitores que acompanham as discussões nos comentários, não deixarei todas as repostas enviadas ao senhor Barata Cichetto sem sentido. Assim, com a reprodução de sua mensagem (e os comentários apagados que permanecerão ali, num caso inédito no blog), os leitores sabem quais comentários são respostas a ele, enviadas por leitores que leram o comentário antes que ele fosse apagado.

Por fim: assim que possível responderei a todos os comentários dos leitores, como sempre. E na ordem em que eles foram postados, como sempre. E isto incluirá o comentário apagado.

24 de dezembro de 2011

Carta (Aberta) ao Papai Noel


Caro Papai Noel:

Como você deve ter percebido em alguns momentos, o ano de 2011 não foi fácil para mim, por muitos motivos. Assim, caso eu fosse uma pessoa egoísta, me sentiria no direito de pedir um monte de presentes, somente para compensar tudo o que atravessei nos últimos meses.

Mas eu não vou fazer isso, e o senhor sabe disso.

Na verdade, eu queria pedir um único presente. E, assim como na maior parte das cartas que o senhor deve receber, o meu pedido é: um brinquedo.

Não se trata de um carrinho ou de uma bola. Também não é um bonequinho, nem um jogo. É um brinquedo diferente dos que o senhor fabrica no Polo Norte, mas é o meu brinquedo preferido. É o brinquedo que eu peço todo Natal, já há alguns anos.

Eu quero escrever para sempre. Eu quero escrever cada vez mais e cada vez melhor.

E não estou falando de escrever para ganhar dinheiro – eu jamais pediria isso para o senhor – mas sim para escrever me sentindo como uma criança com um brinquedo novo, feliz da vida a cada frase, e sorrindo sem parar a cada parágrafo.

Quero criar mundos maravilhosos e personagens cada vez mais humanos; quero construir diálogos engraçados e devaneios amorosos. Quero me apaixonar por trechos, quero rir alto escrevendo, quero me orgulhar, cada vez mais, do que escrevo e da pessoa que sou enquanto escrevo.

Isso é tudo o que eu quero nesta natal: que o senhor faça com que eu nunca perca paixão por escrever. Porque, desde que o senhor me deu de natal um “saber escrever”, isto se tornou meu brinquedo preferido. E eu, como menino que escreve, quero brincar cada vez mais e mais com isso.

E eu prometo que se o senhor me der isso de presente, eu serei um menino bom ao longo de todo o ano. Porque eu prometo que vou usar este presente para dar presentes a todos os meus leitores.

Prometo que sempre vou usar este presente para o bem. Prometo que vou fazer de tudo para provocar – e nunca arrancar – risadas sinceras dos leitores. E, se eles chorarem, eu cuidarei para que meus textos façam com que as lágrimas sejam doces e felizes.

Que não sejam apenas risadas, mas sim gargalhadas, daquelas que soltamos somente ao lado de quem nós amamos. E que o choro seja feito de lágrimas bonitas, como aquelas que deixamos escapar no Natal.

Aliás, acho o senhor já me atendeu, porque acabei de encontrar uma frase que resume exatamente o que eu quero dizer:

Prometo que vou usar este brinquedo para inventar textos que transformem alguns minutos nas vidas das pessoas em um pequeno Natal.

Porque, de todos os brinquedos que o senhor me deu até hoje, escrever é o meu preferido, como eu disse acima. Assim, nada mais justo que eu o compartilhe, cada vez mais, com as outras pessoas. E sempre da melhor forma possível. É a única maneira que eu conheço de agradecer por este presente.

Espero que o senhor receba esta cartinha antes da meia-noite.

Um feliz natal para o senhor e para todos os duendes.

Com amor,

Rob

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Nota do autor – Este não foi o primeiro natalino que fiz este ano. Na verdade, é o terceiro: o primeiro, feito para a Lipton, relata o primeiro Natal do qual me lembro, e está aqui; o segundo é um pequeno conto de Natal publicado aqui, no Malvadezas.

E, agora, eu gostaria de desejar um Natal maravilhoso para todos vocês que estão aí, do outro lado desta tela, lendo o que eu escrevo. Quero desejar um natal repleto de paz, felicidade e muito, muito amor.

E, a todos os leitores que já comentaram a respeito deste blog com seus pais, namorados(as) e irmãos(ãs), um pedido especial: transmita meus votos mais sinceros do mundo de "Feliz Natal" a eles. Digam a eles que “o cara daquele blog que eu falei uma vez deseja um feliz natal espcificamente para você".

Porque, se o Natal tem um significado, ele é justamente este: família.

Feliz Natal!

23 de outubro de 2011

Carta Aberta a Rob Gordon

Rob:

Eu me lembro do dia em que entrei aqui na sua casa pela primeira vez. Achei a casa grande demais – ao menos, ela era maior do que o canto que eu dormia com meu irmão – e você deixou que eu ficasse totalmente solto, andando para lá e para cá, coisa que eu não podia fazer naquela outra casa.

Acho que eu nunca tinha sentido tantos cheiros diferentes ao mesmo tempo. Fora que você tinha um monte de coisa para mim. Tigelas, brinquedos, panos, caminha. Eu havia nascido pouco mais de dois meses antes, mas, naquela noite, eu descobri o mundo. Ou, ao menos, o meu mundo.

Naquela mesma noite, você espalhou toneladas de papel pela sala. Eu não entendi direito o que você estava fazendo – somente dias depois fiquei sabendo que você precisava reunir alguns documentos para o imposto de renda, seja lá o que for isso. Mas o que eu me lembro, de verdade, foi o grito que você deu quando eu abocanhei um dos envelopes e saí andando com ele pela sala.

Lembro que quase caí enquanto andava, porque o envelope era maior que eu. Mesmo assim, sei que foi uma boa ideia. Porque, depois do seu grito – que foi de felicidade – você gargalhou alto. Deixou todos aqueles papéis de lado, se sentou no chão ao meu lado e me levantou nos braços. Eu lembro que você beijou meu rosto e, ainda rindo, prometeu que ia cuidar de mim para sempre.

Não sei se foi na gargalhada ou no beijo que você se tornou melhor amigo. Mas, quando você disse que iria cuidar de mim para sempre, isso já havia acontecido. Neste momento, eu sorri para você, mas não sei se você viu, porque nem sempre vocês, humanos, percebem quando nós estamos sorrindo.



Isso faz tanto tempo.

De lá para cá, eu me recordo de muita coisa. Lembro-me dos primeiros meses, que você deixava de almoçar todos os dias para vir até aqui ver se eu estava bem.

Nesta época, eu ainda não conseguia subir na cama, e dormia enroladinho no chão ao seu lado. Quantas e quantas noites você acordava de madrugada e me perguntava se eu estava bem? Até hoje nunca entendi se você acordava porque estava tendo um pesadelo, ou porque eu estava tendo um pesadelo. Não importa. Você ficava passando a mão na minha cabeça até eu dormir novamente – e é isso que eu me lembro.

Claro que me lembro das brigas que tivemos, especialmente quando o sofá da sua casa aparecia destruído. Ou da noite em que você encontrou aquela revista em quadrinhos que você gostava toda rasgada e com marcas de dentes. Ou a caminha que você comprou para mim. E esta queria falar hoje que destruí de propósito. Mas não foi birra ou arte, foi apenas porque eu não queria dormir na sala: eu queria dormir no quarto com você, que é onde dormi desde a primeira noite, aquela dos papéis.

Sim, nós tivemos muitas brigas. E você nunca me bateu, nem mesmo aquela vez que eu escapei para o hall e invadi o apartamento da vizinha cheio de gente, no meio de uma festa.

Não importa o que eu aprontasse, você nunca me bateu. Você ficava nervoso, quebrava a casa inteira, me xingava, mas nunca me bateu. Isso pode parecer pouca coisa quando se pensa em amigos. Mas, no momento que pensamos que eu sou um cachorro, você nunca me bater significa demais para mim.

Hoje, tudo parece fazer tanto tempo...

Mas tenho essa sensação apenas porque já vivemos muita coisa depois. Sei que você não gosta de falar disso, mas lembra-se daquela vez em que estávamos passeando, e a coleira escapou? Eu me assustei e você se assustou, e o resultado é que corremos metros por aquela avenida, com você atrás de mim. Foi meio confuso, não me lembro de tudo...

Mas eu lembro com clareza mesmo do momento em que você me alcançou, se ajoelhou no meio da rua e me abraçou com força. Você não falou nada – eu lembro que você tremia – mas eu entendi o que você queria dizer em seu silêncio e obedeci. Porque vi que mesmo sem palavras, você estava falando muito sério. E eu nunca mais fiz isso.

Mas o que me fez escrever este texto para você não são as memórias de uma caminha destruída, ou da vez em que escapei da rua. Elas estão comigo e com você, e não precisam mais ser citadas. Quero falar mesmo de outras memórias. Das melhores que eu tenho na vida.

Você sabe do que estou falando. São as noites em que dançamos junto na sala – você em pé no chão, eu em pé no sofá –, com você cantando aquelas musiquinhas horríveis que você compõe nestas horas, usando o meu nome; são as tardes que brincamos de luta na sala, rolando entre os móveis até não aguentarmos mais de cansaço. Ou mesmo quando brincamos de polícia e ladrão em casa: você com seus dedos como arma, e eu me escondo correndo, ficando pronto para atacar.

Mas nós não precisávamos brincar o tempo inteiro. Quantos textos você fez no computador enquanto eu dormia com a cabeça no seu pé? Quantos filmes e séries nós assistimos juntos, com você passando a mão na minha cabeça e eu deitado no seu colo? Quantas noites nós brigamos dormindo, disputando palmo a palmo os melhores lugares da cama? Incontáveis.

Mas sempre juntos. Sempre.

Hoje nós estamos mais velhos. Mas eu ainda me sinto um filhote sempre que a porta do apartamento se abre e você grita um “meu amor!” quando me vê no sofá. E fico irritado quando você entra aqui e, fingindo que não está me enxergando, dizendo que “quando eu saí de casa, tinha um cachorro aqui dentro, onde está ele?” e eu pulando do seu lado. Mas minha irritação passa rápido quando você se cansa disso, me abraça e me levanta, beijando meu rosto e perguntando como foi meu dia.

Sinceramente? Os dias em que ficamos juntos são um paraíso para mim. Todos eles.

Mas já faz bastante tempo que eu você começou a mudar. Em algumas noites, você não brincava mais ao entrar em casa. Você apenas se sentava no chão da sala, encostado na porta, e conversava comigo, falando sobre seu dia, sobre o que você estava sentindo. Às vezes você chorava ali. E eu ficava ao seu lado, ouvindo e fazendo o que pudesse. Em algumas noites ficamos assim, “conversando”, por horas. Você deve se recordar de algumas delas. Eu me lembro de todas.


E você não deve saber disso, mas nestas noites era eu quem te acordava de madrugada para saber se você estava bem. Porque você estava tendo pesadelos. Eu lambia sua testa até você acordar e parar se gemer e se mexer. Você se acomodava e eu ficava acordado, observando, até estar certo de que você havia dormido novamente. Só então eu dormia novamente, mantendo um olho aberto. Mantendo um olho em você.

E, no dia seguinte, você saia de casa apenas para voltar do mesmo jeito. Fiquei com medo de que você ficar assim para sempre. Mas, de meses para cá, você piorou.

Eu vi você sentado horas no sofá, praticamente inerte, olhando para o nada e pensando sobre tudo. Eu não podia fazer muita coisa, então apenas ficava deitado ao seu pé, para mostrar que você não estava sozinho. Para mostrar que, desde o dia em que eu carreguei aquele envelope, você nunca mais esteve sozinho, mesmo que a vida tentou lhe mostrar o contrário em alguns momentos. E mesmo que você tenha acreditado nela. Você nunca esteve sozinho.

E, nestes últimos meses, lembro-me também dos piores dias. Você certamente se lembra deles, mas talvez não tenha memória de tudo, por terem sido muito fortes, da mesma forma que eu não me lembro de tudo o dia em que escapei na rua.

E praticamente não reconheci o meu amigo naquela pessoa chorando quase deitada no chão da cozinha; naquela pessoa que às vezes, gritava coisas ininteligíveis pela casa, durante horas; naquela pessoa que às vezes sentava no sofá e ficava uma tarde inteira imóvel, olhando para a parede, antes de explodir.

E eu vi tudo isso.

Assisti a tudo com atenção – e de certa distância, confesso. E não por medo, mas por não saber ao certo o que fazer, ou como eu poderia te ajudar. E só depois que você se acalmava eu me aproximava, me deitada ao seu lado e às vezes, lambia sua mão. Talvez eu pudesse ter feito mais. Talvez. Mas, na verdade, tudo o que eu consegui foi isso: mostrar que você não estava sozinho.

Por isso que fiquei mais tranquilo quando você começou a ter estas crises com a Ana em casa. A Ana impedia que você se machucasse – eu vi você se machucando, Rob, e quase morri de tristeza. A Ana sentava ao seu lado e falava com você. Eu não ouvia o que ela dizia, mas parecia fazer efeito. Não na mesma hora – às vezes, era mais de uma hora até você se acalmar e literalmente apagar. Mas ela acalmava você. Assim como eu, ela mostrava que você não estava sozinho. É por isso que eu gosto tanto dela.

E aí você começou a tomar remédios. Caixas e caixas de remédio na mesa da sala. Hoje, eu vejo que você está bem melhor, e me torno o mais feliz dos cachorros por isso. Porque eu vejo que meu melhor amigo está voltando a ser meu melhor amigo. Seu olho ainda não brilha da mesma forma, e nós brincamos bem menos do que brincávamos antes, mas eu sou paciente e vou esperar. Porque eu sei que você vai voltar.

Porque, desde que cheguei à sua casa, todos os dias de manhã você sai de casa passando a mão na minha cabeça e prometendo que irá voltar. E eu preciso que você prometa isso agora – porque você sempre foi e sempre será o meu melhor amigo. E eu preciso de você bem, como qualquer amigo de verdade precisaria.

E é por isso que eu tomei a liberdade de tirar estas fotos com você e escrever este texto. Não para que você se lembre da nossa amizade ou de mim. Eu sei que um dia não estarei mais aqui, mas sempre que olhei nos seus olhos tive a certeza de que você se lembrará de mim para sempre. Não. Eu não escrevi isso para que você se lembre de mim.



Eu escrevi isso para pedir que você nunca se esqueça de pessoa que você é.

Amo você.

Do amigo,

Besta-Fera.

26 de junho de 2011

Catú

Você nem faz ideia disso, mas esta semana o grande assunto da minha família foi você.

Na verdade, você é o grande assunto desde o dia daquele Brasil X Holanda. Mas, esta semana, algo diferente aconteceu. Eu não estava lá para ver, mas já fiquei sabendo. Todos nós soubemos que, em algum momento desta semana, você apontou o dedo na direção do gatinho da sua avó e disse:

– Catú!

É uma palavra pequena e que nem mesmo faz muito sentido (apesar de ser extremamente gostosa de ser dita), mas que nos ensinou muita coisa. Mais do que provar que você está aprendendo a falar, mostrou a nós que o tempo realmente passa para todo mundo. Até mesmo para você que, por ser tão pequenininho e inocente, sempre havia passado a impressão de desafiar – e vencer – os ponteiros do relógio que insistem em virar.

Porque foi com esta palavrinha que percebemos que já faz meses que você está aqui. Quase um ano, na verdade. E isso foi tempo suficiente para você escolher uma única palavra, “Catú”, que será a primeira de tantas outras que você irá falar na vida.

Logo, você começará a aprender os nossos nomes, os nomes das cores e dos números, os nomes dos seus brinquedinhos. Vai descobrir que tudo ao seu redor tem um nome. Até mesmo você. Com o passar dos anos, você irá se apaixonar por trechos de livros, frases de filmes e versos de músicas.

Assim, você descobrirá palavras novas todos os dias.

Assim, você encontrará as suas próprias palavras.

Exatamente como qualquer pessoa. Exatamente como seu tio.

Você ainda não sabe disso, mas sou apaixonado por palavras. E talvez eu tenha me apaixonado desta forma no momento em que descobri ser impossível viver sem elas. Elas são meu elemento natural. Na verdade, posso dizer que minha vida não são apenas palavras, mas que palavras são a minha vida.

Espero que, se um dia você ler algo que escrevi, sinta orgulho. Mas que este orgulho não seja pela forma que uso as palavras, que não esteja ligado a elas serem bonitas ou ordenadas de forma elegante, mas sim por serem sinceras. Porque eu, seu tio, sou exatamente aquilo que sinto; e o que sinto é exatamente aquilo que escrevo.

Mas não é porque sou apaixonado pelas palavras que isso quer dizer que eu as domine. Aliás, eu não faço questão de dominá-las. Gosto de usá-las, de brincar com elas, até mesmo de me expor por meio delas, mas jamais dominá-las. Mesmo apaixonado por elas, existem momentos nos quais eu acho difícil encontrar a palavra certa. Nem sempre consigo, mas jamais tento forçá-las a se transformarem em algo que elas não são Seria capricho da minha parte.

Sou apaixonado por elas, e o segredo de estar apaixonado é justamente não tentar dominar ou transformar, mas sim (e apenas) querer se entregar.

Sou apaixonado por ela e, por isso, quero dar um conselho a você: jamais se esqueça de que as palavras são algumas das coisas mais importantes da vida. Pense sempre antes de usá-las, e use-as sempre da forma mais verdadeira do mundo.

Porque palavras podem ser fortes. Muito mais fortes e poderosas do que você imagina.

Palavras podem formar poemas, músicas e textos lindos. Mas palavras podem partir um coração e esvaziar a alma de alguém. Palavras podem cativar um sorriso que durará por anos, mas também podem provocar rios de lágrimas. Algumas palavras podem destruir um sonho, enquanto outras acolherão mais que um abraço. Existem palavras duras e palavras macias; existem palavras ásperas e palavras amorosas. Mas elas sempre precisam ser verdadeiras.

Por outro lado, às vezes você descobrirá que as palavras são desnecessárias. Existirão ocasiões em que um abraço, um olhar ou um entrelaçar de dedos dirá mais que qualquer palavra. Às vezes, você descobrirá que elas são insuficientes. Nunca criaram uma palavra para descrever plenamente o amor, a tristeza ou a saudade, por exemplo.

Mas, na maior parte das vezes, as palavras funcionarão muito bem. Use-as com sabedoria e com amor. Cada palavra que você usar precisa ser escolhida com cuidado e carregada de amor, porque não existe nada mais sincero no mundo inteiro que o amor. A sinceridade de suas palavras nada mais é que a consequência da sinceridade que você sente. Seja sincero com você mesmo e suas palavras serão sinceras, sempre.

Pense antes de escolher suas palavras, mas escolha-as sempre com o coração.

Neste exato momento, enquanto escrevo isso, é bem provável que seus melhores amigos e o amor de sua vida estejam aprendendo as suas primeiras palavras. Com o tempo, eles, assim como você, descobrirão outras. E as palavras deles serão tão importantes, na sua vida, quanto as suas próprias.

Com palavras sinceras você se aproximará dos seus amigos e conquistará o amor da sua vida. Com palavras sinceras você confortará seus amigos e cuidará do amor de sua vida. Com palavras sinceras você gargalhará numa mesa de bar com seus amigos e sonhará abraçado com o amor da sua vida.

Com palavras sinceras você será amigo para sempre e amará eternamente.

Com palavras sinceras você será feliz. Com palavras sinceras e carregadas de amor, você será feliz todos os dias, mesmo naqueles em que as derrotas lhe deixarão sem palavras. Afinal, mais que do que serem simples palavras, "amor" e "sinceridade" são a forma correta de usar todas as outras palavras que você descobrir.

Amor e sinceridade: a única regra gramatical que não pode ser ignorada jamais.

Curiosamente, eu, que sou tão apaixonado por palavras, não sei qual foi a primeira que falei. Não faço ideia de qual foi a palavra que deu origem a tudo o que me tornei hoje. Nestes dias, cheguei até mesmo a perguntar para sua a avó, mas ela também não se lembra. Assim, eu posso apenas esperar ter acertado em todas as outras que vieram depois. E saber que fiz o melhor que pude.

Quanto a você... Bem, você ainda não precisa se preocupar com isso. Com o tempo você não apenas encontrará as suas palavras, e, principalmente, descobrirá quais as pessoas que merecerão ouvi-las, e que darão o valor adequado a cada uma elas.

Mas você não precisa pensar nisso agora. Você tem todo o tempo do mundo, exatamente como eu já tive um dia. Mas quero que saiba que a palavrinha que você escolheu para começar tudo isso, estará guardada aqui, neste blog. Para sempre.

“Catú”.

Esta foi só a primeira. Que venham as próximas.


Words are flowing out like endless rain into a paper cup,
They slither while they pass they slip away across the universe.


7 de junho de 2011

Carta Aberta a Minha Primeira Namorada

Oi, tudo bem?

Faz tanto tempo que não nos vemos... Não sei exatamente quantos anos, mas calculei que deve estar perto de duas décadas.

Que idades nós tínhamos quando namoramos? Eu me lembro de ter dezesseis para dezessete... Você deveria ter quinze. Hoje, eu estou com 35. Passou tudo tão rápido... A última vez que tive notícias suas, fiquei sabendo que você havia se formado em Biologia, estava casada e indo viajar para a Europa. Enfim, espero que tudo esteja bem.

Mas estou escrevendo esta carta porque tenho pensado bastante em você, e senti saudade. E, como o Dia dos Namorados é neste final de semana, resolvi aproveitar para escrever e lhe dar um presente, que jamais poderia ter lhe dado quando estávamos namorando.

Fiquei com vontade de dar a você o homem que me tornei. Porque acho que você ficaria orgulhosa de mim.

Muito do que eu sou hoje, você viu nascer. São pequenas coisas que aprendi com você e com seu amor, que estão todos os dias em mim. E são graças a elas que, mesmo errando às vezes, eu ainda tenho a mesma vontade de acertar. Da mesma forma que acertei com você.

Hoje, sei que amei você como amaria todas as outras vezes na minha vida: para sempre. É a única forma que conheço, e aprendi com você. Sempre que estou apaixonado, me torno aquele mesmo menino de dezesseis anos que se sentia brilhando ao seu lado e cujo coração disparava no momento em que você segurava minha mão ou me abraçava escondendo a cabeça no meu peito.

Lembra do menino que você namorou? Ele ainda esta aqui. Ele trabalha, paga as contas, cresceu e virou homem. Mas um homem de dezesseis anos.

Sorrio de amor e choro de saudade o tempo todo. Morro de paixão, sem tentar disfarçar. Escrevo cartas e poemas, apenas pela sensação de estar perto da pessoa que amo enquanto escrevo. Às vezes, coloco a música preferida da pessoa apenas para fingir que ela está em casa e vai aparecer do meu lado a qualquer minuto. E ainda desejo “boa noite e dorme bem”, baixinho na cama, antes de dormir, mesmo quando durmo sozinho.

Graças a você, me tornei um homem que ama como se tivesse dezesseis anos. Resolvo problemas e toco minha vida da forma mais madura que conheço, mas amo e me apaixono como se ainda fosse um adolescente. Como se fosse de novo a primeira vez.

Ainda faço tudo isso da mesma forma que eu fazia vinte anos atrás, com você.

E, da mesma forma que fazia com você, eu peço para a pessoa não ir embora nunca, porque quero que cada momento com ela seja para sempre. E, mesmo triste depois do beijo de despedida, volto para casa com vontade de pular pelas calçadas, de cantar alto. Engraçado isso... Quando estamos apaixonados, queremos dançar até quando estamos tristes.

Mas, quando estou com a pessoa, explodo de felicidade. Ainda tiro a pessoa que amo para dançar no meio da rua, pois quero que o mundo inteiro veja como ela fica dançando. Cubro de beijos e protejo em abraços, e canto baixinho no ouvido dela, jurando que eu vou amar para sempre.

Porque quando a gente ama de verdade, é para sempre.

Graças a você descobri que amo a sensação de estar apaixonado.

Ela me faz forte e me faz doce, me faz grande e me faz frágil. Ela me faz completo comigo mesmo e nada sem você. Apaixonado, vejo o mundo com os outros olhos, descubro cores e formas que não existem normalmente. Leio o nome da pessoa escrito ao meu redor, sinto o perfume dela a cada vez que respiro, e fique procurando a mão dela dentro da minha, enquanto caminho sozinho.

Este é meu presente. Gostaria que você soubesse que você me transformou nisso. Pois foi com você, meu Primeiro Amor, que descobri que, quando estamos apaixonados, todos os beijos são os primeiros e cada abraço é eterno.

Graças a você que, sempre que me apaixono, ainda me transformo no mesmo menino de dezesseis anos que você namorou. Quando estou apaixonado, ainda tenho aquele sorriso de quem está aprontando algo, ainda tenho aquele brilho de criança no olhar, e me sinto preso num fim de tarde morno, daqueles de primavera.

Talvez com dezesseis anos não exista outro modo de se apaixonar. Mas, para mim, até hoje não existe outro modo.

Você ficaria orgulhosa de mim. Mas quero que sinta orgulho de você mesma.

Este é meu presente de Dia dos Namorados para você: que você saiba que, quando brincávamos dizendo que ficaríamos juntos para sempre, você nem imaginava que isso me tornaria eterno. Um eterno homem de dezesseis anos, um eterno menino que ama.

Um menino de dezesseis anos que morreria por amor todos os dias, depois que aprendeu, desde que segurou sua mão pela primeira vez, que não existe nada melhor que viver por amor. E ter me transformado neste menino foi o melhor presente que você poderia ter me dado.

Feliz Dia dos Namorados.

Rob.


Fiz esse texto a convite de O Boticário, que encontrou outras formas de celebrar o amor no Dia dos Namorados, com este site e esta página no Facebook.


13 de maio de 2011

Carta Aberta à Banda Restart

Cara banda Restart:

Antes de tudo, peço desculpas antecipadas pelo tamanho desta carta. Tentei resumi-la ao máximo para o maior conforto de vocês, mas creio que falhei nisso.

Fui surpreendido, ontem, com a declaração de um de seus integrantes, afirmando à imprensa que uma das inspirações para suas composições seriam as musicas da banda inglesa Black Sabbath.

Creio que posso afirmar ser admirador do Black Sabbath. Tenho todos os álbuns de estúdio da banda e já assisti a shows de dois ex-vocalistas do grupo: Ozzy Osbourne e Ronnie James Dio, que se apresentaram no Brasil. E esta informação é pertinente, visto que a declaração não cita uma “fase” específica da banda britânica como influência – logo, devo admitir que nada menos que toda a discografia da banda funciona como inspiração para suas composições.

Contudo, vamos à declaração em si, dada à imprensa por Pe Lanza. Aliás, antes de prosseguir, desculpem minha falta de conhecimento, mas eu não faço ideia de qual seja o “cargo” do Pe Lanza na banda (e não vou perder tempo procurando qual instrumento ele toca, visto que esta informação será desnecessária aqui. O que me interessa é ele ser integrante do Restart).

Enfim, a declaração é:

“A gente escuta Black Sabbath e, em seguida, coloca a nossa emoção nas músicas".

Ok, Pe Lanza. Antes continuarmos este texto, é hora de começarmos a numerar algumas informações essenciais aqui. De acordo com sua frase, fica claro que Black Sabbath é a maior influência musical nas composições do Restart. Este dado será extremamente importante mais para frente – até coloquei-o em negrito para facilitar. Vamos chamá-lo de “Informação Rosa Choque” (eu pensei em chamar de “Informação 01”, mas vou trabalhar com cores, pois, aparentemente, vocês se sentem mais confortáveis assim). Pronto.

Agora guardemos a Informação Rosa Choque para usá-la mais tarde. Vamos falar um pouco sobre Black Sabbath? Ou melhor, vamos falar sobre a importância do Black Sabbath. E a melhor maneira de fazer isso é traçar uma linha do tempo do heavy metal. Mas vamos fazer isso de uma forma bem rasa (e o mais sucinta que eu conseguir), apenas para ilustrar a importância da banda, considerando somente os grupos principais de cada época.

Para facilitar ainda mais para vocês, vamos ser puristas e não abordar o hard rock praticado nos anos 60 (por bandas como Led Zeppelin, Deep Purple, Blue Cheer, The Jimi Hendrix Experience e até mesmo pelos Beatles, na música Helter Skelter), arredondando a conta e apontando o Black Sabbath como verdadeiro e único criador do heavy metal – o que, de qualquer forma, não deixaria de ser verdade em hipótese alguma.

Então, Pe Lanza e demais membros do Restart, acompanhem comigo. Vou tentar fazer a coisa da forma mais simplificada possível, ok?

O Black Sabbath criou o heavy metal e influenciou diretamente o Judas Priest que, por sua vez, “geraria” toda a New Wave of British Heavy Metal (cujo maior expoente é o Iron Maiden, do qual vocês devem ter ouvido falar, visto que a banda se apresenta no Brasil com freqüência). Tendo a NWOBHM como novo ponto de partida, podemos cruzar o Atlântico e chegar ao thrash metal californiano (cujo maior nome, Metallica, irá tocar no Rock in Rio este ano e contém bastante material na internet, caso queiram pesquisar).

Entenderam tudo? Se precisarem reler – são muitos nomes, eu sei –, não tem problema. Eu espero.

Ok. Vamos continuar.

A partir daí – estávamos no início dos anos 80 – o heavy metal se multiplicou totalmente, ganhando inúmeras novas vertentes e estilos. Death Metal. Speed Metal. Doom Metal. Gothic Metal. Funk Metal. Melodic Metal. A lista é enorme. O que importa, para nós, é saber que a árvore ganhou ramos e mais ramos, mas seu tronco permanece formado por Judas Priest, Iron Maiden (e demais bandas da NWOBHM) e Metallica (e as outras bandas da Bay Area).

Contudo, o que precisamos olhar aqui é a raiz. E o nome dela é Black Sabbath. Todo e qualquer tipo de heavy metal tem sua fonte em na banda do guitarrista Tony Iommi. O gênero está em constante evolução, e (evidentemente) cada banda apresenta influências diretas da geração anterior à sua, mas todas elas têm como base o Black Sabbath, seja na temática, nos riffs, ou até mesmo no visual.

Pronto. Agora, vamos lá: onde eu queria chegar? Estou provando aqui que existe uma regra: Black Sabbath influenciou todas (sim, todas) bandas de heavy metal existentes. Da mesma forma, toda banda influenciada primordialmente pelo Black Sabbath pertence ao heavy metal.

Esta é a segunda informação importante do texto – viram como ela também está em negrito? Vamos chamá-la de “Informação Verde Limão”.

Agora sim podemos começar a brincar de verdade.

Combinando a Informação Verde Limão (“toda banda influenciada por Black Sabbath pertence ao heavy metal”) e a Informação Rosa Choque (“Black Sabbath é a maior influência musical nas composições do Restart”) não é preciso ser um gênio para deduzir o resultado:

Restart é uma banda de heavy metal. Ao menos, Pe Lanza, é isso o que sua declaração aponta. Restart e heavy metal. Nunca achei que fosse encontrar estas palavras na mesma frase, mas, paciência. Nem sempre as coisas são como queremos. Vamos em frente.

Aliás, não vamos em frente. Vamos além.

Se Restart é uma banda de heavy metal, como já comprovamos, é nossa obrigação tentar encaixá-la na evolução do estilo, arrumando um lugar naquela árvore do heavy metal.

Ok. Restart é uma banda influenciada DIRETAMENTE por Black Sabbath (afinal, a única outra influência das músicas da banda é o vasto repertório emocional de seus integrantes), creio que podemos fazer uma projeção aqui.

Afinal, como eu disse, o gênero está sempre evoluindo. As bandas da quarta geração são influenciadas pelas três gerações anteriores; as bandas da terceira geração, pelas duas anteriores, e por aí vai. Consequentemente, uma banda de heavy metal influenciada somente por Black Sabbath (que sozinho, é a primeira geração) pertence obrigatoriamente à segunda geração do heavy metal.

Até agora, o maior expoente da segunda geração do heavy metal era o Judas Priest (esta geração contaria também com Blue Öyster Cult, mas não quero me aprofundar tanto). Uma banda que, influenciada diretamente por Black Sabbath, desenvolveu o estilo e inspirou o trabalho de grupos como Iron Maiden, Saxon, Metallica, Slayer, Megadeth, Anthrax, Diamond Head e Pantera.

Bem, analisando sua declaração, Pe Lanza, acabei de descobrir que a história do heavy metal foi mudada. Os dois maiores nomes da segunda geração do heavy metal são Judas e Priest e Restart. E, como quase 40 anos separam estas bandas, podemos ir mais além ainda e concluir que, de acordo com Pe Lanza, Restart é o novo Judas Priest.

E, não, Pe Lanza, não estou colocando palavras na sua boca. Estou apenas usando o pouco que conheço sobre heavy metal para interpretar a fundo o que você disse.

E eu gosto muito de Judas Priest. Sempre gostei. A banda tem algumas das músicas que considero verdadeiros hinos do gênero, como Victim of Changes, Metal Gods, Painkiller, Eletric Eye e Breaking the Law, além de praticamente ter criado o conceito das “guitarras gêmeas”, que seria aplicado depois a tantas outras bandas, com destaque para o Iron Maiden. Isso sem falar que seu vocalista, Rob Halford, é, em minha opinião, o mais competente de toda a história do metal.

Bem, se existe uma banda que pode ser chamada de “novo Judas Priest”, é a minha obrigação conhecê-la. E cabe aqui um mea culpa, Pe Lanza: desculpe pela completa falta de interesse que eu havia demonstrado até hoje com seu trabalho. Se o Restart é o novo Judas Priest, eu que marquei bobeira em não ir atrás e não conhecer mais.

Mas precisei de dez minutos e três canções para entender que suas músicas passam longe – bem longe – do que conheço de Judas Priest. Tanto em conteúdo, como em estilo. Aliás, elas passam longe de qualquer coisa que eu conheça como heavy metal. Aliás, suas músicas passam longe de qualquer coisa que eu goste – e eu sempre gostei muito de rock.

Assim, rock de verdade, sabe?

E, por mais que eu me esforce, não consigo identificar vocês como rock, muito menos como heavy metal. E isso tanto no aspecto musical como no visual. Esta comparação foi mais fácil de ser feita. Existem tantas fotos de vocês espalhadas na internet que passei a acreditar que esta a ocupação principal de vocês: aparecer em fotografias – suas músicas seriam uma atividade paralela, compostas e gravadas apenas para promover as fotos.

Bem, me esforcei para achar alguma semelhança com Judas Priest e Black Sabbath ali. Mas não dá. Me parece que vocês estão mais interessados em lançar tendências usando roupas com cores que existem apenas num guia Pantone – algo que parece não ter propósito algum, a não ser vender roupas. Bem, teoricamente, o punk foi criado por um empresário inglês que desejava vender roupas, mas, ao menos, os músicos do estilo (The Clash, Sex Pistols, Ramones) tinham mais atitude que aparecer em fotos mostrando a língua ou fazendo caretas. Ou seja, tinha um pouco mais de conteúdo.

Talvez esta “atitude” funcione com seus fãs, mas não funciona com alguém que goste de Black Sabbath. Pois, quem ouve Black Sabbath normalmente espera um pouco mais de maturidade musical. E não vou entrar aqui no mérito das canções da banda inglesa servirem como metáfora da situação da classe operária inglesa. Seria entregar pérolas aos porcos.

Agora, Pe Lanza: o interessante é a arrogância da sua frase. Ao dizer que “vocês ouvem Black Sabbath e colocam suas próprias emoções nas músicas”, sou obrigado a fazer duas leituras. A primeira é que vocês, do Restart, ouvem Black Sabbath e, não identificando nenhum tipo de emoção ou sentimento na música deles, resolvem preencher esta lacuna por conta própria. A segunda: vocês escutam Black Sabbath, não concordam com a emoção que eles transmitem em suas músicas e decidem alterá-la, usando seu próprio repertório emocional para isso.

Em ambos os casos, vocês “aprimoram” a música do Black Sabbath. Aparentemente, as músicas do Black Sabbath não possuem emoção suficiente (ou as emoções erradas) e é preciso “arrumá-las”. E vocês fazem isso em canções como: Música do Chupim, Final Feliz, O Meu Melhor e Pra Você Lembrar.

Música do Chupim.

Certo.

Deixe-me encerrar explicando algo a vocês. Na mesma matéria, o Pe Lanza informa que “para fazer rock não é preciso ser mau. Rock é emoção”.

Concordo. Rock é emoção. Mas rock também é talento, é atitude, é coragem, é rebeldia, é um modo de vida. E, sinceramente, não vejo nada em vocês que possa ser associado a isso. Talvez isso funcione com seus fãs, mas é só.

E, caso alguém aqui diga que "rock é apenas diversão", Restart abre mão de ser "apenas divertido" no minuto em que se coloca no mesmo patamar que Black Sabbath. E isso não pelo fato de eu adorar Black Sabbath - estou deixando meu gosto pessoal de fora disso –, mas pelo teor politizado e sombrio das canções da banda inglesa. Então, se você quer ser "apenas divertido", compare-se a um programa infantil, a um brinquedo, ou a um desenho animado.

Acho que vocês devem um pedido de desculpas por ter criado esta expectativa sobre seu trabalho de vocês, com a declaração infeliz do Pe Lanza. E acho que vocês devem um pedido de desculpas aos seus fãs que não conhecem heavy metal, por ter passado a eles uma expectativa tão errada sobre o gênero.

Porque existe uma diferença bem grande por trás de versos como “Generals gathered in their masses, just like witches at black masses” (Black Sabbath), “You're tryin' to find your way through life, you're tryin' to get some new direction” (Judas Priest) e “Eu tô na rádio, eu tô na Metropolitana, ouvir Restart no Chupim vai ser bacana” (É, bem... Vocês).

Falta comer muito feijão ainda.

E não acredito que haja feijão suficiente no planeta. Não para isso.

Sinto muito.

Grandes abraços e boa sorte,

Rob Gordon


8 de outubro de 2010

Carta Aberta a John Lennon

Eu conhecia você antes mesmo de conhecer suas músicas.

Como qualquer pessoa do planeta, eu já tinha ouvido as pessoas falarem seu nome, bem como o nome da sua banda. E, provavelmente sem querer, tropecei em algumas das suas canções ainda menino, mesmo sem saber que as músicas eram suas.

Porque, quando eu ainda era menino, as suas músicas tocavam em todos os lugares, o tempo todo. Mas eu ainda não sabia quem era você.

Mas foi logo depois que eu deixei de ser criança – naquela fase na qual a gente começa a descobrir as músicas que irão ditar não apenas o que ouviremos para sempre, mas, principalmente, a pessoa que seremos pelo resto das nossas vidas – que eu decidi prestar atenção no seu trabalho.

É aquela fase da vida em precisamos de ídolos, de músicas, de rebeldia. Você passou por isso também, lembra? Quando você era menino, ficava ouvindo músicas no rádio e em discos. Todo menino faz isso, acho. Você fez, meus amigos fizeram, eu fiz. Mas, enquanto você, no começo dos anos 50, descobriu o blues e o skiffle, eu, quase quarenta anos depois disso, descobri o rock. E descobri os Beatles.

E foi aí que você entrou na minha vida.

Aliás, eu me lembro exatamente da primeira vez que escutei suas músicas. Era uma fita K7 branca, com “Os 20 Maiores Sucessos dos Beatles”. Quando ouvi pela primeira vez, fiquei impressionado: eu já conhecia – e já adorava – pelo menos metade daquelas músicas, sem saber que elas eram daquela banda que eu tinha ouvido falar tão bem, de tantas pessoas diferentes. A sua banda.

Esta fita – que ainda deve estar na casa dos meus pais – foi uma das minhas grandes companheiras no final da década de 80. Eu ouvia todas as noites, e ainda me lembro a ordem das quatro primeiras músicas: She Loves You, Love me Do, I Want to Hold Your Hand e Can’t Buy Me Love. Você acredita que até hoje, quando eu acabo de ouvir She Loves You, fico esperando pelos primeiros acordes de Love me Do? De tanto que eu escutei aquela fita, a ordem das músicas ficou impressa na minha memória a esse ponto.

Com o tempo, eu envelheci e descobri outras músicas, outros gêneros, mas as suas canções, as suas frases sempre estiveram ali (até mesmo de forma indireta, já que a maior parte das músicas que eu ouço hoje existe apenas porque, um dia, você decidiu montar uma banda de rock no colégio). Mas as suas músicas, especialmente, me acompanharam por todos estes anos.

Porque sempre que eu precisei de um conselho, sempre que eu precisei pensar um pouco (ou justamente parar de pensar um pouco), sempre que eu precisei chorar um pouco, era em direção às suas músicas que eu corria. Porque, se quando eu era menino me divertia com o que você gritava, ao amadurecer eu comecei a compreender o que você dizia, gritando ou não. E as coisas que você dizia faziam muito sentido. Sempre fizeram.

Assim, eu passava horas ouvindo suas músicas e acompanhando as letras. E, quando você ficava em silêncio, somente tocando seu instrumento junto com seus três amigos, eu me perguntava como você conseguia dizer tudo o que queria, daquela forma tão precisa e tão elegante, com tão poucas palavras.

Como você conseguia falar de tantos sentimentos, do mundo e das pessoas, e de você mesmo, daquela forma? Não sei. Acho que ninguém saberia explicar isso – somente você.

Mas não deu tempo de explicar.

Por que, numa noite que deveria ser como outra qualquer, cinco tiros acabaram com tudo. Tudo aconteceu apenas em alguns segundos, mas, a partir deste momento, estes segundos durariam para sempre. E até hoje ninguém no planeta conseguiu entender ao certo o motivo disso. E muito menos compreender porque logo com você.

Eu, ao menos, me pergunto isso até hoje. É engraçado... Eu não me lembro de quando os tiros aconteceram – eu era muito pequeno – mas me pego pensando sobre isso, às vezes. E, quando vejo, estou na frente do PC vendo vídeos e lendo artigos sobre esses malditos tiros, e me perguntando por que logo com você, com um gosto amargo na boca.

Se não fossem estes tiros, amanhã você faria 70 anos.

Mas, ao invés de pensar em tudo o que você poderia ter feito nestas décadas que roubaram de você, eu prefiro pensar em tudo o que você fez.

Prefiro pensar em tudo o que você fez pelo mundo, tudo o que você nos deixou, tudo o que ensinou – algumas coisas nós ainda não aprendemos, mas estamos tentando. E prefiro pensar em tudo o que você fez por mim (mesmo sem saber disso) quando traduzia exatamente o que eu sentia com suas canções.

Ao invés de pensar nos tiros, gosto mais de pensar em tudo o que você me ensinou.

Sabe... As músicas que você ouviu quando menino fizeram com que você se tornasse um músico. E até hoje o mundo deveria agradecer por isso, todos os dias. Mas as músicas que eu ouvi quando menino – as suas músicas! – me ajudaram muito a fazer o que eu faço hoje, que é escrever. E a coisa que eu mais gosto de fazer na vida é escrever.

E devo muito disso a você e a suas músicas. Foram elas que me ensinaram a questionar muitas coisas, e, principalmente, me ajudaram muito a amar e aprender o que é o amor. E quem escreve precisa amar. Você sabia disso. Você sabia disso certamente melhor do que eu.

E você não faz idéia da vontade que eu tenho de poder agradecer isso a você, um dia desses.

Mas eu queria que você soubesse que, os cinco tiros, mesmo com seus estampidos altos, nunca calaram sua voz. Ela continua aqui.

Lembra quando eu disse lá em cima que, quando era menino, suas músicas tocavam em todos os lugares, o tempo todo? Bem, eu não sou mais um menino, e suas músicas continuam tocando em todos os lugares, o tempo todo.





E vai ser sempre assim. Sua voz vai estar aqui, por anos e anos. Sua voz vai estar aqui para sempre. Isso é algo que nem todos os tiros do mundo iriam conseguir interromper. Pode confiar em mim.

You may say I’m a dreamer... But I’m not the only one. Palavras suas, lembra? O sonho nunca acabou. E nunca acabará.

Parabéns pelo seu aniversário.

E obrigado, muito obrigado, por tudo.

Rob