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20 de janeiro de 2023

Golpe... De Mestre?

 Foi ontem, lá pela uma da manhã. Estava lendo um livro na sala e, de repente, tocou meu WhatsApp. Dois toques. Fiz questão de atravessar a casa até o PC praguejando. Eu tinha certeza que era alguém me pedindo um texto.

E, sabe... O problema das pessoas que pedem texto no meio da madrugada não é fato de que elas estão pedindo texto de madrugada. O problema é que uma pessoa que faz isso certamente vai perguntar se você consegue entregar ainda hoje, de preferência antes das padarias abrirem.

Sentei no PC. Lá estava as duas mensagens, de um número que eu não conhecia. E a foto do perfil era da Mulher Elástica, dos Incríveis. Acendi um cigarro, respirei fundo e olhei para o alto.

“Deus, aqui é o Rob. Se eu rezar hoje à noite, será que você consegue levar isso em conta e dar um desconto amanhã? Tipo, não quero ganhar na Mesa Sena, eu queria apenas um dia tranquilo. Mais nada. Isso não quer dizer que eu não quero ganhar na MegaSena. Se for possível, isso muito me interessa, mas só de ...”

“Miau”

“Não tô falando com você, #GatoRidículo. Você tem ração aí que eu estou vendo, vai encher o saco de outro”.

Deus não respondeu e o gato foi embora. Sobrou apenas eu e as mensagens novas no WhatsApp . Dei mais um tragada e abri a janela. Lá estava a mensagem:

“PAGA ESSE PIX OU VOU VAZAR TODOS SEUS DADOS”

Aí, embaixo, tinha uma imagem. Curioso que sou, claro que mandei fazer o download. Mas eu já imagina do que se tratava. Era o QR Code para eu fazer o Pix.

Sabe, achei meio preguiçoso.

Eu sempre ouço falar daqueles golpes mais elaborados, do tipo “oi, sou eu, seu irmão, e estou numa masmorra no Iraque. Faz esse pix que o pessoal do Estado Islâmico está ameaçando cortar minha cabeça, depois eu acerto contigo.” Até mesmo aqueles mais antigos eram mais bem trabalhados. Manja o Príncipe da Nigéria, que pedia sua ajuda para recuperar o trono e você pode fazer contribuir com a causa colocando dinheiro nessa conta, e ele paga quando reassumir o governo”?

Então, as coisas eram mais bem trabalhadas. Sabe, não eram textos complexos, nem nada que justificasse um Nobel de Literatura, mas tinha uma espécie de roteiro ali. A ideia era fazer você se relacionar com a história, criando um personagem, uma situação de risco e passando a mensagem que “você pode fazer a diferença e salvar a Nigéria!”

Mas a mensagem que eu recebi foi muito feita de qualquer jeito. Eu imagino os golpistas conversando.

“Já to com QR Code aqui. O que eu falo?”

“Fala que para ele pagar.”

“Sim, isso eu já sei. Quero saber qual o motivo dele pagar”.

“Ué, o motivo é que a gente quer a grana.”

“Não é isso! Eu quero saber qual motivo que a gente vai usar para fazer ele querer pagar”

“Ah. Entendi. Não sei, não pensei nisso.”

“Preciso dar um motivo.”

“Sei lá. Fala que vai vazar os dados dele.”

“Mas vazar para quem?”

“Como eu vou saber? Inventa algo aí”.

“Você sabe se ele é casado? A gente pode falar que vai vazar os dados para mulher dele”

“Eu nem sei se ele é homem. Coloca que a gente vai vazar os dados e vê se ele responde”.

Bem, eu não respondi. Fiquei fumando e apenas olhando a tela, esperando algo acontecer. E algo aconteceu. Instantes depois apareceu a palavra “digitando...” do lado da foto da Mulher Elástica.

Achei meio amador, sabe?

Hitchcock disse certa vez que ao invés de mostrar algo assustador na tela, é melhor sempre apenas insinuar. Ao fazer isso, ele deixa a plateia imaginar o que pode acontecer – e a plateia sempre vai imaginar horrores muito maiores do que aquele que ele iria colocar na tela.

Eu, no lugar do cara, teria dado alguns minutos de silêncio, deixando minha imaginação adivinhar quais dados seriam vazados.

No começo, eu provavelmente pensaria que não tenho dado nenhum para vazar. Mas claro que ia continuar pensando nisso. Aí, por segurança, ia abrir minha pasta de fotos e dar uma olhada. Vai que, né? Depois, ia achar que talvez fosse melhor mudar a senha do banco.

E, cinco minutos depois, ia concluir que talvez seja mais fácil pagar o Pix do cara do que ficar abrindo todas minhas pastas para ter certeza se aquelas fotos do Réveillon de 2019, que eu estou bêbado e correndo com a bunda de fora na praia, foram realmente apagadas.

Mas, não. O cara não leu o livro do Hitchcock. Ao invés disso, ele usou a estratégia de mandar o goleiro para a área, para tentar cabecear o escanteio. E logo em seguida o goleiro chegou, com a mensagem

“VOU VAZAR SEUS CARTÕES, SUA LOCALIZAÇÃO, TUDO. PAGA O PIX.”

Me senti até um pouco ofendido, sabe? É como se na primeira mensagem ele tivesse mandando um “oi, sumido, como você está” e, 2 minutos depois – e antes que eu respondesse – já tivesse mandado uma foto pelado no meio da cozinha. Bicho, eu não sou fácil assim.

Mas, enfim... Agora temos dados mais concretos para saber com o que estamos lidando.

Minha localização? Isso pode vazar. Olha, eu moro na Vila Mariana, perto do Hospital São Paulo. Como referência, você pode procurar um delivery de bebidas 24 horas. Na frente desse delivery, vão estar quatro motoboys ouvindo funk no máximo e dando gargalhadas.

Vá até os motoboys e olhe para o prédio ao lado deles. É um prédio branco, de esquina. Se você olhar pela janela do primeiro andar, vai ver uma pessoa careca andando de um lado para o outro e socando a parede, implorando para que os motoboys calem a boca por um minuto.

Esse careca sou eu. Essa é minha localização. Então isso não é  exatamente um segredo.

Meus cartões?

Bem, como acontece com boa parte dos brasileiros hoje, meus cartões são pedaços de plástico que valem exatamente isso: pedaços de plástico. Inclusive, eu estou sempre com a cabeça raspada porque uso um deles como navalha, como já diria Cazuza. Cara, quer vazar meus cartões? Vaza aí.

Aliás, tive uma ideia e pensei em ligar para o golpista.

“Oi, cara. Sou eu, a vítima. Tudo bem? Seguinte... Você quer o número dos meus cartões? Então vamos fazer assim. Eu te passo o número e a senha. Mas antes disso eu vou ligar lá para atualizar meu cadastro e passar o seu telefone como contato. Pode ser? Porque, na boa? Eles me ligam 45 vezes por dia querendo saber quando eu vou pagar. Então, se você quiser, eu te passo o número dos cartões, mas aí você assume essas ligações. Combinado?”

Não. Não ia rolar. Provavelmente o cara ia desligar na minha cara com medo de eu fazer isso. Eu, no lugar dele, desligaria na mesma hora.

Bem... Localização. Cartões. O que falta vazar? Meus textos? Minha pasta de textos é tão bagunçada que ele iria gastar mais dinheiro com o golpe contratando alguém para arrumar aquilo do que com a grana que ele ganharia.

Nudes? Bem, aí a coisa também é complicada. Pensa comigo: o que a pessoa vai fazer com um nude meu? Ligar para a prefeitura e fazer ameaças, exigindo 5 milhões de dólares em 48 horas, caso contrário vai projetar uma foto minha pelado num prédio da Paulista? Nem vilão de quadrinhos faria isso.

Meu cigarro estava acabando e pensei em mandar uma resposta para ele.

Queria perguntar que dados exatamente ele iria vazar, e onde ele faria isso. E não por medo, mas sim para ver se conseguia ajudar o cara. Tipo, “não joga no Twitter agora, tenta jogar amanhã depois do almoço. É sexta, e esse horário tem mais engajamento”. Ou “se jogar no Instagram, tem como me marcar na foto, para eu conseguir uns seguidores?”

Mas não deu tempo de novo. Lá estava novamente:

“DIGITANDO...”

Pensei: ah, agora ele vai dar o cheque mate. Vai colocar meu extrato do banco pra mostrar que não está brincando, ou uma foto minha falando com ele no computador. Imagina que demais? O cara ter uma foto minha tirada enquanto falo com ele? Putz, aí seria demais! Respeito total!

Mas não. A mensagem que pipocou na tela foi apenas

“NÚMERO ERRADO. DESCULPE.”

E apagou todas as mensagens.

Número errado, cara?! Sério?!

Que brochante. Fiz toda uma fantasia sobre meus dados serem vazados e pronto. Tomei um ghosting. Lá se foi o golpista, depois de fazer ameaças e prometer que vazaria meus dados, em busca de outra pessoa. Me descartou, assim, do nada.

Hoje conversei com algumas pessoas, que disseram para eu eu não esquentar a cabeça. Falaram que golpista é tudo igual, eles não prestam mesmo. Falaram até que o que é meu está guardado, e ainda vou achar um contraventor que me dê valor e me mereça. Mesmo assim... Não sei... Não consigo parar de pensar que o problema é comigo.

Acho que é hora de eu me tornar uma pessoa com dados mais interessantes. E parar de criar expectativas com todo golpista que aparece no meu celular.

Epílogo: meia hora depois meu telefone tocou. Corri para atender, torcendo para que fosse o golpista, dizendo que se arrependeu, implorando meu perdão, que nunca encontrou alguém com dados tão interessantes como eu, e que eu preciso fazer o Pix dele. Mas não. Era o filho da puta do cartão de crédito me cobrando. Bloqueei o número e fui dormir agarrado ao travesseiro e ouvindo All by Myself.

12 de setembro de 2022

O Estranho Mundo da Máquina de Lavar Louças

Quando eu era moleque, meu pai trouxe um Tangram para casa. Acho que ele tinha ganhado numa gráfica e me deu de presente. Para quem não sabe, Tangram é um quebra-cabeça chinês com sete peças de tamanhos diferentes, que você pode usar para montar quais figuras quiser.

Exatamente igual à máquina de lavar louças aqui em casa, com duas diferenças. A primeira é que as peças da máquina de lavar louças não são sete, mas sim cerca de 400. E elas mudam de formato cada vez que eu preciso colocar a louça para lavar.

Veja bem, eu sou totalmente a favor da modernidade. Acho fantástico poder comer em pratos limpos e saber que existe um aparelho por trás disso. O problema é que eu preciso que inventem outro aparelho que seja encarregado de colocar a louça na máquina, porque eu não tenho a menor capacidade de fazer isso sozinho.

A parte dos talheres eu confesso que é fácil. É tipo o level easy. Você tem um monte de espaços iguais e vai simplesmente colocando facas, colheres e garfos. E as colheres menores você coloca na lateral, em espaços parecidos.

A segunda gaveta, dos copos, também me parece ser de boa. Você coloca os copos ou canecas um do lado do outro, sempre virados para baixo. E tem até um espaço pequeno no meio para você encaixar xícaras pequenas e copos delicados.

Só que a zona já começa aí, porque coisas como faca de pão ou colher de pau – que, até onde imagino, são talheres – não vão junto com os talheres. Eles vão junto com os copos. E calma que as coisas pioram. Elas vão junto com os talheres sem ter um lugar para isso. Sim, é isso mesmo. Você coloca a colher de pau no meio dos copos e ela que lute lá dentro.

Para deixar mais claro, os talheres grandes formam um grupo étnico que não é protegido por lei nenhuma. É uma minoria vítima de preconceito que que está ansiosamente aguardando por uma reforma na Constituição.

Agora, o problema mesmo está na terceira gaveta. Teoricamente, é onde ficam os pratos. Mas, na verdade, o nome dessa gaveta é “Tudo aquilo que não é talher ou copo”. Então, estamos falando de pratos, mas também de travessas, panelas, potes, assadeiras e por aí vai (se quiser colocar talheres grandes aqui, pode colocar também, porque ninguém se importa com eles). E tudo isso num espaço, evidentemente, limitado.

Então às vezes eu tenho 8 pratos, 3 panelas e uma assadeira. Os oito pratos são fáceis, eles têm lugar marcado. Aí, com sorte, eu consigo colocar uma das panelas, meio por cima de tudo. Ela fica meio bamba, como se fosse o Bêbado e a Equilibrista ao mesmo tempo, mas consigo empurrar a gaveta e fechar a máquina (e depois que a máquina fecha, fica bem fácil ignorar que as coisas estão bagunçadas lá dentro e ir jogar videogame).

O problema é que eu ainda tenho um problema. Ou melhor, eu ainda tenho três problemas, na forma de duas outras panelas e uma assadeira.

É aí que entra o Tangram. Tira a panela e coloca a assadeira. Coloca uma das panelas por cima da assadeira. Grita que “não foi nada, não ouvi barulho nenhum, deve ter sido na rua” e pega a panela que caiu no chão. Tira a assadeira e coloca as três panelas empilhadas em cima dos pratos, para ver se elas têm alguma ideia. Tira as panelas e os pratos e coloca a assadeira. Tira a assadeira porque desse jeito cabem só dois pratos. Tira todos os pratos, a assadeira, as panelas e começa colocando as panelas. Descobre que assim não cabe prato nenhum. Tira as panelas e coloca os pratos. Pega a panela que caiu no chão de novo e grita que “esse barulho não foi na cozinha, deve ter sido o gato!”. Pensa se alguém iria sentir falta da assadeira se ela acidentalmente caísse pela janela. Tira os pratos para pensar com calma e coloca tudo de volta na pia. Descobre que tem uma vasilha na pia que você tinha esquecido na pia. Senta no chão e chora por dez minutos. Levanta, enfia os pratos na máquina e coloca a assadeira por cima deles. Sobe na máquina e fica pulando em cima da assadeira para abrir espaço para as panelas. Desiste de tudo e vai pedir ajuda para um adulto.

– Ana, você pode me ajudar aqui?

– O que foi?

– Essas coisas não cabem na máquina.

  Claro que cabe. Já coloquei mais coisas antes.

– Não cabe. Olha só. Os pratos vão aqui. Agora eu tenho um espaço de mais dois pratos, e três panelas e essa merda de assadeira.

– E essa vasilha.

– Sim! A vasilha também. Não cabe! Olha aqui como assadeira não entra.

– Aperta que entra.

– NÃO ENTRA! É APERTADO DEMAIS! OLHA SÓ!

– É só fazer com calma. Já tentou colocar por trás?

– POR TRÁS É AINDA MAIS APERTADO! NÃO DÁ!

De repente, eu paro e penso no que os vizinhos podem estar pensando sobre aquele diálogo. Aliás, podem não. Eles estão pensando. Eu sei porque eu pensaria o mesmo. Tudo que eu queria era lavar a assadeira, e consegui apenas me tornar algo alvo de fofocas no prédio.

– Pera aí, Ana. Deixa eu resolver isso antes.

Vou até a janela, coloco a cabeça para fora e grito.

– Oi! Sou eu aqui do primeiro andar! Não é nada disso que você estão pensando. É que a gente está usando uma máquina aqui. Beleza?

Durante dois segundos, tudo o que existe é um silêncio ensurdecedor vindo da rua... Até que ele cortado por uma gargalhada abafada vindo do segundo ou do terceiro andar. É quando eu percebo o que fiz.

– Eu não devia ter falado da máquina. Piorou toda a situação. Merda.

Papai, não fala merda.

– Tá bom, Felipe! Ana, me mostra como coloca isso aí.

Cara, é impressionante. Ela arregaça as mangas e olha para a máquina de lavar. Aí olha para a louça. De repente ela pega a assadeira e coloca ao lado dos pratos. Distribui as panelas de forma equitativa por cima dos pratos, com uma presa na outra, de forma que nenhuma caiba. E aproveita um pequeno espaço que sobrou para colocar a vasilha, que fica presa e dá mais firmeza para os pratos. Tudo isso em três segundos.

– Não vale. Você fez arquitetura. Aí fica fácil.

– Mas antes de você ligar, deixa eu ver como você colocou os talheres.

– Os talheres? Por que você quer isso? Os talheres eu sei fazer.

– Deixa ver.

Aí ela abre a gaveta dos talheres e descobre que metade das colheres está caída por cima da outra metade. Ou seja, tudo vai ficar meio sujo.

– Tá vendo?

– Mas, pera aí. Essa colher é grande.

– Sim. Ela é de sopa. E daí?

– E daí que ela tem tamanho suficiente para saber como se comportar dentro da máquina. Aliás, talvez essas duas colheres estejam abraçadas porque elas decidiram isso. Já pensou nisso? Elas são adultas e donas da própria vida. Eu acho que a gente tem que respeitar.

– Então...

– Se fosse essa pequenininha aqui, eu entendo. E concordo. Essa colher de café aqui é pequena demais e precisa de um cuidado especial. Tanto é que ela fica separada. Tá vendo?

– Essa colher não é de café. É de chá.

– Então, isso é elitismo da sua parte, Ana. Eu não fico rotulando as coisas desse jeito. Não acho isso correto. Existe colher pequena, colher média e colher grande. O ponto é que as colheres grandes podem fazer o que quiserem da vida delas.

– Concordo. E você pode depois colocar todas elas de volta para lavar mais uma vez.

Como rebater um argumento desses? Aí vou eu recolocar as colheres com calma, para evitar que a putaria comece assim que eu fechar a máquina. Faço isso já imaginando que a lava louças é um misto de sala escura com hidromassagem dos talheres, onde ninguém é de ninguém, os limites não existem e os prazeres são infinitos... E eu que tenho que limpar tudo depois.

Então, coloco tudo com calma e, antes de fechar, escorrego dois envelopes de camisinha lá para dentro, sem a Ana ver. Certeza que quando eu abrir a máquina, eles vão estar vazios. Aí fecho a máquina, aperto os botões na ordem certa...

E acende uma luz vermelha e dispara um alarme.

- CORRE ANA! PEGA O FELIPE E CORRE!

- Que foi?

– A MÁQUINA ACIONOU A AUTODESTRUIÇÃO! JÁ É TARDE PRA LOUÇA MAS VOCÊ AINDA PODE SE SALVAR! CORRE!

Aí eu corro pela sala – pisando nas malditas peças de Lego que vivem espalhadas pela casa – e me atiro atrás do sofá. Fecho os olhos e...

E nada.

Coloco os olhos para fora do sofá. A casa está inteira, a máquina está funcionando. E a Ana está parada olhando para mim.

– Essa luz vermelha é porque acabou o líquido secante.

– O o quê?

– O líquido secante. Como está sem, a louça vai estar molhada depois. É só isso.

– Espera. Líquido secante?

– Sim.

– LÍQUIDO. SECANTE. É isso mesmo?

– Sim.

– Isso não faz sentido. Como pode existir um líquido secante? Você molha a louça com um líquido para ela ficar seca? Isso é um erro de conceito.

Talvez no começo do casamento ela pacientemente me explicaria como isso funciona. Mas agora ela sabe que não vale mais a pena. Simplesmente vai continuar o que estava fazendo e me deixa ali.

Vou até a cozinha e olho para a máquina de lavar louças. Tirando a luz vermelha do maldito líquido secante, parece que está tudo bem lá dentro. Até coloco a orelha encostada nela, para ver se ouço alguma colher gemendo, mas escuto apenas o motor e a água mexendo.

E de repente percebo que me tornei um homem das cavernas que vê sua primeira tempestade. Eu não entendo direito como aquilo funciona, mas tenho certeza que os deuses estão envolvidos naquele processo de colheres que copulam, assadeiras que mudam de tamanho e líquidos mágicos que secam as coisas.

– Essa merda deve ser bruxaria.

– Papai, não fala merda.

– Tá bom, Felipe. Tá bom.

26 de agosto de 2022

Pimenta & Capu

 - PIMENTA! PIMENTA!

Eu estava em casa e me assustei com os gritos.

Sim, você pode achar que eu não devia ter me assustado. E, quer saber? Eu concordo com você. Afinal, eu moro em São Paulo.

E São Paulo é uma cidade onde qualquer coisa, de pano de prato a Playstation 5, de som de carro a bico de mangueira, é vendida na rua. Sabe aqueles anúncios que aparecem do nada no Instagram? São Paulo é assim. Você está ali sem fazer nada e de repente aparece um sujeito no seu portão vendendo lustres. São Paulo é um Instagram analógico.

Então, se você mora São Paulo e escuta alguém gritando “Pimenta” na rua, o que você imagina? Que tem alguém vendendo pimenta na rua, certo? Sim, esse pensamento faria sentido, se não fosse por um detalhe importante:

Eram mais ou menos quatro horas da manhã.

Eu estava dormindo e literalmente acordei com alguém gritando “Pimenta” embaixo da minha janela. E, apenas para referência, eu moro no primeiro andar. Então, se alguém grita Pimenta embaixo da minha janela, é como se essa pessoa estivesse em pé e parada ao lado da minha cama, tipo numa cena de Atividade Paranormal.

Bem, quando alguém grita a palavra “Pimenta” na sua janela às quatro da manhã, você tem duas alternativas. A primeira (e mais indicada) é tentar se convencer imediatamente de que aquilo foi um sonho, se esforçar para dormir e torcer para não lembrar disso no dia seguinte. A segunda, que não é exatamente aconselhável, é levantar e ir espiar pela janela.

Adivinhem qual eu fiz?

Sim, essa mesma. Eu me sentei na cama e pensei “puta que pariu, por que é sempre comigo?”...  E  talvez eu até tivesse me convencido a tentar dormir novamente, se não fosse pelo novo grito.

- PIMENTA! VEM AQUI!

Aí eu tive que levantar, porque o “vem aqui” mudou tudo. O “vem aqui” mostrou que não a pessoa embaixo da minha janela não estava simplesmente gritando “Pimenta”. Ele estava CHAMANDO uma pimenta. E atiçou minha curiosidade.

Afinal, quem chama uma pimenta?

Ou melhor: quem chama uma pimenta às quatro da manhã?

E, não podemos deixar de lado: por que é sempre comigo?

Então claro que Levantei e claro que abri a janela.

Mas não vi ninguém, a não ser um pequeno cachorro salsicha parado na calçada. Sim, o nome é dachshund, mas eu vou usar “cachorro salsicha” porque não quero ter que olhar no Google toda vez para ver como se escreve isso.

O salsicha olhou para mim. Eu olhei para o salsicha. Sim, tudo isso à quatro da manhã. Ficamos nos olhando por alguns instantes, até que reuni coragem e perguntei para o cachorro:

- Desculpa perguntar, mas... É você que está chamando uma pimenta?

O cachorro fez que não era com ele. Apenas virou a cara (como se eu não fosse sequer digno de uma resposta) mijou no portão do meu prédio (pensando bem, talvez essa seja a forma que ele encontrou de deixar clara sua opinião sobre minha pergunta) e saiu correndo pela calçada. Eu me esforcei para entender tudo de forma consciente e mais ou menos ordenada (eram quatro da manhã, lembra?), quando...

 - PIMENTA! VEM AQUI!

Ah. Aparentemente, Pimenta era o cachorro. Aparentemente, o dono dele está vindo. Aparentemente, o dono dele tem o hábito de passear com os cachorros de madrugada. E, aparentemente, gritando feito um anormal debaixo da minha janela.

Fiquei esperando para ver o autor dos gritos, mas tudo o que vi foi outro salsicha, que se aproximou do portão. Cheirou o mijo do Pimenta, mijou por cima e foi embora.

- CAPU!

Espera. Como assim, Capu?

Sabe, Pimenta eu (até) entendo. Mas... Capu?! Será que é de Capuleto? É tipo uma versão de Romeu e Julieta, feita com cachorros salsicha, mas a garota dos Capuleto se chama Pimenta para escapar dos direitos autorais? Será que a esta altura o Pimenta está na outra esquina, refletindo sobre a infelicidade do amor e declamando que “sou um joguete do destino”?

- CAPUCCINO! VOLTA AQUI!

Ah. É Capuccino.

Pimenta e Capuccino. Que dupla. Pimenta e Capuccino, às quatro da manhã.

Mas o mistério não estava resolvido. Eu já conhecia dois cachorros e sabia o nome deles, mas faltava descobrir

- CAPUCCINO!

Sim. Ele mesmo. O autor dos gritos.

E eis que ele aparece, virando a esquina. Mais ou menos 70 anos de idade. Bermuda, camiseta regata e uma sandália de couro que tinha uma idade parecida com a dele.

E outros dezenove cachorros salsicha andando ao seu redor. Lembra do Chiqueirinho, do Snoopy? Lembra que ele levantava uma nuvem de pó quando andava? O velho levantava uma pequena nuvem de cachorros salsicha.

Antes que o velho olhasse para mim e decidisse puxar papo (convenhamos que uma pessoa que andava pela rua gritando de madrugada é tipo um banner expansivo: ela só está esperando alguém passar o mouse para cima para começara falar com você, cobrindo a tela inteira sem fechar nunca mais) ou mandasse o seu exército de salsichas organizar um mijaço no portão do meu prédio, voltei para a cama.

E adormeci ouvindo os gritos de “PIMENTA, NÃO CORRE!” “CAPU, VOLTA AQUI!!”, “NOME DE OUTRO CACHORRO SALSICHA QUE REMETE À ALIMENTO E NÃO ENTENDI DIREITO! JUNTO!” cada vez mais longe.

Fim da história.

Ou não, porque, dia seguinte, quatro e pouco da manhã...

- CAPU!

Ô fase.

Abri a janela e lá estava o Flautista de Hamelin. Quer dizer, uma versão atualizada que decidiu que ratos não têm graça, então resolveu andar pelas ruas atraindo os cachorros salsicha da cidade inteira. Lá estava ele, o Pimenta, o Capuccino e a nuvem de cachorros salsicha. A turma toda. E eu ali na janela, tentando entender porque tem que ser sempre comigo.

E sabe o que é pior? É toda noite isso. Bate quatro da manhã e começa Pimenta pra cá, Capuccino pra lá... E eu ali, tentando dormir. Quer dizer, nem tento mais dormir. Agora eu não consigo pregar os olhos antes do Pimenta passar. Se não, não durmo. É como se estivesse faltando algo.

Mas... Por outro lado... Se olharmos para a história inteira, talvez seja justamente o oposto. Talvez não falte mais nada. Porque não demorou muito para eu descobrir que o velho e seu exército de salsichas mora na minha rua.

(Certo, aqui estou roubando um pouco, porque meu prédio e de esquina e tem dois portões: então, eu tenho duas ruas. O Velho mora em uma delas).

E eu sou da opinião que toda rua tem o direito inalienável de ter um velho ou uma velha. Veja bem, não estou falando de “pessoas idosas”, estou falando do velho. Ou melhor, Velho, com maiúscula mesmo, porque estamos falando quase de uma entidade. Manja, o Velho da Casa Monstro? É disso que estou falando.

E eu já tive alguns Velhos. Quer dizer, a rua onde eu cresci nunca teve um Velho mas, em compensação tivemos duas Velhas.

A primeira, que morava lá quando eu era do tamanho do Felipe e conheço apenas por histórias, era a Dona Iolanda, que chamava a polícia quando a molecada jogava bola na rua. A segunda – essa sim do meu tempo – era a Velha Louca. Aliás, a Velha Louca era tão Velha Louca que era conhecida como Velha Louca no bairro inteiro, o que ia desde os meus pais e os pais dos meus amigos até os funcionários do supermercado.

E não posso negar que, às vezes, eu sentia falta de ter um Velho na rua. Sabe? Aquele que você finge que não vê, mas olha com o canto dos olhos? Aquele que você sabe que a qualquer momento pode sair correndo atrás de você com uma barra de ferro na mão? (A Velha Louca fez isso com a gente, mas não foi em qualquer momento, e sim no momento seguinte a termos xingado ela pelo muro).

E agora eu tenho um Velho. Beleza, ele é acompanhado de gritos e vinte e cinco cachorros salsichas. Sim, se você somar o Pimenta, o Capu e a nuvem, dava 21. Mas como parece que ele tem um cachorro salsicha a cada noite que passa gritando, creio que já estamos nos 25. Talvez mais. Mas o ponto é que eu tenho um Velho.

E, claro, eu tenho 46 anos. Sou pai. Tudo o que quero, às quatro da manhã, é estar dormindo. Por outro lado, aquele moleque de 14 anos que ainda mora dentro de mim e não faz ideia de que o tempo passou fica o tempo cochichando na minha orelha que a coisa mais fácil do mundo é ir tocar a campainha do Velho e correr para dentro do meu prédio. Mas aí, claro, eu mando ele calar a boca.

Vamos ver no que isso vai dar.

22 de setembro de 2020

A Esfinge e o Espaço-Tempo

 

Aconteceu um dia desses, quando fomos buscar a chave do apartamento novo.

O quê? Você não sabia que nós mudamos para um apartamento?

Bem, claro que você não sabia, já que minha rotina deixou de aparecer aqui nesse blog há alguns anos. Mas, enfim, ao invés de explicar as dezenas de motivos que me fizeram desaparecer daqui, creio que o melhor a fazer é simplesmente voltar a escrever, certo? E isso nos leva de volta para a frase que abre esse texto:

Aconteceu um dia desses, quando fomos buscar a chave do apartamento novo.

Para isso, tivemos que ir até a imobiliária, paramentados com máscara, álcool em gel... Oi? Não, eu realmente não quero explicar porque parei de escrever aqui. Desculpa, como? Não, o blog é meu, eu não quero ter que ficar dando explicação. Combinado? Vamos continuar?

Chegamos na imobiliária por volta das 17 horas. É uma imobiliária pequena, apenas uma casa com um plaquinha na frente, sem estacionamento ou aquele entra-e-sai de clientes, motoboys e corretores. Toquei a campainha e encharquei a mão com álcool em gel.

Certo. É a última vez que vou tocar nesse assunto. Tem vários motivos para eu ter parado de escrever aqui, e um deles é falta de tempo, porque eu tenho escrito muitas coisas para trabalho, então quando consigo um momento de folga, prefiro descansar fazendo outras coisas. Mas agora eu tenho uma história legal para contar e estou tentando colocar ela aqui. Então, pela última vez: alguém tem algo mais para falar?

Não?

Ninguém?

Posso contar a história?

Ótimo. Então vamos lá.

Aconteceu um dia desses, quando fomos buscar a chave do apartamento novo. Chegamos na imobiliária por volta das 17 horas. É uma imobiliária pequena, então é apenas uma casa com um plaquinha na frente, sem estacionamento ou aquele entra-e-sai de clientes, motoboys e corretores. Toquei a campainha e encharquei a mão com álcool em gel.

A recepcionista abriu a porta e eu entrei. Avisei que estava ali para pegar uma chave e dei o endereço do apartamento. Ela começou a procurar dentro das gavetas. Tudo parecia normal até ela erguer os olhos na minha direção e decidir que seria bacana estraçalhar com as leis da Física.

“Se você tivesse chegado cinco minutos atrás, não encontraria ninguém aqui.”

Certo. O que essa informação faz você pensar? Que cinco minutos antes não havia ninguém na imobiliária, certo? Bem, foi isso mesmo que eu pensei. Aliás, eu não só pensei como falei em voz alta.

“Ah, então, você acabou de chegar aqui?”

“Não. Eu quis dizer que já estava indo embora”, ela respondeu, ainda procurando pela chave.

Fiquei em silêncio pensando no que ela havia dito. Repassei a frase inteira na minha cabeça, palavra por palavra, tentando encontrar o sentido daquilo e falhei miseravelmente.

“Olha”, eu disse, “mas eu só não encontraria ninguém aqui se você não estivesse aqui cinco minutos atrás”.

“Sim, você deu sorte”.

“Mas meu ponto é que você estava aqui cinco minutos atrás, certo?”

“Sim.”

“Então você concorda”, eu disse, tentando parecer o mais claro possível, “que se eu tivesse chegado cinco minutos atrás, eu teria encontrado você aqui?”

“Mas eu já estava me preparando para ir embora.”

Tentei respirar fundo, mas a máscara me atrapalhou um pouco. Paciência, faz parte. Apoiei as mãos no balcão, fazendo uma nota mental de passar álcool em gel depois, e tentei me fazer claro.

“Olha, o que importa para a gente é que você estava aqui cinco minutos atrás. Você estava neste espaço neste tempo determinado. Se eu aparecesse neste mesmo espaço ao mesmo tempo, eu teria encontrado você”.

“Mas eu iria embora daqui a cinco minutos. Você deu sorte”.

“ISSO NÃO É SORTE! Desculpe, às vezes eu grito mas é porque a máscara me atrapalha. Juro. Então, isso não é sorte. É Física. O tempo é uma seta. Você não consegue mexer o passado. O fato de você decidir que vai embora daqui a cinco minutos não significa que você não estava mais aqui cinco minutos atrás.”

“É que tem dias que a gente fecha mais cedo”.

Foi quando eu comecei a perceber que o tempo naquela imobiliária não funciona direito. Todo o espaço-tempo ali é distorcido por causa das atração gravitacional de um buraco negro, cuja singularidade é a vontade infinita da recepcionista de ir embora mais cedo.

Aparentemente, sua vontade de ir embora do trabalho causa um rombo no espaço-tempo: a sua vontade de ir embora do trabalho é tão grande que faz com que ela nunca esteja realmente no trabalho. É quase a Teoria da Relatividade aplicada a funcionários públicos. Ou isso, ou eu estava em alguma espécie de spin-off de Dark e vai saber se aquela recepcionista não é minha filha que ainda não foi concebida.

Eu tomei fôlego e me preparei para pedir a ela um papel e uma caneta para traçar uma seta e explicar como o tempo funciona, mas ela me interrompeu.

“Olha, a chave não está aqui. Está com o porteiro do prédio.”

E isso era verdade. Quer dizer, eu sabia que o porteiro tinha uma chave, mas não fazia ideia se a imobiliária estava com outra cópia. Além disso, eu precisava assinar o recibo de entrega das chaves, então eu teria que ir para a imobiliária de qualquer maneira. Mas mesmo se eu tivesse perdido a viagem, sem pegar chave nem ter nada para assinar, a mudança de assunto foi mais que bem vinda.

“Certo. Então eu pego com ele”.

“Você pode assinar o recibo? Que diz que a chave foi entregue?”

“Claro”.

Ela colocou dois papeis na minha frente. Na verdade, eram duas cópias do mesmo papel. Tudo o que eu precisava fazer era assinar e deixar aquela falha no espaço-tempo para trás.

“Eu preciso que você assine todas as vias. Uma é nossa, outra é sua e outra precisa ser entregue para a síndica.”

“Como?”

“Uma é nossa, outra é sua e outra da síndica.”

Eu olhei para as folhas, para a recepcionista e de volta para as folhas. Comecei a me sentir como se participasse de alguma dinâmica de grupo para poder visitar um universo paralelo. Primeiro, eu havia tomado pau em Física porque o tempo não funciona como imaginei; agora, era hora de tomar pau em História, tentando decifrar o enigma de uma pequena Esfinge Imobiliária.

“Mas tem só dois papeis aqui”, respondi.

“Sim. Uma via fica aqui, outra vai para a síndica e a terceira é sua.”

“Exato. Eu, você e a síndica. Somos três. Mas tem só dois papeis aqui”.

“É que é uma cópia para cada um”.

Respirei fundo de novo e quase engasguei com a máscara.

“Olha, eu juro que estou tentando jogar de acordo com as suas regras. O problema é que parece que a situação aqui não tem regras e elas, mesmo não existindo, mudam o tempo inteiro”.

“Quer uma caneta?

“Sinceramente? Não sei.”

“Mas você precisa assinar.”

“Eu não estou discutindo isso. O meu problema é que o que você falou não faz o menor sentido. Aliás, nada do que você disse desde que eu cheguei aqui faz qualquer tipo de sentido”.

“Uma via fica aqui, outra vai para a síndica e a terceira é sua.”

“EU SEI DISSO! Desculpe, é a máscara de novo. Olha, faz o seguinte, me dá a caneta. Pronto. Onde eu assino?”

“Aqui”, ela apontou um papel, e “aqui”, disse, apontando a folha de baixo.

“Certo”, respondi assinando. “Isso é uma via”.

“Isso”, ela falou. “A outra você leva”.

“E a da síndica?”

“É a sua.”

“Você sabe que eu e a síndica não somos a mesma pessoa, certo? Que neste universo, onde o tempo funciona como uma seta, duas pessoas não podem ser a mesma pessoa. Você consegue enxergar isso?”

“Como assim?”

“Nada. Esquece. Eu... Eu estava pensando em outra coisa. Olha, eu estou com um pouco de pressa, só preciso levar esses papeis, certo?”

“Isso.”

Agradeci e fui embora. Só quando olhei papéis na calçada eu descobri o que havia acontecido. Eu assinei a folha A e a folha B; a segunda via tinha uma cópia da folha A (para mim), e uma da folha B (para a síndica). Ou seja, não era exatamente o que ela falou. Aliás, era bem diferente do que ela falou.

Olhei para trás e pensei em entrar na imobiliária novamente para explicar isso. Mas mudei de ideia, afinal, haviam se passado trinta segundos e a recepcionista já poderia ter ido embora. Ou talvez ela tivesse acabado de chegar. Ou talvez ela nunca tenha estado ali e, ao mesmo tempo, esteja sempre ali.

Bem, eu é que não ia ficar mais ali, esperando alguma criatura de outra dimensão aparecer no portão perguntando se eu vim pegar as chaves e que está há horas me esperando.

Encharquei minhas mãos com álcool em gel e fui embora.


11 de fevereiro de 2020

Invocação do Mal

The devil went down to Georgia
He was lookin' for a soul to steal
(Charlie Daniels Band)


Outro dia fomos até o Mercadão do Ipiranga.

Aliás, quando eu era moleque, sempre que ouvia a expressão “Mercadão” acreditava que se tratava de algo meio medieval. Imaginava centenas de barracas, com vendedores depenando galinhas vivas, rancheiros transportando pequenos rebanhos de gado, pessoas trocando mulas por barris de cerveja, gente espirrando por causa do coronavírus, artesãos sentados na lama almoçando cebolas cruas, coisas assim.

Por isso, a primeira vez que fui em um Mercadão fiquei surpreso ao ver lojas com produtos refrigerados, algumas até mesmo com vitrines... No geral, o Mercadão era uma mistura de feira com supermercado. Era uma espécie de shopping center de comida, até mesmo com praça de alimentação repleta de pessoas comendo sanduíches, pizzas e comidas típicas. Tudo muito moderno, sem lama ou pessoas abrindo caminho para os soldados do rei.

Mas o Mercadão do Ipiranga é um pouco diferente. Ele segue o modelo dos outros mercadões, mas está preso em uma espécie de limbo onde o tempo não funciona de forma como estamos acostumados.

Algumas de suas barracas, por exemplo, estão no futuro, vendendo coisas como uva em pó, melancia desidratada e kiwi pulverizado. É quase uma barraca de comidas típicas da NASA. Outros, porém, ainda estão no passado, e tem como principal clientela bruxas que precisam repor seus estoques de pelos de tarântula, extrato de morcego, penas de pássaros tropicais ou osso de serpente em pó.

É uma espécie de encruzilhada temporal, onde não existe futuro e passado. Tudo é agora. Tudo nunca aconteceu. Tudo está acontecendo ao mesmo tempo eternamente.

Mas essa não é uma história de ficção científica, e sim de terror. Porque no meio disso estávamos eu, a Esposa e Filipino.

A Esposa queria comprar ingredientes para fazer pães e eu fui como companhia. O problema é que, enquanto fazia compras, Filipino no meu colo, queria olhar tudo de perto – e, quando digo “olhar de perto”, quero dizer “olhar com as mãos”.

Assim, ele apertava embalagens de asas de libélula, derrubava ossos abençoados dos dedos de São Raimundo, espremia frutas cristalizadas refinadas no planeta Satabe III... A hora que ele começou a se debater no meu colo querendo tocar numa bola branca que eu não consegui identificar se era animal, vegetal ou mineral, desisti.

“Eu vou dar uma volta com ele”, disse para a Esposa.

“Tá bom, eu já estou pagando aqui”, ela devolveu.

Assim, saí andando com Filipino no colo, olhando outras barracas, tomando cuidado para nenhuma mercadoria – fosse ela terrestre ou não – ficasse ao seu alcance. O problema é que havia mercadorias por todo lado, então a caminhada foi difícil. Porém, tive um golpe de sorte quando descobri que, em meio a todas aquelas mercadorias estranhas que fazem passado e futuro se fundir, existia uma área infantil.

Tratava-se de uma casa azul de brinquedo, grande o suficiente para Filipino andar dentro dela. Na porta, brinquedos como cavalinhos, centopeias e larvas de Ceti Alpha V. Pela aparência dos brinquedos, alguns deles deviam ter ouvido em primeira mão o brado retumbante de um povo heroico nas margens plácidas do Ipiranga. Aliás, quando o Sol da liberdade brilhou em raios fúlgidos no céu da pátria, alguns já deviam ser velhos.

Filipino, porém, foi direto para a casinha e eu fui atrás dele. Quando chegamos perto da porta, percebi que, dentro da casa, havia uma pequena mesa e alguns banquinhos para crianças.

E ele estava ali.

Estava sentado de costas para a porta, observando atentamente a parede à frente, sem dar a menor atenção ao movimento do mercado. Pelo seu tamanho, parecia ser uma criança, mas... Havia algo de errado em sua postura. Ele se sentava de forma rígida, mas ao mesmo tempo, parecia escorrer pela cadeira. Filipino parou e eu também. Estreitei os olhos para entender melhor como ele conseguia se sentar daquele modo.

Foi nessa hora que ele virou a cabeça e olhou diretamente para mim.

Seu rosto era quase igual ao menino do duelo de banjos, mas com toques de trombadinha da Londres vitoriana.

Em algum lugar do meu cérebro, meus neurônios começaram a entoar a frase “for the devil sends the Beast with wrath, because ke knows the time is short”.

Aqui vale a pena explicar que meu cérebro funciona em quatro áreas diferentes: os neurônios de uma parte estão constantemente em um show de rock, outros ficam assistindo a Star Trek repetidamente, um terceiro grupo está sempre escrevendo, enquanto a última parte fica encarregada de me manter vivo e responder alguma coisa quando falam comigo.

Então, numa situação normal, a frase teria vindo dos meus neurônios que vivem num show de rock. Mas não. O som vinha da área responsável por me manter vivo. Não era um show do Iron Maiden, mas sim meu instinto de sobrevivência.

E o aviso não era exagero. A criatura olhou diretamente para Filipino e, como se fosse a coisa mais natural do mundo, seus olhos se tornaram completamente brancos. Suas pupilas desapareceram como se nunca tivessem existido, enquanto ele continuava encarando meu filho com aqueles olhos vazios e sem vida.

As luzes do mercado se tornaram vermelhas e começaram a piscar. Senti um vento quente, como se alguém tivesse aberto a porta de uma caldeira. As paredes do mercado começaram a derreter, e, ao redor de toda a área infantil, um fosso se abriu revelando almas queimando em agonia por toda a eternidade.

“Filipino, vamos brincar em outro lugar?”

Filipino, porém, parecia hipnotizado, como se sua mente estivesse sendo controlada.

“O papai acha que esse menino não é um menino”, eu insisti.

Filipino continuou estático. Assim, tive que me abaixar ao seu lado e forçá-lo a olhar para mim.

“Ele está aqui para se alimentar da sua alma! Escuta o papai! Vamos embora!”

Meu tom de voz fez Filipino acordar do transe. Olhei ao redor estudando as saídas do mercado, me preparando para correr por uma delas explicando que “já é muito tarde para a mamãe, mas nós podemos escapar”.  Mas não havia por onde sair.

Em uma das portas, Al Pacino gargalhava fazendo água benta ferver com o dedo. Em outra, Robert De Niro comia um ovo olhando diretamente para nós. Perto da terceira saída, uma mulher com roupa de babá gritava “It’s all for you, Damien”, enquanto se preparava para se atirar do teto da barraca de peixes com uma corda no pescoço”. E na porta à nossa direita, a mais perto de onde estávamos, estava bloqueada pelos vizinhos de Rosemary que, com um carrinho de bebê todo negro, me prometiam sucesso em troca do meu filho.

E a criatura continuava com seus olhos brancos, tentando arrancar a essência vital de Filipino. Eu não tinha como escapar, mas precisava proteger meu filho. Assim, ainda agachado, olhei diretamente para ele.

“Filipino, está vendo aquela barraca de peixes ali?”, eu apontei para a barraca. “Do lado direito, tem uma bandeja cheia de bacalhau salgado. Corre até ali, apanha todo o sal que você conseguir e faz um círculo no chão ao seu redor. Espera a mamãe ali, mas não sai do círculo de sal. Entendeu?”

Eu ainda estava olhando para Filipino quando ouvi uma atrás de mim.

“É impressão minha ou esse menino é um demônio?”

Era a Esposa. Pelo menos, eu não estava mais sozinho. Isso facilitava tudo. Peguei Filipino e o coloquei no colo da Esposa. Me virei para a criatura, que ainda me olhava para nós com raiva, e me preparei para me atirar dentro da casa, gritando que “o sangue de Cristo tem poder” e ganhar tempo para minha família fugir. Mas não foi preciso.

“LEGIÃO! PARA COM ISSO!”, alguém gritou atrás de nós.

Era a mãe do demônio, que de repente percebeu o que estava acontecendo. Os olhos da criatura voltaram ao normal. Ainda estavam com raiva, mas pelo menos estavam com pupilas. O fosso se fechou, as paredes pararam de derreter e as luzes do mercado voltarem ao normal.

“EU JÁ FALEI PARA VOCÊ NÃO FAZER ISSO COM O OLHO”, ela insistiu.

Eu não sei se Legão não podia capturar nenhuma alma naquele dia porque estava de castigo, ou se não podia comer alma nenhuma porque já havia almoçado um pastel na barraca ao lado. Mas não me importei. Fomos andando para trás, lentamente, tentando ganhar distância.

Quando conseguimos nos afastar, demos meia volta e fomos embora, ainda ouvindo a mãe reclamar alguma coisa sobre Legião ter que conversar com o pai dele sobre isso. imaginei como seria o pai de Legião e senti um arrepio. E o arrepio só passou quando estávamos longe do mercado, sentados num restaurante para almoçar.

Por via das dúvidas, numa mesa abaixo de um crucifixo.

2 de julho de 2019

Roupa Nova


Eis o homem do século 21.

Eis o homem do século 21 saindo de casa para o trabalho. Ele ganha o mundo a cada passo. Enquanto espera o ônibus, está acompanhando notícias, confirmando a reunião da tarde, esboçando um projeto e fazendo sinal para o ônibus.

Eis o homem do século 21 afundando o pé em um monte de merda na calçada enquanto caminhava rumo ao ônibus.

Eis-me aqui de volta.

Eu poderia escrever parágrafos e parágrafos sobre minha ausência aqui. Também poderia escrever muito sobre meu retorno.

Talvez eu faça isso depois, porque neste momento eu estou um pouco ocupado a) tentando esconder das outras pessoas que estou com o tênis coberto de merda; b) constatando que até a barra da calça ficou suja de merda; c) fazendo cara de paisagem para tentar convencer as pessoas do ônibus fedendo a esterco é a coisa mais normal do mundo e que isso não tem nada a ver comigo e sim com a situação do transporte público de São Paulo; d) pensando em talvez subverter as regras do jogo e reclamar em alto e bom som de que o ônibus está cheirando à merda e torcer para que, no tumulto, ninguém olhe para meu pé, mas 3) mudando de ideia e decidindo que é melhor ficar em silêncio e contar com a sorte.

E, claro, f) dando graças a Deus que não estou carregando um pacote de fraldas do meu filho para as pessoas não somarem A + B e chegarem à conclusão que eu tenho problemas mentais.

Foi assim, com cara de paisagem, que procurei um lugar vazio no ônibus para me sentar. No caminho, fui arrastando o pé e fingindo que estou com a perna machucada, para tentar tirar o excesso de coliformes do tênis. Modéstia à parte, fiz isso com um profissionalismo invejável, sem transparecer por um momento o medo de deixar um rastro marrom no chão do ônibus ao fazer isso.

(Mas claro que na minha cabeça o ônibus inteiro estava olhando para mim e eu já estava cercado de moscas).

Finalmente consegui me sentar num banco vazio, sem ninguém ao lado. Hora de tentar limpar o estrago um pouco. E não seria uma tarefa difícil. Tudo o que eu precisava era um tanque com uma torneira funcionando, um esponja e um pouco de sabão. Ah sim, luvas. Luvas seriam essenciais.

Bem, abri a mochila e encontrei meu tablet, duas canetas – uma que eu havia perdido há dois meses e outra que nunca vi na vida – uma caixa vazia de remédios para enxaqueca e meia dúzia de moedas. Bem, minhas opções não eram muitas.

Talvez eu pudesse acessar a internet pelo tablet e descobrir como tirar merda da calça com canetas? Ou eu podia levantar, pedir desculpas por atrapalhar a viagem de todos e dizer que não estou aqui vendendo nada, mas comprando, porque tenho 85 centavos e preciso de uma esponja com água e sabão, será que alguém pode me ajudar e podia ser pior porque eu podia estar roubando?

Não. Nada ia dar certo. Se eu fosse o personagem principal de MacGyver, a série teria sido cancelada no primeiro episódio.

Mas foi quando a sorte resolveu me mostrar algo que eu não havia visto. Revirando a mochila, a caixa de remédios tombou e, de dentro dela, caiu sua bula.

Oito pequenas páginas de papel. Era tudo o que eu tinha. Era com isso que eu teria que me virar.

Cruzei a perna tomando cuidado para não raspar o tênis na outra perna – quem me conhece sabe que esse é o tipo de situação que eu poderia raspar o tênis na testa – e comecei a operação limpeza. Rasga um papel, esfrega aqui, rasga outro papel, limpa aqui, rasga mais um papel...

E a calça não limpa de jeito nenhum.

Joguei os papeis fora no cesto de lixo do ônibus – o ônibus devia ser novo, porque ele ainda não estava quebrado – e comecei a executar o plano B, que consistia em arrumar desculpas para usar pelo resto do dia sobre eu ter uma mancha de merda na barra da calça.

Para matar a saudade, vamos resumir todas elas no Top 5 Motivos para a Barra da Minha Calça Estar Suja de Merda:

1. “Na verdade, não é merda, é lama. Cheiro? Cheiro de quê? Não, não estou sentindo nada.”
2.“Olha, eu estou fazendo um curso de ioga e acabei perdendo uma aposta com meus colegas, então...”
3. “Não conta para ninguém, mas eu estou com um saco de cocaína amarrado na perna, então esfrego merda na calça para confundir os cachorros da polícia.”
4. “Não, não a calça é assim mesmo. É um modelo novo que brinca com cores e tendências.”
5.  “I’m sorry, I don’t speak portuguese”.

Certo, era um mais ridículo que o outro. Nenhum ia colar. Olhei para o tênis com merda, o tênis com merda olhou para mim, deu uma cotovelada na calça com merda e ambos começaram a rir de mim.

Hora de ir para o Plano C.

Peguei o celular e mandei uma mensagem para a Esposa, dizendo que ia passar no shopping e comprar uma calça. Claro, contei também toda a história antes porque avisar a esposa que você precisa comprar uma calça meia hora depois de sair de casa é o tipo de coisa que pode arruinar um casamento.

Mas mandar a mensagem era essencial porque eu não entendo muito de calças. Sim, eu sei o que elas são, para o que servem e como eu coloco no corpo, mas nada muito além disso. Ah, eu também sei a diferença entre uma calça jeans e uma de moletom, e que devia existir uma lei proibindo a fabricação de calças sem bolso. Mas, fora isso, nada.

Assim, peguei umas coordenadas com a esposa. Aliás, vocês sabiam que eu uso calça 40? Eu não sabia também, descobri isso hoje. Peguei dicas de loja (sempre lembrando ela de que “eu estou com a perna cheia de merda, precisa ser uma loja em que eu não precise falar com ninguém). Mas eis que chega a seguinte mensagem.

“Pega calça reta”.

“Não são todas retas?”

“Com a perna reta”

“Sim, eu já estava pensando na perna. A bunda eu sei que é redonda, mas pra mim todas as calças são retas. O conceito da calça é esse”.

“Não pega skinny porque é aquela que afina na perna”.

Ah, a calça de hipster. Então aquilo tem nome.

Essa informação é importante, porque calças skinny... Bem, eu não sou exatamente magro e minhas pernas são finas, então uma calça dessas... Bem, digamos que basta eu pintar uma calça skinny de laranja e pronto: minha fantasia de coxinha está pronta para o carnaval.

Assim, entrei na primeira Riachuelo que apareceu na minha frente, tendo apenas duas informações: “reta” e “40”. Só que assim que entrei na loja descobri que eu tinha um problema um pouco mais imediato: como achar a calça de homem?

Lembram que eu disse que não entendo muito de calças. Para mim, a melhor maneira de descobrir se uma calça jeans é masculina ou feminina é observando a placa na parede de loja. Se está escrito “seção masculina”, eu consigo concluir que aquelas roupas são as que eu preciso. Assim, entrei na loja e comecei a rodar pelos corredores, tomando o cuidado para não me aproximar das outras pessoas porque, na minha cabeça, até mesmo os seguranças do shopping já estavam procurando descobrir quem é o cliente do shopping que está fedendo a merda e precisamos expulsar essa pessoa daqui.

Depois de bancar o Pac-Man desviando dos fantasmas pela loja inteira, achei a seção masculina e fui atrás da tal calça reta e encontrei... Uma. Busquei meu tamanho e pronto. Calça 40. Tudo resolvido. The shit days are over.

Ou não.

Até eu que não entendo nada de calça podia enxergar que o negócio era horrível – a calça praticamente pedia para ser usada com um barbante no lugar do cinto, tudo combinando com um furo logo embaixo da inscrição “Maluf 86”.

Bom, entre comprar um calça dessas e uma skinny, minha única saída era ir em outra loja. E era isso que eu estava quase fazendo quando vi outro modelo de calças chamado slim. Lembrei do cantor de blues Magic Slim e fui olhar a calça, constatando que ela estava entre reta e a de hipster. Apanhei uma e fui para o provador.

Não deu outra. Cinco minutos depois, estava pagando a calça. Ou melhor, tentando pagar.

- Qual a forma de pagamento?

- Débito.

- O senhor não quer fazer o cartão da loja?

- Eu já tenho o cartão da loja, mas quero fazer no débito.

- No cartão da loja o senhor pode parcelar.

- Olha, eu realmente estou com pressa. É débito.

- E jogar o primeiro pagamento para a Copa do Mundo de 2022.

- Você não está sentindo um cheiro estranho?

- Não senhor.

- Tem certeza? Está um cheiro de... Não sei. Está um cheiro ruim aqui.

- Agora que o senhor falou... Parece cheiro de...

- Enfim, é débito.

Minutos depois, eu estava no banheiro do shopping, usando o isqueiro para arrancar as etiquetas da calça nova antes de vesti-la. E como não achei um incinerador nem um depósito de lixo radioativo para jogar a calça antiga, fui obrigado a jogá-la dentro da sacola, amarrar bem e enfiar na mochila, antes de sair do shopping e procurar um gramado para limpar o resto do tênis.

E, enquanto pensava se seria melhor jogar a sacola com a calça cagada no Rio Tietê ou se valia a pena cortar as pernas do joelho para baixo e transformá-la numa bermuda, percebi que aquela manhã tinha rendido uma história boa.

Respirei fundo. Será que eu ainda sei escrever coisas assim?

23 de março de 2018

Sobre Meninos e Lobos


Se tem uma coisa que eu descobri com a paternidade é que eu me torno uma pessoa melhor quando canto para meu filho. Claro que eu não fico parado na frente do carrinho fazendo apresentações de música e dança para ele... Bom... Ok. Já fiz isso algumas vezes. Mas eu quero falar mesmo sobre eu cantar para ele dormir.
Meu filho é daquelas crianças que luta contra o sono. O quebra-pau é visível: ele está morrendo de sono, mas não quer dormir, então começa a ficar bravo. Aí que ele não dorme mesmo, independente do sono aumentar.
Encontramos algumas maneiras de lidar com isso, e uma delas envolve em eu cantar para ele. A parte operacional é fácil: eu o pego no colo, deixo ele bem aninhado e começo a andar pela casa. No começo foi tranquilo. Eu normalmente usava Beatles. Ia cantando baixinho, e ele ia sossegando até começar a fechar os olhos – aí eu usava minha arma secreta (Something) e dava o golpe de misericórdia.
Mas, de repente, meu repertório de Beatles começou a perder o efeito. Something ainda é bem eficaz, mas as outras não estavam ajudando. Aí experimentei Chico Buarque – e descobri uma nova arma secreta: Acalanto.
E Chico Buarque também funcionou durante um tempo. O problema é que todas as músicas que sei de cor do Chico são da fase Construção, e comecei a me sentir meio mal em colocar meu filho para dormir ao lado de pessoas que morreram na contramão atrapalhando o tráfego ou que tiveram mães que o ninaram com cantigas de cabaré.
Aí abri o leque. Fui para rock nacional, para blues, para outras coisas de rock clássico... Só deixei heavy metal de fora. Eu consigo transformar She Loves You em algo com uma sonoridade delicada, mas é impossível fazer isso com músicas como Orgasmatron ou Symphony of Destruction.
Todas essas músicas tiveram efeito, mas não tanto quanto o Beatles que usei no começo. Então, decidi seguir o caminho óbvio e fui para canções infantis.
O problema é que eu não lembro quase nada de músicas infantis. A única coisa que eu recordava era que a maior delas era sempre estrelada por animais – e, bem, eu tenho 42 anos, então é provável que todos esses bichos dessas cantigas já morreram de velhice. Se bobear, até mesmo suas espécies foram extintas.
Mas, enfim, comecei a puxar algumas pela memória. Comecei com Escravos de Jó, que jogavam o tal caxangá – eu nunca soube o que era caxangá, mas aquele lance do tira, põe, deixa ficar, sempre me pareceu meio pornográfico. Mas ignorei isso e cantei.
Depois fui para O Cravo e a Rosa e comecei a reparar em detalhes que nunca tinha percebido. Você já reparou na violência dessa música? Eles brigam, e o Cravo sai ferido, mas a Rosa aparentemente leva a pior, porque saiu despedaçada. Veja bem, ela não sai com o caule arranhado, com uma pétala amassada... Não. Ela sai despedaçada!
Assim que eu percebi isso, comecei a imaginar uma versão do Cravo e a Rosa dirigida pelo Tarantino, com um final onde o Cravo perde completamente o controle, arranca a Rosa da terra e começa a rasgar suas pétalas gritando histericamente.
Mas fiquei curioso e fui pesquisar o resto da letra. Descobri que depois disso o Cravo fica doente, a Rosa vai visitá-lo, e aí um dos dois chora e parece que eles se entendem e acabam se casando.
Olha, eu não tenho nada a ver com a vida da Rosa, mas alguém podia avisar a ela que não é inteligente casar com alguém que despedaçou você na última briga? Isso com certeza deve valer também para flores. Terminei de ler com a certeza que a música acaba no casamento só para não se tornar uma história de violência doméstica, daqueles que a gente vê no Datena quando já é tarde demais. Eu não iria me surpreender se um dia descobrissem a letra inteira da música, e ela continuasse assim:
O Cravo começou a beber
A Rosa tomava calmante
O Cravo perdeu o emprego
A Rosa arrumou um amante

O Cravo puxou uma faca
A Rosa desafiou: “venha”
O Cravo foi enquadrado
Na Lei Maria da Penha

O Cravo teve sua foto
Publicada nos jornais
A Rosa foi justiçada
Em todas redes sociais


Agora, o problema mesmo começou quando lembrei daquela história do “eu vou passear no bosque”. Na boa? Essa música é uma espécie de lavagem cerebral. Eu comecei a andar com meu filho no colo e a cantarolar isso pela sala. Mas eu me lembrava só dos primeiros versos, “vou passear no bosque, enquanto o Seu Lobo não vem”. 
Comecei a cantar isso. Vou passear no bosque, enquanto o Seu Lobo não vem. O tempo passou e meu filho não dormiu. Vou passear no bosque, enquanto o Seu Lobo não vem. Meu filho olha para mim. Vou passear no bosque, enquanto o Seu Lobo não vem. Vou até a cozinha. Vou passear no bosque, enquanto o Seu Lobo não vem. Meu Deus, estou fazendo isso faz vinte minutos. Vou passear no bosque, enquanto o Seu Lobo não vem. Merda de lobo. Vou passear no bosque, enquanto o Seu Lobo não vem.
Chegou um determinado momento que eu já não cantava mais. Eu apenas carregava meu filho no colo recitando esse negócio do bosque e do lobo como se fosse um mantra. Meu cérebro estava derretendo e nada da merda do lobo aparecer. Completamente hipnotizado, olhei para meu filho e vi que ele estava com os olhos vidrados.
E eu não conseguia parar de cantar! A letra da música me puxava cada vez mais dentro de um bosque imaginário, onde eu esperaria um lobo que não aparece nunca. Para tentar quebrar o encanto, tentei comecei a cantar a música em outro ritmo e finalmente consegui fazer isso usando Beatles.
Se você quiser tentar, é fácil. Sabe Can’t Buy Me Love? Aquele trecho que diz “Can't buy me love...  Everybody tells me so!”? Ele funciona certinho se você colocar “Passear no shopping... Enquanto o Seu Lobo não vem” como letra. Tenta aí.
Mas isso também não adiantou muito, porque eu comecei a cantar esse lance do Lobo na versão Beatles, e logo estava começando a ficar hipnotizado também. Eu não precisava de outros ritmos, e sim de mais frases.
Foi quando comecei a tentar a puxar o resto da música pela memória. Eu conheci essa canção vendo minha avó cantando isso para o meu primo mais novo. Como meu primo é padrinho do meu filho, deduzi que isso seria um bom sinal. Assim, me baseei por essa letra, que puxei de memória. E a letra era:
Vou passear no bosque,
Enquanto o Seu Lobo não vem.
Está pronto Seu Lobo?
Estou sim, senhor.


Certo. Agora eu tinha quatro frases. Só que, assim que eu comecei a cantar, percebi que essa canção não é uma cantiga de ninar, mas sim uma armadilha.
Porque vamos pensar: eu estou andando com meu filho no colo, falando “vamos passear no bosque, enquanto o Seu Lobo não vem.” O que isso quer dizer? Que o lobo não está no bosque. A letra diz que aquele bosque é seguro porque é desprovido de lobos. É um bosque lobo-free.
Mas, logo em seguida, rola um plot twist. Eu pergunto: “está pronto, Seu Lobo?” É claramente uma traição! Eu era um agente duplo, levando meu filho para o bosque com a promessa de passear em segurança e, ao mesmo tempo, perguntando se o Lobo está pronto para ir até o bosque. Na minha cabeça, o significado da música era: “Lobo, estou entrando com meu filho no bosque como combinamos! Você está pronto? Não demore e não esqueça de levar a mala com os dólares!”
E o pior é que o Lobo está pronto! É tudo um golpe! Eu e o Lobo, aliados contra meu filho! Eu comecei a me sentir um monstro com isso tudo: Rob Gordon, o cara que vendeu o filho para o Seu Lobo. Depois eu pesquisei a letra da música e parece que tem toda uma odisseia que o Lobo nunca está pronto porque está colocando a roupa, penteando o cabelo, passando desodorante, procurando as chaves de casa... Enfim, isso não muda o fato de que eu não canto mais essa letra. Agora eu canto que:
Vou passear no bosque,
Enquanto o Seu Lobo não vem.
Está pronto, Seu Lobo?
Porque se você estiver e simplesmente pensar em pisar nesse bosque e ousar chegar perto do meu filho, saiba que eu tenho uma arma e não tenho medo de usá-la, seu lobo maloqueiro filho da puta.


E não me importa que o ritmo não encaixou com essa letra, porque tem certas músicas que a mensagem é mais importante que a melodia. Enfim... Desencanei desse papo do Lobo, de Bosque. Sinto muito, mas não rola. Nem de bosque eu gosto, deve ter mosquito, deve ter plantas venenosas, se bobear tem até o Cravo chifrando a Rosa e eu não quero me envolver no problema dos outros.
Vou continuar com Beatles. É meu filho. Vai funcionar.

5 de março de 2018

(I Can't Get No) Vaccination

Faz mais ou menos duas semanas que estamos nos preparando, aqui em casa, para um evento razoavelmente importante: o dia do meu filho tomar as primeiras vacinas. Quer dizer, as segundas vacinas, porque as primeiras ele tomou na maternidade.

Na verdade, eu só percebi que essa ocasião seria algo marcante na minha vida quando comentava isso com as pessoas. Quem não tinha filhos, encarava como algo normal. Mas, aqueles que são pais, ao ouvirem que “no próximo sábado ele vai tomar vacinas”, apenas colocavam a mão no meu ombro e assumiam uma expressão que ficava no meio do caminho entre pena e preocupação.

“Boa sorte”, todos me diziam.

“Quem precisa de sorte é meu filho, né?”, eu respondia.

“Não.”

“Mas é ele quem vai tomar as vacinas. Eu só vou estar ali ao lado”.

Assim que eu respondia isso, eles suspiravam e me olhavam como se eu fosse uma criança dando palpites em conversas de adultos. Na terceira ou quarta vez que ganhei esse olhar, decidi simplesmente agradecer o boa sorte e mais nada.

Finalmente, no dia marcado, eu, a Esposa e meu filho entramos, debaixo de um calor infernal, na clínica que aplica as vacinas. A mulher da recepção nos recebeu com um sorriso de orelha a orelha e nos indicou para a sala de um médico. E aí começou o problema.

Veja bem, meu filho estava ali para tomar vacinas, e muitas delas poderiam ter reações adversas. E eu queria ouvir o médico, porque me recuso a olhar esse tipo de coisa na internet. Vocês já repararam como qualquer coisa relacionada à saúde é mais grave na internet? É só olhar o fórum de maternidade que a Esposa participa.

“Meu filho tomou a vacina X e o pinto dele caiu. Devo ir no pediatra?”

“Ontem minha filha tomou a vacina Y e agora ela está brilhando como uma lâmpada. Isso é  normal, meninas? Minha conta de luz vai aumentar?”

Não. Olhar na internet nunca funciona. Eu queria mesmo era falar com o médico. E essa conversa não seria complicada. Como já havíamos falado com o pediatra, achei que o médico fosse apenas confirmar tudo o que o pediatra disse.

Eu estava enganado. Quer dizer, talvez o médico tenha apenas repetido o que o pediatra disse. Mas eu não posso dizer isso com certeza, porque o médico da clínica tinha um problema de fala – parecia uma língua presa multiplicada à décima potência – que tornava algumas de suas palavras incompreensíveis. E o engraçado é que isso acontecia sempre nos momentos mais importantes de cada frase.

“Essa vacina aqui é extremamente importante, porque laqvaipedseufilplodi. E temos que tomar cuidado porque, às vezes, ançameçatardenejo e aí podemos ter castrementegravearo”.

“Oi?”

“Castrementegravearo. Entendeu?”

“Bem...”

“Mas, claro, senhor Rob, o seu filho pode semunetodpécidença e isso faria com que ele assecinasetassenolho. Mas isso somente em casos raros.”

“Espera, o que mesmo somente em casos raros?”

“Seu filho assecinasetassenolhar.”

“O que é isso mesmo?”

“Uma consequência da semunetodpécidença.”

“Ah.”

“Vamos tomar as vacinas?”

“Você pode falar um pouco mais sobre aquele castrementegravearo?”

“Está aqui no papel”.

“Ah. Ok. O papel está em português, né?”

Enfim, fomos até o caixa e pagamos as vacinas. Só achei meio engraçado o fato de que uma vacina para impedir uma doença provavelmente custa mais que o tratamento da doença; mas, acredite, quando você é pai, isso ainda é bom negócio. E, de repente, estávamos na sala de espera.

E foi aí que o pesadelo começou.

Aqueles dez minutos na sala de espera foram uma das experiências mais traumáticas da minha vida. Havia três portas fechadas a nossa frente. Atrás de cada porta, havia uma sala. Em cada sala, havia apenas (pelo menos) uma criança. Todas elas choravam desesperadamente. Ouvi também barulho de correntes vindo de uma sala – e tenho quase certeza que escutei um tiro sendo disparado atrás da porta do meio (coincidentemente, o som de choro daquele sala parou logo após o tiro).

E eu ali, com meu filho no colo, me sentindo como se estivesse na sala de espera do consultório do Mengele.

Na minha cabeça, todas as salas atrás daquelas portas eram sujas e escuras, parecidas com o porão de uma casa abandonada. Eu depositaria meu filho em uma cama suja, onde ele seria amarrado e, horas depois, abriria os olhos e encontraria ao seu lado algumas seringas de vacina e um pequeno gravador. Ao dar play, ele ouviria a frase:

“Hello, Filho do Rob. I want to play a game.”

Aos poucos, as crianças iam saindo da sala. Todas saíam chorando. Todas, menos uma, que saiu mancando, com os olhos arregalados e uma expressão de quem nunca mais iria sorrir na vida. Quando os pais dela se distraíram, eu me abaixei e perguntei baixinho:

“Cara, o que aconteceu lá dentro? Você tem alguma dica?”

O menino olhou para mim e vi que tentar qualquer tipo de comunicação seria inútil. Seu olhar era vazio, como alguém que havia visto a morte de perto – mas, ao invés de uma foice, a morte carregava uma seringa enorme. Aquela criança nunca mais iria falar coisas coerentes. Creio que foi nesse momento que eu decidi que se o Zé Gotinha se candidatar a qualquer cargo público, ele terá meu voto.

A fila foi andando e respirei fundo. Eu olhava as três portas, tentando imaginar onde entraríamos. Era como se fosse um programa de auditório roteirizado pelo Freddy Krueger. Demônios aplaudindo na plateia, cenário decorado com crianças sendo torturadas e o apresentador sorrindo e anunciando os próximos competidores – que, no caso, éramos nós.

“Rob! É hora de você e sua família escolherem uma porta! Uma delas leva a uma sala com centenas de cobras! Outra leva ao quinto círculo do inferno! E a terceira fará você experimentar uma chuva de navalhas! Onde você e sua família vão entrar?”

“Eu queria só ir embora daqui.”

“Não. Essa porta nós não temos.”

“A gente não pode ficar na sala de espera sem escolher porta nenhuma? Eu prometo que não vamos atrapalhar nem ficar no caminho de ninguém”.
“FILHO DO ROB GORDON!”
Ao ouvir meu nome, abri os olhos – eu nem havia percebido que eles estavam fechados – e dei de cara com a porta do meio aberta e uma enfermeira esperando por nós. Pelo que entendi, como demorei para escolher uma das portas, escolheram por mim. Assim, eu, a Esposa e nosso filho entramos na sala.

Era pequena, com uma maca no meio. Procurei por sinais de sangue no chão e nas paredes, mas não vi nada. Bom sinal. Na verdade, era uma sala normal, parecida com a de qualquer consultório médico. A única diferença era a enfermeira. Seu olhar era vidrado e o fato dela ficar dando risadinhas sempre que olhava para meu filho não ajudava em nada. Se estivéssemos num manicômio, eu teria certeza de que ela era uma paciente usando as roupas do enfermeiro que ela estrangulou horas antes.

“Vocês vieram tomar as vacinas, certo?”

“Não”, eu corrigi rapidamente. “Quem veio tomar é o bebê”.

“Certo, certo”. Ela deu mais uma risadinha, desta vez olhando diretamente para alguém atrás de mim. Virei a cabeça mas não havia ninguém ali. Quando olhei para ela de novo, percebi que ela encarava meu filho da mesma forma que um leão observaria um filhote de antílope. De repente, ela parou de sorrir e seus olhos ficaram ainda mais vidrados. Olhando para o vazio, ela murmurou:

“Vocês sabem dos perigos da vacina do rotavírus, certo?”

“Bem, nós sabemos que essa vac...”

“Não. Vocês não sabem. Ninguém sabe o poder do rotavírus. Mas eu vou explicar. A vacina para o rotavírus é muito violenta. E ela é violenta porque o rotavírus é violento com aqueles que são violentos com ele. Louvado seja o rotavírus.”

“Oi?”

“A vacina do rotavírus é violenta”.

“Sim. Essa parte eu entendi. O que você disse depois disso?”

“Nada. Eu estou apenas falando sobre a vacina do rotavírus. O seu filho irá receber os vírus vivos. E eles serão eliminados pelas fezes. Vocês vão precisar descartar as fezes do bebê”.

Pensei em perguntar o que ela achava que nós fazíamos com as fezes do meu filho, mas ela já estava falando novamente.

“As fraldas precisam ser descartadas”, ela disse. “Caso contrário, o rotavírus irá se espalhar pela casa. E, depois da casa de vocês, pelo mundo, dando início a uma era de fogo e destruição. O planeta será coberto de enxofre e a fome e a peste se sentarão ao lado do rotavírus. Louvado seja o rotavírus”.

“Espera. Quem vai se sentar do lado de quem?”

“Nada, nada. Vocês precisam descartar as fraldas”.

“Mas nós meio que já fazemos isso. Aliás, a fralda chama fralda descartável justamente por causa disso.”

“Ela não pode ficar no lixo dentro da casa. Caso contrário, a família inteira será infectada”.

Certo. Então, aprendemos que o rotavírus é perigoso. Mas não acho que isso seja surpresa, já que estamos falando de um negócio chamado ROTA vírus. O vírus tem nome de polícia, é claro que ele ia ser perigoso, ainda mais no Brasil. Aposto que ele infecta primeiro e pede os documentos depois. Tenho certeza que o Rotavírus fica andando pelas periferias da cidade fazendo chacinas.

De qualquer forma, fiz uma anotação mental para conversar com a Esposa sobre jogar as fraldas no quintal da vizinha que deixa a piscina descoberta como uma espécie de resort para os mosquitos da dengue, e voltei minha atenção para a enfermeira. Ela estava de costas mexendo em instrumentos sobre uma bancada. De onde eu estava, consegui ver uma serra (com marcas de sangue) e uma foice de metal. Enquanto ela fazia isso, cantarolava baixinho alguma coisa sobre o rotavírus. Subitamente, ela se virou para nós com um tubo na mão. Seus olhos brilhavam.

“Vamos começar? A primeira vacina é a do rotavírus.”

“Certo.”

E sim, a parte do rotavírus foi tranquila, já que a vacina é via oral. Quer dizer, pelas caretas que meu filho fez, a enfermeira podia muito bem estar dando a ele vacina temperada com água de esgoto e muco, mas, no geral, foi fácil. Especialmente se comparado à vacina seguinte. A enfermeira voltou para sua bancada e começou a mexer em novos instrumentos. Um alicate. Uma motosserra. Por fim, escolheu uma lança.

Foi só quando olhei com cuidado que vi que não era uma lança, e sim uma seringa.

“Segurem o bebê”.

O tom de voz dela foi tão gélido que meu filho começou a chorar só de ouvir a frase.

Você já segurou seu filho na hora dele tomar vacina? Bom, se você já fez isso, diga aqui para mim nos comentários qual é a sensação, porque eu nunca fiz isso na vida. O que rolou foi que meu filho estava no colo da Esposa, a enfermeira se debruçou por cima dele como um anjo da morte e eu... Bem, eu fiquei paralizado, no meio da sala, querendo olhar para outro lado mas sem conseguir desviar os olhos.

Mas o problema foi quando a vacina terminou. Meu filho estava aos berros e a enfermeira decidiu pegar um chocalho para acalmá-lo. Mas não era um chocalho na forma de ursinho ou de abelhinha ou de qualquer coisa que um chocalho possa ser. Na verdade, era uma lata de algodão vazia e com algumas coisas (Pedras? Feijão? Dedos fossilizados de crianças?) dentro dele.

A enfermeira começou a balançar aquilo na cara do meu filho e da Esposa de um jeito meio frenético, e dançandinho, como se estivesse numa espécie de transe. Foi quando eu comecei a desconfiar que talvez tudo aquilo fizesse parte de algum ritual, e a alma do meu filho estava sendo entregue como alimento para alguma divindidade chamada rotavírus. Talvez a enfermeira até mesmo estivesse possuída pelo rotavírus naquele momento.

Quando o ritual acabou, ela se virou para o meu filho.

“Você está mais calmo?”

Meu filho continuou a gritar. Eu pensei em avisar a enfermeira que “olha, ele ainda não fala”, mas estava aterrorizado demais para falar qualquer coisa.

“Então vamos tomar o outro pic-pic”.

“Desculpe”, dessa vez, eu interrompi. “Pic-pic seria o quê, exatamente?”

“A outra vacina”.

“Ah... Pic de... Picada. É isso?”

“Isso. A vacina”.

Tive vontade de perguntar como as pessoas cantavam “parabéns para você” na casa dela, querendo saber se, na hora do “é pique-pique-pique” os convidados ficam enfiando seringas no corpo do aniversariante. Mas meus devaneios foram mais uma vez interrompidos quando vi o tamanho da segunda agulha. Se um dia a enfermeira precisasse atravessar um rio, ela poderia usar aquela agulha como ponte.

“Esta vai doer um pouco.”

“Um pouco? Qual seu conceito de pouco? Porque parece que a primeira injeção já d...”

“Segurem o bebê”.

Meu filho começou a chorar novamente antes mesmo da agulhada. E eu não o culpo, já que eu mesmo estava quase chorando só de ficar no mesmo ambiente que a Psicótica do Pic-Pic. Mais uma agulhada. Mais um grito. Mais um suspiro de prazer da enfermeira. Mais uma alma devorada pelo rotavírus. Louvado seja o rotavírus.

“Pronto. A criança está vacinada.”

“Certo”, eu disse, pegando a Esposa pelo braço e indo embora da sala o mais rápido possível. A cada passo, eu pedia desculpas para o meu filho. Quando pisamos na sala de espera, arrisquei uma olhada para trás. A enfermeira estava parada na porta e vi, pela primeira vez, que seus olhos eram vermelhos.

“Até o mês que vem”, ela disse sorrindo e fechou a porta. Mesmo com meu filho gritando, ouvi o barulho do chocalho ritualístico sendo usado e uma espécie de cântico num idioma que não reconheci.

Mês que vem eu vou levar um padre comigo.