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4 de fevereiro de 2014

Jogos, Trapaças e Duas Pizzas Fumegantes. E Erradas.



Eu tenho problemas com a pizzaria aqui ao lado.

Quer dizer, na verdade, a pizzaria aqui ao lado tem problemas comigo. Ou melhor, com o resto do mundo. E como eu estou no resto do mundo, os problemas se estendem a mim.

Assim que vim morar na Vila Mariana eu desconfiei que a pizzaria não fosse das melhores. Porque o nome dela...

Bem, vamos colocar desse jeito: quando eu passei em frente à pizzaria pela primeira vez e vi o nome, fiquei espantado. Precisei de alguns minutos para entender a “sacadinha” do nome do lugar – que tem a ver com a quantidade de recheio, acredito – mas que acaba servindo involuntariamente para descrever alguns de seus funcionários.

Não. Não vou dizer o nome da pizzaria.

Mas vou contar como o lugar funciona. Você pede a pizza – por telefone é mais fácil, já que sempre que decido ir até lá pedir pessoalmente eu não consigo me comunicar com as meninas do caixa porque elas ficam assistindo novela com a televisão no volume 7894 – e espera entregarem em casa.

Igual a uma pizzaria normal, certo?

Não. Porque sempre vem algo errado. Sempre. Acontece com tanta frequência que eu acho que não é acidente, mas sim política da empresa. Às vezes, acontece com a cebola e azeitona. Eu sempre peço a pizza com muita cebola e muita azeitona – quando é a Esposa que pede, eu fico dando pulinhos ao redor dela, sussurrando “não esquece! muita azeitona!”.

Só que o “muita azeitona” lá pode ser interpretado de duas formas. Como são duas meninas que atendem o telefone, cada uma lida com meu pedido de um jeito. A primeira delas entende que “muita azeitona” significa, na verdade, que eu não quero azeitonas.

Assim que ela desliga o telefone, a expressão “muita azeitona” começa a percorrer um caminho tortuoso pelo seu cérebro, se perdendo no meio do caminho e sofrendo mutações antes de chegar à boca. É mais ou menos assim:

Meia calabresa meia portuguesa muita azeitona. Meia calabresa meia portuguesa muita azeitona. Meia calabresa meia portuguesa muita azeitona. Ih, rapaz, esse capítulo da novela hoje tá uma enrolação. Meia calabresa meia portuguesa azeitona. Meia calabresa meia portuguesa azeitona. Ah, não dá bola para ele! Ele é apaixonado pela cunhada. Mulher burra! Meia calabresa meia portuguesa meia azeitona. Meia calabresa meia portuguesa meia azeitona.

- Zé! Tem um pedido aqui! Meia calabresa, meia portuguesa, meia azeitona!

- Mas aí tem três metades!

- Ah, é?

- É. Tem que tirar uma.

- Ih, agora não sei qual tirar.

- Não tem pizza de azeitona! Essa aí que deve estar errada.

- Ah é! Então é isso! É meia calabresa, meia a outra que eu falei.

- E a azeitona?

- Não, nada de azeitona. Meia calabresa, meia a outra lá.

Já a outra atendente interpreta o meu “muita azeitona de outro jeito”. Para ela, toda vez que eu peço:

- Com muita azeitona, por favor.

Na verdade, eu quero dizer:

- Eu tenho uma doença rara e preciso comer 35 quilos de azeitona por dia. Se isso não acontecer, as células do meu corpo vão explodir e vocês serão responsabilizados. Sim, eu sei que devia abrir o jogo com você, mas acontece que minha família não sabe que eu tenho esta doença e eles estão aqui ao lado. E eu amo muito minha família, eu realmente quero comer uma pizza sem explodir no meio da mesa de jantar. Minha vida depende de você. Eu preciso de azeitonas.

Ou seja, quando a pizza chega, eu não tenho pizza, mas sim uma versão moderna do Monte das Oliveiras. Vou até o vizinho, peço uma pá e volto para casa, disposto a abrir um túnel no meio das azeitonas até chegar à pizza. Às vezes, descubro que nem pizza tinha, eram apenas azeitonas mesmo.

Mas eu ainda não falei do problema que a pizzaria inteira tem com as bebidas. Aqui em casa nem se pensa a bebida que será pedida: é Coca Zero. A Coca Zero não é apenas uma bebida, ela é parte integrante do ritual da pizza.

Mas nesta pizzaria isso não parece ser entendido. Peço a pizza, espero alguns minutos e toca a campainha. Vou atender.

- Sua pizza chegou.

- Obrigado.

- A bebida eu não trouxe.

- A bebida você o quê?

- Eu não trouxe. Não tinha Fanta Zero.

- Puxa, que pena.

- Né? Seu troco.

- Então, mas é uma pena que não tem Fanta Zero e é uma pena que isso não interfere com meu pedido. Porque é uma pena que eu pedi uma Coca Zero.

- Não tem também.

- Não?

- Não. Fanta só tem a normal.

- Sei. A Fanta preta tem?

- Como?

- Aquela bebida preta. Acho que é Fanta Jaboticaba. Sabe?

- Cara, bebida preta ali só tem Coca.

- Ah, é? Poxa... Que pena. Mas tem Zero?

- A Coca?

- Isso.

- Tem.

- Então eu vou querer essa mesmo. Pode ser uma Coca Zero. Não tem problema.

- Tá. Eu vou lá buscar.

- Ok.

Passam-se os minutos e a campainha toca de novo. Eu vou atender.

- Eu trouxe seu guaraná!

- Oi?

- Mas não tinha zero! Só normal!

- Oi?

- O guaraná era com bastante azeitona, né?

Essa é minha rotina. São Paulo tem a melhor pizza do planeta, mas acho que ela seria ainda mais gostosa se eu conseguisse me comunicar melhor com a pizzaria aqui ao lado.

E, como eu disse lá em cima, não vou falar o nome da pizzaria. Mas nada me impede de mostrar.


Não é um nome. É uma filosofia.

20 de setembro de 2013

Pequenos Diálogos do Tomate Verde



- Cara, me faz um X-Salada? E eu quero uma Coca Zero só gelada.

- Ok.

- Você consegue tomate verde?

- Oi?


Sim, eu gosto de tomate verde no hambúrguer.


- Tomate verde. Ao invés do tomate maduro, tomate verde.

- Não sei se vai ter.

- Se não tiver, eu quero sem tomate, por favor.

- Sem tomate?


Sim, isso vai ser divertido.


- Sim.

- Mas o tomate verde você vai querer?

- Sim.

- Não pode ser qualquer tomate?


Sim, o garçom aparentemente é daltônico, e não quer que as pessoas da padaria saibam disso.


- Não. Eu prefiro tomate verde.

- Certo.

- Obrigado.

- O seu sanduíche é qual mesmo?


Sim, o garçom tem problema de memória recente.


- Um X-Salada.

- Certo. Um X-Salada.

- Com tomate verde.

- Você quer o tomate verde dentro do pão?


Sim, eu dormi ontem no mundo real e acordei dentro de um episódio de Além da Imaginação.


- É. Junto com a carne.

- Entendi.

- Na verdade, é um X-Salada como outro qualquer. A diferença é que eu quero que o tomate seja verde.

- Um X-Salada?


Sim, eu sinto um profundo cansaço mental às vezes.


- Sim.

- E para beber?

- Uma Coca Zero. Só gelada.

- Geli-limão?


Sim. Pode ser. Tanto faz. Na verdade, acho que eu quero só ficar sozinho um pouco.


- Não. Só gelada.

- Coca normal?

- Coca Zero.

- Certo.

Contrariando todas as expectativas, ele trouxe tudo certo.

A humanidade ainda consegue me surpreender.

8 de abril de 2013

"Você quer copo ou Guerra de Canudos?"



Dia desses, entrei numa padaria. Uma daquelas grandes, famosas, que todo mundo já ouviu falar.

Estava morrendo de sede e precisava de uma Coca gelada. E como eu estava com pressa, meu plano era comprar a Coca e tomá-la no caminho. Assim, fui rapidamente até o balcão e pedi uma lata de Coca.

O atendente, uma daquelas pessoas cuja aparência desafia a lógica (ele poderia ter qualquer idade entre 45 e 890 anos) se aproximou e me entregou a bebida.

- Você quer copo ou canudo?

E, não, tomar a Coca direto na latinha não é uma opção para mim.

Antes que vocês pensem que eu fico lendo atentamente todos os e-mails informando sobre urina de ratazanas mutantes e alienígenas nas latas de refrigerante, e como beber direto da lata pode fazer com que seu corpo entre em contato com a urina e seus órgãos internos explodam, e que isso já aconteceu com um garoto no interior de Goiás que hoje está no hospital esperando por um transplante de corpo inteiro e repassem esta mensagem para o maior número de pessoas que você puder, eu explico.

Desde que eu comecei a ter problemas de inflamação na gengiva, anos atrás, tive alguns problemas com bebidas geladas – que normalmente implicavam em eu cair na rua gritando de dor após o primeiro gole depois de sentir a bebida gelada batendo na minha gengiva (algo que não acontece quando uso um copo ou um canudo).

Assim, meu corpo precisou se adaptar e desenvolver métodos de sobrevivência para bebidas geladas.

Foi mais ou menos o que aconteceu com as zebras. Quando elas descobriram que os leões eram perigosos, a Evolução, ao perceber que daria muito trabalho transformar as patas dianteiras dos animais em metralhadoras com lançadores de granadas, embutiu no cérebro delas que “olhe, chegar perto daqueles bichos ali é perigoso, então tome cuidado com eles”, deu-se por satisfeito e foi trabalhar em outra tarefa.

E a Evolução tomou o mesmo caminho com minha boca. Sem conseguiu bolar nenhum plano decente – como desenvolver uma terceira dentição ou criar uma carapaça metálica sobre a minha gengiva – tudo o que ele conseguiu foi fazer com que eu tivesse pavor de bebidas geladas.

Isso está melhorando, e às vezes até consigo tomar uma long neck no gargalo. Mas o pavor de bebidas geladas ainda está incrustado no meu DNA, então usar canudo, para mim, não é exatamente coisa de criança – inclusive eu cheguei a pedir uma receita médica para comprar canudos, mas minha dentista disse que não era possível (por outro lado, confesso que adoro quando dou a sorte de pegar um daqueles canudos que dobram na ponta, algo que classifico como uma das maiores invenções da humanidade).

Assim, voltamos à padaria, no momento em que o atendente pergunta se eu quero copo ou canudo.

Eu, com a latinha na mão, respondo “canudo”.

Ele olha para mim atentamente e, ao invés de me entregar os canudos, decidiu que seria melhor entregar uma nova pergunta.

- Você sabe onde ficam os canudos?

- Não. Caso contrário, eu não teria pedido, respondi naturalmente, olhando no relógio.

- CANUDOS FICA NA BAHIA!, ele urrou, fazendo eu dar um pulo para trás.

- Oi?

- Canudos fica na Bahia! Perto de Juazeiro!

Eu deveria ter respondido que “olhe, eu mudei de ideia e acho que prefiro um copo, pode ser?”, mas não tive tempo. Aparentemente, o espírito do Antônio Conselheiro havia possuído o corpo do sujeito. Se bem que, pela idade dele, talvez ele fosse o próprio Antônio Conselheiro, ou algum parente próximo. Talvez seu avô. Assim, me perdi nos pensamentos e acabei respondendo somente:

- Oi?

- Foi lá que teve a revolução de 32! Uma verdadeira insurreição!

Não, espere. Canudos foi antes disso. Todo mundo viu o filme com o José Wilker.

- 32? Não, foi...

- Foi lá que lutaram pela liberdade, e só perderam porque o governo americano ameaçou bombardear tudo aquilo! José Conselheiro!

Americanos? José Conselheiro? Achei melhor interrompê-lo, antes que ele colocasse Genghis Khan e os exércitos romanos no meio da salada.

- Olhe, eu acho que...

- Acredite em mim! Eu conheço a história de Canudos! Eu leio muito!

- Não, eu não estou duvidando, é só que...

- Eu li isso na Bíblia! Eu li a Bíblia inteira!

Algo dentro de mim começou a dizer que, dentro de instantes, o exército de Canudos teria sido transformado em sal depois de Antônio Conselheiro ser traído por Judas Iscariotes.

Meus neurônios foram mais longe e começaram a questionar se o Darth Vader iria aparecer na história também – dois deles inclusive começaram a fazer apostas sobre o tema, com um deles defendendo de que esta ideia poderia render um spin-off, batizado de Guerra de Canudos nas Estrelas.
- Certo. É que, na verdade, Canudos não aparece na Bíblia. Tem Canaã, eu acho, mas Canud...

- Eu li a Bíblia inteira! E mais de uma vez! Está tudo lá!


Desisto.

- Ok.

- E como eu posso lhe ajudar?

- Não, nada. Eu estava apenas procurando a câmera escondida. Sabe quando você tem a impressão de que está numa pegadinha?

- Como?

- Nada. Obrigado.

- Você não vai querer um canudo?

- Não. Deixa. Eu prefiro um copo.

- Saindo um copo!

Por favor, não use o copo como desculpa para me explicar a história do aeroporto de Viracopos, e não tente me convencer que o nome da capital da Dinamarca é Coponhagen.

- Obrigado.

Peguei a latinha e o copo, fui até a mesa e comecei a beber minha Coca, pensando em porque a vida é assim, porque essas coisas acontecem.

E, mais importante: porque precisa ser sempre comigo?

27 de novembro de 2012

Viagem ao Mundo dos Sonhos


Sonhos são coisas engraçadas.

Normalmente não fazem muito sentido, com personagens – reais ou não – que entram e saem da história sem motivo aparente – e é comum eles agirem sem lógica nenhuma, mas sempre com um pé na realidade. É quase um filme do Fellini.

Talvez seja por isso que eu adore sonhar. Sou apaixonado pela ideia de saber que, assim que eu dormir, algo vai acontecer dentro do meu cérebro. Uma história que pode não fazer muito sentido, mas provavelmente irá me marcar.

E o bom é que eu descobri que para assistir ou participar de uma história assim, eu não preciso dormir. Basta apenas eu ir até à padaria aqui na esquina de casa. Com sorte, algo sem sentido irá acontecer.

Foi o que aconteceu uns dois dias atrás, por exemplo. Eu estava nos meus dias de criatura do episódio O Sal da Terra, de Jornada nas Estrelas (para quem não sabe, é um alienígena que se alimenta exclusivamente de sal) e fui até a padaria comprar algo para comer.

Me aproximei do balcão e, teoricamente, descobri a resposta para os meus problemas: uma bandeja de petit-fours que pareciam ser de aliche. E, quando você está com vontade de comer sal, a palavra aliche é quase uma senha que abre uma porta secreta para um mundo de felicidade.

O problema é que eles apenas pareciam ser de aliche, mas nada indicava isso com certeza. Nenhum papel, nenhuma plaquinha, nada. E eu não iria comprar sem ter certeza pois, como eu sou eu, a possibilidade de comprar um punhado daquilo para somente então descobrir que eram feitos com uva passa era enorme. Assim, chamei a balconista.

- Este petit four é de aliche?

Ela olhou para os salgados com uma expressão de uma mulher nascida na Idade Média que, ao ser transportada para o século 21, saísse nas ruas pelas primeiras vez. Eu apenas não sabia o sabor dos petit-fours, mas o caso dela era pior: certamente, ela nunca tinha visto um petit-four na vida.

Olhou com calma e claramente sem respirar – como se os petits fours fossem pular da bandeja e ataca-la ao menor sinal de perigo. Aparentemente, seu cérebro considerou todas as hipóteses possíveis, até que ela me respondeu:

- Não sei. Acho que sim.

- Bem, você tem como descobrir para mim?

Juro que falei isso de forma inocente. Minha ideia era que ela perguntasse isso a algum outro funcionário. Mas não: disposta a esclarecer o mistério por conta própria e provar sua enorme capacidade, a balconista pegou um dos petits fours e aproximou dos olhos, observando o salgado atentamente.

Talvez estivesse analisando a textura do petit four, procurando por sinais de aliche; talvez estivesse esperando o próprio petit four se manifestar. Mas meus pensamentos foram interrompidos por uma voz:

- Tudo nesta padaria demora.

Não foi nem ela nem o petit four quem disse isso, mas sim um homem que se materializou ao meu lado. Era gordo e usava óculos. E estava olhando para mim, o que aparentemente significava que eu deveria responder.

- Oi?

- Tudo nesta padaria demora.

Não sei o motivo, mas ele falava suas frases se curvando e fazendo reverências com o braço esquerdo, como se estivesse agradecendo a um público imaginário.

- É, porque só tem essa menina atendendo, eu respondi.

- Imagine se a padaria estivesse cheia, ele respondeu se curvando novamente e fazendo mais reverências com o braço, desta vez para trás.

- É.

Por sorte, outra menina apareceu no balcão. E, como num bom sonho, ela não chegou de lugar algum. Num minuto, a única pessoa atrás do balcão era a balconista que analisava o petit four. No outro, esta nova menina estava ali ao lado dela, esperando pelo próximo cliente.

- Este doce de morango é de hoje?, perguntou o homem, fazendo reverências para frente.

- Sim, senhor.

- Então eu vou querer dois, ele afirmou, se curvando novamente e fazendo reverências para trás.

Meu impulso foi me juntar aos aplausos imaginários de um público inexistente e gritar “Bravo!”, mas não tive tempo. Ele se virou para mim novamente. Mais uma vez se curvou e fez reverências:

- Esta padaria é sempre demorada. Celso.

Celso? Eu poderia jurar que ele havia falado com outra pessoa, mas não havia mais ninguém ali. Além disso, ele olhava fixamente para mim. Resolvi ignorar.

- É. Bem. Acontece.

- Todo dia que eu venho aqui (se curvou mais uma vez), é sempre um inferno para ser atendido (nova reverência). Celso.

Pelo que pude compreender, Celso era a forma que ele encontrava de terminar suas frases. Algo como um “câmbio”. Achei melhor não contrariar o sujeito – e antes que vocês me julguem, duvido que alguém consideraria inteligente contrariar uma pessoa que faz reverências na padaria.

- Entendi. Hã... Celso.

- Sempre assim. Sempre assim. Celso.

Eu estava pronto para encerrar minha próxima com “Celso e desligo” e voltar minha atenção aos meus petits fours de aliche, mas não tive tempo.

- Verdade. Elas são muito enroladas, disse uma voz atrás de mim.

Olhei para trás e dei de cara com um sujeito que não estava ali um instante atrás. Era alto e magro. Pensei em perguntar se ele estava ali antes, mas alguma coisa no meu instinto me disse que era melhor ficar quieto. Provavelmente, a sua cara de poucos amigos, que lembrava uns três ou quatro zagueiros do Bangu nos anos 70.

O homem das reverências se curvou mais uma vez e continuou, desta vez direto para o recém-chegado:

- Faz tempo que você está aqui, Celso?

Ah, então ele era o Celso!

Tive vontade de responder que não, que na verdade ele acabou de chegar, e que mais na verdade ainda, ele havia se materializado aqui na padaria. Mas é evidente que mudei de ideia com medo de levar um carrinho por trás do zagueiro e ser jogado para o outro lado do balcão.

- Acabei de chegar.

Bom, ao menos ele não mente.

- Moço?

Era a atendente dos petits fours. Vale lembrar que sua colega havia desaparecido novamente e ela estava sozinha atrás do balcão, com o salgado na mão. Pela sua expressão, o enigma continuava de pé. Os petits fours se recusavam a confessar de qual sabor eram. Seus olhos estavam nervosos.

- Não tem como você descobrir?

Foi quando ela decidiu que talvez a resposta estivesse dentro do petit four. Aproximou o salgado da boca e o lambeu de leve. Antes que eu pudesse protestar, ela fez uma careta – como se acabasse de ser esfaqueada. Colocou a língua de fora e, mostrando todos os seus dentes, arregalou os olhos com expressão de nojo:

- Ai, moço, é de aliche, sim.

- Certo. Eu quero 100 gramas. E sem esse que você lambeu, por favor.

Minutos depois, estava com o saco de petits fours na mão. Passei pelo zagueiro do Bangu enquanto seu amigo se curvava mais uma vez, fazendo nova referência e se despedindo de mim.

No caminho do caixa, dei de cara com uma mulher de meia idade que entrou na padaria acompanhada de sua filha. A garota olhou para mim e disse:

- Meu pai parou o carro no local proibido.

Eu fingi que não era comigo, balbuciando algo como “sinto muito, mas já deve ser de manhã e eu preciso acordar” e paguei minha conta. Voltei para casa, sentei no sofá e pensei sobre tudo o que havia acontecido. Belisquei meu próprio braço e senti dor. Não havia sido um sonho. Por mais que fosse tão estranho, não havia sido um sonho.

Mais tarde, naquela noite, dormi e não sonhei.

Mas, também, sejam sinceros: precisava?