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20 de maio de 2011

Sobre Ontem a Noite

Hoje, após o almoço, comecei a receber diversos e-mails de leitores do blog reclamando não terem sido convidados para a festa realizada por conta dos 500 seguidores do Champ.

Alguns me acusavam de demagogo, pois me refiro aos leitores como amigos e – teoricamente – não convidei para a celebração. Outros, por sua vez, exigiam que uma nova festa fosse marcada, desta vez com todos os seguidores presentes. E um e-mail continha a mensagem “pena que você não convidou para a festa, mas curti muito seu blog, topa parceria? Vlw!”.

A todos vocês:

Eu também não fui convidado, pois não sabia de festa alguma.

Tanto que, a priori, achei que fosse alguma brincadeira, ou um viral. Mas, conforme os e-mails começaram a chegar, vi que algo realmente tinha acontecido. Foi aí que sai para investigar.

Aparentemente, sim, houve uma festa aqui no meu prédio, com todos os personagens do blog. E eu não fui convidado. Descobri, no chão da garagem, restos de um flyer (queimado nas pontas e com restos de maconha em seu interior), com o título: “Balada 500 do Champ” e as frases “Show da banda Síndica Brick Top e Seus Porcos Selvagens” e “Mulher até as 10 não paga!”.

E eu em casa. Tentando dormir, apesar do barulho da festa que acontecia no prédio ao lado. Mal podia eu imaginar que a festa era aqui. No meu prédio. Sobre o meu blog.

E, assim, caiu outra ficha. Comecei a me recordar que não me lembrava de ter visto o Besta-Fera em casa ontem à noite. Bom, bastou uma pesquisa no Google para começar a descobrir evidências – encontrei uma notícia informando que a polícia invadiu uma festa em Pinheiros esta madrugada, mas não consegui localizar o endereço exato, então não sei se foi aqui (e, se foi durante o show da banda da minha síndica, espero, pelo bem dos policiais, que não tenha sido).

Mas achei, sim, algumas provas. Fotos de mulheres vestidas como legionárias romanas e besuntadas de óleo; pessoas seminuas dançando em gaiolas no hall do prédio; consumo de drogas. Bebidas, drogas, mesas de jogo (aparentemente, o fantasma Jonas ganhou fortuna nas mesas de pôquer). Ou seja, tudo aquilo que torna a vida mais colorida. E que certamente vai me render uma multa de condomínio no valor da dívida externa de um país africano (porque certamente o cachê da minha síndica será pago com o dinheiro da multa).

Assim, deixo vocês com três fotos que encontrei na internet e que mostram o caráter “comportado” do evento.


"Oi?"



"A gente não vai gravar vlog hoje, né? Não tenho condição."



Sim. Ele está nu.
Ou melhor, nu em pelo.


Peço a colaboração de todos no envio (discreto) para o meu e-mail de eventuais fotos que surgirem na internet.

Porque hoje o tempo vai fechar aqui em casa, assim que esse cachorro acordar direito (ele acordou agora há pouco, foi até o banheiro, vomitou e voltou para a cama).

Certo de sua compreensão,

Rob


(Nota: nenhum animal foi ferido de algum modo durante a realização deste post. Já durante a festa, eu não garanto.)

(Nota 2: Quem quiser um texto um pouco mais sério - mas ainda assim de criança - tem coisa nova aqui, no Chronicles)

19 de outubro de 2010

O Império Contra-Ataca

At. Srs. Condôminos e Moradores

Prezados Senhores,

Informamos que alguns condôminos e moradores têm reclamado de barulhos. A Administração do Condomínio preocupada em resolver o problema e evitar desentendimentos, mandou verificar equipamentos e possíveis pontos que possam provocar ruído, porém nada foi identificado até o momento.

Pedimos àqueles que porventura possam continuar a ouvir ruídos, anotar dia e horário e entregar a anotação ao zelador, que a encaminhará ao corpo diretivo para as providências cabíveis.

Atenciosamente,
____________________
Empresa XYZ Condomínios



Barulhos. Desentendimentos. Anotar dia e horário. Corpo diretivo. Providências cabíveis.


SIM. ADIVINHE QUEM VOLTOU.


9 de maio de 2010

A Queda

Todo império cai um dia.

Está na história. Cada império tem sua história, sua época, seus heróis, mas o ciclo de vida que apresentam é o mesmo: origem, crescimento, auge, decadência e queda. Foi assim com os impérios romano, mongol, bizantino, britânico e tantos outros. A cada império que cai, outro surge em seu lugar, espalhando suas leis, seus costumes e deuses, e sua cultura pelo globo.

O que muda apenas é a época e a duração de cada império. Alguns duram décadas, outros sobrevivem por séculos. Mas todos caem. Engana-se, porém, quem acredita que um império cai da noite para o dia.

Algumas pessoas acharam que os ataques de 11 de setembro de 2001 significavam a queda do império norte-americano. Não poderiam estar mais equivocados. O ataque ao World Trace Center, como se sabe hoje, significou apenas um machucado na couraça norte-americana – e, por mais que o ferimento tenha sido profundo, passou longe de ser mortal. O império norte-americano ainda vive.

Pois o início do século 21 foi a época reservada à queda de outro império: o da minha síndica Brick Top, que governava com o prédio onde moro com mão de ferro. Não sei ao certo como aconteceu. As poucas informações que consegui reunir via circulares no elevador, afirmam que a próxima reunião de condomínio será marcada pela eleição de um novo síndico, já que o atual, eleito no início do mês, renunciou ao cargo.

Ou seja, já estamos indo para um segundo síndico nesta era pós-Brick Top. E não sei o destino dela: não sei se foi assassinada a tiros na garagem do prédio, se finalmente foi alcançada pelo braço da lei, ou se renunciou a tudo para passar os seus últimos dias em paz, eliminando pernilongos com aquela raquete de tênis elétrica que ela, da forma mais mórbida possível, carregava sob o braço para onde quer que fosse.

Assim, o mundo celebra em paz o final da tirania. Fiquei sabendo que dia destes tivemos um churrasco aqui no prédio. Eu não fui, pois ainda acho mais seguro permanecer longe disso: nada me tira da cabeça que a Brick Top está no apartamento imperial planejando seu retorno e anotando cuidadosamente o nome de todos os moradores que compareceram à festividade para uma eventual vingança.

Mas recebi um vídeo da celebração, que foi iniciada com um dos porteiros acendendo a churrasqueira, que, como fica claro no trecho inicial, continha um boneco da minha síndica. Apesar do vídeo não mostrar as pessoas comendo, acredito que o prato principal do cardápio tenham sido os porcos selvagens que moravam na sauna e se alimentavam de síndicos inadimplentes.

Mas o que me emocionou de verdade foi a união entre diferentes povos. Além dos moradores do meu prédio, é possível avistar diversas criaturas estranhas na celebração, mostrando que não apenas, nós, condôminos, tínhamos motivo para comemorar. Camelôs, garçons da padaria e caixas do pão de Açúcar se juntaram à festa que marca o início de uma nova era, repleta de paz, saúde, prosperidade e amor no bairro.

Sim, no bairro como um todo. Olhando o vídeo com atenção, é possível ver as comemorações em diversos locais de Pinheiros, como a Cardeal Arcoverde (00:50); Teodoro Sampaio (01:00), com suas ruas invariavelmente lotadas; Arthur de Azevedo (01:08); e Pedroso de Moraes (01:17) – neste trecho, atentem à estátua da Brick Top sendo derrubada em 1:23.





Assim, o mundo vem dormindo em paz estes dias. A tirania se foi. O ar se tornou mais respirável, as colheitas são fartas e a felicidade reina em Pinheiros.

Resta saber quanto tempo essa paz irá durar. Pois se há algo que eu aprendi é que o mal nunca se vai completamente.

Meu medo é que ele sempre volta. E, pior, acompanhado dos irmãos mais velhos.

17 de fevereiro de 2010

Uma Luz na Escuridão

Então, é isso. Andando da redação para casa, hoje, vi que o bairro inteiro está sem luz. Os botecos estão iluminados por velas, os semáforos estão apagados. Assim, o caos se instalou nas ruas ao redor do meu prédio.

A Cardeal Arcoverde, por exemplo, esta totalmente parada – cheguei a andar duas quadras dela sem ver os carros se moverem. Evidentemente, nem coloquei os pés na Teodoro. Como ela leva esse negócio de ser a pior rua do bairro para o lado pessoal, ao descobrir que a Cardeal estava congestionada, deve ter dado um jeito de capotar todos os veículos que conseguiu.

Mas o ponto não é esse. O ponto é que o bairro inteiro – ou, ao menos, boa parte dele – está sem luz, com exceção do meu prédio.

Sorte? Bem, se você está pensando isso, melhor eu dar as boas vindas aqui, porque você definitivamente é um leitor novo, e ainda não sabe que a única sorte que eu tenho é a má sorte.

Posto isto, estou com certo receio. Apenas o meu prédio com luz? Não, não é bom sinal. Algo de muito ruim vai acontecer.

Assim, elaborei um Top 5 Explicações para Apenas o Meu Prédio Estar Aceso e Suas Consequências:

1. Trata-se de uma invasão de mortos-vivos. Enquanto digito isso, zumbis estão devorando as pessoas nas ruas, e o número de mortos-vivos cresce em progressão geométrica. Por isso não há mais luz. Logo, a internet vai cair também. E chegará um momento em que o mundo será habitado somente por zumbis, que se arrastarão pelas ruas em busca de alimento, inutilmente. Inutilmente, claro, até eles perceberem que “olhe só, tem um prédio todo aceso em Pinheiros. Vamos até lá? Deve ter comida.” (isso, claro, já traduzido do “grrrauuurrrr” que eles costumam falar, para o seu maior conforto). Logo, a notícia vai se espalhar e todos os mortos vivos do planeta cercarão meu prédio, que se tornará uma espécie de Fogo de Chão dos zumbis.

2. Alienígenas estão em órbita da Terra, há séculos, monitorando a vida humana e acompanhando a evolução da nossa espécie. Agora, eles finalmente decidiram que é o momento de iniciar a invasão (provavelmente, captaram as transmissões do Zorra Total num sábado à noite e decidiram que nossa espécie é perigosa demais). Assim, eles desligaram todas as formas de energia do planeta. O único prédio que permanece aceso é o meu, que, na verdade, não é um prédio, mas sim uma sonda dos aliens. Logo, o pessoal da NASA vai vir aqui investigar e descobrir que toda a tecnologia deles está centrada no meu quarto, e vão lacrar aquilo para estudos. Eu? Como não posso sair do prédio, sob suspeita de ser um agente duplo alienígena, vou dormir na escada do prédio.

3. Foi um atentado terrorista que deu errado. Bombardearam as usinas do Brasil, mas, por acaso, a tomada que deixa meu prédio ligado permaneceu inteira. Assim, em minutos a CIA vai entrar no meu apartamento, e aos berros de “Move! Move! Move!” e “Room, clear! Kitchen, clear!” vão prender todo mundo. Logo, vai ficar claro que meu cachorro é um perigoso terrorista conhecido como Bestan Al-Feran Assad, e será confinado em Guantánamo. E, na primeira sessão de interrogatório, ele vai revelar que apenas cumpria ordens, e eu sou o cérebro por trás de tudo.

4. Trata-se de golpe de estado arquitetado pela minha Síndica, que, visando expandir seus domínios, apagou a luz do bairro todo e iniciou um plano de invasão, ampliando as fronteiras para o que será conhecido como Primeiro Império Síndico-Mafioso do Ocidente. Como ela nunca foi muito com a minha cara, dificilmente eu conseguirei algum ministério. É mais provável que eu seja obrigado a lutar no front de alguma das fronteiras (Pinheiros - Itaim, quem sabe?), ou, mais provável, que eu seja jogado e esquecido numa mina de sal. E, pior, mesmo acorrentado ali, terei que continuar a pagar o condomínio de alguma forma.

5. Cansado de ver a enorme quantidade de erros em Sua criação, Deus resolveu formatar tudo. Apagou o planeta inteiro e voltou para a estaca zero. Assim, no final da tarde, soltou um “faça-se a luz”, mas, como andou lendo livros de micro-gerenciamento, resolveu fazer desta vez tudo em menor escala; assim, acendeu apenas o meu prédio, que vai ser o pequeno universo particular Dele. Ou seja, a humanidade, agora, tem um novo começo. E eu sou o Adão da coisa toda. O problema não é andar para cima e para baixo vestindo apenas uma folhinha de parreira – cá entre nós, é vergonhoso, mas eu vou estar sozinho mesmo. O meu medo é que tenho certeza que vão trocar as fichas lá em cima e acabarão escolhendo a Elza Soares como Eva. Aí, vou ter que chamar o Criador e tentar negociar algo como “eu troco ela, três costelas e um braço inteiro por um PlayStation 3, que tal?”. E se Ele não aceitar, sinto muito, mas que encontre outra raça dominante. Eu estou fora.

2 de dezembro de 2009

The End is Nigh

Alguma coisa acontece no meu coração, quando eu entro no meu prédio e dou de cara com a Síndica Mafiosa.

E o problema é que isso acontece com mais freqüência que eu gostaria. Chega a ser curioso. Eu não tenho horários fixos, mas, toda vez que entro ou saio do prédio, ela dá um jeito de estar no meu caminho, normalmente rosnando algo para os porteiros ou (pior ainda) em silêncio, me encarando.

Como tenho noção do perigo, eu apenas a cumprimento, da forma mais respeitosa que consigo, evitando-a olhar nos olhos e saindo logo de perto dela.

Mas dias atrás, não consegui. Eu estava no meio das minhas férias, voltando da padaria. Entrei no prédio e ela estava conversando com dois vizinhos. Abaixei a cabeça e, planejando andar rápido na direção do elevador, apertei o passo.

Não deu certo.

No meio do caminho, um dos vizinhos me chamou:

– Rob? Venha até aqui, por favor.

Ai.

Me aproximei e um deles me explicou que estavam tentando convencê-la a construir uma piscina no prédio. Interessante. Um deles mora ali há mais tempo que eu, mas parece não ter entendido que a minha síndica não é uma pessoa que se deixa ser convencida de algo. Se ela decidir que quer uma piscina no prédio, é porque foi uma decisão dela.

E ai dos funcionários, dos moradores e até mesmo da piscina, se não estiver tudo pronto no dia seguinte.

Antes que eu pudesse me manifestar, ele me perguntou:

– Você não acha que nós deveríamos construir uma piscina no prédio?

Todos ficaram em silêncio, esperando pela minha resposta. Eu havia entrado numa situação política bem delicada. É evidente que eu acho que o prédio deveria ter uma piscina, por dois motivos. 1, por causa do calor lawrencedarabiano que vem fazendo; e 2, o que eu pago de condomínio é suficiente para construir um complexo olímpico inteiro no prédio, e não somente uma piscina.

Agora, meu instinto de sobrevivência começou a gritar comigo. Se eu falasse que “sim, deveríamos ter uma piscina” e minha síndica achasse que não, eu me tornaria seu inimigo mortal. Ou seja, capaz de conseguirmos uma piscina, e eu ser (misteriosamente) afogado nela na primeira semana.

Eu poderia até mesmo dizer que “não, não está fazendo tanto calor assim”, e sair pela tangente. Mas o fato de eu estar totalmente suado e carregando uma sacola com uma dúzia de picolés não me ajudaria a vender essa idéia.

Felizmente, o destino me ajudou e foi a Síndica quem disse, com suas tradicionais letras em caixa alta e com ponto final (sim, se você é novo aqui, acostume-se: ela fala em caixa alta sem gritar).

– NÃO HÁ ESPAÇO PARA A CONSTRUÇÃO DE UMA PISCINA.

Tem gente que não tem amor à vida mesmo. Meu vizinho respondeu:

– Tem, sim. Venha até aqui.

E saiu andando na direção do jardim que fica ao lado hall, sendo seguido por nós. Chegamos ao jardim e ele começou a apontar para o chão:

– Podemos mexer nessas plantas aqui, transportar esse jardim para lá e construir a piscina aqui.

Aparentemente, ele não percebeu que sua teoria permitia a construção de uma piscininha montável. Ia ficar lindo. Todo mundo numa piscina montável, ouvindo pagode e fazendo churrasco de espetinho em churrasqueiras de tijolos.

E, aparentemente, ele não percebeu que o jardim tinha algum significado para minha síndica.

– NÓS NÃO PODEMOS MEXER NO JARDIM.

– Mas é só transportar para lá, ele insistiu.

– NÓS NÃO PODEMOS MEXER NESSAS PLANTAS.

– Porque se a gente...

– EU GOSTO DESTAS PLANTAS.

Foi aí que eu percebi o que estava acontecendo de verdade. Aquilo não é um jardim. É uma desova. Comecei a imaginar o número de corpos que foram enterrados ali pelo zelador, de madrugada, sob as ordens da síndica.

Cheguei perto do jardim, para ver se a terra havia sido mexida recentemente (porque há um apartamento para alugar no prédio), mas, antes que eu pudesse verificar isso, meu vizinho resolveu usar um novo argumento.

Mal sabia ele que sua frase seguinte estaria colocando minha vida em risco.

– Porque nós temos apenas uma sauna no prédio. E está muito calor.

A síndica simplesmente o ignorou. Na verdade, ela olhou diretamente para mim e disse:

– TEM GENTE QUE MORA AQUI E NÃO SABE ONDE É A SAUNA.

Ela não disse isso em voz alta, simplesmente. Ela disse para mim. Especificamente para mim. Havia um "CERTO, SEU ANIMAL?" implícito no final da frase.

Senti um arrepio na espinha.

Ela sabe. Não sei como, mas ela sabe que eu não faço a menor idéia de onde fica a sauna. E, provavelmente, ela sabe que eu falo aqui no blog sobre os porcos selvagens, e escrevo sobre o sumiço dos corpos...

O blog! Ela lê o blog!

Aliás, pior. Ela lê o blog e sabe que eu sou eu!

Eu estou morto. É questão de tempo. Eu estou morto.

Esta frase dela foi quase um “você me desapontou, Fredo”, dito pelo Pacino no Chefão II. E todo mundo sabe o que acontece com o Fredo.

Eu dei um sorriso amarelo e concordei com o que ela disse. Segundos depois, já estava no elevador, depois de usar a desculpa “meus sorvetes estão derretendo, depois eu volto”.

É evidente que não desci mais. Mas eu sei que o fim está próximo. Provavelmente, enquanto digito isso, o zelador já está afiando as facas, e a Síndica ordenou que ninguém alimentasse os porcos durante dias, para que meu corpo desapareça logo – não que fosse preciso muito esforço, afinal, com meu 1.60, até mesmo um leitão daria conta.

Enfim, meu ponto é: se eu deixar de atualizar o blog nos próximos dias, vocês já sabem o que aconteceu. É porque eu não vou atualizar o blog nunca mais.

No meu prédio, já é 2012. Ao menos, para mim.


Ah, tem texto novo no Chronicles: Buarquianas.

20 de setembro de 2009

Se Ela Dança, Eu Danço não Durmo

A semana que passou não foi nada fácil para mim. De segunda à sexta, foram praticamente 12, 14 horas de trabalho por dia. Ou seja, na quarta-feira eu já estava com um par de olheiras digno de um urso panda. Na sexta, eu já havia me transformado em uma miniatura do Alice Cooper (deixando de lado os cabelos).

A coisa estava tão feia que, na quinta-feira, minha perna dormiu por causa da posição que eu estava sentado, e eu não senti formigamento – senti apenas inveja dela.

Assim, passei a semana esperando ansiosamente pela noite de sexta. Meu plano era dormir até ter câimbras nas pálpebras e acordar no sábado feito um bebê. Porém, talvez porque eu ainda estivesse totalmente pilhado por causa do trabalho, não consegui dormir direito – e a noite ainda teve direito a pesadelos. Ô fase.

Dessa forma, acordei pior ainda no sábado. Se as pessoas realmente precisam do “sono da beleza”, eu caminhava a passos largos para me tornar um dos sujeitos mais horrendos do planeta. Assim, me preparei para colocar uns palitos de fósforo nos olhos, para mantê-los abertos (laranja mecânica mode: on) e atravessar o sábado em marcha lenta.

Ontem à noite, porém, tudo parecia perfeito. Passei a maior parte do dia num churrasco e a maior parte do churrasco com uma lata de cerveja na mão. Some isso ao fato de que como 88% do meu organismo já eram compostos por sono, a entrada de carne e cerveja na equação faria com que eu dormisse feito um bebê.

Por volta de meia-noite meus olhos já lacrimejavam de sono. Deitei na cama, empurrando a Besta-Fera para o lado e fechei os olhos, me preparando para dormir por semanas. Respirei fundo e sorri. Minha felicidade por saber que eu iria dormir era tão grande que eu estava até mesmo ouvindo músicas dentro da minha cabeça.

tum ts tum ts tum ts
tum tum tum
ts tum ts tum ts
tum tum tum


Virei para um lado, virei para o outro. A música simplesmente não parava. Na verdade, não era uma música, era apenas o som de uma maldita bateria eletrônica. Mais nada. Ou seja, a hipótese de que meus neurônios estavam cantando uma cantiga de ninar para mim não era válida – a não ser que se tratasse de uma versão remixada de “nana nenê, que a Cuca vem pegar”.

tum ts tum ts tum ts
tum tum tum
ts tum ts tum ts
tum tum tum


Comecei a considerar, então, a possibilidade dos meus neurônios estarem promovendo uma rave dentro da minha cabeça. Teriam alugado uma fazenda em algum canto do cérebro e estavam enfeitados com pulseiras e colares brilhantes, dançando e tomando ecstasy. Foi neste momento que me lembrei de ter lido, em algum lugar, que algumas raves duram três ou quatro dias e levantei em pânico, assustado com a idéia de ter que ouvir aquilo até o meio da semana seguinte.

tum ts tum ts tum ts
tum tum tum
ts tum ts tum ts
tum tum tum


Joguei uma água no rosto, mas a música não parou. Pelo contrário, ficou mais alta. Mas, pelo menos, eu tive certeza de que o barulho não vinha do meu cérebro, mas sim da cozinha. Mais precisamente, da janela. Mais precisamente ainda, do prédio ao lado.

tum ts tum ts tum ts
tum tum tum
ts tum ts tum ts
tum tum tum

Então é isso. Os moradores do prédio ao lado estavam dando outra festa. Deve ser delicioso morar naquele prédio, porque eles dão festas de arromba sábado sim, sábado também. Aqui no meu prédio, a única celebração que minha síndica permite são as reuniões de condomínio – que, devido à presença dela, são tão animadas quanto uma missa negra.

Mas, pelo menos, o som não estava alto como nas outras vezes. Aparentemente, a festa estava acontecendo num lugar fechado – talvez dentro do salão – e o volume estava suportável. Decidi voltar para a cama e tentar dormir novamente.

Eu estava justamente na porta do quarto quando alguém, na festa, falou, usando um microfone. Sim, você não leu errado, um microfone.

– Pessoal, a pista está aberta! Vamos dançar a noite inteira!

Eu consegui apenas colocar as mãos no rosto e gemer um “não, Deus, por favor”.

Aí a festa começou de verdade. A música começou a entrar no meu apartamento por todas as portas e janelas. Se eu instalasse um globo de luz no teto do meu quarto, poderia transformá-lo numa boate particular e ficar dançando sozinho com a Besta-Fera.

Deitei na cama e coloquei o travesseiro sobre a cabeça. A maldita música não parava – e, o que era pior, não era uma música de verdade, mas sim Swing the Mood, do Jive Bunny, aquele remix idiota das músicas dos anos 50, que abre todas as festas de casamento de 1988 para cá.

Glenn Miller rolava no caixão, e eu rolava na cama.

E a coisa só piorava. Emendaram com It’s Raining Man, da Gloria Gaynor, seguido de YMCA, do Village People – com direito a todos os convidados gritarem “ÁÁÁi... Em Ci Ei!” junto com o refrão.

E eu ali no quarto, socando a cama e tentando me lembrar se o Pão de Açúcar vendia granadas.

Acho que consegui dar uma cochilada – ou o DJ trocou o disco sem esperar a música acabar –, porque o Village People se transformou naquele lixo de “se ela dança, eu danço”. Eu já não sabia mais se o prédio do lado era palco de uma festa ou de um show do Chatotorix.

Olhei no relógio: 01:35. Tentei fechar os olhos novamente e contar carneirinhos, mas não encontrei nenhum. Fiquei minutos olhando aquele gramado com a cerquinha de madeira, e nenhum carneiro apareceu. Provavelmente estavam todos escondidos, com medo do barulho.

Levantei e fui beber água. No meio do caminho, minha casa começou a tremer com os berros de “tô ficando atoladinha, tô ficando atoladinha”. Aí já era golpe baixo. Fechei as janelas da cozinha correndo para impedir que aquele funk imbecil entrasse no meu apartamento, mas não adiantou. Peguei um cabo de vassoura e fiquei andando pela casa, tentando acertar cada nota musical que entrava pela janela.

Lágrimas de desespero começaram a escorrer pelo meu rosto.

Olhei para a varanda. A única hipótese viável era o suicídio. Me jogaria do apartamento e acabaria logo com tudo. Como eu não conseguiria escrever uma carta de despedida por causa do barulho, deixaria apenas um bilhete pedindo apenas para que o meu túmulo tivesse a inscrição “finalmente ele está dormindo em paz”.

Mudei de idéia quando me lembrei da Tereza. Se ela já foi quase expulsa do prédio por tentar se suicidar, imagine o que aconteceria comigo? Minha síndica seria capaz de encontrar uma maneira de fazer com que eu ressuscitasse apenas para me matar de novo.

Olhei ao redor procurando por alguma idéia. Eis que eu vi, brilhando sobre a mesa, meu mp3. Me lembrei de todas as músicas dos Beatles guardadas lá dentro e a idéia pareceu boa. Voltei para a cama, coloquei os fones de ouvido e liguei.

Meu cérebro respirou aliviado quando Taxman começou a entrar pelos meus ouvidos. Num suspiro aliviado, me deitei de lado e tentei até sorrir (geni e o zepelim mode: on). Não deu tempo. Dormi antes do primeiro refrão.

Acordei as seis da manhã e John Lennon estava no meu ouvido, gritando algo a respeito de ser uma morsa. Desliguei o mp3. Nada de funk, ou Village People. A festa havia acabado. Coloquei os fones de ouvido de lado, virei para o outro lado e dormi profundamente.

Graças aos Beatles, finalmente, I’m Only Sleeping.

15 de setembro de 2009

Válvula de Escape - Parte Final

(leia a parte I aqui)

Mas a minha decisão de não usar mais o banheiro implicaria num rompimento doloroso.

Abri a geladeira e olhei a peça de fraldinha que esperava ansiosamente para ser assada algumas horas depois. Peguei um banquinho, me sentei na frente da geladeira aberta e comecei a conversar com ela. Tentei explicar que nosso relacionamento não teria futuro, que havíamos nos conhecido num momento errado da minha vida. Usei até o clichê “o problema não é você, sou eu” (o que não deixava de ser verdade, já que eu era o dono do banheiro, não ela).

Assim como toda separação, foi dolorido para nós dois. Mas ela entendeu.

Voltei para a sala e me sentei no sofá, me preparando para me alimentar somente de oxigênio durante as próximas horas. Lembrei-me do Batman dizendo que “a fome alimenta o espírito”, mas logo em seguida imaginei o número de banheiros que ele deve ter na Batcaverna e achei hipocrisia demais da parte dele.

Meu organismo, por outro lado, sabendo da minha impossibilidade de usar o banheiro, resolveu contra-atacar, mostrando que quem manda aqui não é o cérebro, mas sim os intestinos. Comecei a ouvir barulhos semelhantes a trovões dentro de mim, anunciando que logo o tempo ficaria feio lá dentro. Malditos Delgado e Grosso.

Olhei para o relógio. Das doze horas, haviam se passado... Quarenta minutos.

Respirei fundo e decidi que o melhor a fazer era me distrair.

Peguei O Poderoso Chefão, deitei no sofá e continuei a ler. Fui atravessando as páginas, mas aquele bando de mafiosos discutindo assassinatos enquanto comiam fetuccines e vitelas começou a me fazer mal. Muito mal. Delgado e Grosso não estavam apenas tentando fazer chover dentro de mim, como estavam tentando arrombar a porta do meu estômago com uma marreta.

Mas aí cheguei no trecho em que o Michael vai jantar com Sollozzo. Eu conheço a história de cor, então sabia o que me esperava algumas páginas adiante. Em poucos minutos, Michael se levanta, vai até o banheiro e encontra uma arma colocada atrás de onde? Da descarga.

Comecei a me contorcer de cólicas no sofá.

Joguei o livro longe e comecei a reconsiderar tudo. A Fnac não era mais opção. Não daria tempo.

Mas o meu banheiro também não era uma opção.

Aposto que na Pré-História, um neanderthal que não conseguisse sair da caverna para usar o matinho seria expulso da tribo, por emporcalhar o lugar em que vivia. Era expulso e humilhado, com direito a ter que abandonar a tribo (enquanto os outros primatas o xingavam de “porco, sujo e nojento!” e jogavam cascas de frutas nele) para viver como um paria, sozinho, no meio da floresta. Ele se tornaria um aleijado social, um excluído.

E eu corria o mesmo risco, já que, obviamente, minha síndica deve ser adepta da mesma filosofia. Se eu usasse o banheiro aqui em casa, logo seria identificado por ela. Seria amarrado e levado para um julgamento no salão de festas do prédio, chamado de porco, sujo e nojento e expulso do prédio. Quase pude ouvir ela falando “não vou jogar você aos porcos porque você é sujo demais para eles”.

Eu seria expulso do prédio – e, minha síndica ainda me obrigaria a pagar o conserto da descarga, mostrando que a única evolução que ela desenvolveu dos primatas foi a financeira.

Comecei a suar. Uma sirene de alerta vermelho começou a tocar no meu corpo, e todos os órgãos do meu aparelho digestivo correram para os postos de combate.

Delgado e Grosso haviam conseguido abrir um buraco na parede do meu estômago e estavam enfiando dinamite lá dentro. Murmurei algo como “se eu comer umas duas maçãs agora à noite, vocês me deixam em paz?” Eles riram.

Bom, mas eu ainda fazia parte da civilização. Eu ainda não havia sido expulso de lugar algum. Assim, resolvi aproveitar as vantagens do mundo moderno para encontrar uma saída. Corri para a frente do computador e acessei o Google. Mas antes que eu pudesse digitar “+ descarga não funciona + intestinos funcionam + socorro!!!!” meu Messenger apitou. Era o Tyler.

Expliquei a situação para ele da melhor forma que podia – suando frio, tremendo – e ele deu um conselho: “jogue baldes de água lá dentro, costuma funcionar”. Tive tempo apenas de digitar “Tyler Bazz, the Sanitary Master!” e corri para o banheiro, abrindo as calças.

Obviamente, não vou entrar em detalhes aqui. Basta vocês imaginarem o bairro de Pinheiros visto de cima e a Ode a Alegria, da 9ª de Beethoven, ecoando por toda a zona Oeste de São Paulo.

Mais recuperado, abotoei a calça e fui para a lavanderia. Enchi um balde de água e atravessei a sala com ele, em direção ao banheiro, e sob os olhares de desprezo da Besta-Fera. Entrei no banheiro, respirei fundo e virei o conteúdo do balde dentro do vaso.

Eu estava de volta à civilização!

Tudo bem, eu ainda não estava de volta ao século 21, pois, cá entre nós, depender de baldes para esse tipo de situação é digno dos pioneiros de filmes do John Wayne, mas o século 17 já era um lugar muito mais confortável que a Pré-História.

Fora que a técnica do balde me daria tempo para agüentar até o técnico checar no dia seguinte, e me colocar novamente no ano 2000. Aliás, como os comentários do post anterior deixaram claro, eu era a única pessoa no planeta que não conhecia a técnica do balde. Shame on you, Rob Gordon, shame on you.

Aliviado, abri a geladeira e expliquei para a fraldinha que havia me precipitado, eu estava apenas com medo de me envolver demais, mas gostaria de tentar. Convidei-a para jantar comigo naquela mesma noite, e ela aceitou.

Fechei a geladeira e, como um adolescente que consegue seu primeiro encontro, dei um pulo de felicidade. Fui tomar banho, passar perfume e me arrumar. Mas, prevendo uma noite inesquecível, já deixei dois baldes de água prontos na lavanderia.

Afinal, não sei se o seguro realmente morreu de velho. Mas, com certeza, ele viveu num lugar limpo e respirável.

13 de setembro de 2009

Válvula de Escape - Parte I

Felicidade.

Uma simples palavra, que, ao longo dos séculos, já foi definida das mais variadas formas, mas nunca de modo satisfatório. Com o passar dos anos, os homens tentaram entender o conceito de felicidade, mas sempre em vão.

Isso porque a felicidade muda de pessoa para pessoa. Para alguns, por exemplo, felicidade é viver sem amarras, sem idéia de qual cama irá acordar no dia seguinte. Para outros, felicidade é a segurança proporcionada por um lar, um emprego, uma família.

Às vezes, a idéia de felicidade muda até mesmo sem precisarmos mudar de pessoa. O sujeito, num dia, é feliz com a esposa e com os filhos; no dia seguinte, descobre que nada o deixa mais feliz que ficar assistindo a filmes sozinho de madrugada. Acontece. As pessoas mudam de um dia para o outro: a felicidade apenas acompanha isso.

Eu? Bem, meu conceito de felicidade mudou radicalmente nos últimos dias. Esqueçam família, amor, romance, dinheiro. Nada disso.

Hoje, felicidade, para mim, é ter a válvula da descarga aqui do meu banheiro funcionando.

Sim, porque aquela máxima “não damos valor a algo até ficarmos sem” pode ser levada à máxima potência quando se trata da válvula da descarga. Ela está lá, todo dia, fazendo a parte dela em manter limpa sua casa (ou, ao menos, o pedaço que lhe cabe neste latifúndio), e sem reclamar. E, cá entre nós, se alguém no mundo tem motivos para reclamar do emprego, é ela.

Até que um dia ela deixa de funcionar. Foi o que aconteceu aqui em casa.

Dia desses, entrei no banheiro para obedecer ao imperioso chamado da natureza. Obedeci às minhas obrigações fisiológicas e, em seguida, apertei o botão para aproveitar as vantagens da civilização e mandar aquilo para um esgoto qualquer.

Nada.

Olhei para o botão e ele olhou para mim, com cara de paisagem. Apertei de novo: nada. Apertei mais uma vez, com força. Nada.

Comecei a pensar no que poderia ter acontecido e como eu poderia contornar a situação. Obviamente, como meus conhecimentos de engenharia hidráulica se resumem apenas a saber que água é algo no estado líquido, desisti 2 segundos depois. Saí do banheiro e fui interrogar a Besta-Fera:

– Você entrou no banheiro hoje?

Ele me olhou com sua tradicional expressão de “o que foi agora?” e vi que, desta vez, ele não tinha nada a ver com aquilo. Mas foi aí que percebi, também, que identificar os culpados não me ajudaria muito. O meu grande problema não era saber o que tinha acontecido, mas sim encontrar um modo de fazer a descarga funcionar. E rápido.

Porque, neste momento, um letreiro se acendeu no meu cérebro, com luzes vermelhas, exibindo a frase “VOCÊ NÃO PODE USAR O BANHEIRO” escrita em letras garrafais.

Entrei em pânico. Como eu iria continuar a ler a minha versão em inglês de O Poderoso Chefão sem poder usar o banheiro? E a matéria sobre a morte do Michael Jackson, que saiu na Rolling Stone, e eu ainda estava guardando para ler depois? Pensei em tentar negociar com o destino (algo como “deixe eu usar o banheiro e eu prometo que não uso metade da sala e a cozinha no lugar” mas não daria certo).

Não, sem pânico. Balancei a cabeça e tentei colocar meus pensamentos em ordem. Sentei no sofá e comecei a considerar minhas alternativas. Com sorte, eu conseguiria alguém para arrumar a descarga, mas somente no dia seguinte.

Até lá, eu precisaria me virar de alguma forma.

Pensei em ir usar o banheiro da Fnac (e a idéia pareceu mais interessante ainda quando lembrei da quantidade de livros e revistas que eles têm ali), mas tudo o que eu não precisava agora era ser mal visto também ali. Eu detestaria perder o status de “um de nossos melhores clientes” que tenho na loja para me tornar apenas o “baixinho cagão”.

Além disso, a distância da minha casa até a Fnac – cerca de oito quadras – era algo a se considerar. Sim, acredito que os homens da caverna faziam suas necessidades fora da caverna em que moravam, atrás de um matinho qualquer. Por outro lado, duvido que eles precisassem descer cinco quadras da Teodoro Sampaio para encontrar o tal matinho.

Abandonei a idéia e decidi ir para o plano B. Não usaria mais o banheiro.

Ficaria doze horas sem comer e sem beber nada.

Era a única saída.

O grande problema não seria passar fome. Sou jornalista, estou mais que acostumado com isso. O problema seria mesmo lidar com o fato de que eu havia almoçado na casa da minha mãe horas antes. O menu? Panquecas recheadas com carne moída.

Isso, sim, seria um problema.

(continua)

31 de maio de 2009

10.000 a.C.

Um dos maiores mistérios da humanidade é precisar qual teria sido o primeiro blog da história, mas isso está prestes a mudar. Recentes descobertas arqueológicas forneceram um grande avanço na resposta desta questão, mas o ponto chave desta discussão aconteceu apenas meses atrás, quando foram descobertos vestígios daquele que pode ter sido o primeiro (ou um dos primeiros) blogs da história.

Numa caverna na região onde hoje se localiza a cidade de São Paulo, arqueólogos e historiadores estão trabalhando para decifrar diversas inscrições e desenhos sobre assuntos diversos, feitas pela mesma pessoa. Apesar do material encontrado ser riquíssimo, porém, seu estado de conservação é péssimo. Assim, restauradores e linguistas já estão trabalhando incansavelmente para recuperar este verdadeiro patrimônio da blogosfera.

De acordo com os pesquisadores, estes textos e desenhos certamente pertencem a um dos primeiros habitantes do continente americano, e servirá como vasto material de pesquisa para que se saiba mais sobre a vida dos homens e mulheres daquela época. Afinal, mesmo tendo analisado somente trechos do material encontrado, os cientistas já foram capazes de coletar e interpretar diversas informações contidas nas inscrições.

O primeiro passo nos trabalhos foi estudar os hábitos do autor das inscrições. Aparentemente, trata-se de um sujeito de cerca de 30 anos, que reside sozinho numa pequena caverna no local (onde hoje se localiza o bairro de Pinheiros). Não foi possível determinar qual ocupação profissional ele exercia dentro da sua tribo, mas acredita-se que era uma espécie de explorador, pois diversos textos mencionam o fato de ele ter trabalhado fora de casa por cerca de 30 horas seguidas.

A única imagem liberada pelos cientistas é justamente o que eles consideram um retrato do autor dos escritos, e que é reproduzida abaixo.


Diferentemente do que se esperava de um homem adulto desta época, o autor das inscrições parece ser impossibilitado de caçar ou preparar seu próprio alimento. Isso porque alguns textos citam o fato de ele se alimentar apenas de carne congelada, que, aparentemente comprava de outras pessoas. Pequenos momentos do seu cotidiano são encontrados, como um texto que menciona um grave acidente que quase lhe custou uma das mãos, quando estaria aquecendo alimentos numa fogueira.

Diversas passagens também apontam uma criatura conhecida como Besta-Fera, mas os pesquisadores ainda não conseguiram concluir se elas se referem a um animal de estimação, ou uma criatura selvagem que caça nas imediações. Os arqueólogos estão mais inclinados pela segunda hipótese, pois os textos que citam este animal (talvez uma espécie de lobo ou tigre) são sempre carregados de violência e destruição. Curiosamente, o animal não parece se alimentar de organismos vivos, mas sim de pedaços de roupa e utensílios caseiros do escritor.

O que mais chama a atenção dos envolvidos na pesquisa, entretanto, é que o autor dos textos aparentemente tem consciência de que, em sua época, o homem estava dando seus primeiros passos na corrida da evolução. Aliás, ele mesmo coloca a evolução em xeque em diversos momentos. A expressão “a humanidade não vai dar certo” é vista em diversas inscrições, como se fosse uma espécie de lema.

Em um dos casos, comentando sobre a música que os membros de sua tribo executam com paus e pedras, afirma que “o planeta deveria dar uma chance aos mamutes, já que eles são claramente mais evoluídos que nós” (outra inscrição encontrada diversas vezes no material é a expressão “ô fase” – a teoria mais usada pelos cientistas seria de que isso estaria ligado diretamente às fases da Lua, o que comprovaria conhecimentos básicos de astronomia).

A análise social contida nos textos e nos desenhos é, segundo os envolvidos na pesquisa, a grande riqueza do material e serve como grande fonte de pesquisa para os hábitos sociais da época. Diversas inscrições, por exemplo, criticam ferozmente os membros de uma casta formada por pessoas que percorriam as cavernas vendendo insistentemente produtos e serviços de todos os tipos. Alguns dos arqueólogos estão convencidos de que este pode ser o primeiro passo do que hoje conhecemos como telemarketing, mas estudos posteriores ainda são necessários para confirmar isso de forma mais acurada.

Outro tema que parece ser um dos preferidos deste que é um dos primeiros cronistas da história é a pessoa encarregada de zelar pela conservação das cavernas. Os cientistas estão entusiasmados com o fato, pois isso provaria que, desde sua aurora, a humanidade teria escolhido síndicos e zeladores para cuidarem da manutenção de grupos de residências.

Mas, aparentemente, o autor dos textos e ilustrações parecia não se dar bem com o síndico de sua tribo. Aliás, o desenho reproduzido neste artigo estava ligado diretamente a um texto que se referia a uma espécie de conselho tribal no qual eram discutidos impostos e limpeza das cavernas. Os historiadores estão convencidos de que a ilustração reproduz o momento exato em que o autor é flagrado pelo síndico tentando escapar do encontro. Referências a “porcos selvagens numa caverna” foram encontradas na mesma parede, mas os pesquisadores ainda não descobriram qual a ligação entre os dois assuntos.

Mas o grande motivo de comemoração dos cientistas é que esta descoberta pode levar à identificação de outros diários da época. Em muitas inscrições são encontrados nomes como A Primeira Parede da Maria, Estimulapedra, Caverna de Impropriedades, Blabla, Adorável, Caverna de Acepipes, Parede do Tyler e Apenas Paredes Rabiscadas.

Outras, por sua vez, identificam o nome de outros escritores da época, como Buchecha, Davis e Negão Escritor. Entretanto, alguns nomes (como Gomex, Dragus e Maximus) vêm gerando debates acalorados entre os pesquisadores, devido às suas claras influências do latim – o que pode mudar, radicalmente, tudo o que sabemos sobre a história ocidental.

Mas em uma coisa, todos concordam: estes nomes podem ser o primeiro passo para provar a teoria de que uma rede de diários pessoais e sociais, mesmo de forma rudimentar, ligava diversas tribos diferentes. Conforme novos diários forem aparecendo, será possível compreender de forma cada vez mais clara como nossos antepassados viviam, seja no aspecto social ou tecnológico.

E estas são apenas as primeiras conclusões que os arqueólogos e cientistas tiraram a partir das análises do material. Certamente, com o passar do tempo, outras conclusões serão feitas e apresentadas ao grande público, que poderá finalmente, conhecer um pouco mais sobre nossos antepassados, pelas palavras dos próprios.

(OK. Caso queira ver a história REAL da ilustração, clique aqui)

22 de maio de 2009

A Varanda Sistina

Há algumas semanas, meu prédio andava meio alvoroçado devido a um comunicado afixado na parede do elevador, no qual a Síndica Mafiosa, como boa suserana do prédio, comunicou a todos vassalos que moram ali que as grades das varandas seriam pintadas.

Até aí, Ok. Sou a favor de morar num prédio que não pareça um cortiço, especialmente com a grana que eu pago de condomínio ali. Na verdade, o valor do condomínio é bastante injusto, já que o prédio não tem nada. Eu sei que tem uma sauna (justamente onde ela guarda seus porcos selvagens), mas eu não sei onde é. Um dia vou criar coragem e perguntar a ela se é possível eu pagar o condomínio sem a sauna.

Mas, voltando à pintura. Eu já tinha visto o aviso no elevador, mas não dei muito atenção. Dias depois, eu já havia me esquecido completamente disso. Até o meio da semana passada, quando eu, entrando no prédio, dei de cara com ela (e seu famigerado cigarro pendurado no canto da boca).

Tentei desviar o caminho, mas não consegui. Ela havia me visto.

– Oi, eu disse, timidamente.

– NÓS VAMOS PINTAR A GRADE DO SEU APARTAMENTO, ela afirmou, deixando claro que apenas os fracos usam expressões como “oi” e “boa noite”.

– Ah... É... Vamos?

– VAMOS.

– Mas... Agora?

Antes que ela pudesse responder, a cinza do cigarro dela caiu, mas não bateu nas roupas que ela usava. Provavelmente, por medo. Se você é novo aqui no blog, acredite: por onde minha síndica anda, os cães começam a latir, os cavalos relincham e os gatos fogem em disparada. Ou seja, não sei ao certo se ela é o anti-Cristo, mas, caso ela se candidatasse ao cargo, conseguiria a vaga com uma entrevista de dez minutos–- o fato dela aparentemente não piscar muito certamente ajudaria também.

– NA PRÓXIMA SEMANA.

– Ah. Bom, sem problemas. É só me avisar antes.

– VOCÊ JÁ FOI AVISADO.

Uma gota de suor desceu pelas minhas costas.

Percebi que a conversa estava entrando perigosamente perto de algo como “VOCÊ NÃO VIU O AVISO NO ELEVADOR?”, o que levaria, mais cedo ou mais tarde, a algo como “EU NÃO VEJO VOCÊ NAS REUNIÕES DE CONDOMÍNIO” e ao meu conseqüente fuzilamento na garagem e o desaparecimento do meu corpo.

Murmurei algo próximo de um “sim, claro” e me despedi, o mais respeitosamente que consegui. Subi para o meu apartamento, tranquei a porta e evitei acender as luzes ou fazer qualquer tipo de barulho por cerca de dois dias.

Bem, dias desses, enquanto eu entrava no prédio, um dos porteiros me avisou, no mais puro idioma portês:

– Turadoseutamentoémanhã!

– Quê?

– Turadoseutamentoémanhã!

– A pintura do meu apartamento...

– Manhã!

– É amanhã. Ok. Escute, tem como o meu ser pintado primeiro? Assim, o cara pinta enquanto eu ainda estou aqui.

– Simsorróbi.

Dia seguinte, o interfone toca e o porteiro balbucia algo que nem ele deve ter entendido. Calculei que deveria ser o pintor – afinal, ele não interfonaria para dizer que um ladrão está subindo – e já deixei a porta aberta. Minutos depois, um rapaz de cerca de vinte anos, com pincéis, latas de tintas e tudo aquilo que você pode imaginar na mão de um pintor entra no apartamento.

– Bom dia, ele disse, em português claro e sem sotaque. Quase chorei de alívio.

– Bom dia.

– O serviço vai demorar cerca de duas horas, tudo bem?

– Tudo. Você quer um café?

– Não, obrigado.

Jonas, o fantasma que mora comigo e não gosta de muita agitação em casa, calçou um par de chinelos e, falando que ia tomar um pouco de Sol na rua, atravessou a parede e foi embora.

O pintor, por sua vez, foi até a varanda e fechou a porta de vidro, por causa da Besta-fera. Eu fui para o computador, tentando não olhar para o relógio. Toneladas de coisas para fazer no trabalho, mas entre enfrentar meu chefe e minha síndica, meu chefe é nível practice, enquanto a síndica é chefe de fase no nível hard.

Deixei ele trabalhando ali e fiquei conversando com Sra. Gordon pelo computador, enquanto a Besta-fera ficou rodando por ali. Quando percebi, já havia se passado meia hora. Foi aí que eu tomei a infeliz decisão de olhar para o lado e conferir o progresso do trabalho.

Tudo o que eu vi foi uma bunda. O pintor estava de costas para mim, abaixado, e com as calças uns 30 paralelos abaixo da linha do Equador. Minha varanda não possuía mais uma grade ou dois vasos de flor pertencentes à senhora Gordon. Minha varanda era apenas o palco para a bunda do pintor desfilar toda sua branquidão, e umas duas espinhas.

Olhei para a Besta-Fera. Besta-fera olhou para mim, com cara de náusea e um olhar que dizia “porque não podemos ter sucrilhos no café da manhã, como as outras famílias?”. Pedi desculpas silenciosamente e continuei falando com a Sra. Gordon, tentando ignorar... Aquilo.

Mas a minha fé na raça humana é idiota e persiste. Logo, eu comecei a pensar que tudo isso aconteceu apenas porque ele estava abaixado, e a calça escorregou. Coitado, o cara esqueceu o cinto hoje em casa, deve ter perdido a hora. Não é culpa dele. Poderia acontecer com qualquer um. Vou oferecer café novamente a ele. Talvez uma água.

Olhei para a varanda.

Ele estava em pé. Ele não estava abaixado, mexendo na tinta. Ele estava totalmente em pé, pintando o peitoral da varanda, aparentemente orgulhoso do fato de que alguns de seus antepassados eram conhecidos como homo erectus. Executava seu trabalho calmamente, com metade do bundão exposto e provavelmente aproveitando o ventinho do oitavo andar.

Engraçado como são as coisas. O papa tinha o Michelangelo, e eu tenho um cara com a bunda de fora dentro do meu apartamento.

Besta-fera levantou, olhou para mim desolado e, ainda com o olhar, sussurrou algo como “estou no quarto, me avise quando a varanda voltar a ser um lugar normal” e me deixou ali sozinho.

Abri as gavetas e procurei qualquer coisa que eu pudesse usar como cabresto, mas mudei de idéia. Se o pintor me visse tentando digitar com uma das mãos ao mesmo tempo em que tentava segurar um envelope da Tim ao lado do rosto com a outra, eu provavelmente viraria um dos assuntos preferidos do prédio pelas próximas semanas – afinal, ele vai pintar a grade de todos os apartamentos.

Sendo assim, fechei um dos olhos, cortando totalmente a minha visão periférica, e continuei conversando com Sra. Gordon. Com o olho fechado, comecei a me concentrar no rosto e no sorriso dela para manter minha sanidade, enquanto conversava com ela.

Vale dizer que desde o colegial eu tenho esta habilidade. Durante as aulas de química, eu apoiava o rosto nas mãos de forma a cobrir um dos olhos e, enquanto aparentemente eu estava prestando na aula, na verdade, eu estava dentro do olho fechado, secretamente organizando minhas coleções de quadrinhos ou de discos de vinil (velho mode: on).

Assim, aos poucos, eu me coloquei dentro de um universo que continha apenas a Sra. Gordon, e fiquei ali, naquele mundo quentinho, perfumado e confortável. Aos poucos, estava livre de qualquer resquício daquelas nádegas no meu cérebro. Eu vivia num mundo melhor e mais justo, sem síndicas assassinas e totalmente desprovido de pintores com a bunda de fora.

– VALDIR!

Dei um pulo, ao mesmo tempo em que ouvi a Besta-fera caindo da cama.

Olhei para a varanda assustado e o pintor estava debruçado na varanda, gritando com algum companheiro que, provavelmente, estava a três quadras do prédio.

Faça as contas: calças caindo + pintor debruçado = aula de anatomia.

– VALDIR, PRA QUAL APARTAMENTO EU VOU AGORA?

O Valdir (que certamente tinha uma vista mais agradável que a minha) respondeu alguma coisa e o pintor voltou à posição normal, onde mostrava apenas metade da bunda. Abriu a porta da varanda.

– Acabei.

Pensei em responder algo como “acabou com meu dia, também”, mas mudei de idéia. Afinal, ele está aqui por causa da síndica, melhor apenas aceitar os fatos e tentar continuar o dia. Fui até a porta, agradeci e ele foi embora.

Imediatamente, voltei para o computador, abri o Word e digitei uma carta sobre a qual tenho pensado nos últimos meses. No dia em que eu me mudar daqui, vou imprimir e deixar numa das gavetas do guarda-roupa. Mas vocês já podem ler com antecedência:

"Caro (a) locatário (a) deste apartamento, conheça o Top 5 Coisas Essenciais para Sobreviver neste Prédio:


1. A Síndica é Deus. Se ela falar, obedeça. Se ela ao menos sugerir com o olhar, obedeça.

2. Jamais, em hipótese alguma, deixe de comparecer nas reuniões de condomínio.

3. Caso você descubra onde a sauna do edifício fica, não entre lá sem acompanhamento policial.

4. O elevador está sempre no décimo quarto andar. Sempre. Se você descer para buscar uma pizza, quando voltar para o hall o elevador estará novamente no décimo quarto andar. Não existe motivo aparente para isso. Aceite o fato e suba de escadas.

5. Caso alguém venha pintar a grade da sua varanda, não observe o trabalho do pintor. Aliás, se possível, não esteja em casa na hora que isso acontecer."

31 de março de 2009

Diretas Já!

Semana passada, minha síndica foi reeleita como entidade máxima do prédio onde eu moro.

De acordo com o que eu consegui apurar junto aos porteiros, ela foi reeleita com 45% votos “sim” e 54% votos “sim, senhora”.

Apenas 1% do prédio (o que equivale, arredondando, a um morador) não estava presente na reunião e, consequentemente, não votou.

E, pelo sorriso que ela me deu ontem, na hora do almoço, ela já sabe quem é este 1%.

É. O Cóixxxmoxxx não perdoa. O "Chupa Rob" se aproxima a passos largos.

Para os leitores que estavam com saudade do Top 5, deixo, então o Top 5 coisas que irão acontecer comigo nos próximos dias (em ordem cronólogica):

1. Serei aprisionado no depósito de limpeza do prédio, onde passarei dois dias aguardando julgamento em meio a vassouras e frascos de desinfetante.

2. Serei levado acorrentado ao salão de festas e, numa reunião de condomínio extraordinária, serei julgado e condenado como preso político.

3. Serei enforcado num guindaste nas obras do metrô ao lado de casa, e meu corpo ficará dependurado durante dias, como exemplo para todas as pessoas das redondezas que pensam em ameaçar o poder da síndica.

4. Meu apartamento será queimado e salgado, para que nada nunca mais possa nascer ali. Besta-fera será condenada como cúmplice e deportada para o exterior.

5. Após quase uma semana servindo de alimentos para os corvos, meus restos serão jogados aos porcos selvagens que a síndica cria na sauna. Minha cabeça será exposta no alto do portão. Meu nome será proibido de ser pronunciado no edifício.

2 de janeiro de 2009

A Lista de Schindler Gordon

Meu prédio está sofrendo com ataques de pernilongos. Em quase todas as noites da última semana fui obrigado a me levantar no meio da madrugada, acender a luz e ficar estraçalhando mosquitos, enquanto a Besta-Fera se escondia embaixo da cama, para não ser incomodado e continuar dormindo. Aí, no dia seguinte, tenho que ficar limpando as marcas de sangue das paredes – marcas nojentas da batalha da noite anterior. Em algumas manhãs, a impressão que tenho é que foi cometida uma chacina dentro do meu quarto. Para se ter uma idéia, se o Grissom entrasse aqui, ele teria que ligar para a central dez minutos depois e pedir para trazerem todo o Luminol que tivessem estocado.

E esta tem sido minha rotina nos últimos dias.

Entretanto, os pernilongos não têm incomodado apenas a mim, mas também aos outros moradores do prédio. E isso inclui minha síndica Brick Top. E incomodar minha síndica não é algo muito inteligente de se fazer. Talvez os mosquitos tenham achado que, por serem pequenos demais para serem jogados aos porcos selvagens que ela cria na sauna, estariam a salvo da ira dela.

Ledo engano.

Quarta-feira, último dia do ano. Estou entrando no prédio, no meio da tarde, e encontro minha síndica e mais três moradores conversando no hall de entrada. Antes mesmo de me aproximar deles, reparei que ela segurava um objeto de plástico branco nas mãos. Conforme fui me aproximando, vi que o negócio parecia uma raquete de tênis de brinquedo – mais ou menos como aquela raquete que as pessoas colocam o controle do Wii, para jogar tênis.

Passei rapidamente por eles, e fiquei esperando pelo elevador, que estava no 14º andar. Obviamente, foi inevitável ouvir trechos da conversa.

– ISSO AQUI NÃO FAZ SUJEIRA, disse minha síndica, com seu característico tom de voz gélido.

– Mas funciona mesmo?, perguntou um dos moradores.

– SIM. EU TESTEI ONTEM, NA MINHA CASA. OLHEM, ALI ESTÁ UM. VOU MOSTRAR A VOCÊS.

Não agüentei e virei para trás, tanto por curiosidade como por receio de que ela estivesse falando de mim. Felizmente, ela estava andando na direção contrária de onde eu estava, olhando para o alto. Após caminhar uns três metros, ela ergueu a raquete, como se fosse sacar uma bola imaginária e deu uma violenta raquetada no ar.

CRAC!

Demorei alguns momentos para perceber que ela não tinha quebrado nada com a raquete e sim que o barulho tinha saído do objeto. Ela olhou para os moradores com ar de satisfação e disse:

– VIRAM?

Eles não responderam. Percebendo que precisavam de uma demonstração mais eficiente, ela olhou para o chão, procurando por algo próximo aos seus pés. Subitamente, abaixou e pegou algo com as mãos.

– O MOSQUITO ESTÁ MORTO. FOI ELETROCUTADO.

Os três moradores sorriram e balançaram a cabeça uns para os outros. Foi aí que percebi que aquilo não era uma mini-reunião de condomínio, mas um conselho de guerra. Aparentemente, no jogo de War que o prédio vem travando com os moradores, minha síndica tirou, na hora do sorteio dos objetivos, a carta “Eliminar os exércitos voadores”.

Graças a Deus, meu elevador chegou e entrei correndo nele.

De lá para cá, não matei mais nenhum mosquito. Pelo contrário, mudei de lado e me tornei uma espécie de Oskar Schindler dos pernilongos. Estou oferecendo asilo a todos os mosquitos que aceitem ficar somente na minha varanda e não me picar. E ainda estou escrevendo uma carta para as autoridades, informando que crimes de guerra – que claramente ferem a Convenção de Genebra – vêm sendo cometidos no meu condomínio.

Espero que o seu Ano Novo tenha começado de forma menos violenta que o meu. E são os votos deste blog que você tenha um 2009 muito melhor que o dos mosquitos do meu prédio. Se bem que isso não parece ser muito difícil.


14 de julho de 2008

Infernal Affairs

Eu nunca soube quando o tal do inferno astral começava. A teoria diz que o inferno astral é antes do seu aniversário, ou seja, não específica quando ele se inicia. É uma regra totalmente mal-feita, da mesma forma que aquela que fala que os Gremlins não podem comer depois da meia-noite. OK, eles não podem comer depois da meia-noite, mas podem voltar a comer a que horas? Porque duas horas da manhã é depois da meia-noite, mas é antes da meia-noite do dia seguinte.

Em menos de dois meses (10 de setembro), este blogueiro completará mais uma volta ao Sol. Sabendo disso, meu inferno astral anda de vento em popa. Na verdade, ele não começou agora. Inclusive, eu acredito que o meu inferno astral se aproveita do fato de que a lei mal escrita e diz apenas que ele “é antes do aniversário” e começa sempre em 11 de setembro do ano anterior. Mas, de uns dias para cá, ele tem mostrado que, em 2008, ele pretende bater todas as metas e quebrar todos os recordes pré-estabelecidos.

Logo de cara, ele deixou o seu cartão de visitas com o seu nome, telefone para contato e o logotipo da TVA. Sim, nada foi resolvido ainda e hoje eu resolvi declarar guerra. Mais tarde eu volto com um boletim direto do front de batalha. Segundo, ainda na minha política de reduzir gastos, troquei o Virtua pelo Speedy. O problema é que, também na minha política de reduzir gastos, eu desliguei minha linha telefônica que não funcionava. Fiz isso aproximadamente 2 horas antes de contratar o Speedy, apenas para descobrir, logo em seguida, que precisaria da linha.

Resumindo, tive que desligar minha linha apenas para ter que religá-la. E, claro, ela continua não funcionando – ou seja, em breve as paredes da minha casa terão que ser arrebentadas, porque já me falaram que é necessário trocar toda a fiação. Com isso, eu continuo usando o Virtua e fico um modem do Speedy no colo até resolver isso. E como provavelmente arrebentar paredes não é algo barato, então eu vou ter que gastar uma fortuna para poder economizar dinheiro. Ô fase.

Não satisfeito com isso, meu inferno astral resolveu organizar um motim de aparelhos eletrônicos. Primeiro, meu computador se recusava a me obedecer: o diagnóstico é que a fonte interna está com problemas, o cooler não gira mais e ele reconhece somente um dos dois pentes de memória. Para melhorar tudo, meu DVD cismou de que só fecha a gaveta com o disco quando eu coloco algo que ele também quer assistir. Se eu quero assistir a um filme ou uma série que ele não gosta, ele simplesmente não fecha a gaveta e se recusa a me obedecer.

E isso é apenas o dia-a-dia do meu inferno astral, que, tenho certeza, está preparando algo grande por aí. Semana passada, por exemplo, ele deu mostras disso, ao testar um plano. Eu estava no trabalho e meu celular tocou. Era um número de celular que eu não conhecia. Meu sentido de Aranha começou a apitar feito louco, mas atendi.

– Alô?

– ROB?

– Sim.

– TUDO BEM?

– Quem está falando?

– BRICK TOP. SUA SÍNDICA.

Deus do céu.

– Como vai a senhora, tudo bem?

– NÃO. SE ESTOU LIGANDO PARA VOCÊ, É PORQUE NADA ESTÁ BEM.

– ....

– ROB?

– Desculpe, estou aqui. Apenas não sei o que dizer. Estou apavorado e tenho medo de falar algo errado.

– ESTOU COM UM PROBLEMA NO PRÉDIO.

– Olha, eu peço desculpas antecipadamente por isso e me coloco a disposição no que eu puder ajudar.

– ÓTIMO.

– Só para referência futura... “Ótimo” para qual?

– TALVEZ PARA OS DOIS.

Ai.

– O APARTAMENTO 41 ESTÁ COM UM VAZAMENTO. O APARTAMENTO 51 ESTÁ COM UM VAZAMENTO.

Bem, como eu moro no 81, ainda faltam três andares.

–...

– ROB?

– Ainda estou aqui. Só estou mudo e com medo de onde isso vai acabar. Mas ainda estou aqui. Prometo.

– NÃO CONSEGUIMOS ENTRAR EM CONTATO COM O APARTAMENTO 61. E O MORADOR DO APARTAMENTO 71 ESTÁ VIAJANDO.

– E eu sou o morador do apartamento 81.

– EXATO. E O SEU APARTAMENTO TEM UM HISTÓRICO DE VAZAMENTO.

– Tem?

– SIM. COM A ANTIGA MORADORA. O APARTAMENTO DELA TEVE UM VAZAMENTO. FOI LOGO ANTES DE ELA... SE MUDAR.

Medo. Por que será a frase dela teve essa pausa no final? O que será que aconteceu com a moradora? Melhor perguntar isso para o Jonas mais tarde.

– Bem, o que eu posso fazer?

– VIR AQUI.

– Claro. Que horas você precisa de mim?

– AGORA.

– Não precisa se preocupar. É uma honra ajudá-la. Eu chego aí em 10 minutos.

Subi a Teodoro esperando pelo pior. Eu tinha certeza de que abriria a porta do apartamento e quase me afogaria. O Jonas estaria deitado numa bóia lendo o jornal de esportes, e a Besta-fera estaria com bóias de braço e pés-de-pato brincando na água. Besta-fera! Foi ele, tenho certeza! Apertei o passo, certo de que entraria em casa e encontraria uma parede quebrada, o cano todo mordido e uma marreta escondida sob a minha cama. Desgraçado!

Cheguei ao prédio e dei R$ 50,00 para o porteiro.

– Não avise a síndica que eu cheguei ainda. Deixe eu subir primeiro e ver o estrago.

– Mas a gente não sabe se é no seu apartamento.

– Acredite em mim. É no meu apartamento. Meu apartamento tem um histórico de vazamento e eu tenho um histórico de me foder. É no meu apartamento, tenho certeza. E aposto que meu cachorro tem algo a ver com isso. Ou ele, ou o cara da TVA.

– Ah sim. O cara da TVA veio aqui um dia, mas ele não pôde entrar.

– Eu não quero falar sobre isso.

Entrei no elevador e subi até o oitavo andar, já pensando em gastar tudo o que sobrou do meu salário em rodos e baldes. Sai do elevador. O hall estava seco. Abri a porta do apartamento e...

Nada.

Apenas a Besta-fera me olhando com aquela cara de “o que você está fazendo aqui a essa hora?”. Devolvi um “a gente já conversa” com o olhar e fui até o banheiro. Seco. Fui até a cozinha. Seco. A campainha tocou. Abri a porta, era o zelador.

Ele entrou e olhou todas as paredes.

– É. Parece que não é aqui. Deve ser no 71.

– Chup... Quer dizer.. Puxa, que coisa.

– Bem, é só isso. Obrigado, Rob.

– De nada. Não se esqueça de avisar a síndica que eu fiz minha parte, por favor.

Vocês devem estar pensando: “nossa, que sorte, não é no seu apartamento”. Sim, essa é a uma maneira de ver as coisas. É uma maneira errada, mas é uma maneira. Na verdade, isso foi apenas um recado do Inferno Astral, para deixar claro uma coisa: “Rob, estou de olho em você”.

Com isso, segue o Top 5 coisas que têm chance de acontecer nas próximas semanas:
1. Meu prédio vai explodir. Os únicos sobreviventes serão eu a síndica – que terá certeza de que a explosão foi no meu apartamento.
2. Minha namorada vai fugir com o cara da TVA.
3. Vou descobrir que tenho com uma doença incurável e raríssima, que me impedirá de comer carne e provavelmente vai me colocar na capa da Veja como aberração do ano.
4. Serei atingido na rua por um meteoro que resolveu aterrissar na Teodoro Sampaio.
5. A Coca-Cola irá falir e sobrará apenas a Pepsi, que reinará no planeta. A primeira ação da empresa será comprar todas as empresas de TV a cabo e fechá-las, deixando apenas a TVA em atividade.

23 de abril de 2008

Shake it, Baby, Shake it!

Cara Síndica Brick Top:

Como a senhora deve ter ouvido falar, alguns estados do país sofreram um abalo sísmico no dia de ontem. Acredito que isso não tenha ocorrido no seu apartamento, já que é do conhecimento de todos que até os terremotos temem a senhora. Mas, como você já deve ter sido avisada pelos porteiros do que aconteceu e, acredito, está à procura dos responsáveis, gostaria de esclarecer alguns pontos.

No momento que o abalo foi registrado, eu não estava em casa. Logo, se em algum momento a senhora desconfiou que o tremor foi decorrente da altura que eu escuto meus CDs de heavy metal na sala, já afirmo que não tenho absolutamente nada a ver com isso. Se for necessário, conseguirei o depoimento de cinco pessoas que podem confirmar que eu estava na redação, neste momento. Mas não posso provar a inocência da Besta-fera no caso (apesar de acreditar nela), mesmo porque, em se tratando de qualquer evento que envolva a senhora, a regra é cada um por si.

Gostaria de aproveitar e afirmar que estas minhas declarações tem o intuito de municiar a senhora com informações, para otimizar seu tempo e tornar sua investigação mais dinâmica. Em momento algum fui guiado pelo medo que tenho da senhora.

Acredito que falo em nome de todos os moradores do nosso querido prédio quando afirmo que anseio por resultados positivos de sua investigação. E, assim como os outros condôminos, ficarei satisfeito ao saber que o responsável por tal afronta à paz do edifício foi jogado aos porcos selvagens que a senhora cria na sauna.

Confiante de que a senhora, como sempre, encontrará os responsáveis, coloco-me respeitosamente à sua disposição para qualquer coisa que precisar.

Sem mais para o momento,

Rob Gordon

8º Andar

P.S. – A senhora reparou que, ultimamente, o gordinho do terceiro andar está andando com roupas de ginástica? Talvez seja o caso de investigar se os exercícios dele (pulos, flexões e corridas) não estão interferindo com a acomodação do solo em nosso bairro.

29 de março de 2008

Contagem Regressiva

Eu sei que já disse isso aqui antes, mas morro de medo da minha síndica Brick Top. E esse temor vem aumentando cada vez mais. Primeiro, porque eu tenho certeza de que ela joga as pessoas que não obedecem aos regulamentos do prédio para os porcos selvagens que ela cria na sauna. Segundo, porque, de uns dias para cá, sinto que estou sendo seguido, já que aonde quer que eu vá, dou de cara com ela e aquele sorriso de mafiosa russa que ela tem.

Outro dia, por exemplo, precisei pedir para alguém resolver um problema do hall do meu andar, cujo teto estava parecendo um set de Malditas Aranhas 2. Entrei na portaria e cumprimentei o zelador:

– Oi, tudo bem?

– Tudo, e com o senhor?

Antes que eu pudesse responder, ouvi atrás de mim:

– OLÁ.

Senti um arrepio na espinha. A temperatura da guarita caiu uns 15 graus. O cheiro de morte invadiu o ambiente. Olhei para trás e dei de cara com ela.

– É... Oi.

– POSSO AJUDAR?

– Não... Na verdade... É... Tem umas aranhas lá no hall do oitavo andar... Não são muitas, são umas 30, só. Aliás, elas não estão incomodando ninguém. Estava só comentando mesmo. Bom, o papo está bom, mas...

– ARANHAS?

– É. Aranhas. Desculpe.

– VOU PEDIR PARA QUE ELAS SEJAM MORTAS.

A temperatura caiu mais cinco graus quando ela disse a palavra “mortas”. Aproveitei que ela saiu da portaria para procurar o coitado do faxineiro e passar a ordem de execução, e saí correndo dali para rua.

E isso foi apenas um exemplo. Basta eu colocar o pé no prédio que dou de cara com ela. Mas essa semana foi pior. Desde o começo do mês eu entrava no elevador e dava de cara com a convocação para a reunião de condomínio. Eu, obviamente, nem olhava a data que iria acontecer, porque não iria mesmo. Primeiro, porque se eu quisesse estreitar os laços com os meus vizinhos, eu mandava tirar a porta do meu apartamento. Segundo, porque o que decidirem ali, para mim, está bom. Terceiro, porque tenho medo dela sim, então eu duvido que diria qualquer coisa que não fosse “sim. senhora” na reunião.

Quinta-feira à noite. Fui jantar com um amigo meu e voltei para casa pouco depois das 22:00. Entrei no prédio, carregando uma garrafa de Coca. Passei pela portaria e vi um movimento no salão de festas. Vale dizer que até então eu não sabia que meu prédio tinha um salão de festas. Curioso, estiquei o pescoço pela janela e dei uma espiada.

Algumas pessoas sentadas em cadeiras, com papéis nas mãos. Reconheci uns dois moradores. Todos olhavam para um determinado ponto do salão. Arrisquei olhar naquela direção e dei de cara, obviamente, com ela, falando alguma sobre as vagas da garagem. O problema é que ela estava falando com os outros condôminos, mas os seus olhos estavam apontados diretamente para os meus, como duas lanças de gelo.

Na mesma hora me escondi atrás de uma planta e fui correndo para o elevador. Tudo o que eu queria era sumir dali antes que ela viesse tirar satisfações comigo. Coloquei o pé no hall de entrada. O elevador estava no 14º andar. O último. Apertei o botão e fiquei esperando, sentindo o pânico crescer a cada segundo.

13.

12.

11.

Comecei a ouvir vozes. As pessoas estavam saindo do salão de festas. A reunião tinha acabado. Isso significava que ELA estava saindo do salão de festas. Comecei a apertar o botão com força. Eu sei que isso não funciona, mas o medo falou mais alto. Comecei a forçar a porta do elevador. Caso ela abrisse, eu me jogaria no fosso e acabaria logo com tudo. Pelo menos seria mais limpo.

8.

7.

6.

As vozes começaram a ficar mais altas. Comecei a me preparar para, a qualquer momento ouvir, atrás de mim, a frase “VOCÊ NÃO COMPARECEU À REUNIÃO DE CONDOMÍNIO” com o mesmo calor e afeto de uma lápide. Pelo volume dos sons, as pessoas estavam quase na porta do hall. E eu ali, indefeso, armado somente com a minha garrafa de Coca Zero. Merda de elevador!

4.

3.

2.

2.

2.

Parou! Parou no segundo andar! Filha da puta! Solta essa merda! Comecei a chacoalhar a porta do elevador em pânico. Ouvi a voz dela próxima a portaria, falando alguma coisa com o zelador. Provavelmente, estava avisando que me jogaria aos porcos da sauna e que alguém teria que recolher meus restos ainda pela noite. Merda de vida. Merda de porcos.

1.

T.

Abri a porta do elevador. Estava vazio. Ou seja, parou no segundo andar de sacanagem mesmo, só para me complicar. Entrei correndo, mas antes que eu conseguisse fechar a porta, ouvi alguém gritar do hall:

– Segure o elevador!

Bom, era um tom de voz humano. Não parecia ser a síndica. Segurei a porta e coloquei um olho (e nada mais que isso) para fora do elevador. Era uma mulher de uns 40 anos que eu nunca vi na vida.

– Eu vou subir também!

Abri a porta do elevador. Ela entrou e apertou o botão para o quinto andar. Eu apertei o 8 e encostei na parede. Qualquer movimento em falso, eu racharia a cabeça dela com a garrafa de Coca. Ela se virou para mim:

– Você não foi à reunião?

– Não eu sou jornalista trabalho até mais tarde gostaria muito de ter ido mas não consegui mas juro que não foi por culpa minha e prometo que na próxima eu vou de qualquer jeito porque sempre quis participar disso porque acho que é importante.

– Quê?

– É... Não. Não fui.

– Ah, não perdeu nada. Foi chata.

Ela está me testando. Só pode ser isso. Deve ser uma emissária da síndica. Os tentáculos dessa psicopata estão se alastrando pelo prédio! Se eu concordar com o que ela disse, o piso do elevador vai se abrir e eu vou ser jogado no fosso. Provavelmente, os porcos estão lá embaixo hoje. Ela continuou me olhando. Está me analisando, tenho certeza. Está observando minhas reações para descobrir a minha opinião sobre as reuniões. Maldita!

Comecei a entrar em pânico novamente. Não sei mais quanto tempo eu agüentaria essa situação. Mas, do pânico, veio a coragem. A vontade e o ímpeto de resolver isso de uma vez por todas. Tenho que ser homem e dizer, de uma vez por todas, que não vou à reunião de jeito nenhum. Tenho que segurar essa mulher pelo colarinho e dizer que “pode avisar sua chefe que essas reuniões são um saco, eu não vou mesmo e se ela quiser me jogar aos porcos, não estou nem aí. Morro, mas não abro mão das minhas convicções!”.

– Choveu bastante hoje à tarde, não?, foi tudo o que eu consegui dizer.

– Choveu. Ah, o meu andar. Boa noite.

– Boa noite.

E subi sozinho até o oitavo andar. Esperando, a qualquer minuto que o piso se abrisse, que o elevador fosse explodido ou que eu começasse a sentir cheiro de gás vindo da tubulação. Nada. Quando o elevador chegou ao oitavo andar, abri a porta com violência usando o pé, temendo que ela estivesse no hall me esperando com uma faca. Nada.

Entrei no apartamento correndo e tranquei a porta, aliviado. Besta-fera dormia e Jonas (se você é novo aqui, Jonas é o fantasma que subloca meu apartamento) estava deitado no sofá, vendo futebol. Á sua frente, uma caixa de bombons. Vazia.

– Você foi à reunião de condomínio?, ele perguntou.

– Óbvio que não. Eu estava trabalhando.

– Ah.

Não foi um “ah” qualquer. Foi um “ah, você tem medo dela, esqueci”. Ignorei o comentário e fui jantar. Enquanto esquentava a lasanha, pensei no (a) meu (inha) vizinho (a) Jasmim. Ele (a) se mudou semana passada do prédio. Seu apartamento está vazio. O interessante é que ninguém o (a) viu saindo do prédio. Nenhum dos porteiros. Ninguém. Seus móveis não estão ali, mas ninguém viu um caminhão de mudanças. Ninguém viu nada, ninguém sabe de nada. E os porcos ali, na sauna.

Eu sei que não chego mais perto da sauna de jeito algum – os barulhos que vêm lá de dentro são assustadores – e não coloco mais os pés na garagem do prédio. E, na próxima reunião de condomínio, vou pedir folga do trabalho e chegar umas 3 horas antes.

E vocês já sabem: se eu ficar muito tempo sem postar é porque deu merda. Mandem a polícia procurar pelos meus restos na sauna.

Em tempo, deixo vocês com uma pequena homenagem a minha síndica, numa tarefa quase impossível para mim: o Top 5 filmes modernos de máfia:

1. O Poderoso Chefão – a trilogia inteira. Obra-prima. Revejo (e releio o livro) pelo menos uma vez por ano. Sim, eu sei que o III é mais fraco, mas ainda assim, sou mais um Poderoso Chefão fraco que o melhor filme do Chuck Norris. Meu preferido? Difícil dizer, mas fico com o primeiro. Apesar de achar o II muito mais filme.

2. Era uma Vez na América – na verdade, ele só perde para o Chefão porque são três filmes contra um, é covardia. E também porque não é um filme para qualquer pessoa. Mas também é um daqueles obrigatórios, que todo vertebrado tem que ter em casa.

3. Os Bons Companheiros – O Poderoso Chefão do Scorsese. Lembro que na primeira vez que assisti ao filme, quando Ray Liotta fala, logo no comecinho: “As far as i can remember, I always want to be a gangster”, eu respondi em voz alta: “porra, eu também!”. Foi amor à primeira vista. E até hoje tenho medo do Joe Pesci no filme.

4. O Pagamento Final – Sei que não é exatamente sobre máfia (é mais sobre tráfico), mas tem Pacino. E Pacino consegue deixar até mesmo Aristogatas com cara de filme de máfia.

5. Os Intocáveis – O que é o De Niro, gordo feito uma porca, fazendo Al Capone? O que é aquela cena do taco de baseball? O que é aquela cena da escadaria? De Palma, você está devendo um filmaço como esse há anos.

19 de fevereiro de 2008

Na Lona

Então, é isso. Finalmente aconteceu.

Após meses de invencibilidade, acostumado com os louros e medalhas, finalmente estou caído, ouvindo a contagem do juiz, enquanto, ao fundo, ouço a torcida comemorando. O campeão está na lona, grita o povo, celebrando o fato de que ele é um homem como outro qualquer. Ele é humano. A última porrada ainda dói, o sangue escorre pelo meu rosto e tento, em vão, colocar a vista em foco antes de tentar me levantar novamente. E a contagem continua.

Dizem que quando você morre, sua vida inteira passa pelos seus olhos. Na frente dos meus, porém, passa apenas a inevitabilidade da derrota. Todos foram derrotados. O Império Romano ruiu perante meia dúzia de bárbaros; Napoleão caiu aos pés de Wellington, em Waterloo; Hitler, após dominar metade da Europa, foi chutado para dentro do seu bunker, na Batalha das Ardenas. Todos foram derrotados. Todos serão derrotados. Tirando o Brasil da Copa de 70 e o Jack Bauer, ninguém escapará disso. Nem eu. E hoje foi a minha vez.

Estava deitado, em paz, quase dormindo. O sono dos justos, dizem os poetas. Estado alfa, dizem os psicólogos. E, aos poucos, como acontece no estado alfa, diversos pensamentos começaram a passar pela cabeça, de forma desordenada. E sempre de forma suave, sem fazer barulho dentro da cabeça...Vão deslizando como um córrego, aumentando cada vez mais o sono.

O filme do final de semana... O sorriso da namorada... O aluguel... Preciso tentar bater meu recorde no baseball do Wii... Preciso postar no blog... Que sensacional aquele episódio de Shark.... A besta-fera está andando no quarto, estou ouvindo os passos... O aluguel... O show do Iron poderia ser amanhã... Powerslave... Rime of the Ancient Mariner... O aluguel... Amanhã o dia vai ser foda no trabalho... Será que o show do Ozzy demora?... Preciso rever a trilogia do Chefão... O aluguel... esse fim-de-semana, quero comprar minha pistola para Wii... Hoje eu vi um cara na rua igualzinho a um moleque que estudou comigo no primário... Como era o nome dele? Fábio? Flávio?

– PUTA QUE PARIU! O ALUGUEL!!!

Levantei bêbado de sono, quase tropeçando na Besta-fera e fui correndo para a sala. No meio do caminho, olhei para o relógio e procurei o dia, mas o sono deixou minha vista embaralhada, mal consegui ver meu braço. Fiz a curva na porta do quarto com a mesma velocidade média da Sandra Bullock em Velocidade Máxima e me atirei em cima da escrivaninha, quase derrubando o computador – mas virando um cinzeiro no chão.

Nem dei atenção às guimbas* se espalhando pelo chão e comecei a revirar os papéis atrás do maldito envelope branco. Assim que coloquei meus dedos nele, puxei-o da pilha nervoso, e rasguei ao tentar abri-lo. O boleto caiu na escrivaninha. Respirei fundo, temendo pelo pior e olhei a data de vencimento.

18/02/08
Após o vencimento, pagável somente na empresa

Olhei para o meu relógio, com calma. 19 de fevereiro.

Urrei algo parecido com um “Nãããããããão” que provavelmente acordou meu prédio inteiro, e fará com que minha síndica Brick Top coloque um retrato falado desse que vos escreve na porta do elevador, amanhã pela manhã, com a inscrição “Vivo ou Morto – Entregar na Portaria”. E, o pior, vai estar numa folha sulfite com a inscrição: “Escala 1:1. Tamanho real”.

Não me importo. Pode me matar, tudo acabou mesmo. Nada mais faz sentido. Após dois anos morando sozinho, um aluguel atrasado será o suficiente para minha mãe me ligar e dizer que sou irresponsável, que eu devo ter torrado meu dinheiro em CDs e DVDs. E eu vou rebater dizendo que apenas esqueci e ela vai dizer que “isso é pior ainda”. E vai dizer que ela nunca esqueceu, é uma irresponsabilidade muito grande, e que eu não sou mais moleque, e está na hora de crescer.

E, claro, vai perguntar docemente se eu vou almoçar lá no domingo, o que, obviamente, eu não serei louco de fazer pelos próximos dois meses, pois, assim que eu colocar os pés lá dentro, serei acusado, julgado e condenado como estelionatário (aliás, como último desejo, vou pedir para ela me ensinar a fazer arroz).

Então, amanhã, terei que ir até a imobiliária – independente de eu ter 319 coisas para resolver no trabalho ainda pela manhã – e implorar perdão pelo atraso. E, pior, morrer com 80 paus de multa (o que dá, exatamente, 2 churrascarias ou 0,3 jogo de Wii ou 3 DVDs ou 24,6 caixinhas de Marlboro). E o pior é que vou ter que pagar num balcão aberto, repleto de gente ao meu redor, e tenho certeza de que a gorda da atendente (não consigo imaginar ela magra, neste momento. Consigo vê-la apenas como gorda, maltratada pelo marido e pelos sete filhos e fã da Banda Mel) vai perguntar em alto e bom som:

– Ah, seu aluguel está atrasado????

– É... está...

– SEU ALUGUEL ESTÁ ATRASADO!!! (risada maléfica, torcendo as mãos gordinhas)

– Você pode falar mais baixo, por favor?

– PESSOAS COM ALUGUEL ATRASADO TÊM QUE PEGAR AQUELA FILA ALI! A FILA DOS... DOS... DOS... INADIMPLENTES!!! (risada maléfica, começando a me espetar com o tridente na direção da outra fila)

E, assim, eu irei para outra fila, provavelmente ficando atrás de um mendigo que atrasou o condomínio da caixa de geladeira que ele dorme, e que ainda vai me pedir um cigarro na saída. E eu vou pagar o aluguel (para surpresa da mulher, não vou usar moedas e perguntar se aceita ticket) e, claro, vão me dar um recibo em papel de pão. E ainda vão jogar na minha cara que, para quem atrasa aluguel, está mais que bom.

Amanhã vai ser um logo dia.

Até lá, já vou pensando em qual das Top 5 desculpas que vou usar amanhã na imobiliária eu vou acabar escolhendo:

1. "Oi, meu relógio é novo, eu não sei usar direito. Ao invés de atrasar a hora com o fim do horário de verão, eu atrasei o dia."

2. "Bom dia. Me converti para a religião maia, por isso não uso mais o mesmo calendário que essa empresa. Para mim, hoje ainda é dia 17."

3. "Olá. Não posso falar muito, pois estou sendo perseguido. Eu vim do futuro. Em alguns minutos, um rapaz parecido comigo e com a mesma roupa que estou entrará aqui com o aluguel atrasado. Não cobre multa dele, isso desencadeará uma série de eventos que resultará no fim da civilização!"

4. "Leve-me ao seu líder! Somente ele pode impedir que meu povo invada esse planeta inútil!"

5. "Um mago nunca se atrasa, atendente da imobiliária. Ele chega sempre precisamente na hora em que planejou!"


* Eu só falo "bituca", mas sempre quis usar a palavra guimba em algum lugar.

28 de agosto de 2007

Suicide is Painless - Parte Final

(você lê a primeira parte aqui)

Eu não sabia se descia para ver o que a síndica iria fazer, ou se esperava na varanda para ver como a tentativa de suicídio da Tereza terminaria. Nos prédios da frente, mais e mais pessoas se amontoavam, atraídos pela gritaria. Alguns – tenho certeza – deviam estar torcendo que ela se jogasse logo. A humanidade é uma merda mesmo. Queria ver se fosse no prédio deles.

Foi nessa hora que a Besta-fera, que estava na varanda comigo, resolveu se render à adrenalina do momento e começou a latir para a Tereza. Isso fez com que o homem que a segurava pelo braço se distraísse e olhasse para cima. Na mesma hora, dei um safanão no animal e o joguei para dentro de casa. Tudo o que me faltava era que o cara deixasse a mulher despencar dali por causa do meu cachorro, na frente de metade do bairro. E pior, com a síndica vendo tudo.

Tranquei o bicho na sala e voltei para a varanda. A situação parecia ter melhorado. Tereza estava, agora, com metade do corpo para dentro da sacada, mantendo apenas os pés – ainda com os dois chinelos – para fora do prédio. Vocês podem dizer que foi a mão de Deus (maradona mode: on) que a salvou. Já eu tenho certeza de que ela percebeu que a síndica estava lá embaixo e mudou rapidinho de idéia.

E, com um último puxão, o sujeito conseguiu trazer a Tereza para dentro do apartamento. Ela caiu estatelada no chão da varanda e, com a queda, gritou “ai!”

Assim mesmo. “Ai”. De dor.

Fiquei muito puto. A mulher queria se matar se jogando do sétimo andar, e, quando salvam a vida dela, ela geme de dor caindo de uma altura de uns 60 cm? Porra, só pode estar de brincadeira. Senti vontade de gritar que “ah, você nem tinha jeito para a coisa mesmo!”, mas fiquei na minha. Ainda mais com a síndica ali embaixo, estudando o prédio com a sua visão de raio X.

Sirenes. Olho para a rua e vejo duas viaturas da polícia e uma de resgate parando na frente do prédio. Olhei para a Tereza, que continuava deitada no chão da varanda, ao lado do homem. Como a festa aparentemente foi transferida lá para baixo, fui correndo para o elevador. Afinal, eu tenho um blog para manter.

Desci no térreo, atravessei o saguão e dei de cara com ela: a temível síndica.

Vocês assistiram Snatch? Lembram-se do Brick Top, aquele mafioso que matava as pessoas usando-as como alimento para seus porcos? É a minha síndica. Até os óculos são iguais. A única diferença é que ela joga condôminos inadimplentes e não mafiosos wanna be aos porcos.

Ela olhou para mim e disse, com os dentes trincados (ela está sempre com os dentes trincados):

– VOCÊ VIU TUDO?

– Sim, senhora.

– ELA TENTOU PULAR?

– Sim, senhora

– AH.

O “ah” dela foi a coisa mais ameaçadora que eu vi esse ano. Senti mesmo pena da Tereza. Quase olhei para cima e gritei “Tereza, não desista, ainda dá tempo!”, mas, quando se trata da minha síndica, é cada um por si. Ela continuou:

– NÃO ACREDITO QUE ISSO ACONTECEU AQUI. ESTE É O EDIFÍCIO MAIS TRANQÜILO DE PINHEIROS.

Percebi que ela não sabia que, semanas atrás, eu quase consegui incinerar o “edifício mais tranqüilo de Pinheiros” secando uma calça no aquecedor. Numa fração de segundos, me vi sendo jogado aos porcos que devem estar escondidos no segundo subsolo ou dentro da sauna. Resolvi mudar de assunto, mas acabei dizendo a coisa mais estupidamente óbvia do mundo.

– A polícia chegou, a senhora viu?

– AH.

Deus, que medo.

Os policiais entraram no prédio e começaram a conversar com ela. Ela explicou que eu tinha visto tudo desde o começo e eu relatei o ocorrido desde o começo. E, aproveitando que eu estava do lado de dois policiais armados, criei coragem e perguntei para ela:

– A senhora sabe se ela já tinha problemas?

Ela sorriu, num misto de desprezo e raiva, e resmungou:

– VOCÊ NÃO ESTAVA NA REUNIÃO DE CONDOMÍNIO, CERTO?

– Não, mas olha, juro que não por culpa minha, eu queria muito ter participado da reunião, mas fiquei preso no trabalho, mas, na próxima vez, eu prometo que... não, eu juro, que...

– ELA ME OFENDEU NA REUNIÃO DE CONDOMÍNIO. DESCEU DE CAMISOLA E COMEÇOU A BRIGAR COMIGO POR CAUSA DA VAGA NA GARAGEM. ELA É INSTÁVEL.


A síndica do meu prédio, ao centro, indo cobrar um aluguel atrasado.
À sua direita, o zelador. À esquerda, um dos porteiros.

E assim, ela me contou, usando o mínimo de palavras possível, que a Tereza sempre deu trabalho, desde que se mudou para o prédio, há um ano atrás. Quando acabou sua narrativa, ela olhou para cima e ficou estudando a varanda da Tereza.

Eu comecei a rezar baixinho um Pai Nosso implorando a Deus para que a Besta-fera não resolvesse jogar um de seus brinquedos pela varanda justamente agora. E se ele fizesse isso, eu negaria até a morte que eu o conhecia.

A síndica Brick Top virou-se para um dos policiais e perguntou (aliás, "determinou" seria a palavra exata):

– VAMOS SUBIR ATÉ LÁ?

Eu, pensando no meu blog, fui atrás deles e soltei um:

– Olha, como eu vi tudo, talvez eu seja possa ajudar...

Eu estava na porta do saguão e na metade da frase quando ela virou para mim e, sem falar uma palavra, sem emitir um som qualquer, fez um sinal de "fique aí" extremamente ameaçador.

– ...ou não, porque vocês parecem ter tudo sobre controle, eu emendei, gaguejando, dando meia-volta.

Aquela mulher exala perigo. Reparei que até o policial estava meio incomodado de ter que entrar num elevador sozinho com ela.

Como a Tereza situation estava, aparentemente, terminada, decidi ir até o mercado comprar meu jantar. Quando voltei, ainda vi a Tereza sendo colocado dentro do caminhão de resgate e a polícia indo embora. Entrei no prédio e a síndica veio falar comigo:

– ELA FOI TERMINANTEMENTE PROIBIDA DE ENTRAR NO PRÉDIO. ELA NÃO ENTRA MAIS AQUUI SOZINHA.

Percebi na hora que, aparentemente, tentar se suicidar, no meu prédio, é algo que fere gravemente os estatutos do condomínio. Jogar lixo pela janela garante uma multa, mas o que a Tereza fez resultou no seu banimento. A Tereza foi jogada no exílio (mas deve ter sido multada também, porque ela resolveu fazer tudo isso num domingo à noite, quando nem os técnicos da TV a cabo podem passar pelo portão).

Vendo que tudo estava resolvido, ela virou-se para mim e rosnou:

– ATÉ MAIS VER.

No dia seguinte, instalaram uma tela, daquelas de nylon, na varanda da Tereza. Rá! Como se isso pudesse detê-la. O apartamento dela continua vazio (ela ainda está no hospital. Ou foi jogada aos porcos?), mas, na dúvida, eu já avisei os porteiros que a partir de agora, eu só entro e saio pelo portão lateral, da garagem; e que eu quero ser avisado todos os dias da data da próxima reunião de condomínio.

Ah, sim, o Jasmim. Ele(a) estava em casa, mas mesmo morando no apartamento imediatamente acima da Tereza, nem percebeu o que aconteceu. Isso porque ele resolveu, de duas semanas para cá, ouvir toda a discografia da Maria Bethânia, num volume que torna a(o) irmã(o) do(a) Caetano(a) audível até mesmo em Jundiaí.

Aliás, não me espantaria se isso tivesse causado todos os sérios distúrbios mentais na pobre Tereza. Porque, sem sacanagem, é Maria Bethânia o dia inteiro. Claro que eu poderia pedir uma investigação sobre esse fato e suas ligações com a loucura da Tereza, mas toda vez que penso nisso, lembro dos porcos na sauna e mudo de idéia, indo assistir a Harry Potter.

Com o volume no mínimo e a porta trancada.