27 de maio de 2009

Coisas da Vida - VIII

(você encontra o post anterior dessa série aqui)


Um dia desses, quando eu estava saindo para trabalhar, entrei no elevador e dei de cara com uma mulher de cerca de 50 anos, cujas dimensões esféricas ocupavam 2/3 do elevador. Seu rosto me lembrava o Jabba the Hutt (não pelo peso dela, mas pela cara mesmo, era igualzinha), mas com quilos de maquiagem. Como se isso já não bastasse para chamar a atenção, ela usava um vestido indiano todo colorido, que a deixava parecida não com um personagem da novela das oito, mas sim com um capítulo inteiro.

Entrei no elevador, apertei o botão do térreo e me espremi num canto. Ela olhou para mim e, como se fosse a coisa mais casual do mundo, comentou:

– Eu estou descalça.

Olhei discretamente para os pés dela e confirmei: era verdade. Estava descalça. Pensei em sorrir e ignorar, mas ela ficou olhando para mim, claramente esperando por uma resposta. E eu, obviamente, não sabia o que dizer. Afinal, como responder a uma declaração dessas?

– Hã... Ok.

Foi tudo que consegui.

O elevador desceu mais dois andares, e ela se virou para mim novamente:

– Você vai embora?

– Oi?

– Você vai embora?

Ou seja, ela é daquelas pessoas que, quando fala algo sem nenhum sentido, acredita que se repetir a mesma bobagem apenas falando mais alto, será compreendida. Desisti de tentar entender e fui em frente.

– Bem... A hora que o elevador parar, eu pretendo sair dele, sim.

– Ah é?

Não consegui entender se ela aprovou ou não minha resposta. Mas resolvi não esmorecer, já que demonstrar medo na frente de uma pessoa que anda descalça de elevador – e faz questão de ressaltar isso – pode ser mortal.

– É.

Ela levantou um braço e colocou a mão a uns três centímetros do meu rosto. Ela tinha algo nas mãos, mas precisei ficar totalmente vesgo para colocar aquilo em foco – afinal, eu não tinha como dar um passo para trás, já que estava esmagado na parede – e identificar o que ela estava segurando.

Era dinheiro.

Aparentemente, uma nota de cinco reais e uma de dois reais, totalmente amassadas.

Duas coisas passaram pela minha cabeça. 1) será que ela acha que eu sou michê e faço ponto aqui no elevador? e 2) Ok, eu não sou grandes coisas, mas, porra, SETE reais? Fim de carreira demais.

Felizmente, minha carreira de garoto de programa terminou logo depois de começar, quando ela perguntou, instantes depois:

– Você pode entregar isso ao zelador?

– Hã... Sim.

– Porque eu estou descalça.

– Sim, eu entrego.

– É de um lanche que fiz.

– Não tem problema. Eu entrego, afirmei, rezando para ter ficado claro que eu não queria me envolver com a situação.

O elevador parou no térreo. Peguei os R$ 7,00, me despedi e, fazendo um exercício de contorcionismo, consegui ser cuspido fora, aterrissando no hall do prédio. Me afastei uns cinco metros e, quando estava quase na porta do hall, ouço um berro atrás de mim:

– É PARA ENTREGAR PARA O ZELADOR, HEIN?

Ou seja, além de tudo, ela achou que eu iria fugir com o dinheiro e comprar drogas ou gastar tudo no fliperama. Ignorei e fui até a guarita, encontrei o zelador e entreguei o dinheiro.

– É de um lanche. É tudo o que eu sei.

Ele agradeceu e pegou o dinheiro. Aparentemente, ele sabia do que eu estava falando.

Fui trabalhar e passei o resto do dia com a sensação de que as pessoas do meu prédio (moradores e funcionários) fazem parte de alguma seita secreta, da qual eu sou o único não-integrante. Sou um pária dentro daquele edifício. Sou uma espécie de Al Pacino em Serpico.

Estou correndo perigo. Vou trocar as fechaduras e colocar grade nas janelas. Não vou mais pedir comida, com medo de ser envenenado.

Se eu ficar muito tempo sem postar, podem mandar a polícia para o prédio. Meu corpo vai estar ali, em algum lugar.

18 comentários:

Fox disse...

AHUAHUDAGDGASLGLDKAGSDKAGSKASJDGASKJLd

cara, serio, seu predio simplesmente nao existe! AUHHUHUAHUHAU

e seu corpo provavelmente estara na sauna!

saberemos onde procurar, fique tranquilo.

Que Nem Chiclete disse...

eu ia flr isso tbm...
o corpo certamente staria na sauna...

ou naum.

Lilian disse...

Vida de pára-raio de maluco não é fácil né Rob? Obrigada pelas risadas! o/

Flavita disse...

Entre o começo e o fim, adorei tudo. Morri.

Dragus disse...

Não se preocupe com a grade.

"Ela não passa."

"Ela não, ele". =p

Mama Bruscheta no (ale)vador (a pedidos) disse...

Não vão achar o seu corpo por que a criação de porcos do mato que a síndica tem na sauna vai dar cabo dele, que a propósito será morto pelo porteiro (que tentou ser seu amigo e foi ignorado por vc não entender uma só palavra do que ele falava). O porteiro te encontrará na porta do elevador e dirá!
" RemembeMe? BenitoBrancodaguarita?"
(serpico do serrado mode:on)

P! disse...

"Duas coisas passaram pela minha cabeça. 1) será que ela acha que eu sou michê e faço ponto aqui no elevador? e 2) Ok, eu não sou grandes coisas, mas, porra, SETE reais? Fim de carreira demais."

Meu dia foi ganho só com esse parágrafo.
HAHAHAHAHAHAHA

Otavio Cohen disse...

eu teria medo.
ah, é, vc teve.

Priscila Lima disse...

virei cliente....rs

Kel Sodré disse...

"ela usava um vestido indiano todo colorido, que a deixava parecida não com um personagem da novela das oito, mas sim com um capítulo inteiro."

Achei essa a melhor frase do texto todo!

Matheus Silva disse...

dessa vez tu chamou o porteiro pelo nome?
nao te esquece o nome dele é francis
http://champ-vinyl.blogspot.com/2008/10/coisas-da-vida-vi.html

a parte dos 7 reais foi realmente ótima
=)

Gilgomex™ disse...

"Duas coisas passaram pela minha cabeça. 1) será que ela acha que eu sou michê e faço ponto aqui no elevador? e 2) Ok, eu não sou grandes coisas, mas, porra, SETE reais? Fim de carreira demais."

heueueheuhueehuehuehueheuheuheuheuheuueheuheuheuheeueuehue
heuehuehuehuehuehuehuehueeuhuee
ehuehuehueuehuehueehueuehuee
heueuehuehuehueuehueheuheue
arf, arf...
huheueuheuheuheuheuheuehe
ehueheueuehuheuehuehuehueue
heuehuehuehuehuehuehe
heueueuheueueueueheheuheue.

Dalleck disse...

Só quero ver (não, melhor eu não querer ver) o próximo bundifora pra colocar grade na varanda e nas janelas, rs.

Rob Go-Go (boy) Gordon

Rafinha disse...

Caraca que medo malucooooooooo....ejhueheuhuehueheuheuheu....

Hally disse...

"ela usava um vestido indiano todo colorido". Só pode que queres matar todos os teus clientes e levar o Champ à falência...

Sete reais? Rapaz... morri...
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Cuidado com a sindica, o porteiro, alguns eventuais pintores de sacada. Ou serás comida de porcos selvagens!

Thiago Apenas disse...

"– É PARA ENTREGAR PARA O ZELADOR, HEIN?"

Não sabia que você tinha cara de ladrão...

Cami Pires disse...

Cuidado Rob!
Vai que o lanche é de presunto ( e para os porcos :-O)

Ran Omelete disse...

Não se preocupe. Depois de uns setes dias abafados e de exposição à poluição, o seu corpo vai estar tão podre que alguém, com certeza, vai chamar a polícia. Ou alguém do departamento de esgotos.