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4 de novembro de 2016

14:41

Olhando com atenção, eles eram bem parecidos. Tinham a mesma altura e o mesmo tipo físico. E se vestiam com roupas semelhantes. Mas, por outro lado, eram bem diferentes entre si. Um estava com a cabeça completamente raspada – o que não escondia sua calvície. O outro estava deixando os cabelos crescerem. Estavam na altura da nuca.

Mas a grande diferença entre eles estava nos olhos. O cabeludo tinha aquele brilho de quem acredita que cada dia pode ser uma aventura diferente. Já os olhos do careca estavam cercados por linhas de expressão e traziam aquela calma de quem sabe que a grande aventura não está mais em um momento, mas sim na soma de todos os dias.

Essa forma com que cada um enxergava a passagem do tempo era a grande diferença entre eles. E era fácil de ser explicada.

Afinal, um tinha 14 anos.

O outro estava com 41.

Mas, mesmo assim, ainda eram bem parecidos. Inclusive no gosto. Ambos estavam encostados no balcão de uma loja de CDs no centro da cidade. O Mais Novo havia pedido o disco de sua banda favorita e o vendedor havia desaparecido por uma portinha para buscar o LP. O Mais Velho esperava sua vez de ser atendido. E, enquanto o vendedor não voltava do estoque, puxou papo com o garoto.

“Eu também gosto muito dessa banda”, ele disse.

“Para mim, eles são os melhores”, o garoto respondeu.

“Eu já pensei assim um dia. Hoje eu mudei de ideia. Mas ainda gosto muito.”

“Não, não existe nenhuma banda melhor que essa”, o Mais Novo devolveu contrariado.

O Mais Velho sorriu ao compreender a reação do garoto. Há décadas não se sentia ofendido quando alguém duvidava das bandas que ele gostava, mas havia feito isso antes. Muitas vezes. Música era algo importante para ele. Mas, antes que pudesse responder, o Mais Novo emendou.

“Talvez os Beatles. Mas são os Beatles, então não conta.”

“Você gosta de Beatles?”

“Sim. Eu tenho uma fita em casa com 20 sucessos deles. É bom demais. Mas Guns... Guns é mais pesado”.

O Mais Velho não comentou que essa fita K7 dos Beatles, década depois, teriam se transformado em todos os discos da banda e uma tatuagem no ombro. Preferiu manter o assunto no peso das músicas.

“Eu sei. Quando eu tinha sua idade, isso fazia diferença. Quanto mais pesado, melhor. Eu e meus amigos pensávamos assim”.

“Eu e meus amigos também achamos isso. Por isso ouvimos Guns. E não é só o peso, sabe? A música é animal, mas o que pega é a atitude.”

“Atitude?”, o Mais Velho perguntou, fingindo não saber sobre o que o garoto estava falando.

“Você vê os shows e os clipes, e sabe que eles são daquele jeito o dia inteiro. Não é só quando estão tocando. Eles estão lá fumando e bebendo no meio do show. Tipo, eles não estão nem aí para nada. Eles que mandam”.

“Sim, e isso é importante”, o Mais Velho respondeu, antes de mudar de assunto. “Você já foi a um show deles?”

“Não. Mas eu ainda vou um dia. E você?”

“Eu também nunca fui.”

“O show deles deve ser animal. Eu já vi uns vídeos na TV.”

“Sim, sim. Eu também”, o Mais Velho sorriu. “Quais outras bandas você gosta?”

“Faith No More”, o Mais Novo respondeu sem precisa pensar. “É animal! Os clipes também passam direto na TV ”.

“Faith No More, Beatles... Seu gosto parece ser bom.”

“Valeu. Gosto de Raul Seixas também. Você gosta?”

O Mais Velho fez que sim com a cabeça. Dessa vez, precisou se esforçar para segurar o sorriso. O Mais Novo não percebeu e continuou falando.

“Você sabia que Trem das Sete é sobre a morte?”, perguntou, sem disfarçar o orgulho que sentia por saber isso. Ele achava importante entender sobre o que eram suas músicas preferidas. Mas não esperou a resposta e continuou: “E você? O que mais você gosta?”

“Eu gosto muito de Iron Maiden”, o mais velho devolveu.

“Eu não conheço. Mas já ouvi falar.”

“Algo me diz que você vai gostar”.

“É pesado, né?”

“Sim. Mais que Guns”.

“O vocal é bom?”

“Sim. Mas não é só o vocal. É tudo. Sabe”, o Mais Velho explicou, “a primeira vez que eu ouvi Iron Maiden, foi a primeira vez que consegui escutar um baixo na vida.”

“Como assim?”

“Eu sabia que as bandas tinham baixistas, mas não sabia direito o que era o baixo. Só descobri isso quando ouvi Iron Maiden”.

“Vou ver se ouço. O baixista do Guns é o Duff. Ele é bom demais.”

O Mais Velho sabia que o Mais Novo estava mentindo. Sabia que ele não entendia direito o que o baixo fazia dentro da música. Mas não falou nada. Assim como havia acontecido com ele, o garoto ainda iria descobrir que a música ia além do vocalista.

Ficaram em silêncio. O garoto pegou um disco do Megadeth e começou a olhar o nome das músicas na contracapa. O mais velho sorriu. Ele não compraria esse disco. Não naquele dia. Mas semanas depois, sim. Metallica. Megadeth. Sepultura. Living Colour. Alice Cooper. AC/DC. E Iron Maiden.

“Você conhece essa banda?”, perguntou o Mais Novo.

“Sim. Eu gosto bastante”, respondeu o Mais Velho.

“Como é o som deles?”

“É bem pesado. E rápido. Mas talvez você precise de um tempo para se acostumar com o vocal”, explicou o Mais Velho, antes de concluir: “Eu precisei”.

O Mais Novo voltou a ler os nomes das músicas no disco, e o Mais Velho continuou observando. Sabia que algum tempo depois, ele entraria num estádio para assistir a um show pela primeira vez. Seria Iron Maiden, que a essa altura já seria a sua banda preferida. Depois, iria num show do Metallica.

“E esse, você conhece?”

O Mais Velho olhou o disco do Judas Priest na mão do garoto. Como explicaria para ele que o vocalista iria deixar a banda pouco tempo depois? E que o mesmo aconteceria com Iron Maiden?

Se explicasse isso, teria que explicar que seria esse tipo de coisa que faria com que ele abandonasse o heavy metal poucos anos depois – algo que, naquele momento, o Mais Novo julgaria impossível.

Lembrou-se de si mesmo quando essas bandas começaram a se desfazer. Na sua paixão imatura, enxergou isso como “falta de atitude” e viu riscos estragando a imagem que tinha de seus ídolos. Demoraria muito tempo para ele entender que os músicos eram pessoas como ele.

Mas, ao mesmo tempo, sabia que isso seria bom na vida desse garoto. Ao pegar birra do heavy metal, descobriria que a música ia além do peso. Começaria a escutar trilhas de filmes e enlouqueceria com Ennio Morricone. Descobriria a música clássica e se apaixonaria por Beethoven. Os anos se passariam e ele descobriria o rock clássico, o blues, o jazz.

E, dez ou quinze anos depois, voltaria a ouvir heavy metal – dessa vez, com maturidade suficiente para entender porque gostava tanto daquele estilo de música. Sim, ele passaria por gêneros e mais gêneros musicais, mas seu lar seria sempre dentro do hard rock e do heavy metal.

E hoje sabia que sempre que ouvia o primeiro disco do Guns, voltaria a ter 14 anos. Voltaria  a ser aquele Garoto com quem estava conversando. Voltaria para uma época em tudo parecia fresco como um céu azul brilhante. Ao saber disso, seus olhos brilharam tanto quanto os do Mais Novo.

“Esse é o Painkiller?”, perguntou, afastando os pensamentos.

“Sim.”

“Durante muito tempo, foi meu disco preferido deles. Hoje, isso mudou. Mas ainda gosto muito. E você vai gostar. Ele é pesado e o vocal é maravilhoso. Tem tudo o que você gosta.”

“Não vou levar hoje porque ainda quero comprar uma camiseta. Mas na próxima vez...”

Ah, as camisetas, pensou o Mais Velho. Quanto dinheiro havia gasto com isso? Mas não pode falar nada, pois o vendedor voltou com um LP do Appetite for Destruction nas mãos.

“Desculpe a demora. Era o último.”

O Mais Novo sorriu ao segurar o disco, e o Mais Velho sorriu ao observar seu passado.

A música fazia parte de sua vida. E faria parte da vida do Mais Novo. Seria com música que aquele garoto se apaixonaria por mulheres impossíveis, que ele curaria seu coração sempre que ele se partisse. E, junto com seus amigos, cantaria junto em momentos que, aos 14 anos, pareciam ser apenas uma noite de sexta... Mas que, olhados do alto dos 41 anos, ganhavam sabor de história.

Sim, a música seria muito importante na vida desse garoto, o Mais Velho pensou. E, mesmo que ele já ouvisse Beatles e Raul Seixas, tudo começaria com aquele disco. Aquele LP acenderia a fagulha.

Tudo aconteceria por causa daquele minuto. Tudo aconteceria por causa do que o Garoto sentiu ao colocar as mãos naquele disco pela primeira vez. E viu quando o Mais Novo colocou o disco embaixo do braço e percebeu que, naquele momento, o menino sentia-se a maior pessoa do mundo.

Antes de ir embora, o Garoto olhou para o lado e se despediu.

“Não vou me esquecer das suas dicas”, disse.

O Mais Velho sorriu. Tinha outros conselhos para dar, mas sabia que era proibido. Afinal, se desse algum conselho que mudasse sua história, seria uma pessoa diferente hoje. Talvez nem estivesse ali. E, naquele momento, tudo o que ele queria era estar naquela loja apertada e cheia de prateleiras, olhando a si mesmo com 14 anos.

Assim, apenas sorriu.

“Quem sabe um dia a gente não se cruza num show do Guns?”, o mais Novo perguntou.

Novamente o dilema. Como explicar para o garoto o que aconteceria com a banda pouco tempo depois? Os anos que demorariam até que a banda finalmente...

Não. Não valia a pena. Assim, apenas tocou o bolso por cima da calça e sentiu os ingressos no bolso. E sorriu mais uma vez.

“Olhe”, devolveu. “Eu acho que isso ainda vai demorar muito tempo para acontecer. Mas eu tenho certeza que vai acontecer”.

“Como assim?”

“Algo me diz que o primeiro show do Guns que você irá será o primeiro show do Guns que eu irei. E... Sabe? Tenho certeza que a gente vai se encontrar lá.”

“Será?”

“Sim. Aliás, aposto que a gente ainda vai se encontrar em muitos shows.”

O Mais Novo sorriu de volta, sem saber como responder. Acenou com a mão e deixou a loja, olhando a contracapa do LP, estudando a ordem das músicas que o Mais Velho ainda sabia de cor e desapareceu pelos corredores.

“E você? Procurando algo específico?”, perguntou o vendedor.

“Não”, respondeu o Mais Velho, ainda olhando para fora da loja. “Quer dizer, sim. Mas já encontrei. Obrigado”.

Virou as costas e foi embora de volta para seu tempo. Nunca mais conseguiram conversar diretamente – mas se encontraram em muitos shows e ouvindo discos que os transformavam na mesma pessoa.

A loja? A loja ainda está lá.

De vez em quando o Mais Novo entra ali para comprar discos. De vez em quanto o Mais Velho entra ali para matar a saudade de quem ele foi aos 14 anos de idade. 

25 de fevereiro de 2016

Gimme Shelter

Ontem, quase tudo parou.

A começar pela cidade – aquela, que dizem que não pode parar – que enfrentou um congestionamento histórico. A tempestade também parou e resolveu dar uma trégua quando os Rolling Stones apareceram no palco.

E os olhos de milhares de pessoas também pararam.

Bastava olhar ao redor para perceber isso. Muitos dançavam, outros gritavam, alguns cantavam juntos. Mas os olhos de todos estavam parados, apontados na direção da única pessoa que se recusava a parar. Assim que colocou os pés no palco, Mick Jagger afirmou que “se você me ligar, eu nunca vou parar”. Era mais que um trecho de música. Era um aviso. E uma promessa.

Enquanto a cidade estava parada, o Morumbi era um mundo à parte, onde tudo não apenas se movia, mas se movia junto com Jagger.

Qualquer pessoa sabe que o vocalista não para quieto um minuto durante o show. Ele canta, dança, corre, toca gaita, às vezes tudo quase ao mesmo tempo. Mas ontem eu descobri que é preciso assistir a banda ao vivo para entender isso. Mick Jagger tem a plateia na mão desde o início do show, mas a TV ou a tela de um computador são pequenas demais para mostrar a intensidade desse domínio.

É um daqueles casos raros em que tudo parece girar ao redor do vocalista – muitas bandas são assim – mas que todos os outros músicos têm vida própria – poucas bandas são assim. Basta alguns minutos olhando o palco para entender que Keith Richards está dando seu próprio show. Ron Wood, o único Stone que não ajudou a fundar a banda, também. E o mesmo pode ser dito de Charlie Watts, atrás de sua bateria.

Todos funcionam isoladamente, mas juntos, formam os Rolling Stones, um daqueles casos em que o todo é muito maior que a soma das partes.

E é justamente por causa desse “o todo é maior que a soma das partes” que eu consegui compreender o show completamente somente hoje pela manhã. Afinal, cada uma das partes que formam esse show já é enorme. A abertura de Sympathy for the Devil, que levou milhares de pessoas de volta para os excessos e a teatralidade do fim dos anos 60. O arranjo fenomenal de Miss You, que transformou uma música simples de 78 numa peça complexa e moderna. E a agressividade de Paint It Black, que possui mais fúria que poderia se esperar de uma música que está completando cinquenta anos.

E, claro, Gimme Shelter, um daqueles casos em que o rock exigiu ser chamado de arte e que, ao vivo, se torna quase uma força da natureza. Ela é maior que a versão de estúdio, mas, mesmo se tivesse metade da duração, ela ainda seria gigante, combinando sensualidade e a sensação de que o mundo irá acabar a qualquer momento. Ao assistir (I Can’t Get No) Satisfaction ao vivo, você lembra que está diante de uma das maiores bandas da história do rock; mas, Gimme Shelter vai além e mostra que você está diante de alguns dos maiores músicos do século 20.

Mas essas partes, mesmo grandiosas, eu compreendi com facilidade. Afinal, são músicas que ouço há pelo menos vinte anos. Mas somente hoje pela manhã, enxergando o show com mais calma, entendi que foi um daqueles raros casos do “show certo na hora certa”, pois cada vez mais eu tenho a certeza que não teria apreciado tanto o que vi ontem no Morumbi se isso tivesse acontecido, por exemplo, dez anos atrás.

Afinal, eu nunca vasculhei o catálogo da banda com afinco. Como qualquer pessoa que gosta de rock, conheço as essenciais – o que no caso dos Stones são pelo menos vinte – e tenho as minhas preferidas entre aquelas que não precisam estar em todos os shows. Mother’s Little Helper. She’s a Rainbow. Ruby Tuesday. Dandelion. Assim, dez anos atrás talvez eu prestasse muito mais atenção nas grandes canções. Ainda assistiria ao show inteiro, com a mesma paixão, mas sempre esperando pelo terreno confortável das músicas obrigatórias, tentando decorar cada momento delas desde o primeiro acorde.

Ontem foi diferente. Prestei atenção em cada acorde, cada solo. Out of Control já entrou na minha lista de músicas preferidas dos Stones. You Got the Silver, ao vivo, me passou a impressão de ser um dos maiores – e mais doloridos – blues feitos dos anos 60 para cá. E finalmente entendi porque Keith Richards diz que Mick Jagger é um dos maiores gaitistas da história do blues. Ele não toca gaita como um “vocalista que toca gaita”, mas sim como alguém que parece não ter feito outra coisa na vida.

Aliás, ter escutado blues durante os últimos dez anos parece ter me preparado melhor para entender esse show, identificando passagens e arranjos que não estão nas versões originais e mostram que a paixão dos ingleses pelo blues parece ter crescido ainda mais nos últimos anos. Mas é um show dos Stones. E mesmo com o blues chovendo sobre o estádio desde horas antes que a banda surgisse no palco, com as músicas que tocavam no sistema de som do estádio, o que estamos vendo é um show de rock.

E aí fica claro o único engano que Mick Jagger cometeu durante a apresentação, ao tentar nos convencer mais uma vez que “é apenas rock ‘n roll”.  Por mais que ele entoe essa frase desde 1974, Jagger e sua banda fazem questão de desmentir essa ideia durante cada segundo do show. A cada acorde de guitarra, a cada refrão cantado por um estádio inteiro, fica claro que “não é apenas rock ‘n roll”. É algo muito maior. É uma vida inteira.

Eu ouço rock há quase trinta anos. Vou de heavy metal para hard rock, do hard rock para o rock clássico, volto para o heavy metal. Mudo a forma, mas jamais o conteúdo. Expandi meu gosto musical, claro. Ouço blues, jazz, música clássica... Mas nunca deixei o rock para trás. Porque não é “apenas rock ‘n roll”.

É o que eu sou.

Sempre que eu coloco um dos meus discos preferidos para tocar, lembro que sempre fui assim. Sempre que apanho um dos meus discos preferidos, percebo que sempre serei assim. É o meu refúgio. Basta eu colocar um dos meus discos preferidos para tocar que eu venço o tempo. Deixo de viver numa época em que meus heróis estão morrendo com uma frequência cada vez mais assustadora e volto aos meus catorze anos.

If I don’t get some shelter
Oh yeah, I’m gonna fade away.

E de repente, o mundo parou para que uns garotos de setenta e poucos anos viessem me lembrar disso mais uma vez. Quatro garotos que chegaram logo depois da chuva e fizeram o mundo parar para explicarem minha vida inteira, em cada acorde, cada verso, cada solo. E, quando um dos garotos disse que “é apenas rock ‘n roll”, eu entendi mais uma vez que, na verdade, ele estava falando que “é apenas quem você é”.

Sorri, enxergando mais uma vez toda minha história e tudo em que acredito. E isso é algo que todos nós precisamos de vez em quando.  E, como esses mesmo garotos já haviam me ensinado antes, você nem sempre consegue aquilo que quer. Mas às vezes você consegue aquilo que precisa.

Mick, Keith, Ron e Charlie,

Obrigado por ontem. Obrigado por tudo.

13 de julho de 2015

Vamos Falar Sobre Blues?

Já fazia tempo que eu queria começar a usar o Medium. Até mesmo levantei essa bola no Facebook, em um post que fiz algumas semanas atrás considerando novos rumos na minha carreira aqui atrás dos teclados – e sim, ainda estou pensando bastante sobre isso e devo voltar a falar mais sobre isso aqui no blog mesmo, em breve.

Junte isso ao fato de que eu adoro escrever sobre blues, então... Não. Minto. Eu não adoro escrever sobre blues, mesmo porque eu nunca escrevi sobre blues. Eu gosto, mesmo, é de falar sobre blues. Blues é uma espécie de brinquedo novo na minha vida, já que, no meio de todos meus gêneros musicais, é o que descobri mais tarde.

Ouço blues há uns dez anos, talvez um pouco menos. Se você tem dezoito anos, isso pode parecer tempo demais. Mas, acredite: é um tempo muito pequeno. Especialmente se comparado, por exemplo, aos vinte e cinco anos que ouço heavy metal.

Adoro falar sobre heavy metal, adoro falar sobre rock clássico, adoro falar sobre música clássica... Mas adoro particularmente falar sobre blues, pois, como ele é algo relativamente novo na minha vida, é mu8ito mais fácil eu aprender algo sobre ele que, por exemplo, conversando sobre heavy metal – e não ache que estou me colocando como especialista em heavy metal; eu passo bem longe disso. Mas minha bagagem lá é definitivamente maior.

Então, resolvi o útil ao agradável e a algo que muita gente vem pedindo. Sempre que eu falo sobre blues no Twitter, as pessoas começam a participar. Duas ou três vezes eu abri um whisky e comecei a jogar músicas das minhas listas de blues no Twitter, falando sobre as músicas, dizendo curiosidades e, principalmente, minha opinião pessoal sobre ela. E sempre as pessoas q1ue acompanham isso começam a falar que eu devia escrever sobre, que eu devia gravar um podcast sobre o assunto e por aí vai.

Mas sempre recusei, já que não sou especialista, eu apenas “gosto muito”. Foi quando eu percebi que talvez esse fosse o ponto decisivo: gostar muito. Gostar a ponto de querer não apenas ouvir a música, mas conversar a respeito.

Juntando tudo isso, então comunico a quem não viu no final de semana meu novo projeto: “Sábado de Blues”: minha estreia no Medium com uma coluna semanal (e não preciso dizer aqui em qual dia ela será postada) sobre um tema de blues. Pode ser um nome, um estilo, um disco... Até mesmo uma música.

E sempre com a linguagem que vocês conhecem deste blog e das redes sociais: batendo papo. Não são críticas, resenhas, nada disso. É um bate papo sobre blues, que, ao menos em termos de histórias, é um dos gêneros mais ricos que conheço – e sempre com indicações de músicas, que é algo que todo mundo sempre me pede nas rede sociais.

Mas, como conversar sozinho é algo chato demais – especialmente quando o assunto é legal – estão todos convidados. Acesse aqui e leia a primeira coluna, feita com muito carinho sobre John Lee Hooker. Se você tem Medium, me siga lá.

E, se gostar do papo, acompanhe a coluna. Comente, indique temas, dê sua opinião, me corrija, diga que estou falando bobagem quando isso acontecer. E, claro, compartilhe o texto com seus seguidores, para trazer mais gente para a mesa do bar.

Afinal, se a conversa ficar grande demais, a gente aumenta o som.


Vamos nessa?

15 de maio de 2015

The Thrill is Gone

Eu lembro quando descobri o blues.

Era pré-adolescente e como muita gente da minha idade, meu primeiro contato com o blues foi assistindo a Os Irmãos Cara-de-Pau. Lembro até hoje de assistir ao filme com meu irmão e, ao vermos um velho tocando na rua numa cena rápida, ele comentou “esse cara deve ser um monstro do blues e a gente não sabe”. Era verdade. Eu não fazia ideia de quem era aquele velho. Mas sabia que eu nunca tinha visto tanto carisma em uma pessoa (a cena, estendida, está aqui).

Mas se eu descobri o blues cedo demais, só fui me apaixonar por ele tarde demais, por volta dos vinte e cinco anos. Até então eu escutava e apenas gostava. Sentia-me atraído por aquele som doce e simples, com letras poderosas.  Mas nunca tinha me aprofundado de verdade naquele mundo.

Até eu me apaixonar por blues.

Foi no dia que a música “How Blue Can You Get?” cruzou meu caminho. Como qualquer pessoa, eu já conhecia BB King, mas nunca tinha escutado aquela canção. Sua letra é universal e conta como um homem não sente nada além de tristeza por causa da uma mulher ingrata e egoísta, tudo isso contrastando com uma guitarra doce e melódica que transformava aquela tristeza em esperança do dia seguinte ser melhor.

Porque o blues não é apenas sobre tristeza.

O blues é, na verdade, sobre a esperança de que amanhã será melhor.

Minha vida mudou. Eu não me senti tragado para dentro da música, mas sim para dentro de algo maior. Naquele dia, eu não me apaixonei por uma música ou por um disco, mas sim por um mundo completamente diferente daquele que eu encontrava em outras músicas.


Comecei a ouvir – e ler sobre – blues o dia inteiro. Fui atrás dos grandes nomes do passado e comecei a conhecer melhor aquele mundo, povoado por pessoas comuns que viviam em lugares reais e experimentavam problemas que todos nós temos. Um mundo amargo e alegre, solitário e erótico, violento e adocicado. Tudo ao mesmo tempo. Um mundo onde a dor não é grandiosa, mas ela é tudo que existe. E a única maneira de lidar com ela é com a música, que entrega uma espécie de redenção (eu tentei descrever como me sinto ouvindo blues aqui).

Um mundo que não foi feito para ser compreendido, mas sim experimentado.

E, em algum momento, eu descobri que não me apaixonei pelo blues tarde demais. O blues me ajudou a sair de uma depressão. O blues me ajudou a fazer a transição do jovem para o adulto. Não, eu não me apaixonei pelo blues tarde demais.

Eu me apaixonei pelo blues na hora certa.

Mais ou menos quinze anos se passaram desde que dei meus primeiros passos nesse mundo. E hoje não consigo me imaginar fora dele. Tenho o blues tatuado no braço porque eu preciso levar esse mundo comigo para onde vou. Escrevo uma história em quadrinhos em que o blues é um dos elementos mais importantes no roteiro porque, como qualquer pessoa que habita esse mundo, me sinto na obrigação de mantê-lo vivo e contar sua história.

Pois sua história faz parte da minha história.

E sempre que eu olhava para trás na minha história, pensando sobre a importância que esse mundo tem na minha vida, enxergava BB King no começo de tudo. Ele não era meu bluesman preferido, mas estava além. Ele era meu marco zero.

Eu tive muita sorte. Para entrar nesse mundo habitado por pessoas comuns, foi preciso que um rei aparecesse com sua guitarra no ombro, me pegasse pela gola da camiseta e me desafiasse:

– How blue can you get, boy?

Eu estou até hoje tentando responder essa pergunta. Por isso, às vezes, eu voltava para o portão desse mundo e mergulhava em BB King.

Passava o dia ouvindo a voz e a guitarra melódica daquele rei que um dia, desceu de seu trono e convidou um garoto para fazer parte do seu reino. E sempre começando por aquela música sobre aquela mulher ingrata – que, hoje eu sei, mudou minha vida. E, a cada vez que eu ouvia aquela música, sentia uma espécie de arrepio pensando em como o blues faz de mim o que sou hoje.

E hoje o rei está morto.

Dizem que reis não morrem de verdade. Assim, acredito que ele permanecerá vivo em estradas lamacentas, espeluncas lotadas, campos de algodão e quartos abafados, contando histórias de paixões que esfriaram, de empregos ingratos, de mulheres egoístas, de amores impossíveis.

E a tristeza pela sua morte será diminuída – mas jamais esquecida – no momento que alguém, em algum lugar do mundo, empunhar um violão e cantar seu nome ao lado de uma dose de uísque.  Afinal, eu disse acima que o blues não é sobre tristeza e sim sobre a esperança de que amanhã será melhor. Isso é algo que eu aprendi com aquele rei.

Porém, nem todo o uísque do mundo mudará o fato de que ele está morto. Pois o rei também foi o primeiro a me falar que o blues sempre foi sobre verdades. E a verdade é que o rei está morto.

Hoje, a pergunta “how blue can you get?” não me traz arrepios, apenas tristeza. Mas o rei já havia previsto isso. Com seu ar de “as coisas são assim mesmo”, ao cantar que the thrill is gone, the thrill is gone away, ensinou que nada é para sempre, nem mesmo aquilo que a gente acredita que é para sempre.

O rei ensinou muitas coisas. Essa foi sua última lição, pois hoje o rei está morto.

Longa vida ao rei.


29 de agosto de 2014

John Lee Hooker e a Mulher que Chorou no Ônibus

Eu estava naquele ponto de ônibus numa rua qualquer de uma cidade grande.

Na calçada, as pessoas passavam sem reparar em mim ou na conversa que eu estava tendo com John Lee Hooker. Na rua, carros rodavam sem reparar em mim ou mesmo nas outras pessoas da calçada.

Para as pessoas, eu era apenas mais um. Para os carros, eu era apenas menos um.

Enquanto eu estava ali, ninguém ouviu John Lee Hooker me confessar que amor é bom mas, naquele momento, ele precisava mesmo de dinheiro. Ninguém ouviu. Nem as pessoas da calçada, nem os carros que cuspiam fumaça, muito menos o ônibus que parou no ponto, impaciente para continuar sua viagem.

Foi quando ela ficou do meu lado.

Devia ter uns quarenta anos, mas cara de quem já viveu quase cinquenta, como acontece com todo mundo da cidade. Estava em uma janela do ônibus que roncava, ansioso para partir e se misturar aos carros. Seu olhar era perdido, mas seus olhos eram fáceis de encontrar: estavam ali no meio das lágrimas.

Fiquei olhando por alguns instantes. Estava a menos de um metro de onde eu estava, mas uma janela embaçada e engordurada de dedos nos deixavam a quilômetros um do outro. Eu estava sozinho, entre tanta gente na calçada; ela estava sozinha, no meio das lágrimas dentro do ônibus.

Eu poderia ter olhado para o nada. Talvez abaixado os olhos, talvez tentado ler o nome do ônibus que estava se aproximando. Mas resolvi olhar para tudo – pois quando uma pessoa se permite chorar dentro de um ônibus, é porque aquilo que ela está sentindo é tudo. E, numa cidade grande, não se mostram lágrimas de tudo na frente dos outros. Numa cidade grande, só se chora sozinho e escondido em casa.

Talvez seja por isso que ela tenha despertado e, ainda com os olhos molhados, olhou ao redor para ver se alguém havia reparado não nela, mas em suas lágrimas. E se surpreendeu ao ver o sujeito que estava na calçada, a centímetros-quilômetros dela, observando em silêncio seu choro.

Ela não soube o que fazer, porque numa cidade grande, pessoas costumam chorar quando não sabem o que fazer. E eu sorri para ela, porque no mundo que eu moro você sorri para pessoas que não sabem o que fazer.

Ela me estudou por uns instantes e sorriu de volta. Um sorriso de “talvez” que abraçou meu sorriso de “amanhã pode ser melhor”, e saíram andando pela rua, dois sorrisos abraçados que ninguém viu. Nem as pessoas, nem os carros, nem o ônibus que já partia roncando e deixando um rastro de fumaça.

Eu ia pedir para o John Lee Hooker ficar quieto por alguns instantes, mas ele foi mais rápido e começou a gritar que estava no clima para o amor. E eu deixei ele continuar. Não por mim, nem por ele, mas pela mulher do ônibus. Para que ela saiba que numa cidade onde ninguém se importa, alguém viu e sorriu e cantou de volta.

E mostrou para ela que o amanhã pode ser melhor – e que, justamente por isso, está torcendo com ela para que esse amanhã comece hoje.

3 de maio de 2013

Mississipi em Chamas


Foi agora, no metrô.

Entrei e, como o vagão estava vazio, me apoiei na porta. E com meus fones nos ouvidos, troquei o CD do iPOd e ele decidiu que era hora de eu ouvir Me and Mr. Johnson.

Este CD, para quem quer conhecer blues, é sugestão obrigatória. São de versões do Eric Clapton para as músicas do Robert Johnson – ou seja, são as canções do maior blueseiro morto, interpretadas pelo maior blueseiro vivo. E me arrisco a dizer que Clapton é o homem que, atualmente, mais conhece Johnson, mais que qualquer biógrafo – e isso fica claro em cada música.

Ativei o shuffle, apertei o play e os primeiros acordes de Stop Breaking Down Blues começaram a tocar.

Ainda apoiado na porta, fechei os olhos.

E comecei a sentir o perfume de terra molhada.

Cheiro de terra vermelha e molhada. Terra de estradas pouco iluminadas, cercadas de mato em seus dois lados, terra de carroças e de andar descalço durante o dia. Mas era noite eu usava botas, um pouco envelhecidas e sujas, mas guardadas para ocasiões especiais.

E foi com estas botas que entrei no bar, segurando ela pela mão, e caminhei em direção a uma mesa do canto. Ninguém ouviu meus passos abafados pelo som do falatório animado, mas muitos sorriram para nós. Alguns acenaram com a cabeça. Pessoas que eu conhecia de vista, pessoas que eu conhecia por morarem perto de mim, pessoas que eu não fazia ideia de quem eram.

Sentado e com os cotovelos apoiado na mesa de madeira grossa e torta, pedi quatro doses. Duas para mim, duas para ela. E só. Pois é o tipo de bar que você não precisa explicar qual sua bebida, somente quantas doses você quer. O primeiro copo desceu rasgando e queimando, mas amorteceu o caminho para o segundo, que foi engolido mais fácil.

Algumas pessoas sentaram-se conosco. Amigos. Amigos de dia a dia, amigos de reclamar da vida, amigos de calos nas mãos, amigos de risada nas horas de bebida, amigos de consolo nas tempestades. Com eles, vieram outras doses, acompanhadas de conversas e lendas. Lendas sobre almas vendidas em encruzilhadas dançavam ao redor de reclamações sobre as chuvas.

Piadas sobre trabalho no campo davam as mãos às histórias de cães do inferno perseguindo cantores amaldiçoados. E risadas que faziam o bar – nada mais que um barraco – parecer tremer. E o cheiro de terra molhada deu lugar a um misto de suor, álcool e risadas. E a bebida queimava cada vez menos, ao contrário da alma.

Foi quando o violão começou a soar.

Um homem negro e magricela dedilhava as cordas com um bico de garrafa preso no indicador. Seus dedos percorriam as cordas como uma aranha. E quando cantou, sua voz poderosa abafou a tormenta de barulho do bar, mas somente por alguns instantes, até que todos se levantaram e começaram a dançar.

Suas músicas eram interrompidas somente para longas goladas na garrafa de uísque de milho que colada aos seus pés, brilhava sob a luz. Sob o efeito de sua voz e dos acordes misteriosos, todos dançaram, fazendo o barracão tremer.

Eu me levantei sem poder me controlar. Todos os meus movimentos pertenciam aos acordes do violão e às batidas pesadas do pé do cantor no chão. E quando percebi, estava no meio de uma multidão apertada, sem conseguir parar de mexer.

Eu e ela e o bar inteiro dançamos amores perdidos no passado, cantamos o trabalho duro debaixo do Sol forte, aplaudimos a falta de dinheiro para roupas novas, oramos a fé em Deus que um dia as coisas vão melhorar, requebramos o sexo suado na parede da sala, louvamos amores reais que cuidam da alma, rodamos o sonho de largar tudo para trás e viajar queimando na mente, e nos abraçamos suados esperando o dia do Julgamento.

Cada um dançava a seu modo, expiando pecados para fora da alma, expulsando tristezas para fora do coração, transpirando a rotina dura para fora do corpo. Não havia ordem. Havia somente suor e álcool. E de repente não havia mais música. Éramos a música.

E feito música suada e embriagada dançamos até alta madrugada. E, pouco antes do nascer do Sol, suados, nos despedimos de todos pouco depois do homem negro recolher seu violão, emprestar outra garrafa e desaparecer na noite, para nunca mais ser visto – no sábado seguinte, outro homem cantaria outras músicas sobre os mesmos amores e pecados e sonhos.

E, sentindo o cheiro de terra molhada e vendo o céu se tornando laranja no horizonte, voltamos em direção à nossa casa de madeira, afastada da estrada e isolada do luxo. Mas, no meio do caminho, tirei as botas e deixei meus pés sentirem a terra.

Sem falar palavra alguma, eu e minha pequena rainha de espadas, agora sozinhos, dançamos na estrada de terra. De mãos dadas, ela rodando na minha frente e fazendo sua saia branca girar, desafiando o Mississipi e gastando os ecos da música sensual e dolorida que ainda escorriam junto com o suor das minhas costas.

Poderíamos ir para casa outra hora. O dia ainda não havia nascido, e o dia seguinte era domingo.

Mesmo com todo o tempo do mundo, me obriguei a abrir os olhos ao ver que a próxima estação era a minha. Olhei ao redor, observando pessoas no metrô com ar cansado, mexendo em seus celulares ou lendo livros sem paixão nos olhos. Chacoalhei a cabeça e voltei ao mundo real.

Mas jurei baixinho que um dia voltarei para lá, para sentir a terra nos meus pés e a música na alma.

19 de outubro de 2011

Devil's Tattoo Blues

I woke up one morning, with troubled heart and worried mind.
Yeah, woke up one morning, with troubled heart and worried mind.
So I put on my shoes and grab my coat, and left my life behind.

Went down to a dirty joint, and asked the Lord for some booze.
Went down to a dirty joint, and I asked the Lord for some booze.
Three bourbons later, I prayed my thanks and played my blues.

Later that night, I walked down the road with Satan on my side.
Later that night, I walked down the road with Satan on my side.
It was a beautiful lady, and she put my body and my soul on fire.

At the crossroad she drew a picture in my arm and gave some gin.
At the crossroad she drew a picture in my arm and gave some gin.
So now I got the blues on my heart, and carry the blues on my skin.

So now I got the blues on my heart…
And carry the blues on my skin.


Algumas pessoas, ao lerem o texto acima, me perguntaram se eu traduzi a letra de algum blues antigo. Não. Eu escrevi isso, em inglês mesmo (a tradução, para os leitores que não falam inglês, está no primeiro comentário do texto) para homenagear minha nova tatuagem.

Eu adoraria escrever aqui um enorme texto justificando a importância do blues dentro da minha vida (e, em especial, do momento que estou vivendo), como fiz com a tatuagem dos Beatles. Mas, ao invés disso, resolvi que a melhor forma de fazer isso seria justamente compondo um blues com os elementos – e sob a fórmula – das canções antigas, cantadas em estradas e bares por Robert Johnson, Lead Belly e Charley Patton.

São músicas e nomes de uma fase que considero a mais apaixonante dentro do blues e que está totalmemente retratada dentro desta ilustração. Em tempo: quem ainda não reconheceu o desenho do gaitista, segue a fonte original.


Vale lembrar que estas fotos não são definitivas – o “blues” ainda parece torto e fora de perspectiva, por exemplo, pois meu braço ainda está bastante inchado; e o branco da camisa ainda irá "subir". Assim que a pele voltar ao normal, posto uma nova foto.

E, claro, se algum leitor com talento musical decidir tirar a música “do papel”, basta gravar ao ritmo de um velho blues e mandar o vídeo para cá, que entra no blog com pompa e circunstância. E com direito a uísque de milho.

Mas, como eu disse no meu blues, agora eu carrego o blues na minha pele.

Para sempre.

13 de outubro de 2011

Presence of The Lord

Ao sair do estádio do Morumbi, não pude deixar de perceber a decepção no rosto de muitas pessoas na plateia.

Antes de continuarmos vale dizer que se existiu um problema no show de Eric Clapton em São Paulo foi a escolha do local. O espetáculo é intimista demais para o Morumbi. Os problemas no som eram horríveis nas duas primeiras músicas, ao menos para quem estava nos anéis superiores. Além disso, a música de Clapton, num local monstruoso como este, perde parte da personalidade em alguns momentos. Update: a Marina, minha companheira no roteiro de TerapiaHQ, criticou bastante q qualidade do som, e eu dou total razão a ela a respeito disso.

Mas a visível decepção de boa parte das pessoas não se devia ao Morumbi. Afinal, mesmo com duas horas de show, Eric Clapton abriu mão de grandes clássicos, como Bell Bottom Blues e Sunshine of Your Love, investindo em músicas mais pessoais e até mesmo arriscando um arranjo totalmente novo para sua música-assinatura, Layla.


The gypsy woman told my mother
Before I was born
I got a boy child's comin'
He's gonna be a son of a gun



Antes de falar do show, é preciso discorrer um pouco sobre estas pessoas. Atualmente, qualquer espetáculo de um “astro do rock”, especialmente no Morumbi, torna-se mais um show. É um evento social, que atrai toneladas e mais toneladas de roqueirinhos e roqueirinhas de shopping center. Deixou de ser música para se tornar um flash mob. As pessoas vão apenas para falar que foram.

Você conhece o tipo: veneram publicamente um artista consagrado sem sequer conhecer sua obra, somente porque ele é considerado importante. Falar bem dele traz pedigree à sua imagem de “roqueiro”. E, na semana do show, se tornam os maiores “fãs” do sujeito, escolhendo a dedo dois ou três grandes sucessos e decorando cada verso e acorde. Afinal, é preciso saber cantar ao menos as principais músicas para mostrar a todos ao seu redor o quanto você “sempre” foi “fã”.

Assim, passa dois ou três dias falando somente no artista, aos amigos e na internet, para deixar claro a todos que irá ao show porque é roqueiro; e os dois ou três dias seguintes ao show falando o quanto o espetáculo foi maravilhoso, para deixar claro que foi ao show porque é roqueiro.


He gonna make pretty women's
Jump and shout
Then the world wanna know
What this all about


Já nos shows, o figurino é sempre o mesmo. Montado em lojas de departamento ou de grife, normalmente com blusinhas estampadas com caveiras cercadas de brilhantes, que descobriu em blogs de moda. Isso, claro, para as meninas; os garotos estão sempre com jaquetas rasgadas e camisetas do último show que foram – é a forma de mostrar que aquele não é o primeiro show de sua vida.

Se você conhece alguma pessoa assim, preste atenção nos comentários destas pessoas e você verá que ela usa sempre os mesmos adjetivos e elogios (normalmente vazios) em conversas e nas redes sociais para descrever como os shows nos quais ela foi foram ma-ra-vi-lho-sos. Muitas vezes não é falta de vocabulário, é piloto automático mesmo. Afinal, é preciso mostrar o quanto curtiu o show, pois precisa zelar pela sua imagem de roqueiro.

Já Eric Clapton não tem imagem nenhuma a zelar – e é isso que deve ter decepcionado imediatamente todas estas pessoas que estavam no Morumbi com suas roupinhas de roqueiro de butique e o refrão de Layla cuidadosamente decorado.


But you know I'm him
Everybody knows I'm him
Well you know I'm the hoochie coochie man
Everybody knows I'm him



Porque Eric Clapton não é – ou, melhor dizendo, nunca foi – um astro do rock. Claro, sua importância dentro da história do rock é inegável e isso pode passar uma imagem errada de sua persona. Mas Clapton é, antes de tudo, um músico, e não um astro. Em seus shows, concentra-se totalmente em sua guitarra, em sua banda e em sua música. E só.

Vítima de uma timidez lendária no mundo da música, grita um “thank you” ao final de algumas músicas – e esta é sua única interação com a plateia. Seu show não tem a pirotecnia de outros espetáculos vistos recentemente no Morumbi, baseando-se somente em sua música – o maior exemplo é sua entrada no palco: caminha lentamente, com uma roupa que ele provavelmente usa dentro de casa (calça, camisa e sapatos) acena para a plateia, pega a guitarra e começa a tocar. Pois ele está lá para isso.

Para os roqueirinhos e roqueirinhas que queriam mais um “grande show em seu currículo” para matar os amigos de inveja e parecer cool, isso já tornaria o espetáculo do inglês numa experiência difícil. Mas, para elas, este é apenas o primeiro grande “problema” de Eric Clapton.


I got a black cat bone
I got a mojo too
I got the Johnny Concheroo
I'm gonna mess with you


O segundo – e muito maior - é que, cerca de quinze anos para cá, o guitarrista abandonou totalmente sua carreira de roqueiro e concretizou seu grande sonho, tornando-se aberta e declaradamente um músico de blues.

Em sua biografia, Clapton deixa claro que tocava rock (mesmo com arranjos de blues) porque era o que se tocava à época em Londres, mas seu sonho sempre foi tocar blues “de raiz”. No livro, ele reverencia o tempo todos os grandes nomes do gênero (Muddy Waters, Robert Johnson), praticamente pedindo desculpas por ter mais reconhecimento público que seus ídolos.

E, de dez ou quinze anos para cá, ele assumiu totalmente seu lado blueseiro: gravou um CD com BB King, outro somente com covers de Robert Johnson e investe cada vez mais no seu festival Crossroads.

E este é o Eric Clapton que se apresentou em São Paulo, causando um enorme ponto de interrogação em muitas pessoas da plateia que conhecem a carreira do músico somente superficialmente, muito mais pela mídia do que pelos discos em si.


I'm gonna make you girls
Lead me by my hand
Then the world will know
The hoochie coochie man



Mas não foi por falta de aviso. Já na terceira canção, Hoochie Coochie Man, música de Willie Dixon que se tornou um dos maiores hinos do blues de todos os tempos na voz de Muddy Waters, ficava claro que a noite seria diferente do que estas pessoas esperavam. Para o desânimo das pessoas com camisetas de caveirinhas fofas e botinhas de marca, começou a se desenhar que o Morumbi serviria de palco para um show de blues, e não de rock.

Momentos depois, uma pausa no show que confirma toda a áurea blueseira do espetáculo. Clapton senta-se em um banquinho e começa toda uma parte acústica, abrindo com Driftin’ Blues (composta por uma big band dos anos 40) e a maravilhosa Nobody Knows You When You're Down And Out (que, apesar de estar no disco Layla and Other Assorted Love Songs, é um cover – foi composta na década de 20).

A noite fria definitivamente não é de rock, é de blues. E o frio em São Paulo contagia boa parte da plateia, que apenas assiste ao show, esperando pelo Clapton "herói do rock" construído pela mídia, que parece não ter entrado no palco.


But you know I'm him
Everybody knows I'm him
Oh you know I'm the hoochie coochie man
Everybody knows I'm him



E ao final deste set acústico ocorre o momento crucial do show. Ainda sentado, mas já com sua Fender de volta aos braços, Clapton inicia Layla. Era a música que faria o estádio vir abaixo. Contudo, o que se viu foi certo receio das pessoas em aplaudir, talvez por não reconhecerem o que estavam ouvindo.

Com um arranjo totalmente novo – que fica entre a versão acústica do Unplugged de 1992 e a original, Clapton transformou seu hit num blues amargurado e dolorido, que teria palco mais adequado numa espelunca à beira de estrada no Mississipi do que no palco do Morumbi. Pessoalmente, achei a versão tão boa quanto a original – e só não me arrisco a dizer que ela é melhor em alguns momentos já que a original tem seu status de clássico esculpido em pedra.

Mas foi o momento-chave do show e que talvez simbolize toda a carreira atual do músico. Ali, Clapton abandona definitivamente sua carreira no rock, “sacrificando” até mesmo seu maior sucesso em nome de paixão de sua vida: o blues. O rock ainda existe em seus shows, mas sua alma é definitivamente negra e nascida no sul dos Estados Unidos.

Mesmo sabendo a letra de cor e salteado, não consegui cantar junto. E não por não estar acostumado ao ritmo novo, mas sim por me emocionar demais com a voz gritada do músico implorando “please don’t say we’ll never find a way” para um Morumbi lotado, a ponto de eu quase engasgar em alguns momentos. Eu já havia quase chorado durante o solo de Old Love, somente pelos acordes em si, pois a música não é especial para mim. Coisa de momento.

Coisa de blues.


On the seventh hours
On the seventh day
On the seventh month
The seven doctors say


Aí, sim, temos alguns momentos de rock para que as pessoas de blusinhas fofas e maquiagem no rosto possam contar para os amigos. Quer dizer, rock? Talvez não. A sequência vem com Badge, composta pelo supergrupo Cream, cuja carreira era totalmente baseada no blues americano da primeira metade do século 20; Before You Accuse Me, cover de Bo Diddley, que sempre teve o pé fincado no blues; e a magistral Little Queen of Spades, cover de ninguém menos que Robert Johnson, o mais lendário nome da história do blues e um dos maiores ídolos de Clapton – e de basicamente todos os guitarristas ingleses dos anos 60.

Em meio a tudo isso, Wonderful Tonight, uma das baladas mais belas do guitarrista; e, fechando a primeira parte do show, mais um pouco de “rock”: Cocaine, um dos maiores sucessos da carreira de Clapton – na verdade foi composta pelo seu parceiro J. J. Cale – que ganhou uma versão monstruosa e magistral de oito minutos e encerrou o show como a única música cujo refrão (fácil e curto) foi cantado junto pela plateia.

Após poucos minutos de intervalo, Clapton e a banda voltam ao palco ao lado de Gary Clark Jr, guitarrista texano responsável pelo show de abertura. Considerado o grande nome atual do blues texano, o guitarrista foi apadrinhado por Clapton e chegou a participar do grande festival Crossroads, organizado, pelo inglês, na edição de 2010.

Com todos os músicos no palco, o encerramento definitivo. A versão do Cream para Crossroads, um dos maiores sucessos de Robert Johnson. Agressiva, roqueira, pesada... Mas mesmo assim, um blues em sua essência, e ideal para fechar a noite. Clapton se despede do palco de forma humilde.

Fim.

He was born for good luck
And that you'll see
I got seven hundred dollars
Don't you mess with me


E, ao ver aquela pequena figura vestindo azul caminhando de costas para fora do palco – de onde estava, acompanhei todo seu percurso até ele desaparecer de vista – eu percebi que estava sem palavras. Sem palavras e um tanto quanto emocionado.

Porque nesta noite eu aprendi muito com o blues, vendo algumas de minhas músicas preferidas ao vivo pela primeira vez. O blues é safado em Hoochie Coochie Man, mas dói em Layla; o blues é solitário em Nobody Knows You When You're Down and Out e briguento em Before You Accuse Me. O blues se apaixona em Little Queen of Spades, mas escolhe culpados por ter perdido o amor em Tearing us Apart.

Mas, ao final, o blues admite que não existe resposta para tudo, como Clapton deixou claro ao encerrar seu “discurso” de duas horas com a enigmática e quase hipnotizante Crossroads.

Neste 12 de outubro, eu não tive uma aula de blues. Eu tive uma aula de vida.

Aliás, me arrisco a dizer que a apresentação de algumas horas atrás não foi um dos maiores shows de blues que certamente terei em minha vida, mas um dos maiores que já aconteceram na cidade de São Paulo.

Pena que nem todos entenderam isso. O espetáculo foi difícil e intrincado, intimista e pessoal demais. Mas esteve longe de ser decepcionante. Na verdade, é o contrário. Foi mágico. Pois se tratava de Eric Clapton tocando para Eric Clapton, do jeito que ele sempre quis. E isso é algo que não tem preço, tanto para ele como para a plateia.

A apresentação de horas atrás foi feita para se sentir, digerir lentamente e guardar com você, do seu jeito. E mais nada. Porque foi, antes de tudo, um show de blues.


But you know I'm him
Everybody knows I'm him
Well you know I'm the hoochie coochie man
Everybody knows I'm him


Ontem, Deus esteve entre nós.

Bem aventurados aqueles que entenderam as palavras do Senhor.

Pois é graças a ele (e à sua alma negra) que “I feel wonderful today”.


O universo musical de Eric Clapton.
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10 de outubro de 2011

Man With a Harmonica

De vez em quando eu arrumo algumas manias.

Esta começou alguns anos atrás. Na verdade, eu sempre tive vontade de aprender a tocar um instrumento, mas nunca tive disposição, tempo – e, em minha opinião, talento.

Contudo, a vontade sempre esteve aqui, rodando. Especialmente de alguns anos para cá, quando meu gosto musical rompeu as fronteiras do heavy metal e mergulhou em música clássica, rock clássico e minha grande paixão atual: o blues.

E foi em meio a um disco de blues que eu tive a ideia. Não compraria um violão, uma guitarra, um baixo (instrumento pelo qual sempre fui apaixonado), porque custaria caro e, caso eu não aprendesse nada, teria jogado dinheiro fora. Além disso, já com trinta e poucos anos, eu não queria gastar muito dinheiro para comprar que eu fosse tocar dentro de casa, para minha diversão.

Assim, alguns anos atrás, subi alguns quarteirões na Teodoro Sampaio e entrei em uma das lojas de instrumentos. Saí de lá com uma pequena sacola contendo uma gaita.

Durante semanas, aquilo se tornou uma febre para mim. Apesar de ficar treinando técnicas e macetes em vídeos no Youtube, nunca fiz curso algum, e passava a maior parte do tempo caçando guias (as populares “tabs”, que são partituras para quem não lê partituras) de músicas que eu gostava para tentar tocar.

Na maior parte das vezes, nem executava a música inteira; apenas o começo e o refrão já me bastavam, e eu pulava para outra música, para tentar tocar. E sempre consultando os sites de guias, pois nunca fiquei tanto preso em música a ponto de decorá-la (que eu me lembre, a única exceção é o início de Something, dos Beatles).

E assim passei noites e noites brincando com a gaita. Sozinho em casa. Ia de Beatles para Ray Charles, de Ray Charles para Louis Armstrong, de Louis Armstrong para Rolling Stones, de Rolling Stones para Bob Dylan, de Bob Dylan para Eric Clapton, de Eric Clapton Led Zeppelin, de Led Zeppelin para Beatles novamente.

Ou, melhor dizendo, ia de You’ve Got to Hide Your Away para I Can’t Stop Loving You, de I Can’t Stop Loving You para What a Wonderful World, de What a Wonderful World para Ruby Tuesday, de Ruby Tuesday para Blowing in the Wind, de Blowing in the Wind para Tears in Heaven, de Tears in Heaven para Starway to Heaven, de Starway to Heaven para Let it Be.

Essas, claro, são apenas algumas que eu me recordo de cabeça de tocas, mas as canções que eu gostava de tocar eram muitas. E sempre para mim

Não, minto. Fiz duas apresentações.

Uma para a minha mãe: num aniversário dela, toquei “Parabéns pra Você” para ela depois de ensaiar a música por uma semana.

A outra, eu também estava com a minha mãe. Estava no shopping Ibirapuera com ela, e decidi comprar uma gaita em uma loja ali perto. Assim que saí da loja, puxei a gaita da sacola e disse “vou experimentar”, tocando os primeiros acordes de Octopus’s Garden, dos Beatles (esta eu também sabia de cor à época). Assim que toquei, um rapaz saiu de uma farmácia e me disse:

- Isso é Beatles!

E eu ganhei meu dia.

Além de tocar canções que gosto, eu também adorava inventar. Ficava sentado no sofá brincando com a gaita, pensando na vida. E inventava também com as próprias músicas: uma mania que desenvolvi foi diminuir a velocidade de determinadas músicas, deixando-as mais lentas, o que combina perfeitamente com o som da gaita.

Com o tempo, a febre passou, mas nunca abandonei a gaita. Às vezes me esquecia dela por um tempo, mas sempre voltava para ela, passando algumas horas brincando. Contudo, nunca cheguei a tocar de verdade. Tanto que, até hoje, caso perguntem se toco algum instrumento, eu respondo sempre que não. E se alguém vê minha gaita em casa, eu digo que apenas “brinco”.

E aí chegamos onde eu queria. Atualmente, com tudo o que estou passando, “brincar” se tornou uma palavra essencial, mas perigosa. “Essencial” porque me faz muito bem; “perigosa” por eu ainda não conseguir lidar com emoções fortes – mesmo quando elas são boas, ainda me afetam demais, quase como uma crise de ansiedade invertida, com os mesmos sintomas: pernas moles, enjoo, taquicardia, tontura. Ou seja, dá-lhe Rivotril.

Enfim, não quero me alongar muito sobre este assunto hoje. Meu fim de semana foi ótimo, e não quero revirar a depressão ou a síndrome do pânico agora – prometo que em breve farei um novo post sobre isso, contando como estou.

Mas cabe dizer que música tem me ajudado muito. Especialmente blues. E talvez seja por isso que voltei a ter aquela coceira com a gaita. Comprei uma nova ontem e passei algum tempo brincando com ela. Perdi um pouco do jeito, mas estou recuperando aos poucos. E já descobri que ficar sentado num sofá, brincando com ela – seja sozinho, seja com a namorada ao lado – me transmite uma paz absurda.

E paz é tudo o que eu preciso. Mesmo que seja na forma dos versos de uma música que gosto, tocada de forma casual e sem compromisso algum, com a minha gaitinha. Tocada por mim e para mim.

Assim, gostaria de encerrar este post não com palavras, mas com as notas musicais de uma música doce e pacífica, quase preguiçosa, do Eric Clapton: Wonderful Tonight.

Claro que seria fácil eu ter escolhido esta música apenas por ele estar no Brasil – basta um músico de renome tocar no país para a maior parte das pessoas que conhecem duas ou três músicas se autoproclamarem “fãs” – mas eu devo muito a este sujeito. Afinal, suas canções “lado B” foram uma das maiores portas de entrada para o blues que tive na vida, quando eu tinha cerca de 16 anos. Mas ainda vou falar disso nesta semana.

Enfim, queria deixar vocês com esta música. Ou, melhor dizendo, com a minha paz.

Afinal, com todo o apoio que tenho recebido de vocês, o mínimo que posso fazer é dedicar a vocês, leitores do blog, a primeira música que gravo brincando com a gaita.

Muito obrigado por tudo.


13 de julho de 2011

How Blue Can You Get?

No Dia Mundial do Rock, é decisão deste blog não falar sobre rock. Ou, ao menos, não exatamente sobre rock. Afinal, hoje em dia pipocarão textos e mais textos sobre o gênero na internet. Alguns serão emocionais, outros serão teóricos. Alguns apresentarão listas das melhores canções, outros dirão que o rock morreu.

No Dia Mundial do Rock, é decisão deste blog voltar mais ainda no tempo e falar sobre blues.

A vontade de escrever sobre blues e como suas músicas praticamente salvaram minha vida – ao menos em alguns momentos – é antiga. Mas acabei sempre deixando a ideia de lado, por dois motivos. No início, eu achava que não entendia o suficiente para escrever sobre o tema. Depois, com o surgimento da HQ Terapia, eu não quis trazer o blues para o blog antes que suas músicas se tornassem parte vital da trama.

Contudo, a presença constante destas músicas nas páginas recentes de Terapia fez surgir o interesse de muitos leitores e amigos pelo gênero, que vieram me pedir indicações de músicas e artistas. Assim, a vontade de escrever voltou. Mas não escrever sobre o blues, e sim sobre a forma que eu enxergo o blues. Pois hoje eu sei que você só entende perfeitamente o blues quando descobre que ele não foi feito para ser entendido. Exatamente como a vida.

Sim, é possível teorizar. É possível falar parágrafos e mais parágrafos sobre a estrutura do blues, abordando os 12 compassos musicais e os versos que seguem a ordem “pergunta-repetição da pergunta-resposta”. Mas teorizar o blues é quase estragar o blues. Mais que música, blues é um estado de espírito.

Da mesma forma, é fácil pintar o blues como é um dos pais do rock, ao lado do country. O número de bandas e artistas que surgiram por causa do blues – ou que tem influência de blues em suas composições – é enorme, indo de Beatles a Bob Dylan, de The Doors a Jimi Hendrix. Como exemplos concretos, basta dizer que o Led Zeppelin foi processado por regravar músicas de Willie Dixon (You Shook Me e I Can’t Quit You Baby) sem os devidos créditos, e que o nome Rolling Stones foi escolhido para homenagear uma música de Muddy Waters. E falar de Eric Clapton aqui seria covardia.

Sim, o blues é o grande pai do rock. Mas, diferente do rock, é impossível precisar sua origem. Gosto da frase que diz que “o blues existe desde o começo dos tempos, desde que a primeira mulher mentirosa conheceu o primeiro homem cafajeste”, mas ela restringe o gênero, apontando que o blues gira somente em torno de corações partidos.

Sim, boa parte das suas composições aborda este tema, mas existem outros assuntos dominantes. O blues canta a verdade que está nas ruas, de uma forma muito mais lírica e muito mais cortante que o rock. Suas músicas são sobre corações partidos, sobre homens que traem e mulheres que tratam mal o homem que a ama; mas também abordam os problemas com a bebida, a falta de dinheiro, a solidão, a fé, paixões doentias, o frio e suas doenças, a ânsia de partir para outro lugar e começar tudo de novo.

Enquanto o rock usa drogas e dorme com groupies, o blues enche a cara de cachaça barata e dorme com as mulheres erradas. Enquanto o rock morre de overdose em hotéis luxuosos, o blues tem pneumonia e perde o salário do dia. Enquanto o rock é acusado de atrapalhar a educação dos jovens, o blues é o marginal que exala o cheiro das ruas. Enquanto o rock quer drogas e sexo durante a noite inteira, o blues deseja apenas uma nota de 20 dólares para pagar um jantar, um par de sapatos confortáveis e um uísque. Enquanto o rock acorda no meio da tarde, o blues acorda cedo porque precisa trabalhar. Enquanto o rock lamenta a saudade do grande amor perdido, o blues sabe que apenas levar este amor para a cama aplacará a dor – que, no caso do blues, chega a ser física. Sim, a dor do blues é quase física. E a felicidade do blues é passageira. Mas existe.

O blues não é uma starway to heaven, tampouco uma highway to hell. O blues é a realidade, seja ele cantado nas cidades grandes ou nas plantações de algodão. Como disse o cantor Brownie McGhee, “o blues não é um sonho, o blues é a verdade.” E a realidade, diferente do sonho de John Lennon, não acaba.

Agora, chega de falar. No Dia Mundial do Rock, deixo vocês com não com um Top 5, mas sim com um Top 3 Artistas de Blues, que, para mim, compõem a Santíssima Trindade do gênero. Não é a toa que são justamente estes que estão retratados nos posters respeitosamente pendurados no quarto do personagem central de Terapia, como visto no último quadro da página 07.

1 - Robert Johnson
É a maior lenda do blues. Ninguém sabe ao certo quando nasceu ou onde está enterrado. Diz a lenda que vendeu a alma ao Demônio, o que seria reforçado (ou explicitado?) por músicas como Hellhound on my Trail e Me and the Devil Blues. Gravou somente 29 músicas, em condições precárias (num hotel, de forma absolutamente amadora) e mesmo assim é considerado um dos guitarristas mais influentes de todos os tempos. Eric Clapton gravou um CD somente com suas canções e Keith Richards afirma que, ao ouvi-lo pela primeira vez, demorou a se convencer de que se tratava de apenas uma pessoa (e não duas) tocando.








2 - Muddy Waters
Provavelmente o maior nome do blues nas décadas de 40 e 50 (sendo redescoberto pelos roqueiros ingleses na década de 60), fez história sobretudo ao ligar sua guitarra na tomada, décadas antes de Bob Dylan fazer o mesmo. Assim, o blues se tornou urbano e, consequentemente, mais safado. Sua obra alterna temas como a dor de ser mal tratado pela mulher que ama (Good Looking Woman) e a vontade de aplacar a saudade com sexo (I Just Want to Make Love to You). Contudo, às vezes deixa a fossa de lado e sai de casa disposto a levar a cidade inteira para a cama graças a sua música, como fica claro em Hoochie Coochie Man, talvez o maior hino da história do blues.






3 - John Lee Hooker
Se existe um bandido na história do blues, este sujeito é John Lee Hooker. Cara de marginal, voz grave e ameaçadora (ele praticamente fala, sem cantar) e, nos últimos anos de vida, figurino de gigolô, não é difícil imaginar que andava para cima e para baixo com uma navalha no bolso. Apesar de falar sobre amor de forma solitária e amarga, também aborda com frequência temas como a pobreza e a busca pela felicidade na forma de uma mulher, de uma garrafa (ou de três garrafas, como fica claro em One Bourbon, One Scotch, One Beer), ou evidentemente, no blues, como fica claro em The Healer.




Existem outros. Muitos outros, talvez até mais famosos, como BB King – que também adoro (o título do post é inspirado em uma canção sua). Mas estes três são os meus. Enquanto os outros músicos de blues cantam para mim, estes três vão além e conversam comigo. É difícil explicar.

Porque, na verdade, o blues é difícil de explicar.

E esta é justamente a sua magia.

7 de abril de 2011

Um Bourbon, Um Scotch, Uma Cerveja

Quero contar uma história a vocês,
É o blues sobre a casa de um homem.
Eu entrei em casa numa sexta-feira,
E contei a minha senhoria que havia perdido o emprego
Ela disse: “Isso não afeta a minha vida,
Desde que eu receba meu dinheiro na próxima sexta.”
A próxima sexta chegou, eu não tinha o dinheiro do aluguel.
E saí pela porta.

Então eu disse à senhoria
Eu falei “você deixa eu entrar de mansinho?
Eu vou ter o dinheiro do aluguel amanhã
Mas depois de amanhã eu já não sei mais.”
Pedi que ela me deixasse entrar de fininho, sabem?

Reparei que toda noite, quando eu entrava em casa
Ela não tinha nada agradável para me dizer
Mas por cinco anos ela havia sido tão simpática.
Sempre havia sido muito amorosa.

Eu entrei em casa numa noite específica
A senhoria me perguntou “você já tem o dinheiro do aluguel?”.
Eu respondi que “não, não consigo arrumar emprego
Logo eu não tenho o dinheiro para pagar o aluguel”.
Ela falou “não acredito que você esteja tentando encontrar emprego”
Disse: “Vi você hoje parado em uma esquina, apoiado num poste”.
Eu respondi “mas eu estava cansado, havia andado o dia inteiro.”
Ela disse que “isso não afeta a minha vida”
Desde que eu receba meu dinheiro na próxima sexta.”
A próxima sexta chegou, eu não tinha o dinheiro do aluguel.
E saí pela porta.

Então fui para as ruas
até a casa de um amigo meu.
Disse “Cara, eu estou sem lugar para ficar,
Posso ficar uns dias com você?”
Ele disse que “deixe-me perguntar a minha mulher”.
Ele saiu de casa, e eu podia ver no seu rosto que a resposta era “não”.
Ele disse que “sei lá, cara, ela é meio estranha, sabe?”
Eu respondi “eu sei, todo mundo é meio estranho.
Agora você é estranho também”.
E voltei para casa.

E disse à senhoria que arrumei um emprego
E que iria pagar meu aluguel.
Ela disse “Mesmo?”
E eu disse “Mesmo”.
E ela foi super agradável.
Porque ela sempre foi agradável.

Subi até meu quarto, guardei minhas coisas e saí.
Saí escondido pela porta dos fundos.
E fui para as ruas.
Ela estava reclamando sobre os aluguéis adiantados
Ela teria sorte se recebesse os atrasados.
Ela não vai receber nenhum!

Então parei no bar ali perto, sabe?
Fui ao balcão, pendurei meu casaco
Chamei o barman
E disse “Venha até aqui!”
Ele foi até mim e perguntou “o que você quer?”

Um bourbon, um scotch e uma cerveja.
Eu não vejo minha garota desde sabe-se lá desde quando
Então estou bebendo bourbon, uísque, scotch e gim
Quero ficar louco, quero me perder
preciso de uma dose tripla desse negócio aí
Quero ficar de fogo, não precisa se assustar.
Eu quero um bourbon, um scotch, uma cerveja.

Um bourbon, um scotch e uma cerveja.
Então estou sentado no bar
Ficando bêbado, me sentindo mole.
bebendo bourbon, bebendo scotch, bebendo cerveja
Olhei para o bar, lá estava o barman.
E disse “Venha até aqui”
Ele foi até mim e perguntou “o que você quer?”

Um bourbon, um scotch e uma cerveja.
Não vejo minha garota desde a noite de anteontem
Preciso de um drink, preciso ficar ligado.
Preciso ficar alto, e ainda não é suficiente.
Preciso de uma dose tripla desse negócio ai
Vou ficar de fogo, então preste atenção.
Eu quero um bourbon, um scotch, uma cerveja

Um bourbon, um scotch e uma cerveja.
A esta altura eu já estava ficando de fogo.
Você sabe disso quando sua boca começa a ficar seca.
Olhei para o bar, lá estava o barman.
E disse “Venha até aqui”
Ele foi até mim e perguntou “o que você quer agora?”
Eu perguntei “cara, que horas são?”
Ele respondeu que o relógio da parede dizia que eram três horas.
“É a última dose de bebida por hoje. O que você precisa?”

Um bourbon, um scotch e uma cerveja.
Eu não vejo minha garota há uma semana e uma noite
Quero ficar de fogo até nem conseguir mais falar.
Quero ficar alto, então preste atenção
Uma dose não vai ser suficiente, melhor me dar logo três.
Eu quero um bourbon, um scotch, uma cerveja.

Um bourbon, um scotch e uma cerveja.






Post dedicado a George Thorogood, que, ao reunir duas das melhores canções de John lee Hooker em uma única canção, conseguiu resumir absolutamente tudo o que está acontecendo na minha vida.