3 de maio de 2013

Mississipi em Chamas


Foi agora, no metrô.

Entrei e, como o vagão estava vazio, me apoiei na porta. E com meus fones nos ouvidos, troquei o CD do iPOd e ele decidiu que era hora de eu ouvir Me and Mr. Johnson.

Este CD, para quem quer conhecer blues, é sugestão obrigatória. São de versões do Eric Clapton para as músicas do Robert Johnson – ou seja, são as canções do maior blueseiro morto, interpretadas pelo maior blueseiro vivo. E me arrisco a dizer que Clapton é o homem que, atualmente, mais conhece Johnson, mais que qualquer biógrafo – e isso fica claro em cada música.

Ativei o shuffle, apertei o play e os primeiros acordes de Stop Breaking Down Blues começaram a tocar.

Ainda apoiado na porta, fechei os olhos.

E comecei a sentir o perfume de terra molhada.

Cheiro de terra vermelha e molhada. Terra de estradas pouco iluminadas, cercadas de mato em seus dois lados, terra de carroças e de andar descalço durante o dia. Mas era noite eu usava botas, um pouco envelhecidas e sujas, mas guardadas para ocasiões especiais.

E foi com estas botas que entrei no bar, segurando ela pela mão, e caminhei em direção a uma mesa do canto. Ninguém ouviu meus passos abafados pelo som do falatório animado, mas muitos sorriram para nós. Alguns acenaram com a cabeça. Pessoas que eu conhecia de vista, pessoas que eu conhecia por morarem perto de mim, pessoas que eu não fazia ideia de quem eram.

Sentado e com os cotovelos apoiado na mesa de madeira grossa e torta, pedi quatro doses. Duas para mim, duas para ela. E só. Pois é o tipo de bar que você não precisa explicar qual sua bebida, somente quantas doses você quer. O primeiro copo desceu rasgando e queimando, mas amorteceu o caminho para o segundo, que foi engolido mais fácil.

Algumas pessoas sentaram-se conosco. Amigos. Amigos de dia a dia, amigos de reclamar da vida, amigos de calos nas mãos, amigos de risada nas horas de bebida, amigos de consolo nas tempestades. Com eles, vieram outras doses, acompanhadas de conversas e lendas. Lendas sobre almas vendidas em encruzilhadas dançavam ao redor de reclamações sobre as chuvas.

Piadas sobre trabalho no campo davam as mãos às histórias de cães do inferno perseguindo cantores amaldiçoados. E risadas que faziam o bar – nada mais que um barraco – parecer tremer. E o cheiro de terra molhada deu lugar a um misto de suor, álcool e risadas. E a bebida queimava cada vez menos, ao contrário da alma.

Foi quando o violão começou a soar.

Um homem negro e magricela dedilhava as cordas com um bico de garrafa preso no indicador. Seus dedos percorriam as cordas como uma aranha. E quando cantou, sua voz poderosa abafou a tormenta de barulho do bar, mas somente por alguns instantes, até que todos se levantaram e começaram a dançar.

Suas músicas eram interrompidas somente para longas goladas na garrafa de uísque de milho que colada aos seus pés, brilhava sob a luz. Sob o efeito de sua voz e dos acordes misteriosos, todos dançaram, fazendo o barracão tremer.

Eu me levantei sem poder me controlar. Todos os meus movimentos pertenciam aos acordes do violão e às batidas pesadas do pé do cantor no chão. E quando percebi, estava no meio de uma multidão apertada, sem conseguir parar de mexer.

Eu e ela e o bar inteiro dançamos amores perdidos no passado, cantamos o trabalho duro debaixo do Sol forte, aplaudimos a falta de dinheiro para roupas novas, oramos a fé em Deus que um dia as coisas vão melhorar, requebramos o sexo suado na parede da sala, louvamos amores reais que cuidam da alma, rodamos o sonho de largar tudo para trás e viajar queimando na mente, e nos abraçamos suados esperando o dia do Julgamento.

Cada um dançava a seu modo, expiando pecados para fora da alma, expulsando tristezas para fora do coração, transpirando a rotina dura para fora do corpo. Não havia ordem. Havia somente suor e álcool. E de repente não havia mais música. Éramos a música.

E feito música suada e embriagada dançamos até alta madrugada. E, pouco antes do nascer do Sol, suados, nos despedimos de todos pouco depois do homem negro recolher seu violão, emprestar outra garrafa e desaparecer na noite, para nunca mais ser visto – no sábado seguinte, outro homem cantaria outras músicas sobre os mesmos amores e pecados e sonhos.

E, sentindo o cheiro de terra molhada e vendo o céu se tornando laranja no horizonte, voltamos em direção à nossa casa de madeira, afastada da estrada e isolada do luxo. Mas, no meio do caminho, tirei as botas e deixei meus pés sentirem a terra.

Sem falar palavra alguma, eu e minha pequena rainha de espadas, agora sozinhos, dançamos na estrada de terra. De mãos dadas, ela rodando na minha frente e fazendo sua saia branca girar, desafiando o Mississipi e gastando os ecos da música sensual e dolorida que ainda escorriam junto com o suor das minhas costas.

Poderíamos ir para casa outra hora. O dia ainda não havia nascido, e o dia seguinte era domingo.

Mesmo com todo o tempo do mundo, me obriguei a abrir os olhos ao ver que a próxima estação era a minha. Olhei ao redor, observando pessoas no metrô com ar cansado, mexendo em seus celulares ou lendo livros sem paixão nos olhos. Chacoalhei a cabeça e voltei ao mundo real.

Mas jurei baixinho que um dia voltarei para lá, para sentir a terra nos meus pés e a música na alma.

17 comentários:

cmmarcondes disse...

Porra Rob!
Caiu uma lagriminha marota demais...
Texto bom, pra caramba! Tem um ou dois typos e tal, mas tá mais que excelente!

Forte abraço!

Maurílio Resende disse...

Seja crônica, ensaio, poema ou redação de escola, os melhores textos são os apaixonados, como este, por sua natureza apaixonantes, sinceros. Textos que são alma.

É triste perceber que existe pouca paixão no mundo, a rotina afoga o belo. É triste perceber que mesmo eu sou bem mais cinza do que gostaria. Eu nunca estive tão cinza, na verdade.

Mas são esses sopros de paixão que ajudam a dar aquela respirada, e seguir tentando. Até a nossa alma queimar.

Adriano disse...

Nunca pensei que você gostasse de micareta.

Brincadeira! São textos como esse que separam as "pessoas que gostam de escrever" dos verdadeiros escritores.

Hally disse...

Por um momento meu café virou uísque e me vi nesse salão, olhando o povo dançando ao som da vida. Simplesmente adoro quando isso acontece, ainda mais depois de ter resolvido inúmeros problemas antes das 10 horas da manhã de um sábado. Muito obrigada!

Leonardo Gedraite disse...

Ia escrever alguma coisa aqui mas o suor que pingou no teclado depois da dança esta tornando difícil completar qualquer coisa.

Mais um ótimo texto, parabéns Rob

Rafiki Papio disse...

!!

Eu quero conhecer esse lugar, desesperadamente.
Meus olhos já estão ficando brancos, por completo.

Hydrachan disse...

Aquele lugar para onde a gente vai quando a música é boa. E você ainda foi muito bem acompanhado ;)
Sei qual é a sensação.

Lindo texto, Rob. =)

Bjs!

Varotto disse...

Bonito...

Mas achei mais a cara do Chronicles.

Rob Gordon disse...

cmmarcondes:

Já arrumei os erros, valeu! (Foi pro ar sem revisão mesmo, com "os pés no barro")

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Maurílio:

Você disse que existe pouca paixão no mundo, hoje, e eu concordo. Mas não acho que seja somente a rotina que causa isso. Vivemos na era do enfado e do individualismo. A paixão é sufocada o tempo inteiro.

Obrigado pelos elogios, cara.

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Adriano:

Tirando a parte da micareta, vou guardar isso comigo. Mesmo. Valeu!

Rob

Rob Gordon disse...

Hally:

Aposto que seu café ganhou mais ritmo... E tomara que tenha ganhado mais sabor!

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Leonardo:

Transpire. Esse texto sempre vai estar dentro de um sábado à noite, não há pressa.

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Rafiki:

Primeiro, eu também quero. Muito. Segundo, essa sua frase sobre os olhos dá um bom começo de blues.

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Hydrachan:

Obrigado - não somente pelos elogios, mas por ter ido ao lugar do texto.

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Varotto:

Eu também. Mas, como "aconteceu" de verdade, entra aqui. Regras são regras. :)

Abraços!

Rob

Sérgio Miranda Leitão disse...

Infelizmente fiquei um tempo sem ler o Championship e voltei por um texto sobre BB King (http://champ-vinyl.blogspot.com.br/2015/05/the-thrill-is-gone.html?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed:+champ-vinyl+(Championship+Vinyl))
E cheguei nesse post com a certeza de que não ficarei mais nenhum tempo sem ler coisas preciosas como essa.
Obrigado Rob!