5 de maio de 2013

O País que Fura a Fila da Padaria para Comprar um Frango


Acabei de voltar da padaria.

Precisava sacar dinheiro, então aproveitei e comprei uma garrafa de Coca para o almoço, e um maço de cigarros. Antes de continuarmos, vale dizer que a padaria aqui ao lado de casa se tornou um inferno aos domingos, desde que o dono começou a vender frangos. Está sempre lotada, tanto no caixa como na calçada, onde fica o forno.

Enfim, eu queria apenas uma garrafa de Coca. Entrei na padaria, fui até a geladeira, peguei o refrigerante e fui para a fila do caixa, atrás de um casal. Como eu imaginava, vi umas cinco pessoas na minha frente. Assim, fiz o que costumo fazer numa situação dessas: tirei o celular do bolso e iniciei uma partida de buraco – sim, eu adoro jogar buraco e tenho um aplicativo disso no celular.

E, assim, entre um joguinho de paus e a atenção ao quatro de ouros que eu não podia descartar de forma alguma, a fila foi andando. Foi quando ainda havia dois clientes na minha frente que eu a vi: uma mulher de seus cinquenta e poucos anos, esperando para ser atendida. Fora da fila. Ao meu lado, entre o casal e eu.

Na hora, imaginei que ela fosse furar a fila. Mas, logo me convenci do contrário. Ninguém teria a cara-de-pau de furar a fila desta forma. Até aonde eu sei, furar a fila é uma arte: você precisa entrar na fila no momento em que ninguém estiver olhando e, depois disso, agir de uma forma que não levante suspeita alguma, mostrando que você sempre esteve ali na fila, e que as pessoas atrás de vocês que não tinham reparado nisso.

Assim, concluí que a mulher iria apenas perguntar algo para a funcionária do caixa. Voltei minha atenção para o celular, e resmunguei baixinho quando desisti de comprar a mesa para receber uma carta repetida do monte. E o casal à minha frente foi atendido, pagou pelos seus produtos e foi embora.

Antes que eu desse um passo à frente, a mulher encostou-se ao balcão, jogou uma nota de cinquenta reais e pediu um frango.

Eu abaixei o celular e olhei para a mulher.

Minha primeira reação foi bater no ombro dela, chamar sua atenção e explicar que eu era o próximo a ser atendido, como ela certamente havia percebido. Algo me dizia que ela retrucaria, explicando que “chegou primeiro” ou que “é apenas um frango”, eu responderia de volta, desta vez sendo grosso. Ela seria grossa de volta. Pronto: o tempo ia fechar na padaria.

Mudei de ideia e resolvi não falar nada.

Minto. Mudei de ideia e desisti de falar as outras duas coisas que pensei.

A primeira delas envolvia perguntar se ela estava adaptando o conceito de “ladrão de galinha” para o século 21. Talvez rendesse até um post (dependendo da resposta dela, claro), na qual eu traçaria toda a evolução dos ladrões de galinha, desde suas origens roubando galinheiros nos anos 50 até os dias de hoje, onde eles roubam um papel escrito “frango”, que seria quase uma galinha virtual. Mas desisti. De repente, percebi que não valia a pena.

A segunda coisa que pensei em dizer foi comentar para mim mesmo, mas em alto e bom som, que “isto é um tipo de canibalismo, certo? Afinal, nós temos uma galinha comendo um frango, é quase um fenômeno biológico”. Esta alternativa com certeza resultaria em quebra-pau – e algo me diz que com grandes chances de visita à delegacia.

Mas não falei nada. Fiquei quieto, não por causa do medo da briga ou do escândalo, mas sim pela onda de desânimo que eu senti. Você já deve ter sentido algo parecido. É quando você convive com um problema tempo demais até ele começar a fazer parte da sua vida. Você não consegue resolvê-lo, e ele está sempre ali, incomodando. Às vezes mais, às vezes menos.

Contudo, de repente, num dia como outro qualquer, o problema aparece não para incomodar, mas para fazer você perceber que não vai ter solução, e que vai ser sempre assim. Esse foi o desânimo que senti. De repente, perdi a vontade de arrumar confusão, de criar um post novo em cima do fato...

Aliás, de repente, perdi a vontade, ponto.

Deixei a mulher comprar o frango. Paguei meu refrigerante e meu cigarro e voltei para casa. No caminho, vim pensando sobre muita coisa que tenho visto nos últimos dias, especialmente nas redes sociais.

Pois hoje me parece que se confunde o “direito de dar opinião” com o “dever de dar opinião”. Ficar calado é quase um crime. Você tem a obrigação de opinar, como se fosse uma ditadura da democracia.

E ai de você se sua opinião não for definitiva. E não é apenas política, é tudo. Desde futebol até coxinhas.

Ali, do sofá, debate-se durante horas qual dos cantores que brigam por política está certo; qual o único partido político que presta no Brasil; como o governo do partido rival ao seu praticamente acabou com o planeta; como o escândalo no qual o partido que você apoia é uma mentira da oposição.

Debate-se muito, xinga-se muito, ataca-se muito, inventa-se muito e muda-se nada. 

Se você é uma dessas pessoas, que discute desta forma na internet, certo de que está fazendo o melhor para o seu país, deixe-me falar uma coisa: você provavelmente mal conhece o país onde mora.

Pois o país onde você mora não está preocupado com suas opiniões sobre política ou economia jogadas na internet; o país onde você mora não está preocupado em saber qual partido é formado por heróis, e qual é formado por vilões; o país onde você mora não está preocupado em saber se a propaganda X é sexista, se o deputado Y aceitou propina, se o partido irá interferir com o Judiciário.

É uma discussão estéril, feita na internet, pela internet, para a internet. Pois não se discute para melhorar o país, se discute somente para provar que o adversário está errado e ganhar a discussão - pois a regra na internet não é aprender com a opinião do outro, é mostrar que ela está errada.

Assim, a discussão não chega às ruas. Ela não chega ao país verdadeiro. Pois o país onde você mora não está na internet, nem nos jornais. O país onde você mora está lá fora, pouco se importando para tudo isso que se discute na internet. São realidades diferentes.

Pois o Brasil verdadeiro está ali, nas ruas, furando a fila para comprar um frango na frente dos outros.

E não, não me diga que estou generalizando. Não estou. O país onde você mora está furando a fila da padaria, mas está também estacionando em local proibido porque ninguém vai ver, está dando errado troco errado, pois ninguém vai perceber.

O país onde você mora está andando de bicicleta na contramão porque ninguém tem coragem de reclamar, o país onde você mora está colocando um frasco de xampu na bolsa porque a câmera está virada para o outro lado, o país onde você mora está usando ingredientes vencidos porque é mais barato.

Ao mesmo tempo, o país onde você mora proíbe você de atender o celular no banco porque você pode ser um assaltante, impede você de sacar dinheiro à noite, pois não evita o crime, recomenda que você ignore o sinal vermelho para não ser assaltado. O país onde você mora levanta sua nota e olha contra a luz para ter certeza de que não é falsa.

Este é o país onde você mora. O que se discute na internet não é a causa disso, é apenas mais uma consequência. E discutir uma consequência nunca resolveu um problema. Não seria agora que isso iria mudar.

Mesmo porque, sejamos sinceros... Não mudou até hoje. 

Vai mudar algum dia?

22 comentários:

Varotto disse...

Infelizmente, eu também já desisti.

Lu Lima* disse...

Se pessoas inteligentes como você desistiram, pergunto eu: o que nos resta? Jogar buraco enquanto o mundo se estapeia por um frango? O destino é esse? Não há mesmo nada a ser feito?

Arthur Gonçalves disse...

Eu discordo muito do texto. Acho que não discutir (de maneira saudável, construtiva E respeitosa) é o primeiro passo para ser omisso, sem opinião e fechado à troca de ideias e pensamentos. Eu mesmo já mudei de ponto de vista algumas vezes por contas de discussões na internet, que abriram meus olhos para determinada situação.
O problema, meu caro, é quando as pessoas se concentram APENAS nisso. Discutir na Internet não é um problema, discutir APENAS na Internet é que é.

E se um dia perdemos as esperanças, aí sim é que nada vai mudar. Para se alcançar algo, deve-se primeiramente sonhar com isso.

Fagner Franco disse...

São tantas coisas a concordar, mas vou comentar uma delas (quase complementando - ou dizendo a mesma coisa em outras palavras), que é o fato de "nesse mundo lá fora" ter o lado corrupto e o lado corruptor. O lado daquele que, ao perder a CNH, não cumpre com a obrigação, mas encontra um jeitinho brasileiro de não fazer nada e simplesmente, poucos meses depois, ter seu problema resolvido, é aquele que burla o imposto de renda, enfim. E quanto a essa incrível necessidade de opinar e opinar, eu (já comentei contigo) não suporto, a ponto de, felizmente, hoje ignorar. Vez ou outra, algo me incomoda, mas na maioria das vezes, consigo ignorar essa mania estúpida de achar que preciso ser especialista em qualquer assunto. Belo texto. Nem sabia pra onde ele iria me levar e gostei onde foi parar.

Nelson disse...

Eu também ando bem desanimado com o mundo. Não sei se tudo realmente piorou ou sou eu que estou notando mais estes problemas crônicos de caráter/burrice que acontecem por aí.

No que me resta, eu faço a minha parte. Sou honesto e sempre que faço merda peço desculpas. O problema é que esse comportamento é tão raro que um caráter respeitoso é considerado qualidade. Nivelamos tudo por baixo.

Umas semanas atrás fui na padaria comer uma coxinha e tomar um café. Quando fui pagar, só constava o café na minha comanda. Disse a verdade para o caixa, e fiquei surpreso com a cara que ele fez... uma mistura de gratidão com um "você é bobo demais". Não deveria ser assim.

Ricardo Wagner disse...

Eu não desisti. Não de mim.

Provavelmente teria reclamado. Acontecesse barraco ou não.

Já tenho feito coisas similares no dia a dia. Não me limito mais a reclamar na internet, a única ressalva que tenho feito é relativa a estar com minha esposa.

Se ela estiver comigo, evito porque:
1. Me exalto;
2. Perco a cabeça;
3. Posso e vou descontar nela minha raiva do momento (e não vale a pena nesse caso), ainda mais se ela pedir para eu parar (eu raramente paro).

Caso contrário, farei (e faço) todo e qualquer barraco pelo que acho certo. E por quem julgo que valha a pena.

Cada barraco que não faço hoje, será um malefício para minha saúde física e mental amanhã. Eu sei como fico quando deixo de reclamar por algo que acho errado.

Hally disse...

Eu sou do tipo que não desistiu, mas é covarde. Quando utilizam a amizade pra furar a fila do ônibus, por exemplo, eu não falo nada (por conta da covardia), mas fico puta da cara desejando fortemente que a pessoa morra de câncer no cu.

Não muda nada e só o minha úlcera nervosa que dá as caras... queria ter mais coragem, às vezes.

Rob Gordon disse...

Varotto:

Triste, né?

Abraços.

Rob

Rob Gordon disse...

Lu Lima:

Neste caso, não é a inteligência que conta. É o cansaço.

Beijos

Rob

Rob Gordon disse...

Arthur Gonçalves:

Antes de mais nada, obrigado pelo comentário. Concordo com o que você disse a respeito da importância de uma discussão. Isto posto, continuo mantendo o que escrevi aqui, pelos seguintes motivos:

1) Como eu deixei claro no texto, as discussões (especialmente as políticas) na internet acontecem dentro de uma redoma. São exércitos de militantes combatendo entre si em nome de um partido, nunca de um país melhor.

2) Elas estão totalmente desconectadas da realidade. Acusa-se o político X de roubo e o político Y de suborno, ignorando o fato de que eles não roubam porque são políticos; ser político apenas abre a oportunidade para que isso aconteça. Basicamente, eles estão políticos; eles são brasileiros.

Entretanto, o mote do texto nunca foi dizer que as discussões políticas na internet são inúteis e devem acabar. O mote foi dizer que não adianta discutir a honestidade de um deputado, de um senador, se o país está envenenado de corrupção, jeitinhos e falta de educação em sua essência, que é o povo nas ruas.

E um país cujo povo não é honesto jamais terá políticos honestos - mais um motivo para as dicussões serem inúteis. Não é preciso mudar a política do Brasil, é preciso mudar a mentalidade de todo um povo.

E, como eu termino o texto dizendo, não mudou até hoje.

Muito obrigado pelo comentário, cara.

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Fagner:

Apenas completando o seu pensamento - e o ligando às redes socias - com uma frase que pensei depois de postar: estamos falando da pessoa que reclama do alto preço de um ingresso, mas que compra assim mesmo, com carteirinha de estudante falsa.

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Nelson:

Não deveria ser assim. O consolo que me dá é que pessoas como você são as únicas que separam isso aqui do abismo.

Abraços

Rob

Rob Gordon disse...

Ricardo Wagner:

Você está coberto de razão. Mas, desta vez... Não sei. Perdi o tesão. Perdi a vontade de tentar mudar, de tentar fazer o certo prevalecer.

Na próxima, certamente farei. Me conheço, não consigo deixar barato. Mas, desta vez... Não sei. Apenas suspirei e ignorei. Cansaço demais.

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Hally:

Você não precisaria "ter mais coragem" se o país "fosse mais honesto". Está tudo errado.

Beijos
Rob

Hydrachan disse...

Bom... Há aqueles que discutem nas redes sociais e ponto.
Mas há aqueles que discutem nas redes sociais, convocam pessoas a partir das redes sociais, então saem das redes sociais com as caras pintadas, cartazes e megafones nas mãos, e vão para as ruas, para onde o país está, e colocam a boca no trombone para lutar por um país melhor.

E temos nós... Os que desistiram. Os que cansaram. Os que pensam em deixar esse negócio de rede social para lá, porque só serve para nos causar desapontamento.

Confesso que às vezes ainda tento. Vejo algo realmente absurdo acontecendo, e com toda educação do mundo, digo que aquilo não está certo.
Aí vem alguém que não entendeu uma palavra do que eu disse, e me chama de "anta" e de "burra" no mesmo parágrafo.

Sei muito bem como você se sente.
E tomei a decisão de seguir os conselhos de uma amiga: "Não se aporrinhe com a ignorância alheia. Isso vai te fazer gastar suas forças lutando contra algo maior do que você. Ao invés disso, seja feliz fazendo o que acha certo. As pessoas, aos poucos, vão perceber o quanto fazer as coisas certas te faz bem, e vão querer fazer o mesmo".

Se algum dia você se cansar de ficar "aporrinhado", experimente essa receita. Ela tem me feito muito bem. ;)

Bjs!

Unknown disse...

Seria muito bom se todos ao menos pensasem como pequenas atitudes (como furar fila) podem ter grandes reperculsões de modo geral!(como você Rob) parabéns pelo blog!

Unknown disse...

Completando: mas uma coisa é certa!
Nunca devemos nos calar diante de um "crime" por que acabamos mos tornando cúmplices involuntáriamente!!

Rafiki Papio disse...

Outro dia conversava com um colega, havíamos viajado para um lugar onde não existiam filas em terminais de ônibus, o que não é incomum onde eu moro, mas naquele lugar era uma corrida visceral e mal educada.
Ele dizia algo sobre como respeitar uma fila era algo básico e relacionava com a expectativa do Brasil em fazer bonito na copa do mundo.
Eu me lembro ainda de ter dito nesta mesma conversa como me irritava quando as pessoas jogavam lixo pela janela do ônibus, aquele papel de bala ou saco de batata frita, como se não fosse nada, como se fosse desaparecer no momento que soltasse dos dedos.

matilde disse...

Eu com certeza se estive jogando buraco no cel, tb nao faria
nada, deixaria aquela pessoa que nao sabe o que é respeito, que nao sabe o que é ordem de chegada, passar na minha frente! Ah.. mas se o meu cel tivesse ficado em casa, ela nao passaria na minha frente mesmo ! Nem ela nem ninguem! Eu primo pelo respeito! O caus esta ai somente pela falta de respeito! Essa palavra nunca deveria ser esquecida, se fosse praticada sempre o pais que eu moro seria diferente!

Rob Gordon disse...

Hydrachan:

É exatamente isso. Somos os que cansamos de ver as pessoas brigarem com as outras em nome de murros n'água. Vou seguir sua receita, sim. :)

Beijos,

Rob

Rob Gordon disse...

Unknown:

Obrigado!

Rob

Rob Gordon disse...

Rafiki:

É justamente isso. As pessoas gritam sobre o que é preciso fazer para o país melhorar, dando aulas sobre politicamente correto... Enquanto o brasileiro médio não consegue respeitar nem quem está ao seu lado ou a rua em que mora.

Estamos muito atrasados ainda. A casa ainda com a fundação rachando, e as pessoas estão brigando pela cor da janela.

Abraços,

Rob