17 de agosto de 2015

Sonhos de Kurosawa Gordon XIII

– Como você faz para escrever?

Quando ela me fez a pergunta, estávamos sentados na sala de uma casa de campo. E eu respondi animado, porque gosto de falar sobre como escrevo. Não é uma questão de ego, mas de necessidade. Sempre que eu falo sobre como escrevo, eu pareço entender mais sobre esse assunto, e isso me faz bem. Como pessoa e como escritor.

– Eu uso barras de ferro, foi tudo o que eu respondi.

– Como assim?

Precisei parar e pensar antes de continuar, por que... Bem, eu não tenho certeza se já havia pensado isso antes. Mas eu certamente nunca havia falado isso para ninguém.

– Eu tenho milhares de barras de ferro presas no alto do meu cérebro.

E, no momento que eu disse isso, olhei para cima e vi as barras ali. Eram incontáveis, todas redondas, de grossuras e texturas diferentes. Mas todas do mesmo comprimento. Estavam penduradas e balançavam, uma se chocando com a outra e a outra se chocando com uma terceira, que batia na seguinte. Mas isso não fazia som. Estava ali, mudas e eu peguei uma delas para mostrar como eu escrevo.

– Sempre que eu preciso fazer um texto, eu venho aqui e procuro a barra de ferro que melhor vai se encaixar com a ideia. Aí eu pego a barra e vejo qual o tamanho do texto.

– Porque as barras têm o mesmo tamanho...

– Sim. Aí eu apenas pego a barra e, se eu preciso que ela seja desse tamanho, eu faço ela se encurtar. Se for maior, eu alongo a barra.

Para mostrar melhor, eu fiz exatamente o que estava falando. Segurei a barra de ferro pelos cantos e apertei, fazendo com que ela ficasse com a metade do tamanho. Em seguida, segurei-a novamente pelas pontas e abri os braços, fazendo a barra crescer até ter quase o dobro do tamanho original.

Ela me olhou encantada e eu continuei.

– Eu mexo apenas no tamanho, mas é a mesma barra. A mesma textura, a mesma largura.

– Então, você já tem todos os textos prontos dentro da sua cabeça?

– Sim. Basicamente sim. Por isso eu escrevo tão rápido, eu respondi, pendurando a barra de ferro no local original.

Enquanto eu arrumava a barra junto com as outras, ela me fez uma pergunta importante.

– Você não tem medo que as barras de ferro acabem?

Eu estava sonhando com uma tia da Esposa, já falecida. E eu queria ter acordado nessa hora. Não acordei, mas cortei o sonho e parti para outro lugar – na mesma casa – com outras pessoas, outras histórias, outros sentimentos. Como não acordei, foi o modo que encontrei de não responder à pergunta com sinceridade. Pois minha resposta seria:


– Eu morro de medo disso. 

11 de agosto de 2015

Comanda para Matar

Faz um tempo que a padaria aqui ao lado de casa entrou na Era Moderna.

Até alguns meses atrás, a padaria era horrível. E isso por vários motivos. Primeiro, as fornadas de pães eram absurdamente irregulares, misturando pães que pareciam vítimas de incêndio com cadáveres de albinos. Segundo, a filosofia de trabalho “elemento surpresa”. Era assim: você pedia um pão de calabresa e, ao voltar para casa, descobria que havia comprado uma rosca de coco.

Isso, claro, sem falar na genialidade do dono, que parece acreditar que a melhor forma de mostrar que seus produtos são bons é não ter o produto. Depois das nove da noite já não tinha mais pão. Cigarro? Meses sem ter (e o dono sempre me explicava que “o caminhão atrasou”, o que me fazia pensar que o carregamento estava vindo da Coreia do Norte). Refrigerante? Às vezes tem, às vezes não.

Mas, de uns meses para cá, tudo mudou. Eles colocaram umas catracas com comandas eletrônicas, para dar um ar de modernidade ao negócio. E aí tudo mudou. Porque antes era uma padaria horrível.

Agora ela se transformou em uma padaria horrível com catracas eletrônicas. E que funcionam do modo mais burro do mundo. Nas demais padarias da cidade, você paga suas compras, pega a comanda, deposita na catraca e ela abre. Aqui não. Aqui você deixa a comanda com a mulher do caixa e ela precisa liberar a catraca para você, provavelmente apertando um botão ou alguma tarefa extremamente difícil, já que de cada dez vezes que vou lá, em pelo menos metade a catraca está travada quando vou sair.

Ah sim, e vale dizer que eles colocaram as catracas eletrônicas para a porta ficar fechada, e assim o ar condicionado fazer mais efeito. O problema é que três dias depois de colocarem as catracas o ar condicionado quebrou e ninguém mais arrumou. Dez minutos lá dentro e suas roupas estão coladas de suor.

Toda vez que vou lá tenho a impressão que morri e cheguei numa espécie de inferno, onde as almas dos pecadores estão ardendo na fila do caixa ou esperando o atendente ajustar a máquina de fatiar frios e sempre ao lado daquelas coisas dantescas que ficam borbulhando no balcão de selfie-service. E como você é pecador, não pode sair dali. E nem adianta tentar sair, a catraca está fechada, mesmo se você já pagou os pecados que estavam na sua comanda.

Aliás, normalmente você paga por pecados que não são seus.

Dias desses fui até ali comprar cigarro.

Peguei minha comanda e a menina do caixa me olhou. Girei a catraca e a menina do caixa me olhou. Encontrei no balcão e a menina do caixa me olhou. Dei a comanda e pedi dois maços de cigarro. A menina passou a comanda e imediatamente apareceu a lista de compras do mês de um pequeno país.

– Oitenteoito e vinte.

– Oi?

– Deu oitenteoito e vinte.

– Olha, eu só quero comprar dois maços de Marlboro e ir embora.

– Essa comanda não é sua?

– É, mas eu peguei agora, você não viu?

– Não.

– Eu acabei de entrar na padaria e você estava olhando para mim. Eu entrei, andei um metro e vim até aqui.

– Você não comeu catarina?

– Minha senhora, eu não conheço nenhuma Catarina. E mesmo se conhecesse, eu sou casado, então, eu queria...

– Aqui diz que você comeu quatro catarinas.

– Não. Não comi.

– Ah, não. Está errado.

– Sim, é o que estou tentando dizer.

– Não são quatro catarinas, são cinco.

– Olha, o erro não é esse.

– Você não comeu catarina?

– Não.

– Mas aqui na sua comanda diz que você comeu. Tem também três ressiverantos.

– Refrigerantes?

– Isso. Três ressiverantos. E um bolo.

Perfeito. Eu não apenas estou no inferno pagando meus pecados, como ainda fiquei com a comanda do Átila ou do Hitler e vou ter que pagar os pecados dos outros.

– Olha, nada disso é meu.

– VALDECI! Ô VALDECI!

Entra em cena, Valdecir, o demônio encarregado daquele pedaço do inferno. Mulato, Valdeci não é um gordo comum, mas sim aquele tipo de gordo que não consegue ficar com a bunda inteira para dentro das calças. Ele normalmente está no caixa comendo. Uma semana eu fui à padaria três dias seguidos e no mesmo horário, então peguei praticamente toda a refeição dele. No primeiro dia ele estava comendo um bife; no segundo, ele estava chupando uvas; no terceiro, estava passando fio dental. Sim, no caixa. Não voltei no quarto dia, mas tenho certeza que, pela progressão aritmética da coisa, ele estaria dormindo.

Claro que o Valdecir demorou até chegar, porque agora ele não fica mais na padaria, e sim enchendo a cara de espetinho na barraca ao lado do mercado (você leu o post anterior?). Veio arrastando os pés e limpando a gordura do rosto, e entrou no balcão atrás do caixa.

– Fala.

– Aqui a comanda tá cheia de coisa, mas nada é dele.

Com ar de especialista, Valdeci passou a comanda novamente.

– As catarinas não são suas?

– Não. Antes que você pergunte, o bolo também não. Nem os ressiverantos.

– Ah tá.

– Eu quero só dois maços de Marlboro.

Mas Valdecir não estava mais preocupado com isso, e sim com o enigma das comandas. Afinal, seu inferno não podia ser desorganizado a ponto dos próprios demônios sofrerem com isso. Somente as almas dos clientes poderiam ser penalizadas.

O suor estava começando a descer pelas minhas costas quando Valdecir falou:

– Toda vez essas comandas estão cheias.

A menina do caixa concordou. E acrescentou que cada dia está pior. Valdecir olhou ao redor, provavelmente pensando que deveria resolver aquilo de uma vez por todas para pegar mais um espetinho de linguiça.

– Sabe o que a gente deveria fazer?

Quem respondeu fui eu.

– Sei. Me dar os dois maços de Marlboro, pegar meu dinheiro e deixar eu ir embora.

Ele olhou para mim. Talvez estivesse considerando a minha sugestão. Mas pareceu ter uma ideia melhor.

– A gente devia limpar todas as comandas de meia em meia hora.

Eu e a menina protestamos imediatamente.

– Vai dar muito trabalho, Valdeci!, ela disse.

– Eu não trabalho aqui, eu falei.

Valdecir respirou fundo.

– É porque é o Malaquias sempre se esquece de desmarcar as comandas.

Novo protesto.

– Aí você fala com ele, Valdeci! Eu não vou limpar nada, ela continuou.

– Eu nem sei quem é Malaquias. Mas eu acho que é melhor falar com ele mesmo.

Nesse momento, Valdecir olhou para mim.

– Você vai querer o quê?

Se eu fosse mais novo – e mais paciente – provavelmente começaria um discurso apontando que eu queria começar a aumentar a eficiência do local. O primeiro passo seria demitir o Malaquias. O segundo seria tornar os pães em uma comida mais uniforme. Depois uma campanha de marketing que, misturada a atentados terroristas às outras padarias, resultaria num processo de expansão violento. “Precisamos de espaço vital!”, eu gritaria em algum momento.

Mas estou mais velho. E mais experiente, a ponto de saber que as chances de eu mesmo ter que demitir o Malaquias seriam enormes. Então resolvi ser sincero.

– Eu quero dois maços de Marlboro.

Valdecir virou as costas e encarou os cigarros.

– Quantos?

– Dois.

– Qual cigarro mesmo?

– Marlboro.

– Vermelho?

– Isso.

– Dois, né?

– Puta que pariu. Sim.

Me deu os cigarros, eu paguei e fui embora. Ou melhor, tentei ir embora. Fui sair e a catraca estava travada. Dei um grito com a menina que demorou a me ouvir porque estava reclamando com o Valdecir que as comandas estão sempre cheias de coisas e não dá para trabalhar assim. Mas ela liberou a catraca e fui embora.

Bastou eu atravessar a rua. Olhei para trás e lá estava o Valdecir na calçada, com meia bunda para fora da calça e se digladiando com um espetinho.


Eu tenho certeza que a pessoa que inventou a expressão “o pão que o diabo amassou” frequentava a padaria aqui ao lado de casa.  

27 de julho de 2015

A Mulher dos Peito Delícia

Foi um dia desses que eu estava fumando na frente do mercado.

Antes que você ache que sou um desocupado, explico: eu tenho o hábito de acender um cigarro quando saio de casa – quando vou para algum lugar perto, nem levo o maço, apenas o cigarro que acendo quando coloco o pé na calçada. Mas o problema é que eu ainda não me acostumei com o fato de que demoro menos tempo para chegar ao mercado que para fumar um cigarro, então eu sempre enrolo uns dois minutos ali, fumando na calçada.

E era isso que eu estava fazendo quando vi duas mulheres saindo do mercado e andando na minha direção. Mas, como eu estava olhando a rua e pensando na vida, não dei muita atenção a elas, especialmente porque uma delas falou uma frase que poderia ser descrita como “Nonono? Nononono...” (professora do Charlie Brown mode: on).

O que me chamou a atenção foi a resposta da sua parceira.

– Os peito dessa mulher é uma delícia.

Sim, é evidente que eu olhei para trás. Pare de me olhar com essa cara, porque você também teria olhado – e caso você seja minha Esposa, gostaria de deixar claro que olhei para trás não para identificar a dona dos peito delícia, e sim para conferir se eu havia escutado direito. Mesmo.

Só as duas continuavam ali. E nenhuma delas parecia ser a dona dos peito delícia.

Concluindo que eu provavelmente havia escutado errado, voltei a fumar olhando a rua enquanto as duas guardavam as compras no carro atrás de mim. E continuaram conversando. A primeira – aquela que falava em nononono – fez uma pergunta, agora em português.

– Mas é industrializado?

Sério, essa mulher deve entender muito de peito. Até onde eu sei, a pergunta deveria ser “mas é natural?”. Mas ela perguntou se “os peito eram industrializados” com tanta propriedade que eu imediatamente concluí que ela deve ser especialista no assunto. A questão dela foi feita com a segurança de um expert. Se um dia houver uma cruzada em busca de peitos – vai que depois do apocalipse seja preciso um par de peito delícia para amamentar o novo líder da humanidade, sei lá – eu seguiria essa mulher sem pestanejar.

Porém, a outra não deu atenção para isso. Aparentemente, ela nunca havia pensado se os peito era natural ou industrializado. E nem queria pensar nisso.

– Ah, não sei. Sei que é uma DE-LÍ-CIA!

Então, essa mulher está de sacanagem comigo. Provavelmente isso é uma pegadinha e até o final da semana eu vou aparecer na televisão fazendo papel de idiota. Se bobear, essa mulher que está falando é o Ivo Holanda com peruca. Não. Pior. É um daqueles testes de fidelidade. Vou é ficar quieto na minha, porque eu sei que o Twitter inteiro assiste a essa merda.

A especialista em peitos ficou em silêncio – e eu continuei imóvel ali, caso você seja minha esposa – então sua amiga continuou.

– Aliás, peguei os peito mais de uma vez. Umas três vezes. Tem muita carne.

Duas pessoas não teriam olhado para trás novamente depois disso: eu e o Papa – mas o Papa certamente teria chamado um segurança e cochichado um “fica ali perto e descobre de quem elas estão falando.” Mas, como eu não tenho segurança, fiquei quieto e jurei que não ia mais dar atenção para aquilo.

Mas falhei miseravelmente quando a especialista em peito perguntou:

– Mas onde ela está que eu não consigo ver?

Eu olhei para trás, fazendo cara de “sim, porra, onde essa mulher es...”. Não. Minto. Eu olhei para trás apenas para ver se o mercado estava cheio e as mulheres estavam ali entregando a localização da dona dos peito delícia por coincidência.

Enfim, olhei para trás e vi a mulher apontando para o muro da casa ao lado do mercado.

– Ela fica aqui atrás desse muro. Não está sentindo o cheiro?

Que cheiro? Você está louca? Aqui atrás do muro tem apenas a mulher que vende espetinhos, e ela deve ter uns sessenta anos de idade, e...

Espera.

Peitos.

Delícia.

Carne.

Industrializado.

Espetinho.

Não são os peito da mulher que é uma delícia, é o espeto da mulher que é uma delícia. Maldita fonética.
Terminei meu cigarro e entrei no mercado, para comprar a ração dos cachorros. E, na saída, pensei que já passou da hora de eu experimentar o espetinho que a mulher que fica ao lado do mercado vende aos fins de tarde.

Dizem que é uma delícia. Cheio de carne. 

19 de julho de 2015

007 Contra O Quinto Elemento

De repente, eu olhei para o lado e percebi que já havia visto aquilo em algum lugar. O cenário... A frase... Era tudo muito familiar, mas não era nada que eu tinha vivido antes. Mas eu já tinha visto aquilo antes... Um filme! Eu estava dentro de uma cena de um filme!

Isso já aconteceu com você alguma vez? Você olha ao redor e descobre que, de alguma forma, está vivendo uma versão distorcida de uma cena que está guardada em seu cérebro. Comigo aconteceu mais de uma vez. A mais recente foi sexta-feira.

Tive uma reunião no Itaim, no final da tarde. Decidido a ir e voltar de táxi, eu fucei na carteira e vi que tinha por volta de quarenta reais, o que daria para apenas uma corrida. Mas tudo estava sob controle: eu podia pegar o táxi, pagar com dinheiro e, depois da reunião, tomar um café e sacar dinheiro que é uma das coisas mais fáceis de fazer quando você está no Itaim.

Sim, eu sei que eu poderia usar o Easy Taxi para chamar um táxi que aceita cartão, mas acontece que eu tenho alguns problemas com tecnologia. E não porque eu sou velho e tenho medo de novidades tecnológicas, mas sim porque sou cliente da TIM, então tenho medo de qualquer tecnologia que dependa de 3G. Para mim, ainda é mais fácil sacar dinheiro e pegar um táxi no ponto do que ter que subir em um poste e ficar com o braço levantado para sinal e chamar um táxi pelo celular.

Na ida, deu tudo certo. Na reunião, também. Mas aí o problema começou quando saí da reunião. Andei dois quarteirões e cheguei ao banco 24 horas que eu tinha em mente.

Não gosto muito de caixas eletrônicos. Acho que eles têm uma burocracia ridícula e exagerada. Os bancos dizem que aquilo tudo é para nossa segurança, mas sempre que uso aquilo tenho a impressão que estou usando um daqueles brinquedos feitos para avaliar a coordenação motora de crianças.

Insira o cartão. Retire o cartão. Digite sua senha. Diga o que você quer. Insira o cartão. Digite sua senha. Retire o cartão. Coloque o dedo no leitor ótico. Insira o cartão. Retire o cartão. Levante a perna esquerda. Ainda com ela no ar, insira o cartão. Abaixe a perna e digite sua senha. Aponte para o Norte e retire o cartão. Digite sua senha. Dê duas voltas sobre você mesmo gritando seu nome.

Toda vez que uso o caixa eletrônico, tenho certeza de que estou sendo filmado, e novamente não por motivo de segurança, mas sim para o pessoal do banco dar gargalhadas enquanto assistem ao gordinho careca fazendo uma dancinha ou imitando uma galinha no meio da rua para conseguir pegar quarenta reais. É humilhante demais.

Entretanto, desta vez não tive que fazer nada disso, já que o procedimento foi abreviado. Insira o cartão. Retire o cartão. Digite sua senha. Diga o que você quer.

“Este terminal não está fazendo saques e agora você está em outro bairro com dois reais no bolso. Que beleza, hein? Tenha um bom dia!”

Chutei a máquina e fui embora. Agora, eu tinha três alternativas:

1 – Voltar a pé.
2 – Entrar na internet e procurar um banco 24 horas.
3 – Entrar na internet e chamar um táxi.

Ou seja, minha situação não era boa, já que eu tinha que escolher entre bancar o Lawrence da Arábia e atravessar três ou quatro bairros a pé ou usar o 3G da TIM. Por motivos óbvios (39 anos de idade) resolvi arriscar o 3G e chamar um táxi. Peguei o celular do bolso e fui andando pela rua, até descobrir que, trinta centímetros ao lado de um bueiro, o sinal pegava – o que me leva a pensar se o sinal da Tim não pega melhor no esgoto. Bastava eu dar um passo para qualquer lado e o sinal desaparecia.

Assim, tomando cuidado para não fazer movimentos bruscos, abri o Easy Taxi e chamei um carro. O mapa apareceu mostrando que o taxista estava a três quarteirões e o tempo de espera seria dois minutos.

O carro andou. Parou. Andou. Parou. E nunca mais andou. Virei o corpo na direção do bueiro e ele voltou a andar. E Parou. Três minutos depois, recebo uma mensagem do taxista:

“Já estou a caminho!”.

Certo. Olho para o mapa. O táxi está na mesma rua que eu. Andou. Parou. Andou. Parou. Parou... E desapareceu do mapa.

“O taxista sofreu um imprevisto e não pode completar sua corrida”.

Olhei indignado para o celular e para a rua e para o celular de novo – tudo isso sem poder me mexer ou dar as costas para o bueiro. Como assim um imprevisto? Ele estava a cinquenta metros de mim, que tipo de imprevisto? Um meteoro caiu no carro? O Godzilla emergiu das águas do Rio Pinheiros e decidiu que precisava ir até o Itaim, destruindo tudo em seu caminho, para pegar o meu táxi e arremessá-lo em Jundiaí?

“Deseja chamar outro táxi?”

Sim, é evidente que sim. Não é porque meu taxista caiu num portal que o levou à outra dimensão quando estava prestes a me encontrar que eu não preciso mais voltar para casa. Sim, desejo chamar outro carro. Sim, estou no mesmo lugar. Sim, a referência é a mesma. Sim, vou pagar com cartão.

Recebo a notícia que um novo carro está a caminho. É um táxi que está a dois quarteirões de mim. Parado. Parado. Parado. Parado. Parado. Parado.

Comecei a ficar enlouquecido. Minha vontade era andar os dois quarteirões a pé, dar um tapa na cabeça do motorista e falar que “Dá para ir logo até ali, onde estou esperando? Vai ligando essa merda aí e me encontra lá onde você acha que eu estou. Vai ser fácil de me achar agora que você sabe como é a minha cara”.

Andou. Andou. Andou. Andou. Andou. Andou. Andou.

E passou por mim. Com uma passageira – uma mulher de uns cinquenta anos e cara de azeda – no banco de trás.

Meu impulso foi procurar por uma pedra e jogar na cabeça do taxista. Uma fração de segundos depois, me lembrei de que não deve ser muito comum achar pedras no Itaim, então decidi que jogaria o celular mesmo. Com sorte, acertaria com a quina na têmpora. Mas aí me lembrei que o aparelho é novo e mudei de ideia – se fosse meu antigo Galaxy S2, o taxista teria passado a noite no hospital.

Assim, respirei fundo e peguei meu celular novamente. Imediatamente, cancelei a corrida.

“Cancelar a corrida pode prejudicar nossos taxistas. Você quer mesmo fazer isso?”

Sim, quero. Quero prejudicar esse taxista pelo resto da vida dele. Quero cancelar a corrida, fazer com que o Uber monte sua sede na frente do ponto onde ele trabalha. Quero que o carro dele exploda em uma manhã e, quando ele entrar em casa para procurar os papeis do seguro, vai me encontrar usando uma peruca da Glenn Close e cozinhando o coelhinho da sua filha.

Cancelei a corrida socando o celular e chamei outro táxi – sim, tudo isso sem sair de perto do bueiro.

Andou. Parou. Andou. Parou. Andou.

E parou ao meu lado. Entrei disposto a começar a resmungar, mas assim que olhei para o taxista, eu percebi que ele se parecia muito com alguém. Ele tinha cara de alemão, era gordo e completamente careca. Ele era a cara de uma versão careca de alguém. Se eu conseguisse imaginá-lo com cabelo, talvez eu descobrisse com quem ele era parecido.

Nesse momento, as luzes do meu cérebro se apagaram. Era como se uma enorme escuridão tivesse assolado meus pensamentos.

– Para onde o se-se-sesenhor vai?

Gago. Um taxista gago. O Easy Taxi fez isso de propósito, e fodeu com minhas corridas até me jogar na mão de um gago. Mas eu não me importei com isso, naquela hora. Eu precisava saber com quem aquele cara se parecia.

Foi quando um facho de luz branca se acendeu no meu cérebro. Agora, tudo estava escuro, menos este pedaço iluminado, que mostrava um pedestal e um microfone sobre um palco.  Meu Deus, com quem esse cara parece?

– Vila Mariana.

– O senhor tem algum ca-ca-caminho de prefe-fe-ferência?

Lentamente, um neurônio veio caminhando na direção do microfone. O neurônio usava um vestido dourado, de lantejoulas.

– Olha, acho que podemos ir pela Sena Madureira.

– Certo. Então eu vou su-su-subir por essa a-a-a-aqui...

Eu parei de ouvir, pois o neurônio se aproximou do microfone, ergueu os braços, ressaltando suas curvas com o vestido dourado, e gritou:

GOOOOOOLDFINGEEEEER!!!!

– E vou cair ali na San-Santo Amaro...

HE’S THE MAN... THE MAN WITH THE MIDAS... TOUCH!

Segurei a risada e abaixei o volume da música no meu cérebro. Outros neurônios pediram para eu perguntar algo como “ah, Goldfinger, você também vai almoçar na Casa Branca?”, mas como o taxista poderia responder que “não, Mr. Gordon, eu espero que você morra!”, achei melhor não falar nada. Assim, decidi escolhi que iria usar o Goldfinger careca para reclamar dos outros taxistas.

– Você é o terceiro táxi que eu chamei.

– Como assim?

– O primeiro cancelou a corrida e o segundo pegou outro passageiro.

– Mas às vezes a gente pe-pega outro passa-passa-passa-passageiro sem querer.

– Como assim?

– Você é cha-cha-chamado para pegar um passageiro na rua tal e vo-você vai. Ba-ba-bum.

Ok. O Goldfinger careca não é gago. Ele é gago e tem um tique nervoso que se manifesta num vício de linguagem.

– Oi?

– Aí você chega lá e tem outr-tra pessoa espe-perando o táxi e ela entra no carro. Ba-ba-bum.

– Baba o quê?

– Aí, aque-quele que chamou o carro fi-fica lá. Ba-ba-bum.

– Olha, acho difícil que isso tenha acontecido. A não ser que ele tenha me confundido com uma mulher de cinquenta e poucos anos.

– Ah, então deve ter sido de saca-saca-saca...

– Sacanagem?

– Ba-ba-bum.

E foi quando eu percebi que estava dentro de uma cena de um filme. E não, não era de 007 Contra Goldfinger. Era uma ficção científica: afinal, eu estava dentro de um táxi com uma pessoa que ficava falando Badabum o tempo inteiro. Sim, eu estava em uma versão distorcida de o Quinto Elemento.

E sim, eu sei que a pessoa ao meu lado estava longe de ser a Mila Jojovich usando pouca roupa. Na verdade, tudo o que eu conseguia pensar ao olhar para ele era que os vilões de 007 haviam dado uma festa a fantasia e o Goldfinger, com preguiça de escolher uma fantasia bacana, apenas raspou a cabeça e disse que “estou fantasia de vo-vovocalista do Parala-lamas do Su-sucesso, ba-ba-bum”.

Mas quem não tem Mila caça com Goldfinger careca mesmo. Assim, dei meu melhor sorriso Bruce Willis e olhei para ele.

– Yeah. Badabum.

Ele olhou para mim com cara de interrogação e eu completei:

– Big Badabum.

Passei o resto da viagem tentando encontrar uma maneira de usar a expressão Multipass na conversa, mas não consegui. Aliás, antes da metade do caminho eu já estava até to-tonto. Primeiro, porque ele era gago, segundo porque ele falava ba-ba-bum e terceiro porque ele não parava de falar. Polí-lítica. Ba-ba-bum. Esporte. Ba-ba-bum. Pessoa do ca-carro do lado. Ba-ba-bum.

Chegou uma hora que eu fechei os olhos e reparei que o neurônio vestido de Shirley Bassey ainda estava cantando. Então aproveitei e aumentei um pouco o volume.

– IT’S THE KISS OF DEATH... FROM MISTER... GOOOOOOOOOOOOOOLDFINGEEEEER!

E fui ouvindo a música até em casa, pegando apenas um ou outro ba-ba-bum da conversa.

15 de julho de 2015

Sobre Ser Adulto e Outras Coisas que Crianças Pensam

Existe algum momento em que você fica adulto de verdade?

Acho que toda criança pensa nisso. Eu, pelo menos, pensava sobre isso. Imaginava que, em algum momento da minha vida, eu viraria adulto, como que num passe de mágica. Ou melhor, mais ou menos como os índios daquelas tribos que atravessam aquele ritual de passagem, onde saem de casa meninos, fazem uma, duas ou três coisas e são reconhecidos como adultos.

Nunca aconteceu comigo. Nunca precisei escalar a árvore mais alta, nunca tive que atravessar um rio a nado, nunca fui obrigado a matar o urso mais feroz da floresta. O mais perto que cheguei disso foi subir em uma árvore ao lado da padaria dos meus pais para pegar um balão que havia caído ali – um balão daqueles que as pessoas vêm de carro pegar – algo que dificilmente me classificaria como adulto. Na verdade, como eu tenho medo de altura e só percebi que a árvore era alta demais quando eu já estava nos últimos galhos, minha aventura provavelmente faria com que eu fosse reconhecido como um boçal.

Então, quando eu paro para pensar, não consigo em momento algum imaginar o dia que eu virei adulto. E isso vale para todos os assuntos. Bebida? Quando eu criança, achava que beber cerveja era coisa de adulto. Mas bebi cerveja e ainda era moleque, então entendi que para ser adulto precisaria beber uísque ou algo destilado. Mas bebi também e nada mudou, a não ser o fato de que descobri minha bebida preferida.

Mulheres? O raciocínio foi parecido, basta trocar a cerveja por beijo (porque quando eu tinha 13 anos um beijo era tudo o que eu queria), e o uísque por sexo (porque quando eu tinha 16 anos, só um beijo era tudo o que eu não queria). Fiz tudo isso e voltei para casa me perguntando quando será que eu viraria adulto.

E isso pensando apenas em sexo – já em relacionamentos, fiz de tudo também. Me apaixonei, me apaixonei por pessoas erradas, me apaixonei para sempre (mais de uma vez). Respeitei, menti, traí, perdoei. Fiz loucura, fiz bobagem, fiz o certo e o errado. Tudo coisa de adulto? Com oito, nove anos de idade eu acharia que sim. Com oito ou nove anos de idade eu tinha certeza que casar era coisa de adulto. E hoje estou casado.

Profissionalmente eu fiz muitas coisas de adulto. Varei noite trabalhando, briguei, ensinei, aprendi. Trabalhei até a exaustão, saí na chuva para resolver coisas que não eram minha obrigação, mas tive que dar exemplo. Fui subalterno, fui chefe, fui chefe de mim mesmo. Trinta anos atrás, eu olharia para o meu futuro e pensaria: “coisa de adulto”.

Amigos? Mesma coisa. Dia desses encontrei um grande amigo que não via há anos. Quando ele entrou em casa, dei-lhe um abraço que não foi de “seja bem vindo”, e sim de “porra, quanto tempo passou”. É aquele abraço de ainda estamos aqui, mas sim, o tempo passou. Quando eu era criança, eu acharia que ficar tempo demais sem ver os amigos talvez fosse coisa de adulto, porque adulto está sempre ocupado e nunca tem tempo para o que é importante.

Hoje, à beira dos quarenta, eu olho tudo isso e penso “não é coisa de adulto, é apenas... O que eu faço. O que eu sou”.

Sim, estou à beira dos quarenta. E até pouco tempo atrás eu estava pensando quando eu iria virar adulto. Na verdade, ainda penso. Penso isso quando estou fazendo coisas de adulto, penso isso quando estou fazendo coisas de adolescente, penso isso quando estou fazendo coisas de criança.

Mas teve um dia... Um dia em especial que eu acho que dei um passo grande para virar adulto.

Havíamos acabado de nos mudar para cá; era a primeira ou segunda noite que dormíamos aqui e, antes de dormir, eu fui ver se a porta da sala estava trancada. E, enquanto eu checava, percebi que essa era minha obrigação: cuidar dessa casa e das pessoas que estão dentro dela. E uma delas implica em fechar tudo antes de dormir. É a minha obrigação. Ou, como eu mesmo diria, “é apenas o que eu faço”.

Mas, a primeira vez que tranquei a porta da casa foi o dia que virei adulto. Acho.

Pensei isso enquanto trancava a porta e fui para a cama pensando sobre isso, provavelmente me lembrando do meu pai fechando a porta de casa quando eu era criança, que era o sinal do encerramento do dia. Aliás, é isso. Eu não tranco a porta, eu determino quando o dia da casa acabou. Isso é ser adulto. Isso tem que ser adulto.

Mas aí eu me pego dançando pela casa com o gato no colo. Percebo que estou andando mais rápido para casa porque tenho um jogo novo de PC. Sento sozinho pensando em textos e dou risada, falando sozinho e montando historinhas – que nada mais é que brincar de faz de conta. E, às vezes, descubro um livro e me apaixono como se eu tivesse acabado de aprender a ler.

Não é possível. Nada disso é muito adulto.

Mas, como eu disse, tenho quase quarenta anos e cuido da casa. E cuidar da casa implica em pagar o guarda da rua – ele é meio gago, qualquer dia eu falo dele aqui. Aí mês passado eu dei um aumento para ele, porque tudo está mais caro e acho que ele merecia ganhar mais.

– O senhor é muito bacana.

– Oi?

– Muito obrigado. O senhor sempre me cumprimenta, sempre para conversar comigo.

“É apenas o que eu faço”, pensei, mas não disse. Ao invés disso, pedi:

– Não me chama de senhor, cara.

De lá para cá, ele me chama de “você”, mas no começo foi mais difícil. Porque toda vez que eu olho no espelho eu vejo os quarenta anos ali. A careca, as marcas de expressão, o ar cansado. Mas, eu sei que de vez em quando eu deixo escapar uma gargalhada que faz os olhos brilharem e a pele alisar um pouco – mas não nasce cabelo, o que é uma pena. Enfim, eu olho no espelho e penso que sim, para o garoto que eu era com oito ou nove anos, o homem que eu sou hoje é um senhor.

Um adulto.

Espero que esse garoto não perceba que hoje, quando eu trancar a porta de casa e for para a cama, eu provavelmente vou me perguntar “que dia será que eu vou virar adulto?”

Que dia você virou adulto?