26 de setembro de 2014

Colheita Maldita

De uns tempos para cá, começaram a surgir algumas armadilhas espalhadas pela cidade aqui em São Paulo. No começo, confesso que não dei atenção. Mas, com o tempo, a situação começou a mudar. Eu passava por uma delas e, ao sentir o cheiro, meu impulso era parar e falar com a pessoa. Mas resistia bravamente e apertava o passo.

Contudo, a coisa foi piorando a cada dia. Eu sabia que um dia seria inevitável. Um dia, o maldito cheiro iria me vencer e eu iria cair na armadilha.

Dito e feito.

Dia desses, eu estava saindo do metrô com uma fome equivalente a de um refugiado de guerra civil que acordou mais tarde logo no dia que o caminhão da Cruz Vermelha passou no bairro. Eu não havia almoçado e eram quase dez da noite.

Comecei a descer a Lins de Vasconcelos, sabendo que pelo menos duas armadilhas estariam em meu caminho. Meus planos eram ignorar a primeira e tentar juntar forças para vencer a segunda. Se houvesse uma terceira, eu não teria o menor puder em atravessar a rua para me esconder. Com coragem e determinação, eu conseguiria voltar ileso para casa. Com coragem e determinação, eu conseguiria escapar de todos os desafios. Com coragem e determinação, nada me atingiria.

Mas logo na primeira armadilha nós dois (eu e meu estômago) sentimos o cheiro. Com coragem e determinação tentei resistir, mas meu estômago começou a rosnar e, ameaçando morder minha coragem e minha determinação, colocou as duas para correr.

Quando eu percebi, já estava com a barriga encostada no carrinho, salivando e com a carteira na mão.

– Cara, me dá um milho.

O vendedor olhou para mim de forma casual.

– Prato grande ou pequeno?

Meu estômago começou a gritar “Tem gigante? Eu quero dois gigantes!”, mas eu fui mais rápido e respondi que “grande”. Em dois minutos, o sujeito pescou um milho da panela, espetou num garfo e fez intervenções cirúrgicas limpando a espiga e jogando os grãos no pratinho com uma destreza que fariam Jet Li e sua espada morrer de inveja.

Com o prato pronto, ele perguntou:

– Manteiga?

– Como assim?

– Você quer manteiga no milho?

Eu havia entendido a pergunta, apenas achei completamente desnecessária.

Antes de continuarmos, quero falar sobre meu irmão e pimentões recheados. Quando meu irmão era criança, ele achava que os pimentões já nasciam recheados. Na mente dele, os pimentões já vinham com carne moída e ovo cozido, porque era assim que minha mãe fazia, e era assim que ele comia. Talvez tenha sido um choque para o meu irmão descobrir que quem colocava a carne e os ovos ali era minha mãe, mas hoje ele sabe como são os pimentões.

Eu, por outro lado, acredito que uma espiga de milho já nasce coberta de manteiga lá no milharal. Isso porque o conceito de milho envolve manteiga. Eu não consigo sequer visualizar milho sem manteiga. Milho sem manteiga não é milho, é outra coisa.

Assim como meu irmão e seus pimentões recheados da infância, acredito que se eu parar de ler este texto agora, for a um milharal e olhar uma espiga, verei que ela está brilhando de tanta manteiga que possui em seus grãos.

Sim, eu sei que meu irmão acreditava que os pimentões vinham recheados quando ele tinha seis anos e eu tenho 39. Também tenho plena consciência de que isso enfraquece meu argumento. Mas vivi muito bem até hoje achando que milho já vem com manteiga e vou continuar assim porque saber que existe um alimento que já nasce lambuzado de manteiga me faz acreditar mais no mundo.

– E aí? Manteiga ou não?

– Desculpe, estava pensando no meu irmão e num negócio que vou escrever no blog.

– Como?

– Nada. Com manteiga. Muita manteiga. Toda manteiga que você tiver aí, se não for incômodo. E muito sal.

Instantes depois, eu estava descendo a Lins de Vasconcelos com um pequeno prato de isopor contendo centenas de milhares de pequenas coisas douradas que vocês chamariam de grãos de milho, mas que, no meu universo, se chamam pepitas de sabor.

A cada dez metros, uma colherada – sim, eu ganhei uma colherzinha de plástico – de milho. Aliás, não de qualquer milho, mas de milho brilhando, com manteiga derretida. Na primeira colherada, eu gemi de prazer. Na segunda colherada, eu sorri. Na terceira, eu já sentia a manteiga se espalhando pelas minhas veias.

Na sexta ou sétima colherada, eu já estava determinando a não ir para casa. Iria com meu prato e minha colherzinha branca procurar um restaurante gourmet para ficar na calçada fazendo dancinhas, gestos obscenos e gritando “FUPA!” (que é o equivalente a “chupa!” quando você está com a boca cheia de milho com manteiga).

Eu disse que a cada dez metros era uma colherada, né? Isso, claro, arredondando. Mas, para efeitos matemáticos, vamos assim mesmo: uma colherada a cada dez metros. Como os quarteirões da Lins tem, sei lá, uns cem metros, estamos falando de dez colheradas por quarteirão.

No sexto quarteirão, então, eu deveria já ter comido uma sessenta colheradas. E ainda não havia visto o menor indício do final do prato aparecer. Tudo o que eu via era milho. Dei uma mexida no milho com a colher, levantei o prato e olhei para a parte de baixo dele, mas tudo parecia normal. Mas algo eu estava fazendo de errado, porque eu já havia comido o equivalente a umas oito espigas e, aparentemente, quanto mais eu comia, mais milho tinha no pratinho. E mais eu comia.

No sétimo quarteirão, eu já estava passando mal. Bonecos palitos feitos de manteiga haviam nascido dentro do meu corpo e corriam para todos os lados, fechando veias e entupindo artérias. Grãos de milho saíam pelos meus ouvidos. E nada de aparecer o fundo do prato. E nada de eu parar de comer.

No oitavo quarteirão, eu comecei a abordar as pessoas na rua, pedindo um pouco de ajuda. Todas se afastavam achando que eu ia pedir uma esmola, e eu gritava que “é justamente o contrário, eu preciso de ajuda para terminar este prato de milho! Por favor, volte aqui!”, mas ninguém me atendeu.

No nono quarteirão, minha pele estava laranja. Um cocar com espigas de milho apareceu na minha cabeça. Eu estava me transformando em Centeotl, o deus do milho asteca, e passaria a eternidade ali, vestido como um travesti pré-colombiano no meio da Lins de Vasconcelos, exigindo cultos e sacrifícios em meu nome (e secretamente esperando algum camponês ter o bom senso de me trazer uma Coca Zero como oferenda). Enquanto isso, eu continuei comendo.

No décimo quarteirão eu estava deitado na calçada, gemendo, ao lado de um prato cheio de milho. Com a voz embargada de milho e manteiga, implorava “me mate, por favor!” para as pessoas que passavam por mim.

No último quarteirão antes de casa, fui obrigado a abandonar o milho. Larguei aquela merda num lixinho, e, sabendo que havia me libertado de alguma edição agrícola, entrei no mercado e comprei uma Coca de dois litros. Comecei a beber na fila do caixa e, quando paguei, já havia bebido metade da garrafa.

Aquela noite, não jantei. Fui direto para a cama e sonhei com as crianças do Colheita Maldita. Eu tentava fugir delas correndo em um milharal infinito, mas elas eram muitas e conseguiram me alcançar. De repente surgiu o Menino-Pastor, jogando pás de manteiga dentro da minha boca e ordenando que me crucificassem no meio do milharal.

Você quer mais manteiga?

Acordei gritando e gritei ainda mais quando vi uma cabeça de espiga de milho morta na minha cama.

Fui até a cozinha, tomei mais 6,5 litros de Coca – ignorando a espiga bebê que engatinhava pelo teto – voltei para o quarto, guardei a espiga no guarda-roupa e dormi novamente. Desta vez, não tive mais sonhos.

Mas, na manhã seguinte, ao despertar de sonhos inquietantes, Rob Gordon deu por si na cama transformado numa gigantesca espiga.

23 de setembro de 2014

O Primeiro Ano do Resto da Minha Vida

Desde crianças aprendemos que o homem “nasce, cresce, evolui e morre”.

Entretanto, qualquer pessoa que já cresceu e evoluiu descobre que a frase é incompleta. Entre o “evolui” e o “morre” existe um “envelhece” que não aparece na frase porque provavelmente está escondido atrás do “evolui”, reclamando do frio. E, claro, morrendo de medo de ser vista pelo “morre” que permanece ali, orgulhosa do seu posto, logo ao lado do ponto final.

Talvez o “envelhece” esteja fora da frase por delicadeza. Mas, mesmo assim, trata-se de um erro. Se estivesse na frase, o “envelhece” ocuparia a maior parte dela. Uma pessoa nasce em um instante; cresce e evolui na primeira metade da vida (e isso sendo bastante generoso com algumas pessoas); e morre em outro instante. O “envelhece”, que não está na frase, ocuparia toda a segunda metade da vida e da frase.

Agora, o problema da palavra “envelhece” é que, por não estar na frase, ela se sente no direito de ficar aparecendo o tempo inteiro, em todos os lugares. E não adianta ignorá-la. O “envelhece” é teimoso e não desiste de aparecer. Tenta conversar com as pessoas na rua sem fazer muito sentido, pede ajuda para mudar o canal da TV ou contar as moedas do bolso, fica puxando assunto em ônibus e filas de banco.

Eu sei disso porque o “envelhece” tem falado bastante comigo nos últimos meses.

A primeira vez foi quando eu estava assistindo a um jogo de futebol na Copa. O lateral direito pegou na bola e eu comentei que “esse menino joga muito bem”. Foi só depois de alguns minutos que eu percebi que havia dado um grande passo rumo à melhor idade.

Quando você é jovem, você se refere ao jogador de futebol como “cara”. “Esse cara joga muito”. “Esse cara não devia estar no time”. Porque o “cara” tem, no máximo, a mesma idade que você.

Mas chega um dia que o jogador de futebol deixa de ser “cara” e se torna “menino”.

Quando isso acontece, é porque seu cérebro está reconhecendo oficialmente que uma pessoa que tem condições de praticar esporte é mais nova que você. Você não tem mais condições de jogar bola. Você não pode mais sonhar em ser um jogador de futebol quando crescer. Tudo o que você pode fazer é ficar na arquibancada vendo os jovens jogarem e torcendo para que não vente muito no estádio.

Mas chamar jogador de futebol de “rapaz” ou “menino” não foi meu primeiro passo rumo à velhice.

Isso começou já há anos, de forma discreta, em frente às bancas de jornal.

Quando eu era moleque, estava sempre em bancas de jornal. E sempre que encontrava a Playboy, prestava atenção em duas coisas: quem era a mulher da capa e se eu fazia ideia de quem era o entrevistado – porque quando você é moleque, conhecer o nome do Ministro da Fazenda não está exatamente na sua lista de prioridades, especialmente quando tem um par de seios pulando ao lado do nome do sujeito.

Hoje, a coisa mudou: em 100% das vezes, eu conheço o entrevistado. Ministros, escritores, artistas, presidentes de outros países... Conheço todos.

Mas, na maior parte das vezes, eu não faço ideia de quem é a mulher da capa. Não sei se é atriz, cantora, apresentadora. É desanimador demais saber que “a nudez mais esperada do ano” (porque a cada três meses a Playboy publica a nudez mais esperada do ano) é de uma mulher que eu nunca ouvi falar.

Com isso, fica claro que a Playboy não é mais para mim. A Playboy tem um público alvo muito bem definido: são as pessoas que estão ali na primeira metade da frase, no “cresce e evolui”. Eu não estou mais lá, e aquele bando de desconhecidas seminuas na capa fica jogando isso na minha cara todos os meses.

Chamar jogador de futebol de “menino”? Check.

Não fazer ideia de quem seja aquela mulher na Playboy? Check.

Dos três sinais clássicos da velhice, eu já podia riscar dois. Faltava apenas um: não conseguir mais usar o Mc Donald’s, algo que todo velho que se preze tem que fazer. Na verdade, alguns velhos mal sabem falar o nome da lanchonete, pronunciando “máque donald’s” ao invés de “méc donald’s”, mas isso é algo que já classifico como exibicionismo. Enfim, faltava apenas um sinal da velhice.

Não falta mais. Semana passada entrei em um Mc Donald’s e fiz meu pedido.

– Me dá um número quatro.

O atendente – um menino de vinte e poucos anos – olhou para mim sem entender direito.

– Qual é o número quatro?

– Como assim, você não sabe? Você não trabalha aqui?

– Sim, mas não sei o que é número quatro.

– Isso é um absurdo!

Foi quando a Esposa me cutucou e disse, discretamente, que as promoções de números não existem mais há um bom tempo. Talvez anos.

Comecei a resmungar, dizendo que no meu tempo era mais fácil fazer o pedido, que quero um Cheddar, mas também quero saber aonde esse mundo vai parar já que ninguém respeita mais nada. Peguei a bandeja e voltei para a mesa, deixando a Esposa pagar porque tive medo de não conseguir entender como passar o cartão e roubarem todo meu dinheiro, e é sempre bom ter dinheiro porque a gente nunca sabe quando vai precisar comprar remédio.

E, na praça de alimentação, descobri que estou na pior fase da velhice, que é o começo dela. Sou velho o suficiente para não saber como as coisas funcionam, mas não sou velho o suficiente para alguém me oferecer um lugar para sentar. Fiquei ali, com a bandeja na mão, velhinho, procurando um lugar para sentar e poder comer meu sanduíche que no meu tempo chamava “número quatro”, reclamando que quero ir embora, que meus pés estão doendo, que eu vou perder meu programa na TV. E praguejando que é cada dia mais difícil pedir as coisas no Mc Donald’s.

Dos três itens da “to do list – velhice”, agora sim estavam todos cumpridos.

Estou oficialmente naquele limbo entre o “evolui” e o “morre”.

E assim vou vivendo meus dias. Hoje, por exemplo, entrei num táxi e o sujeito (que, anos atrás, eu diria que era um velho de 102 anos de idade, mas hoje enxergo como uma pessoa normal) estava ouvindo sambas antigos. Comecei a prestar atenção na letra – por causa das semelhanças com o blues, falando sobre falta de dinheiro e falta de amor – e perguntei causalmente quem estava cantando.

– Francisco Alves, ele respondeu.

Eu ouvi mais um pouco e concluí.

– Isso que era música de verdade. Essa molecada de hoje em dia só escuta bobagem.

O taxista olhou para mim e respondeu:

– É verdade. Concordo com o senhor. Antigamente, as coisas eram melhores.

E abri um sorriso.

Acho que me encontrei. Este é meu clube.  Esta é a minha vida – ou, ao menos, o que resta dela.

Ainda hoje vou comprar um cachecol e meias de lã.

21 de setembro de 2014

Eram os Deuses Fãs de Ficção Científica?

Foi algumas horas atrás.

Estava indo rumo ao ponto de ônibus quando fui parado por três mulheres na rua. Duas delas deviam ter quarenta e poucos anos, mas a que parecia ser a líder devia ter quase setenta. E não parecia a líder por ser mais velha, e sim porque ela que veio falar comigo, enquanto as outras apenas observavam.

– Posso fazer uma pergunta?

– Pois não.

– O que você espera do futuro?

Na verdade, eu não espero muita coisa. Hoje é domingo, são 10 e pouco da manhã e estou indo pegar um ônibus para trabalhar. Detalhe que estou indo para fazer algo que não é minha função. Ou seja, eu não estou muito feliz com o presente. Tudo o que eu espero do futuro é que ele chegue, porque quando isso acontecer o presente vai ter se tornado passado. Mas não acho que seja isso que ela está perguntando.

– A senhora pode ser um pouco mais específica?

– O que você espera do futuro da humanidade?

Bom, em curto prazo, não espero nada. Aliás, às vezes eu acho que tudo o que espero do futuro é que ele não seja igual ao passado, mas duvido que isso vá acontecer, já que para cada passo à frente que damos, parece que damos outros dez passos, todos para trás. Em médio prazo, eu gostaria apenas que fosse um lugar onde eu ficaria tranquilo em ter um filho, sabendo que ele pode crescer num lugar minimamente justo e educado, e que, ao fazer o correto, ele será visto como uma pessoa normal, e não como um portador de uma doença contagiosa. Longo prazo? Espero que os vulcanos apareçam logo. Com a ajuda deles e com o uso do motor de dobra, poderemos começar a viajar pelo espaço, entrando em contato com novas vidas e civilizações, mostrando que o significado de “audaciosamente ir onde nenhum homem esteve” não diz respeito somente a visitar planetas inexplorados, e sim ser mais tolerante e generoso do que somos hoje. Mas não acho que seja isso que ela está perguntando.

– Em que sentido?

– Você acha que, no futuro, a humanidade vai piorar, vai continuar igual, vai melhorar?

Eu não deveria ter pensado em Jornada nas Estrelas, porque agora meu cérebro fundiu. Eu acho que a humanidade pode sim, melhorar, mas somente se as máquinas tomarem o controle do planeta. Com isso, ao invés de esconder nossas frustações atrás de fotos do Instagram, teríamos que pegar em armas e combater o exército da Skynet. Mas como ela parece estar falando sobre religião, meu argumento das máquinas não vai funcionar direito... A não ser, claro, que eu fale de Battlestar Galactica, que mexe com religião. Agora, o panfleto que ela está segurando fala de um único deus. Ela não acredita nos Lordes de Kobol, ela é monoteísta. Talvez ela seja uma cylon infiltrada. Ou talvez não seja isso que ela está perguntando.

– Olha, eu acho que...

– Piorar? Ficar igual? Melhorar muito?

A pergunta foi tendenciosa. O “melhorar” tem um “muito”, e o “piorar” não. Ela está encaminhando a conversa para o “mundo vai melhorar”, porque precisa provar isso para mim. Ou talvez ela precise provar isso para ela mesma. Não vou culpá-la. Uma pessoa que fica na rua perguntando este tipo de coisa precisa ver sua fé reafirmada o tempo inteiro, de preferência nas outras pessoas. É o princípio do Facebook. Damos nossas opiniões e temos a certeza de que ela está certa quando recebemos o “like” das pessoas que pensam exatamente como a gente e não estão dispostas a se questionar por um instante. Assim, podemos virar para nós mesmos e gritar que “so say we all!”. Mas chega de pensar em Galactica. Vou responder que vai piorar, mas não vou entrar no campo da projeção, e sim da retrospectiva. Vou alegar que nós pioramos a cada dia. Vou alegar que quando mesmo quando parece que não temos mais onde errar, inventamos um novo meio. Criamos uma nova intolerância, colocamos em prática uma nova injustiça, fechamos uma porta de diálogo. Até mesmo quem defende as coisas que o senso comum diz que são corretas fazem isso, então para mim existe claramente uma tendência ao erro. E é com isso que devemos trabalhar.

– Eu acho que vai p...

– De acordo com Deus, vai melhorar. Vai melhorar muito. Você não acha que vai melhorar?

Aqui, a manipulação se tornou evidente. Ela estava me cercando, esperando para me tirar todas as opções. Quando ela fez a pergunta “você não acha que vai melhorar?” faltou somente fazer um gesto com a mão e eu responder que “estes não são os dróides que estamos procurando. Sigam adiante! Sigam adiante!”. Desculpa, senhora, mas seus truques jedi não funcionam comigo.

– Na verdade, eu acho que vai p...

– Deus, em sua sabedoria, diz que o mundo vai melhorar.

Chega. Eu preciso trabalhar. Adoraria continuar nisso, mas eu preciso trabalhar.

– A senhora ainda precisa de mim?

– Como assim?

– A senhora está fazendo uma pergunta para mim, mas a senhora mesmo está respondendo. A senhora perguntou o que eu acho do futuro, e eu estou tentando responder. Mas a senhora não me deixa falar para dizer o que Deus acha do futuro. Se a senhora quer saber o que Deus acha do futuro, eu não posso responder, eu não posso falar por Ele. Não seria correto, porque nunca nem conversei com Ele a esse respeito.

– Mas Deus, em sua infinita sabedoria, se expressa por todos nós.

Essa era a hora que eu deveria responder que “com licença, por que Deus precisaria de uma espaçonave?”, mas isso é do filme dirigido pelo William Shatner, e só uma pessoa num grau avançado entenderia a referência. Então, resolvi encerrar a conversa pelas regras.

– Então a senhora não precisava de mim.

– Como assim?

– Se Deus se expressa por todos nós e a senhora já sabe que Ele acredita que o futuro vai ser melhor, eu vou obrigatoriamente ter que responder isso, concordando ou não. De acordo com sua lógica, qualquer pessoa vai ter que responder isso. Ou seja, a senhora faz a pergunta já sabendo a resposta. Então, acredito que a senhora não precise mais de mim aqui.

– Na verdade...

– Na verdade, estou com um pouco de pressa. Mas foi um prazer.

Sorri e fui embora. Andei cinco metros, resmunguei para mim mesmo que “humanos são completamente ilógicos”. Puxei o celular do bolso, apertei um botão e disse que “Scotty, um para subir” e fechei os olhos.

Nada aconteceu. Abri os olhos e continuava naquele estranho planeta, onde as pessoas precisam de outra pessoa para falar sozinhas e mostrarem para si próprias o quanto estão corretas. Olhei para as estrelas pensando o quanto eu gostaria de não estar mais aqui.

Quem sabe um dia.

Enquanto o dia não chega, preciso trabalhar. Guardei o celular no bolso e continuei andando até o ponto de ônibus.

10 de setembro de 2014

Os 39 Degraus

Cansado de deitar sob o sol,
ficando em casa para ver a chuva
Você é jovem e a vida é longa,
E há tempo para matar hoje.

Então um dia, você descobre:
Dez anos ficaram para trás.
Ninguém te disse quando correr,
Você perdeu o tiro de partida.

3 de setembro de 2014

O Muro de Trinta Anos de Altura

Faz algumas semanas que, praticamente todas as manhãs, eu ando cerca de quinze minutos para chegar ao trabalho. Pego um ônibus ao lado de casa, faço um percurso de uns quinze minutos e desço. Ele segue por um caminho e eu vou por outro. Poderia pegar outro ônibus, mas gosto de tirar esses quinze minutos de caminhada para mim.

São quinze minutos, talvez os únicos do dia, que eu fico sozinho, perdido dentro das minhas músicas e dos meus pensamentos, organizando mentalmente o que preciso – e o que quero – fazer naquele dia.

Cada dia eu faço um caminho diferente – o que é difícil, já que eu parto sempre do mesmo ponto para chegar ao mesmo lugar. Mas tem dias que ando somente uma rua, em outros dias ando apenas em outra. Tem dias que estou mais valente e vou cortando os quarteirões, descobrindo caminhos novos, lojas e casas diferentes, prédios inéditos.

Mas, não importa o caminho, todos os dias eu passo pelo Túnel do Tempo.

O Túnel do Tempo é um enorme muro que fica no meu caminho. Enorme mesmo. Quase um quarteirão inteiro. É o muro da escola onde a Esposa estudou, desde criança até ser adolescente – isso aconteceu pouco depois de estudar na mesma escola que eu, no mesmo ano que eu, coisa que descobrimos quando começamos a namorar.

É uma sensação estranha passar pelo muro e imaginar que, quase três décadas atrás, a Esposa estava do outro lado, sem saber que eu estaria passando por ali todos os dias, mais de trinta anos depois.

É um muro de trinta anos de altura. E sempre que passo por ele, brinco de imaginar o que a Esposa estava fazendo do outro lado do muro trinta anos atrás.  De um lado do muro, é 2014.  Eu estou na calçada, andando apressado e tentando adivinhar como vai ser meu dia.  Do outro lado do muro, é 1986 ou 87, e a Esposa está lá dentro, menina ainda.

De um lado do muro, eu sei quem é ela. Do outro lado dos trinta anos, ela ainda não me conhece.

Porque ela é menina ainda. Diferente de mim, que estou quase com quarenta anos estampado em cada ruga ao redor dos olhos e no ar cansado, ela é uma garotinha loira com olhos que brilham a cada nova descoberta.

Está ali, trinta anos atrás, correndo pelo pátio ou sentadinha em um canto, comendo seu lanche, quietinha. Ou talvez dentro da sala de aula, desenhando quando deveria prestar atenção – tenho certeza que ela fazia isso – ou fazendo sua lição o mais rápido que pode, para poder ir embora e brincar mais um pouco. Talvez tenha alguma dúvida sobre a matéria, mas não vai perguntar para a professora porque é mais fácil descobrir depois olhando os livros. Talvez esteja olhando pela janela, em direção à calçada em que vou passar trinta anos depois, vendo como o dia está bonito. Talvez ela até me visse andando ali se o muro de trinta anos de altura não nos separasse.

Mas uma coisa eu tenho certeza: ela estava sonhando.

Primeiro, porque ela era criança, e crianças são feitos de sonhos. Segundo, porque ela não gostava daquela escola, e não existe lugar melhor para sonhar que um lugar que você não gosta. Quando você está num lugar que não gosta, sonhos são mais que sonhos, são esconderijos para onde você corre o tempo inteiro.

Eu tenho certeza de que ela estava sonhando quase trinta anos atrás, ainda menina.

E penso que talvez um desses sonhos seja a respeito dela trinta anos depois. Sonhos de paz e felicidade, sonhos de alegria e de acordar com a alma descansada. E o mais importante: ela sonha com a ideia de um dia não ser mais criança e mesmo assim continuar sonhando.

Todos esses sonhos que podem parecer pequenos para uma garota de nove anos e suas amigas – é por isso que ela guarda esses sonhos quase bobos apenas para ela – mas que a mulher de trinta anos depois sabe que não são tão fáceis de atingir. Sonhos que a mulher de trinta anos depois sabe que todo mundo diz sonhar, mas que pouca gente se arrisca a querer de verdade.

E percebo que eu tenho uma obrigação: cuidar, hoje, dos sonhos da menina que está do outro lado daquele muro de trinta anos. Meu papel é fazer estes sonhos se transformarem, trinta anos depois, em realidade. Meu papel é fazer com que a menina atrás daquele muro continue sonhando e, mais importante, continue achando que vale a pena sonhar.
Porque ela vai estar sempre ali, trinta anos atrás, sendo criança. E crianças são feitas de sonhos.

E aí eu penso nos sonhos dela e, antes de continuar meu caminho, sorrio.

A menina loirinha, do outro lado do muro, ainda não faz ideia que eu existo. Mas eu, deste lado dos trinta anos, sei exatamente o que preciso fazer com o meu dia.