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12 de novembro de 2009

Na Cama com Rob

Não sei se para todo mundo que escreve – ou melhor, que tem um blog – as coisas funcionam dessa forma. Mas, para mim, escrever é quase como sexo. Antes que vocês comecem a imaginar que eu digito meus textos totalmente nu e com apenas uma das mãos (e deixo a critério da mente imunda de vocês onde a outra mão estaria), eu explico.

Uma vez eu li que as pessoas fazem apenas duas coisas na vida: ou estão fazendo sexo ou estão esperando pela próxima vez em que farão sexo. Isso é verdade. Desde que o mundo é mundo as coisas são assim.

Por outro lado, para quem escreve, a coisa funciona mais ou menos do mesmo jeito: ou está escrevendo, ou está pensando no próximo texto que irá escrever.

Quem escreve, sabe.

Eu sou assim. Às vezes, estou andando pela rua e a idéia de um texto surge dentro da minha cabeça. Pode ser na forma de um pensamento rápido que passa pela minha cabeça, pode ser algo ou alguém que vi na rua. Tanto faz. Imediatamente, eu começo a imaginar o tipo de texto que aquilo pode virar, se vale a pena investir nele. Eu não consigo mais ver algo na rua sem pensar naquilo como texto.

Assim, quando a idéia passa pela minha cabeça, dá aquele estalo, e começo a criar diálogos, trabalhar piadas. Fico tentando imaginar como o texto iria começar, como deveria terminar. Fico construindo a personalidade de cada personagem, fico elaborando o cenário. E coloco as mãos aqui, dou um beijo ali... São as preliminares.

E, de repente, no meio disso tudo, eu encontro um fio condutor da história. Aí não tem mais volta. A barriga congela. Em um ou outro caso, os pelos da minha nuca se arrepiam. Estou entregue. Totalmente. É impossível segurar a excitação, preciso apenas arrancar a roupa e partir para cima. Ou, melhor dizendo, para o Word. E de roupa mesmo, fiquem tranquilos.

E não, não estou exagerando. É bastante comum eu entrar em casa, correr para o PC e nem abrir o e-mail, porque “não dá tempo”. O tesão é forte demais. Preciso pegar o texto pelo braço, rosnar um “vem cá” e puxar ele para mim.

Quem escreve, quer.

E começo a escrever alucinadamente. Vou praticamente devorando o teclado, insaciável. Piadas surgem em cima de piadas. Diálogos começam a crescer conforme eu digito.

Admito que às vezes, vou com um pouco mais de calma. Talvez seja um pouco de experiência, afinal, são quatro anos de blog. Assim, tem textos que vou com um pouco mais de jeito e carinho, tocando cada frase, me dedicando melhor a cada linha. Consigo até mesmo, às vezes, encontrar tempo para colocar uma música. E não é falta de tesão, e sim apenas para controlar a fome e acabar não atropelando as coisas.

Mas, como acontece em qualquer na primeira vez que você transa com alguém (porque quando você escreve uma crônica, é sempre a primeira vez), o começo acaba sendo meio desordenado. Sabe, a blusa que não sai, a calça que não abre? Existem palavras que eu não consigo alcançar e idéias que não consigo traduzir em palavras.

Mas o tesão é grande demais, então nada disso atrapalha a coisa de forma geral. Se um parágrafo não sai, eu apenas volto e mudo a forma que ele está sendo escrito e pronto, tudo volta a acontecer, quase de forma explicita.

Já em outros trechos a coisa flui totalmente, como se eu tivesse feito isso a vida inteira, com aquela pessoa. Ou melhor, com aquele texto.

Quem escreve, faz.

Sem sacanagem (ou melhor, com), parece instintivo. Os personagens vão conversando dentro da minha cabeça, eu vou apenas digitando o mais rápido que consigo. Tem textos que vocês leram aqui no blog que foram praticamente psicografados: acontecem dentro da minha cabeça mais rápido do que minhas mãos conseguem acompanhar.

E atire a primeira pedra quem nunca teve uma transa dessas. E atire a primeira pedra um blogueiro que nunca teve um texto desses.

Agora, e quando o texto resvala em algum lugar que faz cócegas? Vocês vão dizer que “não, você já tem 34 anos, não é mais cócegas...”. Mas eu digo que são cócegas, sim. Ao menos, é o que eu imagino que acontece, porque tem horas que eu paro de digitar, jogo a cabeça para trás e dou uma gargalhada que deve acordar os vizinhos. E mesmo se ninguém gargalhar naquele trecho quando estiver lendo, não importa. São as minhas cócegas. É o meu tesão.

Mas claro que existem os momentos nos quais a coisa não funciona. Tento terminar aquele maldito parágrafo, ou trabalhar um trecho legal de um diálogo e simplesmente não consigo. Apago, reescrevo, apago, reescrevo, e nada. Sabe quando você quer porque quer dobrar a perna de uma maneira na cama, e ela se recusa a obedecer? Aí, não adianta mesmo, o melhor é desistir, mudar de posição e continuar indo em frente, antes que dê câimbras. Porque, no final das contas, sempre há outra posição, uma maneira diferente. Basta se mexer um pouco.

Escrever, para mim, é quase como sexo.

Acho que é por isso que invejo os escritores que trabalham em romances. O sujeito passa meses, às vezes anos, trepando com os mesmos personagens, sem se atracar com mais nada ou ninguém. Quando muito, uma aventurazinha com uma crônica aqui, um flerte rápido com um conto ali.

Crônicas, as minhas crônicas, não são nada mais que sexo casual; romances, por outro lado, são relacionamentos sólidos. Aquilo é o cúmulo da fidelidade.

E, conforme o texto vai se aproximando do seu final, a coisa começa a se intensificar. Os dedos já trabalham sozinhos, sem você precisar comandá-los. Instinto puro. Não consigo mais me controlar, o coração começa a acelerar, a respiração aumenta. Não existe nada mais, apenas o texto.

Quero chegar logo no final, não porque aquilo está ruim, pelo contrário, está ótimo. Mas porque o final vai ser melhor do que já está. E não consigo pensar em mais nada conforme o texto se aproxima do final. O telefone toca, o cara grita “gol!” na TV, mas não estou nem aí, não consigo parar. Só existe o texto. Quando muito, consigo gemer um "putz, este trecho ficou um tesão".

Quem escreve, gosta.

E, de repente, tudo explode.

Eu explodo, o texto explode.

Fico olhando maravilhado aquilo escrito, como se fosse a primeira vez que tivesse escrito um texto. Ajusto um pedaço aqui, mudo uma frase ali, faço um carinho naquele parágrafo ali, abraço aquela outra frase ali. É a conversa mole depois do sexo.

E, com um cigarro na boca, brinco com o texto, me lembro de um outro trecho e rio sozinho, feito um bobo. Mas um bobo satisfeito.

Por que quem escreve nunca está sozinho.

E quem tem blog, então? Aquele prazer de postar o texto? Já tentou descrever um orgasmo? Eu não consigo. Nunca consegui. E eu não consigo descrever a sensação de postar um texto e entregá-lo para os leitores. Muita gente fala que textos são como filhos, que você os faz para o mundo. Não são. Textos são orgasmos.

A diferença é que um orgasmo acaba segundos depois de começar. E o orgasmo de postar um texto volta o tempo inteiro, a cada comentário recebido. Você passa dias dentro do mesmo orgasmo. Esse é momento é o nosso momento. Mas, como todo orgasmo, é de quem lê também.

Quem tem blog, sabe.

Imediatamente após postar o texto, surge aquela sensação de leveza. Física, mental, emocional. O texto saiu de mim. Ainda estou com a respiração um pouco alterada – dependendo do texto e da velocidade com que digitei, estou até meio suado, juro – e não consigo parar de sorrir. O texto saiu de mim, mas eu ainda não saí do texto.

Preciso levantar, andar, entrar em contato com a realidade, voltar para o mundo.

E aí, como qualquer amante – ou como qualquer blogueiro? – deito relaxado, e espero os elogios à minha performance, que chegam nessa janelinha aqui embaixo.

Às vezes, claro, chegam críticas: “você foi muito bruto aqui”, “você já fez aquela coisa ali melhor”. Paciência. Ninguém pode ser perfeito sempre. Mas eu, particularmente, gosto do meu desempenho. Não sou o melhor amante do mundo, mas acho que dou no couro. Ou isso, eu escrevo mal, mas vocês ficam sem graça de falar. Mas não importa, o tesão que sinto é o mesmo.

E sei que daqui a pouco – sejam horas, sejam alguns dias – eu vou morrer de tesão de novo, e vou começar tudo de novo. E aí, logo vem aquela fome, aquela fúria, preciso urgentemente de um teclado e uma tela em branco para mim. Frase por frase, beijo por beijo, parágrafo por parágrafo.

Sexo é a melhor coisa do mundo (lembrando, claro, que "morango com chantilly" e "acordar de madrugada com o barulho da chuva e lembrar que o dia seguinte é sábado" não concorrem). Mas, acreditem em mim, escrever chega bem perto disso. Quem escreve, sabe. Quem tem blog, sabe. Por isso que, às vezes, na cama, sozinho, antes de dormir, eu me lembro de um outro texto que fiz. Lembro de como e onde escrevi, lembro da minha vida na época em que escrevi. E lembro com saudade, mas segurando o sorriso.

Mas, na verdade, gosto de pensar que meu melhor texto sempre será o próximo. Não sou cafajeste a ponto de terminar um texto pensando em outro – se bem que já lembrei de outro texto enquanto escrevia, acontece – mas tenho a esperança de que o melhor de todos (e não aquele pelo qual serei lembrado, mas sim aquele do qual me lembrarei daqui a anos) sempre será o próximo.

Quem escreve, sabe. Quem tem blog, sabe.

Foi bom para vocês? Porque eu achei delicioso.

9 de novembro de 2009

Smoking in the Boys Room

Estou com essa história na cabeça desde que escrevi o post sobre minhas idas à sala da diretora. Como contei outro dia isso no trabalho – e, pelas risadas, a história ainda funciona –decidi colocar no blog. Sim, às vezes eu “experimento” textos contando a história para algumas pessoas, antes de publicar no blog.

Apesar de ter sido bom aluno, eu sofri alguns percalços no colegial que me fizeram perder alguns anos e mudar de escola. Acabei parando num colégio pequeno, ao lado de casa. A rotina lá era deliciosa: além de metade dos meus amigos da rua estudarem lá – ou seja, eu já entrei no colégio sendo respeitado – fiz alguns amigos para a vida toda ali.

O único problema é que não podia fumar na escola. Ou seja, foi lá que eu comecei a desenvolver minha criatividade para fumar em locais proibidos. Vale lembrar que eu tinha 17 anos, então não fumava por vício, mas sim por que era proibido. E foi aí que nasceu um dos meus maiores inimigos: a Dona Ida, bedel encarregada de cuidar do colegial.

Na verdade, a Dona Ida não era uma inimiga, mas sim uma adversária. Ela não era má pessoa, apenas cumpria seu dever. Aliás, era uma velhinha muito da simpática, com uma força desproporcional (mais de uma vez, ela me segurou pelas calças e me atirou para dentro da sala) e uma peculiaridade: ela não falava assim, como eu e você; ela falava “axxim”, e ainda trocava os “r” por “l”.

Logo, vivia soltando frases como “Lob, voxxê não vai xxubir pala a claxxe?” e “Voxxê vai acabar xxendo xxuspenxxo”. A Dona Ida foi quase uma precursora dos MiGuxXxXxXox do Orkut.

Assim, nos intervalos, eu e a Dona Ida ficávamos brincando de gato e rato. Eu procurava por cantos inusitados para fumar; e ela andava farejando tudo em busca de fumaça, pois ela já sabia que onde havia fumaça, havia Rob.

O engraçado era que o regulamento da escola jogava a meu favor: ela só poderia me levar para a diretoria se me visse fumando; caso contrário, ela estava de mãos atadas. Eu, obviamente, usava essa brecha na lei, a torto e a direito.

Então, não era difícil eu e mais dois ou três dementes se trancarem no banheiro masculino (que devia ter 1x1m) e transformarmos aquilo na ala de fumantes da escola. Logo, não dava dois minutos e ela estava esmurrando a porta, querendo ver o que acontecia lá dentro – o que era uma doce ilusão dela, já que não daria para ver nada, por causa da fumaça.

E era eu quem tinha que ficar próximo à porta, negociando com ela, como se fosse um seqüestrador pedindo para o capitão de polícia por uma fortuna em dinheiro, um carro para me levar até o aeroporto e um avião abastecido. Faltava só gritar “se você não me obedecer eu vou matar um refém, não estou blefando!”

– Quem exxtá aí dentlo?

– Estamos no banheiro, Dona Ida. Não incomode.

– Abla exxa porta, eu quelo entlar!

– Dona Ida, aqui é o banheiro masculino. Vá procurar pelo seu, fica no outro andar!

– Eu xxei que vocês exxtão fumando aí dentlo!

– Como a senhora sabe? A senhora está olhando pela fechadura? Que pouca vergonha!

– Ablam exxa porta agola!

– Dona Ida, se a senhora não for embora, eu vou chamar o segurança!

Claro que esse diálogo servia apenas para ganharmos tempo e acabarmos com o cigarro. E, quando abríamos a porta do banheiro, lá estava ela, esperando por nós. Quer dizer, acho que era ela – não dava para ter certeza, pois, por causa da fumaça, o banheiro parecia uma sauna turca.

Às vezes, minha cara de pau chegava a níveis extremos, já que eu ainda soprava a fumaça da última tragada na cara dela. Ninguém mandou criarem uma lei que pregava que eu só poderia ser aprisionado com o cigarro na mão. E ela sempre me pegava pela roupa, me cheirava e resmungava:

– Voxxê está xxheilando a xxigalo!

– Estou? Não sei, eu não conheço o cheiro de cigarro, sou muito jovem ainda.

E assim íamos vivendo, Dona Ida e eu. Eu fumando escondido com meus amigos, e ela desenvolvendo planos – às vezes, até mesmo recrutando serventes e faxineiros – para me capturar.

Assim, conforme o cerco foi se apertando – pois, alguns dias, a Dona Ida parecia ter sido clonada – eu e meus amigos fomos obrigados a recrutar a ajuda dos garotos do ginásio. Aliás, recrutar é eufemismo: nós mandávamos sempre um membro da turma – que tinha 1.90, andava com uma camiseta do Ratos de Porão e era tão sociável quanto um homem de neanderthal – explicar aos meninos da oitava série que eles deveriam nos ajudar em troca da própria vida.

Sempre funcionou. Na verdade, choviam voluntários. Estar no terceiro colegial é ocupar o degrau mais alto da cadeia alimentar estudantil.

O esquema era o seguinte: todo intervalo, a Dona Ida saía pelo colégio para fazer sua ronda, como um oficial da Gestapo caminhando num campo de prisioneiros. Provavelmente ela deveria estar procurando túneis e vendo se as cercas estavam reforçadas. E, claro, tentando me pegar em flagrante com um cigarro - algo que era, na verdade, sua grande ambição profissional.

A falha da ronda da Dona Ida é que o colégio era pequeno. Provavelmente, ela achava que isso jogava a favor dela, pois nos daria poucos esconderijos. Na verdade, isso era uma benção para nós, pois ela era obrigada a fazer percursos diferentes todos os dias.

Assim, colocamos uma meia dúzia de moleques ao longo da trajetória dela. A função de cada um deles era avisar o moleque seguinte que a Dona ida estava se aproximando. E isso deveria ser feito da forma mais discreta possível.

Por exemplo: o moleque que ficava na porta da sala dos professores – que era a base da Dona Ida – precisava dar um sinal para o menino que ficava no final do corredor (algo como tirar o boné). Este menino, ao ver isso, sabia que ela estava saindo para andar na escola, e dava um sinal – como subir num banco, ou algo assim – para ser avistado pelo próximo. Assim, a informação estava sempre cerca de 10 metros à frente da Dona Ida. Quando ela pensava em ir para a quadra, já havíamos apagado uns dois cigarros antes.

Todos eles estavam conectados, por meio de bonés, tampas de latões de lixo e casacos. Era o princípio da internet, ou, melhor ainda, da internet sem fio.
Acredito que até hoje a Dona ida nunca entendeu como, no momento em que ela colocava os pés na quadra, ninguém estava fumando, apesar do lugar parecer um bairro de Londres devido à fumaça.

E justamente por isso acredito que ela nunca conseguiu entender como conseguiu num belo dia, me pegar com o cigarro na boca.

Eu mesmo entendi somente depois. Foi um acidente.

Um dos moleques precisou sair da linha de informação (foi ao banheiro, sei lá) e a conexão entre todos foi bruscamente interrompida. Era o princípio do Speedy.
Assim, a Dona Ida caminhou tranquilamente pela escola e, quando colocou os pés na quadra, deu de cara comigo dando uma tragada digna de um comercial de Marlboro.

Numa situação normal, eu teria dito algo como “Dona Ida, finalmente você veio para onde está o sabor” ou “veio fumar também, Dona Ida?”, mas o susto que levei foi tão grande que eu fiquei sem ação.

E o susto não foi por ter sido pego, mas sim pelo berro que ela deu da porta da quadra:

– PEGUEI VOXXÊ FUMANDO!

Seria preciso um poeta para descrever a sensação de vitória nos olhos dela. Eu não sei fazer poesia, então vou fazer uma analogia com futebol: imagine que a seleção da Coréia do Norte vença a Copa de 2010, derrotando a Itália por 3 x 1 (de virada) na final. O técnico da Coréia, ao final do jogo, terá um olhar parecido com o da Dona Ida, naquele minuto.

Felizmente, eu me recuperei logo do susto. Mas vi que não tinha muito que fazer. Flagrante delito. Se dependesse da Dona Ida, eu estaria nas páginas policiais de todos os jornais do dia seguinte. Graças a Deus isso não aconteceu (porque estar nas páginas policiais seria algo relativamente difícil de explicar para minha mãe). Mas ela tinha seus próprios planos para mim.

– Noxx vamoxx AGOLA pala a xxala da diletola.

– Nós? Por quê?

– Porque voxxê estava fumando.

– Eu sei. Mas a senhora não estava, então porque a senhora tem que ir?

– Porque eu quem xxurpleendi voxxê fumando.

– Ah, bom. Eu vou ser suspenso?

– Plovavelmente. Ixxo vai ficar a cargo da diletola.

Ou seja, eu estava perdido.

É por isso que eu gosto de quadrinhos. Eles me ensinaram muita coisa. Uma história em especial, A Queda de Murdock, do Demolidor, me ensinou que um homem que perdeu tudo não é um homem que perdeu tudo. Um homem que perdeu tudo é um homem que não tem mais nada a perder.

E se deu certo com o Demolidor, daria certo comigo.

– Bom, já que eu vou ser suspenso...

– XXim?

– A senhora sente-se e espere eu acabar o cigarro.

– Não, noxx vamoxx agola!

– Não, Dona Ida. A senhora já me pegou fumando, contente-se com isso. Como cortesia profissional, deixe ao menos eu acabar de fumar. É o último pedido de um condenado.

Ela parou e pensou. E não é que ela se sentou ao meu lado? Ficou me segurando pelo braço, com medo de que eu fugisse, mas esperou pacientemente.

Passei a admirar muito mais a Dona Ida. Ela era um adversário à altura.

Mas tudo que é bom dura pouco. E aquele cigarro durou menos que eu gostaria. Minutos depois, eu entrava na diretoria, sendo escoltado de perto pela Dona Ida. A diretora lançou um olhar de “você de novo?”, mas ficou em silêncio. Dona Ida, que, além de policial, assumia o papel de promotora quando preciso, leu as acusações.

– Ele exxtava fumando na quadla!

A diretora olhou para mim.

– Isso é verdade?

– Sim.

Convenhamos, negar, à esta altura, não adiantaria nada. Provavelmente, a Dona Ida deveria ter fotos disso, de vários ângulos, que seriam apresentadas como "Evidência A".

– Você sabe que é proibido fumar na escola.

– Eu sei.

– Então porque foi fumar?

– Eu sou um viciado. Eu preciso de ajuda e compreensão, e não de repressão da sociedade.

Eu havia usado essa frase com um segurança de shopping e havia dado certo. Quem sabe...

– Vou ligar para sua mãe.

É. Não deu.

Ela pegou o telefone, minha ficha – Deus tenha piedade do que havia escrito naquele pedaço de papel – e começou a discar o número da minha casa.

Eu tentei uma última cartada. Minha mãe sabia que eu fumava. Isso deveria correr a meu favor.

– Se a senhora falar com ela, pode pedir a ela para comprar cigarros para mim?

– Oi?

– É, eu fumei o último na quadra.

– Sua mãe sabe que você fuma?

– Bem, toda a noite eu fico lendo no quarto e fumando. Quando saio de casa pela manhã, o cinzeiro está cheio. Na hora do almoço, quando eu volto para casa, ele está vazio. Então ela sabe que eu fumo e limpa meu cinzeiro. Ou minha casa é assombrada pelo fantasma de um mendigo que fica fumando as bitucas.

– Rob...

– Ok, desculpe. Sim, ela sabe.

A decepção no rosto da diretora era visível. A da Dona Ida, então, nem se fala. Ela colocou o telefone no gancho.

– Não faça mais isso. Ok?

– Ok. Posso ir?

– Pode.

Assim, sem suspensão, sem nada. Acho que foi a única vez que a operação aritmética mãe + sala da diretora resultou em algo positivo.

A Dona Ida levou aquilo para o lado pessoal. Passou o resto do colegial andando na minha cola, como um perdigueiro, provavelmente rezando para me pegar bebendo uísque no gargalo ou vendendo drogas dentro da escola.

Claro que nunca aconteceu. Mas ela também não viu eu e meus amigos, no dia seguinte, jogando o moleque que havia quebrado a conexão num latão de lixo.

Assim, a linha nunca mais caiu. Nunca mais fui pego fumando. Mas, até hoje, quando acendo um cigarro, dou uma olhada ao redor, para ver se a Dona Ida não está por perto. Ou seja, a longo prazo, não sei se ela chegou a vencer, mas arrancou um belo de um empate.

7 de novembro de 2009

Marcha Para Vitória - Parte Final

(leia a parte V aqui)

No dia seguinte ao casamento, acordei cedo e fiquei deitado na cama, esperando meu corpo começar a desenrugar. Sem exagero, acho que terminei de me secar umas seis horas depois que acordei.

Enfim, para não perder a viagem, passamos o domingo juntos, na casa da amiga-noiva – o feliz casal iria viajar somente após o feriado, no dia 2. Assim, deu ao menos para matar a saudade, tomar meia dúzia de cervejas e dar (muitas) dúzias de gargalhadas.

Mas eu ficava o tempo todo de olho no céu.

A chuva parava e recomeçava, parava e recomeçava. Cada vez que ela parava, eu pensava: “amanhã volto para São Paulo”; aí, ela recomeçava, e eu me decidia: “vou morar no Espírito Santo”. Eu estava com uma passagem de volta para a manhã do dia 01. E, sinceramente? Seria avião ou nada. Eu não encararia 15 horas de ônibus novamente, era mais fácil achar um apartamento em Vitória e mandar o dinheiro da passagem para a Besta-Fera.

Assim, na manhã seguinte, me despedi dos recém-molhados na porta do aeroporto e fui para o balcão, fazer o check in. Assim como em São Paulo, o atendente era cheio de sorrisos. Ou seja, mau sinal.

– Seu vôo está atrasado, senhor.

– Ah. Que surpresa.

– É por causa da chuva.

– Qual seu nome?

– Rosbileno.

– Rosbileno, preste atenção. Aconteça o que acontecer, não vamos falar sobre chuva. É um pedido pessoal meu. Entendido?

– Sim, senhor.

– Obrigado. Mas o vôo está apenas atrasado, certo? Ele não foi cancelado?

– Ainda não.

– Ainda? Como assim, ainda não? Ele será cancelado?

– Nunca se sabe, senhor. Os dias aqui estão difíceis, por causa da... Do...

– Da chuva. Eu sei.

Mesmo assim, peguei minha passagem e fui para o portão de embarque.

O amigo-noivo já havia me avisado que o aeroporto de Vitória era ruim e pequeno, mas achei que fosse exagero dele. Não era. Nada contra o aeroporto só ter um portão de embarque. O problema é o portão de embarque fica estrategicamente (e extremamente) mal colocado. E eu, claro, só percebi isso tarde demais, quando um japonês me cutucou no ombro:

– Você está na fila?

– Sim.

– Do café?

Ok. Vamos dançar conforme a música.

– Que café?, perguntei.

– Na fila do café.

– Eu não sei do que você está falando.

– Você não está na fila do café?

– Olhe, eu só quero pegar um avião e ir embora para casa. Nada mais.

– Ah, achei que aqui era a fila do café.

– Não, aqui é a fila do avião.

Achei que ele fosse demente. Mas como ele foi embora logo em seguida, deixei para lá. Cinco minutos depois, uma mulher bate no meu ombro:

– Aqui é a fila do café?

É oficial: Deus do céu.

– Não, aqui é a fila do embarque.

– Você sabe onde é a fila do café?

– Que café?

Ela apontou para trás e eu finalmente entendi.

O portão de embarque fica a cinco metros de uma cafeteria. Ou seja, se três pessoas estão na fila do embarque e uma duas na fila do café, já começa a dar confusão. E, obviamente, eu estava bem no ponto médio entre o embarque o café.

Eu era o elo entre as filas: as duas terminavam em mim. Se eu continuasse virado para frente, talvez – e somente talvez – voltasse para São Paulo; se eu desse meia volta, e me virasse para o outro lado, conseguiria um capuccino em alguns minutos.

Assim, desisti de ficar na fila. Como meu vôo estava atrasado, simplesmente fiquei ao lado do portão de embarque, olhando o monitor e acompanhando o horário do meu avião.

De tempos em tempos, o monitor piscava e atualizava as informações sobre os vôos. Assim, a cada três minutos, o atraso do meu avião aumentava uns dez minutos. Por isso, todas as vezes nas quais a tela piscava, eu ficava olhando atentamente, tenso, esperando aparecer logo o CANCELADO ali e acabar com tudo. As pessoas do aeroporto deveriam achar que eu estava acompanhando alguma disputa de pênaltis ali.

Finalmente, apareceu o tão sonhado CONFIRMADO ali, ao lado do meu vôo. Eu iria para casa!

Peguei minha mala e me dirigi à sala de embarque. Tudo o que eu queria era me sentar num canto, sozinho e ficar lendo meu livro. Não consegui. Na verdade, eu consegui me sentar e consegui abrir o livro.

Mas ler? Impossível.

Como o tempo estava fechado, não eram todos os aviões que conseguiam pousar em Vitória. Assim, a cada avião que era bem sucedido na tarefa e aterrissava na frente da sala de embarque, as pessoas começavam a gritar “uhu! uhu! uhu!”, para celebrar. Sabe, aqueles gritinhos típicos de surfista ou de personagens de novela das sete?

Eu não estava mais no aeroporto de Vitória. Eu estava na sede das Linhas Aéreas Malhação.

Além disso, aqueles avisos que as pessoas falam no alto faltante de aeroportos não deixam ninguém ler. Você está ali concentrado, quase embalando no livro, e, de repente:

Dir péssengers. You cain imbarqui in de flait TAM Tu-Tre-Tu-Faive to Rio de Janeiro in de gueite Uãn.

Porque não pagam um Yazigi ou um CCAA para essas pessoas que trabalham em aeroportos? É impressionante como o inglês deles é o pior do mundo. Se você colocar um americano, um inglês e um australiano ouvindo aquilo, eles precisariam debater a frase durante uns dez minutos para tentar descobrir o significado do que a menina queria dizer.

Desisti de ler. Mas, por outro lado, eu ia para casa. E de avião. Guardei meu livro na sala e relaxei.

E esse foi meu erro.

Eu tenho um grande problema. Quando estou em algum lugar cheio de gente, eu fico observando as pessoas ao meu redor e pensando bobagens. Como eu sempre falo aqui, são os 20% do meu cérebro sobre os quais eu não tenho controle. E, quando estou com sono – eu estava caindo de sono – estes 20% derrubam o governo e declaram posse sobre meu cérebro.

Internamente, o processo não muda muito: meus olhos ficam percorrendo o ambiente, procurando pessoas estranhas, parecidas com algo ou alguém etc. A mudança, quando estou com sono, acontece externamente.

Eu não consigo segurar a risada.

E ali, naquela altura, eu já sabia que toda a minha viagem entraria no blog. Assim, eu comecei a olhar o redor, pensando no blog. Olhava para as pessoas e ficava brincando, pensando em como eu escreveria sobre elas, como elas entrariam no post.

Mas, com sono, eu não consigo segurar a risada.

Assim, comecei a vasculhar a sala de embarque. Meus neurônios, em festa, com aquela multidão ali. E eu olhando velhos e crianças, homens e mulheres, procurando por figuras atípicas. E correndo enormes riscos.

Porque, com sono, eu não consigo segurar a risada.

E foi numa destas vasculhadas que eu topei com uma mulher que conseguia a proeza de se parecer com o Vagner Love, do Palmeiras, apesar de ser branca. Até as tranças ela tinha, mas eram de outra cor. Na verdade, ela era igualzinha ao Vagner Love. Talvez só um pouco mais velha, por volta de uns 40 anos, mas igualzinha.

Na mesma hora, pensei em sacar o celular e tentar tirar uma foto, mas daria bandeira mais. Mesmo porque ela estava sentada bem de frente para mim. E ela também olhava ao redor pelo saguão, e conforme ela virava a cabeça para os lados, se tornava mais Vagner Love ainda.

A risada começou a querer a escapar. Tentei ficar na minha. Daria muito na cara.
Foi aí que ela se virou parte do corpo para olhar para trás e eu vi uma tatuagem, feita de forma tosca no seu braço: IVO. Mas bem tosca mesmo, como aquelas feitas em cadeia. Meus neurônios começaram a gritar:

– Ela é uma terrorista, Rob! Ela vai explodir o aeroporto de Vitória!

Mordi o lábio e ordenei para que eles calassem a boca. Evidente que não fui atendido. Meu cérebro funcionava a todo vapor. Eu comecei a imaginar ela colocando bombas no aeroporto no banheiro do aeroporto. E esta tatuagem? IVO! Ivo... Intense Victory of... Pelo amor de Deus, existe algum país com O? Oman! Intense Victory of Oman!

Resolvi não olhar mais para ela e abaixei os olhos. Aí, a coisa desandou de vez. Ela estava de havaianas. Nenhum terrorista que se preze usa havaianas. Meu neurônios decretaram ponto facultativo. Naquele dia, ninguém mais trabalharia no meu cérebro, pois havíamos acabado de encontrar a primeira terrorista brasileira, com havaianas e a cara do Vagner Love.

A risada começou a escapar pelo canto da boca. Isso deve ter feito algum som, porque a velha ao meu lado começou a me olhar incomodada. E eu ali, mordendo os lábios e apertando os dedos dos pés, me esforçando para não cair no chão gargalhando.

Aos poucos, comecei a me acalmar. Fiquei olhando fixamente para a pista de pouco, ouvindo os “uhu! uhu!”e tentando afogar a risada em algum lugar do corpo. A minha sorte é que os meus neurônios ficaram quietos alguns minutos. Por outro lado, não gosto quando eles fazem isso – é sinal de que estão aprontando algo.

Dito e feito. Não dá um minuto, e chega um neurônio – provavelmente, enviado como emissário – e me chama:

– Rob?

– Oi, resmunguei baixinho.

– Nós estávamos ali pensando na terrorista.

– Eu não quero falar sobre isso. Não agora. No avião você me conta.

– É rápido.

– Eu vou rir?

– Não, claro que não. É que nós estávamos com um problema lá no seu cérebro.

– Qual?

– Como as havaianas a transformaram numa terrorista brasileira, não sabíamos mais o que fazer com a sigla IVO. Porque, você sabe, se ela é brasileira, não dá para usar o Omã.

– Sei.

– Então, chegamos à outra saída.

– Eu não quero ouvir.

– Nós descobrimos que IVO, na verdade, significa "Impenhados nas Vitória de Osasco".

E o filho da puta disse isso e saiu correndo de volta para o cérebro.

Eu não agüentei. Coloquei as mãos no rosto, tapando o máximo que conseguia da boca, dos olhos, e comecei a gargalhar. A velha deve ter achado que eu era realmente louco. Na verdade, eu também achava. Eu não tinha controle sobre minha risada, mas, apesar (ou justamente por causa) disso, eu conseguia apenas pensar: eu sou doente.

Mas tudo piorou de verdade quando eu me acalmei, e respirando fundo, com lágrimas nos olhos, me sentei direito novamente.

A terrorista de Osasco olhava fixamente para mim, com a expressão “você está rindo de mim, né, seu filho da puta?” no olhar. Tive vontade de rir de novo. E, para piorar, um dos neurônios ainda gritou lá de dentro:

– Cuidado, Rob! Ela pode ter uma bomba!

Começou tudo de novo. Ela poderia ter uma bomba, mas quem iria explodir era eu. E, pior, logo em seguida eu iria apanhar. Era tudo o que eu precisava para terminar a viagem: apanhar em público de uma sósia do Vagner Love.

Mas fui salvo pelo gongo:

Dir péssengers, di fláit GOL Uãn-Siquis-Êit-Tu tu São Paulo is rédi tu embarqui. Procidi to di gueite tu.

Era o meu vôo.

Assim, com calma, e sem fazer movimentos bruscos para evitar que a risada escapasse, peguei minhas coisas e caminhei para o portão. E rezando para ela não embarcar no avião e se sentar ao meu lado – porque é o tipo de coisa que aconteceria comigo.

Foram quinze horas de viagem de ônibus. Espírito do Rogério no quarto. Água na altura da cintura, e não consegui ir ao casamento.

Nada disso importava mais.

Me sentei na janelinha – eu adoro me sentar na janelinha, sou criança mesmo – e vim gargalhando (o termo é esse mesmo, eu gargalhava) de Vitória até São Paulo. Pensando na Vagner Love, pensando na viagem como um todo, nas piadas e histórias que isso renderia.

Às vezes, mais importante que a viagem, é o modo que você se sente quando volta para casa.

Querem saber? Não vejo a hora de voltar para lá.