26 de janeiro de 2012

Os Garotos Perdidos


Existem muitos problemas em ser menor de idade, mas entre os mais incomodam é a dificuldade em comprar bebida. Claro que diversos bares vendem latinhas de cerveja até para moleques de oito anos, mas, em supermercados – especialmente nas grandes redes – a coisa muda de figura.

Eu me lembro uma noite que eu e um amigo queríamos tomar vinho. Estava frio e chovia, e vinho seria a pedida natural para esquentar o corpo e dar início a uma conversa sobre música, mulheres e bobagens. Porém, tínhamos pouco dinheiro (somente cinco reais), muito menos idade para comprar nada.

Assim, fizemos o que qualquer outro moleque na mesma situação faria: ficamos de plantão na porta do mercado, esperando surgir alguma pessoa que 1) estivesse indo ao mercado e 2) tivesse cara de ser gente boa a ponto de comprar vinho para nós.

E esta pessoa surgiu na forma de um sujeito de trinta e poucos anos – ou talvez até mais, já que ele era quase totalmente careca. Veio andando pela calçada e, quando estava na porta do mercado, o abordamos.

- Cara, você vai entrar no mercado?

- Sim.

- Tem como quebrar um galho para a gente?

Ele olhou para meu amigo, para mim, e de volta para o meu amigo. Só então ele respondeu.

- Bom, vamos agilizar porque está chovendo. Que bebida vocês querem?

Perfeito. Além de 1) ir ao mercado e 2) parecer gente boa, a pessoa que escolhemos também era 3) eficiente.

- A gente queria tomar vinho.

- Beleza. Entrem comigo e eu compro para vocês. Mas com uma condição.

Estava bom demais para ser verdade. Provavelmente, o sujeito iria pedir para bebermos com ele. Provavelmente, na casa dele. Provavelmente, à meia luz. Provavelmente, com Frank Sinatra rolando baixinho. Provavelmente, seminus e besuntados de óleo.

Felizmente, ele continuou sem esperar pela nossa resposta.

- Vocês vão carregar minhas compras aí dentro, porque estou sem saco de pegar um carrinho. Mas é pouca coisa, e vocês estão em dois. É justo?

Olhei para meu amigo. Ele olhou para mim. Parecia fácil.

- Ok.

Assim, entramos no mercado. No primeiro corredor, ele perguntou a nossa idade. 16 e 17, respondemos. Perguntou se éramos do bairro. Eu era, mas meu amigo não. Porém, o rumo da conversa mudou bruscamente quando ele parou em frente à prateleira de chás.

- Vem cá, você estão vendo chá preto aqui?

- Ali, olha, respondeu meu amigo.

- Ah é verdade. Minha namorada não está legal lá em casa, e chá preto sempre resolve. E vou levar um de erva cidreira também, porque ela gosta.

Pegou as duas caixas de chá e entregou para mim.

- Pronto. Você leva os chás.

Saímos andando pelos corredores. Eu, segurando os chás, ouvia o que ele dizia.

- Então, vocês estão comprando vinho, e eu aqui, comprando chá. E ainda preciso comprar desinfetante. E vocês aí, só no vinho. Vida boa, a de vocês.

Não consegui não rir. Meu amigo também não. E assim fomos ao corredor dos materiais de limpeza.

Pegamos o desinfetante e ele entregou o frasco ao meu amigo.

- Pronto. Esse você leva porque seu amigo já está carregando os chás. Agora falta só uma coisa.

Fomos até outro corredor e paramos em frente aos óleos de cozinha.

- É o que eu disse: vocês vão encher a cara de vinho, e eu estou aqui comprando óleo de girassol, porque parece que faz bem. Alguns anos atrás eu estava no lugar de vocês e sairia daqui com o vinho. Mas não, hoje estou comprando chá e óleo. Aliás, não é óleo. É óleo de girassol. Porra, que decadência.

Não deu para não gargalhar. Ele pegou o óleo e entregou ao meu amigo. Riu também e continuou.

- Estou falando sério, ficar velho é uma merda, vocês vão chegar lá. Mas agora vamos atrás do vinho.

Porém, ao chegarmos à seção de bebidas, surgiu outro problema.

Não havia nenhum vinho barato, daqueles de três ou quatro reais. Rodamos o corredor inteiro, e só havia bebidas importadas. E bebidas importadas nunca custam menos de dois dígitos. Quer dizer, talvez a água custe, mas as garrafas são pequenas. E cá entre nós, água não tem a mesma graça que vinho. Até mesmo na escola ensinam a gente que ela não tem gosto de nada.

Vasculhamos a seção inteira, mas não havia nada que pudéssemos pagar. A única solução era agradecermos o cara, sairmos do mercado e irmos ao boteco do outro lado da rua comprar duas latinhas de cerveja, que acabariam em menos de dez minutos. Ou não, já que o cara nos chamou de um canto do corredor.

- Aqui tem uns baratos!

Fomos até lá. Realmente, eram os mais baratos. Mas todos custavam 16, 18 reais. Brochamos completamente. Era a nossa última esperança, e ela custava o triplo do que tínhamos.

- Não, ainda estão mais caros do que a gente pode, disse meu amigo.

O cara parou de ler o rótulo do vinho e ergueu os olhos em nossa direção.

- Quanto dinheiro vocês têm?

Fomos sinceros. Não havia porque mentir.

- Cinco reais.

O cara olhou para nós pensando. Não sabíamos se ele estava pensando em uma solução, ou se estava reconsiderando sua opinião sobre “ficar velho é uma merda”. Mas descobrimos logo em seguida, quando ele disse:

- Vamos levar esse. Eu pago.

Não, aí já era demais. Com certeza, era tudo uma armadilha. Talvez ele fosse um policial infiltrado no mercado cuja missão era capturar adolescentes que gostavam de vinho Chapinha. Assim que chegássemos à calçada e ele nos entregasse o vinho, dezenas de viaturas surgiriam do nada, com policias gritando e apontando armas em nossa direção.

- Não, cara, não precisa fazer isso. A gente não tem grana.

- Vocês não têm cinco reais?

- Sim.

- Passe pra cá.

Peguei a nota de cinco que estava amassada no meu bolso e entreguei para ele.

- Vocês são moleques e têm mais que curtir a vida. Deixe que eu pago o resto do vinho. Mas vamos pegar uma última coisa antes de passarmos no caixa.

Bom, o sujeito não apenas iria comprar o vinho, como pagar a maior parte dele. Mesmo se ele decidisse comprar um cofre com uma bigorna dentro, iríamos carregar. Mas foi bem mais fácil que isso. Na verdade, nem precisamos sair do corredor de bebidas. Ele foi até uma geladeira e pegou uma cerveja. Olhou para nós e riu.

- Uma vez moleque...

“Sempre moleque”, eu pensei. Mas não respondi, apenas sorri.

Ele pareceu entender meu sorriso e fomos em direção ao caixa.

Pagamos tudo e saímos do mercado. Ele nos entregou a sacola com o vinho.

- Agora é só atravessar a rua e pedir no boteco ali para eles abrirem a garrafa. Mas como eu comprei a bebida de vocês,  é minha responsabilidade dar um toque. Afinal, eu ainda sou o adulto aqui.

- Certo.

- Nada de fazer merda na rua, ok? E outra coisa, se não estiverem mais aguentando beber, é só parar. Não tomar a garrafa inteira não é crime nenhum. Feito?

- Feito!

- Beleza. Ah, mais uma coisa.

- Diga.

- Para quem vocês vão dedicar o primeiro gole desse vinho?

Ele perguntou sorrindo. Não estava esperando uma resposta, apenas uma confirmação.

E eu entreguei o que ele queria.

- Porra, pra você! Você é gente finíssima!

Fui sincero. Ele sorriu.

Assim, nos despedimos e fomos embora. Nós carregando a garrafa, e ele com as compras. E bebemos o vinho, conversando sobre a vida e falando bobagens.

Nunca mais o vimos.

E nunca ficamos sabendo que o sujeito que pagou pela nossa bebida se chamava Rob Gordon e que, dias depois disso, nos tornaríamos personagens de uma crônica em seu blog.

24 de janeiro de 2012

A Saga do Bife de Pensão - Parte Final

(Leia a  Parte I aqui)

Minha linha de raciocínio não foi exposta de uma forma muito bem trabalhada, admito. Mas a minha intenção era apenas iniciar uma discussão sobre o assunto – eu não tinha a menor intenção de encerrar o assunto com aquela simples frase.

Contudo, o negrão não parecia ser um homem de muitas palavras. Assim, ao invés de fazer uma contraproposta ou pedir para que eu desenvolvesse o assunto, resolveu exprimir sua opinião da forma mais enfática possível: fechando a mão e me dando um murro na boca.

Foi quando o mundo se tornou escuro e repleto de pontos brilhantes. Fly me to the Moon, and let me play among the stars (Frank Sinatra mode: on).

Instintivamente – mas ainda tonto – passei a mão pelos lábios e senti o sangue. Seguindo algum código de ética profissional, o negrão esperou alguns segundos para que eu me recuperasse. Na verdade, ele esperava que o seu argumento – que havia sido forte – fizesse com que eu me conscientizasse de que ele tinha razão.

O problema é que eu tenho um grande defeito. Existem alguns momentos da minha vida nos quais eu não posso ser desafiado, pois eu vou fazer exatamente o contrário do que as pessoas acreditam. Está no meu DNA.

Assim, eu limpei o sangue da boca e o olhei de forma desafiadora.

- Então, a minha carteira você não vai levar.

Falei isso de forma firme e decidida. Afinal, não era mais uma questão de mostrar minha opinião, mas sim de provar meu ponto de vista – mesmo que a minha vista não estivesse funcionando muito bem naquela hora.

O assaltante, por outro lado, não parecia mais interessado no meu ponto, mas sim em vários pontos – especialmente aqueles que eu teria que levar horas depois, num hospital.

Dito e feito.

Aliás, dito não. Nada foi dito, apenas feito.

Outro murro em cheio no meio da boca. Mais uma vez, eu estava no espaço sideral, cercado por pontos brilhantes que dançavam à minha frente. My God, it’s full of stars! (2001 – Uma Odisseia no Espaço mode: on). Mais um soco daqueles e eu perguntaria ao negrão se “vem cá, você é negro e grande, e eu estou vendo estrelas. Posso chamar você de monólito? Se eu jogar minha carteira para o alto, ela vai girar em câmera lenta e virar uma nave espacial?”

Mas este segundo soco fez com minhas pernas fraquejarem.

- Dá a carteira ou vai morrer!

Engraçado. Acho que todo mundo tem um “cara que quer te matar” na vida. São aqueles obstáculos aparentemente impossíveis de serem ultrapassados, e que irão fabricar o seu caráter ao longo dos anos.

Para algumas pessoas, o “cara que quer te matar” é o alcoolismo, a solidão ou o desemprego. Para outras, é a fome ou algum vício. Às vezes, pode até ser uma falha de caráter que precisa ser corrigida. Até mesmo alguns países possuem um “cara que quer te matar”, seja na forma do analfabetismo, da pobreza ou de uma economia pobre que não decola nunca.

Todos nós temos um “cara que quer te matar” nas nossas vidas.

No meu caso, o “cara que quer te matar” era justamente isso: um cara que queria me matar.

Assim, eu fiz o que qualquer pessoa de valor teria feito. Limpei o sangue mais uma vez, e olhei bem no fundo dos olhos do negrão. Olhei com força e determinação. O encarei firmemente, como um animal que pretende defender seu território. Assim, eu mostraria a ele que estava disposto a enfrentá-lo de igual para a igual, sem me render à suas ameaças vazias e, com isso, seus dias de tirania acabariam!

E, assim que recuperei a força nas pernas, eu corri.

Adoraria dizer aqui que enquanto eu corria, sentia o vento da liberdade batendo no meu rosto. Talvez até uma chuva, para a cena ficar mais poética ainda. Que tal uma música grandiosa, feito a 9ª de Beethoven, mostrando que finalmente eu estava livre da opressão dos poderosos e poderia seguir minha vida, em paz, com a minha carteira?

Mas nada disso aconteceu. E não foi culpa da chuva, do vendo ou do Beethoven. Foi culpa do negrão. Mal dei dois passos e o negrão esticou a perna e me passou uma rasteira, estragando todo o clímax da minha fuga.

Na verdade, pensando agora, a perna dele deveria ter mais de 2 metros de extensão. Ou seja, ele tinha a força do Coisa e os poderes elásticos do Dr. Fantástico. Não havia mais dúvidas: eu estava enfrentando o Super Skrull (Quarteto Fantástico mode: on).

Eu tinha duas alternativas: ou iria de boca no chão (acho que minha boca não deveria ter saído da cama aquele dia) ou tentava evitar a queda. E tudo o que eu não podia fazer era cair. Caso isso acontecesse, as coisas iriam de mal a pior: eu me transformaria em um pequeno e pacífico vilarejo de pescadores, nos arredores de Tóquio, pronto para ser pisoteado e esmagado pelo Godzilla, que parecia estar disposto a destruir o planeta até conseguir minha carteira.

Assim, fiz o que pude. Desequilibrado, virei meu corpo e me agarrei na primeira coisa que encontrei para não cair.

Infelizmente, esta coisa era o ladrão.

Me agarrei na camiseta dele e fiquei pendurado. Se alguém olhasse de longe, poderia jurar que eu estava escalando o corpo do cara (K2 – A Montanha da Morte mode: on). Na verdade, eu precisava de somente alguns segundos para recuperar o equilíbrio.

Mas cometi um erro fatal: eu me segurei na camiseta dele, que provavelmente deveria ser nova, roubada no máximo um dia antes.

Assim, eu aprendi a maior lição daquele dia e que transmito para vocês: ao ser assaltado, nunca amasse a camiseta do criminoso.

Não lembro quantos socos foram: talvez dois na boca do estômago e mais dois na cara, talvez um na boca do estômago e dois na cara, talvez dois na boca do estômago e seiscentos e treze na cara.

A única coisa que me lembro é estar caído na calçada, tossindo e cuspindo sangue e entregando minha carteira para ele. Não, me lembro também de ouvir o carro saindo em disparada.

Fiquei um tempo esparramado ali na calçada. Tossindo, sangrando e gemendo. Mas logo me levantei e comecei a andar – afinal, como eu sou eu, era bem capaz da polícia passar ali e, ao me ver deitado na calçada e constatar que eu não tinha documentos, me prenderem por vadiagem.

Não me lembro direito de como andei até em casa, mas me recordo perfeitamente da expressão da minha mãe ao olhar para mim. Como eu disse, todos nós temos um “cara que quer te matar” na vida e, naquele momento, o “cara que quer te matar” da minha mãe era aquele monstro deformado, com o rosto inchado e sangrando, que havia descido das montanhas e invadido sua casa.

- Eu não sou um monstro! Eu sou um ser humano, gritei antes que ela jogasse uma panela em mim e fugisse para o quintal.

Depois disso, lembro apenas de cair em um sofá e ficar gemendo. Passei uns dois dias assim. Meu rosto demorou quase uma semana para desinchar totalmente.

Agora, o que eu realmente não faço ideia é de como diabos eu ainda tenho o meu RG original comigo.

Será que o negrão, na verdade, era uma fada que veio devolver meu RG em uma madrugada? Acho difícil, mesmo porque se ele fosse uma fada, seria a Fada dos Dentes, como ele deixou bem claro a cada soco.

Tudo me leva a crer que meu documento não estava na carteira naquele dia, mas não faço ideia de como isso aconteceu. Ou seja, eu não apenas apanhei. Eu apanhei de graça.

Aposto que se um dia a polícia investigasse isso a fundo, descobriria que tudo foi um golpe do meu RG, que ordenou o crime. Provavelmente, por vingança, Afinal, eu estou com uma baita cara de bobo na foto.

E isso não deve ser fácil para um RG.

22 de janeiro de 2012

O Grande Remédio


Risada.

De acordo com o dicionário, “é a ação ou o efeito de rir” ou “a manifestação sonora do riso”.

Certamente, existem diversas outras definições para essa palavra – algumas delas até mesmo científicas, explicando qual o processo que ocorre em nossa mente e resulta numa risada. E com certeza todas elas estariam corretas, cada uma ao seu modo.

Mas eu gosto de pensar numa risada de outra forma.

(Leia mais aqui)

16 de janeiro de 2012

A Saga do Bife de Pensão - Parte I

Eu podia jurar que já havia contado esta história no blog antes. Mas, pelos comentários recebidos no post Ópera do Malandro, a pequena saga da primeira vez em que fui assaltado – aquela em que apanhei mais que um bife de pensão – permanecia inédita aqui.

Vamos remediar isso agora.

Eu devia ter por volta de quinze anos e era dia de eleição. Sim, ao contrário do que algumas pessoas podem pensar, quando eu tinha 15 anos o Brasil já vivia um processo democrático e – sim, acreditem – o sistema de capitanias hereditárias já pertencia ao passado.

Mas vou ser sincero: não consigo me recordar em qual eleição isso aconteceu. Minha memória insiste em dizer que foi aquela em que o Quércia se tornou governador, mas posso estar enganado.

Enfim, após o término da votação, eu e um amigo de escola que morava perto de casa resolvemos dar uma volta no Shopping Ibirapuera. Ficamos por lá algum tempo e, como tudo estava fechado, decidimos ir embora para casa, subindo uma rua paralela ao shopping.

E tudo aconteceu no primeiro quarteirão desta rua, em frente ao prédio da Unib (que, à época, se chamava apenas FIB – Faculdades Ibirapuera) e um dos principais locais de votação de Moema. Inclusive, é ali que eu voto. E toda a minha família. E o Raul Gil (juro) e o Zé Dirceu também (juro por Deus!).

Aliás, algo me ocorreu agora. Ser assaltado em frente a um local freqüentado pelo Zé Dirceu pode ser classificado como justiça poética; mas ser assaltado no dia em que o Quércia é eleito é quase uma profecia. Se Nostradamus estivesse do outro lado da rua, aposto que ele correria até mim, se ajoelharia aos meus pés e me chamaria de Mestre.

Mas voltemos à história. Horas antes, o local, claro, era um formigueiro humano. Mas, por volta das 19h00min, estava deserto. Apenas nós dois na rua.

Andávamos conversando, provavelmente reclamando que teríamos aula no dia seguinte, ou talvez conversando sobre música. Sinceramente, não me recordo. A única coisa da qual lembro é que, num determinado momento, meu amigo disparou e saiu correndo, me deixando sozinho na calçada.

Assim, do nada.

Eu não entendi absolutamente nada, mas também não tive muito tempo de pensar a respeito. Ao olhar para trás em busca de uma explicação, vi um carro estacionando atrás de mim. Era um Fiat 147, daqueles cremes, que abundavam nas ruas de São Paulo à época.

Não tive muito tempo para reagir ou correr. Na verdade, eu ainda não estava entendendo nada, já que tudo foi muito rápido. Antes que eu percebesse, a porta do passageiro havia se aberto e um negrão estava saindo lá de dentro.

Pensando hoje, com calma, ainda fico em dúvida como eles fizeram para colocar um sujeito daquele tamanho dentro de um Fiat. Talvez tivessem construído o carro ao redor dele. O cara era tão grande que na verdade ele não apenas saiu do carro; ele saiu do carro e começou a se desdobrar.

Primeiro, o tórax; depois, um braço, seguido pelo outro; depois o tórax novamente; as pernas, mais um pouco do tórax e, por fim, a cabeça.

Não era apenas um negrão, era quase um monstro. O sujeito era tão grande que, se jogasse futebol, formaria sozinho uma zaga inteira – e isso contando os laterais e o volante. Aliás, se ele ficasse parado algumas horas ali na calçada, os mapas de Moema teriam que ser alterados para a inclusão de uma nova montanha na geografia local.

Infelizmente, ele não estava parado, mas sim andando na minha direção e falando alguma coisa. E claro que ele não estava se apresentando ou pedindo informações - Passa aí o relógio, o tênis e a carteira. Então era isso. Aquele acidente geográfico que daria uma surra em metade dos personagens de Street Fighter – e sem usar os golpes especiais – ia me assaltar.

Na verdade, senti um pouco de consolo. Afinal, ao contrário de muitos dos meus amigos, eu nunca havia sido assaltado, mesmo morando a maior parte da minha vida em São Paulo.

E, na Moema dos anos 80, ser assaltado era praticamente um baile de debutantes: marcava o seu ingresso na sociedade, transformava você em adulto e garantia seu respeito junto aos amigos. Sempre que eu afirmava nunca ter sido assaltado, algumas pessoas até me olhavam torto e cochichavam um “fresco” com os outros.

Bem, já que eu iria ser assaltado, estava decidido a fazer a coisa direito. E uma dúvida surgiu na minha mente: por que ele precisaria da minha carteira?

Tudo o que Montanha precisava era do meu dinheiro, e não do meu RG recém-tirado. Claro que ele poderia usar a minha identidade para começar a se apresentar com um nome falso, mas isso não funcionaria no caso dele. Afinal, ele era tão grande que seu rosto não caberia em uma foto 3x4, independente do RG ser dele ou não (certamente, a identidade dele deveria ser impressa em uma cartolina).

Eu, por outro lado, precisava do meu RG.

Quer dizer, acho que eu precisava. Na verdade, a única coisa que ele atestava é que eu não tinha idade para comprar bebida, mas eu sabia que aquele negócio verde na carteira era importante. E assim eu resolvi expor a minha opinião. Além disso, era dia de eleição, a tal “grande festa da democracia”, o que me dava certa voz ativa como cidadão.

Olhei para os céus e, logo acima da terceira nuvem, estava seu rosto. Encarei o sujeito, respirei fundo e disparei:

- Então, a carteira você não vai levar.

Fui firme, mas polido. Deixei clara a minha posição, e sem ser grosseiro. Éramos ambos adultos – quer dizer, ele era – e vivíamos em um país livre.

E, veja bem, um assalto não é nada mais que uma negociação. Tudo bem, admito que tudo o que uma das partes deseja é possuir tudo o que a outra tem; enquanto a segunda quer apenas permanecer viva. Mas, ainda assim, é uma negociação. Cada parte vai fazendo propostas e contrapropostas até o assunto ser resolvido.

Mas minha aposta estava feita. Agora era o momento de esperar a reação dele. Será que ele pagaria para ver, ou fugiria do meu blefe?

Sabem... Existe uma frase sobre pôquer que diz que “se em quinze minutos você não descobriu quem é o idiota da mesa, é porque o idiota da mesa é você”. Bom, o jogo havia começado há alguns segundos e eu estava perto de descobrir quem era o idiota da mesa. E da pior maneira possível.

Mesmo porque só eu estava jogando pôquer ali. O negrão estava jogando mesmo era buraco.

E, aparentemente, ele estava pronto para bater.

(Continua...)

14 de janeiro de 2012

Num Sábado de Sol



Eu me lembro apenas que era um sábado e fazia sol. Com oito anos de idade, eu já estava começando a me apaixonar por futebol, um amor herdado do meu pai. Santista de nascimento, ele havia assistido a toda a geração de ouro do futebol brasileiro de pertinho, no estádio.

E sempre que me contava os feitos desses atacantes, armadores e até mesmo de goleiros lendários, eu me encantava cada vez mais com o esporte e sua história. Nesse sábado em especial, minha paixão entrou em campo num campeonato da escola. Todas as turmas da minha série disputariam o torneio, cada uma delas defendendo a camisa de um grande time brasileiro. No sorteio, minha classe ganhou as cores e o brasão do Flamengo.

Claro que se tratava de um futebol disputado por crianças, ou seja: dois meninos no gol e outros vinte amontoados e gritando ao redor de uma bola. Mas, para mim, aquilo tinha um sabor de Copa do Mundo, especialmente por um grande charme: a cada partida, um pai seria o técnico do time. No primeiro jogo, entramos em campo obedecendo às instruções do meu pai.

(Leia mais aqui)