Eu não consigo mais ir ao Pão de Açúcar aqui ao lado de casa sem me irritar. E, ao contrário do que acontece na maioria das empresas que me irritam (Tim, Telefônica) o problema do Pão de Açúcar não é com a empresa em si, mas com os clientes. Cada vez que eu coloco os pés lá dentro me convenço mais de que a humanidade não evoluiu a ponto de conseguir usar um supermercado, e deveria ter ficado mesmo colhendo frutos de árvores e correndo atrás de mamutes.
Na verdade, o problema não é fazer as compras. Isso é fácil de lidar. Enquanto ando pelo mercado, basta desviar o caminho dos dementes que estão de plantão naquele dia antes que eles me vejam e queiram falar comigo (sim, porque se eu der chance, ele virá falar comigo, independente de quantas pessoas estiverem ao meu redor).
O complicado mesmo é a fila do caixa. Vale dizer aqui que o Pão de Açúcar tem alguns caixas especiais: caixa para dez volumes, caixa para vinte volumes e caixa para atendimento especial. Na verdade, eles também possuem um caixa para pessoas problemáticas (que muda de lugar toda vez que eu entro), mas a placa indicando qual a fila especial para dementes fica escondida.
Ou seja, é sempre nessa fila que eu acabo entrando. E lá sou obrigado a conviver de perto com os insanos que encontro, já que as minhas únicas alternativas seriam:
a) mudar de caixa e recomeçar todo o processo em outra fila (mas nada garante que isso não me jogaria nas mãos de outro demente)
b) largar as compras ali mesmo, gritar um palavrão e ir embora, mas isso faria com que eu fosse eleito o demente da vez pelas outras pessoas normais que estão ali dentro.
Então, a solução é respirar fundo e agüentar.
Dia desses, fui buscar algo para comer e parei na fila do caixa de dez volumes, obviamente, sem saber que aquele caixa, no dia, era o que estava atendendo as pessoas desconectadas com a realidade.
Havia umas quatro pessoas na fila, e, à minha frente, um casal de velhinhos. Fiquei esperando pela minha vez, quando vejo um carrinho ao meu lado. Não atrás de mim, como deveria ser o certo, mas ao meu lado. Apoiada no carrinho, uma mulher que parecia a Bruxa do Mar, do Popeye. Aliás, era igualzinha, faltava apenas o corvo no ombro.
Obviamente, assim como o carrinho, ela não estava atrás de mim, mas ao meu lado. Literalmente ao meu lado. Na verdade, o carrinho dela estava quase na minha frente. Nunca vi alguém tentar furar uma fila com tanta displicência.
Olhei para ela. Ela olhou para mim. O tempo congelou. Não se ouvia mais nada no mercado, a não ser o barulho do vento. A tensão no ar era palpável. Close nos olhos dela. Close na minha mão, perto da minha arma, pronto para sacar. O tema de Era uma Vez no Oeste começou a tocar baixinho.
– A senhora está na fila?, perguntei
– Tô!, ela disse, deixando claro que, se um dia alguém organizasse um campeonato para escolher a pessoa mais articulada do planeta, ela seria desclassificada na primeira fase.
– Então, a senhora, por favor, fique atrás de mim.
– Mas eu tô na fila!
Respirei fundo. Aparentemente, ela desconhecia (ou estava ignorando) o fato de que o conceito de fila implica, obrigatoriamente, em uma pessoa atrás da outra. Pensei em explicar para ela que fila, em inglês, chama-se “line” justamente por que as pessoas formam uma “linha”, e ela estava desvirtuando todo esse conceito, transformando a fila do Pão de Açúcar – que também deveria ser uma linha razoavelmente reta – num círculo ou numa outra figura geométrica qualquer.
– Eu também estou. E a senhora está atrás de mim.
– Ah. Na fila?
Meu Deus, como uma pessoa tão despreparada para viver em sociedade pode andar sozinha pelas ruas?
– Sim. Na fila.
– Ah.
Resmungando algo sobre mim e sobre a fila, ela se conformou e foi com o carrinho para trás de mim.
Dei uma olhada rápida por cima do ombro e vi que ela estava desvirtuando a fila novamente, ficando na frente do carrinho. Ou seja, a fila já não seguia mais a ordem lógica “carrinho – velhinhos – carrinho – Rob Gordon – carrinho – Bruxa do Mar – carrinho – outro cliente”, mas sim, “carrinho – velhinhos – carrinho – Rob Gordon – Bruxa do Mar – carrinho – carrinho – outro cliente”.
Se alguém tirasse uma foto da fila e mandasse uma criança procurar por um erro, o garoto imediatamente faria um circulo vermelho em volta da Bruxa do Mar e seu carrinho.
Meu impulso foi dizer a ela que ficar à frente do carrinho não faria a fila mudar de sentido e ela continuaria sendo atendida depois de mim, mesmo se ficasse atrás, à frente, ou até mesmo dentro do carrinho, mas achei melhor ignorar.
A fila foi andando e eu fazendo de tudo para não prestar atenção naquele bípede atrás de mim. Felizmente, algo me distraiu: comecei a sentir um cheiro horrível de mamão e, curioso e enojado – eu e mamão somos inimigos mortais há mais de vinte anos – comecei a pensar qual seria a origem daquilo.
Obviamente, o cheiro vinha de algum lugar atrás de mim.
(continua)