27 de abril de 2016

O Menino de Nove Anos e o País que Iria Dar Certo

Um dia, Chico Buarque apoiou um candidato do PDMB chamado Fernando Henrique Cardoso.

Isso aconteceu nas eleições para prefeito de São Paulo em 1985. É a famosa eleição que Fernando Henrique, líder nas pesquisas, posou na cadeira do prefeito antes da votação e acabou perdendo por pouco mais de cem mil votos – Jânio, o vencedor, talvez a pessoa mais pitoresca da política nacional, fez questão de dedetizar a cadeira (publicamente) antes de ocupá-la.



Esse talvez não tenha sido o primeiro jingle político que conheci, mas é o mais antigo que me lembro. Eu completei dez anos durante a campanha (sou de setembro) e me lembro de assistir o horário político junto com meus pais.

Mas esse não foi meu primeiro contato com política. Entre 1980 e 1982, eu morei em Manaus, e me lembro de assistir a campanha política das eleições de 1982. Ainda vivíamos numa ditadura e os candidatos não podiam falar na TV – era apenas uma foto do sujeito e uma narração em off contando quem ele era e o que tinha feito. Lembro que eu e meu irmão não perdíamos aquilo por nada, e ficávamos escolhendo quais fotos eram as mais bizarras.

Em 1985, já morando em São Paulo de novo, lembro que fomos um dia até a Avenida 23 de maio (é do lado da casa dos meus pais). Ela estava fechada e esperamos algum tempo no canteiro central, enquanto as pessoas ali iam crescendo até se tornarem uma multidão. O dia já seria inesquecível para mim simplesmente por estar no canteiro central da Avenida 23 de Maio (na minha cabeça, eu e a multidão ao meu lado éramos as primeiras pessoas a colocar o pé naquela terra cercada de carros em alta velocidade por todos os lados).

Mas eu mal me lembro disso (na verdade, essa memória surgiu agora enquanto eu escrevia esse texto). O que eu lembro mesmo é o carro de bombeiros e o caixão coberto com uma bandeira do Brasil. Eu não sabia direito o que era um presidente – provavelmente, eu enxergava esse cargo como “alguém que manda em todo mundo” – mas eu sabia que dentro daquele caixão tinha um presidente.

E um presidente que, aparentemente, as pessoas gostavam.  Quando o carro de bombeiros passou, vi muitas pessoas chorando. Diferente de hoje, choravam sem se preocupar com o filtro da foto. Apenas choravam. Algumas pareciam ter perdido um ente querido.

Eu chorei também. Chorei porque todos estavam chorando, e chorei porque eu já tinha ouvido, nas últimas semanas, que aquele homem que estava dentro do caixão ia fazer o Brasil crescer. Eu não sabia direito o que era “fazer o Brasil crescer”, então meu cérebro de nove anos criou uma imagem para traduzir isso: um homem trabalhando no campo, com uma enxada na mão e sorrindo.

Era como se fosse um desenho, com um traço bem parecido com o das histórias do Mauricio de Sousa. Até hoje eu não sei o motivo desse meu brasileiro imaginário usar uma roupa de operário já que ele trabalhava no campo, mas eu sei por que eu o imaginei sorrindo enquanto trabalhava.

Ele sorria porque estava feliz, e estava feliz porque o Brasil estava crescendo.

Sim, quando você é criança, é fácil assim.

Depois que o carro de bombeiros passou, a multidão se dispersou. Fomos embora. Eu estava de mãos dadas com a minha mãe, e vi que com a outra mão ela limpava as lágrimas dos olhos. Eu sabia que eu e minha mãe estávamos chorando por motivos diferentes. E por mais que eu não entendesse o motivo dela, eu percebi naquela hora que era certo chorar por aquele presidente dentro do caixão.

Meses depois, começou a campanha política para prefeito. E eu me encantei por esse vídeo do Chico Buarque na campanha do Fernando Henrique, por vários motivos. Primeiro, era o mesmo cantor que eu via nas fitas K7 do meu pai (Construção e aquele outro disco que não lembro o nome agora e que abre, se não me engano, com Feijoada Completa).

Aprendi a gostar de Chico Buarque com meu pai, porque eu tive a sorte de ter um pai que não gosta de Chico Buarque, mas sim um pai que gosta de Chico Buarque e explicava o significado das letras para o filho de nove anos.

Além disso, o Fernando Henrique – veja bem, não era Fernando Henrique Cardoso, nem FHC; era apenas “Fernando Henrique” – era um cara que parecia muito mais com meu pai ou com os pais dos meus amigos que com um politico.

Os políticos para mim eram velhos que usavam terno e gravata e tinham nomes difíceis como Ulysses e Aureliano, enquanto o Fernando Henrique era um cara com um nome normal, que não estava de terno falando coisas que eu não entendia, e sim de calça e camisa sambando com o Chico Buarque no meio da rua, cercado de pessoas felizes. Sobre a música, eu nem preciso comentar nada (a não ser que assistindo agora, depois de trinta anos, entendi a referência genial ao Jânio no verso “a renúncia de um fujão”).

Eu tinha nove anos. Era uma criança.

E, como eu disse, quando você é criança, é fácil assim.

Mas esse texto não é sobre o Fernando Henrique, nem sobre o Chico, nem sobre o Jânio. Esse texto é sobre 1985, o ano em que eu chorei, sem saber direito o motivo, por causa de um político; e sorri, sem saber direito o motivo, por causa de outro político. Talvez o Brasil ainda fosse para frente mesmo sem aquele presidente que passou na minha frente num carro de bombeiros.

Hoje eu sei que eu não acreditava que o Brasil fosse crescer por causa da música do Chico, por Fernando Henrique estar sem gravata ou por todos estarem dançando. Eu acreditava nisso porque eu via claramente que meus pais acreditavam nisso.

Eu via isso nos rostos dos dois. E quando você tem nove anos, se os seus pais acreditam em algo, você acredita. Porque, quando você é criança, é fácil assim.

Aliás, não eram só eles. Os pais dos meus amigos, meus professores na escola... Depois de duas décadas de silêncio (que eu ainda não sabia que haviam existido) todo mundo estava pronto para ver e fazer o Brasil crescer. Algo tinha mudado. Eu não fazia ideia do que isso poderia ser, mas sentia isso o tempo inteiro. Estava na cara dos meus pais, nas conversas dos adultos, no jornal que passava na TV.

Independente do que poderia acontecer, a certeza de que iria dar certo estava no ar. Tudo iria dar certo para meus pais, para meus professores, para as pessoas que eu via na rua, para o taxista que uma vez levou minha mãe a algum lugar e, conversando com ela, chamava aquele presidente no caixão de “Tranquedo”, para o meu brasileiro imaginário com roupa de operário que trabalhava no campo. Essa sensação estava nos olhos de cada um deles, na tom de voz, no sorriso.

Isso não quer dizer que as pessoas tinham a mesma opinião. Muitos discordavam do caminho a ser seguido. Mas todos concordavam sobre qual devia ser o objetivo. Talvez por isso a discordância fosse apenas isso: uma discordância. Não se terminava uma amizade por causa disso. Não se agredia ninguém por gostar de outro partido. Não se ofendiam, nem se batiam. Era um país onde ninguém cuspia e tudo o que se odiava era o passado. Era um país diferente.

Talvez todos fôssemos crianças de nove anos, e não apenas eu.

E, quando você é criança, é fácil assim.

Naquela época, pelo menos, parecia ser.

16 de abril de 2016

Lílha Three Times

Eu já falei aqui sobre meus vizinhos. Quando mudamos para essa casa, eu fiz um post apresentando meus vizinhos e depois fiz outro, evidentemente mais sério, quando o Bruxa do Kurosawa da casa ao lado morreu.

E, mais importante, já fiz um post explicando o barulho que os vizinhos fazem. Eles gritam o dia inteiro. Mas hoje eu quero falar de um personagem específico que vem ganhando cada vez mais importância nos últimos episódios de “A Vida do Rob Gordon é um Inferno”.

Porque o problema é que após a morte do japonês a dinâmica da casa ao lado mudou. Afinal, nós temos duas famílias morando nessa casa, e uma delas passou a ser formada apenas pela Japonesa-Mais-Velha-Que-o-Japão. E como ela é completamente surda e parece estar cada vez mais esclerosada, é evidente que seria preciso alguém para cuidar dela.

Surgiu, então, Lílha Three Times.

Lílha Three Times, na verdade, era um personagem que já havia aparecido em diversos episódios, mas com pouca importância – eu até mesmo falei rapidamente sobre ela no post sobre o barulho. Desde que eu vim morar aqui, eu a via entrando e saindo da casa. Imagino que seja prima, sobrinha, tataraneta, qualquer coisa assim.

E ela sempre se destacou como uma das pessoas mais estranhas do mundo.

Vou tentar descrever aqui o layout dela. Primeiro, ela é daquelas pessoas que pode tanto ter 35 anos como 120 – na verdade, eu acho que ela tem uns 40 e pouco, mas não posso ter certeza por causa das mechas brancas no cabelo dela. Segundo, ela é uma das pessoas mais bombadas do mundo. Ela é baixa, e como está sempre usando um bermudão, é possível reparar que suas pernas são feitas apenas de músculos. Ela é completamente trincada, mas apenas nas pernas.

Na verdade, estou pensando agora que ela é uma espécie de best of dos desenhos animados que eu via na infância. Porque ela tem a batata da perna do Brucutu, caminha com a ginga do Popeye (sabe aquelas pessoas que andam como marinheiro, jogando os ombros? A Lílha Three Times inventou esse andar)... E tem a voz do Gato Félix.

Sem exagero. A voz dela não é fina, é fina até quase não existir. Imagine que o Gato Félix está no fundo de um poço de vinte metros, no meio de uma floresta, pedindo por socorro. Esse é o som da voz dela.

Às vezes eu imagino a reunião familiar em que decidiram que a Lílha ia cuidar da Japonesa-Mais-Velha-Que-o-Japão.

– Podemos mandar a Lílha.

– Mas a voz da Lílha não passa dos 09 decibéis.

– Mesmo?

– Sim. Ela fala sempre entre 05 e 08 decibéis.

– Paciência.

– E a Japonesa-Mais-Velha-Que-o-Japão é completamente surda.

– A Lílha pode gritar.

– Não sei se vai funcionar.

– Já está decidido.

Assim, decidiram que a Lílha iria morar aí para cuidar da Japonesa-Mais-Velha-Que-o-Japão. E isso selou meu destino.

Quando ela se mudou para cá, alguns meses atrás, nós finalmente descobrimos o nome dela. E não porque ela veio se apresentar, mas sim porque eles gritam tanto na casa ao lado que nós já sabemos até o CPF de todos os moradores.

O nome dela é Lílian. Mas como ninguém na casa ao lado sabe falar a palavra Lílian (são muitos “l” e, além disso, termina com “n”, não pode ser uma palavra normal), ficou Lílha.

Às vezes eu penso na etimologia disso. De Lílian foi para Lília, e de Lília para Lílha.

Nascia, assim, Lílha Three Times.

O “Three Times” é a minha contribuição ao nome dela. Porque o problema não é o fato da Japonesa-Mais-Velha-Que-o-Japão ser surda, ou da Lílha Three Times não ter voz. O problema é que a Lílha Three Times é daquelas pessoas que, ao perceber que a pessoa com quem ela está falando não escuta o que ela diz, decide que a solução é ficar exatamente onde está, gritando repetidamente até que algo aconteça.

Então, todas as frases que a Lílha fala precisam ser repetidas três vezes. Então, todas as frases que a Lílha fala precisam ser repetidas três vezes. Então, todas as frases que a Lílha fala precisam ser repetidas três vezes.

– ESTÁ COM SEEEEEDE?

Em um dialeto oriental desaparecido, a Japonesa-Mais-Velha-Que-o-Japão começa a gritar, provavelmente respondendo que a janela está aberta.

 – ESTÁ COM SEEEEEDE?

Em um dialeto oriental desaparecido, a Japonesa-Mais-Velha-Que-o-Japão começa a gritar, provavelmente respondendo que o gato ainda non comeu.

– ESTÁ COM SEEEEEDE?

Em um dialeto oriental desaparecido, a Japonesa-Mais-Velha-Que-o-Japão começa a gritar, provavelmente respondendo que já son três horas e como o tempo voa.

– EU VOU FAZER SUUUUUUCO!

Em um dialeto oriental desaparecido, a Japonesa-Mais-Velha-Que-o-Japão começa a gritar, provavelmente respondendo que quer ver TV.

– EU VOU FAZER SUUUUUUCO!

Em um dialeto oriental desaparecido, a Japonesa-Mais-Velha-Que-o-Japão começa a gritar, provavelmente perguntando que quem é você e por que está gritando comigo?

– EU VOU FAZER SUUUUUUCO!

Em um dialeto oriental desaparecido, a Japonesa-Mais-Velha-Que-o-Japão começa a gritar, provavelmente respondendo que eu vou chamar a polícia.

– VOCÊ PREFERE LARANJA OU MARACUJÁÁÁÁÁ?

Em um dialeto oriental desaparecido, a Japonesa-Mais-Velha-Que-o-Japão começa a gritar, provavelmente respondendo que non vai ter golpe.

– VOCÊ PREFERE LARANJA OU MARACUJÁÁÁÁÁ?

Em um dialeto oriental desaparecido, a Japonesa-Mais-Velha-Que-o-Japão começa a gritar, provavelmente respondendo que como está calor hoje.

– VOCÊ PREFERE LARANJA OU MARACUJÁÁÁÁÁ?

Em um dialeto oriental desaparecido, a Japonesa-Mais-Velha-Que-o-Japão começa a gritar, provavelmente respondendo que está com sede.

É assim o dia inteiro. É assim o dia inteiro. É assim o dia inteiro.

Ok. Parei.

Mas sem exageros, é assim o dia inteiro, desde a hora que a manhã começa, quando ela prepara um copo de alguma coisa para a Japonesa-Mais-Velha-Que-o-Japão. Eu não sei que merda ela dá para a mulher beber, mas deve ser algo com a consistência de cimento, porque a Lílha precisa ficar uns quarenta segundos mexendo aquilo no copo, e sempre batendo a colher no vidro (o barulho é tão alto que às vezes eu me pergunto se ela não está misturando o negócio com uma enxada).

E esse hábito dela ficar gritando até ser ouvida, sem que o raciocínio “acho que a pessoa não escutou o que eu disse, então vou até onde ela está falar com ela” apareça em sua cabeça vale para todas as conversas que ela tem. Pode ser com a Japonesa-Mais-Velha-Que-o-Japão, pode ser com a outra família que mora lá, pode ser com qualquer pessoa. Tudo ela precisa gritar três vezes, porque ela é incapaz de perceber que os conceitos de “distância” e “ser ouvido” estão diretamente relacionados.

Dia desses gritaram o nome dela no portão (porque é evidente que eles não têm campainha, então as pessoas que chegam lá se anunciam batendo palma ou gritando o nome de alguém). Eu estava sozinho em casa trabalhando e a Lílha, com sua voz de Gato Félix no poço, gritou da sala. Claro que a pessoa não ouviu, mas eu ouvi, porque todos os sons que eles fazem chegam aqui, porque parece que meus vizinhos não mora, dentro da casa, mas sim em uma guarita ao lado do muro.

– PODE ENTRAAAAAR!

– LÍLHA!

E eu no computador, socando a mesa.

– PODE ENTRAAAAAR!

– LÍLHA! CHEGAMOS!

E eu no computador, repetindo para mim mesmo que tenho quarenta anos e não ia pegar bem subir no muro e jogar papel higiênico molhado na casa dos vizinhos.

– PODE ENTRAAAAAR!

– LÍLHA! ABRE O PORTÃO!

E eu no computador, querendo arrancar meus olhos de ódio.

– PODE ENTRAAAAAR!

– LÍLHA! CADÊ VOCÊ?

– PODE ENTRAR, CARALHO!

Evidentemente, minha Esposa não sabe que eu gritei isso com o tom de voz do Max Cavalera. Ou, pelo menos, não sabia isso até agora, que coloquei no blog. Mas duvido que ela fique brava comigo. Ontem eu aproveitei um intervalo entre um texto e outro e fiz um cochilo à tarde para escapar do calor. Quando acordei, a Esposa estava visivelmente incomodada com algo. Quando perguntei o que aconteceu, ela me explicou.

Parece que alguém estava no portão chamando a Lílha, mas a Lílha estava... Bem, obedecendo ao imperioso chamado da natureza. Então, o seguinte diálogo se seguiu:

– LÍLHA!

– EU ESTOU NO BANHEEEEEEIRO!

– LÍLHA! ONDE VOCÊ ESTÁ?

– EU ESTOU NO BANHEEEEIRO!

– LÍLHA! NÃO DÁ PRA TE OUVIR!

– EU ESTOU NO BANHEEEEEEEEEEIRO!

– LÍLHA! VEM ABRIR O PORTÃO! O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO?

E aí, Lílha Three Times revelou todo seu traquejo social e revelou para toda a vizinhança que:

– EU ESTOU FAZENDO COCÔÔÔÔÔÔ!

Graças ao Bom Deus eu estava dormindo.

Mas estou seriamente pensando em ligar para a dona da casa e pedir um abatimento no aluguel, alegando insalubridade. Claro que não vai rolar, então já pensei num Plano B. Eu consigo fazer a voz da Lílha – ou, pelo menos, uma voz parecida. Então, sempre que perguntarem por ela, eu vou responder por conta própria.

– LÍLHA!

– ESTOU VENDENDO A MINHA AAAAALMA!

– LÍLHA, O QUE É ISSO?

– O PODER DE SATÃ ESTÁ COMIIIIIIGO!

– LÍLHA! VOCÊ ENLOUQUECEU?

– EU TENHO UMA FACA E JÁ SACRIFIQUEI UM BOOOOOODE!

– LÍLHA! QUE É ISSO? QUE BODE?

– ENTRA AQUI E PISA AQUI NO PENTAGRAMA DE SANGUE QUE EU QUERO VEEEEEER!

Vai ser divertido. 

24 de março de 2016

Rob Gordon X Ovos do Mercado

Desde que eu me casei, aprendi a fazer compras no mercado.

Quer dizer, quando eu era solteiro, conhecia os procedimentos básicos: entra no mercado, pega o que você quer e não se esqueça de passar pelo caixa antes de ir embora para evitar problemas com a lei. Mas eu conhecia apenas alguns corredores do mercado: o de bebidas, o de carnes, o de congelados e o de doces.

Agora, tudo mudou. Acho que a mudança mais significativa foi aprender que aquela prateleira cheia de plantas que normalmente fica num canto não é um jardim para os clientes descansarem. Hoje eu sei que aquilo se come e – mais espantoso ainda – as coisas ali tem nomes diferentes de “mato”.

Então agora eu sei comprar espinafre e acelga. Claro que ainda não conheço as verduras a olho nu (a acelga é aquela que é quase branca, não é?) e preciso sempre olhar para as etiquetas de preços para achar o que eu quero. A única exceção é a couve manteiga, mas isso não é mérito meu e sim da natureza. Sejamos sinceros: pegar uma planta e chama-la de nome-da-planta-MANTEIGA é um dos maiores cases de marketing da história.

Mas eu também sei comprar legumes agora. E quando eu digo “sei comprar” não estou falando que eu consigo pegar o legume e colocar naquele saco plástico. Não, eu sei escolher o legume. Mas claro que eu preciso sempre de uma orientação antes.

– Preciso que você compre pimentões.

– Quantos?

– Dois.

– E como eu faço isso?

– Como assim?

– Como é um pimentão bom?

– Ele está com a casa lisinha.

– Só isso? E a consistência?

– Com o pimentão, só a casca lisa. E olhe se não estão murchos.

Assim eu saio de casa me perguntando se pimentões têm tão poucas regras, ou se minha Esposa resolveu simplificar as coisas para mim. Mas logo deixo isso de lado porque estou no mercado escolhendo pimentões, olhando a casca de todos e reclamando que nenhum está bom, que todos estão murchos, e ainda por cima são minúsculos, e olha o preço do pimentão, que absurdo que está.

(Eu tive que interromper o texto alguns minutos para pensar um pouco sobre o fato de eu ter me tornado uma pessoa que reclama do preço do pimentão).

Mas isso vale para tudo. De pimentões a cebolas, de abobrinha a chuchu... Dependendo do caso, eu analiso a casca, a consistência e qualquer coisa que for preciso. Isso, claro, com a devida orientação. Quando eu vou comprar legumes, sou a prova viva de que a Educação pode mudar o país. Porque agora eu sei comprar tudo.

Ou quase tudo.

Porque eu odeio comprar ovos.

E ovos, teoricamente, seriam fáceis. Basta ir até o lugar deles, pegar uma caixa e pronto. Tudo o que eu preciso fazer é não olhar para os ovos de codorna. Se eu fizer isso, vou imaginar como meu dia seria feliz tendo um balde de ovos de codorna temperados com azeite, sal e pimenta e levar todas as caixas. Sim, ovos, teoricamente, seriam fáceis de comprar. Mas aí entram os dois problemas.

Primeiro, eu tenho pavor de levar ovos para casa. Sempre que eu vou ao mercado com a Esposa, eu faço questão de carregar as sacolas na volta. Mesmo que a gente tenha comprado uma bigorna, faço questão de levar tudo. Ah, você quer levar esse cofre também? Eu levo. Se você acha que o piano de cauda está com um preço bom, leva, ué. Eu carrego para casa. Eu carrego tudo.

Menos os ovos.

Os ovos eu coloco numa sacola separada e dou para ela, porque não quero nem chegar perto daquilo. Sim, eu sei que isso me coloca na posição do jogador de futebol que se recusa a bater pênalti, mas não me importo.

Carregar os ovos para casa é uma responsabilidade grande demais. Aliás, eu acho que os ovos não deveriam ficar expostos nos corredores do mercado, e sim dentro daquele negócio que eu chamo de armário dos adultos, que é onde ficam as bebidas e os cigarros. Os ovos tinham que estar lá dentro, para que ficasse claro que crianças não podem chegar perto deles.

Acabou de me ocorrer que se o armário das bebidas e cigarros tivesse não apenas os ovos, mas também bacon, eu provavelmente tentaria comprar o armário inteiro, com móvel e tudo, mas isso não vem ao caso.

Então, se eu estou com a Esposa, quem leva os ovos é ela. Agora, quando eu estou sozinho... Aí eu preciso dar um jeito de levar os ovos por conta própria. E o dilema começa no caixa.

– CPF na nota?

– Sim. Cuidado com os ovos, por favor.

– Débito ou crédito?

– Débito. Você tem uma sacola?

– Aqui.

– Não tem uma melhor?

– Como assim?

– Uma que seja acolchoada.

– Acolchoada?

– Isso. Se tiver plástico bolha, melhor ainda.

E não, não é exagero meu. Porque eu sei que os ovos estão esperando para explodirem por conta própria na minha mão. Então, saio do mercado parecendo um idiota: eu ando apressado para casa, querendo me livrar logo daquilo. E levo a sacola de ovos longe do corpo, com o braço esticado para frente, como se eu estivesse carregando um dispositivo nuclear dentro daquela sacolinha.

Sim, as pessoas na rua devem olhar para mim e achar que sou idiota, mas não me importo. Tudo o que eu quero é entrar em casa e colocar os ovos na mesa. Porque colocar a caixa de ovos na mesa não é apenas “colocar a caixa de ovos na mesa”. É uma declaração de que, a partir de agora, o que acontecer com esses ovos não é responsabilidade minha.

Eu odeio comprar ovos.

Mas eu fiquei aqui falando sobre a dificuldade que tenho para levar os ovos para casa e esqueci que meu problema com os ovos começa antes da compra. Lembram quando eu disse que agora eu sei escolher tudo no mercado?

Eu não sei escolher ovos.

Você já reparou que toda pessoa antes de comprar ovos abre a caixa e dá uma espiada? Bem, eu não sei o que elas olham. Eu sei que elas não olham apenas se os ovos não estão quebrados, porque elas ficam às vezes até dez segundos olhando os ovos. Então elas estão vendo alguma coisa muito mais complexa ali. E eu não sei o que é.

Sim, minha Esposa já me falou algumas vezes, mas eu não consigo me lembrar. Se alguém falar aqui nos comentários, eu provavelmente vou lembrar também. Mas eu não consigo decorar essa merda, então sempre que eu preciso comprar ovos eu não faço ideia do que tenho que olhar. Talvez eu esteja com tanto medo de levar os ovos para casa que meu cérebro apaga todo o resto.

Então, eu abro a caixa de ovos, e...

E nada. Fico ali fingindo que estou olhando algo. Porque o mundo das donas de casa é perigoso, e se as pessoas do mercado perceberem que eu não sei comprar ovos, eu nunca mais serei respeitado no mercado. Vão perceber que eu não faço parte daquele mundo e começarão a bater com o carrinho em mim, vão pegar as coisas do meu carrinho, jogar peixes nas minhas costas...

O mundo das donas de casa é um negócio cruel.

Então eu não dou o braço a torcer. Eu abro a caixa de ovos e fico ali, olhando para elas e contando até dez, para que ninguém perceba que eu não faço ideia do que devo fazer ali. E funciona. Outro dia mesmo eu estava olhando os ovos e contando até dez. Quando eu estava no sete, uma velhinha apareceu do meu lado.

– Nossa. Que ovos lindos.

– Não é? Eu estava aqui admirando justamente isso, eu respondi, sem fazer ideia de porque aqueles ovos eram lindos. Eles não eram nem feios nem bonitos. Pareciam ovos normais, daqueles que estão loucos para explodir dentro da minha sacola.

– Acho que vou levar uma caixa. Estão muito bonitos.

– Sim, eu vou levar uma também. Estão bonitos demais. Estão tão... A cor deles está... É... A casca... Estão bonitos. Eu vou levar.

Aí coloco no carrinho e torço para que a mulher perceba que eu não sou um embuste. E, para tentar mudar o foco dela, aproveito que ela está ali ao meu lado e comento.

– E o preço do pimentão? Você viu que absurdo?

Aí conversamos sobre pimentões e chuchus, abobrinhas e tomates. E pouco depois vou embora, certo de que meu disfarce não foi descoberto. Aí pago e vou para casa andando feito um imbecil, carregando os ovos um metro à frente do meu corpo e torcendo para aquilo acabar logo.

Eu odeio comprar ovos.

2 de março de 2016

A Parte que me Cabe

Minha casa tem computador. Internet. A tecnologia praticamente rege a minha vida. Eu tenho uma enorme biblioteca de músicas que não é palpável, assisto a filmes que não estão guardados em uma mídia física. Nos últimos anos, li livros e mais livros sem ter contato algum com papel.

Minha casa está no século 21.

Ao menos, até a hora de dormir. Quando apago a luz do quarto e me deito na cama, descubro que todos os avanços científicos e tecnológicos que estão espalhados pelos aposentos simplesmente disfarçam o fato de que, ao menos na minha casa, ainda vivemos na Idade Média.

Basta eu deitar para me lembrar disso.

Quando vou para cama, metade dela está ocupada pela minha Esposa. Justo. Afinal, estamos falando de uma cama para duas pessoas, e essa conta é fácil de fazer: uma cama dividida por duas pessoas resulta em meia cama para cada uma delas. Isso é aritmética, e a grande vantagem da aritmética é que ela não muda suas respostas de acordo com a época em que vivemos.

Mas o problema é que existem metades e metades da cama.

A metade ocupada pela minha Esposa é como uma comanda de bar: pessoal e intransferível. É dela e apenas dela. Assim como as terras da Igreja na Idade Média, ninguém pode colocar o pé ali sem permissão. E não vem ao caso se ela dorme encolhida, fazendo com que metade das suas terras seja improdutiva e não esteja sendo usada para nada. É a metade dela e isso é justo.

Agora, pau que bate em Rob Gordon não bate na Esposa.

Porque, teoricamente, eu também tenho direito a minha metade, só que isso está longe de acontecer. Porque a minha metade da cama é ocupada também pelo Gato Ridículo, que tem o hábito de desafiar as leis da Física. Afinal, teoricamente ele tem o tamanho da minha canela, mas, ao deitar, ele assume o tamanho de um tigre de Bengala.

Talvez seja o primeiro caso de um organismo que sofre de inflação. Ele deita na cama e se estica até praticamente duplicar de tamanho, como se durante o dia ele fosse um arquivo zipado que descompacta apenas na hora de dormir. Ou talvez enquanto ele está acordado ele não é um gato, mas sim um ícone de um gato; ao deitar, alguém clica duas vezes nele e abre o programa inteiro.

E tudo isso acontece na minha metade da cama. Então de um lado temos a Igreja. Todos respeitam suas terras, pois quem colocar o pé ali será excomungado. E, na outra metade, temos o suserano, até aqui chamado de gato, que permite, em sua benevolência, que eu ocupe uma pequena parte das suas terras, desde que eu trabalhe para ele apenas para conseguir ter dinheiro suficiente para pagar impostos também para ele.

E quando você tem quarenta anos de idade e percebe que se tornou o vassalo de um gato, é porque alguma coisa de errado você fez na vida.

Ontem foi assim. Trabalhei até umas quatro da manhã e fui deitar. A Igreja estava lá, sonhando com os anjos – acredito que é com eles que a Igreja sonha. Mas eu, claro, tive que me contorcer para deitar de uma forma que conseguisse colocar as duas pernas na cama. O Gato Ridículo acordou e deu uma reclamada – que na verdade é um aviso – e eu fiquei deitado de lado, à beira da cama. Esperei alguns minutos até que meu senhor feudal se ocupasse com outra coisa para conseguir me virar e tentar ir um pouquinho mais para o meio.

Quando ele fechou os olhos, tentei passar a perna por baixo dele para conseguir me virar e deitar de bruços. Agora, o problema é que o castelo do suserano é alto e de lá ele vê suas terras inteiras, percebendo imediatamente quando algo está errado. Assim, ele veio tirar satisfações comigo.

– O que você pretende fazer com essa perna?

– Esticar ela aqui.

– Mas essas terras não são suas. Eu permito que você mantenha sua perna onde ela está e mais nada.

– A minha perna está dormindo.

– Sim, porque sua perna é preguiçosa como você e todos os outros camponeses. Dê valor às terras que você possui e vá garantir seu sustento.

– Eu não tenho “terras”. Se você olhar como a cama está distribuída, eu tenho espaço suficiente para metade do meu corpo.

– Sinto muito, é a parte que te cabe nesse latifúndio.

– Você sabe que eu sempre posso enfiar o pé na sua cara e derrubar você da cama, certo?

– E você, camponês, sabe que eu tenho garras e posso deitar no meio das suas pernas após você dormir, certo? Mesmo com toda sua ignorância, eu acredito que você consegue fazer essa conta.

– Vai só um pouco para o lado, porra.

– Estou dormindo agora. Amanhã eu lhe receberei em meu palácio e ouvirei suas demandas. Torça para eu acordar me sentindo generoso.

Só que há outro problema. Pois se o suserano sabe tudo o que acontece em suas terras, a Igreja sabe tudo o que acontece em todos os lugares. E, ao menos aqui em casa, a Igreja tem sono leve. Ela acorda na sua metade da cama e vira-se para mim.

– O que você está fazendo?

– Eu não consigo deitar direito por causa do Gato.

– São quatro horas da manhã, vai dormir.

Ela fala isso, vira-se para o lado e dorme. Eu fecho os olhos e tento dormir nos meus poucos centímetros quadrados e, quando estou quase cochilando, sinto a voz do Gato nos meus ouvidos.

– Viu o que você fez? Você ofendeu a Igreja.

– Vai se foder.

– Basta uma palavra minha para que logo pela manhã você seja acusado de bruxaria e queimado vivo.

Sim, ele tem razão. O Gato tem a capacidade de influenciar a Igreja como e quando quiser. Assim, me conformo com o fato de que nunca haverá uma reforma agrária – e que se ela acontecer, provavelmente o Gato usará seu poder para fazer com que eu tenha que dormir no tapete do banheiro – e tento pegar no sono.

E até consigo dormir. Ao menos, até pouco depois do Sol nascer, quando os vizinhos começam a gritar (e se você acha que estou exagerando, leia esse post aqui), que, na Idade Média em que vivo, seria o equivalente a uma invasão de bárbaros.

E como sempre acontece nesses casos, sobra para o vassalo. No terceiro grito o Gato acorda e decide que alguém precisa proteger suas terras.

– Pegue uma espada e vá defender meu modo de vida.

– Eu estou tentando dormir.

– Você está aqui para me servir. Pegue uma espada logo.

– Me deixe em paz.

– Você se lembra do que eu disse ontem? Garra? Meio das suas pernas? Lembra?

Aí eu levanto, com o corpo dolorido, e vou trabalhar nas terras do meu senhor. De Sol a Sol, agradecendo pelo fato de que eu tenho um pedacinho de terra para mim. E torcendo para que o senhor do castelo não lembre que eu existo durante o dia.

E que eu continue nas graças da Igreja.

25 de fevereiro de 2016

Gimme Shelter

Ontem, quase tudo parou.

A começar pela cidade – aquela, que dizem que não pode parar – que enfrentou um congestionamento histórico. A tempestade também parou e resolveu dar uma trégua quando os Rolling Stones apareceram no palco.

E os olhos de milhares de pessoas também pararam.

Bastava olhar ao redor para perceber isso. Muitos dançavam, outros gritavam, alguns cantavam juntos. Mas os olhos de todos estavam parados, apontados na direção da única pessoa que se recusava a parar. Assim que colocou os pés no palco, Mick Jagger afirmou que “se você me ligar, eu nunca vou parar”. Era mais que um trecho de música. Era um aviso. E uma promessa.

Enquanto a cidade estava parada, o Morumbi era um mundo à parte, onde tudo não apenas se movia, mas se movia junto com Jagger.

Qualquer pessoa sabe que o vocalista não para quieto um minuto durante o show. Ele canta, dança, corre, toca gaita, às vezes tudo quase ao mesmo tempo. Mas ontem eu descobri que é preciso assistir a banda ao vivo para entender isso. Mick Jagger tem a plateia na mão desde o início do show, mas a TV ou a tela de um computador são pequenas demais para mostrar a intensidade desse domínio.

É um daqueles casos raros em que tudo parece girar ao redor do vocalista – muitas bandas são assim – mas que todos os outros músicos têm vida própria – poucas bandas são assim. Basta alguns minutos olhando o palco para entender que Keith Richards está dando seu próprio show. Ron Wood, o único Stone que não ajudou a fundar a banda, também. E o mesmo pode ser dito de Charlie Watts, atrás de sua bateria.

Todos funcionam isoladamente, mas juntos, formam os Rolling Stones, um daqueles casos em que o todo é muito maior que a soma das partes.

E é justamente por causa desse “o todo é maior que a soma das partes” que eu consegui compreender o show completamente somente hoje pela manhã. Afinal, cada uma das partes que formam esse show já é enorme. A abertura de Sympathy for the Devil, que levou milhares de pessoas de volta para os excessos e a teatralidade do fim dos anos 60. O arranjo fenomenal de Miss You, que transformou uma música simples de 78 numa peça complexa e moderna. E a agressividade de Paint It Black, que possui mais fúria que poderia se esperar de uma música que está completando cinquenta anos.

E, claro, Gimme Shelter, um daqueles casos em que o rock exigiu ser chamado de arte e que, ao vivo, se torna quase uma força da natureza. Ela é maior que a versão de estúdio, mas, mesmo se tivesse metade da duração, ela ainda seria gigante, combinando sensualidade e a sensação de que o mundo irá acabar a qualquer momento. Ao assistir (I Can’t Get No) Satisfaction ao vivo, você lembra que está diante de uma das maiores bandas da história do rock; mas, Gimme Shelter vai além e mostra que você está diante de alguns dos maiores músicos do século 20.

Mas essas partes, mesmo grandiosas, eu compreendi com facilidade. Afinal, são músicas que ouço há pelo menos vinte anos. Mas somente hoje pela manhã, enxergando o show com mais calma, entendi que foi um daqueles raros casos do “show certo na hora certa”, pois cada vez mais eu tenho a certeza que não teria apreciado tanto o que vi ontem no Morumbi se isso tivesse acontecido, por exemplo, dez anos atrás.

Afinal, eu nunca vasculhei o catálogo da banda com afinco. Como qualquer pessoa que gosta de rock, conheço as essenciais – o que no caso dos Stones são pelo menos vinte – e tenho as minhas preferidas entre aquelas que não precisam estar em todos os shows. Mother’s Little Helper. She’s a Rainbow. Ruby Tuesday. Dandelion. Assim, dez anos atrás talvez eu prestasse muito mais atenção nas grandes canções. Ainda assistiria ao show inteiro, com a mesma paixão, mas sempre esperando pelo terreno confortável das músicas obrigatórias, tentando decorar cada momento delas desde o primeiro acorde.

Ontem foi diferente. Prestei atenção em cada acorde, cada solo. Out of Control já entrou na minha lista de músicas preferidas dos Stones. You Got the Silver, ao vivo, me passou a impressão de ser um dos maiores – e mais doloridos – blues feitos dos anos 60 para cá. E finalmente entendi porque Keith Richards diz que Mick Jagger é um dos maiores gaitistas da história do blues. Ele não toca gaita como um “vocalista que toca gaita”, mas sim como alguém que parece não ter feito outra coisa na vida.

Aliás, ter escutado blues durante os últimos dez anos parece ter me preparado melhor para entender esse show, identificando passagens e arranjos que não estão nas versões originais e mostram que a paixão dos ingleses pelo blues parece ter crescido ainda mais nos últimos anos. Mas é um show dos Stones. E mesmo com o blues chovendo sobre o estádio desde horas antes que a banda surgisse no palco, com as músicas que tocavam no sistema de som do estádio, o que estamos vendo é um show de rock.

E aí fica claro o único engano que Mick Jagger cometeu durante a apresentação, ao tentar nos convencer mais uma vez que “é apenas rock ‘n roll”.  Por mais que ele entoe essa frase desde 1974, Jagger e sua banda fazem questão de desmentir essa ideia durante cada segundo do show. A cada acorde de guitarra, a cada refrão cantado por um estádio inteiro, fica claro que “não é apenas rock ‘n roll”. É algo muito maior. É uma vida inteira.

Eu ouço rock há quase trinta anos. Vou de heavy metal para hard rock, do hard rock para o rock clássico, volto para o heavy metal. Mudo a forma, mas jamais o conteúdo. Expandi meu gosto musical, claro. Ouço blues, jazz, música clássica... Mas nunca deixei o rock para trás. Porque não é “apenas rock ‘n roll”.

É o que eu sou.

Sempre que eu coloco um dos meus discos preferidos para tocar, lembro que sempre fui assim. Sempre que apanho um dos meus discos preferidos, percebo que sempre serei assim. É o meu refúgio. Basta eu colocar um dos meus discos preferidos para tocar que eu venço o tempo. Deixo de viver numa época em que meus heróis estão morrendo com uma frequência cada vez mais assustadora e volto aos meus catorze anos.

If I don’t get some shelter
Oh yeah, I’m gonna fade away.

E de repente, o mundo parou para que uns garotos de setenta e poucos anos viessem me lembrar disso mais uma vez. Quatro garotos que chegaram logo depois da chuva e fizeram o mundo parar para explicarem minha vida inteira, em cada acorde, cada verso, cada solo. E, quando um dos garotos disse que “é apenas rock ‘n roll”, eu entendi mais uma vez que, na verdade, ele estava falando que “é apenas quem você é”.

Sorri, enxergando mais uma vez toda minha história e tudo em que acredito. E isso é algo que todos nós precisamos de vez em quando.  E, como esses mesmo garotos já haviam me ensinado antes, você nem sempre consegue aquilo que quer. Mas às vezes você consegue aquilo que precisa.

Mick, Keith, Ron e Charlie,

Obrigado por ontem. Obrigado por tudo.