15 de maio de 2015

The Thrill is Gone

Eu lembro quando descobri o blues.

Era pré-adolescente e como muita gente da minha idade, meu primeiro contato com o blues foi assistindo a Os Irmãos Cara-de-Pau. Lembro até hoje de assistir ao filme com meu irmão e, ao vermos um velho tocando na rua numa cena rápida, ele comentou “esse cara deve ser um monstro do blues e a gente não sabe”. Era verdade. Eu não fazia ideia de quem era aquele velho. Mas sabia que eu nunca tinha visto tanto carisma em uma pessoa (a cena, estendida, está aqui).

Mas se eu descobri o blues cedo demais, só fui me apaixonar por ele tarde demais, por volta dos vinte e cinco anos. Até então eu escutava e apenas gostava. Sentia-me atraído por aquele som doce e simples, com letras poderosas.  Mas nunca tinha me aprofundado de verdade naquele mundo.

Até eu me apaixonar por blues.

Foi no dia que a música “How Blue Can You Get?” cruzou meu caminho. Como qualquer pessoa, eu já conhecia BB King, mas nunca tinha escutado aquela canção. Sua letra é universal e conta como um homem não sente nada além de tristeza por causa da uma mulher ingrata e egoísta, tudo isso contrastando com uma guitarra doce e melódica que transformava aquela tristeza em esperança do dia seguinte ser melhor.

Porque o blues não é apenas sobre tristeza.

O blues é, na verdade, sobre a esperança de que amanhã será melhor.

Minha vida mudou. Eu não me senti tragado para dentro da música, mas sim para dentro de algo maior. Naquele dia, eu não me apaixonei por uma música ou por um disco, mas sim por um mundo completamente diferente daquele que eu encontrava em outras músicas.


Comecei a ouvir – e ler sobre – blues o dia inteiro. Fui atrás dos grandes nomes do passado e comecei a conhecer melhor aquele mundo, povoado por pessoas comuns que viviam em lugares reais e experimentavam problemas que todos nós temos. Um mundo amargo e alegre, solitário e erótico, violento e adocicado. Tudo ao mesmo tempo. Um mundo onde a dor não é grandiosa, mas ela é tudo que existe. E a única maneira de lidar com ela é com a música, que entrega uma espécie de redenção (eu tentei descrever como me sinto ouvindo blues aqui).

Um mundo que não foi feito para ser compreendido, mas sim experimentado.

E, em algum momento, eu descobri que não me apaixonei pelo blues tarde demais. O blues me ajudou a sair de uma depressão. O blues me ajudou a fazer a transição do jovem para o adulto. Não, eu não me apaixonei pelo blues tarde demais.

Eu me apaixonei pelo blues na hora certa.

Mais ou menos quinze anos se passaram desde que dei meus primeiros passos nesse mundo. E hoje não consigo me imaginar fora dele. Tenho o blues tatuado no braço porque eu preciso levar esse mundo comigo para onde vou. Escrevo uma história em quadrinhos em que o blues é um dos elementos mais importantes no roteiro porque, como qualquer pessoa que habita esse mundo, me sinto na obrigação de mantê-lo vivo e contar sua história.

Pois sua história faz parte da minha história.

E sempre que eu olhava para trás na minha história, pensando sobre a importância que esse mundo tem na minha vida, enxergava BB King no começo de tudo. Ele não era meu bluesman preferido, mas estava além. Ele era meu marco zero.

Eu tive muita sorte. Para entrar nesse mundo habitado por pessoas comuns, foi preciso que um rei aparecesse com sua guitarra no ombro, me pegasse pela gola da camiseta e me desafiasse:

– How blue can you get, boy?

Eu estou até hoje tentando responder essa pergunta. Por isso, às vezes, eu voltava para o portão desse mundo e mergulhava em BB King.

Passava o dia ouvindo a voz e a guitarra melódica daquele rei que um dia, desceu de seu trono e convidou um garoto para fazer parte do seu reino. E sempre começando por aquela música sobre aquela mulher ingrata – que, hoje eu sei, mudou minha vida. E, a cada vez que eu ouvia aquela música, sentia uma espécie de arrepio pensando em como o blues faz de mim o que sou hoje.

E hoje o rei está morto.

Dizem que reis não morrem de verdade. Assim, acredito que ele permanecerá vivo em estradas lamacentas, espeluncas lotadas, campos de algodão e quartos abafados, contando histórias de paixões que esfriaram, de empregos ingratos, de mulheres egoístas, de amores impossíveis.

E a tristeza pela sua morte será diminuída – mas jamais esquecida – no momento que alguém, em algum lugar do mundo, empunhar um violão e cantar seu nome ao lado de uma dose de uísque.  Afinal, eu disse acima que o blues não é sobre tristeza e sim sobre a esperança de que amanhã será melhor. Isso é algo que eu aprendi com aquele rei.

Porém, nem todo o uísque do mundo mudará o fato de que ele está morto. Pois o rei também foi o primeiro a me falar que o blues sempre foi sobre verdades. E a verdade é que o rei está morto.

Hoje, a pergunta “how blue can you get?” não me traz arrepios, apenas tristeza. Mas o rei já havia previsto isso. Com seu ar de “as coisas são assim mesmo”, ao cantar que the thrill is gone, the thrill is gone away, ensinou que nada é para sempre, nem mesmo aquilo que a gente acredita que é para sempre.

O rei ensinou muitas coisas. Essa foi sua última lição, pois hoje o rei está morto.

Longa vida ao rei.


12 de maio de 2015

O Estranho Caso do Entregador do Habib's

Entregador do Habib’s: Boa noite.

Cérebro do Rob Gordon: O dinheiro está certo?

Estômago do Rob Gordon: Não importa. Peguem logo a comida!

Rob Gordon: Boa noite.

Entregador do Habib’s: Você está assistindo TV?

Cérebro do Rob Gordon: Hum... Ele deve estar perguntando se estamos vendo o jornal. Melhor ser sincero aqui.

Estômago do Rob Gordon: Ninguém quer conversar! Pegue logo a comida!

Rob Gordon: Não, estou vendo um filme.

Entregador do Habib’s: Então você não viu nada sobre o assalto?

Cérebro do Rob Gordon: Assalto? Não me lembro de te visto algo sobre assalto algum. Mas se o cara está comentando deve ser importante e apenas nós não estamos sabendo. Pergunte a ele que assalto é esse.

Estômago do Rob Gordon: Não tem como a gente pegar pelo menos um quibe enquanto conversa?

Rob Gordon: Assalto? Não vi nada. Que assalto?

Entregador do Habib’s: O senhor não viu? Tentaram assaltar um banco.

Cérebro do Rob Gordon: Bom, um assalto a banco não é importante. Agora, se o sujeito está comentando conosco, é por que... Meu Deus! Será que foi aqui perto? Alguém aqui ouviu sirenes hoje? Melhor perguntar onde foi isso. Deve ter sido aqui na Lins!

Estômago do Rob Gordon: Não quero saber do assalto. Libera logo uma esfirra! De carne!

Rob Gordon: Não, não vi nada. Onde foi esse assalto?

Entregador do Habib’s: No Rio Grande do Norte.

Cérebro do Rob Gordon: Oi?

Estômago do Rob Gordon: Falei que não valia a pena!

Rob Gordon: Oi?

Entregador do Habib’s: Foi lá no Rio Grande do Norte.

Cérebro do Rob Gordon: Que tipo de raciocínio ele desenvolveu para concluir que nós poderíamos estar interessados nisso? Hora de encerrar o assunto.

Estômago do Rob Gordon: Encerrar merda nenhuma! Cadê a comida?

Rob Gordon: Não. Não vi nada.

Entregador do Habib’s: Foi igual lá em Fortaleza.

Cérebro do Rob Gordon: Ok, eu estou acionando o alarme. Vamos ativar o dispositivo “Sorria e Concorde” e tentar administrar a conversa. Atenção! Não é um treinamento! Temos um louco por perto!

Estômago do Rob Gordon: Não podemos deixa-lo fugir com nossa comida! Alguém agarre o entregador!

Rob Gordon [sorrindo]: Aham.

Entregador do Habib’s: Esses ladrões de hoje...

Cérebro do Rob Gordon: Está funcionando! Ele não tem mais o que dizer! Aguentem mais um pouco e logo estaremos livres!

Estômago do Rob Gordon: Por favor, eu não aguento de fome. Não dá para tentarmos pegar pelo menos um limão daquele saquinho?

Entregador do Habib’s: Seu pedido.

Rob Gordon [sorrindo]: Aham.

Cérebro do Rob Gordon: Deu certo! Ele está indo embora! Precisamos colocar o registro disso no blog!

Estômago do Rob Gordon: VAMOS COMER!

Rob Gordon [sorrindo]: Aham.

Cérebro do Rob Gordon: Desativem o modo “Sorria e Concorde”. Estamos seguros!

Estômago do Rob Gordon: De quem é a esfirra de queijo?

Rob Gordon [sorrindo]: Aham.

Cérebro do Rob Gordon: Estamos travados no modo “Sorria e Concorde!” Anos e anos lidando com loucos assim devem ter danificado o sistema. Precisamos fazer algo!

Estômago do Rob Gordon: Depois. Agora estou comendo. Vai sorrindo e concordando aí, depois a gente resolve.

Rob Gordon [sorrindo]: Aham.

9 de maio de 2015

A Trágica História do Porquinho que Foi ao Mercado

Existem vários porquinhos. Existe o porquinho que comeu rosbife. Existe o porquinho que ficou em casa. Existe o porquinho que gritou alguma coisa. Mas o mais famoso entre eles é o primeiro: o porquinho que foi ao mercado.

E essa é a sua história.

Este porquinho foi ao mercado...

Junto com sua Esposa, porque eles precisavam compra ração para os cachorros. No meio do caminho, o porquinho sugeriu que já deveriam aproveitar e decidir o que iriam jantar. Conversaram alguns instantes e decidiram comer hambúrguer. O porquinho ficou feliz porque adora comer hambúrguer em casa, já que a Esposa faz maionese caseira e ele come com batatas – o que fica ainda mais gostoso que o sanduíche. Entraram no mercado, pegaram tudo o que precisaram para o hambúrguer e foram ao caixa. Só então o porquinho percebeu que tinha esquecido a carteira. Assim, saiu do mercado correndo e voltou para casa.

Este porquinho foi ao mercado...

Agora com a carteira no bolso. E correndo. Você já viu um porquinho correndo? É deprimente. Esse porquinho corria muito quando era mais jovem, mas agora ele não sabe mais correr. Aliás, existe um motivo para o poema não ter um verso com “esse porquinho foi correndo até tal lugar”, porque ninguém quer ver um porquinho correndo pelas ruas com a barriga tremendo e jogando o bundão – porque todo porquinho tem bundão, e não qualquer bundão, é um bundão suficiente para dançar em uma banda de axé – para um lado e para o outro, reclamando de dor nas pernas e fazendo o final do percurso meio torto porque está começando a sentir dor no baço.

Mas, enfim, o porquinho voltou ao mercado a tempo de pagar suas compras com a caixa alienígena que fez comentários sobre a bolacha Toddy que o porquinho comprou – porque porquinhos sempre compram algo doce no mercado – e sobre o hambúrguer, dizendo que quando faz hambúrguer em casa coloca babata palha dentro do pão (algo que o porquinho ainda esbaforido resmungou que “não, aqui no planeta Terra a gente não faz isso”). E voltaram para casa, apenas para abrir a porta e o porquinho dar um tapa na própria testa gritando “esquecemos a ração dos cachorros!”. Mas, ainda cansado de ter que correr porque esquecer a carteira, o porquinho pediu ao enteado que fosse comprar a ração. Problema resolvido... Até que meia hora depois – já com a ração em casa – o porquinho deu outro tapa na testa e gritou “esqueci a merda da batata!”.

Esse porquinho foi ao mercado...

Reclamando da vida e com vontade de chutar tudo o que encontrasse pela rua. Sua Esposa havia falado que “nós comemos sem batata mesmo”, mas o porquinho foi resmungando que ele gosta mais da batata com maionese que do hambúrguer, que na verdade quando tem hambúrguer em casa ele usa isso como desculpa para se entupir de batata com maionese e jurou que compraria um saco de batata do tamanho de uma pequena cidade para nunca mais ter que sair e comprar batatas novamente.

Entrou no mercado, percebendo que todos os funcionários o olharam com cara de “ih, o porquinho esqueceu algo” e foi até outro caixa para fugir da menina alienígena. Resmungou para a menina do caixa que não precisa do CPF, eu só quero ir embora e ficar em casa e voltou com o saco de batata na mão, sem sacola nem nada, maldizendo a vida. Algumas pessoas que passaram pelo seu caminho devem ter pensado que o porquinho era louco, pois ele não era um porquinho carregando um saco de batatas, ele era um porquinho que carregava um saco de batatas, olhando diretamente para o saco e fazendo ameaças como “se vocês não ficarem no mínimo maravilhosas eu vou esmigalhar todas vocês com uma pá, e depois tacar fogo em cada uma de vocês”.

Assim, o porquinho entrou em casa e voltou ao computador... Até que sua Esposa apareceu na sala e perguntou se ele se incomodaria em comer o hambúrguer sem ketchup e ele perguntou como assim e ela explicou que lembra que eu comentei essa semana que o ketchup tinha acabado, então, nós esquecemos de comprar e o porquinho se levantou e calmamente foi até a janela e olhou para o céu e ergueu um punho gritando coisas como se vocês fossem machos, desceriam aqui e me pegariam pessoalmente ao invés de fazer essas coisas. Sem dizer para a esposa que “eu não fui trinta e cinco vezes até aquela bosta de mercado para comer hambúrguer sem ketchup” (ao invés disso, ele disse apenas “vou lá comprar essa merda”) pegou a carteira e saiu de casa.

Esse porquinho foi ao mercado...

Se perguntando por que a vida é assim. E pensando também nos outros porquinhos, que provavelmente estavam coçando o saco e esperando a sua vez de fazer alguma coisa, já que o poema não saía da primeira linha. Toda a saga dos porquinhos se resumia ao porquinho que foi ao mercado e depois precisou voltar ao mercado e chegou em casa e percebeu que precisava ir ao mercado, eternamente preso dentro disso como se o seu pedaço do poema tivesse se transformado em um filme do Luis Buñuel.

Entrou no mercado pronto para chutar qualquer pessoa que ousasse passar pela sua frente, foi até a prateleira de ketchup e pegou o primeiro que encontrou – lendo com cuidado o rótulo inteiro para se certificar de que se tratava de ketchup mesmo, assim ele não chegaria em casa apenas para descobrir que precisava voltar ao mercado porque ao invés de comprar ketchup comprou sem querer um pote de terra – e foi até o caixa pagar, escolhendo um terceiro caixa que ainda não tinha visto o porquinho por ali nas outras vezes. Antes de pagar, resmungou que “não, pode enfiar o CPF no cu” para a funcionária e fingiu que não viu a caixa alienígena olhando para ele de longe, com um sorrisinho no canto da boca e um ar de “quem é o retardado agora?” e voltou para casa.

E ficou sentado na cadeira olhando para o relógio por quinze minutos até ser dez horas em ponto. O porquinho então suspirou. Agora o mercado estava fechado. A maldição havia se rompido, e ele podia começar a reconstruir sua vida.

Essa é a história do porquinho que foi ao mercado.

Os outros porquinhos ainda estão rindo dele.

4 de maio de 2015

Rob Gordon X Família do Barulho

Quem me conhece sabe que meu principal termômetro para saber se estou cansado é minha tolerância (ou falta dela) a barulhos. Quanto mais cansado, maior a intolerância.

Funciona numa escala que seria mais ou menos assim:

0-2 – Eu não me importo com os vizinhos ouvindo música (ou aquele negócio que eles chamam de música) e fazendo um churrasco.
2-4 – Barulhos de rojões me irritam profundamente.
4-6 – A televisão precisa estar num volume menor que 15 (ela vai até 50). Se alguém coloca acima de 20, eu tenho o impulso de diminuir o volume com um martelo.
6-8 – Elejo os peixes como meus melhores amigos e fico sentado olhando o aquário e invejando o silêncio que deve estar lá dentro.
8-10 – Basta um carro passar na frente de casa ouvindo música no máximo (ou aquele negócio que ele chama de música, porque uma pessoa que ouve música num volume que faz os vidros tremerem dificilmente ouve Mozart) para eu ficar quarenta minutos pesquisando preços de bazucas na internet.

Isto posto, ontem eu escrevi doze horas seguidas, o que me coloca em algum lugar entre 7 e 9. E sim, eu sei que depois de escrever doze horas eu devia estar descansando e não escrevendo, mas eu sugiro que você pense nos seus vícios antes de falar mal dos meus.

Enfim, foi entre os graus 7 e 9 da escala que eu saí para comprar cigarros. Eu não entro mais na padaria ao lado de casa, porque cansei de entrar lá e nunca ter nada. Nunca tem cigarro, nunca tem refrigerante, e o dono sempre me diz que “ah, a entrega atrasou”. Aliás, eu comecei a desconfiar que ele estivesse me fazendo de idiota quando usou a desculpa que “a entrega atrasou” um dia que não tinha pão.

Eram nove e pouco da noite e não tinha pão.

- A entrega atrasou.

- Mas que entrega? Você é uma padaria. Você faz o pão.

- Atrasou. É uma pena.

Mandei tomar no cu e jurei que nunca mais entraria ali. Isso faz dois meses e estou há dois meses sem pisar lá. Cigarro, por exemplo, eu vou ao posto, que é na quadra seguinte. E foi lá que eu fui agora comprar cigarros.

E como o posto é perto de casa, não levei meu iPod (sim, porque as músicas que gosto não caracterizam barulho, logo não entram na escala). Afinal, eu iria e voltaria em menos de dez minutos. Era uma boa oportunidade para sair e não ouvir nada exceto o canto dos passarinhos, desde que eles não piassem muito alto e de preferência do outro lado da rua.

Cheguei ao posto e uma mulher estava sendo atendida.

Uma pessoa na fila. Uma pessoa eu consigo lidar. Basta ela não fazer barulho que eu consigo lidar.

E ela não estava fazendo barulho. Tudo bem, ela estava conversando com a menina do caixa sobre assuntos importantes como é o fato de que é mais eficiente varrer o quintal da esquerda para a direita e que quando ela acordou de manhã o céu tinha nove nuvens e nenhuma delas se parecia com nada e antigamente as coisas não eram assim.

Eu dei de ombros. Contanto que ela mantivesse aquele tom de voz de mais ou menos 20 decibéis, ela poderia falar sobre o que quisesse durante o tempo que desejasse. Eu iria esperar ali tranquilamente, comprar meu cigarro e ir embora.

Mas eu não contava com a Família do Barulho. Justificando seu nome de Sessão da Tarde, eram três pessoas que foram à loja de conveniência do posto para aprontar altas aventuras e viver muita confusão.

O primeiro a chegar foi o garoto. Ele anunciou sua chegada de forma efusiva, pulando para dentro da loja e aterrissando ao meu lado enquanto gritou um “IÁÁÁÁÁ´!”, provavelmente para aumentar ainda mais a força do golpe de arte marcial que ele desferia em algum inimigo invisível.

O grito entrou pelos meus ouvidos e começou a derreter meu cérebro. Eu olhei para o menino com a mesma expressão de alguém que teria ido passar as férias na Transilvânia, decidiu que seria bacana visitar um castelo no meio da madrugada, e agora estava no meio da cripta percebendo que os caixões escondidos ali estavam se abrindo. Comecei a rezar para que as cordas vocais do garoto explodissem, mas aparentemente Deus não trabalha com pedidos desse tipo e eu fui ignorado.

O garoto continuou gritando ao meu lado. Ele devia ter uns dez anos de idade e usava uma bandana com um emblema de metal na cabeça, provavelmente de algum anime. Era uma daquelas coisas que apenas dois grupos de pessoas podem usar: crianças de até quatro anos que sonham em ser um super-herói e pessoas com mais de quatro anos que já se conformaram que nunca farão sexo na vida.

Olhei para a mulher que estava sendo atendida. Agora ela estava conversando alguma coisa sobre o especial de cinquenta anos da Globo, enquanto o Serei Virgem para Sempre gritava e golpeava hordas de inimigos que apenas ele conseguia ver, com os superpoderes que apenas ele achava que tinha.

Olhei para um lado e vi uma geladeira de sorvetes. Estava pensando em como me esconder lá dentro de forma discreta, quando ouvi novas vozes e olhei para o outro lado.

Eram o pai e a mãe do menino. Isso ficou óbvio no momento que eles entraram na loja. E não porque o garoto se parecia com eles, mas sim pelo tom de voz. Imediatamente percebi que se tratava de uma daquelas famílias em que a televisão fica ligada o dia inteiro no máximo, e como eles não sabem qual botão do controle remoto controla o volume, eles adaptaram sua forma de comunicação rudimentar para essa realidade. Todos eles gritavam e cada um falava sobre um assunto diferente. A conversa foi mais ou menos assim.

Pai: Você comprou tudo?

Mãe: Menos o salgadinho.

Pai: Não podemos esquecer o vinho.

Garoto Boçal: IÁÁÁÁÁÁ! BANZAI!!!!

Mãe: O salgadinho custa oito reais o pacote.

Pai: Filho, você pegou o chocolate?

Rob: Por favor, Deus, me mate. Me mate aqui e agora.

Mãe: Só se pegarmos um pacote de salgadinho menor.

Garoto Boçal: Pai, você viu o meu golpe?

Mãe: Posso pegar de presunto.

Rob: Alguém me dê uma granada, por favor... Uma granada ou um copo de Rivotril.

Pai: Filho, eu não posso conversar agora. Estou falando sozinho.

Toda essa conversa não aconteceu perto de mim, e sim ao meu redor. Era um círculo de barulho e gritos desconexos e eu era o centro. Meu grau de cansaço já havia pulado para o índice 18 (o mais alto registrado em minha vida) que é o estágio onde eu ouço as formigas andando no quintal e sinto vontade de correr para lá com uma lata de querosene, uma caixa de fósforos e acabar logo com tudo.

A mulher que estava sendo atendida pela caixa não parecia se incomodar com isso. Nem parecia disposta a ir embora. Estava conversando, agora, sobre o regime que sua irmã estava fazendo. E a família continuando a gritar. Desta vez, eles resolveram interagir. O pai olhou o garoto pegando um sorvete e disse:

– Ah, você não esqueceu o sorvete. Que bom.

Ao ouvir isso, o garoto descobriu que a expressão “Que bom” dita pelo seu pai se pronunciava da mesma forma que o “Kibon” escrito na geladeira de sorvetes. Aparentemente, isso foi uma revelação para ele – mais ou menos comigo, quando consegui enxergar os dois pinguins do rótulo da Antarctica (para mim, aquilo era uma cabeça alien com dois olhos estranhos até minha adolescência). Mas o menino aparentemente não soube lidar com a empolgação da descoberta e subiu o tom de voz em mais uns cinquenta decibéis.

– Que bom! Kibon! Você falou que bom! E ali está Kibon! Kibon! Que bom! Você pegou o sorvete Kibon! Você pegou o sorvete que bom!

Eu comecei a ter dificuldades para respirar. Pelo que percebi, nem o oxigênio tinha aguentado aquilo e fugiu para a rua. E eu entendo essa decisão. Eu teria feito o mesmo. Ainda estava pensando sobre ficar sem ar, quando a mãe resolveu fazer uma pergunta que envolvia a palavra “serra”. Eu não lembro se eles iriam viajar para a serra ou algo parecido, mas, assim que o garoto ouviu a palavra serra, ele decidiu que aquela era a deixa ideal para que ele apresentasse ao mundo sua nova versão de um clássico infantil, e começou a dançar ao meu lado, cantando “serra, serra, serrador...” num ritmo que ficava entre pagode e sertanejo.

Eu apenas observei aquilo com o canto do olho, torcendo para que o menino se aproximasse um pouco mais de mim para enfiar o cotovelo na boca dele e imediatamente pedir desculpas dizendo que “Meu Deus! Que acidente horrível! Eu não percebi que vocês estavam aqui! Nossa, sua boca está sangrando, espera que eu vou limpar com um murro antes de começar a bater com sua cabeça no chão enquanto grito desesperadamente para você calar a boca um  minuto, vem até aqui.”

– Próximo?

Olhei para o caixa e a Mulher que tudo falava havia ido embora. Encostei no balcão.

– Marlboro, por favor.

– Quantos?

– Todos.

– Todos?

– Rápido.

Dei o cartão para ela e percebi que minhas mãos não paravam de tremer. Paguei, coloquei tudo numa sacola e fui embora, sem conseguir andar direito – quase derrubei uma daquelas estantes de CDs vagabundos que donos de lojas de posto sempre deixam na porta. Voltei para casa tremendo e com meu cérebro coçando – você já se sentiu coceira no cérebro? É o primeiro sintoma concreto de insanidade irreversível.

Entrei em casa e não falei com ninguém. Peguei um fone de ouvido e liguei uma música do Slayer no máximo, me refugiando dentro dos meus próprios barulhos. Lágrimas desciam pelo meu rosto e eu deitei em posição fetal no chão da sala.

E, quando o Tom Araya começou a gritar que God hates us all!! God hates us all!!, eu finalmente entendi o que ele queria dizer. E concordei.

22 de abril de 2015

O Dia em que Eu Descobri Quem Descobriu o Brasil

Toda vez que estamos no dia do Descobrimento do Brasil eu me lembro da minha primeira série. Não, isso não quer dizer que eu já estava na escola quando o Brasil foi descoberto, como diriam os mais maldosos, mas sim por causa de uma das primeiras provas que fiz na vida.

Quando criança, eu era extremamente cdf (ainda se usa esse termo?).

Minhas notas eram todas acima de oito e eu segui nessa toada até a sexta ou sétima série. Na oitava série minhas notas caíram e eu peguei recuperação pela primeira vez na vida. Mas, aí, no primeiro colegial a coisa desandou. Foi nessa época que comecei a fumar, beber, deixar o cabelo crescer. Resultado: tomei bomba, fiz o primeiro colegial mais uma vez e tomei bomba novamente.

Mas essa historinha sobre o descobrimento do Brasil não acontece nessa época, e sim quando eu tinha seis ou sete anos, e morava em Manaus – leitores mais antigos sabem que morei no Amazonas durante dois anos. Era uma época boa, em que eu era uma criança feliz descobrindo o mundo enquanto fazia amigos, conhecia novas matérias e arrancava pedaço da mão de um menino com uma mordida no meio do pátio da escola.

É engraçado que eu não consigo me lembrar da prova em si, apenas da questão sobre o Descobrimento do Brasil, que era a última. O texto era assim:


10) O Brasil foi descoberto em 22 de abril de 1500. Quem descobriu o Brasil?
Resposta:



Não sei se eu lembrava ou não o nome do sujeito que descobriu o Brasil, mas não dei atenção a isso. Pois essa foi a primeira vez que usei a lógica para responder uma questão. O Brasil havia sido descoberto em 1500. Ou seja, mais de quatrocentos anos atrás (sim, na época o país ainda não tinha 500 anos, isso aconteceu no começo dos anos 80).

E quatrocentos anos era muito tempo. Não apenas para um país, mas principalmente para uma pessoa. Eu não conhecia ninguém que havia vivido tanto tempo. Quer dizer, tinha o Fantasma, mas ele não vale, já que ele não é imortal de verdade, já que o filho sempre assume o lugar do pai.

Meus avós que eram as pessoas mais velhas que eu conhecia tinham entre 60 e 70 anos. Quatrocentos anos era tempo demais. Foi quando percebi que a resposta estava à minha frente o tempo inteiro. Preenchi o espaço e entreguei a prova.

No dia seguinte, recebi a prova corrigida. Nove.

Era uma boa nota – se você somar todas as provas de química que fiz no meu primeiro-primeiro colegial deve chegar, quando muito, a uns seis. Mas eu era cdf e me indignei com isso. Corri os olhos pela prova procurando o que eu havia errado e pronto.

Lá estava o enorme X vermelho, bem ao lado da questão sobre o descobrimento do Brasil. Eu havia errado a maldita questão em que usei a lógica, ultrapassando meus limites e buscando o conhecimento e as repostas pelo meu próprio esforço, sem usar os livros. E havia fracassado.

Mas não desisti. Ignorei aquilo e continuo acreditando naquilo que descobri durante a prova da primeira série. Às vezes, em 22 de abril como hoje, eu ainda me lembro da minha resposta.


10) O Brasil foi descoberto em 22 de abril de 1500. Quem descobriu o Brasil?
Resposta: UM VELHO.



E ainda acho que estou certo. Mais de quatrocentos anos (hoje, mais de quinhentos) é tempo demais para uma pessoa.