9 de novembro de 2017

A Costa do Mosquito

Quem acompanha esse blog ou me segue nas redes sociais deve estar sabendo que mudei de casa faz alguns meses. Agora, moramos num pequeno sobrado bem perto daquele rio em cujas margens plácidas foi disparado o brado retumbante de um povo heróico.

Só que o problema da casa nova é que, no instante em que o Sol da liberdade deixa de brilhar em raios fúlgidos no céu da Pátria, a casa é invadida por mosquitos.

Nós imaginávamos que isso podia acontecer, afinal, estamos perto de um rio. Por isso, antes de assinarmos o contrato, viemos dar uma volta pelo bairro e perguntamos para duas ou três pessoas da vizinhança sobre esse assunto. As respostas seguiam sempre pelo mesmo caminho.

“Ah, de vez em quando tem um ou outro”.

“Não, nunca vi aqui na minha casa.”

“O que é mosquito?”

Bom, bastou nos mudarmos para começamos a encontrar mosquitos em casa. E não eram dois ou três, eram dezenas. Às vezes, centenas. E, a cada mosquito que eu matava, amaldiçoava meus vizinhos, que juraram que não havia pernilongos no bairro.

Sim, já me ocorreu que talvez eles não tenham mentido. Talvez eles nunca vejam mosquito algum porque todos os pernilongos da cidade estão dentro da minha casa. Talvez a casa deles tenha alguma espécie de proteção – física ou mágica. Talvez eles apenas tenham mais sorte que eu, talvez o sangue deles não seja tão apetitoso, talvez alguma coisa no vento empurre os mosquitos apenas na minha direção.

Ou talvez os filhos da puta ganhem comissão da imobiliária quando conseguem convencer pessoas inocentes que o bairro não é infestado por pernilongos.

(Na verdade, minha alternativa preferida é pensar que todos os moradores do bairro são adoradores & escravos de uma antiga e obscura divindade com formato de pernilongo e, para aplacar a ira da criatura maligna, decidiram me oferecer como sacrifício. Sim eu pensei mais de uma vez sobre isso.)

Mas, religiões arcaicas à parte, em alguns dias a situação era insustentável. Eu batia na tela da janela da sala e era imediatamente transportado para o Sudeste Asiático, já que uma nuvem de pernilongos saía voando. Na minha direção. Em formação de ataque. Ao som de Cavalgada das Valquírias. Tudo o que eu podia fazer era trancar a janela o mais rápido possível e mergulhar atrás do sofá.

À noite era pior. Porque vamos abrir o jogo: pernilongos estão entre os animais mais estúpidos que existem. Pensem comigo: você está deitado, dormindo. Se o pernilongo pousasse no seu tornozelo, você jamais iria perceber. Eles passaria a noite inteira ali se empanturrando. Sua perna seria transformada numa daqueles restaurantes “coma o quanto quiser – suco grátis – aceitamos VR”. Mas, não! O idiota insiste em voar perto da sua cabeça, fazendo barulho com as asas e chamando a atenção. Ou ele é imbecil ou faz isso apenas para provocar, porque sabe que – ao menos na minha casa – ele está com toda sua galera ali.

Chegou um dia que eu cansei. Nem tanto pelo fato de que a cada pernilongo que eu matava, dois apareciam em seu lugar, mas porque meus ombros já começaram a doer de tanto bater palmas pela casa. Eu corria pela sala e batia palma tantas vezes que já estava esperando alguém olhar da rua e tocar a campainha, querendo saber se dou aula de flamenco e quanto custa a mensalidade. Sério, só faltavam as castanholas.

Mas a gota d’água foi o dia que eu estava lendo na cama e, ao olhar para cima, percebi que milhões de mosquitos estavam se reunindo no teto, bem em cima de mim. Eles começaram a voar de forma estranha e logo percebi que eles estavam formando uma espécie de desenho no teto. Não. Não era um desenho. Eram letras!

Eles estavam tentando se comunicar comigo!

Larguei o livro e prestei atenção. Seria a descoberta biológica do século. Olhei com atenção as letras se formando, jurando para mim mesmo que, em meu discurso aceitando o Nobel de Biologia, dedicaria o prêmio aos dois professores que me reprovaram nessa matéria. Finalmente, o texto se formou.


MOSQUITOES WAR

EPISÓDIO IV

É um período de guerra civil. Espaçonaves rebeldes atacando de uma base secreta conquistaram sua primeira vitória contra o temível IMPÉRIO GALÁCTICO.


“Porra, eu sou o Império?”, gritei, jogando o travesseiro nos pernilongos. Eu não sabia o que era pior: ser apontado como vilão ou perceber que estou gordo o suficiente para ser apelidado de Estrela da Morte pelos mosquitos. Filhos da puta.

Na minha cabeça, agora era guerra. Mas eu precisava de alguma estratégia para equilibrar a batalha, já que o exército inimigo 1) está em superioridade númerica absoluta e 2) voa. Pensei nos meus anos jogando Civilization e decidi que a melhor saída nesse caso seria algum avanço tecnológico militar. Isso equilibraria um pouco a situação.

Concluí que só havia uma saída. Fui até o mercado e comprei uma daquelas raquetes elétricas que matam mosquitos.

Ok, vamos interromper um pouco aqui. Eu sempre fui contra essa raquete – especialmente porque a primeira vez que eu vi isso foi nas mãos da Síndica Mafiosa do prédio que eu morava em Pinheiros (Oi, leitores mais antigos! Lembram dela?). Naquele momento, aquilo me pareceu um instrumento típico de genocídio, cruel demais. Lembro que jurei nunca usar um negócio daqueles.

Mas não há juramento que resista a um enxame de milhares de pernilongos.

Voltei com a raquete para casa. Ela carrega na tomada (o que é ótimo, porque senão eu gastaria todo meu dinheiro em pilhas) e é laranja porque... Bem, porque a única outra cor disponível era verde-limão, e se eu fosse um pernilongo, jamais respeitaria uma pessoa que me atacasse com uma raquete verde limão. Mas perguntei ao cara do mercado se existia algum modelo que contabilizava o número de mortes.

“Acho que não. Mas por que o senhor iria querer isso?”

“Ah, apenas para ter um número exato e reclamar na prefeitura”, menti. Eu não ia falar para ele que queria ser apelidado de Barão Laranja pelos pernilongos. Se eu tentasse explicar para ele que eu não queria apenas matar os pernilongos, e sim voltar a ser respeitado dentro da minha casa, ele provavelmente acharia que sou louco e chamaria a segurança.

Enfim, voltei com a raquete para casa. Quando estava entrando, os pernilongos estavam voando pela sala. Percebi que eles já se preparavam para me atacar quando puxei a raquete de dentro da sacola e a brandi com força no ar, gritando:

“SAY HELLO TO MY LITTLE FRIEND!”

Faltava só a cocaína no cabelo. Bom, na verdade, falta também o cabelo, mas duvido que os mosquitos tenham prestado atenção nisso, porque imediatamente liguei a raquete.

Agora, minha sala não era mais um campo de guerra, e sim uma espécie de Winbledon do inferno. Eu sacava um pernilongo (CRAC), corria pela sala e rebatia outro perto do aquário (CRAC), cortava uma nuvem que tentava escapar para a cozinha (CRAC CRAC CRAC), subia no sofá e pulava de volta para o chão, golpeando o ar com a raquete feito o Conan (CRAC CRAC CRAC CRAC CRAC) e gritando que vou beber vinho nos seu crânios e me deitar com suas mulheres, cães pictos infelizes!

Sim, aparentemente, a raquete não me fez bem. Não demorei para descobrir que se o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente... O poder elétrico torna insano. Mas comecei a ficar realmente preocupado comigo mesmo quando descobri que alguns pernilongos não morriam imediatamente. Os menos sortudos ficam grudados na tela da raquete, literalmente fritando – dá para sentir o cheiro de queimado e tudo.

Cruel demais.

Na primeira vez que isso aconteceu, eu deveria apenas ter jogado a raquete de lado, me virado na direção dos pernilongos respirando fundo, e falado para eles que “Não. Eu nunca vou abraçar o Lado Negro. Vocês falharam. Eu sou um Jedi, como meu pai antes de mim”.

Eu devia ter feito isso. Mas, na verdade, eu simplesmente aproximei a raquete do meu rosto, admirei o pernilongo queimando e sussurrei “Burn, baby, burn”. Tenho certeza que meus olhos estavam vidrados. Foi aí que eu percebi que adoro o cheiro de mosquitos queimados pela manhã.

Este foi o ponto sem volta. De lá para cá, eu passei a andar pela casa com a raquete embaixo do braço. Aonde eu ia, ela ia comigo. Éramos apenas um. Mas o mais assustador foi que eu desenvolvi um grito de guerra para cada aposento – como eu disse, não era ganhar a guerra, era recuperar meu respeito. E eu decidi recuperar meu respeito colocando medo nos pernilongos.

Por exemplo, na sala eu mantive o “say hello to my little friend”. Aliás, eu queria ter pintado a frase “The World is Yours” na parede, mas a Esposa não deixou. Paciência. Bastava eu colocar os pés no aposento e gritar que os mosquitos sabem o que vai acontecer.

No escritório, eu assumo outra estratégia. Abro a porta imitando o som dos passos do RoboCop e aponto a raquete para os mosquitos, falando que “dead or alive, you come with me”.

No banheiro? Sempre que entro ali com a raquete, grito que “Heeeeere’s Johnny!”. Perguntei para a Esposa se eu não podia abrir um rombo na porta, porque acho que enfiar a cara nesse buraco e gritar essa frase antes de entrar teria um efeito ainda mais assustador, mas ela também não deixou (às vezes eu me sentia sozinho demais nessa guerra).

E o quarto... Bem, ali eu decidi fazer o jogo dos pernilongos. Não tinha sido ali que eles decretaram que eu sou o Império? Então, sempre que entro ali, os pernilongos já entram em pânico quando eu ligo a raquete e digo que “the force is with young pernilongo; but you are not a Jedi yet!” e começo a distribuir raquetadas fazendo som de sabre de luz e gritando que “I have you now” (CRAC), “It’s useless to resist” (CRAC) e “it’s unwise to lower your defenses” (CRAC).

Como vocês devem imaginar, o problema foi resolvido.

Mas não por mim.

Quem resolveu tudo foi a prefeitura, que recebeu tantas reclamações da Esposa que acabou limpando o rio aqui ao lado. Quando fiquei sabendo disso, senti um gosto amargo na boca, resmunguei algo como “malditos diplomatas. Eu estou aqui encharcado de sangue e eles resolvem tudo com um telefonema” e fui trabalhar.

Mas confesso que foi melhor assim. Porque talvez eu iria eliminar todos os pernilongos da casa, mas com certeza eu iria acabar com meu casamento. Teve um dia que a Esposa me chamou, pediu para eu sentar no sofá, falando que queria conversar comigo.

“Você não acha que está exagerando com essa raquete?”

Eu olhei para ela. Peguei uma esponja molhada e apertei na testa. Enquanto a água descia pelo meu rosto, eu comecei a murmurar:

“Eu vi horrores... Horrores que você viu. Mas você não tem o direito de me chamar de assassino. Você tem o direito de matar. Você tem o direito de fazer isso. Mas você não tem o direito de me julgar.”

“Do que você está falando?”

“É impossível descrever em palavras o que é necessário para aqueles que não sabem o que o horror significa. O horror... O horror tem um rosto... E você deve fazer do horror seu amigo.”

“Você está molhando a sala inteira com essa esponja!”

“O horror... E o terror moral... São seus amigos. Caso contrário, eles são inimigos a serem temidos. São inimigos verdadeiros.”

“Ou você para com essa merda ou você vai fazer seu próprio almoço hoje”.

“Ok, já parei”, respondi, guardando a esponja na mesma hora.

De lá para cá eu sosseguei. Mas vou confessar algo aqui:, toda noite, me sento no sofá depois que todos foram dormir e examino minha raquete. Checo se ela está limpa, se está carregada. E faço minha última oração do dia:

“Esta é a minha raquete. Existem muitas outras como ela, mas essa é a minha. Minha raquete é minha melhor amiga. Ela é minha vida. Eu devo controlar a raquete da mesma forma que devo controlar minha vida. Sem mim, minha raquete é inútil. Sem minha raquete, eu sou inútil. Eu devo usar minha raquete honestamente. Eu devo ter uma pontaria melhor que o pernilongo que está tentando me matar. Eu devo atacar antes que ele me ataque. Perante Deus, eu juro: minha raquete e eu somos defensores do meu país; nós vamos controlar nossos inimigos; nós somos os salvadores da minha vida. E que seja assim, até que não haja mais inimigos, apenas paz. Amém.”

E vou dormir. Ou, pelo menos, tentar. Porque eu tenho certeza que os mosquitos vão voltar.

É só uma questão de tempo. Eles vão voltar.

10 de setembro de 2017

A Vida, o Universo e Tudo Mais

"Você sabe que está ficando velho quando as velas custam mais que o bolo."
(Bob Hope)

Algumas pessoas têm medo de envelhecer. Eu? Confesso que eu venho achando divertido. Especialmente nos dias em que consigo voltar cedo para casa.




23 de agosto de 2017

O Menino que Ainda Não Conheço e Outras Histórias de Amor

Foi de repente.

Minhas roupas estavam molhadas quando o sonho se transformou em notícia. Era uma sexta-feira à noite de abril e tínhamos acabado de entrar em casa. Havíamos saído para comer um sanduíche e, na volta, atravessamos uma tempestade daquelas que você fica encharcado só de correr até o carro.

Não foi a primeira tempestade que cruzou nosso caminho. Mas essa se tornou inesquecível porque ainda estava caindo quando ouvi a primeira vez sobre o Menino que Ainda Não Conheço. A Esposa foi até onde eu estava e mostrou o teste. Foi assim, de repente. Eu a beijei e a abracei e comecei a andar pela sala com as roupas pingando, tentando entender a ideia de que eu vou ser pai.

Foi de repente que tudo mudou.

Eu não me recordo do que pensei no momento. Mas quanto mais eu penso sobre isso, mais eu percebo que tudo o que vivi antes da tempestade dessa sexta-feira não pertence mais a mim. Eu já fui muitas coisas. Mas hoje entendo que tudo o que sou existe apenas em função do Menino que Ainda não Conheço.

Os filmes que vi de madrugada. Os gols que fiz no estacionamento do supermercado. Os livros pelos quais me apaixonei. As paixões que me fizeram sonhar. As gargalhadas que saíram alto demais. As músicas que decorei a letra. As brigas comigo mesmo e com os outros. As lágrimas que teimaram em escapar. As piadas entre goles de cervejas.

Quanto mais penso, mais percebo que nada disso é só meu. Quando mais entendo, mais fica claro que eu mesmo não sou mais só meu. Tudo o que eu sou, tudo o que eu fui e tudo o que possa ser um dia, agora, pertencem ao Menino que Ainda não Conheço.

Foi de repente que tudo mudou para sempre.

Hoje, acordo todos os dias e pego meu café. Ainda com a caneca na mão, enxergo um sentido novo no meu dia. Afinal, nada mais lógico – e mágico – que a mulher que me mostrou como fazer as pazes com a vida carregue uma vida dentro de si. E descubro um sentido novo em mim, ao me olhar no espelho e pensar sobre o tamanho que a “eu vou ser pai” pode ter.

Hoje eu vou dormir, todas as noites, pensando no Menino que Ainda Não Conheço. Brinco de adivinhar qual sua primeira palavra ou para qual lado ele dará seus primeiros passos. E, com ele não apenas ao meu lado, mas sim ao meu redor, fecho os olhos e peço para ser pelo menos metade do pai que meu pai foi para mim.

Porque tudo o que eu quero é olhar um dia para o Menino que não Conheço e saber que ele se tornou melhor que eu. Tudo o que eu quero é olhar um dia para o Menino que Ainda não Conheço e ter a certeza de que ele se tornou um Menino Feliz. E fazer isso é o meu papel. Porque desde aquela sexta-feira chuvosa, eu estou escrevendo o texto mais bonito da minha vida. Eu estou escrevendo sobre o Menino que Ainda não Conheço.

E, de repente, cada dia é uma história de amor. Para sempre.

Isso é apenas um teaser. A estreia é em dezembro.