24 de junho de 2016

Coisas da Vida XVIII

A campainha toca.

– Pois não?

– Boa tarde, meu amigo!

– Boa tarde, pois não?

– Eu estou aqui com meu pai no banco traseiro do carro e estou vendendo mel.

– Certo.

– Está interessado?

– Desculpe, eu não entendi.

– Está interessado em comprar mel? É do interior!

– Mas eu não entendi o que você falou sobre seu pai.

– Eu disse que ele está aqui no banco de trás do carro.

– Mas o que isso tem a ver com o mel?

– O mel é do interior!

– Tudo bem, mas é que me parecem ser dois assuntos diferent...

– Olha, e tá fresquinho! Foi colhido hoje!

– Sim, sim. Você está falando do mel?

– Isso.

– É porque você falou um negócio sobre seu pai que eu não entendi.

– É ele está aqui comigo. Está lá no banco de trás do carro.

– Certo, mas o que eu tenho a ver com i...

– Quer falar com ele?

– Oi?

– Quer falar com ele?

– Não... Não. Acho que eu só quero entrar.

– Não vai comprar mel hoje?

– Não. Outro dia eu compro.

– Beleza! Quando eu passar aqui com meu pai na traseira do carro eu toco na sua casa.

– Eu desisto. Tchau.

– Tchau, patrão!

(Para ver o post anterior dessa série, clique aqui.)

21 de junho de 2016

Fanfic Real

Eu estava voltando para casa mas parei no mercado. Comprei um suco para beber e deveria ter saído do mercado apenas com a sacola e minha bolsa. Mas como estou mudando de casa, aproveitei e pedi uma caixas de papelão no mercado, porque eles sempre têm umas sobrando ali. Me deram quatro caixas, que era o que eu conseguia carregar, e fui para casa.

O problema é que como sou pequena e estava levando as caixas empilhadas na frente do corpo, a pilha começou a se desequilibrar assim que eu estava atravessando a rua. Para piorar, a alça da minha bolsa começou a escorregar pelo ombro. Se eu não fizesse algo, tudo iria cair: caixas e bolsa. Assim, atravessei a rua andando apressada – ou o mais rápido que pude, porque como está frio estou com roupas grossas e se eu andasse muito rápido as caixas cairiam.

Chegando ao outro lado da rua, vi um portão de um escritório que já estava fechado e resolvi aproveitá-lo para resolver minha situação. Sem largar as caixas, apoiei a pilha no portão, pressionando-a com meu corpo e tentei livrar uma das mãos para arrumar a bolsa no ombro. Estava quase conseguindo quando ele apareceu.

Devia estar me espreitando, pois ele sabia exatamente o que eu estava passando e qual o melhor momento de agir. Era baixo, devia ter uns quarenta anos e seu rosto estava parcialmente escondido por um gorro. Ele se aproximou de mim e perguntou:

– Quer ajuda?

Eu disse que sim, porque minha caixas iam cair. Então, ele tomou as caixas da minha mão e ficou segurando a pilha para que eu pudesse ajeitar minha bolsa no ombro. Quando finalmente consegui fazer isso, ele me entregou as caixas e eu peguei a pilha novamente.

Mas ele não parecia disposto a desistir. Assim, ele pegou novamente a pilha de caixas e a virou, para que o lado mais largo das caixas ficasse apoiado no meu corpo.

– Assim, o peso fica mais distribuído e fica mais difícil delas caírem.

Dei uma leve balançada na pilha de caixas e vi que ele tinha razão. Elas estavam mais firmes e para uma pessoa que estava com uma jaqueta grossa como a minha, sem poder me mexer muito, isso faria diferença.

– Você tem razão.

– Agora é só ir com cuidado que nada vai cair. E cuidado, o chão está molhado.

– Obrigada, moço. Estava caindo tudo aqui.

– Imagina. Eu vi que você estava quase derrubando as caixas. Posso te ajudar em algo mais?

– Não, obrigada. Agora as caixas estão firmes.

– Bem, boa sorte.

Ele sorriu e foi embora. Devia morar ali perto, pois estava com uma chave na mão. Foi quando eu percebi que algo estava errado. Olhei ao redor tentando entender o que estava me incomodando...

E percebi que não havia criança nenhuma ao nosso redor.

Não havia uma menina de quatro anos falando sobre quebrar paradigmas, nem um garoto usando a pilha de caixas como exemplo do trabalho escravo na indústria de papelão, muito menos uma criança de dois anos usando uma camiseta com a inscrição “existe amor em São Paulo” dizendo a todos que “as pessoas ao nosso redor aplaudiram, eu estava lá e foi lindo”.

Talvez porque nós estivéssemos na rua e não no metrô, que parece ser o habitat natural dessas criaturas. Ou talvez porque essas crianças não existam em histórias baseadas em fatos reais.

Ainda bem que o sujeito que me ajudou com as caixas têm um blog com histórias que não precisam dessas crianças.

14 de junho de 2016

As Duas Mortes da Casa ao Lado

Eu já falei aqui sobre meus vizinhos. Para refrescar a memória, você pode ler aqui quando eu os apresentei; aqui quando meu vizinho morreu; e aqui sobre como eles não me deixam dormir. Talvez eles tenham aparecido em mais textos, mas esses são os que importam de verdade.

Entretanto, faz mais ou menos um mês – talvez um pouco menos – que o barulho da casa ao lado diminuiu. Nós já tínhamos reparado que a japonesa mais velha que o Japão não estava aí. Provavelmente havia sido internada mais uma vez (isso vinha acontecendo com frequência). Não ouvíamos mais ela ter crises de falta de ar de madrugada, nem ela brigando com todos ao redor, muito menos brincando com os gatos.

Ontem, porém, eu estava fumando na garagem quando vi uma das moradoras da casa ao lado – caso você teve preguiça de clicar nos links acima, são duas famílias que moram ali: uma na frente e outra (a dela) nos fundos – saindo pelo portão. Eu dei bom dia, ela deu bom dia e se aproximou.

– Você ficou sabendo da senhora que morava aqui?

Bem, eu não estava sabendo, mas, provavelmente assim como vocês, fiquei sabendo só com a forma que a pergunta foi feita. Mas resolvi dançar conforme a música e disse que não.

– Ela faleceu. Faz um mês.

Eu sempre achei engraçado como as pessoas usam as palavras “morrer” e “falecer”. Quando é alguém que não conhecemos pessoalmente, seja uma estatística no jornal ou uma celebridade, usamos morrer. Mas as pessoas próximas de nós nunca morrem. Elas falecem. Claro que o tempo o falecimento vira apenas uma lembrança e passa a ser chamado de morte, mas, quando se trata de dar a notícia, a pessoa sempre faleceu.

E a velhinha da casa ao lado tinha falecido.

Pelo que descobri, ela levantou no meio da madrugada e foi até o banheiro. Fez tudo o que tinha que fazer e começou a passar mal. Assim, voltou para a cama, deitou e morreu – ou faleceu, como queiram. Quando foram ver, minutos depois, ela já estava morta. Quando o Samu chegou, não havia mais o que fazer a não ser levá-la embora.

Também descobri que ela iria fazer 97 anos no dia 13 de agosto. Dificilmente vou esquecer isso, porque era o aniversário da minha avó. Mas, assim que fiquei sabendo disso, me lembrei do aniversário dela no ano passado. Todos cantaram parabéns para ela (eu estava no quintal do fundo e ouvi tudo) e não consegui segurar o sorriso quando, ao final da música, ela agradeceu um por um dos convidados com um sonoro arigatô.

Foi o último aniversário dela. Talvez o último agradecimento.

Foi a primeira morte do dia.

É engraçado. Quando me mudei para cá, eles eram uma família. Mas o filho morreu – acho que ela nunca ficou sabendo disso, ou às vezes apenas se esquecia disso – e agora foi a vez dela. Não há mais família, pois não há mais ninguém.

Mas eu não estava pensando sobre isso, pois a mulher da casa não havia terminado de falar. Ela havia dado a notícia, e agora queria desabafar. Quer dizer, ela não queria desabafar, estava mais para “precisava”.

Começou a dizer que não sabia o que iria acontecer com ela. Contou que mora aqui há quatro anos e que cuidava da velhinha japonesa por amor. Muitas vezes, perguntaram a ela quanto ela queria por isso, e ela sempre respondeu que “nada, porque eu faço por amor”. E, pelo que eu ouvia aqui, era verdade: ela era quem mais cuidava da velhinha.

Mas agora tudo estava começando a mudar. Os parentes da velhinha já devem estar de olho na casa. Já pediram a garagem – o filho dela guarda a moto lá dentro – de volta, como numa espécie de ensaio para o pedido da casa. Confessou que não sabe o que vai acontecer daqui em diante, porque provavelmente em pouco tempo terá que ir embora daí e procurar outro lugar para morar.

Mas seus olhos se encheram de lágrimas e sua boca começou a tremer quando disse que o problema não era ter que sair daí, e sim a mudança que a morte trouxe. Até dois meses atrás, ela era quase da família; hoje, ela se tornou uma estranha. Provavelmente, é vista como um obstáculo para a posse da casa. O problema não é procurar outra casa, mas sim um reconhecimento (e um agradecimento) que foram enterrados junto com a velhinha japonesa.

Foi a segunda morte do dia. Essa, talvez, um pouco mais cruel, pois é uma daquelas mortes que acontece em vida. Já aconteceram comigo, e provavelmente com você. E essas nunca são falecimentos, são mortes mesmo.

Eu tentei confortá-la. Disse que as coisas são assim mesmo – o que provavelmente ela deve saber mais que eu, mesmo que apenas por motivos cronológicos – e que se esse reconhecimento foi arrancado dela, é porque o problema está nas outras pessoas, e não nela.

Ela sorriu daquele jeito estranho de quem sorri com lágrimas nos olhos, que é o que eu chamo de “sorriso Sol e chuva” e me agradeceu por um conforto que foi o maior que eu pude entregar e que, provavelmente, não chegar perto do que ela precisa.

Eu quis falar para ela que a velhinha japonesa, esteja onde estiver, é grata a ela. Mas não tive coragem. Parecia... Não piegas demais, mas... Não sei. Íntimo demais. Não sei. Sei apenas que o pensamento ficou comigo. Mas ela parece ter gostado das poucas frases que eu dei, porque o Sol ficou um pouco maior que a chuva. E assim ela se despediu para fazer o que quer que fosse fazer na rua.

Eu fiquei observando ela se afastar pela calçada. Acho que o agradecimento da velhinha japonesa não será suficiente nesse momento. Mas, sim, acho que ele existe. E espero que, quando minha vizinha coloca a cabeça no travesseiro, ela ouça esse agradecimento.

Arigatô.

5 de junho de 2016

BLOSCH

Eram quatro horas da manhã e eu dormia o sono dos justos.

Na verdade, eu precisava ter trabalhado durante boa parte da madrugada, mas depois de seis horas de reunião – caso nunca alguém contou para você, uma das desvantagens de trabalhar em casa é que não existe sábado, domingo ou feriados – eu voltei para casa querendo apenas dormir.

O plano era perfeito. Eu ia dormir cedo, acordar cedo e começar a trabalhar. Não tinha como dar errado.

A não ser pelo fato de que eram quatro horas da manhã e eu dormia o sono dos justos e acordei com sede. Assim, levantei para beber água. Fazia um frio desgraçado e eu estava com meu pijama de inverno (a saber: um par de meias, uma calça de moletom mais antiga que muitos leitores deste blog e uma camiseta qualquer).

Enquanto eu andava na direção da cozinha, escutei que caía uma tempestade bíblica do lado de fora. E provavelmente eu sorri, porque poucas coisas me fazem sorrir tanto quanto acordar de madrugada, descobrir que está chovendo e lembrar que não preciso sair de casa pela manhã.

E, ainda sorrindo, eu entrei na cozinha pensando em tudo o que eu deveria fazer no dia seguinte. Iria acordar e finalizar o roteiro X, depois responderia e-mails e partiria para o roteiro Y, esperando as respostas que preciso para os textos A, B e C chegarem, e então eu...

BLOSCH.

Como assim, “blosch”?

Será que eu estava sendo seguido pelo Monstro da Lagoa Negra? Eu estava no meio da cozinha, a alguns metros da pia e senti minha meia encharcar. Mas, antes que meu cérebro processasse isso, dei um novo passo.

E ouvi um novo BLOSCH e minha outra meia encharcou.

Eu estava pisando em água. Não. Era pior. Eu estava pisando em água usando apenas meias. Algo estava acontecendo na cozinha. Assim, apressei o passo em direção ao interruptor que fica ao lado da pia.

BLOSCH. BLOSCH. BLOSCH. BLOSCH.

A cozinha estava inundada. Não “inundada nível Jornal Nacional”, com móveis boiando e o Gato Ridículo navegando em cima de uma tábua, mas inundada o suficiente para encharcar minhas meias. Metade da cozinha eram poças de água. A outra metade, eu acho que ainda estava seca, mas nem olhei, porque, na minha cabeça, o pior havia acontecido.

Vou explicar para vocês: minha casa tem um corredor lateral que é um dos maiores mistérios da natureza. É uma extensão do quintal que se liga ao hall de entrada e que possui uns quarenta centímetros de largura. Sabe aqueles filmes de ação que o herói precisa escapar de uma sala onde as paredes estão encolhendo? Todos eles são filmados aqui nesse corredor.

E no final desse corredor tem um ralo, que é por onde toda a água do quintal escoa. Mas com plantas e três cachorros, não é difícil esse ralo perder sua vazão em tempestades. São folhas e pelos e pelos e folhas e pequenos galhos que se acumulam ali e a água começa a acumular.

É aí que a magia acontece, pois isso faz com que a água comece a acumular no quintal, mas, também, no hall de entrada (ela começa a entrar por baixo da porta). Uma vez isso aconteceu. Estávamos na rua e, ao voltar para casa, abri a porta e...

BLOSCH.

Então, de volta às quatro da manhã. Morrendo de medo, atravessei a cozinha correndo em direção ao hall para ver se ele estava inundado.

BLOSCH. BLOSCH. BLOSCH. BLOSCH. BLOSCH. TUM. TUM. TUM. TUM.

A boa notícia: o hall estava seco e o ralo trabalhando normalmente. A má notícia? A cozinha continuava cheia de água e eu não fazia ideia do que estava acontecendo. Voltei para a cozinha em busca de pistas e, ao olhar para cima, descobri o que estava acontecendo.

TUM. TUM. TUM. TUM. BLOSCH. BLOSCH. BLOSCH. BLOSCH. BLOSCH.

Imagine que um dia um fã de Sergio Reis decida entrar para o Livro dos Recordes e realizar o maior tributo da história à música sertaneja, reunindo milhares de pessoas para cantar que “nessa casa tem goteira, pinga ni mim” ao mesmo tempo, e num local temático, repleto de goteiras de verdade para dar aquele charme e fazer todo mundo entrar no clima.

Aparentemente, era isso que estava acontecendo no forro da cozinha. Na minha casa tinham dezenas de goteiras e todas elas pingavam ni mim, encharcando minhas meias.

Isso já havia acontecido antes. Uma enorme infiltração surgiu no forro da cozinha e nós, desconfiando que a calha que fica bem em cima do local estivesse entupida, chamamos o cara da Porto Seguro. Ele chegou em casa, subiu no telhado, agachou-se, tirou uma bolinha de plástico que o filho do vizinho jogou ali sem querer e resolveu o problema. Deve ter sido o trabalho mais fácil da vida dele.

E devia ser aquilo de novo.

Então, eu tinha três alternativas. A primeira envolvia sair na chuva, pegar a escada, subir no telhado, tirar a bolinha do vizinho, secar a cozinha e voltar para a cama. Mas eu não faria isso de madrugada e na chuva.

A segunda, na verdade, era uma versão da primeira, mas com final alternativo. Eu devia sair na chuva, pegar a escada, subir no telhado, tirar a bolinha do vizinho, secar a cozinha, colocar uma roupa, pular na casa do vizinho, invadir o quarto do menino, enfiar a bola na boca dele e ficar repetindo que “você inundou a cozinha errada” até ter certeza que ele havia se asfixiado, pular de volta para minha casa e voltar para a cama. Não, eu também não faria isso de madrugada e na chuva.

Sobrava apenas a terceira alternativa. Enxugar o chão e encher a cozinha de baldes.

Assim, eram quatro e meia da manhã e eu experimentei o momento mais solitário da minha vida.

A cidade estava em silêncio, embalada pela chuva fria. Milhões de pessoas dormiam, sonhando com mundos fantásticos onde eram heróis e amantes, guerreiros e poetas. Outras deviam estar fazendo sexo enlouquecidamente para espantar a solidão da vida urbana. Bebês aninhavam-se nos cobertores, adolescentes se apaixonavam na internet, casais faziam as pazes... São Paulo estava em paz.

E eu estava ali no meio da cozinha, com as meias completamente encharcadas e esfregando panos no chão feito uma alma condenada a não dormir nunca mais.

Quinze minutos e alguns bloschs depois, o trabalho estava terminado. Fui até o quintal e peguei todos os baldes possíveis e fiz uma nova decoração na minha casa, transformando minha cozinha numa espécie de monumento à casa do Feios, Sujos e Malvados.

Voltei para o quarto, tirei as meias, enxuguei os pés e deitei.

E adormeci ouvindo a sinfonia feita pelas gotas caindo nos baldes da cozinha. E finalmente sonhei. Um sonho estranho, onde eu deixava de ser uma pessoa e me tornava um personagem de Graciliano Ramos e ria sozinho, no meio da aridez, ao descobrir que eu havia me tornado um personagem de Vidas Secas. Minhas meias estavam cheias de areia, mas estavam secas, que era o importante.

E acordei com duas certezas: a primeira é quando você deseja se tornar um personagem de Vidas Secas, é porque sua vida chegou ao fundo do poço. E a segunda é que o pior não é chegar ao fundo do poço, e sim descobrir que o fundo do poço tem água o suficiente para encharcar suas meias.

24 de maio de 2016

A Religiosa, O Poeta, O Gênio do Crime e o Rob Gordon

Nós temos três cachorros aqui em casa – além do Besta-Fera, que está muito bem, obrigado, na casa dos meus pais. Todos eles eram da Esposa e, como acontece com qualquer bicho, cada um tem uma personalidade diferente.

E essa história começa com uma das fêmeas, que é certamente uma das criaturas mais retardadas que já caminhou pelo planeta. E veja bem, não sou eu quem fala isso, pois quando ela era filhote um veterinário disse que ela tinha mesmo alguns problemas de desenvolvimento. Talvez fique mais claro se eu der um exemplo.

Às vezes, os cachorros começam a latir embaixo da janela do meu quarto. Então, ao invés de ir até o quintal, eu dou a bronca da janela mesmo. Eles não podem ver dentro do quarto por causa da tela – caso você seja novo, nós também temos três gatos – mas isso não faz diferença. Eles conhecem minha voz, eles sabem que sou eu que estou ali na janela, e já perceberam que se não calarem a boca eu vou até o quintal dar um esporro em todo mundo.

Quer dizer, pelo menos dois deles. A cadela que estamos falando não consegue pensar além da tela. O cérebro dela funciona assim: se tudo o que eu vejo é uma tela, não existe nada ali. Então o dono dessa voz deve estar em outro lugar. Talvez dentro da minha cabeça? Não, os outros cachorros também estão ouvindo. Eles estão olhando para a tela por algum motivo, mas estão ouvindo. De onde vem essa voz? Será que é do céu? Será que é Deus?

Sim, eu falo com ela pela tela e ela fica olhando para o alto. Não sei se ela está me procurando ou pensando em se ajoelhar e começar a gritar que “Senhor! Eu não sou digna!”.

E caso você esteja se perguntando... Sim, às vezes eu me aproveito da situação e assumo o papel de Deus. Começo a falar coisas como “Fui eu quem tirou você da terra do Egito” ou “Você vai construir uma arca e reunir um casal de cada espécie”, ou, quando estou me sentindo um deus mais autoritário, mando logo um “Você vai receber duas tábuas com os meus mandamentos, que deverão ser obedecidos por todos os animais dessa casa”. E ela ali, olhando para o alto com a fé queimando em seus olhos.

(Toda vez que a Esposa me vê fazendo isso ela pergunta se eu sou imbecil. Minha resposta é sempre apontar o dedo na direção dela para fulminá-la com meus raios, mas como nunca saiu raio nenhum, às vezes acho que ela tem razão).

Bem, vamos voltar à cadela. Aqui em casa, no quintal do fundo, existe uma laje que é um pedaço morto da casa. É um espaço enorme que fica em cima do covil do meu enteado e que é usado somente para estender roupas – eu às vezes subo ali para fumar um cigarro e pensar na vida.

E nós não deixamos os cachorros subirem ali porque um dos lados (justamente o que fica virado para o nosso quintal) é aberto, sem grade ou cerca nenhuma. Tínhamos uma tela na escada caracol que leva até lá e tudo funcionou muito bem... Até que a cadela do povo de Deus olhou um dia para a escada e pensou “será que esse caminho que leva para o alto me aproximará do Criador? Será que aqui começa minha jornada para o Paraíso?” e destruiu a tela que a mantinha afastada do seu Monte Sinai.

Então ela decidiu que aquela escada não leva para a laje onde as roupas são estendidas. Não, aquela estranha construção curva no canto do quintal é uma stairway to heaven, e sua missão é caminhar por aquele divino.

Assim, agora ela sobe naquilo sempre que pode – ou melhor, sempre que lembra que a escada existe. Só que ao invés de encontrar o criador, ela encontra o cachorro do vizinho e começa a latir. E o cachorro do vizinho late de volta. E aí ela precisa mostrar que a fé dela é a certa, só que ao invés de iniciar uma cruzada nas redes sociais atacando os membros da outra religião (ou de juntar um exército e montar uma cruzada, invadindo a casa do vizinho aos gritos de “Morte ao infiel!”), ela decide latir mais alto.

Ela faz isso o dia inteiro (e preste atenção nessa frase porque ela será importante no texto). Então a única alternativa é ir até o quintal e mandá-la descer – o que ela sempre faz de duas maneiras: ou fazendo festa porque você disse o nome dela, ou olhando você intrigada com uma cara de “desculpe, eu realmente me lembro do seu rosto, mas não do seu nome... De onde nós nos conhecemos mesmo?”.

Então, eu e a Esposa fazemos um rodízio aqui. Ela começa a latir lá em cima da laje, eu vou até lá manda-la descer. Uma hora depois, ela volta para a grade e começa a latir para o cachorro mouro do vizinho e a Esposa vai até lá...

E aí começa o inferno. Porque como eu disse, temos três cachorros e um deles – o macho – não pode ver a Esposa que explode de amor e começa a correr pelo quintal e latir sonetos. Só que, veja bem, não estamos falando de um yorkshire e sim de um cachorro que é uma mistura de qualquer coisa com dogue alemão. Ou seja, cada latido dele equivale, em decibéis, a um show do Manowar.

Então ficamos assim: uma latindo lá em cima para o infiel. O outro latindo aqui embaixo para a Esposa. O terceiro cachorro – outra cadela – percebe que porque todo mundo está latindo então ela não pode ficar para trás e começa a latir para, sei lá, o oxigênio. Às vezes, quando tudo isso acontece, minha vizinha Lilha Three Times começa a gritar que está fazendo cocô.
E lembram que eu disse que isso acontece o dia inteiro?

Bom, o dia inteiro é um espaço de tempo que inclui a unidade “sete horas da manhã”. E isso acontece especialmente nos dias que fiquei trabalhando até quatro horas da manhã. Depois de três horas de sono, começa a guerra religiosa dos cães. Aí eu vou lá fora, bêbado, com a calça caindo, batendo nos móveis e mando parar com essa merda.

Silêncio. Volto para a cama e, sete e meia da manhã, nova jihad. E dessa vez quem vai é a Esposa... E aí o cachorro explode de amor ao vê-la e resolve recitar um poema com o tamanho dos Lusíadas que ele passou a noite compondo.

E eu ali, com três ou quatro horas de sono na cabeça, implorando na cama por uma morte rápida e indolor. Mas aí já é tarde. Aí eu já acordei e tudo o que me resta é levantar, pensando se algum dia eu vou conseguir dormir direito na vida.

Só que a última vez que isso aconteceu, eu reparei algo estranho na porta do quarto. A Esposa estava lá fora desaparecendo no meio dos latidos, e eu levantei... E vi algo me olhando da porta do quarto.

Era apenas um olho, bem próximo ao chão. Olhava diretamente para mim, estudando meus movimentos e com um brilho... Não sei, era diferente de tudo o que eu havia visto antes. Era a maldade encarnada. Mas, quando eu fixei meu olhar nesse misterioso olho, ele desapareceu e eu vi uma sombra pulando pelo corredor em direção à sala.

Gato Ridículo.

Era ele me observando. Conforme ele pulava na direção da sala, eu pude ouvir sua risada (tenho quase certeza que também ouvi um grito de “vitória!”, mas pode ter sido impressão minha, por causa do sono).

Tudo havia sido um plano dele para me acordar. De alguma forma ele convenceu a cadela a subir na laje e latir para o vizinho para que a Esposa fosse até o quintal e o cachorro-Camões começasse a recitar seu amor aos berros. Talvez até mesmo o cachorro do vizinho estivesse trabalhando para ele. Com todas essas peças cuidadosamente encaixadas, eu não consigo dormir. Sou obrigado a admitir: o plano é de uma genialidade invejável.

Passei o dia morrendo de sono e percebendo que o Gato às vezes olhava para mim e dava risadinhas escondido. Mas só horas depois eu descobri como ele fez isso.

Fui beber água e ele estava em pé na pia da cozinha, olhando fixamente para os cachorros. Mas assim, fixamente mesmo. Eu o chamei e ele nem olhou para mim. Foi quando eu entendi o que ele estava fazendo. Ele estava numa espécie de transe. Era um misto de telepatia e hipnose, que faz com que ele mantenha os cães sobre seu poder, usando-os para impedir que eu durma direito.

Lembram quando eu brincava com a cadela na janela do quarto dizendo que eu era Deus? Aparentemente, os cachorros descobriram que existe uma divindade mais poderosa e mudaram de fé. Eu fui abandonado pelos meus seguidores.


Agora eu sei como os deuses gregos se sentem. Mas, por outro lado, tenho certeza que o Monte Olimpo é muito mais sossegado que minha casa. Tenho certeza que, diferente de mim, pelo menos eles conseguem dormir.