20 de março de 2012

A Constante do Universo


- E aí, cara, beleza?

- Fala doutor.

- Faz o de sempre pra mim?

- Um chocolate batido gelado grande?

- Isso aí.

Certas coisas nunca mudam. Não importa onde eu more, bastam poucos dias para o balconista da padaria saber o que eu gosto.

- Tá na mão.

- Já tira aquele expresso pra mim também.

- Forte e sem açúcar?

- Forte e sem açúcar.

Certas coisas nunca mudam. Não importa qual seja a padaria, eu tenho o dom de fazer o sujeito aprender como eu gosto do café em pouquíssimo tempo.

- Olha o expresso.

- Valeu.

- Algo mais?

- Você tem carolinas?

- Não. Carolina acabou.

Certas coisas nunca mudam. Não importa qual bairro de São Paulo eu more, eu não consigo comer carolinas.

- Acabou?

- Acabou.

- E demora para sair mais?

- Hoje não sai mais.

Certas coisas nunca mudam.

12 de março de 2012

Ch-ch-ch-ch-Changes


Às vezes, parece que faz apenas alguns dias que eu fui morar sozinho.

Eu havia me inscrito numa pós-graduação, mas o dinheiro acabou sendo devolvido quando o curso não atingiu o número suficiente de alunos. Juntei esta grana com o pagamento que eu havia recebido por um trampo gigantesco que havia realizado meses antes e decidi que era hora de crescer.

Abandonei o bairro que cresci e me mudei para perto do trabalho. Assim, ganhei definitivamente as ruas de Pinheiros, que passaram a se tornar meu novo território. Era um apartamento modesto, com quarto e sala, mas me recordo de ter me apaixonado por ele – especialmente pela sua varanda – no momento em que coloquei os pés lá dentro com uma corretora.

Poucas semanas depois, eu havia reunido toda a papelada e recebi as chaves. A mudança, claro, foi um caos – como toda mudança deve ser. Móveis novos montados pela manhã, minhas coisas pessoais sendo descarregadas à tarde. Tudo com a ajuda da minha mãe que teve a honra de dividir comigo a primeira refeição que tive no meu novo endereço: comida chinesa, que comemos acomodados ali mesmo no chão da sala.

Estávamos no começo de março de 2006. Faz exatamente seis anos, mas, na minha cabeça, parece ter acontecido somente poucos dias atrás.

Mas mesmo com esta sensação – culpa de outra sensação, aquela de que o tempo passa cada vez mais rápido – eu me recordo de muita coisa que vivi ali dentro. A primeira delas é o orgulho que senti ao poder convidar meus pais para almoçar na minha casa; e o mesmo ao receber cada amigo que colocou os pés lá dentro – seja em busca de um bom papo, seja em busca de um lugar para dormir.

Mais que receber amigos, dentro daquele pequeno apartamento aprendi a me virar sozinho. Contas, refeições, limpeza... Organização nunca foi meu forte, mas consegui atravessar seis anos morando numa casa limpa e com todas as contas pagas.

Também descobri muito sobre mim ao longo deste tempo. Em alguns momentos, descobri o prazer de ficar sozinho por horas; em outros, percebi que esta é uma das coisas mais difíceis que um homem pode fazer. Lá aprendi que possuía qualidades que nem imaginava ter e, ao mesmo tempo, descobri algumas das minhas limitações.

Lá dentro pulei de pura felicidade ou chorei de tristeza; comemorei vitórias ou amarguei derrotas. Entre aquelas paredes eu sonhei e brinquei, ganhei e perdi, caí e levantei, gargalhei alto e chorei baixinho. Acertei e errei. Amor, tristeza, paixão, raiva, alegria: não há nenhum sentimento que eu não tenha experimentado em algum momento destes seis anos.

Um bom pedaço da minha história está naquele lugar. Pois, à primeira vista, aquele imóvel poderia ser somente um apartamento como outro qualquer, num prédio qualquer, no meio de São Paulo.

Mas, para mim, era um lar.

Para vocês, leitores, também poderia ser apenas um apartamento como outro qualquer. Mas eu nunca deixei isso acontecer.

Muitos de vocês moraram naquele prédio comigo, seja correndo de medo da Síndica Mafiosa; seja discutindo com o Jonas, o fantasma que assombrava o imóvel; ou se apavorando com os rosnados do Bebê das Trevas do prédio ao lado. E, claro, devem se lembrar de quando eu quase me matei com uma lasanha da Sadia, ou daquela vez em que minha vizinha resolveu se suicidar num domingo à noite.

Histórias é o que não faltaram ali.

Pois eu escrevi muito não apenas dentro deste apartamento – boa parte dos posts deste blog foi escrita, ou ao menos idealizada, lá dentro – mas sobre ele. Afinal, quando você escreve sobre sua aldeia, você escreve sobre o mundo.

E durante seis anos, aquele apartamento (bem como o bairro de Pinheiros) foi o meu mundo. Entre um texto e outro, vocês andaram a esmo pela Teodoro Sampaio, brigaram por carolinas na padaria ali ao lado, exploraram a Fnac ou encontraram as pessoas mais estranhas do planeta nos corredores do Pão de Açúcar.

E muitos de vocês estavam lá quando eu dancei pela sala com o Besta-Fera, às vezes celebrando uma vitória ou simplesmente o fato de eu estar vivo e ser eu mesmo; e muitos de vocês estavam ali quando eu me sentei no chão exausto, pedindo que ele apenas ficasse quietinho ao meu lado porque eu não queria ficar sozinho.

Afinal, se eu estava lá, vocês também estavam.

Pois ali era o meu mundo.

E ele permaneceu como meu mundo até alguns dias atrás, quando eu apaguei a luz da sala – vazia, como na primeira vez que coloquei os pés lá dentro – e olhei ao redor. Em uma fração de segundos, me recordei de muita coisa que vivi ali dentro. Seis anos que pareceram dias. Seis anos que valeram por uma vida. Dei um pequeno sorriso e tranquei a porta.

Desta vez, para sempre.

(Ex) Home sweet home.
 E, com este mesmo sorriso, inicio uma nova fase. Mais que um novo endereço: uma nova vida. Seis anos atrás era hora de crescer; agora é hora de crescer novamente. E, desta vez, crescer ainda mais.

Esta nova vida, aos poucos, será descortinada aqui no blog. Prometo.

Mas, nesta nova fase, vocês estarão comigo, como sempre estiveram. Afinal, como já compararam mais de uma vez, este blog é uma espécie de Show de Truman, com as pessoas “assistindo” a minha vida – a diferença é que o Truman não se ferrava o tempo inteiro, como eu, mas isso é apenas um detalhe.

Pois hoje, com anos e anos de blogs nas costas, acho que existem dois bairros de Pinheiros: um que fica na Zona Oeste de São Paulo, e outro que existe aqui dentro deste blog. E posso garantir, com toda a certeza do mundo, que muito deste “nosso” Pinheiros foi construído com a ajuda de vocês.

O mínimo que eu poderia fazer é convidá-los a criar um novo bairro – ou um novo mundo, por que não? – a partir de agora.

E vai ser divertido. Afinal, se existe algo certo sobre o mundo é que ele está repleto de síndicas mafiosas, padarias toscas, avenidas infernais e pessoas estranhas. Basta apenas saber olhar para eles e descobrir suas histórias.

Quer dizer, no meu caso, basta apenas esperar, pois é certo que todos eles conspiram para atrapalhar minha vida de uma forma ou de outra, mais cedo ou mais tarde. Aliás, leitores mais atentos já devem ter percebido que personagens e locais novos já deram as caras aqui em postagens recentes.

E muito mais vem por aí. Muito, muito mais.

Afinal, sejam sinceros: vocês realmente acham que as expressões “a humanidade não deu certo” e “ô fase” ficariam para trás na minha vida?


8 de março de 2012

O Post Escatológico do Champ - Parte Final


(Leia a parte I aqui)

Você já teve vontade de ir ao banheiro voltando para casa? Claro que já, todo mundo já teve isso. O fenômeno é quase matemático. Se você estiver longe de casa, a dor de barriga cresce em progressão aritmética (1, 2, 3, 4, 5...). Contudo, quando você entra num raio de um quilômetro da sua casa, os intestinos começam a funcionar em progressão geométrica (1, 2, 4, 8, 16, 32...).

Quando eu entrei no mercado, meu sistema digestivo estava no processo de transição da progressão aritmética para a geométrica. Ou seja, daria tempo. Certo, não seria tempo de sobra, mas seria suficiente. Contudo, a matemática pode ser uma ciência exata, sim, desde que ela não sofra interferência da variável mais imprevisível do universo: o fator Rob Gordon.

E ele começou a agir no momento em que coloquei os pés no mercado. A esta altura, a tempestade que se anunciava já poderia ser ouvida em estéreo. Metade dos trovões ecoava no céu, enquanto o resto vinha de dentro da minha barriga. Ciente disso, eu entrei no mercado apressado e fui direto para o corredor de bebidas. Ou melhor, não fui, pois fui parado no meio do caminho por duas mulheres – provavelmente mãe e filha.

Claro que elas estavam perdidas.

E claro que elas acharam que eu era uma espécie de oráculo, que poderia resolver todos os seus problemas, independente do tempo que isso custasse. Afinal, oráculos não têm muito que fazer da vida, mesmo.

- Ressiveranto?

Ah sim, me esqueci de dizer que oráculos falam todos os idiomas do planeta.

- Oi?

- Onde tem ressiveranto?

- Olhe, eu estou com pres...

- Coca-Cola!

- Ah! Refrigerante?

- Isso! Ressiveranto!

- É ali no fundo.

De posse desta informação, as duas começaram a discutir (“eu falei quera ali, Marli, ramo lá pegá e ir bora!”) e eu aproveitei minha deixa para escapar.

Os intestinos já estavam em contagem regressiva para iniciar o processo de progressão geométrica quando eu cheguei ao caixa, segurando a garrafa de Coca e as outras coisas que eu precisava comprar. Evidentemente, fui ao caixa mais vazio, que tinha 1) um pai e filho embalando as compras e 2) uma doce e pacífica senhora de idade começando a passar as mercadorias.

E foi aí que o mundo matemático sofreu um novo abalo graças a uma nova interferência do fator Rob Gordon, que alterou os dados da equação para transformar a doce e pacífica senhora de idade em uma velha pentelha.

Isso porque assim que entrei na fila, percebi que o homem e o menino eram gringos – americanos, quase com certeza. E a ex-doce e pacífica senhora de idade, agora transformada em velha pentelha, estava usando a presença dos dois para praticar seu inglês.

- Are you father and son?, perguntou a velha.

- Yes, respondeu o pai.

- Yes, respondeu o filho.

- Are you living here in Brazil?, perguntou a velha.

- Yes, respondeu o pai.

- Yes, respondeu o filho.

- Meu Deus do céu, eu respondi.

A velha olhou para mim com um ar de reprovação e continuou falando com a dupla. E começou a explicar aos dois que ela sabia falar inglês, que tinha aprendido tudo sozinha e por conta própria, e que achava o idioma lindo e adorava até mesmo os sotaques.

- What city are you from?

Se eles respondessem Chicago ou Boston, eu sairia correndo do mercado até a calçada, olharia para o céu e começaria a gritar que “vocês já tiveram roteiros melhores” e que “esta piadinha é digna de Zorra Total”.

- Massachussetts, respondeu o pai.

- Massachussetts, respondeu o filho.

- Inferno, eu respondi.

E a velha continuou conversando e rindo. E eu ali atrás dela, esperando minha vez e sentindo distúrbios na Força, como se milhões de vozes gritassem ao mesmo tempo. Se isso demorasse mais um tempo, minha única saída seria ir até a seção de fraldas, pegar a maior que estivesse à venda e perguntar a algum vendedor se existia algum provador dentro do mercado.

- Do you want me to be your godmother?

- Answer her, respondeu o pai.

- I don’t know, respondeu o menino.

- Eu vou morrer, eu respondi.

Para minha sorte – já que a progressão geométrica já estava funcionando a todo vapor, com o grau de morte humilhante em via pública no nível quatro – os futuros laços familiares foram cortados, pois os dois acabaram de embrulhar suas compras e foram embora. Era a vez da velha – provavelmente lamentando a perda da oportunidade de morar nos Estados Unidos – passar as compras.

E ela o fez, com uma demora desgraçada. Na verdade, se pegássemos a velocidade com que minha dor de barriga crescia - a esta altura com direito a pontadas e suor – e multiplicássemos por –1, o resultado seria algo ainda mais rápido que a velha. Para cada mercadoria que era registrada, ela fazia algum comentário com a menina do caixa, explicando porque estava comprando cada produto.

Olhei ao redor e todos os caixas estavam lotados. Não havia alternativa: no meio do caminho havia uma velha, havia uma velha no meio do caminho.

Cerca de cinco minutos, sete pontadas na barriga e uns dois gemidos, ela acabou de passar as mercadorias e pagou. Mas, antes de ir embora, esticou a mão e pegou um bombom.

- Este aqui vai ser para recompensar a minha paciência.

Eu pensei em dezenas de coisas para fazer: esmurrar a velha; ajoelhar e implorar para que ela fosse embora; colocar minha chave no pescoço da caixa e gritar que “ou vocês me arrumam um banheiro e depois um avião para fora do país ou eu mato esta mulher agora e não me testem, não estou blefando!”. Mas todas elas envolviam fazer força ou algum movimento brusco, o que não era exatamente recomendável na minha situação.

Assim, tudo o que eu consegui fazer foi responder, de forma conformada:

- Claro.

- Seja claro, seja escuro ou que seja sombrio, não me importa. Vou comer este bombom.

“Seja claro, seja escuro ou que seja sombrio”. Certo. Eu estava diante da reencarnação da esfinge, que provavelmente anda pelos mercados de São Paulo pronunciando enigmas e charadas. Idade para isso, ao menos, ela tinha. Mas confesso eu estava ocupado demais tentando manter meu sistema digestivo sobre controle para reparar se ela tinha cabeça de humana e corpo de leão.

 - Estamos bem mais pertos do escuro e sombrio do que a senhora imagina, resmunguei me concentrando em evitar olhar o bombom nos olhos, o que poderia resultar em uma catástrofe.

Dentro de mim, o pessoal da progressão geométrica já deveria estar comemorando, com direito a garrafas de champanhe e dançarinas usando somente biquínis e saindo de dentro de bolos o fato de terem atingido a marca recorde de 128.

A velha pagou o bombom numa nova compra, informando novamente o CPF com a empolgação de um funcionário público lendo relatórios em voz alta e esperando seu troco de dois centavos. Assim que ela colocou os pés na calçada, eu estava terminando de embalar minhas compras com uma mão e digitando a senha do cartão com a outra, e implorando a Deus que me concedesse cinco minutos e mais nada.

Cinco minutos depois, eu estava entrando em casa, largando as compras no meio da sala, abrindo as calças e fechando a porta com os pés.

E, como eu sempre pensei em escrever um post escatológico – daí o nome desta saga – sem usar de piadas explicitamente escatológicas em momento algum, o resto é história.

2 de março de 2012

O Post Escatológico do Champ - Parte I


Era uma vez uma casa de espetinhos.

Era uma casa bonitinha, na Vila Mariana, e com um vasto cardápio que contava com espetinhos de diversos sabores. Pelo seu charme, era frequentada não apenas pelos moradores e trabalhadores da região, como por gente que ia de longe experimentar suas especialidades.

Mas seu grande movimento era no final de semana, já que, nos dias úteis, ela ficava mais vazia, quase como um restaurante normal de bairro, com poucos frequentadores.

Como eram os casos daquele baixinho careca e do jovem cabeludo que estavam saindo pela porta, após pagarem sua conta.

Como vocês devem ter imaginado, o baixinho careca era eu. Já o rapaz cabeludo era o filho da Namorada. Era um dia de semana e havíamos almoçado ali. Quer dizer, talvez ele tenha almoçado. Eu praticamente chafurdei em espetos atrás de espetos. Picanha, linguiça, costela, costela de porco, alcatra, picanha, pão de alho, linguiça com pimenta, picanha, picanha, pão de alho e picanha.

Com latas e mais latas de Coca durante a refeição e uma cerveja no final.

Após essa orgia alimentar – que faria Calígula subornar metade do Império Romano para conseguir um convite – qualquer pessoa normal teria ido ao hospital, chamado a recepcionista e pedido um quarto, avisando que desculpe, não tenho reservas, mas será que não dá para encontrar um jeitinho, porque eu devo morrer nas próximas horas.

Eu? Eu nem pensei em hospital. Apenas me virei para ele fiz o convite:

- Vamos passear na Comix?

Sim, foi uma ideia estúpida, porque eu havia acabado de comer feito o Obelix no final de qualquer aventura dos gauleses. Aliás, bem estúpida, porque estava um calor infernal. Aliás, foi uma ideia particularmente estúpida também porque eu ainda precisava passar no mercado antes de voltarmos para casa.

Na verdade, somando tudo isso, podemos apontar que esta talvez tenha sido uma das ideias mais estúpidas que tive na vida. Aposto que se minhas ideias estúpidas resolvessem eleger um presidente, esta ganharia logo no primeiro turno, e ficaria no governo por dois mandatos.

Assim, como ideias estúpidas não possuem graça sem serem colocadas em prática, fomos até a Comix, debaixo daquele calor escaldante que não ajudou em nada a conter a pequena revolução que se anunciava dentro de mim. Mesmo sem desconfiar disso, meu sistema digestivo havia se tornado em uma espécie de Oriente Médio, pronto para ignorar os avisos da ONU e começar a ser palco de atentados e bombardeios.

Mas, como disse, tudo correu relativamente bem até chegarmos à Comix. Os problemas começaram de verdade, mesmo, lá dentro.

Aparentemente, os espetinhos encararam o fato de eu atravessar parte da cidade com eles dentro do meu estômago como uma espécie de audácia da minha parte e começaram a me punir.

Ou isso, ou eles não gostam de X-Men, porque bastou eu folhear uma edição dos mutantes da Marvel para começar a trovejar nos Jardins. Diversos estrondos começaram a ecoar sobre o bairro, anunciando uma tempestade de proporções bíblicas.

Enquanto todos os clientes e vendedores olhavam em direção à rua, eu rapidamente me escondi na seção de mangás, torcendo para que ninguém percebesse que os trovões, na verdade, vinham do meu estômago. Tentei mandar meu sistema digestivo calar a boca antes que fôssemos expulsos da loja, mas é evidente que fui totalmente ignorado e os estrondos continuaram.

Era um período de guerra civil (Star Wars mode: on). E não iria demorar até alguém colocar a Estrela da Morte em funcionamento.

Cerca de meia hora depois, deixamos a Comix. Agora, tínhamos um pacote de quadrinhos, algumas centenas de reais a menos e – ao menos do meu lado – a certeza de que minha vida estava chegando ao fim. Afinal, quando você começa a sentir pontadas dentro do seu corpo a cada trinta segundos, é sinal de que as coisas não estão nada bem.

Dentro do metrô, aparentemente, um conflito explodiu dentro de mim. Fechando os olhos, eu podia ver centenas de células rebeldes guerreando com paus, pedras e bombas caseiras nos meus intestinos, enquanto células policiais tentavam manter a ordem com cavalaria e bombas de gás lacrimogêneo. Estação Trianon Masp.

De repente, o governo se cansou dos rebeldes e deu a ordem para que o exército ocupasse as ruas. Assim, tanques de guerra começaram a percorrer as principais avenidas em busca dos rebeldes, que, por sua vez, atacavam os veículos com coquetéis molotov e um lança mísseis conseguido sabe-se lá onde. Estação Brigadeiro.

Contudo, a sorte favorece os audaciosos (Gladiador mode: on) e os rebeldes conquistaram uma vitória significativa ao invadirem o Ministério, tomando o poder sobre o prédio. Diversos ministros foram capturados e muitos deles executados em praça pública como demonstração do fim do antigo regime. E, a cada ministro morto, eu, suando frio no metrô, gemia a ponto de fazer as outras pessoas olharem para mim. Estação Paraíso.

Era a hora de uma última investida do governo. Aviões bombardeiros começaram a sobrevoar a capital, despejando toneladas de dinamite sobre focos rebeldes. A cada explosão, eu mordia os lábios e pedia somente por alguns minutos de cessar-fogo para conseguir respirar em paz por uns momentos. Estação Ana Rosa.

Aos poucos, os rebeldes começaram a conquistar os principais aeroportos do país, impedindo novos bombardeios. E rumores de que a família presidencial planejava deixar o país cladestinamente em poucas horas começou a ganhar voz nas ruas. Eu, com a cabeça encostada numa janela do metrô, suado e branco feito um cadáver, consegui apenas pedir a Deus que “por favor, deixe por favor eu por favor chegar por favor vivo por favor em por favor casa por favor.” Estação Chácara Klabin.

O caminho do metrô até em casa se tornou praticamente uma Paixão de Rob – faltava só a coroa de espinhos. E, para piorar, o céu começou a trovejar – desta vez, de verdade – apesar do calor escaldante.

Restava saber apenas qual seria a pior das tempestades: a da atmosfera ou a outra, dentro de mim. Suando frio, pálido, eu me virei para o filho da Namorada e coloquei algumas estatísticas na mesa.

- Cara, no quesito “preciso ir ao banheiro ou vou morrer”, de zero a dez, estou em sete. No mínimo.

- Eu estou em oito. Aliás, você vai passar no mercado?

Na verdade, ir ao mercado seria uma missão fracassada de qualquer forma. Se eu fosse agora, morreria no caminho. Caso contrário, iria chover e eu nunca mais iria. Assim, decidi manter minha dignidade e me sacrificar da forma mais correta. Afinal, ao menos minha mãe receberia uma carta dizendo que eu morri no cumprimento do dever.

- Eu não tenho escolha. Eu preciso ir.

Num filme de guerra, o filho da Namorada teria colocado a mão no meu ombro de forma respeitosa e pedido para ir em meu lugar. Eu, por outro lado, diria a ele que não. Afirmaria que ele é jovem e precisaria continuar lutando para que meu sacrifício não fosse em vão. E ele diria que jamais se esqueceria disso.

Isso, claro, num filme de guerra. No mundo real, ele disse apenas:

- Então dá a chave aí que eu vou direto para casa, porque tá foda aqui.

- Você vai mesmo abandonar o barco?

- Mal aí, ele respondeu, arrancando a chave de mim e ido embora.

Eu estava na frente do mercado. Tudo o que eu precisava era um detergente e sacos de lixo. Mas já que eu iria morrer, ao menos daria uma última alfinetada no destino, e compraria uma garrafa de Coca.  Caio, mas caio em pé.

Mal sabia eu que o destino havia guardado o melhor para dentro do mercado.

(Continua aqui)

Em tempo: tem texto novo meu no Papo de Homem e no Malvadezas. E, de quebra, estou participando dos podcasts do Visitantes FC (e, em breve, com textos lá também). Prestigiem este pobre escriba e divirtam-se!

24 de fevereiro de 2012

Certa Tarde, no Céu...


Local: Nuvem sobre o Bairro de Pinheiros
Horário: 13h54min

´
Demônio Espião Assistente:
Eu não consigo andar direito em cima disso.

Demônio Espião: São apenas nuvens. O segredo é não pensar sobre ao assunto

Demônio Espião Assistente: Como eu não vou pensar nisso? Você viu a altura que nós estamos?

Demônio Espião: Relaxe. Nós não vamos aqui ficar muito tempo mais.

Demônio Espião Assistente: Pelo menos isso. Mesmo porque eu não gosto de andar por aí vestido de anjo. Fora que eu não consigo andar com essa... Como chama isso? Bata?

Demônio Espião: Sei lá. Foi o que pessoal arrumou lá embaixo.

Demônio Espião Assistente: E essas asas? Como que eles fizeram essas asas?

Demônio Espião: Acho que foi com penas de ganso.

Demônio Espião Assistente: As minhas já estão começando a descolar. Tomara que ninguém perceba.

Demônio Espião: É só você não se mexer muito. Ei, o que é isso no seu braço?

Demônio Espião Assistente: É a pulseira que me deram.

Demônio Espião: Que pulseira? Isso é uma auréola!

Demônio Espião Assistente: Auréola?

Demônio Espião: É evidente!

Demônio Espião Assistente: Mas o que eu faço com isso?

Demônio Espião: Coloque em cima da cabeça!

Demônio Espião Assistente: Ah, bem que eu achei que era grande demais para ser uma pulseira. Por isso que ela ficava caindo toda hora. Aqui na cabeça?

Demônio Espião: Isso. Já são 14 horas?

Demônio Espião Assistente: Faltam três minutos.

Demônio Espião: Você está com a chave do reservatório?

Demônio Espião Assistente: Sim. Peguei na mesa do São Pedro. Cuidado, vem vindo um anjo aí.

Demônio Espião: Cuidado para não mexer essa asa e ela cair.

Demônio Espião Assistente: Pode deixar.

Um Anjo Qualquer que Resolveu Andar por Ali: Boa tarde, irmãos. Que a paz do Senhor esteja convosco.

Demônio Espião Assistente: É... Hum... Valeu. Ai!

Demônio Espião: Obrigado, irmão. Que a paz do Senhor esteja convosco.

Um Anjo Qualquer que Resolveu Andar por Ali: Obrigado.

Demônio Espião: Pronto. Ele foi embora.

Demônio Espião Assistente: Precisava enfiar o cotovelo em mim, porra?

Demônio Espião: “Valeu”? Isso é modo de falar? Quer que descubram que não somos anjos?

Demônio Espião Assistente: Eu sei lá como os anjos falam!

Demônio Espião: Na próxima vez, não fale nada!

Demônio Espião Assistente: Certo, certo. Olhe, pelo meu relógio são 14 horas.

Demônio Espião: Bom, se a Inteligência estiver certa, acabou tudo na casa do Rob. Coca, comida, tudo. Ele vai ter que sair de casa.

Demônio Espião Assistente: Entendi... Ei, olhe ele ali na varanda!

Demônio Espião: Sim, ele está olhando para o céu. Provavelmente, para ver se vai chover, porque ele precisa sair.

Demônio Espião Assistente: Ele já entrou.

Demônio Espião: Sim, ele vai sair de casa, com certeza. Não tem uma nuvem preta no céu. Nós tiramos todas. A mangueira está pronta e acoplada no reservatório, certo?

Demônio Espião Assistente: Sim. Basta apenas ligar. Será que vai funcionar?

Demônio Espião: Tomara que sim. Estamos aqui apenas para testar isso e o pessoal do departamento de Novos Projetos está ansioso. Estão trabalhando nisso há meses.

Demônio Espião Assistente: Ei! Olhe ele ali na rua!

Demônio Espião: Onde?

Demônio Espião Assistente: Ali, entrando na Teodoro Sampaio! Olhe a carequinha ali!

Demônio Espião: Verdade!

Demônio Espião Assistente: Posso ligar?

Demônio Espião: Calma. Tem muita gente na avenida. Vou regular para o jato mais fino, assim acertamos apenas ele.

Demônio Espião Assistente: Certo.

Demônio Espião: Pronto. Na mira.Pode ligar.

Demônio Espião Assistente: Abro tudo?

Demônio Espião: Claro!

Demônio Espião Assistente: Pronto!

Demônio Espião Assistente: Em cheio! Você viu? Na cabeça!

Demônio Espião: Vi! Olhe ele ali correndo pela rua!

Demônio Espião Assistente: Será que ele não percebe que está chovendo apenas nele?

Demônio Espião: Duvido. Ele não deve nem ver nada direito, de tanta água que cai nele!

Demônio Espião Assistente: Cara, como ele corre!

Demônio Espião: Verdade!

Demônio Espião Assistente: Ele quase foi atropelado por aquele caminhão!

Demônio Espião: Ainda bem que ele escapou! Se ele morresse, estaríamos perdidos. O pessoal de novos projetos nunca teve uma cobaia tão boa.

Demônio Espião Assistente: Ele sumiu! Cadê ele?

Demônio Espião: Entrou na padaria. Deve estar lá todo encharcado e recuperando o fôlego.

Demônio Espião Assistente: Quer que eu desligue um pouco?

Demônio Espião: É melhor. Assim nós o atraímos para fora.

Demônio Espião Assistente: Tomara que ele não demore. Minhas asas não vão durar muito.

Demônio Espião: Calma, logo ele sai. Como sempre, nós tiramos todas as carolinas da padaria.

Demônio Espião Assistente: De novo? Será que ele não percebe que nunca tem carolinas quando ele está na padaria?

Demônio Espião: Aposto que não. Ele é meio tapado.

Demônio Espião Assistente: Ei, não é ele ali?

Demônio Espião: Onde?

Demônio Espião Assistente: Ali, na frente daquela loja, segurando duas sacolas!

Demônio Espião: Onde?

Demônio Espião Assistente: Ali! Olhando para cá!

Demônio Espião: É mesmo! Ele está andando por baixo da marquise e olhando as nuvens.

Demônio Espião Assistente: Será que ele não vai sair debaixo da marquise?

Demônio Espião: Não tem problema. Eu preciso apenas mirar um pouco para baixo.

Demônio Espião Assistente: Esse pessoal de novos projetos é bem criativo, hein? Uma mangueira industrial com mira telescópica.

Demônio Espião: Isso aqui vai ser um sucesso! Pronto. Está na mira. Pode abrir!

Demônio Espião Assistente: Aberto!

Demônio Espião: Em cheio!

Demônio Espião Assistente: Pegou em cheio no peito dele! Ele quase caiu!

Demônio Espião: Olhe como ele corre!

Demônio Espião Assistente: E batendo com as sacolas em todo mundo! Que imbecil!

Demônio Espião: Essa mangueira é demais! Olhe ele ali fazendo a curva! Eu subo um pouco e...

Demônio Espião Assistente: Na cara! Pegou na cara dele! Ele derrubou uma sacola!

Demônio Espião: Tomara que estejam monitorando tudo lá de baixo!

Demônio Espião Assistente: Putz! Ele já está entrando no prédio!

Demônio Espião: Hora de desligar e recolher a mangueira. A missão foi um sucesso! Aposto que seremos condecorados!

Demônio Espião Assistente: Pronto, fechei! Podemos guardar tudo.

Demônio Espião: Ei, olhe ele ali na varanda do apartamento!

Demônio Espião Assistente: Ele está olhando para cá, fazendo gestos obsecnos. Será que ele nos viu?

Demônio Espião: Duvido. Aposto que ele está puto porque acha que não está chovendo mais, agora que entrou em casa. O babaca nem percebeu que não choveu, que a água só caía nele.

Demônio Espião Assistente: Que humano deprimente, esse Rob Gordon. Pronto. A mangueira está guardada na mala. E a mira está comigo.

Demônio Espião: Então é isso. Vamos embora.

Outro Anjo Qualquer que Resolveu Andar por Ali: Ei!

Demônio Espião Assistente: Um anjo!

Outro Anjo Qualquer que Resolveu Andar por Ali: Com a graça do Senhor, o que vocês estão fazendo aí? O que há nesta mala?

Demônio Espião: Fudeu! Vamos embora!

Demônio Espião Assistente: Merda! Minhas asas estão caindo!

Demônio Espião: Esquece as asas! Corre!