3 de julho de 2015

O Junho que eu Pensei

Voltamos à programação normal.

Antes, acho que cabe uma explicação. Fiquei afastado do blog essas semanas, primeiro, por um motivo comum para muita gente: falta de tempo. Um trampo muito grande se misturou com outro, e o blog acabou ficando em segundo plano. E sim, eu já deveria ter voltado a escrever aqui há alguns dias, mas acontece que o tempo longe do blog me fez querer ficar um pouco mais longe do blog.

Calma, eu explico.

Até algum tempo atrás, ficar tanto sem escrever no blog me faria perder o sono. Para mim, nada é mais fracassado que um blog que não se alimenta de conteúdo novo. Sinto até tristeza quando entro em um blog e vejo que a postagem mais recente dele é de seis meses ou dois anos atrás. Sempre que isso acontece, tenho a sensação de pegar um livro com páginas arrancadas. E eu sempre jurei que isso não iria acontecer aqui.

Certo, mas e esse tempo todo sem escrever? Primeiro: isso não é exatamente verdade, já que enquanto estive ausente, teve material novo no Chronicles (e não é a primeira vez que isso acontece). Mas, o mais importante é que eu não passei “longe” daqui nesse tempo. Pelo contrário, usei essas semanas para respirar, olhar as coisas de certa distância, reciclar um pouco as ideias. Ou seja, eu não estava escrevendo basicamente porque estava “pensando sobre escrever”.

Mas claro que ainda tenho mais perguntas que respostas. E um monte de ideias e projetos que preciso organizar na minha cabeça – quem me acompanha no Facebook sabe um pouco mais sobre isso, já que postei alguns pensamentos ali, querendo a opinião das pessoas. Mas vamos com calma. Talvez seja um sinal de maturidade: enxergar que eu não preciso fazer agora, eu apenas preciso fazer.

Com o tempo, claro, vocês vão sabendo mais sobre esses projetos, e qual formato cada um terá. Mas enquanto isso não acontece, voltamos ao ar aqui, como sempre estive. E muito obrigado a todos que perguntaram “se estava tudo bem” porque o blog estava parado, e me cobravam novas atualizações e posts. Eu sempre penso em escrever como “o que eu sou”. Se os leitores conseguem ver isso a ponto de achar que eu não estou bem porque não pareço estar escrevendo... Só tenho a agradecer.

É porque alguma coisa certa eu estou fazendo certo.


E agora, vamos em frente. J

31 de maio de 2015

Eloísa Mafalda Bebe Leite Semidesnatado

Existem algumas pessoas que parecem não entender o conceito de fones de ouvido.

O fone de ouvido é, antes de tudo, algo que separa o usuário dos ruídos do planeta, mas existem algumas pessoas que parecem acreditar que, para se comunicar com alguém que estiver com fones de ouvido, basta falar normalmente ao lado dela. Talvez na mente delas a pessoa nem mesmo está com fones de ouvido, ela apenas tem uma má formação na orelha que resultou em um plugue e um cabo ligando o ouvido ao bolso da calça.

Esse é o caso da mulher que veio falar comigo no mercado ontem. Eu estava comprando leite e ela ao meu lado – eu já havia prestado atenção nela desde que me aproximei, já que ela era a cara da Eloísa Mafalda. Mas estava quieto, procurando o leite que compro sempre e ouvindo blues no iPod. Mas, claro, bastou eu olhar para o lado para ver que ela estava segurando uma caixa de leite, apontando alguma coisa na embalagem e falando comigo.

Quer dizer, acredito que ela estava falando comigo. Afinal, ela estava olhando para mim e seus lábios estavam se movendo, como se eu estivesse assistindo a uma TV sem som. E, mesmo sabendo que o que eu estava ouvindo seria muito mais interessante que qualquer coisa que a Eloísa Mafalda pudesse falar sobre as propriedades do leite, tirei o fone de ouvido para ouvir o que ela estava falando. Babaquice, seu nome é Rob Gordon.

– A senhora falou comigo?

Ela olhou para mim e para o leite e para mim de novo. E apontou diretamente a palavra SEMIDESNATADO na embalagem, antes de perguntar:

– Murmúriofalandobaixodeumjeitoqueéimpossívelouvir?

– Oi?

– Voumurmurardeformainaudívelmais. Umavezmasvêseescutaporquenãogosto. Demerepetir?

Certo. A Eloísa Mafalda do mercado não falava português. Na verdade, ela parecia se comunicar por meio de alguma língua morta e esquecida, que contava com duas regras gramaticais: se expresse sem abrir a boca e nunca fale num tom acima de 2 decibéis. Assim, eu decidi me concentrar no seu dedo e tentei continuar a conversa da melhor forma que consegui:

– Sim, esse é semidesnatado.

Eu pensei em dizer a ela que isso não me torna um gênio da indústria leiteira, já que eu estava apenas lendo a palavra em voz alta, mas resolvi guardar isso para mim. Além disso, ela parecia ter finalmente conseguido montar uma frase em português.

– Esse aqui tem tudo?

– Como assim?

– Tudo. Esse aqui tem tudo?

“Olhe, minha senhora, tudo é um conceito complexo demais. O que é tudo para a senhora pode não ser tudo para mim. O tudo depende muito da sua bagagem pessoal, e, acredito, das suas aspirações e ambições. Para discutirmos se ele tem tudo, preciso saber um pouco mais sobre seus sonhos. O que tem mais valor na vida da senhora? Nata ou espiritualismo? Cálcio ou satisfação profissional? Um pouquinho de gordura ou independência financeira?”

Mandei meu cérebro calar a boca e tentei me concentrar na mulher. A pergunta dela era fácil de ser compreendida. “Esse aqui tem tudo?”. Mas nem tudo o que é fácil de ser compreendido faz sentido, então eu não sabia como começar.

Foi quando tomei uma decisão que mudou minha vida. Da mesma forma que as pessoas que conversam comigo na rua não prestam atenção no que eu falo e falam a primeira coisa que vem na cabeça delas, eu resolvi que iria fazer o mesmo. Assim, eu ignorei o que ela havia dito sobre o tudo e repeti:

– Esse é semidesnatado.

Foi libertador. Finalmente entendi a satisfação de conversar com uma pessoa sem tentar manter um raciocínio lógico. Se a Eloísa Mafalda quisesse saber mais sobre o leite, teria que se esforçar. Assim, ela voltou a falar, também em português.

– Mas esse aqui não tem tudo.

– Não. Esse é semidesnatado.

Ela continuou olhando a caixa do leite em suas mãos, provavelmente procurando a frase “este tem tudo” ou “este não tem tudo”. Então, peguei uma caixa de leite escrito Integral e mostrei a ela.

– Este aqui tem tudo.

Aparentemente, o leite integral estava para a Eloísa Mafalda como a água benta para um vampiro. Ela me olhou de um jeito horrorizado e gritou comigo:

– NÃO! EU NÃO GOSTO DESSE!

Todos no mercado olharam na minha direção. Eu olhei de volta para eles, com o meu melhor ar de “olha, eu só queria comprar um litro de leite e ir embora”. Acho que consegui, pois as pessoas voltaram a fazer suas coisas e nos deixaram em paz. A Eloísa, porém, nem percebeu isso. Ela estava mais uma vez olhando para a caixa de leite original, aquela que ela tinha em mãos.

– Este aqui tem tudo?

– Não.

– Este aqui tem tudo.

Desta vez, não foi uma pergunta.

– A senhora precisa de mim ainda? Porque aparentemente a senhora está promovendo um debate consigo mesma, então eu vou escolher meu leite ali, e quando você e você mesma chegarem a um consenso, é só me avisar.

– Eu não quero esse.

– Olhe, eu não quero muita coisa na minha vida, mas às vezes somos obrigados a aceitar. Tipo leite. Às vezes, temos que comprar um leite semidesnatado mesmo porque...

– Eu quero um sem tudo.

– Sem tudo é seu jeito de dizer “nada”?

– Sem tudo.

Olhei para a prateleira. Aparentemente, ela queria uma caixa de leite vazia, mas isso eu não encontraria ali. Então, fui pelo caminho mais lógico e apanhei uma caixa de leite desnatado.

– Este aqui não tem nada.

– Nada?

– Sim. Esse aqui é sem tudo. É desnatado. Não tem nem o “semi”. Esse é sem nada mesmo.

– ESSE É MUITO RUIM!

Novamente, o mercado inteiro olhou na nossa direção. Eu já comecei a esperar que um segurança aparecesse e eu tivesse que explicar que eu só queria comprar um litro de leite e voltar para casa sem conversar com ninguém, mas aproveitando que você está aqui essa senhora aqui ao meu lado parece estar precisando de ajuda, será que você pode falar com ela enquanto eu vou embora e nunca volto mais aqui.

Olhei de volta para a prateleira tentando resolver aqui de uma vez por todas. Procurei uma nova alternativa. Em vão. Os leites eram de várias marcas, mas todos giravam em torno dos conceitos “desnatado”, “semidesnatado” “e “integral”. Assim, resolvi explicar para a Eloísa que ela teria que lidar com as cartas que tinha na mão, como qualquer outra pessoa. E, para ganhar tempo, decidi que seria melhor contar isso dentro dos termos dela.

– Olhe, só tem três leites. Esse aqui que tem tudo, esse aqui que é sem tudo e esse que está na sua mão.

– Mas esse aqui tem tudo?

– Não. Esse é semi- tudo. Aquele outro tem tudo. E esse aqui é sem tudo.

– Esse aqui tem tudo.

Novamente, não foi uma pergunta.

– É impressão minha ou a senhora está presa dentro de um lapso temporal?

– Esse é sem tudo?

– A senhora está numa espécie de limbo, vivendo os mesmos cinco segundos em looping.  Sinceramente, acho que a senhora nem mesmo pode me ver.

Ela continuou apontando a palavra semidesnatado. Às vezes erguia os olhos e procurava por um quarto tipo de leite, que provavelmente não existia em nosso universo.

– Esse aqui tem tudo.

Eu apanhei o meu leite (é o “sem tudo”) e comecei a me afastar.

– Eu vou indo. Qualquer coisa que a senhora precisar, tem um funcionário ali.

– Leite.

– Isso. Leite aqui. Funcionário ali. Eu lá longe. Boa sorte pra senhora.

– Tchau.

Coloquei meu fone de ouvido e fui embora. E voltei para casa cada vez mais convencido que demônios existem e estão em todo o lugar, passeando pelo planeta com a missão de mostrar aos incautos que o inferno existe e é aqui mesmo,

Às vezes, o melhor a fazer é ignorá-los. Dica: especialmente quando eles se parecem com a Eloísa Mafalda.

15 de maio de 2015

The Thrill is Gone

Eu lembro quando descobri o blues.

Era pré-adolescente e como muita gente da minha idade, meu primeiro contato com o blues foi assistindo a Os Irmãos Cara-de-Pau. Lembro até hoje de assistir ao filme com meu irmão e, ao vermos um velho tocando na rua numa cena rápida, ele comentou “esse cara deve ser um monstro do blues e a gente não sabe”. Era verdade. Eu não fazia ideia de quem era aquele velho. Mas sabia que eu nunca tinha visto tanto carisma em uma pessoa (a cena, estendida, está aqui).

Mas se eu descobri o blues cedo demais, só fui me apaixonar por ele tarde demais, por volta dos vinte e cinco anos. Até então eu escutava e apenas gostava. Sentia-me atraído por aquele som doce e simples, com letras poderosas.  Mas nunca tinha me aprofundado de verdade naquele mundo.

Até eu me apaixonar por blues.

Foi no dia que a música “How Blue Can You Get?” cruzou meu caminho. Como qualquer pessoa, eu já conhecia BB King, mas nunca tinha escutado aquela canção. Sua letra é universal e conta como um homem não sente nada além de tristeza por causa da uma mulher ingrata e egoísta, tudo isso contrastando com uma guitarra doce e melódica que transformava aquela tristeza em esperança do dia seguinte ser melhor.

Porque o blues não é apenas sobre tristeza.

O blues é, na verdade, sobre a esperança de que amanhã será melhor.

Minha vida mudou. Eu não me senti tragado para dentro da música, mas sim para dentro de algo maior. Naquele dia, eu não me apaixonei por uma música ou por um disco, mas sim por um mundo completamente diferente daquele que eu encontrava em outras músicas.


Comecei a ouvir – e ler sobre – blues o dia inteiro. Fui atrás dos grandes nomes do passado e comecei a conhecer melhor aquele mundo, povoado por pessoas comuns que viviam em lugares reais e experimentavam problemas que todos nós temos. Um mundo amargo e alegre, solitário e erótico, violento e adocicado. Tudo ao mesmo tempo. Um mundo onde a dor não é grandiosa, mas ela é tudo que existe. E a única maneira de lidar com ela é com a música, que entrega uma espécie de redenção (eu tentei descrever como me sinto ouvindo blues aqui).

Um mundo que não foi feito para ser compreendido, mas sim experimentado.

E, em algum momento, eu descobri que não me apaixonei pelo blues tarde demais. O blues me ajudou a sair de uma depressão. O blues me ajudou a fazer a transição do jovem para o adulto. Não, eu não me apaixonei pelo blues tarde demais.

Eu me apaixonei pelo blues na hora certa.

Mais ou menos quinze anos se passaram desde que dei meus primeiros passos nesse mundo. E hoje não consigo me imaginar fora dele. Tenho o blues tatuado no braço porque eu preciso levar esse mundo comigo para onde vou. Escrevo uma história em quadrinhos em que o blues é um dos elementos mais importantes no roteiro porque, como qualquer pessoa que habita esse mundo, me sinto na obrigação de mantê-lo vivo e contar sua história.

Pois sua história faz parte da minha história.

E sempre que eu olhava para trás na minha história, pensando sobre a importância que esse mundo tem na minha vida, enxergava BB King no começo de tudo. Ele não era meu bluesman preferido, mas estava além. Ele era meu marco zero.

Eu tive muita sorte. Para entrar nesse mundo habitado por pessoas comuns, foi preciso que um rei aparecesse com sua guitarra no ombro, me pegasse pela gola da camiseta e me desafiasse:

– How blue can you get, boy?

Eu estou até hoje tentando responder essa pergunta. Por isso, às vezes, eu voltava para o portão desse mundo e mergulhava em BB King.

Passava o dia ouvindo a voz e a guitarra melódica daquele rei que um dia, desceu de seu trono e convidou um garoto para fazer parte do seu reino. E sempre começando por aquela música sobre aquela mulher ingrata – que, hoje eu sei, mudou minha vida. E, a cada vez que eu ouvia aquela música, sentia uma espécie de arrepio pensando em como o blues faz de mim o que sou hoje.

E hoje o rei está morto.

Dizem que reis não morrem de verdade. Assim, acredito que ele permanecerá vivo em estradas lamacentas, espeluncas lotadas, campos de algodão e quartos abafados, contando histórias de paixões que esfriaram, de empregos ingratos, de mulheres egoístas, de amores impossíveis.

E a tristeza pela sua morte será diminuída – mas jamais esquecida – no momento que alguém, em algum lugar do mundo, empunhar um violão e cantar seu nome ao lado de uma dose de uísque.  Afinal, eu disse acima que o blues não é sobre tristeza e sim sobre a esperança de que amanhã será melhor. Isso é algo que eu aprendi com aquele rei.

Porém, nem todo o uísque do mundo mudará o fato de que ele está morto. Pois o rei também foi o primeiro a me falar que o blues sempre foi sobre verdades. E a verdade é que o rei está morto.

Hoje, a pergunta “how blue can you get?” não me traz arrepios, apenas tristeza. Mas o rei já havia previsto isso. Com seu ar de “as coisas são assim mesmo”, ao cantar que the thrill is gone, the thrill is gone away, ensinou que nada é para sempre, nem mesmo aquilo que a gente acredita que é para sempre.

O rei ensinou muitas coisas. Essa foi sua última lição, pois hoje o rei está morto.

Longa vida ao rei.


12 de maio de 2015

O Estranho Caso do Entregador do Habib's

Entregador do Habib’s: Boa noite.

Cérebro do Rob Gordon: O dinheiro está certo?

Estômago do Rob Gordon: Não importa. Peguem logo a comida!

Rob Gordon: Boa noite.

Entregador do Habib’s: Você está assistindo TV?

Cérebro do Rob Gordon: Hum... Ele deve estar perguntando se estamos vendo o jornal. Melhor ser sincero aqui.

Estômago do Rob Gordon: Ninguém quer conversar! Pegue logo a comida!

Rob Gordon: Não, estou vendo um filme.

Entregador do Habib’s: Então você não viu nada sobre o assalto?

Cérebro do Rob Gordon: Assalto? Não me lembro de te visto algo sobre assalto algum. Mas se o cara está comentando deve ser importante e apenas nós não estamos sabendo. Pergunte a ele que assalto é esse.

Estômago do Rob Gordon: Não tem como a gente pegar pelo menos um quibe enquanto conversa?

Rob Gordon: Assalto? Não vi nada. Que assalto?

Entregador do Habib’s: O senhor não viu? Tentaram assaltar um banco.

Cérebro do Rob Gordon: Bom, um assalto a banco não é importante. Agora, se o sujeito está comentando conosco, é por que... Meu Deus! Será que foi aqui perto? Alguém aqui ouviu sirenes hoje? Melhor perguntar onde foi isso. Deve ter sido aqui na Lins!

Estômago do Rob Gordon: Não quero saber do assalto. Libera logo uma esfirra! De carne!

Rob Gordon: Não, não vi nada. Onde foi esse assalto?

Entregador do Habib’s: No Rio Grande do Norte.

Cérebro do Rob Gordon: Oi?

Estômago do Rob Gordon: Falei que não valia a pena!

Rob Gordon: Oi?

Entregador do Habib’s: Foi lá no Rio Grande do Norte.

Cérebro do Rob Gordon: Que tipo de raciocínio ele desenvolveu para concluir que nós poderíamos estar interessados nisso? Hora de encerrar o assunto.

Estômago do Rob Gordon: Encerrar merda nenhuma! Cadê a comida?

Rob Gordon: Não. Não vi nada.

Entregador do Habib’s: Foi igual lá em Fortaleza.

Cérebro do Rob Gordon: Ok, eu estou acionando o alarme. Vamos ativar o dispositivo “Sorria e Concorde” e tentar administrar a conversa. Atenção! Não é um treinamento! Temos um louco por perto!

Estômago do Rob Gordon: Não podemos deixa-lo fugir com nossa comida! Alguém agarre o entregador!

Rob Gordon [sorrindo]: Aham.

Entregador do Habib’s: Esses ladrões de hoje...

Cérebro do Rob Gordon: Está funcionando! Ele não tem mais o que dizer! Aguentem mais um pouco e logo estaremos livres!

Estômago do Rob Gordon: Por favor, eu não aguento de fome. Não dá para tentarmos pegar pelo menos um limão daquele saquinho?

Entregador do Habib’s: Seu pedido.

Rob Gordon [sorrindo]: Aham.

Cérebro do Rob Gordon: Deu certo! Ele está indo embora! Precisamos colocar o registro disso no blog!

Estômago do Rob Gordon: VAMOS COMER!

Rob Gordon [sorrindo]: Aham.

Cérebro do Rob Gordon: Desativem o modo “Sorria e Concorde”. Estamos seguros!

Estômago do Rob Gordon: De quem é a esfirra de queijo?

Rob Gordon [sorrindo]: Aham.

Cérebro do Rob Gordon: Estamos travados no modo “Sorria e Concorde!” Anos e anos lidando com loucos assim devem ter danificado o sistema. Precisamos fazer algo!

Estômago do Rob Gordon: Depois. Agora estou comendo. Vai sorrindo e concordando aí, depois a gente resolve.

Rob Gordon [sorrindo]: Aham.

9 de maio de 2015

A Trágica História do Porquinho que Foi ao Mercado

Existem vários porquinhos. Existe o porquinho que comeu rosbife. Existe o porquinho que ficou em casa. Existe o porquinho que gritou alguma coisa. Mas o mais famoso entre eles é o primeiro: o porquinho que foi ao mercado.

E essa é a sua história.

Este porquinho foi ao mercado...

Junto com sua Esposa, porque eles precisavam compra ração para os cachorros. No meio do caminho, o porquinho sugeriu que já deveriam aproveitar e decidir o que iriam jantar. Conversaram alguns instantes e decidiram comer hambúrguer. O porquinho ficou feliz porque adora comer hambúrguer em casa, já que a Esposa faz maionese caseira e ele come com batatas – o que fica ainda mais gostoso que o sanduíche. Entraram no mercado, pegaram tudo o que precisaram para o hambúrguer e foram ao caixa. Só então o porquinho percebeu que tinha esquecido a carteira. Assim, saiu do mercado correndo e voltou para casa.

Este porquinho foi ao mercado...

Agora com a carteira no bolso. E correndo. Você já viu um porquinho correndo? É deprimente. Esse porquinho corria muito quando era mais jovem, mas agora ele não sabe mais correr. Aliás, existe um motivo para o poema não ter um verso com “esse porquinho foi correndo até tal lugar”, porque ninguém quer ver um porquinho correndo pelas ruas com a barriga tremendo e jogando o bundão – porque todo porquinho tem bundão, e não qualquer bundão, é um bundão suficiente para dançar em uma banda de axé – para um lado e para o outro, reclamando de dor nas pernas e fazendo o final do percurso meio torto porque está começando a sentir dor no baço.

Mas, enfim, o porquinho voltou ao mercado a tempo de pagar suas compras com a caixa alienígena que fez comentários sobre a bolacha Toddy que o porquinho comprou – porque porquinhos sempre compram algo doce no mercado – e sobre o hambúrguer, dizendo que quando faz hambúrguer em casa coloca babata palha dentro do pão (algo que o porquinho ainda esbaforido resmungou que “não, aqui no planeta Terra a gente não faz isso”). E voltaram para casa, apenas para abrir a porta e o porquinho dar um tapa na própria testa gritando “esquecemos a ração dos cachorros!”. Mas, ainda cansado de ter que correr porque esquecer a carteira, o porquinho pediu ao enteado que fosse comprar a ração. Problema resolvido... Até que meia hora depois – já com a ração em casa – o porquinho deu outro tapa na testa e gritou “esqueci a merda da batata!”.

Esse porquinho foi ao mercado...

Reclamando da vida e com vontade de chutar tudo o que encontrasse pela rua. Sua Esposa havia falado que “nós comemos sem batata mesmo”, mas o porquinho foi resmungando que ele gosta mais da batata com maionese que do hambúrguer, que na verdade quando tem hambúrguer em casa ele usa isso como desculpa para se entupir de batata com maionese e jurou que compraria um saco de batata do tamanho de uma pequena cidade para nunca mais ter que sair e comprar batatas novamente.

Entrou no mercado, percebendo que todos os funcionários o olharam com cara de “ih, o porquinho esqueceu algo” e foi até outro caixa para fugir da menina alienígena. Resmungou para a menina do caixa que não precisa do CPF, eu só quero ir embora e ficar em casa e voltou com o saco de batata na mão, sem sacola nem nada, maldizendo a vida. Algumas pessoas que passaram pelo seu caminho devem ter pensado que o porquinho era louco, pois ele não era um porquinho carregando um saco de batatas, ele era um porquinho que carregava um saco de batatas, olhando diretamente para o saco e fazendo ameaças como “se vocês não ficarem no mínimo maravilhosas eu vou esmigalhar todas vocês com uma pá, e depois tacar fogo em cada uma de vocês”.

Assim, o porquinho entrou em casa e voltou ao computador... Até que sua Esposa apareceu na sala e perguntou se ele se incomodaria em comer o hambúrguer sem ketchup e ele perguntou como assim e ela explicou que lembra que eu comentei essa semana que o ketchup tinha acabado, então, nós esquecemos de comprar e o porquinho se levantou e calmamente foi até a janela e olhou para o céu e ergueu um punho gritando coisas como se vocês fossem machos, desceriam aqui e me pegariam pessoalmente ao invés de fazer essas coisas. Sem dizer para a esposa que “eu não fui trinta e cinco vezes até aquela bosta de mercado para comer hambúrguer sem ketchup” (ao invés disso, ele disse apenas “vou lá comprar essa merda”) pegou a carteira e saiu de casa.

Esse porquinho foi ao mercado...

Se perguntando por que a vida é assim. E pensando também nos outros porquinhos, que provavelmente estavam coçando o saco e esperando a sua vez de fazer alguma coisa, já que o poema não saía da primeira linha. Toda a saga dos porquinhos se resumia ao porquinho que foi ao mercado e depois precisou voltar ao mercado e chegou em casa e percebeu que precisava ir ao mercado, eternamente preso dentro disso como se o seu pedaço do poema tivesse se transformado em um filme do Luis Buñuel.

Entrou no mercado pronto para chutar qualquer pessoa que ousasse passar pela sua frente, foi até a prateleira de ketchup e pegou o primeiro que encontrou – lendo com cuidado o rótulo inteiro para se certificar de que se tratava de ketchup mesmo, assim ele não chegaria em casa apenas para descobrir que precisava voltar ao mercado porque ao invés de comprar ketchup comprou sem querer um pote de terra – e foi até o caixa pagar, escolhendo um terceiro caixa que ainda não tinha visto o porquinho por ali nas outras vezes. Antes de pagar, resmungou que “não, pode enfiar o CPF no cu” para a funcionária e fingiu que não viu a caixa alienígena olhando para ele de longe, com um sorrisinho no canto da boca e um ar de “quem é o retardado agora?” e voltou para casa.

E ficou sentado na cadeira olhando para o relógio por quinze minutos até ser dez horas em ponto. O porquinho então suspirou. Agora o mercado estava fechado. A maldição havia se rompido, e ele podia começar a reconstruir sua vida.

Essa é a história do porquinho que foi ao mercado.

Os outros porquinhos ainda estão rindo dele.