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21 de novembro de 2009

A Paixão de Rob

O que eu disse no último post, sobre eu e meu irmão termos brigado todos os dias durante anos, não é verdade. Isso porque nossos desentendimentos não podiam ser classificados como brigas, já que eu não brigava, eu apenas apanhava. Mas quanto à freqüência, a informação está correta: era todo dia – às vezes, mais de uma vez por dia.

E não sei se mereci apanhar em todas essas surras, mas calculo que, em uns 99%, sim. Verdade, eu fui um irmão caçula exemplar. Isso, claro, partindo do princípio que a função universal do irmão caçula é atrapalhar a vida do mais velho.

E, nesse ponto, eu era um mestre.

Deixo vocês com um exemplo para vocês formarem sua própria opinião a respeito disso.

Eu devia ter uns 16 anos, e estava sozinho em casa com meu irmão, vendo Sessão da Tarde.

Vale dizer que ele, provavelmente, estava vendo TV porque não tinha nada para fazer. E tenho quase certeza de que eu estava vendo TV porque deveria ter toneladas de coisas de escola para fazer, mas como minha mãe não estava em casa, declarei independência e fui para a sala. Ou seja, eu já estava errado antes mesmo da história começar.

Enfim, por volta das 15h, a campainha tocou e fui atender.

Abri a porta e caminhei até o portão. No percurso, senti um arrepio na espinha quando percebi que era uma testemunha de Jeová. Isso poderia simplesmente assassinar o resto da minha tarde. Testemunhas de Jeová são como aqueles banners expansivos: se você acidentalmente passa o mouse em cima, ela aumenta de tamanho, começa a falar absurdamente, e não há quem feche aquilo.

Assim, resolvi tomar cuidado, mal fazendo contato visual com a mulher.

– Oi, pois não?

– Boa tarde, tudo bem? Eu vim trazer a palavra do Senhor.

– Oi?

– Sim, nós, da Igreja Whatever, estamos visitando as residências do bairro para levar um pouco de luz e sabedoria aos moradores.

– Olhe, acho essa iniciativa louvável. Mas, infelizmente, eu já tenho uma religião e estou muito feliz com ela.

– Puxa, que pena.

Não sei se foi a primeira vez que os meus neurônios começaram a trabalhar sozinhos, mas foi uma das primeiras, com certeza. Eles começaram a jogar carvão na caldeira, e meu cérebro começou a acelerar. Comecei a fazer contas. Testemunha de Jeová. Meu irmão. Minha mãe não está em casa.

De repente, a idéia se formou na minha mente. Na verdade, ela praticamente brotou da terra, maravilhosa, brilhante, em todo seu esplendor de genialidade.

Abri meu melhor sorriso – tomando cuidado para ele não se transformar numa gargalhada – e respondi:

– Agora, se a senhora quiser, eu posso chamar o meu irmão. Ele se interessa muito por esse assunto.

– Verdade?

– Sim. Ele adora discutir religião. As palavras de Deus, então, o deixam fascinado.

– Ah, mas que maravilha! Posso conversar com ele?

– Claro, ele não está fazendo nada agora. Só um minuto.

Detalhe: meu irmão é ateu. Aliás, ele é muito ateu. Tenho certeza de que meus pais resolveram batizá-lo quando ele era apenas um bebê, porque, se ele já soubesse falar, certamente iria começar a discutir com o padre no meio da cerimônia.

Não, não. Minto. Ele tem uma religião, sim, e os templos que ele freqüenta são as churrascarias da cidade. Dizem que todo homem precisa acreditar em alguma coisa; e meu irmão normalmente acredita que vai pegar mais um pedaço de picanha. Esse é o credo dele. Se bem que, até aí, eu também participo desse culto.

Contudo, enquanto eu caminhava de volta para a sala, tinha apenas uma crença: aquilo ia ser ótimo.

Antes de abrir a porta, olhei novamente para a testemunha de Jeová. Ela brilhava e sorria, ansiosa em discutir os 10 Mandamentos ou o Sermão da Montanha com uma alma jovem e fiel.

Sorri para ela e entrei na sala. Engoli a gargalhada e assumi o ar mais casual que consegui.

Meu irmão estava largado no sofá.

– Quem era?

– Não conheço. Mas é para você.

Ele olhou pela janela.

– Eu não conheço essa mulher.

– Eu também não. Mas ela mandou te chamar.

– Como assim?

– Ela tocou aqui e pediu para te chamar, ué. Falou seu nome e tudo.

– Porra, o que essa mulher quer?

– Não sei, ela pediu para falar com você, não comigo.

Ele fez cara de desconfiado e atravessou a porta, em direção ao quintal.

Eu não consegui chegar ao sofá. Assim que ele saiu da sala, eu caí no chão, gargalhando. E fiquei deitado, chorando de rir e socando o chão durante minutos.

Mais precisamente, quarenta minutos.

Sim, quarenta minutos. Este foi o tempo que meu irmão demorou para conseguir se desvencilhar da mulher. De vez em quando, eu dava olhadas pela janela, e via a mulher falando pelos cotovelos, mostrando trechos da Bíblia, e ele tentando (em vão) cortar o assunto.

Às vezes, ele arriscava rápidas olhadas na direção da janela, e, quando me via ali, assumia a sua tradicional expressão de “você vai morrer, filho da puta”.

Quando ele conseguiu se livrar da testemunha de Jeová, entrou na sala, obviamente, espumando de ódio. E não pensem que ele arrombou a porta com os pés, para dar mais dramaticidade à cena. Ele não precisou. Como até a casa em que morávamos tinha medo dele, a porta se abriu sozinha, com medo de que sobrasse para ela também.

Aparentemente, a mulher não havia conseguido fazer a palavra de Deus entrar na vida do meu irmão. Bondade e perdão não exatamente faziam parte da sua filosofia.
Pelo olhar dele, aquela história de dar a outra face não era bem o que ele tinha em mente. Aliás, ele parecia bastante disposto a esfregar a minha face no cimento da calçada.

Cazuza disse uma vez que “eu vi a morte de perto e ela estava viva”. Aquela tarde, em casa, foi pior. Eu vi a morte de perto, e ela estava sentada num canto da sala, lambendo os beiços e rindo da cara do meu irmão. E isso não me ajudaria em nada naquela hora.

Eu sabia que ia morrer, mas não conseguia parar de rir. Assim, mesmo gargalhando, assumi a posição de defesa clássica de qualquer filho caçula numa situação dessas: me encolhi no sofá e esperei pelo pior. Meus neurônios ligaram o alerta vermelho, e uma sirene começou a tocar no meu cérebro. Um deles pegou um microfone e avisou o resto do corpo para se segurar, gritando que o impacto seria iminente.

Eu estava prestes a encenar uma reconstituição da história do Titanic, na qual meu irmão interpretaria o gigantesco iceberg. E eu não seria o Titanic, e sim um barco a remo.

Por alguns momentos, naquele dia, meu irmão acreditou na Bíblia. Ou, ao menos, numa parte específica dela: a crucificação.

Foi a Paixão de Rob.

Com algumas diferenças, claro: no lugar do julgamento, foram murros; no lugar da coroa de espinhos, foram murros; e no lugar das chibatadas, foram murros. Se Barrabás estivesse na sala aquele dia, não iria escapar, teria sobrado para ele também.

Menos de um minuto depois, eu estava morto. Mas, diferente de Jesus Cristo, eu havia morrido pelos meus próprios pecados. Além disso, não precisei de três dias para ressuscitar.

Provavelmente na mesma noite (ou no máximo no dia seguinte), eu ressurgi dos mortos e aprontei alguma outra coisa com meu irmão.

E, claro, devo ter apanhado mais uma vez.

18 de novembro de 2009

O Filho do Demônio

Meu pai sempre quis uma neta. Sempre. Na verdade, ele fala tanto no assunto que, às vezes, desconfio que ele teve dois filhos somente para conseguir uma neta, já que a biologia proíbe que as pessoas pulem uma geração.

Desde que sou adolescente, ouço ele fazer esse pedido a mim e ao meu irmão. Às vezes, ele chegava até mesmo a descrever a menina, dando detalhes sobre cabelo, roupas e sapatinhos, como se a garota estivesse ao lado dele. Sério, a coisa beirava a esquizofrenia.

Já minha mãe... Bem, acredito que ela sempre quis netos, mas nunca tocou no assunto, pois sabe que isso implicaria no fato de pelo menos um dos filhos praticar sexo, o que cimentaria o fato de que eu e meu irmão somos adultos hoje (ao menos, cronologicamente falando), algo que ela, até hoje, reluta em acreditar.

Enfim, isso está próximo de acontecer. Não comigo, já que na equação filho-livro-árvore eu ainda estou no primeiro estágio, mas com meu irmão. Esta semana, fui surpreendido com a notícia de que minha cunhada está grávida, e que meu irmão, aquela pessoa que brincava de Falcon comigo na sala, vai deixar de ser filho e se tornar pai.

E eu, oficialmente, me torno tio.

Tio.

A palavra soa estranha. Sei que já passei dos 30, mas, toda vez que uma criança me chama de tio na rua, acho estranho. Sério, eu me sinto ainda como se tivesse uns 14 anos. Na verdade, toda a minha família parou no tempo, dentro da minha mente. Meus pais têm uns 40, meu irmão está chegando nos 20 e eu fiquei ali nos 14.

O tempo passou. Hora de cair na real. Ou, melhor ainda, hora de cair na real, tio.

Agora, eu vou ser sincero. Esse negócio de tio é muito legal, especialmente na parte de corromper o moleque. Sim, corromper, porque eu e meu irmão sempre tivemos um acordo: a respeito de nossos filhos, eu cuido da parte que me cabe (futebol, shows de rock) e meu irmão fica encarregado daquilo que ele entende (aulas particulares de qualquer matéria de exatas). O resto, as mães que se virem.

Mas isso me fez pensar. Sério, em que mundo nós vivemos? Como assim uma pessoa do nível do meu irmão pode ter um filho? Quem for leitor do blog e amigo meu sabe do que estou falando: meu irmão é o tipo de sujeito que deveria ter uma licença especial do Ibama para se reproduzir. Em muitos aspectos, ele é um Rob Gordon piorado (sim, isso é possível) e é, de longe, uma das pessoas mais bizarras que eu conheço.

O meu irmão reúne algumas características que Deus deve ter colocado na mesma pessoa apenas como caráter experimental, para “ver no que dava”.

Ele tem força sobre-humana e tem a frieza de um computador. Ele nunca chorou e sorriu apenas duas vezes na vida, mas estava distraído. Quando percebeu que estava sorrindo, parou e socou as pessoas que haviam percebido o que ele havia feito. Além disso, ele tem o mesmo gosto por sangue que um serial killer teria. Para se ter uma idéia, classifica futebol como “coisa de viado” e prefere esportes com... um pouco mais de contato, como futebol americano e vale-tudo.

E, antes que vocês comecem a achar que ele é um energúmeno que mal sabe escrever o próprio nome, aviso aqui que ele é físico, e a tese dele foi sobre estatística dos fótons, ou algo assim. Ou seja, o sujeito beira a genialidade.

E minha adolescência foi um verdadeiro horror, por causa da existência dele.

Além de ele ter cinco anos a mais que eu, passou metade da vida fazendo halteres. Sim, você leu certo, não escrevi musculação, escrevi halteres. Então, um dos hobbies dele era arremessar carros no outro lado da rua. Se o pintassem de verde, ele seria quase uma action figure do Hulk. (update: action figure mesmo, porque ele tem poucos (poucos mesmo) centímetros a mais que eu).

E, durante minha adolescência, toda vez que ele colocava o pé em casa e me via na sala, assistindo TV, ele não me cumprimentava com um “oi”. Ele apenas falava:

– Hora da porrada diária.

Assim mesmo, com essa displicência toda. Não tinha uma exclamação, nada disso. Era ponto final. Ele não estava bravo, apenas atestando um fato. Eu, claro, começava a me borrar e tentava escapar de alguma maneira.

– Olhe, eu apenas moro aqui...

Segundos depois, eu estava deitado no chão, gemendo, e ele na cozinha, tomando Coca.

É verdade, brigávamos o dia inteiro. Mas, como éramos apenas nós dois, as tarefas eram muito bem definidas. Eu provocava e ele socava. Cada um fazia sua parte com perfeição. Sim, eu fui um irmão caçula de merda.

E até hoje eu me pergunto o que ganhava provocando o sujeito, já que, quando ele ficava nervoso (ou melhor, quando ele fica nervoso, já que isso ainda não mudou) a coisa pega. Manjam aquelas histórias do Wolverine, quando ele perde o controle e sai fatiando as pessoas? É pior. Numa briga de bar, o Wolverine ficaria mais tranqüilo se o meu irmão estivesse no mesmo time que ele.

Querem uma prova de que não estou exagerando? Quando eu tinha uns 16 anos, tinha me estranhado com um moleque do bairro, que jurou me pegar. Eu consegui evitá-lo por alguns dias (e fiz bem, já que o moleque dava dois de mim), mas, um dia, estava voltando de um lugar qualquer com meu irmão e meu pai. Assim que colocamos os pés na rua, vi que tinha uma turminha de conhecidos perto da minha casa.

E o moleque no meio.

Resignado, aceitei meu destino, mas enfrentei como homem.

Disse a meu pai que não iria para casa naquela hora, e fui falar com o pessoal, pronto para apanhar mais que bife de pensão. Meu pai e meu irmão continuaram andando, e o moleque já veio para cima de mim. Se aproximou e começou a me encarar de perto. A surra inevitável, e uma questão de segundos.

Mas meu irmão viu tudo isso.

Antes que entendesse o que estava acontecendo, meu irmão estava na frente do moleque. A diferença de altura entre os dois era nível Rocky Balboa X Ivan Drago. Meu irmão batia no peito do moleque. Independente disso, ele olhou o sujeito nos olhos e disse:

– Se você encostar a mão no meu irmão, eu vou matar você.

Novamente, sem exclamação, sem grito, sem nada. Só o ponto final. Chupa, moleque que queria me socar. Entretanto, o sujeito ignorou o perigo que corria e deu uma risadinha de lado.

– Como assim?

– É exatamente o que você ouviu. Se você encostar a mão no meu irmão, eu vou matar você. Eu não vou bater em você, nós não vamos brigar. Você vai morrer. Não é difícil de compreender isso, até mesmo para você. Eu vou matar você.

Tudo (tudo!) com pontos finais. Ele falava com a naturalidade de alguém que pedia bebidas a um garçom. Obviamente, o moleque ficou branco, e começou a dizer que não era bem assim, que ele só queria conversar.

Fiquei sabendo depois que meu pai, que observava tudo de longe, morreu de orgulho com isso. Ao menos, por cinco segundos. Quando meu irmão se reaproximou dele, meu pai disse:

– Muito legal isso, você defender seu irmão.

– Ninguém tem o direito de bater no meu irmão a não ser eu. O Rob é meu.

Provavelmente, meu pai discordou disso, mas não teve coragem de argumentar. Ninguém tem coragem de discordar do meu irmão em alguns momentos. Aliás, na maioria dos momentos. Na verdade, em quase nenhum momento.

Agora, vamos voltar ao assunto do post. Meu irmão vai ser pai. Vocês conseguem imaginar o que essa criança vai enfrentar na vida?

Imaginem o (a) filho (a) dele, daqui a uns 15 anos, tentando explicar, durante o jantar, como ele tirou apenas dois na prova de matemática.

– É que eu não consigo entender equação do segundo grau.

– Dois não é nota que se apresente. Isso é uma nota que o imbecil do seu tio tiraria.

– Mas a classe inteira foi mal.

– Mas eu não vou matar a classe inteira. Apenas você. Tem mais suco?

– Mas, pai...

– Esta discussão não tem mais propósito. Continuaremos este assunto quando você receber a próxima nota. E o tom da conversa será definido pela nota.

– Mas, pai...

– Chega.

Pobre criança. Aliás, tenho mais pena ainda da minha cunhada, uma das pessoas mais doces do mundo, que terá que separar as brigas entre meu irmão e o herdeiro, ou herdeira.

Mas, falando sério, espero que a criança sobreviva ao meu irmão. Afinal, é bom demais saber que a linhagem Gordon não irá parar na minha geração. E, cá entre nós, vai ser delicioso viciar o filho, ou filha, do meu irmão, que adora Bossa Nova, em heavy metal. Já estou pensando em coletâneas para apresentá-lo aos clássicos do gênero.

Esta será minha nova missão de vida.

E a cada vez que meu irmão reclamar para mim sobre o “volume que o moleque ouve aquelas merdas que você mostrou”, eu vou dar um CD novo ao meu sobrinho (ou sobrinha) como recompensa.

Por outro lado, sei que meu irmão não se importará se eu moldar a cabeça do infante com alguns outros gostos. Na verdade, ele vai adorar. Segue, assim, o Top 5 Coisas que Meus Filhos e Os Filhos do Meu Irmão Vão (Obrigatoriamente) Adorar:

1. Carne
2. Filmes de Zumbi
3. Jornada nas Estrelas
4. RPG de computador
5. Carne (sim, de novo)

E aí, convenhamos, o problema será todo da minha cunhada. E quanto ao meu sobrinho ou sobrinha, um pedido: daqui a algumas décadas, venha comentar comigo sobre esse post. E não repare se eu chorar quando você fizer isso.

Sim, as pessoas são diferentes do seu pai, elas choram às vezes.

Update: Depois que escrevi este texto, fiquei pensando em algumas brigas com meu irmão. Em especial, uma delas, que, acredito, foi a vez que mais apanhei na vida. E foi merecido. No próximo post, eu conto essa história.

15 de novembro de 2009

O Amor nos Tempos do Cólera

A Besta-Fera está, neste exato momento, se digladiando com uma mosca que está presa na porta de vidro da varanda. A luta não tem favoritos, porque ambos enfrentam grandes desvantagens: enquanto a mosca não consegue entender que aquilo é uma porta, e fica tentando voar para fora através do vidro, a Besta-Fera, com sua famosa miopia, perde o inseto de vista a cada 10 segundos.

Mas, pelo andar da carruagem, se eu fosse obrigado a fazer uma aposta agora, colocaria R$ 10,00 na mosca.

Contudo, o ponto não é esse. O ponto é que estava no computador procurando algum assunto para escrever, e acabei me distraindo com isso. E fiquei pensando sobre o estilo de vida do meu cachorro.

Hoje, logo depois que acordei, fui obrigado a brincar com ele e com um dos seus brinquedos destruídos. Eu jogo o negócio para o outro lado da sala, ele sai correndo, morde o bicho e traz de volta para mim. Às vezes, ele banca o difícil e não devolve o brinquedo, fica apenas ameaçando colocá-lo na minha mão, e eu sou obrigado a arrancar da boca dele para começar a brincadeira de novo.

E assim, ele passa seus dias: ontem, por exemplo, tive que brincar de luta com ele. Aliás, não é luta, é luta e dança, porque eu e ele dançamos, às vezes. Aliás, se alguém for escrever um dia minha biografia não-autorizada, deixo uma dica aqui: eu danço apenas quando estou a) bêbado o suficiente ou b) quando estou sozinho em casa com meu cachorro. Isso, claro, sem contar as danças lentas, de rosto colado, já que um dos meus hobbies sempre foi tirar minha mãe (às vezes, minha avó) para dançar no meio da cozinha, enquanto elas faziam almoço.

Mas voltando à Besta-Fera: minha conclusão é que eu queria ter os problemas dele. Seu dia se resume a brincar comigo, dormir, ou brincar sozinho (ele está se aprimorando cada vez mais na arte de pegar meu travesseiro na cama e trazer para a sala). E seus problemas se resumem a eu cuidar dele (o que envolve desde dar comida a brincar). Ou seja, os problemas dele, na verdade, são meus.

Assim, não é preciso muita análise para descobrir qual de nós dois leva uma vida de cão.

Mas ele tem seu papel social aqui em casa, e o desempenha com esmero. Mais que um animal de estimação, ele é um roommate. Já tive outros cães antes. Aliás, cães e gatos. Mas a Besta-Fera é diferente, justamente porque eu moro sozinho. Ele é minha válvula de escape, às vezes, meu confidente, quase minha consciência.

Ontem, voltei para casa lá pela meia noite e me sentei no chão, encostado na porta, para brincar com ele. Mas, assim, que eu coloquei os pés em casa – ainda estava em pé, colocando minhas coisas na mesa – ele já havia explodido de alegria.

Eu estava fora há algumas horas, mas a felicidade dele era de uma sinceridade notável. Sim, eu sei que isso acontece todos os dias com quem tem cachorro, mas resolvi escrever sobre isso hoje. Porque, para quem tem cachorro, essa demonstração de alegria é algo banal: toda vez que você entra em casa, seu cachorro faz festa por causa disso. Ou seja, não valeria a pena nem começar a escrever sobre isso.

Por outro lado, uma demonstração de alegria como essa, tão sincera, tão “simplesmente feliz”, é algo raro hoje em dia. Chega a ser curioso você ser recepcionado por alguém (sim, ainda estou falando do meu cachorro, apesar do termo “alguém”) que está feliz apenas porque você está ali, e faz questão de demonstrar isso.

Porque a regra, hoje em dia, é você ganhar um sorriso daqueles que dizem “que bom te ver, mas ainda temos que resolver tal assunto”, “é bom te ver, mas estou muito chateado com o que você falou” ou o clássico “que bom te ver, mas estou meio sem tempo hoje, depois a gente se fala”. E ele não. Ele sempre tem tempo.

O que estou tentando mostrar aqui é que ele tem tempo não graças ao fato de não fazer nada, ele tem tempo porque, mesmo se não tivesse, ele arrumaria.

Quando eu coloco os pés em casa, ele arruma tempo e engole todas as nossas brigas e vem apenas mostrar que está feliz porque estou ali. Talvez seja o jeito dele demonstrar que, se eu estou ali e ele está ali, mais uma vez, talvez a briga que tivemos não tenha sido tão séria assim. Ou talvez seja, mas jamais será maior que a gente.

Claro que não estamos falando de um organismo psicologicamente perfeito. Descontando tudo o que falo dele aqui no blog, ele ainda tem um temperamento um tanto quanto difícil de lidar, especialmente na teimosia. Por outro lado, eu, sem parar para pensar muito, tenho toneladas de defeitos (incluindo a teimosia) – ou seja, provavelmente a desvantagem fica com ele.

Mas o número de defeitos dele – ou os meus – não importa. Porque algo está mais do que claro aqui. Mais do eu aceitar os defeitos dele e vice-versa, nós nos gostamos justamente por causa dos nossos defeitos (eu ia usar o termo “amamos”, mas dois amigos homens não fazem isso). Os meus defeitos me tornam menos “dono da casa” aos olhos dele; e os defeitos dele o tornam mais humano aos meus olhos.

Nossos defeitos, mesmo sendo diferentes, nos transformam em iguais. Essa é a graça da coisa. Assim, ele me admira como eu sou, incluindo defeitos e qualidades. E eu e ele sempre deixamos claro um para o outro que pedidos de desculpas são necessários apenas quando um de nós faz algo errado, e mais nada. Ele jamais teve que me pedir desculpas por ser quem ele é, e eu jamais tive que pedir desculpas a ele por ser quem sou.

Aliás, essa é a base da nossa convivência: a partir do momento em que nos gostamos por causa dos nossos defeitos, é fácil aprender a cada um de nós lidar com os defeitos do outro. E, com isso, as qualidades se sobressaem. Porque, sejamos sinceros: quando há amor (agora tive que usar, Besta-Fera que me desculpe) dos dois lados, há respeito. Ele me respeita, e eu o respeito. Logo, não existem defeitos, existe apenas a frase “é o jeito dele”.

E aí, penso no relacionamento que ele construiu comigo. Aliás, penso na forma que ele construiu este relacionamento. Explodindo de alegria quando eu entro em casa; pedindo para brincar quando está com vontade; não perdendo nunca uma oportunidade de ficar do meu lado – o que inclui também quando estou dormindo; colocando a cabeça sobre meu pé quando estou no computador, apenas para “ficar junto”.

E acredito que todo cachorro seja assim. Mudam as manias, as brincadeiras, as demonstrações de afeto, mas a essência é a mesma. E a nossa essência... Bem, é aquilo que conhecemos.

Nunca temos tempo para nada, sempre temos algo nos preocupando, estamos sempre chateados com fulano, com o saco cheio das atitudes de sicrano. E nunca encontramos tempo (ou vontade, ou coragem) de dizer para alguém, quando encontramos com esta pessoa, o quanto estamos felizes por ela estar ali. O quanto estamos felizes apenas por isso, por ela estar ali, com todas as qualidades e defeitos que ela possa ter.

E isso é algo que o meu cachorro, como qualquer outro cachorro, faz todos os dias.

Assim, toda vez que penso nisso, fico com uma pergunta na cabeça: quem são os verdadeiros animais: eles ou nós?

Eu sempre disse que a humanidade não deu certo. Cachorros, por outro lado, deram. Não seria nada mal se a gente conseguisse aprender um pouco com eles. Porque eu acho que eles teriam a paciência de nos ensinar - ao contrário de nós, que não temos paciência para mais nada.

O nome disso não é Preguiça; é Consciência Tranquila.