22 de abril de 2015

O Dia em que Eu Descobri Quem Descobriu o Brasil

Toda vez que estamos no dia do Descobrimento do Brasil eu me lembro da minha primeira série. Não, isso não quer dizer que eu já estava na escola quando o Brasil foi descoberto, como diriam os mais maldosos, mas sim por causa de uma das primeiras provas que fiz na vida.

Quando criança, eu era extremamente cdf (ainda se usa esse termo?).

Minhas notas eram todas acima de oito e eu segui nessa toada até a sexta ou sétima série. Na oitava série minhas notas caíram e eu peguei recuperação pela primeira vez na vida. Mas, aí, no primeiro colegial a coisa desandou. Foi nessa época que comecei a fumar, beber, deixar o cabelo crescer. Resultado: tomei bomba, fiz o primeiro colegial mais uma vez e tomei bomba novamente.

Mas essa historinha sobre o descobrimento do Brasil não acontece nessa época, e sim quando eu tinha seis ou sete anos, e morava em Manaus – leitores mais antigos sabem que morei no Amazonas durante dois anos. Era uma época boa, em que eu era uma criança feliz descobrindo o mundo enquanto fazia amigos, conhecia novas matérias e arrancava pedaço da mão de um menino com uma mordida no meio do pátio da escola.

É engraçado que eu não consigo me lembrar da prova em si, apenas da questão sobre o Descobrimento do Brasil, que era a última. O texto era assim:


10) O Brasil foi descoberto em 22 de abril de 1500. Quem descobriu o Brasil?
Resposta:



Não sei se eu lembrava ou não o nome do sujeito que descobriu o Brasil, mas não dei atenção a isso. Pois essa foi a primeira vez que usei a lógica para responder uma questão. O Brasil havia sido descoberto em 1500. Ou seja, mais de quatrocentos anos atrás (sim, na época o país ainda não tinha 500 anos, isso aconteceu no começo dos anos 80).

E quatrocentos anos era muito tempo. Não apenas para um país, mas principalmente para uma pessoa. Eu não conhecia ninguém que havia vivido tanto tempo. Quer dizer, tinha o Fantasma, mas ele não vale, já que ele não é imortal de verdade, já que o filho sempre assume o lugar do pai.

Meus avós que eram as pessoas mais velhas que eu conhecia tinham entre 60 e 70 anos. Quatrocentos anos era tempo demais. Foi quando percebi que a resposta estava à minha frente o tempo inteiro. Preenchi o espaço e entreguei a prova.

No dia seguinte, recebi a prova corrigida. Nove.

Era uma boa nota – se você somar todas as provas de química que fiz no meu primeiro-primeiro colegial deve chegar, quando muito, a uns seis. Mas eu era cdf e me indignei com isso. Corri os olhos pela prova procurando o que eu havia errado e pronto.

Lá estava o enorme X vermelho, bem ao lado da questão sobre o descobrimento do Brasil. Eu havia errado a maldita questão em que usei a lógica, ultrapassando meus limites e buscando o conhecimento e as repostas pelo meu próprio esforço, sem usar os livros. E havia fracassado.

Mas não desisti. Ignorei aquilo e continuo acreditando naquilo que descobri durante a prova da primeira série. Às vezes, em 22 de abril como hoje, eu ainda me lembro da minha resposta.


10) O Brasil foi descoberto em 22 de abril de 1500. Quem descobriu o Brasil?
Resposta: UM VELHO.



E ainda acho que estou certo. Mais de quatrocentos anos (hoje, mais de quinhentos) é tempo demais para uma pessoa. 

16 de abril de 2015

Estamos em Casa

Mais de quinze anos atrás, eu deixei um trailer carregando na internet. Era a época da internet discada e para assistir a um trailer você precisava abri-lo e ir fazer qualquer coisa que durasse uma hora (ou mais) até que ele tivesse carregado totalmente. Era uma tarde e eu estava na minha casa com minha mãe, minha tia e meu primo.

Quando o trailer carregou, eu chamei todos para assistirem. Apaguei as luzes do quarto, fechei a janela... Eu queria transformar meu quarto num cinema antes de apertar o play.

Era o trailer de Episódio I. Na época, não sabíamos que o filme era ruim. E se soubéssemos disso, não nos importaríamos. Episódio I não foi um filme que passamos mais de dez anos para ser feito; foi um filme que passamos mais de dez nos perguntando se ele seria feito.

Desde que eu saí do cinema em Serra Negra, onde estávamos passando férias, após ver O Retorno de Jedi (eu já havia assistido ao primeiro filme, que ainda se chamava Guerra nas Estrelas, e a O Império Contra-Ataca, na televisão), eu queria mais um filme de Star Wars.

E o trailer estava ali, na minha frente. Lembro de falar um palavrão ao ver Darth Maul acionar seu sabre de luz duplo, e ter entrado em choque com a frase “Anakin Skywalker, meet Obi-Wan kenobi”. Minha vida mudou naquele dia. Não me importa se o filme é ruim. Ver aquele trailer foi um dos momentos mais felizes da minha vida.

Lembro que, ali no quarto, eu queria ver nas outras pessoas o que eu estava sentindo. Mas minha mãe disse que o trailer era legal e minha tia disse que parecia ser um filme bacana. Então, corri na direção do moleque.

– Ajude-me, meu primo. Você é minha única esperança.

– Achei legal.

– Legal?!

– Eu não conheço Star Wars. Nunca vi.

Não era culpa dele. Ele cresceu numa época em que Star Wars era algo esquecido, cultuado somente por gente mais velha que ele. Mas algo precisava ser feito. Afinal, a Força é forte na minha família. Eu tenho. Meu pai tem. Meu irmão tem. Meu primo precisava ter.

Coloquei-o na sala e iniciei uma maratona. Na metade de O Império Contra-Ataca a mãe dele surge na sala falando que eles iriam embora, e ele dispara “não, vou dormir aqui, quero terminar de ver esses filmes”.

Missão cumprida. Meses depois, ele entra no cinema ao meu lado para ver Episódio I no dia da estreia.

Mas não era a mesma coisa. Episódio II também não. Episódio III consegue ser um pouco melhor... Mas ainda não era a mesma coisa. Não nos importávamos, claro. Estávamos de volta àquela galáxia distante, onde o mundo parece fazer um pouco mais sentido que na galáxia onde moramos – mas ainda tenho mais carinho pelas vezes que fui ver as edições especiais no cinema e praticamente falei o filme inteiro junto com os atores.

Alguns anos depois de ver estre trailer, os créditos finais de Episódio III sobem pela tela e você pensa “agora, sim, acabou”.

Passei os anos revendo os filmes da saga, lendo os livros do Universo Expandido. Trabalhei com isso, como muitos leitores deste blog sabem; dei palestras em convenções de fãs, entrevistei atores da saga. Sempre com o maior profissionalismo do mundo (menos quando Anthony Daniels falou comigo com a voz do C-3PO, que quase me fez ter uma síncope no meio de uma entrevista). Vi Star Wars atravessar as mídias, indo do VHS para o DVD, do DVD para o Blu-ray (cheguei a brincar com a minha ansiedade para comprar a saga em Blu-ray aqui).

E, todas as vezes que assisto aos filmes – e aqui estou falando, sim da Trilogia Original – eu volto a ser o menino que se encanta com os filmes pela primeira vez. Quero ser Luke Skywalker e ganhar um beijo no rosto da Leia, quero ser o Han Solo e gritar que “certo, garoto, agora explode esse negócio e vamos embora”. Quero salvar a galáxia, que é algo que toda criança dos anos 80 queria fazer. E que é algo que toda criança precisa querer uma vez na vida.

Eu quero salvar a galáxia toda vez que assisto aos filmes. Mas eu sabia que nunca mais salvaria a galáxia de uma forma diferente da que conheço. Eu tinha apenas os três filmes originais que assisto como criança, e os três filmes novos que assisto ou como fã emburrado (vendo apenas os defeitos) ou como fã esperançoso (certo de que tem coisas boas ali). Mais nada.

E aí nós cortamos para hoje. O mundo sabe que um novo filme está sendo feito. O mundo sabe que os atores principais da primeira trilogia voltam. E o mundo sabe que a Millenium Falcon apareceu no primeiro teaser.

Mas foi no teaser lançado hoje que a coisa complicou. Novas cenas. Novas imagens. Novos cenários. Mas é no final do filme que surge um Han Solo envelhecido ao lado do Chewbacca. Eu já havia chorado em trailers antes – o primeiro Homem-Aranha foi a primeira vez, acho. Mas nunca desse jeito. Porque quando Han Solo abre a boca, ele não está falando com Chewbacca.

“Estamos em casa”.

Ele está falando com aquele menino que está eternamente saindo do cinema em Serra Negra querendo ter um sabre de luz e olhando para o céu e se perguntando “será que um dia...?”.

Trinta anos depois, esse menino finalmente está em casa. Navegando pelos planetas que ele se orgulhava de saber o nome de cor. Pilotando as naves que ele pesquisou como funcionavam. Usando armas que ele sabe para que servem. Peitando o Jabba, desviando de asteroides, explodindo a Estrela da Morte, enfrentando o Vader e dizendo que nunca vai para o Lado Negro - que é algo que todo menino precisa fazer um dia.

E foi esse menino que mora dentro de mim que começou a chorar compulsivamente nesse minuto. Nesta cena, eu vi minha vida inteira... Mas eu não sou importante. É este menino que importa. Quando se trata de Star Wars, é apenas ele que importa.

E, nesta única cena do teaser, esse garoto viu que pode sonhar para sempre.

Porque ele não é um garoto. Ele é um herói. Especialmente quando ele está ao lado dos seus velhos amigos.

Especialmente quando ele está em casa, numa galáxia muito distante.




9 de abril de 2015

Aristogatas from Hell

Existem dias em que eu não sei quantos gatos existem na minha casa. Não é exagero. O dia que passar a mulher do censo por aqui e perguntar quantos animais existem em casa, eu vou ter grandes dificuldades para responder. Capaz de eu ter que precisar pensar um pouco, fazendo contas nos dedos.

Oficialmente, temos três gatos. Mas isso contando somente aqueles que ficam dentro de casa. Porque, quando você atravessa a porta da sala, a coisa muda de figura, já que os gatos do vizinho não moram mais no vizinho, e sim aqui (acredito que eles ainda não mudaram o endereço de correspondência para minha casa, mas deve ser questão de tempo).

O primeiro deles é o Siamezinho do Vizinho, cujo nome é autoexplicativo, já que ele é um siamês pequeno que mora na casa do vizinho.

Assim como o Nermal, do Garfield, ele sofre de alguma doença que o mantem como filhote durante a vida inteira – a única parte de seu corpo imune a essa doença parecem ser seus órgãos sexuais, que são bizarramente adultos (e isso pensando não em um siamês adulto, mas em um leão adulto e bem dotado, o que certamente faz com que ele seja extremamente popular na comunidade felina aqui do quarteirão).

E ele não é filhote somente no tamanho, mas também em suas atitudes. Basta eu ir fumar no quintal que ele aparece do nada – o que não é exagero, já que ele parece ter também a habilidade de teletransporte. Eu estou fumando sozinho e de repente o siamês está nos meus pés, se enroscando no meu tornozelo e brincando com meu cadarço.

Também temos os dois detentos de Oz. São dois gatos pretos exatamente iguais que estão sempre aqui ao redor, praticando seu esporte favorito: estuprar o outro. Enquanto escrevo isso, me ocorre que talvez somente um seja o estuprador e o outro seja a vítima, mas como eles são exatamente iguais – provavelmente irmãos, o que deixa a coisa ainda mais doentia – eu nunca sei quem é quem.

Na verdade, está me ocorrendo aqui que eu nem mesmo sei se são machos ou fêmeas. Claro que o mais provável é que seja um macho e uma fêmea, mas nada impede que sejam dois machos (e não, eu não tenho problemas com isso, e sim com o fato deles serem irmãos). Claro que também podem ser duas fêmeas. Dado a quantidade de estupros que eu escuto acontecendo aqui todo dia, isso é improvável, mas possível – mas apenas se os vizinhos comprarem os brinquedos dos gatos numa sex shop, e não na Cobasi.

E, por fim, temos o Gato do Telhado – que apareceu aqui emcasa alguns meses atrás. É o rei do quintal e sabe disso, tanto que passa o dia inteiro no telhado observando seus súditos com ar de superioridade. Acredito que não tem muita coisa para ver, já que seus súditos se resumem a um gato com um pênis categoria “flagelo de Deus” e dois irmãos que passam o dia fazendo troca-troca. Mas, mesmo assim, ele mantém a dignidade do alto das telhas – afinal, é melhor reinar no inferno que servir no céu.

Eu o chamo, por motivos óbvios, de Coronel Telhada. E ele se tornou uma espécie de xodó da minha vida: todas as noites eu desço até a garagem, coloco comida para ele e troco sua água – quando estou viajando a trabalho, fico lembrando a Esposa de fazer o mesmo. Ele desce e come, e os súditos respeitam isso, esperando ele estar satisfeito antes de avançar na ração.

Três gatos dentro de casa. Quatro gatos fora. Sete gatos, o que praticamente me classifica como uma versão felina do Flautista de Hamelin. E os gatos parecem gostar muito da gente, tanto que deixaram um presente para nós no meu aniversário de casamento. Era um rato morto que estava na garagem, ao lado do carro, mas o que vale é a intenção, certo?

Agora, de uns dias para cá, as coisas mudaram um pouco. Outro dia eu desci para dar comida para o Coronel Telhada. Eram quase onze da noite e a garagem estava escura. Ao lado do pote de ração, tem uma caixa de papelão com um pano velho dentro – algo que coloquei na garagem no inverno passado, quando cismei que estava frio demais para um gato que mora no telhado. Ele nunca usou, mas a caixa continua lá.

E, neste dia, quando me aproximei do pote de ração, vi que dois olhos me observavam de dentro da caixa. Atrás dos olhos, um gato branco. Era o Siamezinho do Vizinho, provavelmente brincando dentro da caixa, e eu me abaixei para brincar com ele.

Foi quando eu percebi que havia algo errado.

– Você não é o Siamezinho do Vizinho!

Como se querendo concordar comigo – ou, pior, conversar mais de perto – ele saiu da caixa.

Aliás, ele não saiu da caixa. Ele primeiro começou a desdobrar e colocar as pernas para fora. Só depois de uns dez segundos o seu corpo terminou de sair da caixa de papelão. Era uma criatura branca, com olhos vermelhos e com um tamanho que ficava entre um urso polar e uma morsa.

– O que você quer comigo? Onde está o Siamezinho do Vizinho?

– GRRRRRAUUUUUUURRRRRRRR!

– PUTA QUE PARIU!

Eu não sei se algum animal selvagem resolveu migrar para a caixa de papelão na garagem, ou se ela ficou tanto tempo que se tornou uma espécie de portal para o inferno, e um dos demônios resolveu invadir nosso planeta (talvez atraído pelos ruídos pecaminosos dos dois detentos de Oz).

Mas eu não tinha tempo para pensar sobre isso. A criatura avançou na minha direção e eu saí correndo, largando a ração no chão e torcendo para que isso desviasse a atenção do bicho. Não deu certo. Eu estava no meio da escada, correndo pela minha vida, quando ele rugiu mais uma vez.

– GRRRRRAUUUUUUURRRRRRRR!

Senti uma pontada no tornozelo e caí no chão. Minha perna queimava e olhei para trás apenas para descobrir um enorme tentáculo, de quase três metros de altura, que saiu da boca do bicho e me agarrou pelo tornozelo, tentando me puxar de volta para a garagem.

Tudo o que consegui fazer foi sacudir as pernas, mas aparentemente deu certo. Consegui fazer o negócio desgrudar da minha perna, junto com meu tênis. Assim, aproveitei para subir o resto da escada – enquanto ouvia os barulhos do monstro mastigando meu tênis – ao mesmo tempo em que a Esposa, curiosa com os barulhos, abria a porta.

Era minha chance. Entrei correndo na sala.

– O que você está fazendo com os gatos?

– FECHE A PORTA! FECHE A PORTA!

– Dá para ouvir o barulho da sala.

– FECHE A PORTA! ELE VAI ENTRAR AQUI!

Antes que ela fechasse a porta, vi a criatura no final da escada, olhando para mim. Era uma espécie de Mugato, e seus olhos me disseram que ele não iria esquecer isso tão cedo.

Mas a porta se fechou e eu estava em segurança na sala.

E não saio mais daqui. A vida lá fora também mudou. O Coronel Telhada não aparece mais com tanta frequência, e os gatos do vizinho estão sempre desconfiados, como se pressentindo o mal que emana daquela caixa de papelão.

Meu tênis continua lá embaixo. Se o Mugato não o destruiu completamente, os dois detentos de Oz devem estar o usando para algum de seus jogos pervertidos de sedução.

E já disse para a Esposa que é melhor pararmos com esse negócio de colocar ração no quintal. Ao menos, até as coisas se acalmarem.

30 de março de 2015

O Moisés de Ridley Scott

Quando eu era criança, fomos uma das primeiras famílias – ao menos entre meus amigos – a ter videocassete. Isso porque, como moramos em Manaus entre 1980 e 1982, voltamos para São Paulo trazendo na bagagem um aparelho comprado na Zona Franca e a maior parte dos meus amigos nunca tinha visto algo parecido. Meu amor nasceu por cinema nasceu nessa época.

Pouco mais de trinta anos depois, eu recebi por e-mail um convite para assistir ao filme Êxodo – Deuses e Reis, por download digital em HD. Achei uma coincidência apropriada que a primeira vez que eu assistisse a um filme neste formato fosse justamente um filme de Ridley Scott.

Afinal, atravessei praticamente todos os sistemas de home entertainment. Foram três décadas em que descobri novos formatos de ver filmes. E, talvez mais importante, foram três décadas em que descobri novas maneiras de ver os filmes de Ridley Scott, desde que assisti a Alien – O Oitavo Passageiro numa fita pirata.

Quando o mercado de VHS se tornou oficial, Scott seguiu na minha televisão, desta vez em fitas mais caprichadas. 1492 – A Conquista do Paraíso, Chuva Negra e, claro, Blade Runner, que, depois de tanto alugar o VHS, foi uma das primeiras fitas que comprei quando o mercado decidiu apostar em sell-thru. Mas foi somente graças à TV por assinatura que finalmente consegui assistir ao primeiro filme dele, Os Duelistas. Logo depois veio o DVD – e quem pode negar que o primeiro grande lançamento do formato no Brasil foi Gladiador? Ainda tenho em algum lugar aqui em casa a primeira edição nacional, com a embalagem negra e assinatura do diretor em dourado. E, por fim, veio o Blu-ray, que me permitiu revisitar os filmes antigos de Scott – descobrindo que eles foram feitos, mesmo, para serem vistos em HD.

Agora a mídia física chegou ao fim e nada mais justo que os filmes de Ridley Scott estejam comigo. Apesar de sua carreira já ter visto o auge, um dos cineastas mais inovadores da minha geração merecia ter a honra de inaugurar um novo formato de assistir a filmes na minha vida – eu já havia assistido a filmes por streaming, mas nunca em download (o filme está disponível no formato desde o último dia 26, e o processo é extremamente fácil e prático).

Confesso que não tive vontade de assistir à sua versão de Moisés no cinema, por ter me decepcionado com os últimos trabalhos de Ridley Scott. Mas o filme me surpreendeu. Não necessariamente pela sua qualidade técnica – poucos diretores atuais usam os recursos digitais com tanta competência na criação de cenas épicas como Scott – mas pela sua ousadia.

Em outras palavras: esqueça o clássico Os Dez Mandamentos. O Moisés de Charlton Heston é uma figura totalmente diferente do Moisés de Christian Bale. Ou, melhor dizendo, do Moisés de Ridley Scott. As cenas grandiosas – e são muitas – talvez façam você pensar que está assistindo a um épico dos anos 50. Mas a semelhança acaba por aí.

Se o Moisés consagrado no filme de Cecil B. De Mille é um herói bíblico, com uma missão muito bem definida, o de Êxodo – Deuses e Reis é mais humano que se espera: na verdade, é um homem em busca não apenas de sua própria identidade como do seu destino. Aliás, pode-se dizer que o filme não é nem mesmo sobre Moisés, mas sim sobre sua fé.



Praticamente todas as passagens clássicas de história de Moisés podem ser explicadas como fenômenos naturais, desde as pragas que assolam o Egito (em uma cena, um médico da corte de Ramsés explica como cada praga é consequência da anterior) até a famosa abertura do Mar Vermelho, que possibilita os hebreus uma chance de atravessá-lo em segurança. As explicações para cada um dos fenômenos são convincentes não apenas para o espectador como para quase todos os personagens do filme...

Menos para Moisés.

Pois Moisés sabe que são obras de Deus, graças às cenas mais interessantes – e ousadas do filme – nas quais ele conversa com Deus, que assume a forma de uma criança.

Ao invés da tradicional submissão mostrada em filmes bíblicos, Moisés cresce como personagem justamente nestes momentos, em que ele simplesmente se recusa a “apenas obedecer” a Deus, chegando até mesmo a discutir com Ele em alguns momentos. E é justamente isso que reforça sua identidade, concluindo a cena, vista logo no início do filme, em que se explica o significado da palavra israelita. Moisés não precisa aprender somente a ser líder, mas sim o emissário de um deus que ele não compreende totalmente.

Para quem espera um espetáculo visual – algo normal nos filmes do diretor – o filme cumpre o prometido. As cenas do Egito Antigo, especialmente das construções dos grandes monumentos, com tomadas aéreas de tirar o fôlego, talvez sejam as mais belas já vistas no cinema, e o HD apenas valoriza isso. O mesmo acontece com as (muitas) cenas de ação do filme.

Agora, para quem deseja conhecer uma nova leitura da história de um dos mais famosos personagens bíblicos, Êxodo – Deuses e Reis é visita obrigatória – não apenas pelo drama de Moisés, mas também pela cena em que “explica” como a história que se passa nas telas irá se transformar em guerras religiosas que o mundo assistiu ao longo dos séculos – e que continuam acontecendo.

Num mundo onde pessoas matam cada vez mais em nome de um fanatismo religioso, talvez não haja mais espaço para personagens que simplesmente abrem o mar com um cajado ou transformam as água do Nilo em sangue, usando o poder de Deus.

E Ridley Scott sabe disso.


Trailer:




O blog assistiu ao filme a convite da Fox.


29 de março de 2015

A Lição que Aprendi com Meu Pai

Eu me lembro da primeira lição que aprendi com meu pai.

Estávamos saindo da igreja. Quando eu era criança, meu pai me levava à igreja todos os domingos. É engraçado que eu não me lembro da missa em si, apenas de que eu estava carregando o ramo de uma planta, pois era o domingo antes de Páscoa.

Nessa data, o padre fazia uma espécie de procissão, com todas as pessoas da missa andando pelas ruas ao redor da igreja, com um ramo da planta erguido. Nunca vi isso acontecer em outro lugar e tenho certeza de que deve existir uma explicação para isso, mas sempre me esqueço de procurar.

Mas a bronca que tomei não aconteceu na procissão. Se você está imaginando que eu fiz algo errado com a planta – eu também imaginaria isso – se enganou. Foi depois da missa, quando estávamos indo para o carro.

Eu estava ao lado de meu pai. Minha mãe e minha avó seguiam logo atrás. Consigo até mesmo ver a cena, anos atrás. Em uma mão eu carregava o ramo da planta e, com a outra segurava a mão de meu pai, provavelmente me sentindo seguro em ver como a mão dele era maior que a minha. E me lembro de atravessar a rua apressado com ele – talvez um carro estivesse vindo.

Foi no outro lado na rua que o vi. Era um homem, adulto como pai, encostado na varanda de sua casa, fumando e olhando alguma coisa nas mãos. Provavelmente, observando as pessoas irem embora da missa, que me parece algo que as pessoas fazem numa manhã preguiçosa de domingo. Mas eu não pensei no que ele estava fazendo. Tudo o que eu consegui pensar foi que ele parecia pelado.

Ele não devia estar pelado. Provavelmente estava usando uma bermuda, talvez até mesmo uma calça. Mas eu só vi que ele estava sem camisa e constatei que ele parecia pelado. Assim, eu gritei para ele a mesma coisa que minha avó gritava para mim quando eu saía pelado do banho.

- Ei, peladão! Por que você está peladão?

Imediatamente, meu pai me deu um safanão e gritou “que falta de respeito!”, e eu não entendi direito, porque minha avó gritava isso para mim também. Antes que eu pudesse entender o que havia feito de errado, meu pai olhou para o homem na casa e pediu desculpas, disse que eu não costumava ser assim.

Eu não me lembro do rosto do homem, mas outro dia perguntei isso para meu pai. Ele não se lembrava da história. Mas eu lembro que o homem começou a gargalhar com meu grito – eu lembro bem do som da risada dele, ele era daquelas pessoas que riem alto – e deu tchau para mim. Meu pai pediu desculpas novamente, e o homem, ainda rindo, disse que não tinha problemas.

E acenou para mim, me dando tchau e gritando que “eu prometo que vou colocar uma roupa”. E ainda ria, fazendo com que eu entendesse menos ainda porque aquilo havia sido falta de respeito e porque meu pai havia ficado bravo. E eu tenho certeza que lembro que, quando meu pai viu que o homem estava gargalhando, começou a rir também, mesmo sem parar de pedir desculpas.

Quando entramos no carro, meu pai me explicou que eu não podia fazer esse tipo de coisa. Disse que eu precisava respeitar as outras pessoas na rua, mesmo quando elas pareciam estar fazendo algo diferente ou engraçado. Disse também que muitas vezes elas não estariam fazendo nada demais, e que nós acharíamos que estavam apenas porque não as conhecíamos. E no final, ele disse, com ar sério, que mesmo se elas estivessem fazendo algo diferente, eu precisava respeitar cada uma delas, exatamente como eu gostaria que elas me respeitassem.

Nunca esqueci isso. Carreguei comigo essa história, como uma daquelas memórias de infância que escolhem ficar guardadas. Não sei onde foi parar o ramo da planta, mas o respeito pelos outros, que meu pai me ensinou, continua comigo. E pretendo ensinar o que aprendi com meu pai aos meus filhos.

E eu nunca descobri que o homem que estava na casa perto da igreja, aquele que eu achei que estava peladão e que gargalhou com meu grito, voltou para dentro de casa e escreveu, em seu blog, sobre a primeira lição que aprendi com meu pai, neste texto que você acabou de ler.