12 de dezembro de 2014

Minha Manhã em Uma Frase

Você liga para a Vivo e uma gravação atende dizendo que está tentando identificar sua assinatura pelo seu telefone mas logo em seguida diz que não consegue e pede o seu CPF que você prontamente digita e a gravação começa a dar dezenas de opções sendo que nenhuma delas remete a um humano e você espera pacientemente até que uma pessoa atenda o telefone e você explica a ela que contratou o serviço de fibra ótica mas como já é cliente quer saber se é preciso cancelar a internet do mesmo endereço ou se isso acontece automaticamente e ela diz que não trabalha com fibra ótica apenas com banda larga e não pode te ajudar e você diz que é justamente sobre banda larga que você quer falar mas ela não te escuta e manda você ligar em outro número e você faz isso apenas para dar de cara com a gravação novamente que tenta reconhecer o seu telefone e não consegue e que então pede que você digite seu CPF mas você não consegue porque está tão suado por causa do calor que está fazendo em São Paulo que o celular está molhado e você aperta um ele escreve dois, você aperta sete ele escreve nada e você aperta nove ele escreve batata e a gravação pede seu CPF novamente e você tenta digitar e não consegue e grita um palavrão e vai fumar um cigarro antes de ligar de novo e quando você liga de novo a gravação atende de novo e tenta te reconhecer pelo telefone de novo e não consegue de novo e pede o seu CPF e você que estava evitando encostar o celular na orelha para ele não transpirar junto com você digita seu CPF e a gravação diz que vou fazer algumas perguntas para o atendimento e pede para que você diga claramente qual o motivo da sua ligação e você diz que precisa falar sobre o plano de internet e ele diz que não entendeu e pede para você repetir e você diz que você quer falar sobre banda larga e ele diz que não entendeu e pede para você repetir e você diz mais alto que precisa falar sobre a internet e ele diz que não entendeu e pede para você repetir e você grita que precisa falar com um pessoa que trabalhe aí caralho e ele diz que não entendeu e pede para você repetir e você grita apenas internet e ele diz todo pimpão que entendi e que agora eu vou passa o protocolo do atendimento para você anotar sete oito nove dois um sete oito três cinco quatro zero nove oito sete um quatro cinco três oito um nove dois zero três cinco e você sente seu cérebro derretendo quando ele dá dezenove opções para você discar e aquela que faz você falar com uma pessoa é a última e você disca o nove e fica mais ou menos sete minutos escutando um misto de dança do ventre com bossa nova até que a mulher atende e pergunta o que você quer e você explica que acabou de comprar a fibra ótica e quer saber como é o procedimento com o plano antigo de internet e se é preciso cancelar ou se é automático mas a mulher interrompe você e pede o seu CPF e você confirma o CPF e ela pede seu nome completo e seu endereço e você confirma o nome completo e o endereço e então ela pergunta no que você pode ajudar e você diz que acabou de comprar a fibra ótica e ela diz que não trabalha com fibra ótica e você pede para que ela espere você terminar de falar porque você comprou a fibra ótica mas precisa saber o que fazer com o plano de internet antigo e ela diz que não pode ajudar porque não trabalha também com a outra internet e você se pergunta então porque me deram o seu telefone mas ela apenas diz que você precisa ligar em outro número e você agradece e desliga o telefone socando as paredes da sala e pedindo por um morte rápida e indolor que acabe logo com tudo de uma vez porque seria muito mais fácil e você liga para o outro número achando que é uma estranha coincidência que o telefone tem apenas cinco números e três deles formam o número da besta e assim que acaba de digitar você implora para que a gravação tenha saído para almoçar e uma pessoa atenda o telefone mas quem atende é a gravação que diz que vai tentar identificar você pelo número de telefone, mas logo avisa que não conseguiu e pede para você digitar o seu CPF e você não consegue digitar nada porque o celular está molhado de suor novamente e quando você digita um ele escreve cinco e quando você digita zero ele disca três três três três e você desliga o telefone antes de jogá-lo na parede e vai fumar outro cigarro pensando se é fácil conseguir o endereço da Anatel e onde será que vendem explosivos até que você liga novamente e a gravação atende e diz que vai tentar localizar você pelo número de telefone e tudo o que você fazer é responder com uma gargalhada histérica e a gravação diz que não consegue localizar e precisa do seu CPF e você digita o CPF esmurrando o telefone e torcendo para que ele não digite nada pois é o único motivo que você precisa para ir até o quintal e arremessá-lo na rua de preferência embaixo de um ônibus e desistir de celular e de internet e de fibra ótica e ir morar numa caverna sem nunca mais falar com ninguém mas o CPF digita e ele pede para que você diga de forma clara o que você deseja e você responde que quer falar sobre o plano de internet e ele diz que não entendeu e pede para que você diga de forma clara o que você deseja e você diz que precisa falar com um atendente e ele diz que não entendeu e pede para que você diga de forma clara o que você deseja e você grita morrer e ele diz que não entendeu e pede para que você diga de forma clara o que você deseja e você resmunga apenas internet olhando ao redor para suas coisas e pensando se isso é vida e se não tem algum tipo de existência em que as coisas valham a pena talvez uma casa no meio do nada com uma hortinha umas duas ou três galinhas e mais nada mas aí a gravação começa a dar alternativas para você discar dependendo do seu problema e nenhuma das alternativas diz respeito a você até que finalmente ele diz que você pode falar com uma pessoa digitando algo e você digita algo e ele informa que o protocolo do atendimento é sete cinco nove três quatro oito três um dois cinco nove sete cinco quatro cinco seis oito sete nove dois três e se você quer que ele repita e tudo o que você consegue pensar é se trancar no quarto e beber até morrer mas quando você está escolhendo qual garrafa de uísque levaria com você a atendente surge no telefone e pede o seu CPF e você não reclama que já digitou o seu CPF e dá assim mesmo e pede o seu nome completo e o seu endereço e você fala o nome completo e o seu endereço e pergunta no que pode ajudar e você diz que contratou a fibra ótica e quer saber o que você faz com o plano antigo se ele é cancelado automaticamente se ele é atualizado ou se você pode usar o plano antigo para se enforcar no banheiro no meio da madrugada e ela diz que você precisa cancelar mas que o cancelamento é imediato e pergunta se pode cancelar e você diz que não que não pode ficar sem internet até a fibra ótica ser instalada porque você ainda não se enforcou no banheiro nem foi morar numa caverna ou num sitiozinho no meio do nada e ela diz que no dia que a fibra ótica for instalada é preciso entrar em contato novamente e solicitar o cancelamento e você pergunta se tem algum jeito de eu ligar direto para você sem precisar falar com aquela gravação que trata as pessoas como deficientes mentais e ela diz que não e você agradece e ela agradece e diz que sua ligação importante e você diz que ok e ela deseja uma boa tarde e desliga o telefone e você senta no chão da sala e começa a chorar porque de repente tudo parece tão vazio que você precisa apenas ficar sozinho um pouco.

6 de dezembro de 2014

O Dia que Peguei Táxi com Scott McKenzie

Dias atrás postei um texto sobre meu problema com o chuveiro de hotéis. Foi um texto postado diretamente de Anápolis, onde eu estava. Horas depois, voltei para São Paulo. Avião lotado – e na hora do embarque ficamos sabendo que era assento livre. Cumbica lotado. Ônibus de Cumbica até Congonhas lotado.

É importante lembrar que as palavras “lotado” do parágrafo acima não se referem à quantidade de pessoas, mas sim a de mal-educados. No avião, a pessoa à minha frente deitou o encosto do banco assim que se sentou, praticamente deitando a cabeça no meu colo. Estava quase perguntando se o sujeito queria um cafuné quando ele foi obrigado a subir o banco para o avião decolar.

O avião estava a meio metro de altitude quando o sujeito abaixou o banco de novo. O avião estava a cinco metros de altitude quando o sujeito começou a dormir. O avião estava a dez metros de altitude quando o sujeito começou a roncar. Foi assim até São Paulo – ou quase, já que sempre que ele roncava mais alto eu enfiava o joelho no encosto.

Em Cumbica? Desci e fui quase pisoteado por uma família que correu para entrar no ônibus que leva ao terminal, provavelmente para irem sentados. No aeroporto, fui atropelado por três carrinhos de bagagem. No ônibus até Congonhas, a menina à minha frente também deitou o banco, sendo que ela desceu na primeira parada (Tietê), dez minutos depois. É muita vontade de descer o banco.

Assim, depois de passar três dias trabalhando muito, dormindo pouco – e felizmente dando risadas com amigos que não via há muito tempo – e três horas sendo esmagado, pisoteado, amassado, despertado, empurrado, puxado, chutado e socado... Embarquei no táxi.

De Congonhas até minha casa daria coisa de dez minutos. Eram dez minutos que eu queria apenas ficar sozinho, em silêncio. Talvez, como eu adoro conversar com taxista, bater papo sobre a chuva, o frio que estava fazendo, sobre “como tem gente a essa hora na rua”... Mais nada.

Mas não deu certo.

Entrei no táxi e o som estava no máximo. O Frejat estava gritando alguma coisa sobre tudo o que ele oferecer é seu calor e seu endereço. Pensei em comentar com o taxista que a essa hora da manhã, voltando de viagem, ninguém tem um amor, grande amor, mas quando abri a boca o Frejat pediu para que o grande amor durasse apenas o tempo que mereça. Com a cabeça doendo, eu resmunguei um “puta que pariu, eu mereço” e o taxista deve ter achado que eu estava cantando junto.

Finalmente o Frejat calou a boca, dando lugar aos primeiros acordes de San Francisco (Be Sure to Wear Some Flowers in Your Hear) e nada do taxista abaixar o som. Nada contra a música, Scott McKenzie, flower power e tal... Mas às vezes a única música que a gente quer ouvir é o silêncio.

Assim, decidi começar a falar com o sujeito. Se ele não ouvisse o que eu estava falando, ele seria obrigado a abaixar o som do rádio. Plano de mestre.

Ou não, já que foi a pior decisão que tomei na vida.

Virei para ele e disse:

- Que horas começou a chover aqui?

- Olha, foi mais ou menos IF YOU’RE GOING TO SAN FRANCISCO ontem estava BE SURE TO WEAR SOME FLOWERS IN YOUR HAIR e agora está assim.

- Como?

- Ontem mesmo eu IF YOU’RE GOING TO SAN FRANCISCO e aí eu fui YOU’RE GONNA MEET SOME GENTLE PEOPLE THERE nunca mais volto.

- Eu não entendi o que FOR THOSE WHO COME TO SAN FRANCISCO

- E o mecânico que SUMMERTIME WILL BE A LOVE-IN THERE para mim? Eu nem quis IN THE STREETS OF SAN FRANCISCO foi o que eu disse.

- Como é?

- Eu não sou bobo para GENTLE PEOPLE WITH FLOWERS IN YOUR HAIR você não concorda?

- Eu não posso concordar, eu não estou ouvALL ACROSS THE NATION SUCH

- A STRANGE VIBRATION porque PEOPLE IN MOTION tô errado?

- Será que não dá para THERE’S A WHOLE GENERATION WITH A NEW EXPLANATIONosta de música hippie?

- Mecânico é MESMPEOPLE IN MOTION PEOPLE IN MOTION. Sempre foi assim. Depois não sabe porque FOR THOSE WHO COME TO SAN FRANCISCO preso.

- Quem está preso? Eu não Be Sure To Wear Some Flowers In Your Hair parar ali, naquele portão.

- Neste portãIF YOU COME TO SAN FRANCISCO reais.

- Toma. Pode ficar com o trSUMMERTIME WILL BE A LOVE-IN THERE

- ObrigadVOCÊ ESTÁ OUVINDO A RÁDIO

Desci do carro até tonto, antes que a próxima música começasse e entrei correndo em casa em busca de silêncio.

Mas como acredito que a gente aprende algo o tempo inteiro, desta vez aprendi que se você for para São Paulo, tenha a certeza de usar tampões de ouvido quando pegar o táxi no aeroporto.

4 de dezembro de 2014

A Cena do Chuveiro



Talvez 2014 tenha sido o ano que mais viajei a trabalho na minha vida. Fui para Minas Gerais, interior de São Paulo, Recife. Este texto, por exemplo, estou fazendo em Goiás.

E viajar a trabalho é aquela baita correria, não dá tempo de ver nada. É do aeroporto para o hotel, do hotel para reunião, vai comer alguma coisa, volta para o hotel, vai do hotel para outra reunião, da reunião para o aeroporto. Por isso que um dos poucos prazeres que tenho quando viajo a trabalho é meu quarto no hotel. Já que não vou conhecer nada, já que vou trabalhar o tempo inteiro, ao menos tenho conforto.

Isso, claro, não quer dizer que eu precise de um hotel cinco estrelas – pelo contrário, já fiquei em algumas pocilgas pelo Brasil. Mas faço questão de algumas coisas: uma cama boa, uma televisão que tenha uma imagem decente, silêncio e atendentes que entendam o que eu falo. E, claro, um frigobar com latas de Coca Zero e – importantíssimo! – um saco de castanha, que é a primeira coisa que pego quando entro no quarto.

Se tiver tudo isso, está perfeito. Se não tiver nada disso, mas ao menos castanha e Coca Zero, já está bom também.

Mas se existe algo que eu já desisti em hotéis: entender o funcionamento do chuveiro. Normalmente hotéis têm chuveiros muito melhores que os que temos em casa, mas os de casa possuem uma vantagem. Você conhece a torneira. E não se engane: o segredo de um bom banho começa na torneira. Em casa, você abre a torneira na medida certa automaticamente, e a água começa a cair já na temperatura ideal. Em casa, você é o mestre das torneiras.

No hotel, não.

No hotel, não é você quem manda. É a torneira. Você é apenas um escravo das torneiras – que sempre andam em dupla – e sujeito as suas oscilações de humor.

Nesta viagem que estou fazendo, cheguei de manhã e fui direto para reuniões. Passei o dia ainda com a mala, chegando ao hotel somente no final do dia. Quer dizer, na verdade, eu cheguei ao hotel no final da tarde, mas só entrei no meu quarto à noite. Isso porque o hotel tem apenas dois andares mais é gigantesco, e eu fiquei hospedado no quarto mais longe possível da recepção – acho que é seguro dizer que o hotel fica em Anápolis, mas meu quarto ficava em Goiânia.

Enfim, entrei no quarto, comi o pacote de castanhas e virei uma lata de Coca. E me preparei para o banho, jogando a roupa em qualquer canto.

E assim, como vim ao mundo, entrei no box e examinei as torneiras.

Eram duas, mas sem qualquer indicação de qual era a de água quente e qual a de água fria. Olhei para cima: o chuveiro era gigante, parecia um disco voador do Independence Day em escala 1:1. Pelo tamanho dele, devia ter uma vazão equivalente às Cataratas do Iguaçu, então dei um passo para trás, escolhi uma torneira ao acaso e girei um pouco.

Nada.

Girei mais um pouco.

Nada.

Girei a outra torneira, me perguntando o que eu estaria fazendo de errado.

Nada.

Voltei para a primeira torneira e girei mais um pouco.

A água começou a cair. Aliás, ela não começou a cair, mas sim a jorrar do chuveiro, numa temperatura de mais ou menos 2 graus Celsius.

E como o chuveiro era daqueles que fica na diagonal, não adiantou nada eu ter ficado longe do chuveiro. A água caiu diretamente na altura dos meus joelhos, fazendo eu me encolher na parede do box para escapar da água congelante, me protegendo com as mãos feito uma garota virgem que descobriu que está pelada no meio da rua.

Eu tinha duas alternativas. A primeira era sair do banheiro, pedir para algum funcionário do hotel desligar o chuveiro para mim e desistir de tomar banho nos dois dias seguintes por causa da água fria. Mas como isso me transformaria numa espécie de personagem principal de Os Doze Condenados, eu decidi que seria melhor tentar abrir a água quente.

Respirei fundo e fiz isso o mais rapidamente que consegui, gritando um puta que pariu merda de água gelada puta que pariu e girei a outra torneira.

A temperatura não mudou. Aliás, pareceu esfriar ainda mais, mas não tive tempo de pensar sobre isso, já que a pressão da água aumentou, como se o chuveiro fosse uma mangueira industrial jorrando litros de água congelante na altura do meu peito. Fui jogado para trás e fiquei completamente encurralado num canto do banheiro, tentando me proteger com as mãos, feito um daqueles presidiários de filmes que são castigados pelos guardas com jatos industriais de água.

Agora, não era mais o frio que me incomodava, mas sim o fato de que eu estava quase estabelecendo um novo recorde de estupidez: eu iria me afogar em pé. Assim, protegendo meu rosto do jato da água, tateei em busca da outra torneira, ou da primeira torneira, ou de qualquer torneira. Assim que encontrei algo parecido com isso, comecei a girar.

A pressão da água não aumentou. Melhor ainda: ela começou a esquentar. Aos poucos, ela se tornou ideal: pressão perfeita, temperatura agradável. Assim, certo de minha vitória, entrei embaixo dela, fechei os olhos e relaxei um pouco.

Instantes depois – eu ainda não tinha começado a tomar banho direito, estava apenas descansando um pouco – a pressão da água aumentou sozinha, sem eu mexer em torneira alguma. E pior, a água descobriu que gostava desse negócio de esquentar, e sua temperatura pulou para uns oitenta graus, se transformando num rio de magma.

Pulei para fora do box gritando.

Meu ombro e meu peito estavam ardendo, mas eu precisava fazer alguma coisa. Assim, abri uma pequena fresta do box e fiquei observando a água, tomando cuidado para que ela não me visse ali – eu tinha certeza que ela podia jogar um jato de água escaldante na minha cara a qualquer momento, só de sacanagem – e pensando no que fazer. Estiquei a perna e molhei a ponta do pé: fervendo.

Pensei em sair, fumar um cigarro e esperar o chuveiro esquecer que eu estava por perto e talvez desligar sozinho, mas como eu ainda iria sair para jantar, o tempo era curto. Assim, decidi encarar o monstro de frente. Entrei num canto do box e fiquei analisando a melhor maneira de desligar as torneiras sem ter uma queimadura de 18º grau.

O único modo era esticar o braço pelo canto do box, tentando fugir da água. Mas como não sou contorcionista – e se a humanidade deu algum salto evolutivo que permite os ossos do braço se dobrarem e fazerem curvas, eu não fui sequer avisado disso – acabei enfiando metade do braço na água...

Que estava gelada novamente.

Em algum lugar do encanamento, algo soltou uma risada não humana.

Fechei a água rapidamente e comecei o banho novamente. Mas desta vez, abri as torneiras milímetro por milímetro, me comportando como um arrombador de cofres. Cinco para a esquerda. Dois para a direita. Três para a esquerda. Dois para a esquerda.

Assim, depois de alguns minutos, consegui água numa boa temperatura, mas paguei um preço por isso, precisando tomar banho de gato, com seis ou sete gotas que caíam do chuveiro. Qualquer gota a mais faria a temperatura da água descer para nível Oceano Ártico ou subir para Intestinos do Vesúvio.

Mais tarde, ao sair do hotel, parei na recepção. Queria conversar sobre o chuveiro, se tem algum modo especial de usá-lo sem correr risco de vida.
– Oi, você pode me ajudar?

– Claro. O que senhor precisa?

Foi quando eu percebi que, independente da forma que eu colocasse o assunto (“Como eu abro o chuveiro do quarto?” “Quanto eu preciso pagar para conseguir tomar um banho morno?” “Você sabe que o chuveiro do 153 está vivo?”), eu pareceria um idiota. Eu poderia ter ganhado a primeira batalha, mas teria que enfrentar a guerra contra o chuveiro sozinho.

Além disso, se eu pedisse ajuda à recepção e o chuveiro descobrisse, provavelmente haveria retaliações. Talvez enquanto eu estivesse dormindo.

– Senhor?

– Desculpe, eu me distraí.

– Em que posso ajuda-lo?

– Nada. Mudei de id... Ah, pede para levarem mais um saquinho de castanhas o meu quarto, por favor. Eu já comi o que estava lá.

27 de novembro de 2014

O Silêncio da Casa ao Lado

Dois dias atrás, meu vizinho morreu.

Foi no meio da madrugada. Estava no hospital fazia umas duas semanas – ele já havia ficado internado alguns meses atrás, mas voltou para casa – e não aguentou. Foi piorando a cada dia, até que seu corpo começou a se desligar, aos poucos, feito uma casa na hora de dormir. Aos poucos, cada aposento teve suas luzes apagando até ficar totalmente escura.

Totalmente em silêncio.

A morte passou perto da minha casa, e eu não vi. Mas ouvi cada passo dela. Pegava trechos de conversa do outro lado do muro que diziam o que estava acontecendo, e as notícias nunca eram boas. Isso porque na casa ao lado, as pessoas não falam; elas gritam. Gritam por vontade própria – tem gente que não sabe falar sem gritar – e gritam por necessidade. São duas famílias que moram ali. Uma delas, justamente a do meu vizinho que morreu, tem duas pessoas, ambas surdas.

Na verdade, agora que ele se foi, uma das famílias deixou de ser uma família e se tornou apenas uma pessoa: sua mãe, que tem uns 90 e tantos anos e é completamente surda. Chega a ser curioso: eu ouvi meu vizinho morrer durante duas semanas. Sua mãe, que está do mesmo lado do muro que ele, não ouviu nada.

Meu vizinho havia aparecido no meu blog. Eu o chamava de Bruxa do Kurosawa, pois quando nos mudamos para cá, ele usava um cabelo grande, meio grisalho e sempre despenteado – além de ser magro feito um pau. Os meses se passaram e ele cortou o cabelo. Teve um momento que ele deixou o cavanhaque, mas logo desistiu.

Sempre que eu ia fumar lá na frente, me encontrava com ele – ele também fumava no quintal da frente, quase sempre lendo uma revista e sempre usando um velho pote de margarina como cinzeiro. Às vezes ele me via, às vezes, não. Mas, sempre que me via, sorria para mim, levantava o braço e acenava para mim como alguém que acena para uma pessoa que está a centenas de metros de distância, mesmo estando a cinco ou seis metros de mim.

Hoje, eu vou fumar e ele não está lá. E, me lembrando da última vez que o vi – algumas semanas atrás, quando ele saiu de casa e foi até o ponto de ônibus do outro lado da rua, da forma mais casual do mundo e sem fazer ideia de que duas semanas depois estaria morto – me pergunto por quantos metros estamos separados agora.

É engraçado; encontrar com ele fazia parte da minha rotina, e ele sequer soube meu nome. Chegamos a conversar algumas vezes – quase sempre sobre os gatos – mas o diálogo era difícil, já que ele ouvia muito pouco.

Uma vez ele brigou comigo. Foi durante a Copa e soltaram uma bomba na rua; ele saiu esbravejando porque sua mãe havia se assustado e gritou comigo, querendo saber se tinha sido eu. Precisei de umas quatro ou cinco frases para que ele entendesse que eu estava apenas fumando e batendo papo com quem estava comigo no quintal. No dia seguinte, lá estava ele sorrindo e acenando com o braço levantado.

Agora, minha rotina é sair para fumar e estranhar que ele não está ali. E não porque ele está vendo TV, mas porque ele nunca mais estará ali. Isso poderia ter acontecido de diversas maneiras: ele poderia ter parado de fumar; ele poderia ter se mudado de casa; ele poderia ter começado a fumar no quintal dos fundos.

Ao invés disso, ele morreu. Partiu deixando um enorme silêncio e três gatos que costumam vir para o meu quintal. Ontem, um deles, o mais mansinho, veio brincar comigo à noite, e eu me perguntei se eles sabem o que aconteceu. Acho que sabem. E acho que também estranham o silêncio.

É estranho não ouvir mais o som de programas japoneses, filmes de ação ou futebol (na Copa, ele torceu apaixonadamente pela Suíça), que ele assistia com TV no volume máximo. É estranho não ouvir mais ele brincando e conversando em japonês com seus gatos, que pareciam ser sua grande alegria. E é estranho não ouvir mais ele discutindo com a mãe em japonês, sobre qualquer coisa que eu não entendia.

Agora, só existe silêncio na casa ao lado. Não é aquele silêncio pacífico, da madrugada ou do final de domingo. É aquele silêncio forte, pesado. Aquele silêncio que só pode ser causado por uma ausência. Aquele silêncio que só existe em uma casa que foi visitada pela morte.

Aos poucos, as vozes na casa ao lado vão voltar. Com elas, voltarão os gritos, já que a mãe do meu vizinho é completamente surda. E talvez seja melhor assim. Sendo surda, ela não pode ouvir o silêncio. Pois seu filho morreu e este silêncio sempre estará lá, mesmo que as vozes e gritos retornem.

Enquanto isso, eu fumo lá na frente. Sozinho, exceto pelas vezes em que converso com os gatos do meu vizinho que se foi.

Mas, quando os gatos vão embora, o resto do cigarro é silêncio.

19 de novembro de 2014

Rob Gordon X Fila do Idoso

Existem duas coisas que eu odeio em videogame: fase de tempo e fase de água. Desde os tempos do Master System (já que os jogos de Atari normalmente não tinham essas fases), basta eu precisar mergulhar ou apostar corrida contra o relógio para me irritar profundamente. Na verdade, o ódio é um só, já que a própria “fase da água” é uma “fase de tempo”. Você tem diversas coisas para fazer antes de 30 ou 40 segundos passarem e você começar a se afogar.

Com isso, estabelecemos então que eu odeio “fases de tempo”. Para mim, os motivos disso são óbvios. Primeiro, eu trabalhei minha vida inteira com prazos apertados, então quero distância disso quando estou jogando. Segundo, eu sou detalhista. Quero ter tempo de pensar o que fazer antes de começar a fazer. Em outras palavras, eu quero subir naquela caixa d’água do outro lado da cerca, pegar um rifle sniper e ficar ali, escondido, explodindo cabeças, ao invés de ter que atravessar o campo correndo com uma metralhadora.

Por isso que eu gosto tanto de jogar Civilization, onde posso coçar meu queixo e pensar o que vou fazer a seguir – às vezes, posso até colocar o notebook de lado e ir para o quintal fumar um cigarro enquanto decido.

Por isso que eu odeio entrar na fila dos idosos no mercado. Pois a fila do idoso é uma fase de tempo. Se no videogame você precisa sair do submarino antes que ele afunde ou escapar da caverna antes que ela seja bombardeada, na fila do idoso você precisa passar suas compras e pagá-las antes que um idoso apareça.

Ou seja, a fila do idoso é uma fase de tempo, mas as ações não dependem de você, e sim da menina do caixa, que normalmente está mais preocupada em discutir o capítulo de ontem da novela com a menina do outro caixa.

Às vezes vou aqui ao mercado e, na hora de pagar, o caixa do idoso está sem fila, com apenas uma pessoa passando as compras. E a placa diz que “ausentes pessoas nessas condições (ou seja, idosos, grávidas, pessoas com crianças de colo etc) o uso é livre”.

Aí olho para os três caixas do lado: o primeiro tem cinco pessoas na fila; o segundo tem cinco pessoas na fila; o terceiro tem apenas uma pessoa, mas é o caixa da menina-alienígena-com-problemas-mentais que passa suas compras de pé, dançando e querendo saber por qual motivo você está comprando isso, se esse sabão aqui é bom mesmo que nem ela viu na TV, se você gosta de musicais antigos e que prato você vai fazer com essa lata de ervilhas, porque ela adora ervilhas, mas queria saber fazer mais coisas com elas. Como eu morro de medo dessa menina, nem considero a hipótese de passar as compras com ela.

Sobram os caixas lotados e o caixa dos idosos, vazio, convidativo, sedutor, praticamente implorando para que você passe as compras ali e vá embora para casa.

Mas basta você entrar na fila do caixa do idoso para descobrir que aquilo é uma armadilha. O caixa do idoso é o cheque especial do ato de fazer compras: depois que você entra nele, você não consegue sair. Isso porque se aparecer um idoso, eu vou dar a vez a ela. Sei que tem gente que não faz isso, que finge que não está vendo o velhinho cheio de compras atrás dele na fila, mas eu sou certinho demais para fazer isso. Eu sei que preciso dar minha vez a ele, pois o caixa é dele, e não meu – e por mais que minha barba esteja ficando branca, eu ainda não consigo me passar por idoso.

É uma fase de tempo. E, pior, é uma fase, onde as regras do tempo e espaço não são obedecidas.

Vou tentar explicar: digamos que o mercado tenha nove clientes fazendo compras (descontando os que estão nas filas dos caixas normais ou o coitado que caiu nas mãos da retardada): eu, oito pessoas de quarenta anos e uma menina de seis. Assim que eu entro na fila do caixa do idoso, o tempo dá um salto de trinta anos. As oito pessoas de quarenta anos se transformaram em idosos de setenta anos. Sobra a menina de seis, que agora tem trinta e seis, mas está grávida e com duas crianças no colo. Logo eu vou ter que dar a vez para ela também.

E todos eles caminhando na minha direção, se aproximando lentamente do caixa do idoso com carrinhos de compras que indicam que estão ali fazendo as compras do ano.

Assim, eu começo a ficar desesperado na fila do caixa, esperando a pessoa à minha frente terminar de pagar as compras. E são mais ou menos setenta produtos.

Sempre que isso acontece, um Marlon Brando gordo e careca que mora dentro meu cérebro senta sobre uma pedra no meio da floresta e começa a recitar que “a pessoa que está à sua frente no caixa tem um rosto e você deve fazer amizade com ela. A pessoa que está na sua frente e suas compras são seus amigos. São aliados poderosos. Ou são inimigos a serem temidos. São inimigos verdadeiros”.

O problema que o Marlon Brando nunca consegue enxergar é que a mulher à minha frente nunca está disposta a simplesmente pagar; ela precisa antes disso arrumar os produtos na sacola. Primeiro, por seção do mercado. Depois, por ordem alfabética. Em caso de empate, confere a data de validade para organizar nas sacolas. Às vezes, com a minha ajuda.

- Você consegue ver aqui nesse queijo se ele vence no mês cinco ou no mês seis?

“O horror. O horror”, diz o Marlon Brando, antes de se levantar da pedra e sumir na floresta, me deixando sozinho ali.

- Acho que é cinco.

- Ah, então não vou levar. Vou pegar outro na prateleira.

- Não, é seis. Eu me enganei. É seis.

- Será? Eu não quero comprar um queijo que vence tão cedo.

- Vence no mês seis. A senhora quer ajuda para empacotar as coisas? Se a menina do caixa já for passando as minhas coisas, eu posso...

- Esse queijo aqui... Não sei não. Será que tem outro?

- Não, não tem. Eu procurei também. Não tem mais nenhum. Esse é o último queijo do mundo. Meu Deus, uma velha cheia de coisas está vindo para cá. Posso colocar esses sucos aqui nessa sacola?

- Mas é que queijo...

- Eu pago o seu queijo! É um presente! A senhora pode jogar ele fora em casa. Eu pago!

Quando o caixa passa o último produto, eu já jogo minhas coisas ali – nunca são muitas, sempre três ou quatro – e já jogo o cartão do banco por cima.

- Débito.

- Você quer CPF na nota?

- Não. Quero ir embora. Rápido.

Aí ela começa a passar as coisas. E sempre uma está com problema no código. E a velhinha ali, se aproximando. É como um morto vivo dos filmes do Romero. Anda devagar, parece que não vai alcançar ninguém... Mas quando você menos espera, ela está ao seu lado, pegando as garrafas de cândida no carrinho para colocar no caixa. E tudo o que você pode fazer é dar a vez e se oferecer para ajudá-la.

Mas enquanto ela não chega ao caixa, ainda há uma chance de sobrevivência. Desde que, claro, a caixa consiga se entender com a porra do código de barras do sabão.

- Você lembra qual o preço desse sabão?

- Oi?

- O sabão? Você lembra quanto era o preço?

- Sei lá o preço. Minha mulher falou para eu pegar esse sabão, não olhei o preço.

- Vou ter que olhar ali na prateleira.

- Não!

- É rápido!

- Olha, eu me lembro do preço! Dez reais! Pode cobrar dez reais aí!

- Imagine, esse sabão custa uns dois reais.

- Não, esse é especial. É de colecionador. Custa dez. Se estiver errado, você pode ficar com os outros oito. Débito, por favor.

- Lurdes! Quanto custa esse sabão?

- Não, a Lurdes está ocupada, não precisamos ir lá atrapalhar ela. Vamos fazer o seguinte, eu não vou levar o sabão.

- Mas é rápido.

- Não é rápido o suficiente. A velhinha está chegando aqui. Vou levar só isso aqui. Débito, por favor.

- CPF na nota?

- Não!

- Débito ou créd...

- Débito! Débito!

Digito a senha, jogo tudo dentro de uma sacola e saio correndo, para dar a vez à velhinha. Aí entro em casa, coloco as compras na mesa.

E, claro, preciso pagar pelo truque que usei para ultrapassar pela fase do tempo.

- Você não trouxe o sabão?

- Não. Não tinha a marca que você queria.

- Sempre tem essa marca. Tinha ontem.

- Talvez eu não tenha visto. Depois eu compro.

- Você se esqueceu do sabão, certo?

- Pode ser. Depois eu compro.

- Você sempre se esquece de comprar algo.

- Sim.

- Isso é coisa de velho.

- Quem dera.

- Oi?

- Nada. Depois eu compro o sabão.