A Paixão de Rob
O que eu disse no último post, sobre eu e meu irmão termos brigado todos os dias durante anos, não é verdade. Isso porque nossos desentendimentos não podiam ser classificados como brigas, já que eu não brigava, eu apenas apanhava. Mas quanto à freqüência, a informação está correta: era todo dia – às vezes, mais de uma vez por dia.
E não sei se mereci apanhar em todas essas surras, mas calculo que, em uns 99%, sim. Verdade, eu fui um irmão caçula exemplar. Isso, claro, partindo do princípio que a função universal do irmão caçula é atrapalhar a vida do mais velho.
E, nesse ponto, eu era um mestre.
Deixo vocês com um exemplo para vocês formarem sua própria opinião a respeito disso.
Eu devia ter uns 16 anos, e estava sozinho em casa com meu irmão, vendo Sessão da Tarde.
Vale dizer que ele, provavelmente, estava vendo TV porque não tinha nada para fazer. E tenho quase certeza de que eu estava vendo TV porque deveria ter toneladas de coisas de escola para fazer, mas como minha mãe não estava em casa, declarei independência e fui para a sala. Ou seja, eu já estava errado antes mesmo da história começar.
Enfim, por volta das 15h, a campainha tocou e fui atender.
Abri a porta e caminhei até o portão. No percurso, senti um arrepio na espinha quando percebi que era uma testemunha de Jeová. Isso poderia simplesmente assassinar o resto da minha tarde. Testemunhas de Jeová são como aqueles banners expansivos: se você acidentalmente passa o mouse em cima, ela aumenta de tamanho, começa a falar absurdamente, e não há quem feche aquilo.
Assim, resolvi tomar cuidado, mal fazendo contato visual com a mulher.
– Oi, pois não?
– Boa tarde, tudo bem? Eu vim trazer a palavra do Senhor.
– Oi?
– Sim, nós, da Igreja Whatever, estamos visitando as residências do bairro para levar um pouco de luz e sabedoria aos moradores.
– Olhe, acho essa iniciativa louvável. Mas, infelizmente, eu já tenho uma religião e estou muito feliz com ela.
– Puxa, que pena.
Não sei se foi a primeira vez que os meus neurônios começaram a trabalhar sozinhos, mas foi uma das primeiras, com certeza. Eles começaram a jogar carvão na caldeira, e meu cérebro começou a acelerar. Comecei a fazer contas. Testemunha de Jeová. Meu irmão. Minha mãe não está em casa.
De repente, a idéia se formou na minha mente. Na verdade, ela praticamente brotou da terra, maravilhosa, brilhante, em todo seu esplendor de genialidade.
Abri meu melhor sorriso – tomando cuidado para ele não se transformar numa gargalhada – e respondi:
– Agora, se a senhora quiser, eu posso chamar o meu irmão. Ele se interessa muito por esse assunto.
– Verdade?
– Sim. Ele adora discutir religião. As palavras de Deus, então, o deixam fascinado.
– Ah, mas que maravilha! Posso conversar com ele?
– Claro, ele não está fazendo nada agora. Só um minuto.
Detalhe: meu irmão é ateu. Aliás, ele é muito ateu. Tenho certeza de que meus pais resolveram batizá-lo quando ele era apenas um bebê, porque, se ele já soubesse falar, certamente iria começar a discutir com o padre no meio da cerimônia.
Não, não. Minto. Ele tem uma religião, sim, e os templos que ele freqüenta são as churrascarias da cidade. Dizem que todo homem precisa acreditar em alguma coisa; e meu irmão normalmente acredita que vai pegar mais um pedaço de picanha. Esse é o credo dele. Se bem que, até aí, eu também participo desse culto.
Contudo, enquanto eu caminhava de volta para a sala, tinha apenas uma crença: aquilo ia ser ótimo.
Antes de abrir a porta, olhei novamente para a testemunha de Jeová. Ela brilhava e sorria, ansiosa em discutir os 10 Mandamentos ou o Sermão da Montanha com uma alma jovem e fiel.
Sorri para ela e entrei na sala. Engoli a gargalhada e assumi o ar mais casual que consegui.
Meu irmão estava largado no sofá.
– Quem era?
– Não conheço. Mas é para você.
Ele olhou pela janela.
– Eu não conheço essa mulher.
– Eu também não. Mas ela mandou te chamar.
– Como assim?
– Ela tocou aqui e pediu para te chamar, ué. Falou seu nome e tudo.
– Porra, o que essa mulher quer?
– Não sei, ela pediu para falar com você, não comigo.
Ele fez cara de desconfiado e atravessou a porta, em direção ao quintal.
Eu não consegui chegar ao sofá. Assim que ele saiu da sala, eu caí no chão, gargalhando. E fiquei deitado, chorando de rir e socando o chão durante minutos.
Mais precisamente, quarenta minutos.
Sim, quarenta minutos. Este foi o tempo que meu irmão demorou para conseguir se desvencilhar da mulher. De vez em quando, eu dava olhadas pela janela, e via a mulher falando pelos cotovelos, mostrando trechos da Bíblia, e ele tentando (em vão) cortar o assunto.
Às vezes, ele arriscava rápidas olhadas na direção da janela, e, quando me via ali, assumia a sua tradicional expressão de “você vai morrer, filho da puta”.
Quando ele conseguiu se livrar da testemunha de Jeová, entrou na sala, obviamente, espumando de ódio. E não pensem que ele arrombou a porta com os pés, para dar mais dramaticidade à cena. Ele não precisou. Como até a casa em que morávamos tinha medo dele, a porta se abriu sozinha, com medo de que sobrasse para ela também.
Aparentemente, a mulher não havia conseguido fazer a palavra de Deus entrar na vida do meu irmão. Bondade e perdão não exatamente faziam parte da sua filosofia.
Pelo olhar dele, aquela história de dar a outra face não era bem o que ele tinha em mente. Aliás, ele parecia bastante disposto a esfregar a minha face no cimento da calçada.
Cazuza disse uma vez que “eu vi a morte de perto e ela estava viva”. Aquela tarde, em casa, foi pior. Eu vi a morte de perto, e ela estava sentada num canto da sala, lambendo os beiços e rindo da cara do meu irmão. E isso não me ajudaria em nada naquela hora.
Eu sabia que ia morrer, mas não conseguia parar de rir. Assim, mesmo gargalhando, assumi a posição de defesa clássica de qualquer filho caçula numa situação dessas: me encolhi no sofá e esperei pelo pior. Meus neurônios ligaram o alerta vermelho, e uma sirene começou a tocar no meu cérebro. Um deles pegou um microfone e avisou o resto do corpo para se segurar, gritando que o impacto seria iminente.
Eu estava prestes a encenar uma reconstituição da história do Titanic, na qual meu irmão interpretaria o gigantesco iceberg. E eu não seria o Titanic, e sim um barco a remo.
Por alguns momentos, naquele dia, meu irmão acreditou na Bíblia. Ou, ao menos, numa parte específica dela: a crucificação.
Foi a Paixão de Rob.
Com algumas diferenças, claro: no lugar do julgamento, foram murros; no lugar da coroa de espinhos, foram murros; e no lugar das chibatadas, foram murros. Se Barrabás estivesse na sala aquele dia, não iria escapar, teria sobrado para ele também.
Menos de um minuto depois, eu estava morto. Mas, diferente de Jesus Cristo, eu havia morrido pelos meus próprios pecados. Além disso, não precisei de três dias para ressuscitar.
Provavelmente na mesma noite (ou no máximo no dia seguinte), eu ressurgi dos mortos e aprontei alguma outra coisa com meu irmão.
E, claro, devo ter apanhado mais uma vez.





