14 de janeiro de 2018

Mundo Animal - Um Documentário

Este é o macho em seu habitat natural.

A fêmea do bando foi caçar no mercado, então ele está sozinho com seu filhote. E assim já podemos aprender bastante sobre a dinâmica do grupo. A fêmea procura alimento no mercado, pensando se o filhote está seguro com o macho. Na toca, o macho torce para que a fêmea não se esqueça de comprar Coca-Cola.

Porém, o macho sabe que é sua obrigação cuidar do filhote. É preciso defendê-lo de outros predadores  mantê-lo alimentado. Para isso, ele mantém por perto uma pequena mamadeira preparada pela fêmea. Quando o filhote está com fome, o macho corre até a cozinha e pega a mamadeira.

Este é o macho alimentando seu filhote.

Existe uma diferença nas formas que o macho e a fêmea alimentam seu filhote. A fêmea sempre alimenta o filhote segurando-o com as duas mãos, para fazer com que ele se sinta protegido. O macho tenta equilibrar o filhote e a mamadeira com apenas uma mão, para poder mudar os canais da TV enquanto o bebê se alimenta.

Além disso, a fêmea sempre testa a temperatura do alimento deixando-o cair uma gota em sua própria pele. O macho tenta repetir esse movimento, mas não é tão hábil quanto a fêmea e quase derruba metade do alimento na pia. Mas, por fim, ele consegue medir a temperatura e, como seu braço não queimou, acha que a temperatura está boa.

Este é o macho tentando fazer seu filhote dormir.

Ele anda com o filhote em seus braços. Conversa com ele, explicando coisas sobre o mundo, a vida e o futuro que aguarda pelo filhote... Mas deixa todas as explicações em aberto quando sai um gol no jogo que está passando na TV e ele se desconcentra totalmente. Quando assiste ao replay, pergunta ao filhote “do que estávamos falando?”.

Como o filhote não responde, o macho decide cantar Beatles para fazer o bebê adormecer. Em alguns momentos, isso dá certo, até a hora que o macho decide colocar o filhote no carrinho. Aí o bebê acorda e começa a chorar e o macho comenta que tudo seria mais fácil se você me dissesse de quais bandas vocês gosta.

Este é o macho trocando a fralda do filhote.

Vemos aqui o macho no canto mais protegido da toca limpando seu filhote. O macho ainda não se entende direito com fraldas e tantas peças de roupas. Na verdade, existem momentos em que ele acredita que bebês poderiam ter menos pernas e braços. Ou que as pernas e braços se mexessem um pouco menos.

Mas o macho sabe que manter o filhote limpo é sua obrigação. Assim, ele tira a roupa e a fralda do filhote. Com um algodão úmido, limpa com cuidado o bebê, usando depois um lenço umedecido. Porém, ele encontrará problemas. Ao levantar as pernas do bebê para ajeitar a nova fralda, o macho é surpreendido por um esguicho pastoso do corpo do flhote.

Este é o macho coberto de merda.

O macho está estático, como se sentisse a presença de um predador. Mas, na verdade, ele está sentindo uma espécie de merda pastosa descendo pela sua barriga e sua coxa. O bebê olha para o teto, distraído com a lâmpada, como se nada tivesse acontecido. O macho olha ao redor e vê rastros de merda pelo chão.

Ele não sabe o que fazer. Ele sabia que filhotes podem urinar nos pais, mas, cagar... Ele tem certeza de que, em toda a floresta, isso aconteceria apenas com ele. Seu primeiro pensamento é pegar o filhote, correr até  o lava-jato da esquina e perguntar se “eu passar junto com ele vocês cobram só uma lavagem?”. O filhote começa a se mexer, espalhando a merda.

Este é o macho tentando limpar novamente o filhote.

Ele está de pé, com as pernas abertas, porque onde seu pé esquerdo estava há uma poça de merda. Mesmo assim, ele limpa mais uma vez o bebê com algodão e lenço umedecido, e prepara-se para colocar a nova fralda. Porém, descobre que ela também foi atingida pelo jato de merda e a joga no lixo.

O macho, então, apanha outra fralda na gaveta. Certo de que esta está limpa, começa a colocá-la no filhote até descobrir que ela também está suja de merda. Pergunta para o filhote se “você está de sacanagem comigo?”, mas logo descobre que a culpa não é do bebê, e sim dele, que está com um pedaço do braço cheio de merda e não tinha percebido.

Este é o macho tentando limpar a si mesmo.

Ele já arrancou sua camisa coberta de merda e jogou em um canto da toca (avisando ao bebê que “se você cagar em mim quando eu estiver sem camisa, eu vou cuspir na sua mamadeira”). Com uma mão ele segura o bebê; com a outra, ele se limpa com lenços umedecidos, torcendo para que a janela da toca, que está atrás dele, esteja fechada.

Ele inverte as mãos. Segura o bebê com a mão que usou para se limpar e usa um novo lenço para limpar o outro lado do corpo. Subitamente o filhote joga as pernas para o alto e as abre, como se estivesse executando uma dança. Por instinto, o macho se abaixa, mas respira aliviado quando vê que o filhote não disparou outra rajada de fluido orgânico.

Este é o macho tentando descobrir como vestir seu filhote.

Ele coloca a fralda em seu filhote, enquanto pede para que o filhote pare de mexer as pernas por um momento. Com o máximo de perícia que ele possui – o que é bem pouca, pois machos dessa espécie são naturalmente desastrados – ele consegue fechar a fralda e prepara-se para colocar a calça do filhote.

O macho não se entende com a calça. A cada tentativa, os pés do bebê parecem desaparecer no meio da calça e ele precisa colocar tudo de novo. O filhote, movendo as pernas, não ajuda muito e o macho pergunta se “você realmente não consegue se vestir sozinho? Eu posso passar as roupas que você escolher e você vai colocando, que tal?”

Este é o macho ainda tentando descobrir como vestir seu filhote.

Quando finalmente conseguiu colocar a calça no bebê, o macho percebe que esqueceu de puxar o body para baixo e fechá-lo. O filhote parece ter percebido isso e mexe as pernas com mais velocidade para celebrar sua pequena vitória. O macho considera a hipótese de fechar o body por cima da calça e foda-se, mas desiste ao perceber que a fêmea está para chegar.

O macho abaixa a calça novamente, ajusta o body do filhote e o fecha. Segura o bebê pelas pernas mais uma vez e ajusta a calça. Parece que boa parte do trabalho está feita, mas o macho sabe que o pior está por vir. Afinal, com a calça colocada, é hora de colocar as malditas meias.

Este é o macho olhando as meias do filhote.

Para o macho, aqueles pequenos pedaços de pano são um mistério. Ele segura uma na frente do rosto e fica analisando. A primeira parte é fácil, porque um lado é aberto e outro não, então o pé do filhote deve entrar no buraco. Mas o macho não sabe onde é o calcanhar da meia. Ele procura a inscrição “este lado para cima”. Como não a encontra, resolve ir na sorte.

O bebê parece gostar de colocar meias e resolve demonstrar  isso levantando as pernas e balançando os pés. Enquanto isso, o macho, tomando cuidado para não encostar a calça cheia de merda em algum lugar, fica tentando pescar o pé do bebê e vestir a meia. “Se você parar de mexer a perna por cinco segundos eu deixo você correr na rua depois”, ele propóe ao filhote.

Este é o macho limpando a toca.

O bebê já está no carrinho, em outro aposento da toca – suas meias não parecem muito certas, mas o filhote não está reclamando (e como o macacão vai por cima das meias, ninguém vai perceber). O macho não está perto do bebê. Ele está de quatro, no outro canto da toca, limpando os rastros de merda do chão com desinfentante.

O filhote começa a chorar. O macho fica aflito ao ver que seu filhote está chorando longe dele, e grita um palavrão. Está de cuecas, com a mão cheia de desinfentante e segurando papel toalha, procurando por indícios de merda no chão e nos móveis. “Vai vendo o futebol que o papai já desce”, o macho grita para o filhote. O bebê continua a chorar.

Este é o macho com o bebê no colo.

O macho carrega o filhote no colo, dizendo coisas como “o papai está aqui, você não precisa chorar, e além disso nem motivo para chorar você tem porque não foi em você que cagaram, porque você é um bebê esperto e estava do lado mais seguro do cu, então para de chorar, agora está tudo bem e você vai dormir.”

O macho finalmente coloca o bebê para dormir e joga sua roupa coberta de merda no tanque. Esse é o momento que a fêmea volta para casa com a caça. Ao ver o filhote dormindo, ela sente que o dia foi proveitoso. A cria está alimentada, limpa e descansando, em paz, longe dos perigos da floresta.


Este é o macho dando graças a Deus pelo fato de que o filhote ainda não sabe falar. 

21 de dezembro de 2017

12:12

Eu ainda nem tinha tomado café quando tivemos que correr para o hospital e isso depois de já passarmos a noite no pronto socorro quando a gente descobriu que era alarme falso mas dessa vez tudo ia acontecer de verdade porque a bolsa tinha estourado e entramos no hospital com ela tentando contar as contrações eu falando para a médica que esquecemos o ultrassom por causa da correria e a médica respondeu que trazer o ultrassom sempre é importante e eu mandei ela esquecer a merda do ultrassom e examinar a minha esposa e ela começou a fazer uns exames e eu corri para a administração para ver os documentos da internação e de lá corri para o segundo andar junto com uma enfermeira para deixar as malas no quarto e fui de volta para o primeiro andar onde me deram uma roupa verde igual a dos médicos e mandaram eu colocar por cima da roupa que eu estava usando e a calça não entrava porque eu tinha dois celulares e duas carteiras comigo e eu comecei a pular por aquela sala que parecia um vestiário desesperado tentando enfiar a calça por cima da bermuda jeans e tive uma crise de ódio e gritei um palavrão porque minha carteira não deixava a calça entrar e voltei correndo para fora para pedir uma calça maior e essa finalmente entrou e eu atravessei os corredores o mais rápido que pude enquanto colocava uma touca na cabeça perguntando para todo mundo onde ela está e quando finalmente entrei na sala mandaram eu colocar uma máscara e eu não conseguia amarrar aquilo de jeito nenhum na cabeça porque minhas mãos tremiam mas consegui dar um jeito provavelmente amarrando errado mas não me importei muito porque minha esposa estava gritando e a médica falou algo atravessado e eu pensei que vou ter que segurar minha esposa antes que ela dê um tapa na cara dessa médica e os gritos aumentaram e todo mundo falando que ela estava indo bem que estava quase nascendo e continue fazendo força e eu fiquei ali me sentindo um pouco inútil porque eu queria fazer força junto com ela mas não podia e o pouco que eu podia fazer era conversar com ela e dizer que amo muito ela e que tudo vai dar certo e todas aquelas frases que a gente sabe que ela nem está ouvindo mas que você diz mesmo assim e lembro de ter limpado uma lágrima do rosto da minha esposa e de repente a médica e todas as enfermeiras começaram a falar ao mesmo tempo e eu não sabia em qual delas eu prestava atenção e mesmo se soubesse não ia conseguir prestar atenção em nada que não fosse minha esposa mas de repente a médica falou que essa vai ser a última contração e eu me lembro de pensar que se podemos esperar só mais uns dois minutos porque eu não sei se ainda já estou pronto para isso mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa alguém que estava na sala começou a gritar que está vindo está vindo está vindo só mais um pouco

E, exatamente às 12:12, minha vida ganhou pontuação.

Ele olhou na minha direção. Seus olhos eram escuros e pequenos mas pareciam maiores que o mundo. E quando ele começou a chorar, eu chorei junto. Éramos duas crianças. Ele chorava porque havia acabado de nascer. Eu soluçava porque havia acabado de nascer de novo.

Enquanto nós dois chorávamos juntos, meu passado ganhou um novo significado. Memórias de mais de quatro décadas começaram a se movimentar dentro de mim. Meus sorrisos de criança se uniram com tudo o que aprontei na adolescência e com cada coisa que aprendi depois de adulto. Todas as minhas lembranças começaram a se comportar como peças de um quebra-cabeça que decidiram, por conta própria, se juntar e revelar o segredo que escondiam.

E a imagem que o quebra-cabeça formou era o rosto dele.

Foi então que entendi que tudo o que vivi nesses mais de quarenta anos não eram fatos isolados, e sim capítulos de uma história maior. Cada lembrança doce, cada lição aprendida, cada pequena conquista... Tudo havia me levado até ali. Cada instante da minha história havia me conduzido até aquele momento. Em direção àquele menininho.

No meio da correria das pessoas de verde, do falatório apressado, do choro do meu filho e da enormidade do futuro que se abria na minha frente, com todos os sonhos e medos e receios e desejos e cuidados e erros e aprendizados... Eu respirei fundo e pensei no meu pai. Fechei os olhos e enxerguei exatamente o que o meu pai significa para mim.

E tudo ficou mais claro. Dali em diante, cada passo que eu der precisa garantir que ele seja uma pessoa feliz. Cada escolha que eu fizer precisa transformar esse menininho em um homem melhor que eu. Agora, tudo o que eu sou, tudo o que fui e tudo o que eu possa ser um dia, é dele.

Foi neste momento que me tornei pai. E foi neste momento que eu percebi que havia passado a vida inteira querendo ser o pai do Felipe.

Eram 12:12 quando tudo fez sentido.

Abri os olhos e vi que alguém havia colocado meu filho sobre minha esposa. Ele estava deitado e assustado como um enfeite de cristal que, depois de ser desembrulhado e colocado em uma estante, olha ao redor para compreender aquele novo mundo. Mas ele não era feito de cristal. Ele era feito de de tudo o que eu sou. Ele era feito de amor.

Pela primeira vez na vida, me aproximei do rosto dele e, pensando no meu pai e pensando no meu filho, eu disse baixinho:

“Eu sou seu pai. E meu amor por você é maior que a vida”.


Eram 12:13 e eu ainda estava chorando.

Eram 12:12 quando eu comecei a
escrever o maior texto da minha vida.

9 de novembro de 2017

A Costa do Mosquito

Quem acompanha esse blog ou me segue nas redes sociais deve estar sabendo que mudei de casa faz alguns meses. Agora, moramos num pequeno sobrado bem perto daquele rio em cujas margens plácidas foi disparado o brado retumbante de um povo heróico.

Só que o problema da casa nova é que, no instante em que o Sol da liberdade deixa de brilhar em raios fúlgidos no céu da Pátria, a casa é invadida por mosquitos.

Nós imaginávamos que isso podia acontecer, afinal, estamos perto de um rio. Por isso, antes de assinarmos o contrato, viemos dar uma volta pelo bairro e perguntamos para duas ou três pessoas da vizinhança sobre esse assunto. As respostas seguiam sempre pelo mesmo caminho.

“Ah, de vez em quando tem um ou outro”.

“Não, nunca vi aqui na minha casa.”

“O que é mosquito?”

Bom, bastou nos mudarmos para começamos a encontrar mosquitos em casa. E não eram dois ou três, eram dezenas. Às vezes, centenas. E, a cada mosquito que eu matava, amaldiçoava meus vizinhos, que juraram que não havia pernilongos no bairro.

Sim, já me ocorreu que talvez eles não tenham mentido. Talvez eles nunca vejam mosquito algum porque todos os pernilongos da cidade estão dentro da minha casa. Talvez a casa deles tenha alguma espécie de proteção – física ou mágica. Talvez eles apenas tenham mais sorte que eu, talvez o sangue deles não seja tão apetitoso, talvez alguma coisa no vento empurre os mosquitos apenas na minha direção.

Ou talvez os filhos da puta ganhem comissão da imobiliária quando conseguem convencer pessoas inocentes que o bairro não é infestado por pernilongos.

(Na verdade, minha alternativa preferida é pensar que todos os moradores do bairro são adoradores & escravos de uma antiga e obscura divindade com formato de pernilongo e, para aplacar a ira da criatura maligna, decidiram me oferecer como sacrifício. Sim eu pensei mais de uma vez sobre isso.)

Mas, religiões arcaicas à parte, em alguns dias a situação era insustentável. Eu batia na tela da janela da sala e era imediatamente transportado para o Sudeste Asiático, já que uma nuvem de pernilongos saía voando. Na minha direção. Em formação de ataque. Ao som de Cavalgada das Valquírias. Tudo o que eu podia fazer era trancar a janela o mais rápido possível e mergulhar atrás do sofá.

À noite era pior. Porque vamos abrir o jogo: pernilongos estão entre os animais mais estúpidos que existem. Pensem comigo: você está deitado, dormindo. Se o pernilongo pousasse no seu tornozelo, você jamais iria perceber. Eles passaria a noite inteira ali se empanturrando. Sua perna seria transformada numa daqueles restaurantes “coma o quanto quiser – suco grátis – aceitamos VR”. Mas, não! O idiota insiste em voar perto da sua cabeça, fazendo barulho com as asas e chamando a atenção. Ou ele é imbecil ou faz isso apenas para provocar, porque sabe que – ao menos na minha casa – ele está com toda sua galera ali.

Chegou um dia que eu cansei. Nem tanto pelo fato de que a cada pernilongo que eu matava, dois apareciam em seu lugar, mas porque meus ombros já começaram a doer de tanto bater palmas pela casa. Eu corria pela sala e batia palma tantas vezes que já estava esperando alguém olhar da rua e tocar a campainha, querendo saber se dou aula de flamenco e quanto custa a mensalidade. Sério, só faltavam as castanholas.

Mas a gota d’água foi o dia que eu estava lendo na cama e, ao olhar para cima, percebi que milhões de mosquitos estavam se reunindo no teto, bem em cima de mim. Eles começaram a voar de forma estranha e logo percebi que eles estavam formando uma espécie de desenho no teto. Não. Não era um desenho. Eram letras!

Eles estavam tentando se comunicar comigo!

Larguei o livro e prestei atenção. Seria a descoberta biológica do século. Olhei com atenção as letras se formando, jurando para mim mesmo que, em meu discurso aceitando o Nobel de Biologia, dedicaria o prêmio aos dois professores que me reprovaram nessa matéria. Finalmente, o texto se formou.


MOSQUITOES WAR

EPISÓDIO IV

É um período de guerra civil. Espaçonaves rebeldes atacando de uma base secreta conquistaram sua primeira vitória contra o temível IMPÉRIO GALÁCTICO.


“Porra, eu sou o Império?”, gritei, jogando o travesseiro nos pernilongos. Eu não sabia o que era pior: ser apontado como vilão ou perceber que estou gordo o suficiente para ser apelidado de Estrela da Morte pelos mosquitos. Filhos da puta.

Na minha cabeça, agora era guerra. Mas eu precisava de alguma estratégia para equilibrar a batalha, já que o exército inimigo 1) está em superioridade númerica absoluta e 2) voa. Pensei nos meus anos jogando Civilization e decidi que a melhor saída nesse caso seria algum avanço tecnológico militar. Isso equilibraria um pouco a situação.

Concluí que só havia uma saída. Fui até o mercado e comprei uma daquelas raquetes elétricas que matam mosquitos.

Ok, vamos interromper um pouco aqui. Eu sempre fui contra essa raquete – especialmente porque a primeira vez que eu vi isso foi nas mãos da Síndica Mafiosa do prédio que eu morava em Pinheiros (Oi, leitores mais antigos! Lembram dela?). Naquele momento, aquilo me pareceu um instrumento típico de genocídio, cruel demais. Lembro que jurei nunca usar um negócio daqueles.

Mas não há juramento que resista a um enxame de milhares de pernilongos.

Voltei com a raquete para casa. Ela carrega na tomada (o que é ótimo, porque senão eu gastaria todo meu dinheiro em pilhas) e é laranja porque... Bem, porque a única outra cor disponível era verde-limão, e se eu fosse um pernilongo, jamais respeitaria uma pessoa que me atacasse com uma raquete verde limão. Mas perguntei ao cara do mercado se existia algum modelo que contabilizava o número de mortes.

“Acho que não. Mas por que o senhor iria querer isso?”

“Ah, apenas para ter um número exato e reclamar na prefeitura”, menti. Eu não ia falar para ele que queria ser apelidado de Barão Laranja pelos pernilongos. Se eu tentasse explicar para ele que eu não queria apenas matar os pernilongos, e sim voltar a ser respeitado dentro da minha casa, ele provavelmente acharia que sou louco e chamaria a segurança.

Enfim, voltei com a raquete para casa. Quando estava entrando, os pernilongos estavam voando pela sala. Percebi que eles já se preparavam para me atacar quando puxei a raquete de dentro da sacola e a brandi com força no ar, gritando:

“SAY HELLO TO MY LITTLE FRIEND!”

Faltava só a cocaína no cabelo. Bom, na verdade, falta também o cabelo, mas duvido que os mosquitos tenham prestado atenção nisso, porque imediatamente liguei a raquete.

Agora, minha sala não era mais um campo de guerra, e sim uma espécie de Winbledon do inferno. Eu sacava um pernilongo (CRAC), corria pela sala e rebatia outro perto do aquário (CRAC), cortava uma nuvem que tentava escapar para a cozinha (CRAC CRAC CRAC), subia no sofá e pulava de volta para o chão, golpeando o ar com a raquete feito o Conan (CRAC CRAC CRAC CRAC CRAC) e gritando que vou beber vinho nos seu crânios e me deitar com suas mulheres, cães pictos infelizes!

Sim, aparentemente, a raquete não me fez bem. Não demorei para descobrir que se o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente... O poder elétrico torna insano. Mas comecei a ficar realmente preocupado comigo mesmo quando descobri que alguns pernilongos não morriam imediatamente. Os menos sortudos ficam grudados na tela da raquete, literalmente fritando – dá para sentir o cheiro de queimado e tudo.

Cruel demais.

Na primeira vez que isso aconteceu, eu deveria apenas ter jogado a raquete de lado, me virado na direção dos pernilongos respirando fundo, e falado para eles que “Não. Eu nunca vou abraçar o Lado Negro. Vocês falharam. Eu sou um Jedi, como meu pai antes de mim”.

Eu devia ter feito isso. Mas, na verdade, eu simplesmente aproximei a raquete do meu rosto, admirei o pernilongo queimando e sussurrei “Burn, baby, burn”. Tenho certeza que meus olhos estavam vidrados. Foi aí que eu percebi que adoro o cheiro de mosquitos queimados pela manhã.

Este foi o ponto sem volta. De lá para cá, eu passei a andar pela casa com a raquete embaixo do braço. Aonde eu ia, ela ia comigo. Éramos apenas um. Mas o mais assustador foi que eu desenvolvi um grito de guerra para cada aposento – como eu disse, não era ganhar a guerra, era recuperar meu respeito. E eu decidi recuperar meu respeito colocando medo nos pernilongos.

Por exemplo, na sala eu mantive o “say hello to my little friend”. Aliás, eu queria ter pintado a frase “The World is Yours” na parede, mas a Esposa não deixou. Paciência. Bastava eu colocar os pés no aposento e gritar que os mosquitos sabem o que vai acontecer.

No escritório, eu assumo outra estratégia. Abro a porta imitando o som dos passos do RoboCop e aponto a raquete para os mosquitos, falando que “dead or alive, you come with me”.

No banheiro? Sempre que entro ali com a raquete, grito que “Heeeeere’s Johnny!”. Perguntei para a Esposa se eu não podia abrir um rombo na porta, porque acho que enfiar a cara nesse buraco e gritar essa frase antes de entrar teria um efeito ainda mais assustador, mas ela também não deixou (às vezes eu me sentia sozinho demais nessa guerra).

E o quarto... Bem, ali eu decidi fazer o jogo dos pernilongos. Não tinha sido ali que eles decretaram que eu sou o Império? Então, sempre que entro ali, os pernilongos já entram em pânico quando eu ligo a raquete e digo que “the force is with young pernilongo; but you are not a Jedi yet!” e começo a distribuir raquetadas fazendo som de sabre de luz e gritando que “I have you now” (CRAC), “It’s useless to resist” (CRAC) e “it’s unwise to lower your defenses” (CRAC).

Como vocês devem imaginar, o problema foi resolvido.

Mas não por mim.

Quem resolveu tudo foi a prefeitura, que recebeu tantas reclamações da Esposa que acabou limpando o rio aqui ao lado. Quando fiquei sabendo disso, senti um gosto amargo na boca, resmunguei algo como “malditos diplomatas. Eu estou aqui encharcado de sangue e eles resolvem tudo com um telefonema” e fui trabalhar.

Mas confesso que foi melhor assim. Porque talvez eu iria eliminar todos os pernilongos da casa, mas com certeza eu iria acabar com meu casamento. Teve um dia que a Esposa me chamou, pediu para eu sentar no sofá, falando que queria conversar comigo.

“Você não acha que está exagerando com essa raquete?”

Eu olhei para ela. Peguei uma esponja molhada e apertei na testa. Enquanto a água descia pelo meu rosto, eu comecei a murmurar:

“Eu vi horrores... Horrores que você viu. Mas você não tem o direito de me chamar de assassino. Você tem o direito de matar. Você tem o direito de fazer isso. Mas você não tem o direito de me julgar.”

“Do que você está falando?”

“É impossível descrever em palavras o que é necessário para aqueles que não sabem o que o horror significa. O horror... O horror tem um rosto... E você deve fazer do horror seu amigo.”

“Você está molhando a sala inteira com essa esponja!”

“O horror... E o terror moral... São seus amigos. Caso contrário, eles são inimigos a serem temidos. São inimigos verdadeiros.”

“Ou você para com essa merda ou você vai fazer seu próprio almoço hoje”.

“Ok, já parei”, respondi, guardando a esponja na mesma hora.

De lá para cá eu sosseguei. Mas vou confessar algo aqui:, toda noite, me sento no sofá depois que todos foram dormir e examino minha raquete. Checo se ela está limpa, se está carregada. E faço minha última oração do dia:

“Esta é a minha raquete. Existem muitas outras como ela, mas essa é a minha. Minha raquete é minha melhor amiga. Ela é minha vida. Eu devo controlar a raquete da mesma forma que devo controlar minha vida. Sem mim, minha raquete é inútil. Sem minha raquete, eu sou inútil. Eu devo usar minha raquete honestamente. Eu devo ter uma pontaria melhor que o pernilongo que está tentando me matar. Eu devo atacar antes que ele me ataque. Perante Deus, eu juro: minha raquete e eu somos defensores do meu país; nós vamos controlar nossos inimigos; nós somos os salvadores da minha vida. E que seja assim, até que não haja mais inimigos, apenas paz. Amém.”

E vou dormir. Ou, pelo menos, tentar. Porque eu tenho certeza que os mosquitos vão voltar.

É só uma questão de tempo. Eles vão voltar.