24 de fevereiro de 2015

... E Outras Histórias de Egoísmo.

(Peço que, antes de ler esse texto, leia este aqui).


Foi há poucos minutos atrás. Fui comprar cigarros no posto a duas quadras de casa. Apressei o passo, pois uma tempestade cairia em minutos, e segui meu caminho.

Na metade do caminho, ouvi um pássaro cantando. Na verdade, não era um canto, era o mesmo grito, no mesmo tom e com o mesmo intervalo de tempo. Eu estava na Lins de Vasconcelos e, mesmo com todo o movimento de pessoas e carros, era possível perceber isso.

Pelo som, tive a sensação de que era uma maritaca, pois o bairro é cheio delas. Assim, sem diminuir o passo, olhei para o alto e comecei a procurar por ela, em postes e telhados ao redor. Demorou quase dez segundo para eu encontrá-la, pousada num fio do outro lado da rua. Virada de costas e cantando. E sozinha.

Estranhei ela estar sozinha. Maritacas normalmente andam em bando e cada bando parece ser formado por casais. Mesmo quando não estão em bando, elas estão sempre em pares – às vezes colocamos comida para elas no quintal do fundo, e nunca uma vez sozinha. Ou elas aparecem pares, ou em bando.

Foi quando eu percebi que seu canto não era um canto.

Era um chamado.

Provavelmente, havia se perdido do bando – ou do companheiro – e estava tentando chamando por eles. É um bicho inteligente: sabe que se sair voando para qualquer lado as chances de ser encontrada diminui; assim, fica parado em lugar visível, chamando aquele que estiver mais perto.

Eu parei na calçada e comecei a olhar ao redor, procurando por sinais do resto do bando, ou de alguma outra maritaca. Não vi nada. Provavelmente, as outras pessoas na rua estranharam o fato de eu estar ali, parado, olhando para cima. Devem ter pensado que sou louco ou, no mínimo, desocupado a ponto de poder estar de bermuda e chinelos parado no meio da rua e olhando para o alto feito um imbecil.

Mas eu não me importei, e não porque não me importo com o que as outras pessoas pensam – vamos ser sinceros? Todo mundo se importa com isso em maior ou menos escala – mas sim porque eu não sei lidar com animais perdidos. Sei que isso deve parecer cafona (e provavelmente é), mas, a meu ver, animais são criaturas puras demais para se perderem e enfrentarem sozinhos um mundo tão hostil como esse que nós construímos. Para mim, são gotas de bondade que se diluem numa tempestade de maldades, crueldades e pouco caso.

Sinto isso ao ver cartazes com fotos de animais que sumiram de suas casas, quando Besta-Fera fugiu da casa da minha mãe, quando comecei a cuidar do gato que apareceu nos telhados da vizinhança. É um dos poucos assuntos que eu já escrevi sobre, mais de uma vez, e que mesmo assim não aprendi a lidar.

Eu não pensei nada disso enquanto ao ver aquela maritaca sozinha, chamando pelo bando, mas senti tudo isso. E imediatamente comecei a olhar ao redor, procurando por outras maritacas. Um trovão explodiu no céu e eu não vi maritaca alguma. Nem nos telhados, nos outros fios, nos postes. Nas árvores eu certamente não enxergaria, mas escutaria. E eu não escutava nada. Tudo o que eu ouvia era a maritaca perdida gritando mais alto e olhando para os lados.

Meu instinto foi pensar o que eu poderia fazer. E imediatamente me veio à resposta: nada. Eu não poderia subir nos telhados atrás das outras maritacas, e mesmo se eu pudesse isso não daria certo, eu apenas as espantaria. E ficar ali parado na calçada não resolveria nada já que, se de onde eu estava eu encontrasse outra maritaca, a maritaca do fio já enxergaria suas companheiras muito antes.

Foi quando eu tive a sensação de que eu estava sendo egoísta. Eu não estava parado e olhando para a maritaca em busca de uma solução. Talvez eu estivesse ali esperando para ver se ela era encontrada apenas porque eu não queria sair de casa para comprar cigarros e voltar com o cigarro no bolso e uma história triste na cabeça. Eu não estava procurando solução alguma, eu estava esperando o final feliz acontecer para eu poder tocar meu dia em paz.

Eu não estava pensando na maritaca, porque não adiantava pensar na maritaca. Eu estava pensando em mim, porque eu não queria uma história triste. Sim, eu gosto de histórias tristes, mas sempre no cinema, quando eu sei que é mentira, que os atores acabaram de filmar, trocam de roupa e vão para casa, deixando para trás os dilemas de seus personagens e a música triste.

Mas a maritaca era real. Estava perdida de verdade no mundo real, assustada demais com isso para perceber que, caso não seja encontrada, sua vida será muito mais difícil – e provavelmente mais curta – que ao lado de seu bando, onde cada uma cuida de todas. Tudo o que eu estava fazendo era assistir a isso, esperando que fosse apenas um susto e que seu companheiro e o resto do bando aparecessem – na minha cabeça, estavam preocupados e procurando por ela.

Basicamente, comecei a perceber que a maritaca estava preocupada com ela e fazendo o que podia para consertar isso. As maritacas do seu bando deviam estar preocupadas com ela e fazendo o que podiam para consertar isso. E eu estava preocupado apenas comigo mesmo e com o bem estar do meu dia.

Em minha defesa, digo que não havia nada que eu poderia fazer. Mas, como promotor, digo que eu não estava preocupado com a maritaca. Ou, ao menos, apenas com ela. Eu também estava preocupado com o bem-estar do meu dia. Porque talvez seja isso que a gente sinta sempre que vê uma história triste na nossa frente. Não digo que somos egoístas a ponto de nos colocar acima da história, mas talvez a gente torça por um final feliz não apenas por causa dos personagens da história, mas sim para que a gente consiga encerrá-la de forma alegre e pacífica dentro de nossas cabeças, para que possamos continuar tocando nossas vidas sem nunca mais pensarmos naquilo.

Não estou dizendo que não nos importamos. O que estou tentando dizer é que o fato de nos importarmos não é prova suficiente de que estamos preocupados apenas com a história e com seus personagens, mas também com a forma que essa história vai afetar nosso dia. E muitas vezes estamos mais preocupados com isso do que com a própria história que estamos vendo.

Assim, abaixei a cabeça e tentei não pensar mais a respeito disso – o que pode ser visto como evidência de culpa – e fui comprar meu cigarro. Comprei, paguei e voltei para casa. No caminho de volta, olhei para o alto em busca da maritaca e não vi nada no fio. Ela havia ido embora.

Fui para casa e comecei a escrever sobre isso, transformando o maior susto do bicho em uma crônica que deve me render meia dúzia de cliques, alguns comentários e elogios. Em minha defesa, digo que estou aqui torcendo para ela ter encontrado as outras maritacas. E realmente estou. Mas algo me diz que eu desejo isso somente porque quero um final feliz. Pois estou mais preocupado comigo que com a maritaca. 

23 de fevereiro de 2015

O Mistério dos Cinco Lixeiros

Algumas semanas atrás, comemoramos um ano que estamos morando na nova casa. Na verdade, a Esposa celebrou a casa nova; eu celebrei que estou há um ano sem precisar ter o menor contato com corretores de imóveis.

Não, minto. De vez em quando toca meu telefone, e é um corretor dizendo que no próximo sábado haverá o lançamento de um condomínio de luxo em alguma cidade do Mato Grosso do Sul e se eu não tenho interesse em conhecer. Antes, eu ainda me preocupava em perguntar “onde vocês, pessoas, arrumam meu telefone?”, mas como aceitei essas ligações como algo corriqueiro na minha vida, eu apenas finjo que não falo português e desligo o telefone.

Enfim, a casa nova. Estamos muito felizes aqui – sempre que passo pelo quintal, eu dou um abraço na churrasqueira, digo o quanto ela é importante para mim e o quanto sou uma pessoa mais completa com ela. E já tenho os meus cantos na casa, os locais onde fumo e penso na vida e em textos – algo que não vivo sem. Sim, os vizinhos poderiam falar um pouco mais baixo, mas paciência. Dos males, o menor.

Ou seja, tudo vai muito bem, obrigado.

Tudo menos o lixeiro.

Faz pouco mais de um mês que estou em uma guerra particular com o lixeiro. Tudo começou no início do ano. Até então, o lixeiro era algo extremamente regular e que funcionava como um relógio, de acordo com o seguinte esquema:

Terça-Feira: o caminhão de lixo comum passa à noite.
Quinta-Feira: o caminhão de lixo comum passa à noite.
Sexta-Feira: o caminhão de lixo reciclável passa à noite.
Sábado: o caminhão de lixo comum passa à noite.

Não é preciso ser um gênio para lidar com isso. Terça, quinta e sábado depois do jantar eu preciso colocar o lixo para fora. Sexta eu faço o mesmo, mas com o lixo reciclável. Eu levei pau duas vezes no primeiro colegial, e, nas duas bombas, uma parte bastante importante do pavio se chamava “Matemática”, mas até eu conseguia lidar com isso.

Mas, com o início do ano, recebemos uma circular dizendo que a rotina do caminhão de lixo mudaria, com algumas regras. O caminhão que recolhe o lixo normal continuaria passando terças, quintas e sábado, mas em novo horário. Já o caminhão de reciclável mudou para segunda e quinta.

Certo. Então, agora eu precisaria colocar o lixo para fora quatro dias por semana (segunda, terça, quinta e sábado). Ok. Eu também consigo lidar com isso. Tranquilo.

Mas os problemas começaram com os horários do caminhão. A circular dizia que eu devo colocar o lixo para fora no máximo duas horas antes do caminhão de lixo passar. Bom, isso é fácil também. Se ele passar às 22, eu coloco o lixo para fora às 20. Se ele passar às 23, eu coloco o lixo às 21. Eu também consigo lidar com isso. Assim, peguei a circular e procurei o horário previsto para o caminhão de lixo passar na minha rua.

E não dizia.

Tudo o que ela dizia a respeito do assunto era algo como “fique esperto aí na janela com um relógio na mão que em algum momento da terça-feira o caminhão de lixo vai passar. Se você não souber como é o caminhão de lixo, preste atenção a veículos grandes, fedorentos, cheios de saco de lixo na parte traseira, e sempre derramando um líquido viscoso por onde passam”.

Aparentemente, o problema era a unidade. Eu estava trabalhando com a unidade horas e a prefeitura com a unidade dias. Basicamente, eu precisava encontrar o valor de X na seguinte equação:

X = Y – 2h
(Onde Y pode ser qualquer hora das 24 horas contidas na terça-feira.)

Coloquei isso no papel e tive a sensação de que a resposta seria aquelas coisas que sempre estiveram além do meu alcance, tipo Números Irreais, Números Fantasiosos, Números Fantasmas ou qualquer outro nome que simboliza que soa como um aviso para que a humanidade não se aproxime daquele conjunto de números sob risco de abrir um portal para o inferno e soltar demônios pelo planeta (e o número de demônios seria, certamente, a raiz quadrada de um número negativo).

Bem, desisti de resolver a equação. Assim, na primeira terça-feira do ano, acordei e coloquei o lixo para fora. E passei o dia em casa, dando olhadas pela janela para tentar descobrir o horário de lixeiro. Eu estava convencido que não adiantaria nada. Algo me dizia que o lixeiro poderia passar às 10 horas da manhã, e na semana seguinte passar às 23 horas, e na terceira decidir que seria legal passar no meio da tarde. Mas me surpreendi ao perceber que não foi nada disso que aconteceu.

Na verdade, naquela terça-feira, o lixeiro não passou.

Meu lixo – e o dos vizinhos – ficou ali, entregue ao Deus dará, durante o dia inteiro, como uma criança que fica na calçada esperando por algum sinal que prove a existência do Coelhinho da Páscoa. E se você acha triste a situação do meu saco de lixo, lembre-se que, dentro da casa, eu desempenhava o papel do pai retardado que não apenas acredita no Coelhinho da Páscoa como está na janela preparado para marcar em qual horário ele passa por aquela rua.

Por mim, eu teria deixado o saco de lixo ali, apodrecendo, na frente de casa. Aliás, até pensei em colocar uma plaquinha com “Lixo Hospitalar Radioativo Extraterreno – Recolher com cuidado para não assustar os mosquitos da dengue” só de sacanagem, mas fiquei com preguiça. Além disso, eu teria um problema. Quinta-feira era o dia do caminhão que recolhe o lixo reciclável (que também passaria em qualquer horário que ele se sentisse à vontade para isso) e, com isso, eu precisava tirar o lixo normal e trocá-lo pelo lixo reciclável.

Assim, na quinta-feira pela manhã, abri o portão e fui até a lixeira carregando um saco de lixo. Peguei o saco de lixo que estava lá e coloquei o saco de lixo reciclável no lugar dele. Sacudi as mãos após um trabalho bem feito e fui cuidar do meu dia, voltando para casa carregando o saco de lixo antigo e olhando com cara de “sim, eu levo lixo para dentro de casa, meta-se com a sua vida” para o vizinho que saía para trabalhar.

As horas se passaram e, à tarde, eu saí para ir a algum lugar qualquer. Abri o portão e vi que meu lixo ainda estava ali. Olhei ao redor e não vi saco de lixo algum. Meu vizinho estava voltando para casa e eu perguntei, casualmente:

– Você sabe que horas o lixeiro passa hoje?

– Acho que à noite.

– Obrigado.

– Você está perguntando sobre o reciclável, certo?

– Isso.

– Ele passa à noite. O lixeiro normal passou.

– Como assim?

– Ele já passou. Você perdeu o horário do caminhão de lixo?

– Não quero falar sobre isso.

– Ele passa umas sete da manhã.

– Ok. Depois eu falo com você. Agora eu preciso entrar em casa, ter um ataque histérico e quebrar alguma coisa. Talvez esmurrar uma parede. Mas muito obrigado mesmo assim.

– Por nada.

Entrei em casa batendo portas, socando coisas e decretando que nunca mais colocaríamos o lixo para fora. Aquele saco de lixo que estava ali fora seria o último que colocaríamos na lixeira. Até que o caminhão se dignasse a recolher aquilo, nós seríamos uma nação independente, com nossas próprias leis e alheios ao sistema de coleta de lixo. A Esposa olhou para mim e disse:

– Na verdade, você precisa tirar o saco de lixo lá fora e colocar o do reciclável. Ele passa hoje.

– Como assim, hoje? Eu acabei de descobrir que hoje passou o caminhão de lixo normal.

– Sim, e agora à noite passa o reciclável.

– Dois no mesmo dia?

– Sim. O normal passa terça, quinta e sábado. O reciclável passa segunda e quinta.

– Dois caminhões no mesmo dia?

– Você não tinha percebido?

Não. Não tinha. Mas não pegava bem eu admitir isso. Afinal, eu estava prestes a fundar meu próprio país, e um líder precisa passar confiança para seu povo.

– Sim, eu havia reparado! É evidente que eu havia reparado nisso! Você acha que eu sou idiota? Está escrito lá, quinta-feira!

– Bem, você precisa colocar aquele lixo de volta na garagem e colocar o reciclável para fora.

– Você já considerou a hipótese de que este saco de lixo está amaldiçoado?

– Como assim?

– Eu estou há dias tentando me livrar deste saco de lixo e não consigo. Eu coloco o saco na lixeira, e tudo o que acontece é que eu preciso voltar até a lixeira, pegar o saco e trazer de volta para a garagem. Eu tenho certeza que se a gente abrir o saco de lixo e olhar lá dentro, nós vamos encontrar algum amuleto de uma religião antiga. Nós estamos amaldiçoados!

– Deixa de bobagem.

– Esse saco de lixo vai trazer a desgraça para todos nós!

– O lixo reciclável está ali. Coloca o outro na garagem e este aqui lá fora.

Nem cinco minutos após fundar meu próprio País e eu já havia descoberto que é impossível governar sem o Congresso. Peguei o saco de lixo reciclável, fui até a calçada, peguei o saco de lixo normal, coloquei o saco de lixo reciclável no lugar dele e carreguei o saco de lixo normal para a garagem. E fiquei olhando o saco de lixo durante alguns segundos, pensando se valia a pena abri-lo e fuçar dentro dele em busca de algum boneco asteca de vodu ou uma caveira da Babilônia que estivesse causando tudo aquilo.

Evidentemente, não tive coragem de abrir nada – afinal, não era um saco de lixo comum, mas sim um saco de lixo que estava há dias sendo levado para cá e para lá, gradualmente apodrecendo e ganhando consciência, provavelmente esperando alguém meter a mão lá dentro para capturar a vítima e usá-la como alimento.

Desta forma, achei mais higiênico mudar minha teoria: não é o saco de lixo que está amaldiçoado. A partir de agora, eu falo para as pessoas que minha casa foi construída em cima de um antigo cemitério da Vega Sopave e os espíritos dos lixeiros estão procurando se vingar dos novos moradores, especialmente daquele baixinho careca que está fumando ali na frente.

E a vingança tem dado certo. Agora, sou um escravo do lixo, cheguei até a tentar uma tabela no Excel para mapear os dias que preciso levar o lixo para fora, mas não tive sucesso. Primeiro, a questão de dois lixeiros passarem no mesmo dia. Segundo, assim como as crianças na escolinha tem o “Dia do Brinquedo”, o lixeiro tem o “Dia da Conjunção”. Trata-se da terça-feira, que é o dia que o lixeiro passa se quiser, quando quiser, onde quiser e como quiser.

Assim, desisti e aceitei meu destino. Mas, agora, tudo o que eu faço é colocar o lixo para fora. Estou trabalhando e a Esposa pede para eu colocar o lixo para fora. Levanto, pego o saco de lixo, coloco na lixeira e volto para o PC. Escrevo dois parágrafos e ela aparece.

– Precisa tirar o lixo.

– Você está tentando me enlouquecer?

– Como assim?

– Eu acabei de tirar o lixo. Eu tenho certeza que fiz isso faz dez minutos.

– Aquele era o normal. Agora precisa tirar o reciclável.

– Não dá para tirar tudo de uma vez? Duvido que se a gente fizer isso todos os golfinhos vão morrer, ou que o solo vai se tornar venenoso.

– O saco de lixo está aqui.

– Eu aposto que foi isso que aconteceu em Chernobyl. Mudaram o horário do caminhão de lixo, alguém se atrapalhou tentando descobrir se era a vez do lixeiro normal ou do reciclável, e pronto. Deu merda. Vai acontecer o mesmo aqui.

– Certo.

– Aliás, tomara que aconteça. Assim o planeta explode logo e todos nós morremos.

– Certo.

– E eu não me importo de morrer desde que o lixeiro morra também. O lixeiro e a pessoa que resolveu mudar o horário do caminhão de lixo. Faço questão de encontrar todos esses caras no inferno.

Mas pego o saco de lixo e vou até a calçada. Coloco o saco de lixo na lixeira e, antes de entrar em casa, dou uma olhada para os lados.

Eu sei que alguém está observando.

Eu sei que alguém está rindo disso.

16 de fevereiro de 2015

Pequeno Ensaio sobre Casais que Brigam na Rua

Acho engraçado como casais que brigam na rua decidem sempre fazer isso em frente a minha casa. Vira e mexe estou vendo televisão ou escrevendo e preciso parar o que estou fazendo por causa de uma gritaria lá fora. Ah, sim porque eu sempre paro para assistir. Vou até a parte da frente da casa, acendo um cigarro e fico ali, ouvindo tudo e usando minha melhor cara de “por favor, não se incomodem comigo, eu apenas moro aqui”.

Ontem mesmo foram duas brigas. Uma pela manhã e outra logo depois da hora do almoço. A da manhã foi mais feia, com direito a berros e empurrões e portas de carro batendo – em alguns momentos eu realmente achei que a coisa fosse descambar para a violência física. Já a da tarde aconteceu dentro de um carro, e também terminou com a menina saindo do veículo (e batendo a porta, que parece ser padrão) e indo embora, com o sujeito atrás dela tentando retomar o diálogo.

Ouvindo as discussões descobri o motivo da primeira briga e cheguei perto de identificar o que causou a segunda. E os motivos foram, basicamente, porque parece que...

Não.

Na verdade, os motivos não importam.

Quando um casal quebra o pau aos berros no meio da rua, não tem mais motivo. Não é mais o caso de ouvir as três versões que existem para saber quem está errado. Sim, três versões. O número de versões que existem para qualquer história pode ser calculado somando X + 1, onde “X” é o número de participantes da história e 1 é a verdade. Ou seja, numa briga de casal, estamos falando de duas pessoas, então existem três versões diferentes: a versão de um, a versão do outro e a verdade.

Mas no caso de uma briga na rua, daquelas de berros e ameaças de morte e de chamar a polícia, nem adianta mais olhar as versões para saber quem está errado. Pois quando a coisa chega a este ponto é porque não é mais um ou outro que está errado. É o relacionamento que está errado.

E não posso negar que, apesar de adorar um bom barraco para assistir (afinal, ver um casal se matando na rua é o mesmo que assistir a TV aberta sem precisa assistir a TV aberta) eu fico um pouco triste ao ver essas coisas. Nem tanto porque eu já passei por situações como essa – se você não passou, eu recomendo fortemente que você não experimente – mas mais por tudo aquilo que não sabemos sobre o relacionamento.

Quando a gente vê uma notícia sobre alguém que morreu baleado na rua, pensamos sempre em como a violência está grande, como é difícil viver nas grandes cidades, como tudo é perigoso e nem dá para colocar o nariz para fora.

O que não pensamos é que aquela pessoa que está deitada numa poça de sangue na calçada não é uma estatística. Ela é filha de alguém, irmã de alguém, talvez tenha filhos. Ela tem toda uma história que está deitada ali com ela. Tem o primeiro beijo, a primeira vez que chorou por causa de um namoro, a alegria que sentiu quando conseguiu o primeiro emprego, o sonho em viajar para conhecer os Estados Unidos e a vontade de ver um show do U2... E apesar disso tudo estar deitado ali com ela no meio do sangue e coberto com um saco de lixo ou um jornal, não enxergamos isso. Vemos apenas que ela tomou seis tiros e que foi um assalto que deu errado e vamos para a próxima notícia.

O mesmo acontece com relacionamentos que morrem na rua. Eles não deitam numa poça de sangue, mas sim em gritos e palavrões e falta de razão de todos os lados. E nós olhamos e pensamos apenas no tamanho do barraco, mas nunca pensamos no cadáver estendido na discussão.

Eu sempre penso. Talvez seja porque escrevo, não sei. Mas sempre penso.

Podemos pegar qualquer um dos casais que brigou aqui em frente, ontem. Nos dois casos, o ódio que um sentia pelo outro era quase palpável. Eram duas pessoas que não se suportavam, que não conseguiam fazer o outro enxergar o que eles queriam e que se recusavam a enxergar o que outro queria. E chega um determinado momento – isso ficou mais claro na primeira briga – que o motivo da briga se perdeu. Machucados e ofensas de outras brigas começam a entrar em casa, e de repente não se briga mais para resolver o assunto, mas sim porque se odeiam.

Brigam porque o ódio parece ser a única forma de contato que existe.

E eu assisto tudo pensando que um dia não foi assim. Talvez tenham se conhecido num bar. Pode ser na casa de um amigo – num churrasco no final de semana, talvez – mas gosto da ideia do bar. Começaram a conversar e a se conhecer.

E, naquele momento, tudo era maravilhoso. Se um deles falasse que “é melhor você ir falar com outra pessoa, porque em três anos nós vamos quebrar o pau no meio da rua, na Vila Mariana, aos berros, com as pessoas saindo de casa para ver”, o outro diria “que bobagem”, porque certamente era uma daquelas horas que a gente vê apenas o que quer. Numa situação normal, ele teria achado o dentinho torto dela feio, mas naquela hora pareceu charmoso. Numa situação normal, ela teria achado o cabelo dele ridículo, mas na hora pensou que “é questão de me acostumar”.

Três anos depois, ele tem vontade de arrancar o dentinho torto dela com um murro. Ela tem vontade de segurá-lo pelos cabelos ridículos e esfregar a cara dele na calçada.

E o que é pior, com todo mundo ali olhando. Soa meio injusto o relacionamento desmoronar de vez em frente a uma plateia enquanto o resto do mundo foi privado dos bons momentos. É como se a raiva fosse mais importante que o amor (afinal, ela é mostrada e o amor não) e é justamente o contrário. Aquele ódio que estamos assistindo existe apenas porque houve amor um dia.

Afinal, ninguém soube quando ele percebeu que queria levá-la para a cama. Ninguém soube quando ela decidiu que queria beijá-lo a primeira vez que o viu jogando a cabeça para trás numa gargalhada. Ele pensou duas vezes antes de contar para alguém que ela não sai da minha cabeça, ela esperou alguns almoços até comentar com a amiga que acho que estou apaixonada.

Não é injusto com a plateia. É injusto com o amor que está sendo velado em praça pública.

Todos os melhores momentos lá do começo foram mantidos em segredo, mesmo que somente por alguns minutos. Chega a ser triste que todos os piores momentos do final sejam encenados no meio da rua, como um show de horrores. Triste, pois isso é tudo o que eu e meus vizinhos vamos saber dessas pessoas, sem jamais pensarmos que uma noite, cada um em sua casa, deitou a cabeça no próprio travesseiro e jurou que tudo o que queria na vida era fazer o outro feliz. Aliás, não apenas feliz, mas mais feliz que nunca.

Provavelmente nunca esquecerão um do outro. Sempre souberam disso, desde o primeiro beijo, mas agora estão percebendo que ele pensará nela como a filha da puta e ela pensará nele como aquele escroto – nomes bem diferentes das dezenas de apelidos carinhosos que tiveram enquanto o namoro prometia ser para sempre. E cada um dirá que o outro foi a pior coisa que aconteceu na vida, ignorando o fato de que, em algum momento da primeira noite, ambos se olharam com a expressão de “parece ser uma boa ideia”. Nós nunca vimos isso acontecer. Nunca vimos a primeira frase trocada, o primeiro sorriso, a primeira vez que os dedos se entrelaçaram.

Nós vimos apenas o olhar de ódio.

Da mesma forma que o morto não pode se levantar e contar todos os seus sonhos (tanto aqueles que ele concretizou como os que ele será obrigado a deixar de lado pelo fato de que está na calçada depois de levar cinco ou seis tiros) um amor que briga na rua não consegue mais enxergar o que foi que fez com que um se apaixonasse pelo outro na primeira vez que se olharam, que sorriram um para o outro, que se beijaram.

Um amor que morre na rua não tem como se levantar e contar para os pedestres como ele nasceu. E como ele foi bonito um dia.

Talvez seja isso. Num mundo onde as pessoas são cada vez mais egoístas e incapazes de entender como o outro se sente, namoros que terminam na rua com lágrimas e berros e palavrões são apenas estatísticas. Por isso que adoraria que todos os casais que brigam na minha rua tocassem a campainha da minha casa, avisando que iria brigar, explicando o motivo da briga e contando toda a história de como se conheceram.

E principalmente como se apaixonaram. Porque pode parecer difícil de acreditar vendo os dois quase se agredindo na rua, mas tenho certeza de que eles foram apaixonados um pelo outro em algum momento. Mas é uma paixão que morreu.

Deve estar nos jornais, como toda estatística, que parecem gostar de mostrar apenas coisas ruins. E não cabe a nós dizermos que a história deles não foi boa apenas porque estão se matando na rua. Afinal, essa história foi boa em algum momento, ela apenas não será contada.

E é por isso que vira estatística. 

10 de fevereiro de 2015

Alien - O Oitavo Caixa do Supermercado

Leitores mais antigos sabem que um dos pontos fortes deste blog sempre foram as histórias de supermercado.

Isso porque basta eu colocar o pé dentro de qualquer supermercado para os loucos que vagam pelos corredores detectarem minha presença e começarem a me perseguir incansavelmente com o objetivo de me arrastar para a insanidade deles - que pode ser tanto me envolver numa briga por causa de uma fatia de presunto quanto tentar me obrigar a beber água sanitária.

Ou seja, enquanto as pessoas normais vão fazer compras sem saber se irão encontrar tudo o que precisam, eu normalmente saio de casa para ir até o mercado sem fazer a mínima ideia se vou conseguir voltar vivo para casa.

E isso tem piorado nas últimas semanas, por causa de uma menina que trabalha como caixa no mercado aqui ao lado de casa. Eu falei dela rapidamente neste post aqui (corra os olhos até o sétimo parágrafo e procure pela menina alienígena que dança) e sempre imaginei que ela entraria no blog. Mas eu realmente estou ficando assustado, pois eu estou cada dia mais convencido que ela é realmente um extraterrestre.

Aliás, eu estou cada dia mais convencido que ela não apenas é um extraterrestre, mas sim um extraterrestre com sérios distúrbios psicológicos.

Não. Podemos ir além. Na verdade, ela não é um extraterrestre com sérios distúrbios psicológicos, mas sim um extraterrestre com sérios distúrbios psicológicos e cuja missão, seja lá qual for, diz respeito a mim.

Na verdade, às vezes eu acredito que ela é uma espécie de mercenária espacial. Eu devo ter feito alguma coisa que ofendeu algum milionário de um planeta distante, que contratou o alienígena para me enlouquecer. Assim, ela pesquisou toda a minha vida e, ao ver que vou ao mercado quase todo dia, se infiltrou ali.

À primeira vista, ela se parece humana. Cabeça, tronco e membros. Mas basta bater o olho nela para perceber que algo está errado. Quanto mais você olha para ela, mais você chega à conclusão que algo ali está errado. Num dia parece que é a proporção entre os braços e o tronco; no dia seguinte, você tem a sensação de que talvez as pernas sejam grandes demais; aí você vê que esqueceu o sabão em pó, volta ao mercado e percebe que ela tem a cabeça larga demais. Você nunca sabe o que está errado, mas tem algo ali que está errado.

E os problemas só aumentam quando ela começa a se mover. Os movimentos dela não são naturais, é como se ela estivesse sendo manipulada por controle remoto (eu já pensei em cordas penduradas no teto, como uma marionete, mas não são, porque eu chequei um dia). Imagine um boneco de Olinda andando pelas ruas enquanto tenta não ser notado pelas outras pessoas e você tem uma amostra dos movimentos dela.

Bem, isso prova que ela não é deste planeta. Certo. Não é a primeira vez que sou abordado por alienígenas na rua, mas o problema é que ela parece sofrer algum surto psicótico toda vez que eu me aproximo. Eu não sei se emito algum tipo de radiação, mas eu sou uma das únicas duas coisas que parecem ativá-la (mais tarde eu falo sobrea outra coisa). Então, basta eu me aproximar do caixa para ela sofrer uma espécie de sobrecarga, como se os sensores dela indicassem que sua presa está por perto.

E ela começa a dançar. A se mover. E a falar incontrolavelmente, sobre qualquer assunto. Sem lógica, sem contexto. E sem piedade. É mais ou menos assim.

– Você vai querer CPF na nota?

– Sim.

– É bom esse negócio de CPF né?

– Oi?

– Esse negócio de CPF.

– É. Acho que é.

– Porque você paga aqui e recebe ali. Esse xampu é bom?

– Não sei, foi minha esp...

– Olha! Tem cebola! Você vai comer esta cebola?

– Você não precisa do meu CPF?

– Minha tia adora cebola. A gente chama ela de Cebola em casa. A Tia Cebola. Mas só nos natais.

– O Meu CPF é...

– Porque ela só gosta de cebolas nos natais. Na festa junina, ela odeia cebola. Você acredita em Deus?

– Oi?

– Deus. Você acredita?

– Bem...

– Eu não sei se acredito. Mas estamos na frente de uma igreja, melhor mudar o assunto. Você vai querer CPF? No liquidificador?

– O CPF onde o quê?

– No liquidificador. Você tem liquidificador em casa?

– Olhe, eu esqueci meu cartão. Depois eu pego as compras. Eu vou embora.

– Mas não vamos falar sobre isso, porque liquidificadores não gostam que falem deles. Você já descobriu quantos milímetros choveu hoje?

E sim, é sempre assim. Toda vez que eu me aproximo, ela sofre um surto psicótico. É como se o cérebro dela fosse invadido por centenas, milhares, milhões de janelas popup que ela precisa ler em voz alta e falar para mim. E tudo isso fazendo dancinhas e se movendo de forma estranha. Quando não consegue ligar um assunto no outro, dá gargalhadas histéricas e tenta novos passinhos de dança.

Isso acontece na maioria das vezes. Mas, em algumas outras, eu vou esperando pelo pior e acontece exatamente o oposto. Ela está prostrada na cadeira – quando ela está na cadeira, você tem certeza de que tem algo errado com o corpo dela, pois ela consegue ficar sentada e deitada ao mesmo tempo – olhando fixamente para o nada, com cara de assassina.

Eu coloco minhas compras, e ela não olha para mim. Sem exageros, ela não move os olhos. Não pergunta nem se eu quero CPF na nota. Apenas pega as compras, passa no leitor do código de barras e arremessa todas elas em direção às sacolas. Quando termina de jogar as compras ali, permanece imóvel, esperando eu tomar alguma atitude. Aí eu olho o valor na tela, estico o cartão e digo.

– Débito.

Ela arranca o cartão da minha mão, enfia na máquina e continua olhando para o nada. Eu digito a senha, a notinha é impressa. Eu pego o cartão e vou embora. A notinha continua ali, na máquina, e a alienígena permanece olhando para o nada. Eu não sei se ela está recebendo mensagens do planeta natal, ou se está em uma espécie de transe, ou se pelo fato de estar em um planeta bipolar ela também se transforme em uma criatura bipolar e tome litros de lítio no gargalo todas as manhãs... Mas é como se eu não existisse.

Sim, eu já pensei na hipótese de serem dois alienígenas diferentes, um feliz e outro raivoso, como se fossem a extraterrestre Ruth e a extraterrestre Raquel. Mas não gosto desta ideia porque isso me aproxima perigosamente de ser uma espécie de Tonho da Lua. E por mais que eu adoraria ser um personagem de uma saga de ficção científica, eu não quero ser o Tonho da Lua das Galáxias.

Então, parto do princípio que é um alienígena só, mesmo porque na maior parte do tempo ela está surtada dentro daquilo que é o normal para ela: dançando de forma estranha, falando de forma estranha, vivendo de forma estranha.

Aliás, seja qual for o problema que ela tem comigo, também envolve minha família. Dia desses, a Esposa foi ao mercado e a alienígena estava olhando fixamente para umas oitocentas moedas de um real espalhadas no balcão. Parecia ser um dia daqueles em que ela perde o contato com a realidade – ou com a nossa dimensão – pois ela apenas olhava as moedas, ignorando os clientes que queriam passar a compra. De repente, ela agarrou uma moeda que estava no meio, gritando “uma moeda da Copa!” e começou a fazer suas dancinhas e falar sobre pneus e depois sobre pelicanos.

Por isso que eu tento evitar ir ao mercado agora. Porque basta eu me aproximar dela que o surto psicótico-espacial começa. Afinal, como eu disse, eu sou uma das duas coisas que desperta isso nela. A outra é Alceu Valença.

Aliás, não é Alceu Valença. É especificamente a música Anunciação.

Ela simplesmente não sabe lidar com a existência da música. Não sei se faz a lembrar do seu planeta natal, não sei se se a música é um portal galáctico que ela usou para viajar até nosso planeta, não sei se algum som ali faz com que seu cérebro produza algum tipo de enzima alienígena que causa um surto. Sei que apenas que a música Anunciação parece ser algo grande demais para ela suportar.

E acontece que, às vezes, neste mercado, toca música. Nem sempre toca, mas às vezes o sistema de som está ligado e está tocando música.

E é sempre Anunciação. Sempre.

Às vezes é a versão original, mas às vezes é algum cover. Eu nem sabia que Anunciação tinha tantas versões, mas todas que foram gravadas até hoje estão registradas num CD que toca constantemente no mercado. Acaba a versão do Alceu Valença e começa a versão do Coral das Crianças de Campinas. Acaba a versão do Coral das Crianças de Campinas e começa o tributo das bandas de heavy metal japonesas à música Anunciação.

E a alienígena do caixa enlouquecendo e dançando. E enlouquecendo enquanto dança. Eu me aproximo e tento acabar logo com aquilo.

– Bom dia.

– Adoro essa música.

– Sim, eu gosto também. Eu vou quer CP...

– Ela gruda na cabeça. Gruda e não sai. Gruda e não sai.

– Sim, você me disse isso ontem. Olhe, eu estou com um pouco de p...

– TU VEEEENS! TU VEEEENS!

– Meu Deus do céu.

– EU JÁ ESCUTO OS TEUS SINAIS!

– Olhe, eu sei que talvez o pessoal do seu planeta esteja mandando sinais, mas é que está todo mundo olhando, e eu preciso...

– TU VEEEENS! TU VEEEENS!

– Deixa. Depois eu pego as compras. Eu vou embora.

– Você vai querer CPF?

– Oi?

– CPF. Vai querer CPF?

– Sim.

– Pode falar.

– Um dois três. Quatro cinco...

– QUE TU VIRIAS NUMA MANHÃ DE DOMINGO!

– Falta o resto do CPF.

– EU TE ANUNCIO NO SINO DAS CATEDRAIS!

– Esquece. Depois eu pego as compras.

– TU VEEEENS! TU VEEEENS! EU JÁ ESCUTO OS SINAIS!

– Tchau.

– TU VEEEENS! TU VEEEENS!

31 de janeiro de 2015

Como Ver as Horas na Terra do Nunca

Quando você é criança, você quer ser adulto. Quando você é adolescente, você tem pavor da ideia de ser confundido com uma criança. Mas, quando você vira adulto, existem dois caminhos: ou você se orgulha de ser 100% adulto, ou você se orgulha de ainda ser meio criança.

Eu sou deste segundo grupo. Acho que puxei isso do meu pai, que também é assim. Fui um pouco menino quando era menino, fui um pouco menino quando era adolescente, e continuo sendo um pouco menino agora que sou adulto. Aliás, agora que sou adulto, sou mais menino que nunca. E veja bem, isso não quer dizer “infantil”, quer dizer “menino”.

Algumas pessoas dizem que existe um menino que não envelhece nunca – uma espécie de Peter Pan – morando dentro de mim, mas eu acho isso meio improvável, já que, com 1.60m de altura, qualquer menino de 12 anos já é maior do que eu e teria sérias dificuldades em morar dentro de mim. Mas gosto de ouvir isso, por um motivo básico: é verdade.

Na verdade, eu não me tornei “menino” depois de envelhecer, eu nunca deixei de ser menino. Brinco o tempo inteiro, fico criando mundos, histórias e personagens o tempo inteiro. Ou melhor, fico brincando de faz de conta comigo mesmo. Acho que a vida funciona melhor assim.

Um exemplo? Quando eu morava em Pinheiros, sozinho com Besta-Fera, eu não o chamava pelo nome seguido de um “vem aqui”. No melhor estilo Jornada nas Estrelas, sempre que eu o chamava era pela frase “Alferes Besta-Fera... Report to the Bridge!” (ah sim, porque como a fantasia é minha, eu sou o capitão). E, quando nós íamos dormir (“íamos” porque ele dormia na minha cama) eu corria para o quarto junto com ele, como se estivéssemos fugindo de zumbis imaginários ou coisa parecida e precisávamos chegar à cama a salvo – caso você esteja se perguntando, durante o dia eu chefe de redação e coordenava o trabalho de três pessoas e não sei quantos colaboradores externos.

Brinco o tempo inteiro dentro do meu mundinho. Outro exemplo? Se alguém me ultrapassa andando na calçada, eu imagino que a pessoa é meu rival numa corrida ou numa caça ao tesouro – ou qualquer outra corrida contra o relógio – e preciso ultrapassá-lo.

Minha cabeça funciona assim desde que eu sou criança. A primeira brincadeira de faz de conta que me lembro de fazer sozinho era na hora de dormir, quando eu tinha uns sete, oito anos. Eu sempre tive muita facilidade para dormir, mas às vezes o sono não vinha. E se eu levantasse e reclamasse disso para minha mãe, ela diz que bastava eu deitar e ficar quietinho que acabava dormindo.

Mas para mim, deitar e ficar quietinho não tinha graça... A não ser, claro, que eu fosse um soldado escondido em uma trincheira em território inimigo, protegido apenas pela escuridão. Assim, eu deitava e ficava imóvel para não denunciar minha posição e evitar ser capturado. Ficava me testando para descobrir quanto tempo eu poderia permanecer imóvel, atento aos barulhos ao meu redor para descobrir se os inimigos estavam perto de mim...

E acabava dormindo.

Os anos passaram. Eu me formei, comecei a trabalhar... Mas não mudei isso. Já assumi que é algo meu – talvez uma deficiência que faça um lado do meu cérebro permanecer com oito anos de idade – e pronto.

Fiquei pensando isso nos últimos dias em que fiquei sem relógio no quarto.

Vou explicar melhor: eu não durmo com o celular no quarto. Parto do princípio que como eu passo o dia inteiro na internet, a noite é minha. Dormia muito com o celular ao meu lado, mas quando decidi deixá-lo na sala na hora de dormir, alguns anos atrás, comecei a dormir melhor. E não pelo fato de que eu não escuto notificações de nada (para isso, bastaria tirar o som), mas sim pelo fato de que eu consigo encerrar o dia antes de ir para o quarto.

Mas, como isso, eu não tenho relógio, porque além de ser menino eu sou meio azarado (meu relógio estava sem bateria, fiquei meses me esquecendo de trocar a bateria, até que, um dia, fui ao shopping, troquei a bateria e no dia seguinte a pulseira quebrou). Assim, eu sobrevivia com o aparelho da TV por assinatura, que tinha um relógio. Acordava de madrugada, levantava a cabeça e via que horas eram.

Contudo, como trocamos o plano da TV, recebemos um aparelho novo que não tem horário nenhum, somente uma luz azul inútil que serve para nada no meio da madrugada.

E eu tenho um problema: se eu acordo, seja de madrugada ou de manhã, eu preciso saber que horas são. Assim, agora eu preciso saber que horas são, mas não tenho um celular, não tenho relógio e o aparelho da TV a cabo fica me olhando com sua luz azul e aquela expressão de “não sou empregado para ficar informando o horário”.

E, justamente por causa disso, eu tenho acordado muito durante a noite. Acordo e imediatamente me sento na cama – é automático, uma das heranças que recebi de quando tive depressão – e começo a me perguntar que horas são.

Olho ao redor do quarto e vejo que tudo está escuro. Ou seja, ainda deve ser madrugada, mas é tudo o que eu sei.

Aí eu começo a tentar me lembrar de todos os livros e filmes que vi que poderiam indicar alguma maneira de descobrir o horário. O problema é que a maioria deles mostra como saber o horário durante o dia, e nunca durante a noite. E minha mente começa a vasculhar tudo o que eu sei em busca de algum modo de agir.

De repente, não estou mais sentado na cama. Estou numa ilha. Sou um personagem de A Ilha Perdida (Coleção Vaga-Lume, alguém?), ou Robinson Crusoé, perdido no meio da floresta e preciso descobrir um modo de saber as horas. Assim, analiso a luminosidade e os barulhos dos animais ao meu lado, para tentar decifrar o horário.

E não consigo ver nada e o único animal que está por perto é um dos gatos, que está deitado ao pé da cama e me olhando com cara de sono e tentando entender por qual motivo – além de eu ser um imbecil – eu estou sentado na cama. Ou seja, nada de ilha.

Abandono a ilha e estou num planeta deserto. Preciso saber que horas são para me transportar para a nave, mas estou sem meu equipamento. Assim, tento adivinhar o que meu oficial de ciências vulcano – porque todo menino precisa ter um oficial de ciências vulcano – faria. Ele diria para eu estudar a posição das estrelas como os antigos navegadores, e deduzir as horas por isso.

Aí eu olho para o céu e não vejo merda de estrela nenhuma, somente o teto do meu quarto. Meu oficial de ciências vulcano sugere abrirmos um buraco no teto do quarto com tiros de feiser, mas abandono essa ideia rapidamente porque, mesmo sendo meio menino, sei que a casa é alugada e não podemos mais fazer isso.

E de repente estou no Oeste. Tudo o que preciso fazer é olhar em direção ao leste e tentar detectar o mínimo de claridade possível. Isso indicaria que o amanhecer está próximo – e nenhuma claridade indicaria que são menos de quatro horas da manhã, pois o Sol nasce cedo nas pradarias. Mas preciso estudar com cuidado, pois coiotes e índios estão sempre à espreita.

E olho em direção ao leste e vejo apenas minha coleção de quadrinhos.

E começo a buscar outra situação. Se eu estivesse em um castelo de vampiros, talvez encontrando a cripta eu conseguisse descobrir...

– Por que você está sentado na cama?

– Oi?

– Por que você está sentado na cama?

– Estou tentando descobrir um jeito de saber as horas.

E aí a Esposa pega o celular dela, aperta o botão e diz que são “quase cinco” da forma mais adulta – e mais sem graça – do mundo. E, da forma mais adulta do mundo, fala para eu dormir, deita e dorme.

Eu deito também. Mas depois de passar por uma ilha, por outro planeta, pelo Oeste, estou agitado demais e não consigo dormir. Assim, fico quietinho na cama, imóvel. E começo a imaginar que estou escondido numa trincheira em território inimigo, e estou sendo procurado. Não posso me mover de forma alguma, preciso aproveitar a escuridão.

E, em dois minutos, estou dormindo. Feito criança.