23 de março de 2018

Sobre Meninos e Lobos


Se tem uma coisa que eu descobri com a paternidade é que eu me torno uma pessoa melhor quando canto para meu filho. Claro que eu não fico parado na frente do carrinho fazendo apresentações de música e dança para ele... Bom... Ok. Já fiz isso algumas vezes. Mas eu quero falar mesmo sobre eu cantar para ele dormir.
Meu filho é daquelas crianças que luta contra o sono. O quebra-pau é visível: ele está morrendo de sono, mas não quer dormir, então começa a ficar bravo. Aí que ele não dorme mesmo, independente do sono aumentar.
Encontramos algumas maneiras de lidar com isso, e uma delas envolve em eu cantar para ele. A parte operacional é fácil: eu o pego no colo, deixo ele bem aninhado e começo a andar pela casa. No começo foi tranquilo. Eu normalmente usava Beatles. Ia cantando baixinho, e ele ia sossegando até começar a fechar os olhos – aí eu usava minha arma secreta (Something) e dava o golpe de misericórdia.
Mas, de repente, meu repertório de Beatles começou a perder o efeito. Something ainda é bem eficaz, mas as outras não estavam ajudando. Aí experimentei Chico Buarque – e descobri uma nova arma secreta: Acalanto.
E Chico Buarque também funcionou durante um tempo. O problema é que todas as músicas que sei de cor do Chico são da fase Construção, e comecei a me sentir meio mal em colocar meu filho para dormir ao lado de pessoas que morreram na contramão atrapalhando o tráfego ou que tiveram mães que o ninaram com cantigas de cabaré.
Aí abri o leque. Fui para rock nacional, para blues, para outras coisas de rock clássico... Só deixei heavy metal de fora. Eu consigo transformar She Loves You em algo com uma sonoridade delicada, mas é impossível fazer isso com músicas como Orgasmatron ou Symphony of Destruction.
Todas essas músicas tiveram efeito, mas não tanto quanto o Beatles que usei no começo. Então, decidi seguir o caminho óbvio e fui para canções infantis.
O problema é que eu não lembro quase nada de músicas infantis. A única coisa que eu recordava era que a maior delas era sempre estrelada por animais – e, bem, eu tenho 42 anos, então é provável que todos esses bichos dessas cantigas já morreram de velhice. Se bobear, até mesmo suas espécies foram extintas.
Mas, enfim, comecei a puxar algumas pela memória. Comecei com Escravos de Jó, que jogavam o tal caxangá – eu nunca soube o que era caxangá, mas aquele lance do tira, põe, deixa ficar, sempre me pareceu meio pornográfico. Mas ignorei isso e cantei.
Depois fui para O Cravo e a Rosa e comecei a reparar em detalhes que nunca tinha percebido. Você já reparou na violência dessa música? Eles brigam, e o Cravo sai ferido, mas a Rosa aparentemente leva a pior, porque saiu despedaçada. Veja bem, ela não sai com o caule arranhado, com uma pétala amassada... Não. Ela sai despedaçada!
Assim que eu percebi isso, comecei a imaginar uma versão do Cravo e a Rosa dirigida pelo Tarantino, com um final onde o Cravo perde completamente o controle, arranca a Rosa da terra e começa a rasgar suas pétalas gritando histericamente.
Mas fiquei curioso e fui pesquisar o resto da letra. Descobri que depois disso o Cravo fica doente, a Rosa vai visitá-lo, e aí um dos dois chora e parece que eles se entendem e acabam se casando.
Olha, eu não tenho nada a ver com a vida da Rosa, mas alguém podia avisar a ela que não é inteligente casar com alguém que despedaçou você na última briga? Isso com certeza deve valer também para flores. Terminei de ler com a certeza que a música acaba no casamento só para não se tornar uma história de violência doméstica, daqueles que a gente vê no Datena quando já é tarde demais. Eu não iria me surpreender se um dia descobrissem a letra inteira da música, e ela continuasse assim:
O Cravo começou a beber
A Rosa tomava calmante
O Cravo perdeu o emprego
A Rosa arrumou um amante

O Cravo puxou uma faca
A Rosa desafiou: “venha”
O Cravo foi enquadrado
Na Lei Maria da Penha

O Cravo teve sua foto
Publicada nos jornais
A Rosa foi justiçada
Em todas redes sociais


Agora, o problema mesmo começou quando lembrei daquela história do “eu vou passear no bosque”. Na boa? Essa música é uma espécie de lavagem cerebral. Eu comecei a andar com meu filho no colo e a cantarolar isso pela sala. Mas eu me lembrava só dos primeiros versos, “vou passear no bosque, enquanto o Seu Lobo não vem”. 
Comecei a cantar isso. Vou passear no bosque, enquanto o Seu Lobo não vem. O tempo passou e meu filho não dormiu. Vou passear no bosque, enquanto o Seu Lobo não vem. Meu filho olha para mim. Vou passear no bosque, enquanto o Seu Lobo não vem. Vou até a cozinha. Vou passear no bosque, enquanto o Seu Lobo não vem. Meu Deus, estou fazendo isso faz vinte minutos. Vou passear no bosque, enquanto o Seu Lobo não vem. Merda de lobo. Vou passear no bosque, enquanto o Seu Lobo não vem.
Chegou um determinado momento que eu já não cantava mais. Eu apenas carregava meu filho no colo recitando esse negócio do bosque e do lobo como se fosse um mantra. Meu cérebro estava derretendo e nada da merda do lobo aparecer. Completamente hipnotizado, olhei para meu filho e vi que ele estava com os olhos vidrados.
E eu não conseguia parar de cantar! A letra da música me puxava cada vez mais dentro de um bosque imaginário, onde eu esperaria um lobo que não aparece nunca. Para tentar quebrar o encanto, tentei comecei a cantar a música em outro ritmo e finalmente consegui fazer isso usando Beatles.
Se você quiser tentar, é fácil. Sabe Can’t Buy Me Love? Aquele trecho que diz “Can't buy me love...  Everybody tells me so!”? Ele funciona certinho se você colocar “Passear no shopping... Enquanto o Seu Lobo não vem” como letra. Tenta aí.
Mas isso também não adiantou muito, porque eu comecei a cantar esse lance do Lobo na versão Beatles, e logo estava começando a ficar hipnotizado também. Eu não precisava de outros ritmos, e sim de mais frases.
Foi quando comecei a tentar a puxar o resto da música pela memória. Eu conheci essa canção vendo minha avó cantando isso para o meu primo mais novo. Como meu primo é padrinho do meu filho, deduzi que isso seria um bom sinal. Assim, me baseei por essa letra, que puxei de memória. E a letra era:
Vou passear no bosque,
Enquanto o Seu Lobo não vem.
Está pronto Seu Lobo?
Estou sim, senhor.


Certo. Agora eu tinha quatro frases. Só que, assim que eu comecei a cantar, percebi que essa canção não é uma cantiga de ninar, mas sim uma armadilha.
Porque vamos pensar: eu estou andando com meu filho no colo, falando “vamos passear no bosque, enquanto o Seu Lobo não vem.” O que isso quer dizer? Que o lobo não está no bosque. A letra diz que aquele bosque é seguro porque é desprovido de lobos. É um bosque lobo-free.
Mas, logo em seguida, rola um plot twist. Eu pergunto: “está pronto, Seu Lobo?” É claramente uma traição! Eu era um agente duplo, levando meu filho para o bosque com a promessa de passear em segurança e, ao mesmo tempo, perguntando se o Lobo está pronto para ir até o bosque. Na minha cabeça, o significado da música era: “Lobo, estou entrando com meu filho no bosque como combinamos! Você está pronto? Não demore e não esqueça de levar a mala com os dólares!”
E o pior é que o Lobo está pronto! É tudo um golpe! Eu e o Lobo, aliados contra meu filho! Eu comecei a me sentir um monstro com isso tudo: Rob Gordon, o cara que vendeu o filho para o Seu Lobo. Depois eu pesquisei a letra da música e parece que tem toda uma odisseia que o Lobo nunca está pronto porque está colocando a roupa, penteando o cabelo, passando desodorante, procurando as chaves de casa... Enfim, isso não muda o fato de que eu não canto mais essa letra. Agora eu canto que:
Vou passear no bosque,
Enquanto o Seu Lobo não vem.
Está pronto, Seu Lobo?
Porque se você estiver e simplesmente pensar em pisar nesse bosque e ousar chegar perto do meu filho, saiba que eu tenho uma arma e não tenho medo de usá-la, seu lobo maloqueiro filho da puta.


E não me importa que o ritmo não encaixou com essa letra, porque tem certas músicas que a mensagem é mais importante que a melodia. Enfim... Desencanei desse papo do Lobo, de Bosque. Sinto muito, mas não rola. Nem de bosque eu gosto, deve ter mosquito, deve ter plantas venenosas, se bobear tem até o Cravo chifrando a Rosa e eu não quero me envolver no problema dos outros.
Vou continuar com Beatles. É meu filho. Vai funcionar.

5 de março de 2018

(I Can't Get No) Vaccination

Faz mais ou menos duas semanas que estamos nos preparando, aqui em casa, para um evento razoavelmente importante: o dia do meu filho tomar as primeiras vacinas. Quer dizer, as segundas vacinas, porque as primeiras ele tomou na maternidade.

Na verdade, eu só percebi que essa ocasião seria algo marcante na minha vida quando comentava isso com as pessoas. Quem não tinha filhos, encarava como algo normal. Mas, aqueles que são pais, ao ouvirem que “no próximo sábado ele vai tomar vacinas”, apenas colocavam a mão no meu ombro e assumiam uma expressão que ficava no meio do caminho entre pena e preocupação.

“Boa sorte”, todos me diziam.

“Quem precisa de sorte é meu filho, né?”, eu respondia.

“Não.”

“Mas é ele quem vai tomar as vacinas. Eu só vou estar ali ao lado”.

Assim que eu respondia isso, eles suspiravam e me olhavam como se eu fosse uma criança dando palpites em conversas de adultos. Na terceira ou quarta vez que ganhei esse olhar, decidi simplesmente agradecer o boa sorte e mais nada.

Finalmente, no dia marcado, eu, a Esposa e meu filho entramos, debaixo de um calor infernal, na clínica que aplica as vacinas. A mulher da recepção nos recebeu com um sorriso de orelha a orelha e nos indicou para a sala de um médico. E aí começou o problema.

Veja bem, meu filho estava ali para tomar vacinas, e muitas delas poderiam ter reações adversas. E eu queria ouvir o médico, porque me recuso a olhar esse tipo de coisa na internet. Vocês já repararam como qualquer coisa relacionada à saúde é mais grave na internet? É só olhar o fórum de maternidade que a Esposa participa.

“Meu filho tomou a vacina X e o pinto dele caiu. Devo ir no pediatra?”

“Ontem minha filha tomou a vacina Y e agora ela está brilhando como uma lâmpada. Isso é  normal, meninas? Minha conta de luz vai aumentar?”

Não. Olhar na internet nunca funciona. Eu queria mesmo era falar com o médico. E essa conversa não seria complicada. Como já havíamos falado com o pediatra, achei que o médico fosse apenas confirmar tudo o que o pediatra disse.

Eu estava enganado. Quer dizer, talvez o médico tenha apenas repetido o que o pediatra disse. Mas eu não posso dizer isso com certeza, porque o médico da clínica tinha um problema de fala – parecia uma língua presa multiplicada à décima potência – que tornava algumas de suas palavras incompreensíveis. E o engraçado é que isso acontecia sempre nos momentos mais importantes de cada frase.

“Essa vacina aqui é extremamente importante, porque laqvaipedseufilplodi. E temos que tomar cuidado porque, às vezes, ançameçatardenejo e aí podemos ter castrementegravearo”.

“Oi?”

“Castrementegravearo. Entendeu?”

“Bem...”

“Mas, claro, senhor Rob, o seu filho pode semunetodpécidença e isso faria com que ele assecinasetassenolho. Mas isso somente em casos raros.”

“Espera, o que mesmo somente em casos raros?”

“Seu filho assecinasetassenolhar.”

“O que é isso mesmo?”

“Uma consequência da semunetodpécidença.”

“Ah.”

“Vamos tomar as vacinas?”

“Você pode falar um pouco mais sobre aquele castrementegravearo?”

“Está aqui no papel”.

“Ah. Ok. O papel está em português, né?”

Enfim, fomos até o caixa e pagamos as vacinas. Só achei meio engraçado o fato de que uma vacina para impedir uma doença provavelmente custa mais que o tratamento da doença; mas, acredite, quando você é pai, isso ainda é bom negócio. E, de repente, estávamos na sala de espera.

E foi aí que o pesadelo começou.

Aqueles dez minutos na sala de espera foram uma das experiências mais traumáticas da minha vida. Havia três portas fechadas a nossa frente. Atrás de cada porta, havia uma sala. Em cada sala, havia apenas (pelo menos) uma criança. Todas elas choravam desesperadamente. Ouvi também barulho de correntes vindo de uma sala – e tenho quase certeza que escutei um tiro sendo disparado atrás da porta do meio (coincidentemente, o som de choro daquele sala parou logo após o tiro).

E eu ali, com meu filho no colo, me sentindo como se estivesse na sala de espera do consultório do Mengele.

Na minha cabeça, todas as salas atrás daquelas portas eram sujas e escuras, parecidas com o porão de uma casa abandonada. Eu depositaria meu filho em uma cama suja, onde ele seria amarrado e, horas depois, abriria os olhos e encontraria ao seu lado algumas seringas de vacina e um pequeno gravador. Ao dar play, ele ouviria a frase:

“Hello, Filho do Rob. I want to play a game.”

Aos poucos, as crianças iam saindo da sala. Todas saíam chorando. Todas, menos uma, que saiu mancando, com os olhos arregalados e uma expressão de quem nunca mais iria sorrir na vida. Quando os pais dela se distraíram, eu me abaixei e perguntei baixinho:

“Cara, o que aconteceu lá dentro? Você tem alguma dica?”

O menino olhou para mim e vi que tentar qualquer tipo de comunicação seria inútil. Seu olhar era vazio, como alguém que havia visto a morte de perto – mas, ao invés de uma foice, a morte carregava uma seringa enorme. Aquela criança nunca mais iria falar coisas coerentes. Creio que foi nesse momento que eu decidi que se o Zé Gotinha se candidatar a qualquer cargo público, ele terá meu voto.

A fila foi andando e respirei fundo. Eu olhava as três portas, tentando imaginar onde entraríamos. Era como se fosse um programa de auditório roteirizado pelo Freddy Krueger. Demônios aplaudindo na plateia, cenário decorado com crianças sendo torturadas e o apresentador sorrindo e anunciando os próximos competidores – que, no caso, éramos nós.

“Rob! É hora de você e sua família escolherem uma porta! Uma delas leva a uma sala com centenas de cobras! Outra leva ao quinto círculo do inferno! E a terceira fará você experimentar uma chuva de navalhas! Onde você e sua família vão entrar?”

“Eu queria só ir embora daqui.”

“Não. Essa porta nós não temos.”

“A gente não pode ficar na sala de espera sem escolher porta nenhuma? Eu prometo que não vamos atrapalhar nem ficar no caminho de ninguém”.
“FILHO DO ROB GORDON!”
Ao ouvir meu nome, abri os olhos – eu nem havia percebido que eles estavam fechados – e dei de cara com a porta do meio aberta e uma enfermeira esperando por nós. Pelo que entendi, como demorei para escolher uma das portas, escolheram por mim. Assim, eu, a Esposa e nosso filho entramos na sala.

Era pequena, com uma maca no meio. Procurei por sinais de sangue no chão e nas paredes, mas não vi nada. Bom sinal. Na verdade, era uma sala normal, parecida com a de qualquer consultório médico. A única diferença era a enfermeira. Seu olhar era vidrado e o fato dela ficar dando risadinhas sempre que olhava para meu filho não ajudava em nada. Se estivéssemos num manicômio, eu teria certeza de que ela era uma paciente usando as roupas do enfermeiro que ela estrangulou horas antes.

“Vocês vieram tomar as vacinas, certo?”

“Não”, eu corrigi rapidamente. “Quem veio tomar é o bebê”.

“Certo, certo”. Ela deu mais uma risadinha, desta vez olhando diretamente para alguém atrás de mim. Virei a cabeça mas não havia ninguém ali. Quando olhei para ela de novo, percebi que ela encarava meu filho da mesma forma que um leão observaria um filhote de antílope. De repente, ela parou de sorrir e seus olhos ficaram ainda mais vidrados. Olhando para o vazio, ela murmurou:

“Vocês sabem dos perigos da vacina do rotavírus, certo?”

“Bem, nós sabemos que essa vac...”

“Não. Vocês não sabem. Ninguém sabe o poder do rotavírus. Mas eu vou explicar. A vacina para o rotavírus é muito violenta. E ela é violenta porque o rotavírus é violento com aqueles que são violentos com ele. Louvado seja o rotavírus.”

“Oi?”

“A vacina do rotavírus é violenta”.

“Sim. Essa parte eu entendi. O que você disse depois disso?”

“Nada. Eu estou apenas falando sobre a vacina do rotavírus. O seu filho irá receber os vírus vivos. E eles serão eliminados pelas fezes. Vocês vão precisar descartar as fezes do bebê”.

Pensei em perguntar o que ela achava que nós fazíamos com as fezes do meu filho, mas ela já estava falando novamente.

“As fraldas precisam ser descartadas”, ela disse. “Caso contrário, o rotavírus irá se espalhar pela casa. E, depois da casa de vocês, pelo mundo, dando início a uma era de fogo e destruição. O planeta será coberto de enxofre e a fome e a peste se sentarão ao lado do rotavírus. Louvado seja o rotavírus”.

“Espera. Quem vai se sentar do lado de quem?”

“Nada, nada. Vocês precisam descartar as fraldas”.

“Mas nós meio que já fazemos isso. Aliás, a fralda chama fralda descartável justamente por causa disso.”

“Ela não pode ficar no lixo dentro da casa. Caso contrário, a família inteira será infectada”.

Certo. Então, aprendemos que o rotavírus é perigoso. Mas não acho que isso seja surpresa, já que estamos falando de um negócio chamado ROTA vírus. O vírus tem nome de polícia, é claro que ele ia ser perigoso, ainda mais no Brasil. Aposto que ele infecta primeiro e pede os documentos depois. Tenho certeza que o Rotavírus fica andando pelas periferias da cidade fazendo chacinas.

De qualquer forma, fiz uma anotação mental para conversar com a Esposa sobre jogar as fraldas no quintal da vizinha que deixa a piscina descoberta como uma espécie de resort para os mosquitos da dengue, e voltei minha atenção para a enfermeira. Ela estava de costas mexendo em instrumentos sobre uma bancada. De onde eu estava, consegui ver uma serra (com marcas de sangue) e uma foice de metal. Enquanto ela fazia isso, cantarolava baixinho alguma coisa sobre o rotavírus. Subitamente, ela se virou para nós com um tubo na mão. Seus olhos brilhavam.

“Vamos começar? A primeira vacina é a do rotavírus.”

“Certo.”

E sim, a parte do rotavírus foi tranquila, já que a vacina é via oral. Quer dizer, pelas caretas que meu filho fez, a enfermeira podia muito bem estar dando a ele vacina temperada com água de esgoto e muco, mas, no geral, foi fácil. Especialmente se comparado à vacina seguinte. A enfermeira voltou para sua bancada e começou a mexer em novos instrumentos. Um alicate. Uma motosserra. Por fim, escolheu uma lança.

Foi só quando olhei com cuidado que vi que não era uma lança, e sim uma seringa.

“Segurem o bebê”.

O tom de voz dela foi tão gélido que meu filho começou a chorar só de ouvir a frase.

Você já segurou seu filho na hora dele tomar vacina? Bom, se você já fez isso, diga aqui para mim nos comentários qual é a sensação, porque eu nunca fiz isso na vida. O que rolou foi que meu filho estava no colo da Esposa, a enfermeira se debruçou por cima dele como um anjo da morte e eu... Bem, eu fiquei paralizado, no meio da sala, querendo olhar para outro lado mas sem conseguir desviar os olhos.

Mas o problema foi quando a vacina terminou. Meu filho estava aos berros e a enfermeira decidiu pegar um chocalho para acalmá-lo. Mas não era um chocalho na forma de ursinho ou de abelhinha ou de qualquer coisa que um chocalho possa ser. Na verdade, era uma lata de algodão vazia e com algumas coisas (Pedras? Feijão? Dedos fossilizados de crianças?) dentro dele.

A enfermeira começou a balançar aquilo na cara do meu filho e da Esposa de um jeito meio frenético, e dançandinho, como se estivesse numa espécie de transe. Foi quando eu comecei a desconfiar que talvez tudo aquilo fizesse parte de algum ritual, e a alma do meu filho estava sendo entregue como alimento para alguma divindidade chamada rotavírus. Talvez a enfermeira até mesmo estivesse possuída pelo rotavírus naquele momento.

Quando o ritual acabou, ela se virou para o meu filho.

“Você está mais calmo?”

Meu filho continuou a gritar. Eu pensei em avisar a enfermeira que “olha, ele ainda não fala”, mas estava aterrorizado demais para falar qualquer coisa.

“Então vamos tomar o outro pic-pic”.

“Desculpe”, dessa vez, eu interrompi. “Pic-pic seria o quê, exatamente?”

“A outra vacina”.

“Ah... Pic de... Picada. É isso?”

“Isso. A vacina”.

Tive vontade de perguntar como as pessoas cantavam “parabéns para você” na casa dela, querendo saber se, na hora do “é pique-pique-pique” os convidados ficam enfiando seringas no corpo do aniversariante. Mas meus devaneios foram mais uma vez interrompidos quando vi o tamanho da segunda agulha. Se um dia a enfermeira precisasse atravessar um rio, ela poderia usar aquela agulha como ponte.

“Esta vai doer um pouco.”

“Um pouco? Qual seu conceito de pouco? Porque parece que a primeira injeção já d...”

“Segurem o bebê”.

Meu filho começou a chorar novamente antes mesmo da agulhada. E eu não o culpo, já que eu mesmo estava quase chorando só de ficar no mesmo ambiente que a Psicótica do Pic-Pic. Mais uma agulhada. Mais um grito. Mais um suspiro de prazer da enfermeira. Mais uma alma devorada pelo rotavírus. Louvado seja o rotavírus.

“Pronto. A criança está vacinada.”

“Certo”, eu disse, pegando a Esposa pelo braço e indo embora da sala o mais rápido possível. A cada passo, eu pedia desculpas para o meu filho. Quando pisamos na sala de espera, arrisquei uma olhada para trás. A enfermeira estava parada na porta e vi, pela primeira vez, que seus olhos eram vermelhos.

“Até o mês que vem”, ela disse sorrindo e fechou a porta. Mesmo com meu filho gritando, ouvi o barulho do chocalho ritualístico sendo usado e uma espécie de cântico num idioma que não reconheci.

Mês que vem eu vou levar um padre comigo.

14 de janeiro de 2018

Mundo Animal - Um Documentário

Este é o macho em seu habitat natural.

A fêmea do bando foi caçar no mercado, então ele está sozinho com seu filhote. E assim já podemos aprender bastante sobre a dinâmica do grupo. A fêmea procura alimento no mercado, pensando se o filhote está seguro com o macho. Na toca, o macho torce para que a fêmea não se esqueça de comprar Coca-Cola.

Porém, o macho sabe que é sua obrigação cuidar do filhote. É preciso defendê-lo de outros predadores  mantê-lo alimentado. Para isso, ele mantém por perto uma pequena mamadeira preparada pela fêmea. Quando o filhote está com fome, o macho corre até a cozinha e pega a mamadeira.

Este é o macho alimentando seu filhote.

Existe uma diferença nas formas que o macho e a fêmea alimentam seu filhote. A fêmea sempre alimenta o filhote segurando-o com as duas mãos, para fazer com que ele se sinta protegido. O macho tenta equilibrar o filhote e a mamadeira com apenas uma mão, para poder mudar os canais da TV enquanto o bebê se alimenta.

Além disso, a fêmea sempre testa a temperatura do alimento deixando-o cair uma gota em sua própria pele. O macho tenta repetir esse movimento, mas não é tão hábil quanto a fêmea e quase derruba metade do alimento na pia. Mas, por fim, ele consegue medir a temperatura e, como seu braço não queimou, acha que a temperatura está boa.

Este é o macho tentando fazer seu filhote dormir.

Ele anda com o filhote em seus braços. Conversa com ele, explicando coisas sobre o mundo, a vida e o futuro que aguarda pelo filhote... Mas deixa todas as explicações em aberto quando sai um gol no jogo que está passando na TV e ele se desconcentra totalmente. Quando assiste ao replay, pergunta ao filhote “do que estávamos falando?”.

Como o filhote não responde, o macho decide cantar Beatles para fazer o bebê adormecer. Em alguns momentos, isso dá certo, até a hora que o macho decide colocar o filhote no carrinho. Aí o bebê acorda e começa a chorar e o macho comenta que tudo seria mais fácil se você me dissesse de quais bandas vocês gosta.

Este é o macho trocando a fralda do filhote.

Vemos aqui o macho no canto mais protegido da toca limpando seu filhote. O macho ainda não se entende direito com fraldas e tantas peças de roupas. Na verdade, existem momentos em que ele acredita que bebês poderiam ter menos pernas e braços. Ou que as pernas e braços se mexessem um pouco menos.

Mas o macho sabe que manter o filhote limpo é sua obrigação. Assim, ele tira a roupa e a fralda do filhote. Com um algodão úmido, limpa com cuidado o bebê, usando depois um lenço umedecido. Porém, ele encontrará problemas. Ao levantar as pernas do bebê para ajeitar a nova fralda, o macho é surpreendido por um esguicho pastoso do corpo do flhote.

Este é o macho coberto de merda.

O macho está estático, como se sentisse a presença de um predador. Mas, na verdade, ele está sentindo uma espécie de merda pastosa descendo pela sua barriga e sua coxa. O bebê olha para o teto, distraído com a lâmpada, como se nada tivesse acontecido. O macho olha ao redor e vê rastros de merda pelo chão.

Ele não sabe o que fazer. Ele sabia que filhotes podem urinar nos pais, mas, cagar... Ele tem certeza de que, em toda a floresta, isso aconteceria apenas com ele. Seu primeiro pensamento é pegar o filhote, correr até  o lava-jato da esquina e perguntar se “eu passar junto com ele vocês cobram só uma lavagem?”. O filhote começa a se mexer, espalhando a merda.

Este é o macho tentando limpar novamente o filhote.

Ele está de pé, com as pernas abertas, porque onde seu pé esquerdo estava há uma poça de merda. Mesmo assim, ele limpa mais uma vez o bebê com algodão e lenço umedecido, e prepara-se para colocar a nova fralda. Porém, descobre que ela também foi atingida pelo jato de merda e a joga no lixo.

O macho, então, apanha outra fralda na gaveta. Certo de que esta está limpa, começa a colocá-la no filhote até descobrir que ela também está suja de merda. Pergunta para o filhote se “você está de sacanagem comigo?”, mas logo descobre que a culpa não é do bebê, e sim dele, que está com um pedaço do braço cheio de merda e não tinha percebido.

Este é o macho tentando limpar a si mesmo.

Ele já arrancou sua camisa coberta de merda e jogou em um canto da toca (avisando ao bebê que “se você cagar em mim quando eu estiver sem camisa, eu vou cuspir na sua mamadeira”). Com uma mão ele segura o bebê; com a outra, ele se limpa com lenços umedecidos, torcendo para que a janela da toca, que está atrás dele, esteja fechada.

Ele inverte as mãos. Segura o bebê com a mão que usou para se limpar e usa um novo lenço para limpar o outro lado do corpo. Subitamente o filhote joga as pernas para o alto e as abre, como se estivesse executando uma dança. Por instinto, o macho se abaixa, mas respira aliviado quando vê que o filhote não disparou outra rajada de fluido orgânico.

Este é o macho tentando descobrir como vestir seu filhote.

Ele coloca a fralda em seu filhote, enquanto pede para que o filhote pare de mexer as pernas por um momento. Com o máximo de perícia que ele possui – o que é bem pouca, pois machos dessa espécie são naturalmente desastrados – ele consegue fechar a fralda e prepara-se para colocar a calça do filhote.

O macho não se entende com a calça. A cada tentativa, os pés do bebê parecem desaparecer no meio da calça e ele precisa colocar tudo de novo. O filhote, movendo as pernas, não ajuda muito e o macho pergunta se “você realmente não consegue se vestir sozinho? Eu posso passar as roupas que você escolher e você vai colocando, que tal?”

Este é o macho ainda tentando descobrir como vestir seu filhote.

Quando finalmente conseguiu colocar a calça no bebê, o macho percebe que esqueceu de puxar o body para baixo e fechá-lo. O filhote parece ter percebido isso e mexe as pernas com mais velocidade para celebrar sua pequena vitória. O macho considera a hipótese de fechar o body por cima da calça e foda-se, mas desiste ao perceber que a fêmea está para chegar.

O macho abaixa a calça novamente, ajusta o body do filhote e o fecha. Segura o bebê pelas pernas mais uma vez e ajusta a calça. Parece que boa parte do trabalho está feita, mas o macho sabe que o pior está por vir. Afinal, com a calça colocada, é hora de colocar as malditas meias.

Este é o macho olhando as meias do filhote.

Para o macho, aqueles pequenos pedaços de pano são um mistério. Ele segura uma na frente do rosto e fica analisando. A primeira parte é fácil, porque um lado é aberto e outro não, então o pé do filhote deve entrar no buraco. Mas o macho não sabe onde é o calcanhar da meia. Ele procura a inscrição “este lado para cima”. Como não a encontra, resolve ir na sorte.

O bebê parece gostar de colocar meias e resolve demonstrar  isso levantando as pernas e balançando os pés. Enquanto isso, o macho, tomando cuidado para não encostar a calça cheia de merda em algum lugar, fica tentando pescar o pé do bebê e vestir a meia. “Se você parar de mexer a perna por cinco segundos eu deixo você correr na rua depois”, ele propóe ao filhote.

Este é o macho limpando a toca.

O bebê já está no carrinho, em outro aposento da toca – suas meias não parecem muito certas, mas o filhote não está reclamando (e como o macacão vai por cima das meias, ninguém vai perceber). O macho não está perto do bebê. Ele está de quatro, no outro canto da toca, limpando os rastros de merda do chão com desinfentante.

O filhote começa a chorar. O macho fica aflito ao ver que seu filhote está chorando longe dele, e grita um palavrão. Está de cuecas, com a mão cheia de desinfentante e segurando papel toalha, procurando por indícios de merda no chão e nos móveis. “Vai vendo o futebol que o papai já desce”, o macho grita para o filhote. O bebê continua a chorar.

Este é o macho com o bebê no colo.

O macho carrega o filhote no colo, dizendo coisas como “o papai está aqui, você não precisa chorar, e além disso nem motivo para chorar você tem porque não foi em você que cagaram, porque você é um bebê esperto e estava do lado mais seguro do cu, então para de chorar, agora está tudo bem e você vai dormir.”

O macho finalmente coloca o bebê para dormir e joga sua roupa coberta de merda no tanque. Esse é o momento que a fêmea volta para casa com a caça. Ao ver o filhote dormindo, ela sente que o dia foi proveitoso. A cria está alimentada, limpa e descansando, em paz, longe dos perigos da floresta.


Este é o macho dando graças a Deus pelo fato de que o filhote ainda não sabe falar.