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9 de fevereiro de 2010

Janela Indiscreta

Acho que eu nunca comentei isso por aqui, mas o prédio em que moro fica ao lado de um edifício menor, mais antigo. Até aí, tudo bem. Eu moro em São Paulo e em Pinheiros. É inevitável que, para onde eu olhe, dê de cara com prédios e mais prédios.

Mas este prédio ao lado do meu tem uma peculiaridade: as janelas das salas dos apartamentos do fundo ficam quase de frente ao pequeno vitrô do meu banheiro. Ou seja, toda vez que eu fico em pé à frente do vaso, obedecendo ao meu sistema renal, observo a sala de uma família.

Felizmente, pela posição das janelas, eles não me vêem diretamente. Eles conseguiriam se tentassem com certo afinco, mas seria desagradável demais, tanto para eles, como para mim. Mas eu, ali da frente do vaso, vejo claramente o que acontece lá dentro.

Por um lado, é bom. Sempre lamentei o fato de não poder ler nada quando vou usar o vaso em pé (adoro aqueles bares que penduram algo na frente do mictório para você ler, e até mesmo já pensei em fazer o mesmo em casa, com jornais), e, assim, tenho com o que me distrair. Então, fico ali olhando a avó tricotando, ou o filho fazendo os deveres na mesa.

Por outro lado, é ruim. Por causa do pombo.

Sim, faz alguns meses que os meus vizinhos de banheiro adotaram um pombo de estimação. Tudo bem, não é exatamente um animal de estimação comum, mas lembre-se que estou falando de Pinheiros, então vale tudo. Aliás, eu não me surpreenderia se a família fosse formada por hippies que, cansados de combater a opressão do departamento de correios e telégrafos, decidiram se corresponder com os amigos usando pombos correios.

Enfim, até aí, tudo bem. A casa é deles, e, se quiserem ter um ornitorrinco de estimação, que tenham. Mas, confesso que não sou muito fã de pombos, desde o dia em que fui atacado por uma gangue deles na Avenida Paulista, anos atrás. Aliás, vale a pena contar essa história aqui antes de continuarmos.

Eu estava almoçando naquele McDonald’s que ficava perto da Brigadeiro Luis Antônio, num casarão antigo – hoje, acho que aquele endereço é uma agência do Banco Real. E eu estava almoçando sozinho, numa mesinha que ficava ao lado de fora, com a Paulista à minha frente. Assim que me sentei e comecei a comer, comecei a ouvir barulhos estranhos, de asas batendo.

Levantei os olhos do jornal e vi cerca de vinte pombos. Estavam pousados no parapeito ao meu lado, a cerca de meio metro de mim, olhando minhas batatas fritas. Não estou exagerando, eram uns vinte mesmo, quase um pequeno esquadrão. E estavam ali, imóveis, arrulhando (gostaram? Fui pesquisar no Google), cagando no parapeito e encarando minhas batatas.

Meu sentido de aranha disparou imediatamente. Qualquer movimento brusco e eu seria atacado pelos pombos, e perderia minhas batatas. Comecei a mastigar devagar, sem tirar os olhos deles. Já ouvi dizer que você não pode demonstrar medo na frente de animais, e aqueles pombos, aparentemente, podiam farejar medo – e batatas fritas – a quilômetros de distância.

Assim, fiz meu olhar Charles-Bronson-em-Era-Uma-Vez-no-Oeste e continuei comendo, encarando os pombos. E eles ali, arrulhando (agora que eu aprendi isso, vou usar o tempo todo) e esperando por um momento de distração da minha parte.

E evidentemente que, como eu sou eu, não demorou para este momento de distração acontecer. Quando fui pegar uma batata, a embalagem, que estava em pé, caiu, e as batatas se espalharam pela bandeja. Aos olhos dos pombos, aquilo significava, aparentemente, um ato de generosidade da minha parte, quase como um “ei, vocês aceitam batatas?”

Foi uma festa aviária. As pessoas deveriam achar que uma continuação de Os Pássaros estava sendo filmada na Paulista. Os pombos – todos eles – voaram para cima das minhas batatas e, claro, para cima de mim. Pousaram na mesa, pousaram na bandeja, pousaram nas cadeiras.

E pousaram em mim.

Eu era apenas um, e eles, um exército. Não havia muito que fazer. Assim, continuei comendo ali, com os pombos ao meu redor, na minha mesa e no meu ombro, como se eu fosse uma espécie de São Francisco – não de Assis, mas da Paulista. E passei o resto do almoço assim, soterrado em pombos e com as pessoas que passavam na Paulista rindo de mim, sem entender direito o que era aquilo. Sério, se pombos acessassem a internet, eu teria certeza de que se tratava de flash mob.

Isto posto, voltemos ao pombo dos meus vizinhos.

Se os membros da família ainda não descobriram que da janela deles é possível ver meu apartamento, o pombo já se ligou disso. Toda vez que eu apareço ali, dou de cara com o bicho, que fica numa gaiola quadrada, logo abaixo da janela, olhando fixamente para mim.

Na verdade, eu acho que o pombo está obcecado por mim. Às vezes, eu entro no banheiro e dou uma espiada rápida pela janela, e lá está ele, olhando na direção da janela. Ou seja, ele não fica olhando para mim quando estou ali, ele fica olhando para o meu banheiro o dia inteiro, esperando eu aparecer. É quase um pombo-stalker.

E isso está começando a me irritar. No começo eu achava curioso, mas esta falta de privacidade está começando a me deixar puto. Outro dia fiz um gesto obsceno para o pombo, mas ele não se tocou. Deu uma virada rápida de cabeça (o que foi bom, pois eu estava começando a acreditar que ele estava empalhado), arrulhou alguma coisa e voltou a olhar para mim.

Esta é minha rotina agora. Eu não posso mais usar o banheiro direito porque fico sendo espionado por um pombo voyeur. Tanta coisa para se fazer na vida, e ele fica ali na janela, desocupado, observando as pessoas dentro do banheiro – aposto que quanto estou tomando banho, ele fica esticando o pescoço para ver melhor. Imagine só o que ele não pensa sobre mim com aquela cabecinha doentia dele?

Qualquer hora eu vou colocar a cara na janela e gritar que “vou chamar a polícia, seu filho da puta!”, para ver se ele se assusta.

E não, não vou fechar a janelinha do banheiro. Não vou dar este gostinho ao pombo. Porque se eu fizer isso, é capaz de ele achar que eu estou bancando o difícil e mais dia menos dia, vou acordar e dar de cara com pombo na minha varanda, esperando eu passar de cueca pela sala.

Vou agüentar firme e seguir minha vida, como se nada estivesse acontecendo. E fazer de tudo para não imaginar que tipo de nojeiras ele fica pensando sobre mim. Pombo cafajeste.

8 de fevereiro de 2010

O Despertar dos Mortos

Eu sempre tive problemas para acordar. Sempre.

Quando eu era moleque e morava com meus pais, eu chegava ao cúmulo de acordar às 6:30 da manhã, me vestir em 0,3 minutos e deitar de novo, de roupa e tudo, para dormir mais meia horinha antes de ir para a escola. Às vezes, eu chegava até a sonhar nesse chorinho de sonho. Isso, claro, quando eu conseguia dormir de verdade, já que normalmente essa meia horinha de sono, tão vital para mim, era atrapalhada pela minha mãe, que ficava berrando da sala para eu acordar, resmungando que “todo dia é esse inferno para você sair da cama!”.

Mas tem outras histórias dessa época. Meu irmão, quando acordava no mesmo horário que eu, conta que não era difícil ele ir escovar os dentes e, no caminho, colocar a cabeça dentro do meu quarto. Segundo ele, eu estava sentado na cama, imóvel, com uma das pernas da calça vestida e a outra ainda no chão, olhando fixamente para um pé de meia na minha mão. Provavelmente, eu estava tentando entender o que era aquele pedaço de pano – se era uma luva, uma meia ou um gorro – e como colocá-lo no meu corpo.

Tudo isso porque meus neurônios não ligam antes da hora do almoço. Eu sempre fui vespertino. Meu dia começa, de verdade, às 14:00. Antes disso, eu sou uma espécie de morto-vivo dos filmes do Romero, me arrastando em busca de alimento e murmurando palavras incompreensíveis.

Eu sempre fui assim. E sempre achei que o mundo estivesse acostumado com a idéia de meu cérebro, ao menos antes do almoço, funcionar com a velocidade de um 386. Antes das 14:00, não adianta tentar fazer nada, meu cérebro ainda está dando boot.

Mas, agora, minha mãe, mesmo sabendo que este sempre foi meu jeito, cismou que a coisa é pessoal com ela.

Às vezes, ela vai até minha casa, para dar um “jeitinho no apartamento” – coisa de mãe, vocês sabem. Eu costumo dar graças a Deus, porque meu apartamento é um daqueles lugares que, para ser arrumado, não precisa de uma faxineira, mas sim de uma equipe da defesa civil, cães farejadores (que procuram pelo maldito pé de meia que sempre some) e voluntários da população local.

Ou seja, minha mãe decidir ir até ali “dar um jeitinho” é uma graça divina. O problema é que ela normalmente chega quando eu ainda estou dormindo. Levanto da cama, quase sempre, quando ela está entrando.

Ela, como sempre, já está a todo vapor.

Eu? Eu não estou nem com as caldeiras acesas.

Resmungo um oi, dou um beijo nela e me arrasto até o computador para ver meus e-mails, carregando meu baldinho de Nescafé e desviando da Besta-Fera, que, sempre que alguém entra em casa, decide começar a correr pela sala como se fosse uma versão canina do Carl Lewis.

E é aí que começa o conflito. Minha mãe quer conversar (e eu entendo o lado dela, claro), mas eu não consigo responder. O motivo é simples: eu não entendo absolutamente nada do que ela está falando. E, para piorar, ela começa a falar sobre todos os assuntos possíveis. E meu cérebro, que ainda estava tentando processar o “oi” dela, começa a se atrapalhar.

– Está tudo bem com você?

– Você foi dormir tarde ontem?

– Eu vi no jornal que tem apartamentos para vender no Butantã.

– Você pegou a roupa na lavanderia?

E eu fico olhando para ela, em silêncio, tentando ganhar tempo para decifrar o que ela está falando, porque nada daquilo faz sentido para mim. Assim, começo a balbuciar respostas do tipo:

– Tá.

– Não sei.

– Tá.

– Não sei.

E eu não respondo dessa forma para ser grosso, cortar o assunto ou deixar claro que não quero conversar. Eu respondo assim porque não estou entendendo absolutamente nada do que está acontecendo ao meu redor. Durante os primeiros goles de café, eu não faço idéia de quem sou eu, de quantos anos tenho ou do que faço para viver. Se, naquele momento, alguém falar que eu trabalho numa plataforma de petróleo, eu não apenas vou acreditar como vou até o quarto procurar meu capacete, antes de sair para o trabalho.

Não é exagero. Abro um Uol qualquer e fico olhando a tela do monitor, e meu cérebro, aos poucos, começa o seu processo de inicialização, tentando deduzir se eu devo ir para o trabalho ou para a escola; qual porta da sala leva para o meu quarto e qual leva para o elevador; e se aquele cachorro correndo pelo apartamento já estava ali ontem. Imagine, então, se eu vou saber se busquei a roupa na lavanderia ou o que diabos é um Butantã.

E ela, como toda mãe, continua:

– Você tem dentista essa semana?

– Você está tomando seus remédios para o dente?

– As coisas estão muito apertadas na redação?

– A Besta-fera tomou banho?

Assim, quando as perguntas se acumulam, os três neurônios que estão no cérebro (que pertencem ao turno da noite, e sabem apenas sonhar) ficam sobrecarregados. E eu acabo, invariavelmente, soltando um “não sei! não sei!” um pouco mais grosso do que deveria.

E aí complica mais ainda.

– Mas que mau humor!

– Não é mau humor. Eu não estou entendendo absolutamente nada do que você fala!

– Eu venho aqui e você fica com essa cara feia.

– Não é porque estou de olhos abertos e andando pela casa que estou acordado. Eu não estou. Eu estou dormindo.

– Você foi dormir tarde ontem?

– Eu não sei, eu não sei o que fiz ontem. Eu não sei nem quem eu sou.

Na verdade, eu não sei direito nem que ela é – deve ser da minha família, pois, a esta altura, já me lembro vagamente de ter passado um ou outro natal com ela – mas, por segurança, guardo esta dúvida para mim. E, felizmente, quando ela percebe que as chances de arrancar uma frase coerente de mim são nulas, desiste e vai para o outro canto da casa.

Aí, aos poucos, eu começo a acordar. Logo, meus neurônios estão se reunindo no refeitório, onde tomam café e enrolam mais um pouco, antes de começarem a trabalhar.

Minha mãe, claro, percebe isso – toda mãe percebe o que acontece dentro do próprio filho minutos antes dele – e volta a se aproximar. Mas os neurônios ainda estão no refeitório, não há muito que fazer.

– As coisas estão pesadas na redação?

– Sim.

– Você tem falado com seu irmão?

– Sim.

– Você tem comido direito?

– Sim.

– Onde você está colocando suas correspondências de banco?

– Sim.

– Sim o quê?

– Sim.

– Desisto. Não dá para conversar com você.

– Sim.

Novamente: não estou sendo grosso. Estou apenas usando o único recurso que tenho na parte da manhã: uma capacidade de raciocínio semelhante ao de uma lontra.

Mas minha mãe tem sua parcela de culpa, também. Enquanto eu sou um 386, com um Windows 3.11, ela quer ligar o PC e imediatamente checar e-mail, navegar em três sites diferentes (um deles com vídeos) e abrir o Word. É claro que vai travar.

E os neurônios, coitados, ainda enrolando no refeitório e comentando sobre o jogo de ontem. Na verdade, eles ficam ali até umas 11. Quem costuma me salvar são os neurônios estagiários, que, proibidos de tomarem café da manhã junto com os outros, assumem seus postos de trabalho e começam a enviar respostas para minha boca. Não é nada muito elaborado, mas dá para enganar.

Na verdade, as respostas não são muito coerentes, basta colocar o “mãe” no final da frase e ela já fica um pouco mais satisfeita. Eu continuo sem saber quem ela é, e o que significa “mãe”, mas parece surtir efeito.

– Mas como está chovendo esses dias, não?

– Sim, mãe.

– Você viu a enchente na Zona Norte?

– Sim, mãe.

– Que horror, não?

– Sim, mãe.

– Você tomou chuva ontem?

– Não, mãe.

(Vale dizer aqui que esta última resposta não é mérito dos neurônios, mas meu. Faz anos que meu instinto de sobrevivência aprendeu isso. Sempre que sua mãe perguntar se você tomou chuva, a única resposta aceitável é “não”. Mesmo se o Jornal Nacional exibir uma matéria de cinco minutos mostrando você preso numa enchente e debaixo de uma tempestade, negue até a morte. Mães encaram o fato de seus filhos tomarem chuva quase como uma traição, uma ofensa pessoal, e não perdoam isso facilmente.)

E, assim, colocando “mãe” no final da frase, dá para arrancar um empate. E às vezes, chego a virar o jogo, quando de repente eu me levanto, dou um abraço e um beijo nela e solto um:

– Mã, faz mais café?

Talvez você esteja se perguntando por que motivo eu não faço isso desde que ela chega. Porque para me lembrar disso, seria preciso ter um cérebro. Mas, enquanto escrevia este texto, tive uma idéia: na véspera, vou pendurar uma cartolina na porta do meu apartamento com a inscrição:

Rob:
Abrace, beije, chame de Mã e peça café.
Confie em mim, depois explico.
Abraços,
Rob.


O bom é que como a cartolina vai estar na porta, minha mãe vai ficar de costas para ela quando entrar no apartamento. Com sorte, ela só vai ver a cartolina quando eu já estiver no trabalho.

Mas, se algo der errado, ela avistar a cartolina e me perguntar o que é aquilo, eu não vou saber explicar. E não porque vou ficar sem graça, mas porque eu não faço a menor idéia de como aquela cartolina chegou ali, do que aquilo se trata e quem diabos é o Rob.

6 de fevereiro de 2010

O Urso Adormecido e o Gênio Matemático

Eu adoro a frase “aqueles que não compreendem o passado estão fadados a repeti-lo”. E acho que isso é verdade. Se você passa por um determinado acontecimento diversas vezes na sua vida, é porque você não entendeu ainda o que está acontecendo. Ou seja, a culpa é exclusivamente sua.

Ou não.

A atendente do boteco aqui em frente à redação é um exemplo do “ou não”.

Aparentemente, ela não entende o passado, mas também não tem muita intimidade com a matemática. E, assim, ela é obrigada a atravessar mais de uma vez algumas situações, mas sempre me carregando a tiracolo.

Lembram-se deste post aqui? Pois bem, o que vou relatar agora aconteceu ontem.

Cheguei ao boteco e pedi dois boxes de Marlboro. Ela me deu os cigarros e disse, em alto e bom e som:

– Oito e cinqüenta.

Eu abri a carteira, puxei uma nota de R$ 10,00 e entreguei. Ela pegou a nota e falou alguma coisa incompreensível. Na dúvida, eu apenas sorri.

E ela me devolveu uma nota de R$ 2,00.

Calculei que ela deveria ter falado algo como “estou com pouco troco aqui, depois você me devolve 50 centavos”. Afinal, esta seria a única explicação para ela ter me voltado R$ 2,00. Num mundo normal, se eu lhe desse, então, cinquenta centavos, tudo estaria resolvido. Assim, abri a carteira e disse:

– Olhe, eu tenho duas moedas de 25 centavos aqui. Já fica certo.

– Ah, ok.

Ela pegou as moedas e analisou o que estava acontecendo. Talvez fossem muitos números para ela, mas ela assumiu, imediatamente, a expressão de “este programa executou uma operação ilegal e será fechado”. Puxou uma nota de R$ 1,00 e me devolveu.

– Agora eu te dou mais um real e fica certo.

– Como assim?

– Cinqüenta centavos que eu estava te devendo com mais estes cinqüenta centavos, dá um real. Pronto.

– Eu estava devendo cinqüenta centavos.

– Não, você me deu dez reais.

– Sim, e você me devolveu dois.

– E agora estou dando mais um real, por causa dos cinqüenta centavos.

Foi neste momento a China acordou. China é a dona do boteco. Eu a chamo assim por causa da II Guerra Mundial, quando falavam que a China era o urso adormecido. A diferença é que, de acordo com os historiadores, se a China acordasse, a guerra tomaria rumos totalmente diferentes. Agora, se a dona do boteco acordar um dia, ninguém vai perceber, porque ela vai continua imóvel. Aliás, é provável que ela apenas se espreguice e resmungue um "Guerra? Que guerra? Calma, acabei de acordar".

Não é exagero meu. Ela é praticamente uma medusa que se esqueceu dos próprios poderes e, ao se pentear uma manhã, olhou no espelho e virou pedra.

Ela estava ao lado da atendente, alheia a tudo o que acontecia, com seus tradicionais olhos perdidos e aparentemente presa em algum canto do seu mundinho. Mas, a confusão envolvendo centavos e reais pareceu tê-la incomodado e ela despertou momentaneamente do transe. Demonstrando uma perspicácia ímpar naquele boteco, ela disse

– Ele está certo, pega a nota de um real.

A atendente olhou para ela com cara de interrogação. Depois olhou para mim e para a nota de um real. Todas as fibras do seu ser gritavam que ela estava sendo enganada em algum momento, mas isso estava além da sua compreensão. Com olhos de “a conta não fecha”, suspirou e pegou a nota.

Eu virei as costas e saí do boteco. O urso voltou a adormecer. E, como a atendente não entendeu nada do que aconteceu, ela vai ter que passar por tudo isso de novo, e em breve.

Adivinhem com quem.