7 de abril de 2014

Arkham Street

Já faz alguns dias que ganhamos um novo vizinho aqui em casa.

Ou melhor, já faz algumas noites que ganhamos um novo vizinho. Isso porque se trata de um morcego que se mudou para uma árvore aqui na rua. Parece ser um morcego bem feliz, porque ele passa a maior parte da noite voando em círculos e dando rasantes na rua.

Eu vi a primeira vez uns dias atrás. Fui fumar lá na frente e lá estava ele voando. Voava pela rua à minha frente, passava pela casa do meu vizinho Bruxa do Kurosawa, fazia uma curva e voltava para a árvore por cima da minha cabeça.

Como a probabilidade do morcego se enroscar no meus cabelos se aproxima do zero absoluto (e não por falta de vontade do morcego, mas pela total ausência de matéria-prima para isso na minha cabeça), fiquei fumando ali e observando o morcego, o qual carinhosamente apelidei de Bobônica.

Antes de continuarmos, cabe uma explicação sobre o termo Bobônica.

Quando eu morava com meus pais, nossa rua tinha dois vigias. Eu não sei como eles surgiram. Um dia, não tínhamos vigia nenhum. De repente, tínhamos dois: um de dia e um à noite. Era quase uma espécie de máfia: um dia, alguém que você não nunca tinha visto na vida batia na sua casa cobrando por proteção. Caso você não pagasse, seu carro era roubado (eu vi isso acontecer mais de uma vez), sua casa era assaltada (eu vi isso acontecer uma vez) e sua família inteira era empalada (bem, talvez aqui eu esteja exagerando um pouco, admito).

Enfim, o guarda que vigiava a rua durante o dia entra no Top 5 Criaturas Mais Estranhas que eu encontrei na vida. Ele devia ter uns quarenta anos e estava constantemente naquele estado intermediário entre o “sóbrio” e o “coma alcoólico”. E, no fundo, era eficiente como vigia, mas de uma forma não muito ortodoxa. Ele não espantava os ladrões por ser um guarda (mesmo porque sua única arma era um galho de árvore, ainda com folhas, que ele levava consigo quando fazia a ronda no quarteirão) mas sim por ser mais bandido que qualquer outro ladrão.

Puxando pela memória aqui, me lembro dele ser preso ali na rua pelo menos duas vezes. Talvez três. E em todas elas tinha mulher no meio. Era a empregada da rua do lado, a copeira do escritório do outro quarteirão... O guarda não perdoava nenhuma.

É importante lembrar que o guarda do dia era o melhor dos dois guardas, já que o da noite costumava espantar o tédio da madrugada dando tiros para o alto e gritando que “vou matar bandido e trevéstizi!” (confesso que demorei alguns segundos até entender que “trevéstizi” era o plural de “travesti”).

Enfim, a molecada da rua, claro, estava sempre ali perto dos guardas. E o guarda do dia tinha uma palavra... Não, na verdade era uma espécie de bordão, que ele repetia o tempo inteiro: “bobônica”. Tudo era “bobônica”, “feito a bobônica”, “da bobônica”.

– Vai cair uma chuva da bobônica!

– Essa mulé da outra rua é boa mas é brava, que parece a bobônica!

– Os bandido da bobônica vinheram aqui de madrugada!

E claro que a gente perguntava o que diabos era bobônica. E a resposta mudava constantemente. Na equação da vida do guarda da rua, bobônica era uma variável.

– Bobônica é a féb do rato!

– Bobônica é a fome!

– Bobônica é o rato que avoa!

Juntando as informações que tínhamos (e levando em conta que “féb” era “febre”), calculamos com o tempo que bobônica era a peste bubônica (o que tornava o guarda da rua dos meus pais numa espécie de profeta e arauto do apocalipse, que previa a chegada de uma nova Peste Negra).

A palavra bobônica virou gíria entre a molecada da rua – e a molecada da rua inclui meu pai, que de vez em quando ainda grita uns “bobônica” e cai na risada sozinho – e eu a trouxe comigo.

E se uma das definições de bobônica é “o rato que avoa”, nada mais justo que batizar o morcego aqui ao lado de “Bobônica”.

Isso explica o nome do morcego, mas não explica o que está acontecendo com meu bairro. Vamos mudar um pouco de assunto?

Já faz uns quatro ou cinco meses que meu bairro está diferente.

Uma das grandes qualidades desse bairro é que 90% da população dele é formada por velhinhos que moram aqui desde... Desde... Sei lá, desde a bobônica.

Você sai na rua, e lá estão eles: os velhinhos que dividem seu tempo entre ver TV, dar um pulo na igreja, comprar suas coisinhas no mercado, ver mais um pouco de TV e cochilar um pouco no sofá porque esse negócio de ver TV cansa demais.

Parece uma cidade do interior. Aos domingos, quase não tem ninguém na rua. Nos outros dias, chega oito horas da noite e você não escuta mais nada – descontando o fato de que a mãe do Bruxa do Kurosawa, a japonesa-mais-velha-que-o-Japão assiste TV no volume 130 (o link para isso está lá em cima). Mas meu ponto é que o bairro é sossegado, silencioso, tranquilo. Sabe quando tem feriado e São Paulo fica vazia? Aqui não precisa de feriado para isso.

Mas isso está mudando.

Já faz alguns meses que estou vendo pessoas novas pelo bairro. E não se tratam dos filhos dos velhinhos que vieram visitá-los. São barbas, chapéus, camisetas de bandas que nunca ouvi falar, tatuagens da moda (porque nada mais demonstra sua individualidade que fazer uma tatuagem igual a de todos os outros), barbas milimetricamente mal feitas, piercings (em lugares nunca dantes navegados por um piercing), e aquele expressão de “vou postar no Instagram a foto desta lata jogada na rua para mostrar que existe amor em São Paulo e que é preciso democratizar o espaço público, cara”.

São hipsters.


Uma praga de hipsters está começando a se instalar no bairro.

Não sei se é culpa da especulação imobiliária, se a Vila Mariana se tornou um bairro cult, ou se é um processo que faz parte da migração natural da espécie.  O ponto é que eles estão em todos os lugares. Na rua. No mercadinho. Na padaria ao lado de casa. Na banca de jornal. No restaurante por quilo. Só não estão no Starbucks porque ainda não abriu nenhum Starbucks aqui.

Ainda.

Sim, eu sei o quanto isso pode mudar a cara de um bairro. E eu falo com propriedade, já que morei cinco anos em Pinheiros. E estou temendo pelo pior. Com o tempo, os arredores aqui vão começar a se transformar. Vai ser quase imperceptível, mas vai acontecer. Vai abrir um coletivo de arte aqui, vai inaugurar um restaurante de comida indiana vegetariana ali. De repente, vão começar os restaurantes gourmet, e as lojas de roupas horríveis e de sementes e comidas naturebas.

E, um dia, a revistaria que eu frequento vai fechar e dar espaço para uma baladinha indie. Este será o dia que eu pegarei em armas e levarei justiça às ruas do bairro.

Mas eu tenho tentado evitar que a coisa chegue a este ponto.

Sempre que estou fumando lá na frente e um hispter passa pela rua – sozinho, acompanhado de outros hipsters ou de um cachorro cuja raça está na moda – eu fico resmungando e olhando com minha expressão de “saia do meu gramado, seu moleque maldito”. Eu normalmente faço isso ouvindo coisas como Slayer ou Suicidal Tendencies, então deve dar alguma credibilidade, mas não tem surtido o efeito necessário.

Eles continuam aparecendo.

Ontem, por exemplo, eu fui até a padaria com a Esposa. Eram umas oito horas da noite de domingo. Teoricamente, só nós estaríamos na rua. Mas não. Quatro deles estavam na porta da padaria, conversando e segurando garrafas de cervejas importadas.

Uma das meninas usava minissaia, meias-calças coloridas (acho que uma de cada cor) e coturno. Seu cabelo estava preso com duas marias-chiquinhas. Já um dos caras usava calças vermelhas e camiseta branca, acompanhados de uma espécie de showroom de acessórios: suspensórios, gravata borboleta de bolinhas e chapéu coco – era quase um membro da família Restart fazendo cosplay de figurante daquelas novelas das seis sobre imigrantes italianos.

Quando eu olhei o sujeito do chapéu-coco com calma, nem consegui mais olhar os outros dois. Porque você usar gravata borboleta e chapéu-coco já não é mais ser hispter. Isso já é outro nível que só poderia ser entendido como provocação.

Maria-Chiquinha e Chapéu-Coco, meus novos vizinhos.

Mas não fiz nada. Apenas olhei para o Chapéu-Coco e resmunguei algo sobre “você me parece ser uma daquelas pessoas cuja única qualidade é ser biodegradável” e comprei o que precisava. Ainda resmungando. E voltei para casa. Ainda resmungando. Deixei as coisas na cozinha e fui fumar lá na frente. Ainda resmungando.

Bobônica, feliz, voava ao meu redor. Foi quando eu somei A com B e vi que...

Bem, eu não tinha nada a perder.

Esperei bobônica passar perto de mim e disse:

– Você viu que a galera do Arkham está lá na esquina? Perto da padaria?

Bobônica continuou voando. Deu uma volta e passou novamente perto de mim. Eu continuei:

– Eu vi o Chapeleiro Louco e a Arlequina. Mas tinha mais gente.

Bobônica deu mais uma volta e voou por cima da minha cabeça.

– Ali na padaria, Bobônica. Não tem como errar.

Bobônica voltou até a árvore, deu meia volta e saiu dando rasantes e batendo as asas. Mas, ao invés de dar a volta, seguiu reto em direção à esquina. Rumo à padaria.

Eu sorri, sabendo que agora o bairro está protegido. Tenho certeza que nós próximos, relatos de hipsters espancados na Vila Mariana vão começar a surgir nos jornais, falando também sobre um enorme morcego que está atacando as pessoas no bairro.

A partir de agora, meu nome é Rob Gordon, mas vocês podem me chamar de Comissário Gordon. Já estou construindo um Bat-Sinal no quintal dos fundos e devo estreá-lo ainda esta semana.

E, hipsters... Sejam bem vindos a Gotham.


2 de abril de 2014

Preciso Escrever no Blog

Eu estou sem ideias para escrever no blog.

Na verdade, não estou sem ideias, mas sim olhando para outro lado. Toda a minha criatividade está focado para um projeto que, mais para frente, apresento aqui.

E é bastante difícil pegar a criatividade, como se fosse um bloco de concreto, colocá-la de lado e parar um texto, para pegar outro bloco de criatividade, colocá-lo na sua frente para fazer outro texto.

Não, minto. É fácil. Mas aí entra em campo meu caráter obsessivo de não conseguir parar de pensar no primeiro texto enquanto escrevo o segundo. Começo a digitar um texto tendo ideias para o outro, continuo digitando o texto pensando em como melhorar um trecho do outro e, quando penso em largar tudo e voltar para o primeiro texto, surgem coisas de trabalho na minha frente e preciso parar tudo. Sei que isso tem alguma relação com o ditado “mais vale um pássaro na mão que dois voando”, mas tenho tentado não pensar muito a respeito disso, com medo disso virar um terceiro texto.

Mas o ponto é que estou sem ideias para escrever no blog.

E eu juro que estava olhando uma tela em branco e pensando no blog, ontem, quando a Esposa me chamou.

– O que você está fazendo?

– Tentando escrever no blog.

– Você pode ir até o mercado para mim? Preciso de açúcar mascavo e baunilha.

– Açúcar mascavo e baunilha? Você está brincando com algum estojo de química?

– Não. Vou fazer um bolo.

– Então eu vou.

– Baunilha, você sabe, é aquela garrafinha, certo?

– Eu sei. Desde que tenho seis anos, sinto uma vontade insuportável de abrir aquilo e beber no gargalo sempre que estou perto de uma.

– O quê?

– Calma. Eu sei que se eu fizer isso, provavelmente vou morrer de diabetes na mesma hora, então eu consigo me controlar. Pode ficar tranquila.

– Certo. Você sabe onde fica o açúcar mascavo?

– Sim, no Brasil-Colônia. Qualquer engenho vende isso.

– Oi?

– Se você quiser, eu já aproveito e trago um pouco de pau-brasil.

– Você sabe onde fica o açúcar-mascavo ou não?

– Bom, é só seguir a regra da primeira palavra.

– Quê?

– A regra da primeira palavra. É assim que as pessoas organizam as coisas em supermercados. Farinha de trigo, por exemplo. A primeira palavra é farinha, então, ela fica no meio das farinhas. Arroz integral fica junto com arroz, chocolate amargo fica no corredor de chocolate. Vale para tudo, até para os vegetais.

– Como assim?

– A merda do chuchu. A merda do agrião. A merda da cenoura. A merda da berinjela. Fica tudo ali, na merda dos matos. Estou falando, é a regra da primeira palavra.

– Bom, sua regra não funciona com o açúcar mascavo. Ele fica na parte de produtos naturais, sabe? Ali onde fica a linhaça.

– Sei.

Seria impossível não saber. No mercado ao lado de casa, a seção de “produtos naturais” fica num corredor perto da parte de bebidas. Eu descobri uma vez, por acidente, o dia que me aproximei dela sem querer e comecei a me sentir... Não sei... Oprimido. Vazio. Sem propósito na vida. Foi como se minha alma tivesse sido arrancada do meu corpo e substituída por alfinetes quentes e eu tivesse jogado num buraco desprovido de calor, afeto, frituras ou qualquer comida com sabor.

Eu lembro que tudo ficou escuro e acordei horas depois, em casa, com ferimentos no corpo, tremendo e ainda com febre. Desde então, sempre que entro no mercado vejo os funcionários cochichando algo como “é aquele ali” entre si e evitando me olhar diretamente nos olhos (pelos trechos de conversas que eu peguei ao longo dos anos, parece que eu comecei a gritar desesperadamente antes de cair no chão e me debater horrorizado com o que eu via. Mais ou menos como o menino do A Profecia quando seus pais tentam fazer com que ele entre em uma igreja).

– Você vai até lá?

– Vou. Estou tentando escrever no blog, mas vou. Quem sabe eu encontro algum louco no meu caminho?

Mas não encontrei louco algum. Afinal, fui até o mercado sem prestar atenção em nada ao meu redor, e pensando na seção de produtos naturais do mercado.

E, em especial, na linhaça.

Eu odeio linhaça.

Na verdade, eu odeio todo o conceito por trás da linhaça.

Já começa com o fato de que linhaça, até alguns anos atrás, não existia. Eu devo ter ouvido falar de linhaça, pela primeira vez, no máximo há cinco anos. Antes disso, vivíamos num mundo totalmente desprovido de linhaça. Éramos um planeta linhaça-free. E, de repente, da noite para o dia, lá está a maldita linhaça. Em todos os lugares. Linhaça faz bem para o coração. Linhaça faz bem para a memória. Linhaça faz bem para a pele. Linhaça vai moralizar a política. Linhaça traz o amor de volta em até sete dias. Linhaça pode resolver o miolo de zaga ali na seleção.

Linhaça virou moda. E eu continuo sem saber o que é linhaça. Eu olhei aqui no Google e descobri que é uma semente, mas não estou satisfeito. Duvido que seja tão fácil assim.

Linhaça, para mim, está no mesmo grupo de coisas como glúten e jojoba, que eu não faço ideia do que sejam, mas que, aparentemente, é importante saber se as coisas que eu compro têm ou não. Eu já decorei que shampoo é um negócio que parece que pode ter jojoba e pão não pode ter glúten (aliás, glúten deve ser algo extremamente venenoso, já que as embalagens de pão normalmente trazem o aviso “não contém glúten” de forma escandalosa, em cores berrantes e letras garrafais). Agora, o que é glúten ou jojoba... Eu não faço ideia.

Mas eu estava falando que linhaça virou moda. E isso aconteceu de repente, mais ou menos como foi com o açaí. Até alguns anos atrás, o açaí era algo totalmente desconhecido. E, de repente, surgiu do nada – a primeira vez que ouvi essa palavra, achei que a pessoa estava tentando falar “isso aí” e havia engasgado – e todo mundo adora.

Tem gente inclusive que diz que toma açaí desde criança, que sempre adorou.

– Quantos anos você tem?

– Quarenta e três.

– E sempre tomou?

– Sempre.

– Desde criança? Nem tinha açaí em São Paulo nessa época. Quarenta anos atrás é tipo a pré-história do açaí. O açaí ainda estava em cima das árvores. Era tipo um açaí macaco, que ainda não tinha evoluído e se transformado no açaí.

– Sempre tomei. Uma delícia.

– Deixa eu adivinhar... Mesma coisa com kani?

– Isso. Adoro desde moleque.

Aí você deixa a pessoa falando sozinha, porque existe uma leve diferença entre as pessoas que “são punks desde os 11 anos” (que são os mentirosos normais, que sabem que estão mentindo) e as pessoas que juram que “começaram a ouvir Ramones ainda nos anos 60” (que são os loucos, e acreditam que aquilo é verdade, porque as vozes dentro da cabeça dele repetem aquilo incessantemente).

E com a linhaça é a mesma coisa. Tem gente que jura que come linhaça desde criança, ignorando o fato de que a linhaça nem existia nessa época.

Só que no caso da linhaça é pior, porque eu nem consigo imaginar alguém comendo linhaça. Francamente, linhaça não é nome de coisa que se coma. Eu acho que é por causa do “aça” no final do nome, que dá uma sensação obviamente metálica.

Eu consigo imaginar dois fazendeiros conversando entre si, e depois que um deles reclama que seus bois arrebentaram a cerca, o outro aconselha a “cercar o pasto com dois ou três cordões de linhaça que eles não derrubam de jeito nenhum”. Consigo imaginar também um menino empinando pipa e tentando cortar as pipas dos outros porque ele não usa linha, usa linhaça, muito mais afiado. Consigo até imaginar um vilão de história em quadrinhos atacado uma cidade e gritando para os soldados que “Atirem à vontade, seus tolos! Nada irá romper minha armadura de linhaça!”.

Agora, eu não consigo imaginar alguém comendo linhaça. Dentro do meu cérebro, é como comer, sei lá, arame.

Instintivamente – coisa de quem escreve – comecei a montar a história do menino que empinava pipa com linhaça. A primeira vez que ele viu linhaça na vida foi ainda criança, quando o pai estava arrumando a fiação da casa e o menino começou a mexer na caixa de ferramentas, levando uma bronca como “não mexe nisso que é linhaça, você é pequeno demais e vai se machucar”.

Mas não tive tempo de montar o segundo contato dele com linhaça – certamente, por obra de algum moleque mais velho, daqueles que os pais não gostam de ver junto com seus filhos – porque, de repente, dei de cara com o mercado na minha frente.

Olhei para trás e vi que havia feito todo o percurso de casa até o mercado sem nem perceber isso. Estava apenas pensando sore linhaça. E entrei no mercado torcendo para eu não ter feito isso falando sozinho sobre linhaças e jojobas. Afinal, eu sempre usei os loucos que cruzam meu caminho nas ruas como ideias para o blog. Detestaria saber que, de repente, eu me transformei no louco que vira ideia para os blogs dos outros.

Chacoalhei a cabeça e entrei no mercado.

Acho que estou ficando louco. Preciso escrever no blog.

17 de março de 2014

Mais de uma Palavra



Ao escrever um texto você precisa usar muito mais que uma palavra para descrever um personagem. Cada personagem é um mundo inteiro, e se prender a somente um aspecto dele é extremamente injusto com ele – e invariavelmente vai resultar num texto pobre.

E não, este texto não é sobre escrever.

Mas para continuar com meu raciocínio, preciso de uma pessoa real para usar como exemplo. Vou fumar um cigarro no quintal da frente e volto em minutos com minha escolha.

Voltei. Para você que está lendo, não se passou nem um segundo. Mas eu fui até lá o quintal e fumei um cigarro inteiro no portão, esperando alguém passar pela calçada. Consegui uma menina que deve ter uns 16 anos e, acredito que esteja voltando da escola para casa. Usava calça jeans, camiseta, tênis e mochila nas costas e descia sozinha pela calçada.

Eu poderia muito bem voltar e defini-la com uma palavra: é uma “estudante”. Ou, ainda, é uma “menina”. Uma “adolescente”. Existe um monte de palavras que poderiam ser usadas sozinhas para descrevê-la. Mas fazer isso num texto seria de uma pobreza imensa.

E insisto na ideia de que este texto não é sobre escrever.

Vamos pensar sobre a menina. Sim, ela parece ser uma estudante. Mas ela é certamente outras palavras. Basta pensar a respeito. Para os seus pais, ela é “futuro”. Já o irmão diria “mimada”. Para as amigas dela, é “companheira”. Para aquela outra menina da sala que não gosta dela, a garota é “arrogante”. Para o namorado dela – como ela é a minha menina que desceu a rua, eu quero que ela tenha um namorado – ela é o “sorriso”. E para o ex-namorado? Aí podemos pensar em dois ex-namorados. Para aquele com quem ela terminou, ela é “lembrança”; mas para aquele que terminou com ela, a garota é “passado”. E para o menino que senta no canto da classe e fica admirando ela a manhã inteira, sem coragem de se declarar? Para ele, a menina que passou aqui é um “sonho”. Se pensarmos nos professores dela, então, outras palavras surgem para descrevê-la. Para o professor de química ela é “aplicada”, para o de história ela é “desatenta”, para o de matemática talvez ela seja “inteligente”. Para o porteiro do prédio, é “bonita”, para o zelador é “irritante”. Para a vizinha de cima é “simpática”, para o vizinho de baixo é “atrevida”.

São muitas e muitas palavras que mostram que ela é mais que uma menina.

E cada uma delas, ao seu modo, está certa.

E outras palavras surgem quando pensamos somente na própria menina. Ela não parece ser muito experiente a respeito da vida, mas mesmo assim deve saber que ela é mais que uma “garota” ou que uma “estudante”.

Se você soubesse o que ela pensa sobre ela mesma, encontraria palavras que surpreenderiam todas as pessoas que têm uma palavra para ela e apareceram no parágrafo acima. Talvez ela se ache “estabanada”. Pode se achar “tímida”. Gosta de pensar que é “romântica”. Sabe que é “teimosa”, mas não gosta de admitir isso para qualquer um. É “estourada”, sabe disso, e sabe que precisa melhorar nesse aspecto. Algumas vezes ela já se considerou “ingênua”, mas não percebeu ainda com clareza se ela mesma se enxerga assim.

E poderíamos continuar por horas e horas. Buscando novas palavras e transformando a menina que passou por aqui – e que agora deve estar entrando em casa – em um personagem mais rico.

Mas este texto não é sobre escrever. Este texto não é sobre a menina.

Este texto é sobre qualquer pessoa que é definida com uma palavra. Temos um monte delas. Escolha à vontade: Ali temos os gays, aqui temos os comunistas, perto dos religiosos; naquele canto temos os reacionários, e naquele outro, ali, os sexistas; já ali naquele armário temos as feministas. Naquele outro, os ateus. Temos uma sala especial com torcedores de futebol caso você queira escolher seu estereótipo por time, é algo que tem tido muita procura.

Escolha qualquer uma delas. Se você acha que, como elas já foram previamente definidas com uma única palavra pelos outros, isso fará com que a pessoa já esteja totalmente definida... Tudo bem. E se com isso você achar que já decifrou totalmente a pessoa e que esta palavra se aplica totalmente a qualquer coisa que ela vá pensar, falar ou fazer... Tudo bem também.

Aposto que, em alguns casos, a pessoa não vai reclamar por ser estereotipada, porque ela já está acostumada com isso. Em outros, ela está tão acostumada que até faz o mesmo com outras pessoas.

Mas vai ser de uma pobreza incrível. A menina que passou aqui na frente pode ser apenas isso: uma “menina”. Mas isso não chega nem perto do que ela pode ser – e este “pode ser” inclui o que ela já foi e o que ela ainda vai ser.

Cada pessoa é um mundo. E cada mundo é maior que você imagina.

E se mundos pudessem ser definidos perfeitamente com uma única palavra, um planeta que se chama “Terra” não teria oceano algum.

Mas nunca é demais lembrar que este texto não é sobre escrever.

Infelizmente.

12 de março de 2014

Os Diamantes São Eternos

- Alô?

- Oi.

- Oi.

- Sou a Sandra, da NFO.

- ...

- ...

- Alô?

- Oi. Sou a Sandra, da NFO.

- Certo. E daí?

- ...

- ...

- Alô?

- Oi. Sou a Sandra, da NFO.

- Sim, eu já sei disso. Eu preciso que você continue o assunto.

- Eu falei um pouco antes com você. Precisamos iniciar a reunião com o senhor Martins.

- Na verdade, Sandra da NFO, nós nunca conversamos antes.

- Mesmo assim, precisamos iniciar a reunião.

- E os diamantes?

- Que diamantes?

- Olhe, Sandra da NFO, quando uma pessoa recebe uma ligação sem sentido no cinema, é sempre algo sobre diamantes ou planos secretos. Tem um monte de Hitchcock que fala disso, o homem errado na hora errada. Então, como estou precisando de dinheiro e esta é a minha ligação sem sentido, eu escolho os diamantes. Você pode ficar com os planos secretos para você.

- Sou a Sandra, da NFO.

- E eu sou o Rob, dos diamantes.

- Nós falamos há pouco tempo. Precisamos iniciar a reunião com o senhor Martins.

- Nós nunca conversamos.

- Mas a reunião com o senhor Martins precisa ser iniciada.

- Sim, mas como nós nunca conversamos antes, eu acredito que a reunião com o senhor Martins se tornou um problema acadêmico. Nós temos uma linha do tempo aqui. Primeiro, eu e você conversamos. Depois, vem a reunião com o senhor Martins. Como nós nunca conversamos antes, estamos em outra linha temporal, onde a reunião com o senhor Martins nunca irá acontecer.

- Sou a Sandra, da NFO.

- E falar seu nome repetidamente não vai alterar esta realidade. Eu só enxergo duas opções: ou eu estou louco, ou você, Sandra da NFO, ligou para o número errado.

- A reunião com o senhor...

- Dado seu desempenho na conversa, acredito que você tenha ligado errado.

- Alô?

- Faz assim. Quando vocês souberem o lugar em que os diamantes estão, fale para o senhor Martins me ligar. E é para ele ligar! Não quero tratar com os lacaios dele.

- Sou a Sandra.

- Não me importa. Agora estamos falando sobre diamantes.


E desligou.

28 de fevereiro de 2014

O Último Tango na Vila Mariana

Alguns meses atrás, quando eu falei da Incrível Padaria de Brancaleone que funciona aqui na esquina de casa, eu fiz questão de dizer que a funcionária que ficava no caixa na parte da manhã era uma das pessoas com Q.I. mais elevado que eu conheci.

Enquanto todos os funcionários da padaria não parecem mostrar muita intimidade com a nobre arte do raciocínio lógico, a menina que ficava no caixa era capaz de atender os clientes ao mesmo tempo em que resolvia problemas administrativos da padaria pelo telefone, enquanto estuda – e aperfeiçoa – mentalmente as aberturas usadas pelo campeão de xadrez Kasparov nos jogos em que ele enfrentou o Deep Blue.

Entretanto, como é comum acontecer com pessoas competentes, ela foi demitida.

Tudo, claro, faz parte de um processo de modernização da padaria. Veja bem, esta padaria é um estabelecimento comercial que parou no tempo nos anos 70 e o dono, um gorducho que anda com as calças caindo (o que o deixa com quase meia bunda de fora) decidiu que era hora de renovar o lugar.

Assim, ele colocou uma catraca eletrônica na porta da padaria.

Agora, para entrar no lugar, você precisa apertar um botão e pegar sua comanda. Tudo será marcado nela. Na hora de ir embora, você entrega a comanda – antes era um pedaço de papel no qual os atendentes escreviam em hieróglifos – para a mulher do caixa, e vai embora passando pela outra catraca.

Nada mais foi feito. Agora, ao invés de ser uma padaria dos anos 70, ela é uma padaria dos anos 70 com uma catraca eletrônica.

E aparentemente o dono acha que aquilo resolveu, e que agora ele tem a padaria mais moderna do bairro. As catracas se tornaram o monólito da padaria – qualquer dia, vou descobrir o dono ajoelhado em cima delas, (ainda com meia bunda de fora) ouvindo Assim Falou Zaratustra e jogando uma das comandas para o alto, na esperança de que ela vire uma nave especial (a aurora do home mode: on).

O problema é que os funcionários não acompanharam a evolução que a padaria transformou, e não sabem como usar as comandas. De cada dez vezes que você vai à padaria, em pelo menos nove delas algo vai estar errado na sua comanda (a outra vez não vai tinha nada errado porque a padaria estava fechada).

Vou dar um exemplo. Você compra seis pães, um litro de leite e vai até o caixa. A mulher passa a comanda e confere o pedido com você.

- Seis pães. Um litro de leite. Um chevette 84.

- Oi?

- Seis mil e sete reais.

- Oi?

- Um litro de leite. Seis pães. Um chevette 84.

- São só os pães e o leite.

- Ah.

- Deve ser sete reais.

- O chevette não?

- O chevette não.

- Sete reais.

Aí você paga e não vai embora, porque a catraca da saída está sempre travada.

Agora, junte isso com a mulher que contrataram para ficar no caixa pela manhã, e o resultado é quase um dossiê sobre a ineficiência humana.

Antes de continuarmos, eu preciso apresentar esta mulher. No primeiro dia dela no trabalho, eu fui até lá comprar cigarro. Encostei ao balcão e pedi um Marlboro vermelho de caixinha. Ela perguntou se era maço ou caixa. Eu respondi que era um Marlboro vermelho de caixinha. Ela perguntou se era Light. Eu respondi que era um Marlboro vermelho de caixinha. Ela perguntou se era o Blue Ice. Eu respondi que era um Marlboro vermelho de caixinha. Ela perguntou se era maço. Eu respondi que era um Marlboro vermelho de caixinha. Ela perguntou se era um só. Eu respondi que era um Marlboro vermelho de caixinha.

E ela me deu um Trident de canela.

Suspirei e comecei tudo de novo. Na terceira vez, quando eu já estava debruçado no balcão apontando para o cigarro e implorando que por favor, eu tenho um monte de coisa para fazer e eu preciso ir embora, consegui ser atendido.

Curiosamente, este parece ter sido o ponto alto na carreira da mulher do caixa. Foi o ápice de sua vida profissional. Pois, de lá para cá, as coisas só pioraram.

Ontem eu fui comprar cigarro. Pedi um Marlboro vermelho de caixinha. Ela olhou ao redor procurando algo vermelho e fixou os olhos no Trident. Mas eu já estava pronto.

- Não, não quero esse Marlboro de mascar. Eu quero o outro, o de fumar.

E dei o dinheiro do cigarro e a comanda. Sim, porque graças à inovação tecnológica da padaria, você precisa de uma comanda mesmo que vá direto ao caixa. É uma comanda que serve apenas para você gastar mais tempo, já que a mulher precisa passar a comanda apenas para ver que não tem nada lá. Ou, ao menos, não teria mais nada lá.

Mas não é o que acontece.

E não é o que aconteceu ontem.

Ela passou a comanda e uma lista de produtos que parecia a compra do mês de uma família de quatro pessoas cujo pai acabou de receber um bônus no trabalho pulou na tela. A mulher olhou tudo com calma e olhou para o dinheiro que eu havia dado, suficiente para pagar o cigarro.

O cérebro dela detectou um erro. Algo ali não estava batendo. O dinheiro era suficiente para comprar o cigarro. O careca havia pedido um cigarro. Mas a comanda dizia mais coisas. A comanda dizia que eu estava mentindo. A comanda parecia estar certa. A comanda dizia o nome de produtos e mais produtos de forma confiante. Talvez fosse melhore ouvir a comanda. A comanda é uma máquina e máquinas não erram.

Ela já tinha a posição da comanda sobre o assunto. Com base nisso, era hora de me interrogar.

- Esses coisa nas comanda é seu?

Eu precisei de alguns instantes para entender o que ela estava falando. Se existisse um mundo povoado somente por erros de concordância, a frase dela seria o correspondente a Pequim, com uma densidade demográfica absurda e erros de concordância amontoados um em cima do outro, sem a menor qualidade de vida.

- Oi?

- Esses coisa nas comanda é seu?

- Não. Eu quero apenas o cigarro.

- Aqui diz um monte de coisa.

Certo. Agora era a palavra da comanda contra a minha. Assim, resolvi usar o fato de que a catraca fica exatamente na frente do caixa, a menos de um metro de distância de onde a mulher fica.

- Olhe, eu acabei de entrar na padaria. Você me viu entrando na padaria?

- Vi.

- Você viu que eu peguei a comanda, entrei na padaria e vim direto para cá falar com você?

- Vi.

- Você viu que eu dei a comanda para você assim que encostei aqui e pedi um cigarro?

- Vi.

- Essas comandas não dão problema o dia inteiro?

- Vi.

Eu não esperava um “vi”, mas um “sim”. Entretanto, achei que discutir isso a esta altura do campeonato seria preciosismo e serviria apenas para distrair a atenção da mulher do caixa, que já se agarrava ao meu raciocínio com dificuldades, como um alpinista que se segura a uma corda debaixo de uma nevasca.

- Então... essas coisas não são minhas. Eu quero apenas o cigarro.

- E a manteiga?

- Que manteiga?

- Aqui tem uma barra de manteiga.

- Não. Olhe, eu não tenho manteiga alguma. Eu nem trouxe carteira ou celular. Eu só quero o meu cigarro e ir embora.

- Mas e a manteiga?

- Eu não comprei manteiga alguma.

- Você consumiu isso aqui?

- Isso o quê?

- O que está na comanda. A manteiga. Você consumiu?

- Você enlouqueceu? Quem consumiria uma barra de manteiga assim?

- A comanda diz que sim.

- Olhe, eu não comi uma barra de manteiga.

- Mas a comanda...

- Você conhece alguém que comeria uma barra de manteiga?

- É que a comanda diz...

- Esquece a comanda. Olhe para mim. Se eu tentasse consumir uma barra de manteiga aqui na padaria, eu estaria deitado no chão e sofrendo um ataque cardíaco neste momento. Mas não, eu estou vivo e de pé.

- É.

Tenho certeza de que o “é” dela se referiu somente à parte mais visível da minha frase (“estou aqui de pé”). O arquivo com a imagem do Rob Gordon deitado no meio da padaria, sofrendo uma parada cardíaca e com o rosto lambuzado de manteiga, se perdeu e nunca foi sequer renderizada no cérebro dela. Aproveitei e joguei mais confusão na frente dela.

- A não ser, claro, que eu não tenha exatamente comido a manteiga. Você nunca assistiu a O Último Tango em Paris?

- Oi?

- Marlon Brando. Sabe?

- Oi?

Era hora de simplificar as coisas.

- Nada. Esquece. Vamos começar de novo. É só um Marlboro vermelho de caixinha.

- Você consumiu a manteig...

- Não.

- Nem a torta de coc...

- Não.

- Os oito pão.

- Não.

- A comanda então está errada.

- Sim. É só o cigarro.

Ela estava com o cigarro na mão. Ao invés de me dar, largou a comanda e virou de costas para procurar onde ficam os Marlboro vermelhos de caixinha. Eu resolvi ajudá-la.

- Pode me dar esse mesmo que está na sua mão.

- Ah.

Ela deu, eu agradeci e saí da padaria, onde me encostei a uma parede e fiquei meia hora rindo. Ela certamente está até agora pensando que foi enganada em algum momento, mas não faz ideia de onde.

A próxima vez que eu for até à padaria, vou pedir uma manteiga vermelha de canela e ver o que acontece.