28 de julho de 2016

Sábado Sci-Fi

Começou num dia como qualquer outro, porque é normalmente assim que as histórias fantásticas começam: quando ninguém está esperando por elas.

Era um sábado e eu estava sozinho em casa, trabalhando, quando os cachorros começaram a latir. Até aí, nada demais. Existe uma complexa rede de informações entre os animais dessa casa que funciona unicamente com o objetivo de não me deixar trabalhar. Basta eu abrir o computador para que um gato faça um sinal para o outro que corre até o quarto e faz sinal para um terceiro que vai até a janela e avisa os cães que eles podem começar a latir alucinadamente.

Normalmente, eu consigo resolver o problema indo até a cozinha e gritando para eles pararem. Foi o que eu fiz. Mas, quando voltei ao computador, vi que não havia adiantado nada. Na verdade, eles estavam latindo tanto que provavelmente nem me ouviram. Esperei alguns minutos e eles continuaram latindo.

Irritado, atravessei a casa novamente e fui até o quintal do fundo. Foi quando eu dei de cara com o Objeto. Era um enorme cubo colorido, completamente oco e com saídas circulares em cada um dos lados. E estava pousado no meu quintal.



Afastei os cachorros, que corriam ao redor do estranho cubo latindo freneticamente, e observei o Objeto de perto.

Nessas horas eu adoraria ser o Carl Sagan. Tenho certeza que ele teria se ajoelhado ao lado do Objeto e dito, de forma amistosa, algo como “sejam bem vindos ao pálido ponto azul”. Imediatamente, alienígenas deixariam a nave e colocariam os pés no nosso planeta pela primeira vez.

Começaria assim uma nova etapa na história humana, com eles nos ensinando mais sobre tecnologia em meses do que poderíamos aprender sozinhos em décadas. Doenças seriam curadas. A fome seria erradicada. A humanidade deixaria de lado suas desavenças internas e começaria a explorar a galáxia, descobrindo ser parte de uma comunidade imensa e variada, repleta de espécies diferentes, cada uma com a sua cultura.

Mas eu não sou o Carl Sagan, sou apenas o Rob Gordon. Então, observando o Objeto de perto, eu não dei as boas vindas e iniciei um relacionamento amistoso com outra espécie. Não, tudo o que eu fiz foi resmungar que “por que essas coisas sempre acontecem comigo? Eu tenho um texto para entregar ainda hoje, não tenho tempo para isso” e mandei os cachorros calarem a boca.

E, como toda criatura não desenvolvida, olhei para o céu, na esperança de encontrar alguma pista da origem do Objeto. Mas imediatamente percebi que se os donos daquilo estivessem me observando de alguma outra nave, eles poderiam achar que eu sou uma criatura que mal saiu da pré-história, e estava procurando algum indício da existência de deuses que explicasse aquele estranho acontecimento.

Aliás, talvez fosse exatamente isso que os donos do Objeto pensavam de mim. Aquilo não era uma nave espacial, mas sim uma sonda, como monólito de 2001. Algo que iria causar uma reação em cadeia e alavancar toda a evolução da nossa espécie, impulsionada por uma misteriosa raça alienígena, até que um dia um humano iria se aproximar de outro cubo desses e finalmente olhar para dentro dele, constatando que “meu Deus, está cheio de estrelas”, e então ele viraria um bebê-planeta e pronto, fim da história.

Ou não. Porque, convenhamos, o negócio não tinha exatamente o perfil disso. O monólito de 2001 era sério, completamente negro e respeitoso. Era evidente que aquilo havia sido construído por uma espécie elegante e refinada. Já o meu monólito tinha mais cores que o bom gosto recomendava e elas não combinavam entre si.

Talvez os alienígenas que construíram aquilo fossem daltônicos. Ou talvez fosse uma nave infantil... Sim, uma nave trazendo uma criança que seria o único sobrevivente de um planeta condenado. Ele seria criado por mim e desenvolveria poderes graças ao nosso Sol amarelo.

A ideia me pareceu atraente. Eu não veria problema nenhum em criar um filho alienígena e extremamente poderoso. Ensinaria o garoto a usar suas habilidades para combater o crime, mas enquanto isso você pode começar a fazer o bem usando seus poderes para trocar a resistência do chuveiro e fechar completamente aquela torneira do quintal que fica sempre pingando, é um inferno.

Além disso, eu teria uma nave com a voz do Marlon Brando. Se eu conseguisse ensiná-la a falar algumas frases de O Poderoso Chefão, ela se tornaria meu brinquedo preferido.

Olhei novamente para o Objeto, estudando-o mais de perto, mas percebi que não havia nem sinal de cristais lá dentro, muito menos uma caixa acústica por onde a voz do Marlon Brando sairia. Mas percebi que ele não parecia ser feito de um material resistente o suficiente para viajar pelo espaço.

Por outro lado, eu não sou exatamente um especialista em engenharia espacial e ligas metálicas alienígenas. E isso não é exatamente culpa minha. Se os extraterrestres quisessem fazer contato com alguém que entendesse desse assunto, que não caíssem na casa de alguém que fez o primeiro colegial durante três anos, recebendo tantas notas vermelhas em matérias de exatas, com boletins que fariam brilhar os olhos dos editores do Livro Guinness.

Estiquei o braço e toquei o negócio, apenas para descobrir que ele era feito de nylon. Mas o que me chamou atenção nesse minuto não foi exatamente seu material e sim que ele me parecia estranhamente familiar. Eu já havia visto aquilo em outro lugar.

Voltei para dentro de casa e comecei a estudar minha coleção de filmes. Eu tinha certeza que a resposta estava ali... Na verdade, era como se eu não guiasse meus passos, e o Objeto estivesse me levando até ali. Onde eu havia visto aquele negócio?

Com o pensamento me atormentando, peguei um cigarro e voltei ao quintal, apenas para descobrir que o Objeto tinha uma mancha em um dos lados. Uma mancha que não estava ali antes, com um líquido que saía de uma das laterais e escorria pelo chão. Ácido, talvez?

Não. Era pior. Um dos cachorros decidiu que era o momento de mostrar que ali era o seu planeta e resolveu marcar seu território.

Perfeito. Faz séculos que a humanidade espera por uma prova da existência de vida em outro planeta, e quando isso acontece, meu cachorro mija em cima do negócio. Certeza que em mil anos as enciclopédias galácticas mencionariam o Objeto como o motivo pelo qual aquele pequeno planeta azul do Sistema Solar ganhou o apelido de Favela na comunidade intergaláctica.

Afastei os cachorros e continuei observando o Objeto, tentando descobrir onde eu havia visto aquilo antes, mas a resposta parecia escapar sempre que chegava perto da minha consciência. Assim, eu decidi que a melhor coisa era fazer contato. Aproximei meu rosto do objeto e cantei baixinho:

– Tam-tam-tam... TAM-TAM!

Nada. Risquei Contatos Imediatos do Terceiro Grau da minha lista. Busquei mais uma frase na minha cabeça:

– Nave Tydirium, qual sua carga e destino?

Silêncio. O Retorno de Jedi também não funcionou. Então, resolvi pegar pesado. Respirei fundo e coloquei o máximo de autoridade na minha voz. Não era apenas autoridade, mas sim autoridade com uma pitada de arrogância.

– Aqui é o Capitão James Kirk, da Federação dos Planetas Unidos. Por favor, diga quais são suas intenç...

No meio da frase, a resposta pulou na minha mente. Era isso! Eu finalmente sabia onde havia visto aquilo. Era em Jornada nas Estrelas. Mas não era um Cubo Borg... A não ser, claro, que os borgs tivessem assimilado sem querer o Romero Britto e incorporado suas pinturas à Coletividade. Ou seja: chupa, Borg.

Mas não era isso... Era algo da Série Clássica. Algo colorido...

De repente, tudo ficou claro! Era uma das boias espaciais do episódio A Manobra Corbomite.



Como eu não havia percebido isso antes? Qual era mesmo o nome do alienígena bebê horroroso? Balok?

Agora mais confiante, olhei para um dos cachorros e declarei:

– O jogo não é xadrez, Sr. Spock. O jogo é pôquer.

O cachorro me olhou como se eu fosse um imbecil, mas não dei atenção. Me aproximei novamente do Objeto.

– Balok, você sabe que nossas naves são feitas com uma substância chamada Corbomite e que qualquer ataque é retornado com força ainda maior. Acho que você gostaria de saber que nas últimas décadas, nos aprimoramos ainda mais essa tecnologia, então eu aconselho você a não tentar nada.

Não tive resposta. Pelo menos, não a resposta que eu esperava. Subitamente, um enorme vento começou do nada, fazendo voar os jornais dos cachorros e quase derrubando os vasos. Olhei para o alto esperando ver a nave de Balok sobrevoando minha casa, mas não havia nada no céu. Apenas nuvens anunciando uma forte tempestade.

De repente, ouvi barulhos de coisas caindo. Mas não era na minha casa, e sim no vizinho. O muro que separa nossas casas é alto, mas a deles tem uma área que fica exatamente na altura do muro. É ali que eles fazem churrasco e guardam...

Os brinquedos das crianças.

Era isso. Não era em Jornada nas Estrelas que eu havia o Objeto. Minha carreira de capitão da Federação havia terminado. Levei o negócio para dentro da cozinha, saí de casa e toquei na casa ao lado. A vizinha atendeu e me deu boa tarde.

– Por acaso seus filhos tem uma cabaninha quadrada, toda colorida? Com buracos nas laterais?

– Sim. Como você sabe?

– Ela caiu no meu quintal por causa do vento. Eu vou ali pegar.

E ainda tive que limpar o mijo do cachorro do negócio. Ô fase.

15 de julho de 2016

O Gatinho do Picasso

Ontem fomos até a exposição do Picasso, no Tomie Ohtake. Tudo para ser bacana. Caso você não saiba, trata-se da coleção pessoal dele, catalogada pelos herdeiros e tal. E realmente a exposição é maravilhosa – se você é de São Paulo ou passar por aqui, vá.

Mas nem tudo é perfeito, e eu devia ter desconfiado isso quando estávamos entrando na exposição e encontramos um casal com cara de Vila Madalena. Você conhece o tipo: são aquelas pessoas que encontram um pote de Toddy jogado na rua e acham que aquilo com certeza é uma intervenção urbana que critica a falta de amor materno fazendo uma releitura do papel do achocolatado na sociedade moderna e que obra transgressora e existe amor em São Paulo e tal.

Eles estavam empurrando um carrinho de bebê.

Dentro do carrinho, uma criança de mais ou menos um ano.

Meu cérebro já disparou o alerta vermelho. E com razão, pois quando entramos, vi que, de cada dez pessoas que estavam ali, pelo menos duas eram crianças.

Antes de continuarmos: eu sou completamente a favor de você levar crianças em exposições de arte. Mas acho que tudo na vida é uma questão de contexto. Você levar uma criança de sete ou oito anos e mostrar os quadros para tentar despertar o interesse dela por arte é algo completamente diferente que levar uma criança de dois anos de idade, que mal sabe o que está fazendo ali, e fazer de tudo para que ela simplesmente olhe para as pinturas.

Quando entramos, tinha uma mulher do primeiro tipo. Estava com dois filhos – um casal – que deviam ter algo entre seis e oito anos. E ela estava pacientemente explicando, na frente de um quadro, o que era o quadro e como elas podiam entender a pintura. Claro, explicava como se explica para uma criança, de uma forma simplificada que ela pudesse entender (mesmo porque ela tinha idade para isso). Acho que esse é o primeiro passo.

Agora, na metade da exposição, os meus-filhos-são-gênios-e-precisam-gostar-de-arte começaram a aparecer. São aqueles pais que querem forçar a criança adorar arte porque eles adoram arte, todos seus amigos adoram arte e, imagine só, o Lucas não tinha nem dois anos e A-DO-ROU a fase azul do tio Picasso, não é, Lucas? (Claro que essa pessoa não conta que o Lucas passou a exposição inteira comendo meleca de nariz e gritando que queria salgadinho).

São aquelas pessoas que colocam Ladrões de Bicicleta para passar na TV e ficam fazendo de tudo para que o moleque olhe para a tela por quatro segundos. É tudo o que eles precisam para dizer que “desde pequeno, ele sempre se atraiu pelo neorrealismo italiano”. Ou que levam a criança numa biblioteca e dizem que “Os Miseráveis foi o único que ele não rabiscou com giz de cera, porque ele sempre admirou os clássicos”.

Sério, que cansaço disso. Na exposição não tinha uma pessoa assim, tinha duas.

A primeira era um sujeito com mais ou menos a minha idade. Ele estava agachado ao lado do filho, que devia ter menos de dois anos, e apontando alguma coisa na parede atrás de mim. E eu pude ouvir o que ele falava:

– Olha a vaquinha! Olha, Pedro! Um cavalinho! Você gosta do cavalinho? Olha para o cavalinho, Pedro! Você acha o cavalinho bonitinho? Olha ali! O cavalinho! Quer que o papai te dê um cavalinho?

Eu virei para ele pensando em dizer que “olha, o último pai que deu um cavalinho para uma criança pequena foi o Rhett Butler, e isso não acabou muito bem”, mas perdi as palavras quando vi sobre o que o pai estava falando. Na parede estavam sendo projetados vários elementos de Guernica.

Sabe, estamos falando de Guernica. Não é exatamente um pôster de um filme da Disney, onde os cavalinhos e vaquinhas são apenas cavalinhos e vaquinhas. O quadro tem um contexto, um visual e, principalmente, uma agressividade que não parece ser pensado para uma criança de dois anos de idade. Aliás, se a criança não entender o quadro é ainda melhor.

E, para piorar, ele estava mostrando o quadro para o filho com o celular apontado para a criança, filmando o que o filho fazia. Ou seja, sua principal preocupação não parecia ser exatamente fazer o filho gostar de arte.

Minha vontade foi me meter na conversa. Teria sido mais ou menos assim:

– Seu filho está gostando?

– Muito! Ele adora arte do século 20, não é Pedro? Fala para o tio como você gosta de arte!

– Vaquinha.

– Gostou da vaquinha que seu pai mostrou, Pedro?

– Vaquinha.

– E o cavalinho? Você viu o cavalinho?

– Vaquinha.

– Você viu que o cavalinho tem uma lancinha enfiada nas costas? Olha a carinha de dor dele!

– Vaquinha.

– Olha só, Pedro! Um predinho pegando fogo! Olha aqui desse lado, uma mulher com um bebezinho morto nas mãos! Você gosta do bebezinho morto?

– Vaquinha.

– Olha que fofo! Pedro! Você viu que aqui no chão tem um soldadinho morto?

Claro que daria briga e eu provavelmente seria expulso da exposição. Aliás, eu até consigo ver a cena: o Pedro chorando, o pai dele horrorizado e eu sendo carregado para fora da exposição por dois seguranças, e gritando que “Pedro, eu estou esperando aqui fora, quando você sair, eu te conto a historinha da Guerra Civil Espanhola e de como os nazistas mataram o cavalinho usando aviõezinhos num bombardeio!”.

Eu realmente acho que existe uma enorme diferença entre “adaptar a explicação do quadro para a criança”, como a mulher que vi logo na entrada fazia com seus dois filhos, e “boçalizar a arte para ver se seu filho se interessa por algo apenas porque isso é mais importante para você que para ele”.

Sinceramente, eu acho que se você precisa simplificar uma coisa a esse nível para que seu filho simplesmente olhe para o quadro por dois segundos (e você tenha assunto para fazer seus amigos intelectualóides morrerem de inveja) é sinal que seu filho não está exatamente pronto para aquilo.

Olhe, se você for o pai do Pedro e estiver lendo isso aqui, vou te dar um conselho: pegue seu carro, vá até a Marabraz e compre uma mesa. Porque pelo que eu me lembro das propagandas, sempre que você compra algo na Marabraz você ganha um quadro, que SEMPRE mostra dois cavalos fugindo de uma floresta pegando fogo. Pronto, agora você tem um quadro com cavalinhos – que não parecem animais saídos de um pesadelo bélico como no Guernica – e você pode passar o dia mostrando isso para o Pedro, até ele ter idade para conhecer o do Picasso.

Continuei andando pela exposição e estava quase me esquecendo disso quando ouvi um berro:

– JOANA! JOANA!

Olhei ao redor e constatei que a Joana era uma garotinha de dois anos e pouco, que estava brincando com um celular que ela levava em uma das mãos. Sua mãe da Joana estava histérica olhando um quadro que ainda não havíamos passado – faltavam umas três pinturas para chegar até ele.

– JOANA! LARGA ESSE CELULAR E VEM AQUI VER ESSE QUADRO!

Nesse momento, todos os olhos se voltaram para a mãe da Joana – porque provavelmente até as pessoas na rua ouviram os gritos. Provavelmente, todos os quadros do Picasso que estavam na exposição se transformaram imediatamente em quadro da fase “roxa de vergonha”. A Joana, porém, parecia mais entretida com o celular. Eu, no lugar dela, pensaria do mesmo jeito.

– JOANA! VEM VER ESSE QUADRO! É UM GATINHO!

Pensei em gritar um “spoiler alert!” como protesto, mas (quase) sempre acho melhor evitar contato com esse tipo de gente. Vi a Joana se aproximando do quadro e sua mãe explicando que “olha esse gatinho que bonitinho! Será que ele quer brincar? Ele não parece o gatinho da tia Marli?”. A Joana resmungou qualquer coisa e saiu andando pela exposição, procurando um canto onde pudesse ficar brincando com o celular em paz.

Eu continuei caminhando pela exposição, curioso par ver o tal do gatinho que se parece com o gatinho da tia Marli. Pela descrição fofa, imaginei que se a gente passasse a mão no quadro ele começaria a ronronar e brincar com novelos de lã. Mas, na verdade, era esse quadro aqui.



Senti muita pena do gato da tal da Marli. Mas fiquei pensando como alguém pode achar fofo um gato que parece um coadjuvante de Vidas Secas, brutalizado pela fome e prestes a estraçalhar um passarinho? Se eu entrasse na casa da Marli, provavelmente nem mexeria nesse gato com medo que ele pulasse no meu rosto e tentasse devorar meus olhos.

No final da exposição, quando estávamos saindo, vi a Joana e sua mãe indo embora. Sua mãe estava no telefone e a Joana andava apressada atrás dela. Provavelmente, ela nem lembrava mais do gatinho, porque a Joana é uma criança de dois anos e pouco e está mais interessada em ser uma criança de dois anos e pouco e olhar para coisas que crianças de dois anos e pouco gostam de olhar.

Mas sua mãe teria uma história para contar para os amigos, porque a Joana olhou para o quadro durante um segundo e meio antes de ir procurar outra coisa para fazer, então ela deve adorar arte. Para algumas pessoas, aparentemente, isso é mais o importante. 

5 de julho de 2016

Ferrão +3

Você já foi picado por uma abelha?

Eu confesso que não sabia responder a essa pergunta até uns dias atrás. Minha resposta era sempre “sei lá, acho que sim”. Porque eu encaro minha memória como um computador. Ela tem espaço limitado e saber se eu fui ou não picado por uma abelha não é exatamente um ponto marcante da minha vida.

Mas sim, eu sei que tem gente que sabe isso. Gente que se você perguntar “você já foi picado por uma abelha?”, vai responder que:

– Sim. Foi em 13 de agosto de 1996. Eu tinha dezoito anos e estava voltando da escola, quando ela me pegou aqui atrás do braço. Ainda tem a marca, olha.

Para algumas pessoas, ter sido picado por uma abelha é uma espécie de troféu na vida. Eu já conheci gente assim. Quando ela descobre que você nunca foi picado por uma abelha, apenas suspira e olha com desdém, como se você fosse uma criança que ainda não aprendeu a andar com as próprias pernas. É como se existisse um ritual de passagem e, pela expressão da pessoa, você ainda não chegou a ele – e, quando isso acontecer, os olhos do sujeito mostram que você vai se ferrar como aconteceu com o Macaulay Culkin em Meu Primeiro Amor.

E aí fica aquele clima pelo resto do jantar. O assunto já mudou, as pessoas estão falando de política, mas você percebe que o Senhor Já Fui Picado por uma Abelha fica encarando você em silêncio. Provavelmente pensando em como você é uma criatura inferior e que nem devia estar ali, na presença de alguém que já foi picado por uma abelha. E o tempo inteiro se segurando para não interromper a conversa e perguntar “vai me dizer também que nunca pisou num caco de vidro?”.

Sim, existem três tipos de pessoas no mundo. As que nunca foram picadas por uma abelha; as que já foram picadas por uma abelha; e aquelas cuja vida mudou pelo fato dela ter sido picada por abelha.

E, bem existia o quarto tipo, que era eu, a pessoa que não fazia ideia se havia sido ou não picado por uma abelha na vida.

Agora isso mudou. Rolou alguns dias atrás, mas podia ter sido hoje.

Acordei e, como em todos os dias, fui até a frente de casa fumar. Sentei no meu local de sempre (por escolha minha), acendi o cigarro do jeito de sempre (por escolha minha), abri o Twitter no celular (por escolha minha) e passei os olhos pela TL vendo as mesmas mensagens sobre os mesmos assuntos de sempre (essa parte é escolha dos outros).

E eu estava na terceira tragada quando alguém enfiou um estilete na parte de trás do meu braço. Assustado, olhei para o local da dor e vi uma abelha indo embora e algo enterrado na minha pele. Finalmente entendi porque a palavra “ferrão” se escreve automaticamente no aumentativo já que, pelo tamanho, podia ser o cabo de uma Espada de Duas Mãos +3.

Dor filha da puta.

Abelha filha da puta.

Vida filha da puta.

Segurei o ferrão com os dedos e puxei. Devia ter mais ou menos meio metro (e se você acha que estou exagerando, lembre-se que eu coloquei um “mais ou menos” na frase, que me dá salvo-conduto).

Então, agora eu sei. Eu já fui picado por uma abelha. Se você é daquelas pessoas que acha que isso é um momento importante na vida de alguém, considere-se feliz. Agora eu faço parte do seu grupinho e você não precisa mais me desprezar.

Mas... Lembre-se sempre que o que eu fiz é para poucos.

Porque eu desafio qualquer um aqui a repetir a façanha de acordar às 09h32 e ser picado por uma abelha, sem motivo algum e numa cidade grande, às 09h34.

Aí eu voltei para a cama. Porque um dia que começa com a abelha tomando o café dos campeões com seu braço não pode ser um bom dia. É matematicamente impossível.


Em tempo: enquanto escrevia esse post, me lembrei de já ter escrito sobre abelhas. Assim que terminei o texto, fui ler o post antigo e... Adivinhem: eu já tinha sido picado por uma abelha. Ou seja: eu ser picado dessa vez não foi apenas ridículo, foi inútil. 

24 de junho de 2016

Coisas da Vida XVIII

A campainha toca.

– Pois não?

– Boa tarde, meu amigo!

– Boa tarde, pois não?

– Eu estou aqui com meu pai no banco traseiro do carro e estou vendendo mel.

– Certo.

– Está interessado?

– Desculpe, eu não entendi.

– Está interessado em comprar mel? É do interior!

– Mas eu não entendi o que você falou sobre seu pai.

– Eu disse que ele está aqui no banco de trás do carro.

– Mas o que isso tem a ver com o mel?

– O mel é do interior!

– Tudo bem, mas é que me parecem ser dois assuntos diferent...

– Olha, e tá fresquinho! Foi colhido hoje!

– Sim, sim. Você está falando do mel?

– Isso.

– É porque você falou um negócio sobre seu pai que eu não entendi.

– É ele está aqui comigo. Está lá no banco de trás do carro.

– Certo, mas o que eu tenho a ver com i...

– Quer falar com ele?

– Oi?

– Quer falar com ele?

– Não... Não. Acho que eu só quero entrar.

– Não vai comprar mel hoje?

– Não. Outro dia eu compro.

– Beleza! Quando eu passar aqui com meu pai na traseira do carro eu toco na sua casa.

– Eu desisto. Tchau.

– Tchau, patrão!

(Para ver o post anterior dessa série, clique aqui.)

21 de junho de 2016

Fanfic Real

Eu estava voltando para casa mas parei no mercado. Comprei um suco para beber e deveria ter saído do mercado apenas com a sacola e minha bolsa. Mas como estou mudando de casa, aproveitei e pedi uma caixas de papelão no mercado, porque eles sempre têm umas sobrando ali. Me deram quatro caixas, que era o que eu conseguia carregar, e fui para casa.

O problema é que como sou pequena e estava levando as caixas empilhadas na frente do corpo, a pilha começou a se desequilibrar assim que eu estava atravessando a rua. Para piorar, a alça da minha bolsa começou a escorregar pelo ombro. Se eu não fizesse algo, tudo iria cair: caixas e bolsa. Assim, atravessei a rua andando apressada – ou o mais rápido que pude, porque como está frio estou com roupas grossas e se eu andasse muito rápido as caixas cairiam.

Chegando ao outro lado da rua, vi um portão de um escritório que já estava fechado e resolvi aproveitá-lo para resolver minha situação. Sem largar as caixas, apoiei a pilha no portão, pressionando-a com meu corpo e tentei livrar uma das mãos para arrumar a bolsa no ombro. Estava quase conseguindo quando ele apareceu.

Devia estar me espreitando, pois ele sabia exatamente o que eu estava passando e qual o melhor momento de agir. Era baixo, devia ter uns quarenta anos e seu rosto estava parcialmente escondido por um gorro. Ele se aproximou de mim e perguntou:

– Quer ajuda?

Eu disse que sim, porque minha caixas iam cair. Então, ele tomou as caixas da minha mão e ficou segurando a pilha para que eu pudesse ajeitar minha bolsa no ombro. Quando finalmente consegui fazer isso, ele me entregou as caixas e eu peguei a pilha novamente.

Mas ele não parecia disposto a desistir. Assim, ele pegou novamente a pilha de caixas e a virou, para que o lado mais largo das caixas ficasse apoiado no meu corpo.

– Assim, o peso fica mais distribuído e fica mais difícil delas caírem.

Dei uma leve balançada na pilha de caixas e vi que ele tinha razão. Elas estavam mais firmes e para uma pessoa que estava com uma jaqueta grossa como a minha, sem poder me mexer muito, isso faria diferença.

– Você tem razão.

– Agora é só ir com cuidado que nada vai cair. E cuidado, o chão está molhado.

– Obrigada, moço. Estava caindo tudo aqui.

– Imagina. Eu vi que você estava quase derrubando as caixas. Posso te ajudar em algo mais?

– Não, obrigada. Agora as caixas estão firmes.

– Bem, boa sorte.

Ele sorriu e foi embora. Devia morar ali perto, pois estava com uma chave na mão. Foi quando eu percebi que algo estava errado. Olhei ao redor tentando entender o que estava me incomodando...

E percebi que não havia criança nenhuma ao nosso redor.

Não havia uma menina de quatro anos falando sobre quebrar paradigmas, nem um garoto usando a pilha de caixas como exemplo do trabalho escravo na indústria de papelão, muito menos uma criança de dois anos usando uma camiseta com a inscrição “existe amor em São Paulo” dizendo a todos que “as pessoas ao nosso redor aplaudiram, eu estava lá e foi lindo”.

Talvez porque nós estivéssemos na rua e não no metrô, que parece ser o habitat natural dessas criaturas. Ou talvez porque essas crianças não existam em histórias baseadas em fatos reais.

Ainda bem que o sujeito que me ajudou com as caixas têm um blog com histórias que não precisam dessas crianças.