22 de março de 2015

Guerra Santa

Eu não tenho nada contra religião alguma – quer dizer, existem aquelas religiões que pregam que é precisa matar outras pessoas, mas isso para mim não é religião, e sim boçalidade. Mas religião mesmo, aquela que a pessoa tem uma fé que faz com que ela procure agir de forma melhor com o mundo e com ela mesma... Isso eu não tenho nada contra.

Mas agora que eu já coloquei um parágrafo politicamente correto – obedecendo às normas da internet de que um texto precisa sempre ter um trecho politicamente correto – vamos ser sinceros. Eu não tenho nada contra religião nenhuma, mas isso não significa que você pode tentar trazer a sua religião para dentro da minha casa.

Especialmente aos finais de semana.

Virou costume, agora. Todo sábado ou domingo de manhã minha rua é invadida por testemunhas de Jeová. O termo é esse mesmo: “invadida”. Não se tratam de duas ou três pessoas tocando as campainhas das casas para levar a palavra do Senhor, mas sim de todo um destacamento, às vezes com mais de vinte pessoas. E, graças à sua superioridade numérica, seus planos de conquista são executados de forma assustadora, com as tropas divididas de acordo com o nível de fé que cada casa precisa para ser convertida.

Vou explicar melhor. Aparentemente, eles têm um serviço de inteligência que mapeia todas as casas do quarteirão durante a semana. Partindo daí, eles dividem quantos soldados de Deus são necessários para cada residência, usando o princípio que, quanto menor a fé daquela casa, maior o número de pessoas que precisa tocar a campainha ao mesmo tempo.

Assim, após alguma observação cuidadosa sobre quantas testemunhas de Jeová tocam em casa, eu deduzi que elas dividem estrategicamente as residências em três grupos principais, tendo como base a dificuldade de converter seus moradores.

O Indígena – são as casas que serão catequisadas sem muita resistência. Normalmente, seus moradores estão no portão olhando com curiosidade para as testemunhas de Jeová que apareceram na rua, sem desconfiar do perigo que estão correndo. Basta uma delas se aproximar, entregar um folheto anunciando a volta do Senhor, batizar o morador com outro nome e pronto. Na minha rua, a maioria das casas é assim.

O Infiel – são as casas que darão um pouco mais de trabalho para ser convertidas, já que seus moradores não apenas não reconhecem a existência do Senhor, como têm sua própria religião. São precisos três ou quatro testemunhas de Jeová fazendo uma espécie de cruzada na calçada. Os moradores dessas casas podem resistir no começo, mas, vendo-se em menor número, certamente abraçarão a fé dos atacantes. Na minha rua, umas cinco casas são assim.

O Anticristo – É a casa onde mora o mal encarnado. São precisos pelo menos dez testemunhas de Jeová experientes – enquanto uma toca a campainha, as outras oram na calçada para receber proteção divina antes da criatura sair de seu covil. Se o morador dessa casa não for convertido, ele deverá ser destruído, pois sua missão é espalhar o mal pelo planeta e precisa ser detido a qualquer custo. Na minha rua, existe apenas uma casa assim. Evidentemente, é a minha.

Eu não sei o motivo, mas as testemunhas de Jeová que passam pela minha rua aos finais de semana elegeram a minha casa como o grande prêmio a ser conquistado em sua batalha. É como se minha casa fosse, na verdade, um portal para o inferno e que sua destruição iria atrasar em séculos o apocalipse. Só isso explica o fato de que quando elas tocam a campainha aqui, estão sempre em grupos de doze ou quinze.

Aliás, acabou de me ocorrer enquanto escrevo isso que talvez o problema delas não seja com a minha casa. Como elas sempre tocam quando estou sozinho, talvez o problema seja comigo.

Eu não sei de onde tiraram a ideia de que eu sou uma criatura das trevas. A única alternativa que me ocorre é que como estou sempre ouvindo Anthrax ou Megadeth, elas podem ter deduzido que somente um soldado do inferno iria ouvir esse tipo de música, ainda mais no volume que eu ouço, ainda mais num domingo de manhã. Talvez eu tenha ido fumar lá na frente enquanto a música tocava e comecei a balançar a cabeça e fazer chifrinhos com os dedos na direção delas sem perceber – sim, eu faço isso às vezes quando estou ouvindo heavy metal. Não digo que não fiz, apenas que não me lembro de ter feito. Talvez eu tenha feito.

Aliás, me conhecendo como eu me conheço, é provável que eu tenha feito.

E agora enquanto escrevo, começo a ter certeza de que eu fiz isso. Porque, sejamos sinceros, não existe outra explicação. Eu não faço nada demais para elas. Não é como se eu colocasse uma cama na garagem de casa e deitasse ali esperando elas aparecem na calçada, para começar a gritar palavrões em latim e vomitar sopa de ervilha nas paredes. Certo, admito que já pensei em fazer isso (e filmar tudo), mas nunca fiz. E se alguém falar que eu não fiz isso apenas porque não consigo levar a cama até a garagem, em minha defesa eu digo que ninguém pode provar isso.

E sim, eu pensei que o problema pudesse estar em Mefisto, o gato demoníaco que quem me segue no Instagram conhece por Gato Ridículo. Ele sim seria uma presa normal para as testemunhas de Jeová, por ter fortes ligações com o inferno. Aparece e desaparece sempre em nuvens de enxofre e somente depois que o adotamos descobrimos que, na sua ficha de adoção seu nome constava como Mefisto Servo de Lúcifer Destruidor de Mundos Aquele que se Alimenta de Sangue Príncipe das Almas Corrompidas e Enegrecidas pelo Pecado Cuja Voz Provoca Maremotos de Sangue. (Aliás, você pode ler sobre sua origem aqui, sobre o dia que ele tentou me matar aqui e sobre o dia que ele tentou me matar de novo aqui).

Mas não é o gato. O problema é comigo. Eu sou o inimigo. O mal a ser derrotado. Deixei de ser o carequinha daquela casa do portão marrom e me tornei Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado. Na primeira vez que as testemunhas de Jeová tocaram a campainha, ficou claro que o problema era comigo, e não com Mefisto e que eles estavam dispostos a usar a estratégia do “he will join us or die” (star wars: mode on).

Rob Gordon: Pois não?

Testemunha de Jeová Líder: Você está pronto para aceitar a palavra do Senhor?

Rob Gordon: Estou pronto para quê?

Demais Testemunhas de Jeová: THE POWER OF CHRIST COMPELS YOU! THE POWER OF CHRIST COMPELS YOU!

Testemunha de Jeová Líder: A palavra do Senhor! Só ela pode lhe salvar!

Rob Gordon: Eu não estou ouvindo nada com essas pessoas gritando aí atrás de você.

Demais Testemunhas de Jeová: THE POWER OF CHRIST COMPELS YOU! THE POWER OF CHRIST COMPELS YOU!

Testemunha de Jeová Líder: Você acha que o pecado mora no coração dos homens e que Jesus não faz nada a respeito disso?

Rob Gordon: Olhe, eu estou meio ocupado, trabalhand...

Testemunha de Jeová Líder: Jesus está vendo isso. A dor que você causa nos homens.

Demais Testemunhas de Jeová: THE POWER OF CHRIST COMPELS YOU! THE POWER OF CHRIST COMPELS YOU!

Rob Gordon: Então, manda esse pessoal rezar mais baixo. Eu não estou ouvindo nada e os vizinhos estão começando a olhar para cá. O que é que Jesus está vendo, que eu não ouvi?

Testemunha de Jeová Líder: A palavra do Senhor vai acabar com seu poder, criatura nefasta!

Rob Gordon: Oi?

Demais Testemunhas de Jeová: THE POWER OF CHRIST COMPELS YOU! THE POWER OF CHRIST COMPELS YOU!

Testemunha de Jeová Líder: Exorcizo te omnis spiritus immunde in nomine Dei Patris omnipotentis...

Rob Gordon: Olhe, eu não estou interessado. E estou meio ocupado. De verdade. Eu vou entrar.

Todas as Testemunhas de Jeová: AEOOO! WOLOLO! WOLOLO! AEOOO! WOLOLO!

Rob Gordon: Para com esse negócio de Age of Empires!

Todas as Testemunhas de Jeová: WOLOLO!

Voltei correndo para dentro de casa, antes que minhas roupas mudassem de cor e eu fosse convertido ao exército das Testemunhas de Jeová e obrigado a passar o resto da vida na aldeia deles, cortando lenha ou buscando pedras.

Nunca mais atendi a campainha – aliás, quando estou fumando lá na frente nos domingos e vejo as testemunhas de Jeová aparecendo na esquina me escondo rapidamente dentro de casa. Coloco uma placa de “Aluga-se” no portão, tranco todas as janelas e portas e faço o maior silêncio possível.

Mas não adianta. Elas sabem que estou aqui e tocam a campainha do mesmo jeito. Eu olho pela fresta da porta e vejo que estão cada vez num número maior. Na última vez, eram mais de trinta. Todos seguravam tochas e forcados, e gritavam na calçada.

– Você não pode se esconder para sempre, criatura dantesca!

– Matem o filisteu!

– Vamos arrancar suas roupas e sacrificá-lo ao nosso deus!

E eu fico quieto, esperando passar. Porque elas sempre desistem e vão embora. Essa é a boa notícia. A má notícia é que elas sempre voltam. Todo domingo elas estão aí. E eu sei que um dia vão se cansar disso, colocar o portão abaixo e me perseguir dentro de casa.

Na dúvida, eu só ouço heavy metal agora com fones de ouvido. Dentro do guarda-roupa. E com a porta do quarto trancada.

27 de fevereiro de 2015

A Alma Mais Humana



Spock!

Eu não lembro a primeira vez que assisti Jornada nas Estrelas. Mas, por outro lado, eu não consigo imaginar a minha vida sem Jornada nas Estrelas. Quando eu era criança, meus heróis eram outros. Quando eu era criança, eu queria ser Luke Skywalker. Queria ser Han Solo. Queria ser Indiana Jones. Mas Jornada nas Estrelas já estava na minha vida desde essa época.

A paixão pela série é uma herança dos meus pais, que adoravam. Herança do meu irmão, cuja paixão pela ciência – hoje ele é físico – nasceu junto com as aventuras de uma espaçonave que explorava a galáxia, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve. De lá para cá, muitas outras espaçonaves surgiram na minha vida. Mas a Enterprise continua sendo meu lar.

Não sofra, Almirante.

Nunca deixei de admirar meus heróis de infância, e até ganhei heróis novos. Mas, conforme eu cresci, parei de sonhar em me transformar nos meus heróis. Comecei a perceber que eles viveram suas aventuras da mesma forma que eu estava vivendo a minha. A minha vida, como a de todos nós – e até mesmo a dos meus heróis – era uma enorme aventura. Talvez tudo o que a gente precise fazer, em alguns momentos, é imaginar que um garoto está assistindo nossa vida. Com isso, nossa aventura ganha cores. Com isso, sabemos que é preciso fazer o possível para nos tornarmos o herói desse garoto.

Entretanto eu não deixei de querer ser um herói por me tornar adulto, mas sim por me transformar em outro tipo de garoto. Mais crescido, mais responsável, mais maduro, mas ainda assim um garoto. Com algumas cicatrizes aqui e outras ali, com erros que fazem o que sou e – mais importante de tudo – sabendo qual o meu lugar no universo.

Eu nunca havia feito o teste do Kobayashi Maru até agora.

Quando eu era criança, eu queria me transformar em meus heróis. Adulto, eu não quero mais ser um herói do cinema ou da televisão. Mas, muitas vezes, assistindo a um episódio de Jornada nas Estrelas, eu pensava “isso é o que eu preciso ser”, ao ver o Capitão Kirk.  É outro tipo de heroísmo, que vai além de murros no queixo. É um heroísmo que envolve tomar decisões imediatamente, saber quando é melhor arriscar e quando optar pelo caminho mais seguro – e, mais importante, colocando o bem estar dos outros acima do seu. As necessidades da maioria (normalmente) têm mais peso que as da minoria. Ou que as necessidades de um.

Kirk não é herói pela sua coragem ou ousadia; Kirk é herói por carregar não fugir da responsabilidade de ter centenas de outras vidas dependendo de cada passo seu. “Quanto mais eu dou, mais ela toma; quanto mais eu dou, mais ela toma”, Kirk lamentou quase enlouquecido em um episódio da série. Ele estava falando da sua responsabilidade com a Enterprise. Quem nunca sentiu o mesmo sobre a vida?

O que você achou da minha solução?

Mas Kirk sempre prevaleceu. Sim, isso se deve a sua coragem, inteligência e ousadia. Pela capacidade de quebrar regras para um bem maior. Mas Kirk sempre prevaleceu por ter as pessoas certas ao seu lado. Especialmente o seu oficial de ciências meio vulcano, cujo intelecto e capacidade de raciocínio lógico eram menores apenas que sua lealdade ao capitão. Ao amigo. Uma lealdade que ele mesmo classificaria como lógica, mas que não era. Muito menos extraterrestre. Era uma lealdade humana. Afinal, como Kirk disse no funeral de Spock... “De todas as almas que encontrei em minhas viagens, a dele era a mais humana”. Era verdade. Nós não víamos isso quando víamos a série na TV entre e aula e a lição de casa, mas entendemos isso anos depois, mais adultos.

Eu não quis ser Kirk desde que nasci. Mas passei a vida inteira procurando ter Spocks ao meu lado. E passei a vida inteira procurando ser o Spock de todos os meus amigos. Provavelmente não consegui fazer isso sempre. Afinal, Spock só existe um. Mas, como Kirk, eu nunca desisti de tentar. Como McCoy, fiz questão de não ficar azedo com meus fracassos. Afinal, eu era humano.

Eu sempre fui...

Tive bons amigos. Muitos deles eram Spocks. Tive alguns McCoys também. Alguns estão na mesma nave que eu até hoje. Outros estão em outras missões, outras viagens. Mas eu sempre soube que é preciso ter um Spock ao lado. Alguém que se oferece para ir com você, e você responde “fique na nave, porque se algo der errado, é com você que eu conto para me tirar de lá”.

A Série Clássica de Jornada nas Estrelas é uma série sobre ficção científica, mas seus filmes para cinema (em especial a partir do segundo) são todos sobre amizade e passagem do tempo. Pois é preciso que o tempo passe para que você compreenda que sua viagem será curta e sem graça sem um amigo. É preciso que o tempo passe para que você compreenda que, para ser Kirk, é preciso ter Spock e McCoy ao seu lado. Afinal, como o próprio Kirk disse em Jornada nas Estrelas V, “eu sabia que não ia morrer porque vocês estavam comigo; e eu sempre soube que vou morrer quando estiver sozinho”. E hoje Kirk está sozinho. Magro morreu mais de dez anos atrás. Hoje morreu Leonard Nimoy.

...E sempre serei seu amigo.

Os sites dizem que era um ídolo de milhões de pessoas. Eu nunca o vi assim. Para mim, ele sempre foi um velho amigo. Isso aconteceu quando o vi pessoalmente, quando esteve no Brasil. Foi um dos poucos atores que vi de perto que fez minhas pernas tremerem. Dias depois da coletiva, novo encontro, um rápido aperto de mãos e um cumprimento. Minutos antes, eu estava quebrando o pau com uma assessora de imprensa totalmente débil-mental numa sala lotada – uma das únicas duas vezes que levantei a voz com uma assessora, a outra vez, ano depois, seria novamente com ela – e quase não consegui tirar uma foto com ele.


 Acabei tirando a foto junto com outra pessoa com quem nem tinha contato - e que por isso está fora da foto acima, já que ela não cabe aqui - mas hoje sei que era isso ou nada. No momento, eu queria ter falado sobre tudo o quanto ele era importante para mim e agradecido por tudo que aprendi com ele, mas não tive chance. Mas não era preciso. Afinal, ele era meu amigo de infância. Era meu velho amigo. E velhos amigos sempre sabem disso. E agora, em homenagem ao meu amigo, tudo o que preciso saber é que “ele nunca estará realmente morto enquanto nos lembrarmos dele”.

Vida longa e próspera.

24 de fevereiro de 2015

... E Outras Histórias de Egoísmo.

(Peço que, antes de ler esse texto, leia este aqui).


Foi há poucos minutos atrás. Fui comprar cigarros no posto a duas quadras de casa. Apressei o passo, pois uma tempestade cairia em minutos, e segui meu caminho.

Na metade do caminho, ouvi um pássaro cantando. Na verdade, não era um canto, era o mesmo grito, no mesmo tom e com o mesmo intervalo de tempo. Eu estava na Lins de Vasconcelos e, mesmo com todo o movimento de pessoas e carros, era possível perceber isso.

Pelo som, tive a sensação de que era uma maritaca, pois o bairro é cheio delas. Assim, sem diminuir o passo, olhei para o alto e comecei a procurar por ela, em postes e telhados ao redor. Demorou quase dez segundo para eu encontrá-la, pousada num fio do outro lado da rua. Virada de costas e cantando. E sozinha.

Estranhei ela estar sozinha. Maritacas normalmente andam em bando e cada bando parece ser formado por casais. Mesmo quando não estão em bando, elas estão sempre em pares – às vezes colocamos comida para elas no quintal do fundo, e nunca uma vez sozinha. Ou elas aparecem pares, ou em bando.

Foi quando eu percebi que seu canto não era um canto.

Era um chamado.

Provavelmente, havia se perdido do bando – ou do companheiro – e estava tentando chamando por eles. É um bicho inteligente: sabe que se sair voando para qualquer lado as chances de ser encontrada diminui; assim, fica parado em lugar visível, chamando aquele que estiver mais perto.

Eu parei na calçada e comecei a olhar ao redor, procurando por sinais do resto do bando, ou de alguma outra maritaca. Não vi nada. Provavelmente, as outras pessoas na rua estranharam o fato de eu estar ali, parado, olhando para cima. Devem ter pensado que sou louco ou, no mínimo, desocupado a ponto de poder estar de bermuda e chinelos parado no meio da rua e olhando para o alto feito um imbecil.

Mas eu não me importei, e não porque não me importo com o que as outras pessoas pensam – vamos ser sinceros? Todo mundo se importa com isso em maior ou menos escala – mas sim porque eu não sei lidar com animais perdidos. Sei que isso deve parecer cafona (e provavelmente é), mas, a meu ver, animais são criaturas puras demais para se perderem e enfrentarem sozinhos um mundo tão hostil como esse que nós construímos. Para mim, são gotas de bondade que se diluem numa tempestade de maldades, crueldades e pouco caso.

Sinto isso ao ver cartazes com fotos de animais que sumiram de suas casas, quando Besta-Fera fugiu da casa da minha mãe, quando comecei a cuidar do gato que apareceu nos telhados da vizinhança. É um dos poucos assuntos que eu já escrevi sobre, mais de uma vez, e que mesmo assim não aprendi a lidar.

Eu não pensei nada disso enquanto ao ver aquela maritaca sozinha, chamando pelo bando, mas senti tudo isso. E imediatamente comecei a olhar ao redor, procurando por outras maritacas. Um trovão explodiu no céu e eu não vi maritaca alguma. Nem nos telhados, nos outros fios, nos postes. Nas árvores eu certamente não enxergaria, mas escutaria. E eu não escutava nada. Tudo o que eu ouvia era a maritaca perdida gritando mais alto e olhando para os lados.

Meu instinto foi pensar o que eu poderia fazer. E imediatamente me veio à resposta: nada. Eu não poderia subir nos telhados atrás das outras maritacas, e mesmo se eu pudesse isso não daria certo, eu apenas as espantaria. E ficar ali parado na calçada não resolveria nada já que, se de onde eu estava eu encontrasse outra maritaca, a maritaca do fio já enxergaria suas companheiras muito antes.

Foi quando eu tive a sensação de que eu estava sendo egoísta. Eu não estava parado e olhando para a maritaca em busca de uma solução. Talvez eu estivesse ali esperando para ver se ela era encontrada apenas porque eu não queria sair de casa para comprar cigarros e voltar com o cigarro no bolso e uma história triste na cabeça. Eu não estava procurando solução alguma, eu estava esperando o final feliz acontecer para eu poder tocar meu dia em paz.

Eu não estava pensando na maritaca, porque não adiantava pensar na maritaca. Eu estava pensando em mim, porque eu não queria uma história triste. Sim, eu gosto de histórias tristes, mas sempre no cinema, quando eu sei que é mentira, que os atores acabaram de filmar, trocam de roupa e vão para casa, deixando para trás os dilemas de seus personagens e a música triste.

Mas a maritaca era real. Estava perdida de verdade no mundo real, assustada demais com isso para perceber que, caso não seja encontrada, sua vida será muito mais difícil – e provavelmente mais curta – que ao lado de seu bando, onde cada uma cuida de todas. Tudo o que eu estava fazendo era assistir a isso, esperando que fosse apenas um susto e que seu companheiro e o resto do bando aparecessem – na minha cabeça, estavam preocupados e procurando por ela.

Basicamente, comecei a perceber que a maritaca estava preocupada com ela e fazendo o que podia para consertar isso. As maritacas do seu bando deviam estar preocupadas com ela e fazendo o que podiam para consertar isso. E eu estava preocupado apenas comigo mesmo e com o bem estar do meu dia.

Em minha defesa, digo que não havia nada que eu poderia fazer. Mas, como promotor, digo que eu não estava preocupado com a maritaca. Ou, ao menos, apenas com ela. Eu também estava preocupado com o bem-estar do meu dia. Porque talvez seja isso que a gente sinta sempre que vê uma história triste na nossa frente. Não digo que somos egoístas a ponto de nos colocar acima da história, mas talvez a gente torça por um final feliz não apenas por causa dos personagens da história, mas sim para que a gente consiga encerrá-la de forma alegre e pacífica dentro de nossas cabeças, para que possamos continuar tocando nossas vidas sem nunca mais pensarmos naquilo.

Não estou dizendo que não nos importamos. O que estou tentando dizer é que o fato de nos importarmos não é prova suficiente de que estamos preocupados apenas com a história e com seus personagens, mas também com a forma que essa história vai afetar nosso dia. E muitas vezes estamos mais preocupados com isso do que com a própria história que estamos vendo.

Assim, abaixei a cabeça e tentei não pensar mais a respeito disso – o que pode ser visto como evidência de culpa – e fui comprar meu cigarro. Comprei, paguei e voltei para casa. No caminho de volta, olhei para o alto em busca da maritaca e não vi nada no fio. Ela havia ido embora.

Fui para casa e comecei a escrever sobre isso, transformando o maior susto do bicho em uma crônica que deve me render meia dúzia de cliques, alguns comentários e elogios. Em minha defesa, digo que estou aqui torcendo para ela ter encontrado as outras maritacas. E realmente estou. Mas algo me diz que eu desejo isso somente porque quero um final feliz. Pois estou mais preocupado comigo que com a maritaca. 

23 de fevereiro de 2015

O Mistério dos Cinco Lixeiros

Algumas semanas atrás, comemoramos um ano que estamos morando na nova casa. Na verdade, a Esposa celebrou a casa nova; eu celebrei que estou há um ano sem precisar ter o menor contato com corretores de imóveis.

Não, minto. De vez em quando toca meu telefone, e é um corretor dizendo que no próximo sábado haverá o lançamento de um condomínio de luxo em alguma cidade do Mato Grosso do Sul e se eu não tenho interesse em conhecer. Antes, eu ainda me preocupava em perguntar “onde vocês, pessoas, arrumam meu telefone?”, mas como aceitei essas ligações como algo corriqueiro na minha vida, eu apenas finjo que não falo português e desligo o telefone.

Enfim, a casa nova. Estamos muito felizes aqui – sempre que passo pelo quintal, eu dou um abraço na churrasqueira, digo o quanto ela é importante para mim e o quanto sou uma pessoa mais completa com ela. E já tenho os meus cantos na casa, os locais onde fumo e penso na vida e em textos – algo que não vivo sem. Sim, os vizinhos poderiam falar um pouco mais baixo, mas paciência. Dos males, o menor.

Ou seja, tudo vai muito bem, obrigado.

Tudo menos o lixeiro.

Faz pouco mais de um mês que estou em uma guerra particular com o lixeiro. Tudo começou no início do ano. Até então, o lixeiro era algo extremamente regular e que funcionava como um relógio, de acordo com o seguinte esquema:

Terça-Feira: o caminhão de lixo comum passa à noite.
Quinta-Feira: o caminhão de lixo comum passa à noite.
Sexta-Feira: o caminhão de lixo reciclável passa à noite.
Sábado: o caminhão de lixo comum passa à noite.

Não é preciso ser um gênio para lidar com isso. Terça, quinta e sábado depois do jantar eu preciso colocar o lixo para fora. Sexta eu faço o mesmo, mas com o lixo reciclável. Eu levei pau duas vezes no primeiro colegial, e, nas duas bombas, uma parte bastante importante do pavio se chamava “Matemática”, mas até eu conseguia lidar com isso.

Mas, com o início do ano, recebemos uma circular dizendo que a rotina do caminhão de lixo mudaria, com algumas regras. O caminhão que recolhe o lixo normal continuaria passando terças, quintas e sábado, mas em novo horário. Já o caminhão de reciclável mudou para segunda e quinta.

Certo. Então, agora eu precisaria colocar o lixo para fora quatro dias por semana (segunda, terça, quinta e sábado). Ok. Eu também consigo lidar com isso. Tranquilo.

Mas os problemas começaram com os horários do caminhão. A circular dizia que eu devo colocar o lixo para fora no máximo duas horas antes do caminhão de lixo passar. Bom, isso é fácil também. Se ele passar às 22, eu coloco o lixo para fora às 20. Se ele passar às 23, eu coloco o lixo às 21. Eu também consigo lidar com isso. Assim, peguei a circular e procurei o horário previsto para o caminhão de lixo passar na minha rua.

E não dizia.

Tudo o que ela dizia a respeito do assunto era algo como “fique esperto aí na janela com um relógio na mão que em algum momento da terça-feira o caminhão de lixo vai passar. Se você não souber como é o caminhão de lixo, preste atenção a veículos grandes, fedorentos, cheios de saco de lixo na parte traseira, e sempre derramando um líquido viscoso por onde passam”.

Aparentemente, o problema era a unidade. Eu estava trabalhando com a unidade horas e a prefeitura com a unidade dias. Basicamente, eu precisava encontrar o valor de X na seguinte equação:

X = Y – 2h
(Onde Y pode ser qualquer hora das 24 horas contidas na terça-feira.)

Coloquei isso no papel e tive a sensação de que a resposta seria aquelas coisas que sempre estiveram além do meu alcance, tipo Números Irreais, Números Fantasiosos, Números Fantasmas ou qualquer outro nome que simboliza que soa como um aviso para que a humanidade não se aproxime daquele conjunto de números sob risco de abrir um portal para o inferno e soltar demônios pelo planeta (e o número de demônios seria, certamente, a raiz quadrada de um número negativo).

Bem, desisti de resolver a equação. Assim, na primeira terça-feira do ano, acordei e coloquei o lixo para fora. E passei o dia em casa, dando olhadas pela janela para tentar descobrir o horário de lixeiro. Eu estava convencido que não adiantaria nada. Algo me dizia que o lixeiro poderia passar às 10 horas da manhã, e na semana seguinte passar às 23 horas, e na terceira decidir que seria legal passar no meio da tarde. Mas me surpreendi ao perceber que não foi nada disso que aconteceu.

Na verdade, naquela terça-feira, o lixeiro não passou.

Meu lixo – e o dos vizinhos – ficou ali, entregue ao Deus dará, durante o dia inteiro, como uma criança que fica na calçada esperando por algum sinal que prove a existência do Coelhinho da Páscoa. E se você acha triste a situação do meu saco de lixo, lembre-se que, dentro da casa, eu desempenhava o papel do pai retardado que não apenas acredita no Coelhinho da Páscoa como está na janela preparado para marcar em qual horário ele passa por aquela rua.

Por mim, eu teria deixado o saco de lixo ali, apodrecendo, na frente de casa. Aliás, até pensei em colocar uma plaquinha com “Lixo Hospitalar Radioativo Extraterreno – Recolher com cuidado para não assustar os mosquitos da dengue” só de sacanagem, mas fiquei com preguiça. Além disso, eu teria um problema. Quinta-feira era o dia do caminhão que recolhe o lixo reciclável (que também passaria em qualquer horário que ele se sentisse à vontade para isso) e, com isso, eu precisava tirar o lixo normal e trocá-lo pelo lixo reciclável.

Assim, na quinta-feira pela manhã, abri o portão e fui até a lixeira carregando um saco de lixo. Peguei o saco de lixo que estava lá e coloquei o saco de lixo reciclável no lugar dele. Sacudi as mãos após um trabalho bem feito e fui cuidar do meu dia, voltando para casa carregando o saco de lixo antigo e olhando com cara de “sim, eu levo lixo para dentro de casa, meta-se com a sua vida” para o vizinho que saía para trabalhar.

As horas se passaram e, à tarde, eu saí para ir a algum lugar qualquer. Abri o portão e vi que meu lixo ainda estava ali. Olhei ao redor e não vi saco de lixo algum. Meu vizinho estava voltando para casa e eu perguntei, casualmente:

– Você sabe que horas o lixeiro passa hoje?

– Acho que à noite.

– Obrigado.

– Você está perguntando sobre o reciclável, certo?

– Isso.

– Ele passa à noite. O lixeiro normal passou.

– Como assim?

– Ele já passou. Você perdeu o horário do caminhão de lixo?

– Não quero falar sobre isso.

– Ele passa umas sete da manhã.

– Ok. Depois eu falo com você. Agora eu preciso entrar em casa, ter um ataque histérico e quebrar alguma coisa. Talvez esmurrar uma parede. Mas muito obrigado mesmo assim.

– Por nada.

Entrei em casa batendo portas, socando coisas e decretando que nunca mais colocaríamos o lixo para fora. Aquele saco de lixo que estava ali fora seria o último que colocaríamos na lixeira. Até que o caminhão se dignasse a recolher aquilo, nós seríamos uma nação independente, com nossas próprias leis e alheios ao sistema de coleta de lixo. A Esposa olhou para mim e disse:

– Na verdade, você precisa tirar o saco de lixo lá fora e colocar o do reciclável. Ele passa hoje.

– Como assim, hoje? Eu acabei de descobrir que hoje passou o caminhão de lixo normal.

– Sim, e agora à noite passa o reciclável.

– Dois no mesmo dia?

– Sim. O normal passa terça, quinta e sábado. O reciclável passa segunda e quinta.

– Dois caminhões no mesmo dia?

– Você não tinha percebido?

Não. Não tinha. Mas não pegava bem eu admitir isso. Afinal, eu estava prestes a fundar meu próprio país, e um líder precisa passar confiança para seu povo.

– Sim, eu havia reparado! É evidente que eu havia reparado nisso! Você acha que eu sou idiota? Está escrito lá, quinta-feira!

– Bem, você precisa colocar aquele lixo de volta na garagem e colocar o reciclável para fora.

– Você já considerou a hipótese de que este saco de lixo está amaldiçoado?

– Como assim?

– Eu estou há dias tentando me livrar deste saco de lixo e não consigo. Eu coloco o saco na lixeira, e tudo o que acontece é que eu preciso voltar até a lixeira, pegar o saco e trazer de volta para a garagem. Eu tenho certeza que se a gente abrir o saco de lixo e olhar lá dentro, nós vamos encontrar algum amuleto de uma religião antiga. Nós estamos amaldiçoados!

– Deixa de bobagem.

– Esse saco de lixo vai trazer a desgraça para todos nós!

– O lixo reciclável está ali. Coloca o outro na garagem e este aqui lá fora.

Nem cinco minutos após fundar meu próprio País e eu já havia descoberto que é impossível governar sem o Congresso. Peguei o saco de lixo reciclável, fui até a calçada, peguei o saco de lixo normal, coloquei o saco de lixo reciclável no lugar dele e carreguei o saco de lixo normal para a garagem. E fiquei olhando o saco de lixo durante alguns segundos, pensando se valia a pena abri-lo e fuçar dentro dele em busca de algum boneco asteca de vodu ou uma caveira da Babilônia que estivesse causando tudo aquilo.

Evidentemente, não tive coragem de abrir nada – afinal, não era um saco de lixo comum, mas sim um saco de lixo que estava há dias sendo levado para cá e para lá, gradualmente apodrecendo e ganhando consciência, provavelmente esperando alguém meter a mão lá dentro para capturar a vítima e usá-la como alimento.

Desta forma, achei mais higiênico mudar minha teoria: não é o saco de lixo que está amaldiçoado. A partir de agora, eu falo para as pessoas que minha casa foi construída em cima de um antigo cemitério da Vega Sopave e os espíritos dos lixeiros estão procurando se vingar dos novos moradores, especialmente daquele baixinho careca que está fumando ali na frente.

E a vingança tem dado certo. Agora, sou um escravo do lixo, cheguei até a tentar uma tabela no Excel para mapear os dias que preciso levar o lixo para fora, mas não tive sucesso. Primeiro, a questão de dois lixeiros passarem no mesmo dia. Segundo, assim como as crianças na escolinha tem o “Dia do Brinquedo”, o lixeiro tem o “Dia da Conjunção”. Trata-se da terça-feira, que é o dia que o lixeiro passa se quiser, quando quiser, onde quiser e como quiser.

Assim, desisti e aceitei meu destino. Mas, agora, tudo o que eu faço é colocar o lixo para fora. Estou trabalhando e a Esposa pede para eu colocar o lixo para fora. Levanto, pego o saco de lixo, coloco na lixeira e volto para o PC. Escrevo dois parágrafos e ela aparece.

– Precisa tirar o lixo.

– Você está tentando me enlouquecer?

– Como assim?

– Eu acabei de tirar o lixo. Eu tenho certeza que fiz isso faz dez minutos.

– Aquele era o normal. Agora precisa tirar o reciclável.

– Não dá para tirar tudo de uma vez? Duvido que se a gente fizer isso todos os golfinhos vão morrer, ou que o solo vai se tornar venenoso.

– O saco de lixo está aqui.

– Eu aposto que foi isso que aconteceu em Chernobyl. Mudaram o horário do caminhão de lixo, alguém se atrapalhou tentando descobrir se era a vez do lixeiro normal ou do reciclável, e pronto. Deu merda. Vai acontecer o mesmo aqui.

– Certo.

– Aliás, tomara que aconteça. Assim o planeta explode logo e todos nós morremos.

– Certo.

– E eu não me importo de morrer desde que o lixeiro morra também. O lixeiro e a pessoa que resolveu mudar o horário do caminhão de lixo. Faço questão de encontrar todos esses caras no inferno.

Mas pego o saco de lixo e vou até a calçada. Coloco o saco de lixo na lixeira e, antes de entrar em casa, dou uma olhada para os lados.

Eu sei que alguém está observando.

Eu sei que alguém está rindo disso.

16 de fevereiro de 2015

Pequeno Ensaio sobre Casais que Brigam na Rua

Acho engraçado como casais que brigam na rua decidem sempre fazer isso em frente a minha casa. Vira e mexe estou vendo televisão ou escrevendo e preciso parar o que estou fazendo por causa de uma gritaria lá fora. Ah, sim porque eu sempre paro para assistir. Vou até a parte da frente da casa, acendo um cigarro e fico ali, ouvindo tudo e usando minha melhor cara de “por favor, não se incomodem comigo, eu apenas moro aqui”.

Ontem mesmo foram duas brigas. Uma pela manhã e outra logo depois da hora do almoço. A da manhã foi mais feia, com direito a berros e empurrões e portas de carro batendo – em alguns momentos eu realmente achei que a coisa fosse descambar para a violência física. Já a da tarde aconteceu dentro de um carro, e também terminou com a menina saindo do veículo (e batendo a porta, que parece ser padrão) e indo embora, com o sujeito atrás dela tentando retomar o diálogo.

Ouvindo as discussões descobri o motivo da primeira briga e cheguei perto de identificar o que causou a segunda. E os motivos foram, basicamente, porque parece que...

Não.

Na verdade, os motivos não importam.

Quando um casal quebra o pau aos berros no meio da rua, não tem mais motivo. Não é mais o caso de ouvir as três versões que existem para saber quem está errado. Sim, três versões. O número de versões que existem para qualquer história pode ser calculado somando X + 1, onde “X” é o número de participantes da história e 1 é a verdade. Ou seja, numa briga de casal, estamos falando de duas pessoas, então existem três versões diferentes: a versão de um, a versão do outro e a verdade.

Mas no caso de uma briga na rua, daquelas de berros e ameaças de morte e de chamar a polícia, nem adianta mais olhar as versões para saber quem está errado. Pois quando a coisa chega a este ponto é porque não é mais um ou outro que está errado. É o relacionamento que está errado.

E não posso negar que, apesar de adorar um bom barraco para assistir (afinal, ver um casal se matando na rua é o mesmo que assistir a TV aberta sem precisa assistir a TV aberta) eu fico um pouco triste ao ver essas coisas. Nem tanto porque eu já passei por situações como essa – se você não passou, eu recomendo fortemente que você não experimente – mas mais por tudo aquilo que não sabemos sobre o relacionamento.

Quando a gente vê uma notícia sobre alguém que morreu baleado na rua, pensamos sempre em como a violência está grande, como é difícil viver nas grandes cidades, como tudo é perigoso e nem dá para colocar o nariz para fora.

O que não pensamos é que aquela pessoa que está deitada numa poça de sangue na calçada não é uma estatística. Ela é filha de alguém, irmã de alguém, talvez tenha filhos. Ela tem toda uma história que está deitada ali com ela. Tem o primeiro beijo, a primeira vez que chorou por causa de um namoro, a alegria que sentiu quando conseguiu o primeiro emprego, o sonho em viajar para conhecer os Estados Unidos e a vontade de ver um show do U2... E apesar disso tudo estar deitado ali com ela no meio do sangue e coberto com um saco de lixo ou um jornal, não enxergamos isso. Vemos apenas que ela tomou seis tiros e que foi um assalto que deu errado e vamos para a próxima notícia.

O mesmo acontece com relacionamentos que morrem na rua. Eles não deitam numa poça de sangue, mas sim em gritos e palavrões e falta de razão de todos os lados. E nós olhamos e pensamos apenas no tamanho do barraco, mas nunca pensamos no cadáver estendido na discussão.

Eu sempre penso. Talvez seja porque escrevo, não sei. Mas sempre penso.

Podemos pegar qualquer um dos casais que brigou aqui em frente, ontem. Nos dois casos, o ódio que um sentia pelo outro era quase palpável. Eram duas pessoas que não se suportavam, que não conseguiam fazer o outro enxergar o que eles queriam e que se recusavam a enxergar o que outro queria. E chega um determinado momento – isso ficou mais claro na primeira briga – que o motivo da briga se perdeu. Machucados e ofensas de outras brigas começam a entrar em casa, e de repente não se briga mais para resolver o assunto, mas sim porque se odeiam.

Brigam porque o ódio parece ser a única forma de contato que existe.

E eu assisto tudo pensando que um dia não foi assim. Talvez tenham se conhecido num bar. Pode ser na casa de um amigo – num churrasco no final de semana, talvez – mas gosto da ideia do bar. Começaram a conversar e a se conhecer.

E, naquele momento, tudo era maravilhoso. Se um deles falasse que “é melhor você ir falar com outra pessoa, porque em três anos nós vamos quebrar o pau no meio da rua, na Vila Mariana, aos berros, com as pessoas saindo de casa para ver”, o outro diria “que bobagem”, porque certamente era uma daquelas horas que a gente vê apenas o que quer. Numa situação normal, ele teria achado o dentinho torto dela feio, mas naquela hora pareceu charmoso. Numa situação normal, ela teria achado o cabelo dele ridículo, mas na hora pensou que “é questão de me acostumar”.

Três anos depois, ele tem vontade de arrancar o dentinho torto dela com um murro. Ela tem vontade de segurá-lo pelos cabelos ridículos e esfregar a cara dele na calçada.

E o que é pior, com todo mundo ali olhando. Soa meio injusto o relacionamento desmoronar de vez em frente a uma plateia enquanto o resto do mundo foi privado dos bons momentos. É como se a raiva fosse mais importante que o amor (afinal, ela é mostrada e o amor não) e é justamente o contrário. Aquele ódio que estamos assistindo existe apenas porque houve amor um dia.

Afinal, ninguém soube quando ele percebeu que queria levá-la para a cama. Ninguém soube quando ela decidiu que queria beijá-lo a primeira vez que o viu jogando a cabeça para trás numa gargalhada. Ele pensou duas vezes antes de contar para alguém que ela não sai da minha cabeça, ela esperou alguns almoços até comentar com a amiga que acho que estou apaixonada.

Não é injusto com a plateia. É injusto com o amor que está sendo velado em praça pública.

Todos os melhores momentos lá do começo foram mantidos em segredo, mesmo que somente por alguns minutos. Chega a ser triste que todos os piores momentos do final sejam encenados no meio da rua, como um show de horrores. Triste, pois isso é tudo o que eu e meus vizinhos vamos saber dessas pessoas, sem jamais pensarmos que uma noite, cada um em sua casa, deitou a cabeça no próprio travesseiro e jurou que tudo o que queria na vida era fazer o outro feliz. Aliás, não apenas feliz, mas mais feliz que nunca.

Provavelmente nunca esquecerão um do outro. Sempre souberam disso, desde o primeiro beijo, mas agora estão percebendo que ele pensará nela como a filha da puta e ela pensará nele como aquele escroto – nomes bem diferentes das dezenas de apelidos carinhosos que tiveram enquanto o namoro prometia ser para sempre. E cada um dirá que o outro foi a pior coisa que aconteceu na vida, ignorando o fato de que, em algum momento da primeira noite, ambos se olharam com a expressão de “parece ser uma boa ideia”. Nós nunca vimos isso acontecer. Nunca vimos a primeira frase trocada, o primeiro sorriso, a primeira vez que os dedos se entrelaçaram.

Nós vimos apenas o olhar de ódio.

Da mesma forma que o morto não pode se levantar e contar todos os seus sonhos (tanto aqueles que ele concretizou como os que ele será obrigado a deixar de lado pelo fato de que está na calçada depois de levar cinco ou seis tiros) um amor que briga na rua não consegue mais enxergar o que foi que fez com que um se apaixonasse pelo outro na primeira vez que se olharam, que sorriram um para o outro, que se beijaram.

Um amor que morre na rua não tem como se levantar e contar para os pedestres como ele nasceu. E como ele foi bonito um dia.

Talvez seja isso. Num mundo onde as pessoas são cada vez mais egoístas e incapazes de entender como o outro se sente, namoros que terminam na rua com lágrimas e berros e palavrões são apenas estatísticas. Por isso que adoraria que todos os casais que brigam na minha rua tocassem a campainha da minha casa, avisando que iria brigar, explicando o motivo da briga e contando toda a história de como se conheceram.

E principalmente como se apaixonaram. Porque pode parecer difícil de acreditar vendo os dois quase se agredindo na rua, mas tenho certeza de que eles foram apaixonados um pelo outro em algum momento. Mas é uma paixão que morreu.

Deve estar nos jornais, como toda estatística, que parecem gostar de mostrar apenas coisas ruins. E não cabe a nós dizermos que a história deles não foi boa apenas porque estão se matando na rua. Afinal, essa história foi boa em algum momento, ela apenas não será contada.

E é por isso que vira estatística.