25 de outubro de 2014

Rob Gordon's The Birds

Já faz alguns meses que a Esposa queria um passarinho.

Entretanto, como já temos três cachorros, três gatos e diversos peixes (o número de peixes é impossível de calcular, já que basta eu me aproximar do aquário para contá-los que eles começam a nadar alucinadamente, se escondem atrás das plantas e fica um trocando de lugar com o outro e fazendo dancinhas para me atrapalhar) foi preciso pensar a respeito.

Assim, decidimos fazer um plebiscito em casa. Mas abolimos a ideia assim que Mefisto, o gato das trevas (que quem me acompanha no Instagram conhece por #GatoRidículo) apareceu no dia da votação segurando garfo e faca, com um guardanapo amarrado no pescoço e fazendo campanha aberta para comprarmos um passarinho – inclusive usando a faca para ameaçar os outros gatos, caso eles votassem “não”.

Ou seja, nada de passarinho.

Ao menos, não dentro de casa. Pois, sem seu passarinho, a Esposa optou por um plano B. Comprou dois daqueles negócios de comida que você prende em gaiolas, encheu de ração e pendurou numa escada que temos no quintal do fundo.

Nos primeiros dias, não aconteceu nada. Mas, aparentemente, os pássaros têm uma rede social. Acredito que alguma maritaca viu aquilo e postou a foto da ração, porque o negócio parece ter viralizado entre as aves. Eu deduzi que alguma coisa na comida que compramos – talvez as malditas uvas passas – faz com ela seja uma ração gourmet e a nova tendência gastronômica entre os pássaros da Vila Mariana.

Assim, todo pássaro do bairro que acompanha as tendências (e que já foi blogueiro, depois apagou o blog e tentou ser fotógrafo, e agora diz para todo mundo que sempre sonhou em se tornar chef) quer vir aqui comer. Aliás, alguns parecem que nem comem. Pousam na escada, tiram uma selfie com a ração, postam no Instagram (evidentemente, usando o meu wifi) e vão embora.

Ou seja, inventamos a nova moda da internet, mas não temos como ganhar dinheiro com isso. Ô fase.

E a demanda parece aumentar a cada dia. Basta colocar comida para eles aparecem. Às vezes, nem dá tempo de sair dali. Você está descendo a escada e os pássaros já estão ali, e você precisa correr para dentro de casa, enquanto o #GatoRidículo fica desesperado na janela da cozinha, socando o vidro, cuspindo enxofre, desenhando pentagramas com sangue e gritando “pega aquele marronzinho ali pra mim ou você vai morrer, seu filisteu maldito!”

Eu já aprendi que os horários de maior movimento são logo cedo pela manhã e no final da tarde. Eles chegam às dezenas. São maritacas, sabiás, pardais, tico-ticos... Ficam ali na escada, comendo e grasnando o papo em dia.

No começo, era bonitinho. Mas de repente os pássaros descobriram que eu moro aqui. E minha vida se tornou um inferno.

Começou um dia que fui fumar lá no fundo e dei de cara com uma única maritaca. Eu não dei atenção até perceber que ela estava me encarando fixamente e gritando algo parecido com “Nada mais!” “Nada mais!”. Fingi que não era comigo, terminei meu cigarro e voltei para dentro de casa. Horas depois, saí para fumar e lá estava a maritaca gritando “Nada mais!”.

A maritaca ficou uns dois dias ali e sumiu. Mas vira e mexe ela volta. Sempre sozinha. Sempre gritando “Nada mais!” e me transportando para uma versão tropical de O Corvo, provavelmente escrita por um Edgar Allan Poe de bermuda e chinelos, depois de se entupir de camarões e cerveja num sábado à tarde no Guarujá.

Mas o pior mesmo é quando eles estão em bando. Isso porque como eles são muitos, a comida acaba em aproximadamente três minutos. E como eles já aprenderam que a ração sempre é reposta, eles ficam ali esperando. Aí eu saio para fumar e dou de cara com dezenas de pássaros, todos eles me encarando – alguns reclamando que o serviço aqui é horrível – e esperando eu tomar alguma atitude a respeito do pote de ração.

Eu tento explicar a eles que “olhem, eu apenas moro aqui e não tenho nada a ver com isso”, mas não adianta. Eles ficam me olhando feio, deixando claro que a qualquer movimento brusco que eu fizer vão me atacar e me devorar vivo – ou, pior, vão voar por cima de mim e me bombardear com fezes para mostrar que eles que mandam aqui e que não é um polegar opositor que vai garantir minha sobrevivência.

Assim, não é para menos que eu tenho fumado mais no quintal da frente, com medo de ir para o fundo e ser feito como refém pelos pássaros, que vão abrir negociações com a Esposa dizendo que só me entregarão de volta em troca de um saco de ração, que não é para chamar a polícia que tudo irá acabar bem, e que não estão blefando.

Mas de vez em quando, eu vou fumar lá no fundo. Gosto de ir lá.

Espio pela janela da cozinha, e ao ver que não tem nenhum pássaro ali e vou fumar. Mas basta eu acender o cigarro que a maritaca aparece. Pousa no alto da escada e fica me observando, atentamente.

Hoje de manhã aconteceu isso e eu me enchi. Dei uma tragada e perguntei:

- O que você quer, porra? Quem é você?


Na verdade, jamais homem há visto
Coisa na terra semelhante a isto:
Uma maritaca, friamente posta
Num busto acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome:


"NUNCA MAIS".

20 de outubro de 2014

A Lenda do Cavalo na Estrada

Existe uma história na minha família sobre mim que não sei se é verdade. Quer dizer, eu sei que aconteceu de verdade, mas eu não me lembro dela. Entretanto, ela já foi contada tantas vezes que eu quase consigo visualizá-la – o que acho justo, visto que ela aconteceu comigo.

Estávamos viajando para algum lugar. Meu pai dirigia com minha mãe ao seu lado, e eu e meu irmão estávamos no banco de trás do carro. Eu devia ter uns dois ou três anos e tinha o comportamento típico de uma criança desta idade durante uma viagem: passava metade do tempo perguntando se “falta muito?” e a outra metade infernizando a vida do meu irmão.

De acordo com a história, em um determinado da viagem eu comecei a chorar por alguma que coisa que, como hoje ninguém lembra, não devia ser particularmente importante. O que é importante é que eu não parava de chorar.

Assim, minha mãe tentou desviar minha atenção do motivo-que-me-fazia-chorar, virou para trás e inventou uma mentira:

- Como você está chorando, você não viu o cavalinho que estava perto da estrada!

Eu parei imediatamente de chorar. O carro ficou em silêncio por uns dois segundos, que foi o tempo suficiente para eu perceber que o cavalinho era mais importante que aquilo que estava me fazendo chorar. Ainda dentro destes dois segundos, o cavalinho se tornou a coisa mais importante da minha. Tudo o que eu precisava na vida era ter visto o cavalinho. E agora o cavalinho estava perdido para sempre.

Imediatamente, comecei a chorar e gritar que queria ter visto o cavalinho, que temos que voltar para o cavalinho. Reza a lenda que fui chorando até chegarmos ao lugar por causa do cavalinho e, a cada cinco minutos, meu pai resmungava “agora arruma uma porra de um cavalo para o menino ver” com a minha mãe.

Sábado passado eu e a Esposa fomos até a casa de uns amigos. Mas fomos de carona com uma amiga dela. As duas na frente e eu atrás, observando a paisagem (é engraçado: hoje eu não fico perguntando para as pessoas se falta muito para chegarmos; por outro lado, eu estou sempre perguntando se falta muito para irmos para casa).

Sei que no meio do caminho, as duas começaram a gritar no carro, espantadas. Estávamos em plena Avenida 23 de Maio e um carro cortou todas as faixas em alta velocidade, fechando todos os outros veículos até passar por cima de um canteiro com grama, para desaparecer numa saída da avenida. Coisa de filme.

Ouvíamos sirenes atrás de nós. Elas começaram a discutir se o cara estava fugindo da polícia, se a polícia estava ali por coincidência e agora estava atrás do cara. As teorias eram muitas e tenho certeza que a mesma discussão estava acontecendo em todas as outras dezenas de carros ao nosso redor.

- Porra, eu não vi nada!

- Como não?

- Estava olhando um boteco embaixo de um cortiço lá atrás.

Esta foi minha contribuição para o debate. Não foi exatamente genial, mas foi sincera, porque eu não vi nada. Para variar, eu não vi nada. A diferença é que desta vez eu segurei o choro, porque não pegava bem abrir o berreiro ali no meio do carro com 39 anos nas costas.

Às vezes, acho que vou passar a vida inteira procurando pelo maldito cavalinho da estrada.

E, pior: olhando para o lado errado.

16 de outubro de 2014

O Mistério da Cobasi

Hoje, este blog volta de férias.

Depois de quase um ano sem final de semana, eu precisava de uns dias longe de textos para arejar. Não consegui, já que para descansar comecei a brincar com o cenário de um novo conto. Mas foram dias mais leves, em que fiz coisas que pessoas normais fazem, como dormir, ver seriados, mergulhar em livros e quadrinhos...

E ir até a Cobasi.

A Cobasi – para quem não sabe, são aquelas pet shops maiores que alguns vilarejos da Europa – é um dos maiores mistérios da minha vida. Teoricamente, eu adoro o lugar. Minha parte preferida de cada visita é sempre ver os passarinhos, que acho legal, e escolher novos peixes para o aquário (o que não seria difícil de apontar, já que as outras partes das minhas visitas são normalmente carregar um saco de 10 quilos de ração e galões de desinfetante).

Basicamente, eu adoro ir até a Cobasi... Até colocar os pés na Cobasi.

Isso porque eu realmente não entendo o hábito das pessoas em levarem seus animais para a loja. Eu realmente não consigo compreender porque é preciso levar o cachorro para comprar ração, já que ele não vai escolher o sabor, a marca, nada disso. Vamos ser sinceros? O cachorro não precisa estar lá. Para mim, não faz sentido algum.

Eu não concordo com essa humanização dos animais. Aliás, não é que não concordo, eu não entendo. Sim, eu falo com meus animais como se eles fossem pessoas, mas apenas quando sei que estou sozinho com eles. Tratar os animais como humanos é como fazer sexo: quem gosta, tem mais que fazer, mesmo. Mas é sempre importante lembrar que ninguém é obrigado a ver você fazendo isso.

Lembro quando eu morava em Pinheiros. Muitas vezes, passeando com o Besta-Fera, alguém vinha falar comigo na rua sobre ele.

– Como ele é lindo!

– Obrigado.

– É menino ou menina?

– É um cachorro.

Aí ficava aquele clima estranho, e a pessoa tentava consertar.

– Mas qual o sexo?

– Ah. É macho.

Mas o pior era quando ele começava a querer brincar com as pessoas, que respondiam apontando para mim e falando com ele que “se comporta! seu pai está olhando e vai ficar bravo!” e eu respondia que “na verdade, eu sou o dono dele, ele não é meu filho, é um cachorro”. Aí ficava aquele clima chato, e íamos cada um para o seu lado: a pessoa achando que sou grosso, e eu achando que ela é esquizofrênica.

Partindo desse princípio, a Cobasi é a capital mundial da esquizofrenia no trato com animais. Já experimentei algumas cenas dantescas lá dentro, como quando fui cercado por dois cachorros, um em cada ponta do corredor.

Os respectivos donos liam em voz alta os sabores dos biscoitos, para que cada cão pudesse decidir qual ele gostaria naquele dia. Mas os animais estavam mais interessados em um latir para o outro, provavelmente combinando de escaparem ao mesmo tempo e destroçarem naquele baixinho careca ridículo que estava se esticando para pegar algo na prateleira mais alta.

Falta bom senso. Já vi mulheres abaixadas com dois sacos na mão, perguntando se “você prefere o de frango ou o de carne?” para um poodle que mal conseguia disfarçar seu constrangimento com aquilo, já vi gente dando bronca em cães dizendo que “eu disse que não podia fazer xixi aqui na Cobasi!”, e o cachorro olhando com desprezo, provavelmente pensando que se qualquer animal se candidatasse a espécie dominante do planeta ganharia no primeiro turno.

Uma vez eu quase fui falar com a pessoa. Ela estava parada com um cachorro na parte de passarinhos, dizendo para o animal que “olha os passarinhos, como são bonitinhos!”. E o cachorro ali, se esgoelando para pegar um canário, e centenas de pássaros prestes a ter um ataque cardíaco dentro da gaiola. Quase fui chamar o segurança, mas o cara se tocou que, por causa dos latidos do cachorro ninguém conseguia nem pensar num raio de vinte metros e foi embora, levando o cachorro para ver os peixes, algo que provavelmente o cachorro nem entendeu.

Sabe, eu entendo se a pessoa vai com o cachorro na Cobasi para ele ser consultado no veterinário, e aproveita para fazer compras. Mas levar o cachorro somente para a loja? Não tem uma área para os cães brincarem, não tem uma praça de alimentação servindo ração... Não tem nada para cachorros ali dentro. É uma loja! Se eu sair para comprar adubo para as plantas da Esposa eu não vou carregar o vaso nas costas. Eu não preciso da ajuda dele na escolha, no processo de compra, na hora de pagar.

E, toda vez que eu vou embora da Cobasi, olho a placa e vejo o slogan “o shopping do seu animal” e fico me perguntando sobre quem ele está falando. E me convenço cada vez mais que o slogan, esse sim, é para o cachorro, e fala sobre aquele animal bípede que ele tem em casa.

2 de outubro de 2014

'eba'e 'olí'ico

Estava no boteco, bebendo uma Coca, quando começou a gritaria.

Aliás, gritaria em boteco é um negócio estranho, que não obedece às leis da Física. Toda gritaria normal tem um momento inicial definido. Numa gritaria na rua, no escritório, ou em casa, existe um Grito-D específico que dá início a outro grito, que leva a outro grito, formando a gritaria. Não importa o assunto, ela começou com um berro.

Mas, num boteco, não há um grito inicial. As pessoas estão conversando, mas os ânimos esquentam, o tom começa a subir e de repente você está no meio de uma gritaria que há dois minutos não existia, mas que ao mesmo tempo parece que sempre esteve ali e você que não tinha reparado.

A do boteco foi assim. Quando eu me sentei, o bar estava em silêncio. Quando eu estava na metade da lata de Coca, percebi que as pessoas estavam gritando sabe-se lá há quanto tempo no bar. E o assunto era política.

- Então vota no PT! Quer fazer merda? Então vota no PT e não enche o saco!

Quem disse isso foi um sujeito que, com alguns minutos, aprendi que atende pela alcunha de Alemão. Suas propostas eram claras: Alemão é daquelas pessoas que é “contra tudo isso que está aí”, mas seu tom raivoso mostrava que se estourasse uma guerra civil, ele seria o primeiro a pegar em armas. Mas não para derrubar o poder, e sim nocautear seu adversário com uma coronhada e beber em paz.

Seu adversário permanece um mistério para mim. Tinha uns 60 anos. Negro. E foi só o que consegui decifrar. Não consegui entender seu nome, muito menos quais propostas ele defendia, e não porque seu raciocínio era confuso, mas sim porque ele era fanho, e parecia ter alguns problemas com os “r”, os “t”, os “d” e os “p”.

- Eu vo’o em que eu quise’! Eu ‘enho esse ‘i’eito! E mesmo assim vota’ não a’ian’a na’a! Que se fo’a-se!

(Sim, que “se foda-se”.)

- É porque você pensa assim que o país tá uma bosta! Sabe como as pessoas votam? Elas pegam o santinho no chão e escolhem o candidato assim!

- E o que você que’? Vai vo’a’ em quem?

Achei a pergunta bem colocada. Bem colocada e objetiva.

- É tudo uma bosta! O país tá uma bosta!

Bom, o Alemão aparentemente conhece a primeira regra da política, que implica em não responder com clareza. Numa situação normal, isso o colocaria em vantagem. Mas, como o problema fonético do seu adversário fazia com que ele nem mesmo perguntasse com clareza, o debate prometia ser equilibrado. Aliás, naquele momento eu apostaria no Fanho.

- O que você ‘efen’e?

- Como assim?

- O que você ‘efen’e?

- Não entendi!

Eu também não.

- O que você ‘efen’e? O que você que’?

Ah! “O que você defende?”. Entendi. Mas como não era comigo fiquei quieto – caso seja do seu interesse, naquele momento eu defendia que aquele debate durasse horas – e deixei a resposta para o Alemão.

- Como assim, o que eu quero?

- Se eu p’ome’’e’ aqui que vou a’’uma’ sua vi’a, vou ‘a’ ‘inhei’o! Você vo’a nimim?

- Não!

- Eu vou ‘a’ ‘inhei’o p’a você! Vai vota’ nimim?

Se a pergunta fosse para mim, provavelmente eu perguntaria se posso pegar minha parte em quadrinhos. Mas o Alemão não gostou do rumo que a conversa estava tomando. Sua integridade estava sendo discutida.

- Não! Porque é dinheiro sujo! E dinheiro sujo eu não quero!

Em sua réplica, o candidato Fanho elaborou uma reposta que provavelmente estabeleceu o recorde de maior número de letras “d”, “t”, “r” e “p” reunidos no mesmo lugar, porque eu não entendi absolutamente nada (entendi apenas um “i-i-ica”, então desconfiei que ele estava imitando um rato). Mas o alemão me ajudou ao gritar:

- Tiririca!?

I-i-ica. Tiririca. Eu devia ter pensado nisso.

- I’i’ica! Isso mesmo!

- Você vota no Tiririca!

O tom do Alemão era claro: ele estava tentando desqualificar seu adversário, com aquele ar de “você vota no Tiririca, então sua opinião não vale”. Eu continuei bebendo minha Coca, escutando e torcendo para que o Fanho não tentasse trazer a Petrobras para a conversa. Não por causa da situação da estatal, mas sim porque ele cuspiria no bar inteiro ao falar o nome da empresa.

- Ele fez seis ‘’oje’os!

- Tiririca!

- Seis ‘’oje’os! Mais que você!

- Tiririca!

- ‘i’i’ica sim!

- Esse país não é sério!

Bom, nisso eu concordo com o Alemão.

- O que você que’? O que você que’ ganha’?

- Eu quero igualdade!

- Igual’a’e não exis’e”!

- Eu quero igualdade!

- Po’ exemplo, eu sou Á’ies! E você?

Oi?

- Oi?

- Seu signo! Eu sou Á’ies! E você? Você é de á’ies?

- Não!

- Tá ven’o? Nunca vai ‘er igual’a’e!

O argumento foi demais pra mim. Levantei e fui até o caixa pagar a Coca. Paguei e o dono do boteco resmungou que:

- Esses imbecis ficam discutindo política no bar. Enche o saco isso.

Sorri e agradeci.

E saí do bar disposto a me informar mais sobre o dono do bar e suas propostas. É sempre bom ter uma terceira via. Especialmente uma que parece enxergar a realidade de trás do balcão.

26 de setembro de 2014

Colheita Maldita

De uns tempos para cá, começaram a surgir algumas armadilhas espalhadas pela cidade aqui em São Paulo. No começo, confesso que não dei atenção. Mas, com o tempo, a situação começou a mudar. Eu passava por uma delas e, ao sentir o cheiro, meu impulso era parar e falar com a pessoa. Mas resistia bravamente e apertava o passo.

Contudo, a coisa foi piorando a cada dia. Eu sabia que um dia seria inevitável. Um dia, o maldito cheiro iria me vencer e eu iria cair na armadilha.

Dito e feito.

Dia desses, eu estava saindo do metrô com uma fome equivalente a de um refugiado de guerra civil que acordou mais tarde logo no dia que o caminhão da Cruz Vermelha passou no bairro. Eu não havia almoçado e eram quase dez da noite.

Comecei a descer a Lins de Vasconcelos, sabendo que pelo menos duas armadilhas estariam em meu caminho. Meus planos eram ignorar a primeira e tentar juntar forças para vencer a segunda. Se houvesse uma terceira, eu não teria o menor puder em atravessar a rua para me esconder. Com coragem e determinação, eu conseguiria voltar ileso para casa. Com coragem e determinação, eu conseguiria escapar de todos os desafios. Com coragem e determinação, nada me atingiria.

Mas logo na primeira armadilha nós dois (eu e meu estômago) sentimos o cheiro. Com coragem e determinação tentei resistir, mas meu estômago começou a rosnar e, ameaçando morder minha coragem e minha determinação, colocou as duas para correr.

Quando eu percebi, já estava com a barriga encostada no carrinho, salivando e com a carteira na mão.

– Cara, me dá um milho.

O vendedor olhou para mim de forma casual.

– Prato grande ou pequeno?

Meu estômago começou a gritar “Tem gigante? Eu quero dois gigantes!”, mas eu fui mais rápido e respondi que “grande”. Em dois minutos, o sujeito pescou um milho da panela, espetou num garfo e fez intervenções cirúrgicas limpando a espiga e jogando os grãos no pratinho com uma destreza que fariam Jet Li e sua espada morrer de inveja.

Com o prato pronto, ele perguntou:

– Manteiga?

– Como assim?

– Você quer manteiga no milho?

Eu havia entendido a pergunta, apenas achei completamente desnecessária.

Antes de continuarmos, quero falar sobre meu irmão e pimentões recheados. Quando meu irmão era criança, ele achava que os pimentões já nasciam recheados. Na mente dele, os pimentões já vinham com carne moída e ovo cozido, porque era assim que minha mãe fazia, e era assim que ele comia. Talvez tenha sido um choque para o meu irmão descobrir que quem colocava a carne e os ovos ali era minha mãe, mas hoje ele sabe como são os pimentões.

Eu, por outro lado, acredito que uma espiga de milho já nasce coberta de manteiga lá no milharal. Isso porque o conceito de milho envolve manteiga. Eu não consigo sequer visualizar milho sem manteiga. Milho sem manteiga não é milho, é outra coisa.

Assim como meu irmão e seus pimentões recheados da infância, acredito que se eu parar de ler este texto agora, for a um milharal e olhar uma espiga, verei que ela está brilhando de tanta manteiga que possui em seus grãos.

Sim, eu sei que meu irmão acreditava que os pimentões vinham recheados quando ele tinha seis anos e eu tenho 39. Também tenho plena consciência de que isso enfraquece meu argumento. Mas vivi muito bem até hoje achando que milho já vem com manteiga e vou continuar assim porque saber que existe um alimento que já nasce lambuzado de manteiga me faz acreditar mais no mundo.

– E aí? Manteiga ou não?

– Desculpe, estava pensando no meu irmão e num negócio que vou escrever no blog.

– Como?

– Nada. Com manteiga. Muita manteiga. Toda manteiga que você tiver aí, se não for incômodo. E muito sal.

Instantes depois, eu estava descendo a Lins de Vasconcelos com um pequeno prato de isopor contendo centenas de milhares de pequenas coisas douradas que vocês chamariam de grãos de milho, mas que, no meu universo, se chamam pepitas de sabor.

A cada dez metros, uma colherada – sim, eu ganhei uma colherzinha de plástico – de milho. Aliás, não de qualquer milho, mas de milho brilhando, com manteiga derretida. Na primeira colherada, eu gemi de prazer. Na segunda colherada, eu sorri. Na terceira, eu já sentia a manteiga se espalhando pelas minhas veias.

Na sexta ou sétima colherada, eu já estava determinando a não ir para casa. Iria com meu prato e minha colherzinha branca procurar um restaurante gourmet para ficar na calçada fazendo dancinhas, gestos obscenos e gritando “FUPA!” (que é o equivalente a “chupa!” quando você está com a boca cheia de milho com manteiga).

Eu disse que a cada dez metros era uma colherada, né? Isso, claro, arredondando. Mas, para efeitos matemáticos, vamos assim mesmo: uma colherada a cada dez metros. Como os quarteirões da Lins tem, sei lá, uns cem metros, estamos falando de dez colheradas por quarteirão.

No sexto quarteirão, então, eu deveria já ter comido uma sessenta colheradas. E ainda não havia visto o menor indício do final do prato aparecer. Tudo o que eu via era milho. Dei uma mexida no milho com a colher, levantei o prato e olhei para a parte de baixo dele, mas tudo parecia normal. Mas algo eu estava fazendo de errado, porque eu já havia comido o equivalente a umas oito espigas e, aparentemente, quanto mais eu comia, mais milho tinha no pratinho. E mais eu comia.

No sétimo quarteirão, eu já estava passando mal. Bonecos palitos feitos de manteiga haviam nascido dentro do meu corpo e corriam para todos os lados, fechando veias e entupindo artérias. Grãos de milho saíam pelos meus ouvidos. E nada de aparecer o fundo do prato. E nada de eu parar de comer.

No oitavo quarteirão, eu comecei a abordar as pessoas na rua, pedindo um pouco de ajuda. Todas se afastavam achando que eu ia pedir uma esmola, e eu gritava que “é justamente o contrário, eu preciso de ajuda para terminar este prato de milho! Por favor, volte aqui!”, mas ninguém me atendeu.

No nono quarteirão, minha pele estava laranja. Um cocar com espigas de milho apareceu na minha cabeça. Eu estava me transformando em Centeotl, o deus do milho asteca, e passaria a eternidade ali, vestido como um travesti pré-colombiano no meio da Lins de Vasconcelos, exigindo cultos e sacrifícios em meu nome (e secretamente esperando algum camponês ter o bom senso de me trazer uma Coca Zero como oferenda). Enquanto isso, eu continuei comendo.

No décimo quarteirão eu estava deitado na calçada, gemendo, ao lado de um prato cheio de milho. Com a voz embargada de milho e manteiga, implorava “me mate, por favor!” para as pessoas que passavam por mim.

No último quarteirão antes de casa, fui obrigado a abandonar o milho. Larguei aquela merda num lixinho, e, sabendo que havia me libertado de alguma edição agrícola, entrei no mercado e comprei uma Coca de dois litros. Comecei a beber na fila do caixa e, quando paguei, já havia bebido metade da garrafa.

Aquela noite, não jantei. Fui direto para a cama e sonhei com as crianças do Colheita Maldita. Eu tentava fugir delas correndo em um milharal infinito, mas elas eram muitas e conseguiram me alcançar. De repente surgiu o Menino-Pastor, jogando pás de manteiga dentro da minha boca e ordenando que me crucificassem no meio do milharal.

Você quer mais manteiga?

Acordei gritando e gritei ainda mais quando vi uma cabeça de espiga de milho morta na minha cama.

Fui até a cozinha, tomei mais 6,5 litros de Coca – ignorando a espiga bebê que engatinhava pelo teto – voltei para o quarto, guardei a espiga no guarda-roupa e dormi novamente. Desta vez, não tive mais sonhos.

Mas, na manhã seguinte, ao despertar de sonhos inquietantes, Rob Gordon deu por si na cama transformado numa gigantesca espiga.