20 de julho de 2014

Sobre Débora e Sobre a Copa

Eu parei de ver o jogo contra a Alemanha assim que saiu o terceiro gol. Fui para frente do PC e comecei a tuitar sobre a tragédia, enquanto ouvia a própria tragédia se desenrolar no PC. Quatro a zero. Cinco a zero. Quando acabou o jogo, eu pensei:

– O que diabos eu vou fazer com a Débora?

Sim, a Débora foi uma das primeiras coisas que pensei. Acho que é natural, já que eu passei a Copa inteiro ao lado dela, desde o primeiro jogo. Ninguém esperava por uma goleada de sete a um. Eu, ao menos, não esperava. E tenho certeza que a Débora também não.

Para quem não sabe do que estou falando, explico aqui: pouco antes da Copa, o leitor e amigo deste blog Cesar da Mota me propôs um desafio pelo Twitter: escrever um texto para cada jogo do Brasil na Copa, que se tornaria a edição 2014 da série Minha Vida em Copas, na qual eu escrevo minha biografia usando as Copas do Mundo para isso.

Confesso que, num primeiro momento, descartei a ideia. Acho que o ponto forte do Minha Vida em Copas é justamente o distanciamento (todos os textos foram escritos antes de 2010; o texto de 2010 foi escrito justamente horas antes do jogo contra a Croácia, agora em 2014). Aquilo do que me lembro anos depois da Copa – e, da mesma maneira, o que eu esqueço – dizem mais sobre o que eu sou do que um texto onde lembro de tudo, porque tudo aconteceu na véspera.

Mas, da mesma forma que descartei escrever sobre mim deste jeito, o formato me atraiu muito. Um texto para cada jogo, contando uma única história, e com continuidade? Do alto do meu teclado, parecia um desafio muito grande. Talvez maior que o 24 Horas, 24 Crônicas, quando eu passei um dia inteiro escrevendo crônicas com temas sugeridos na hora pelos leitores.

Claro que varar uma noite escrevendo um texto por hora cansa muito mais; mas ali eram temas soltos, eu podia escrever uma crônica sem me preocupar com a anterior ou com a seguinte. Mas ter que inventar a continuação de uma história a cada jogo – ou seja, eu só poderia pensar no capítulo seguinte depois do final do jogo, e a até o Brasil chegar à semifinal eu não fazia nem ideia de quantos capítulos a trama teria – era um desafio grande demais. Irresistível demais.

Nascia, assim, a saga da Débora (cujo primeiro capítulo está aqui), que mostra o protagonista – louco por futebol e apaixonado por Copas do Mundo – reencontrando uma antiga ex-namorada em um bar, no primeiro jogo do Brasil. Claro que isso mexe com ele (mais até do que a Copa do Mundo) e, a partir daí, cada jogo vai explorando este reencontro de todas as formas possíveis – ou, ao menos, que eu achei possíveis. Mais ou menos como eu fiz no conto Adolescência, alguns meses atrás (aliás, as histórias de Mateus e Júlia e da Débora não têm nada a ver uma com a outra, mas, dentro do meu cérebro, elas pertencem ao mesmo universo).

E, no terceiro texto, eu já havia me convencido que não estava mais escrevendo um enorme conto, mas sim um romance. Escrevendo um livro praticamente em tempo real – todos os textos eram postados antes do jogo seguinte – com os capítulos sendo postados em intervalos de dias. Aliás, eu perceber que era um livro foi a melhor coisa que aconteceu à trama. Eu queria desenvolver bem os personagens – falando de amor aqui, de futebol ali, de um gol ali e de um grande amor lá – mas os textos começaram a ficar muito grandes – mesmo para o meu padrão. Mas, no momento que eu percebi que era um livro, desapaguei de me preocupar com tamanho e apenas escrevi, me lembrando de algo que eu aprendi depois de anos e anos escrevendo: todo texto encontra seu público.

Foi o que aconteceu. As pessoas começaram a comprar a ideia. Os personagens caíram no gosto dos leitores, e eu comecei a receber não apenas comentários, mas também mensagens em todas as redes sociais me cobrando pelo final da trama, pelo destino dos personagens, por um desfecho, uma conclusão.

Como de costume, eu respondi a todos – se você é leitor meu e veio falar comigo sobre um texto e eu lhe deixei sem resposta, acredite: eu não vi sua mensagem. Juro.  Assim, agradecia os elogios, mas mentia quando dizia que “calma, o final vai sair”. Seria muito mais sincero eu ter dito que:

- Eu também não faço a mínima ideia de como essa história vai acabar.

Isso seria 99% verdade. Afinal, eu precisava dos jogos para saber o que iria acontecer. De repente, os personagens estavam vivos, ali no bar da esquina da minha casa – ou da casa dos leitores – e eu precisava assistir ao mesmo jogo que eles para saber o que aconteceu com eles e voltar para o PC. Eu não mandava mais neles, apenas escrevia sobre suas vidas. Quem estava dando as ordens eram os jogos da seleção.

(O 1% que seria mentira é porque eu imaginava o desfecho da trama desde o primeiro jogo, porque uma cena do último capítulo estava na minha cabeça desde que comecei a trama, e sabia que tudo terminaria ali – e não digo qual esta cena aqui porque talvez você ainda não tenha lido a história da Débora e não quero estragar a surpresa).

Mas, aparentemente, deu certo – cá entre nós, diferente da nossa Copa. Quem já estava acostumado com meus textos gostou muito. Alguns falaram que é a melhor coisa que escrevi (coisa que sempre duvido, mas que abri uma exceção – muito pessoal – desta vez, a respeito de um dos textos). Além disso, a saga ainda está sendo descoberta por novos leitores, que não conheciam meu trabalho – ou, se conheciam, não achavam que ele era digno de nota nas redes sociais.

Não sei se foram meus melhores textos. Mas foi, sem dúvida, um dos meus projetos mais ambiciosos. Não apenas em termos de tamanho de texto, mas em brincar com a própria mídia, da mesma que fiz com o 24 Horas, 24 Crônicas, quebrando um pouco a relação entre quem escreve e quem lê, algo que só é possível na internet mas que muita gente que escreve, infelizmente, deixa de lado.

Agora é esperar mais um tempo para desapegar destes personagens e pensar em outra história a ser contada – sugestões são bem vindas, apesar de eu ter umas quatro ou cinco ideias aqui – e voltar à vida normal. Mas, enquanto isso, agradeço mais uma vez todos os elogios, todos os comentários falando sobre as lágrimas que derramaram e as risadas que deixaram escapar com a Débora.

Vocês não fazem ideia do valor que isso tem para quem escreve.


Em tempo, a Copa rendeu dois outros textos meus publicados fora dos blogs. Falei sobre meu jogo inesquecível em Copas do Mundo para o Visitantes, e contei como foi a primeira goleada da história, ainda no Paraíso, para o Papo de Homem, em mais uma aventura do Adão.

30 de junho de 2014

O Gatinho do Vizinho e Outras Histórias de São Francisco

Algumas semanas atrás, eu falei aqui sobre o Gato doTelhado. Antes de prosseguir com o texto, creio que cabe uma atualização aqui.

Eu estou perdendo as esperanças de interagir diretamente com ele. Aparentemente, ele é muito arisco e mal consigo chegar perto dele. Eu já consegui fazer com que ele descesse do telhado colocando comida na garagem, mas ele só desce quando não estou por perto – e, se eu apareço, ele foge.

Nossas maiores interações continuam sendo com ele no telhado e eu me equilibrando em cima do muro. Já faz alguns dias que ele percebeu que sempre que aquele gordinho careca sobre no muro, vai ter comida e se aproxima. Até se aproxima, mas sem esconder a desconfiança. Chega perto de mim, come e fica me olhando – quando eu fico sobre o muro, meu rosto fica exatamente na altura do gato – pronto para fugir, ao menor movimento que eu fizer.

Nas poucas vezes que tentei mexer nele, ele fez aquele barulho que gatos fazem quando estão imitando o Alien, ameaçando cuspir ácido na sua cara e que, caso fosse traduzido para português, significaria algo como “você está prestes a perder seu olho”. Então, fico na minha, observando ele comer e vendo se ele ganha confiança. Faço isso quase todos os dias.

Mas o problema é que agora minha atenção está dividida. Temos três gatos aqui em casa, e eu estou cuidado de cinco: os nossos três, o Gato do Telhado e o Gato do Vizinho.

Explico: meu vizinho Bruxa do Kurosawa também tem três gatos. Na verdade, quando mudamos para cá ele tinha um, que – pelo que ficamos sabendo – desapareceu. Agora, ele tem três: dois filhotes pretos que devem ter uns seis, sete meses; e um filhotinho de siamês que é tão pequeno que às vezes eu me pergunto se ele realmente já nasceu.

Antes de continuarmos com os gatos, é preciso falar dos meus vizinhos. Como eu disse no post sobre eles, a casa é uma zona e até hoje não descobri direito quem mora ali e quem não mora. Mas quem eu sei que mora – e que são os donos do gato – são o Bruxa do Kurosawa e sua mãe, a japonesa que é mais velha que o Japão. Então, vamos listar aqui as pessoas que cuidam dos gatos:

1. A mãe do meu vizinho: quase cem anos de idade, totalmente surda e que não fala português.

2. Meu vizinho: uns sessenta anos de idade, surdo (mas não totalmente), fala umas vinte ou trinta palavras em português e – dizem as más línguas – passa o dia entornando todas dentro de casa, e está sempre meio calibrado.

Ou seja: se você colocar uma tartaruga para os dois tomarem conta, as chances do bicho escapar são de uns 80%. Se você trocar a tartaruga por um filhote de gato, este número sobe para 750% (e ainda arredondei para baixo em nome da política da boa vizinhança).

Vira e mexe o gatinho está sozinho na entrada da casa, chorando que quer entrar, e ninguém ouve nada. Vira e mexe o gatinho está sozinho na entrada da casa, pensando se vale a pena ir para a rua, e ninguém vê nada. Vira e mexe o gatinho está sozinho na entrada da casa, esperando alguém mandar que ele entre, e ninguém fala nada.

Meu primeiro contato com o gatinho foi no dia da estreia do Brasil na Copa. Durante o intervalo do jogo, fui fumar e vi que o gato já estava na calçada, indo embora – detalhe que o outro lado da rua, perto da esquina, serve como covil de um mendigo que possui 19.035 cães. Uma fração de segundos depois, eu estava correndo pela rua tentando agarrar o gato que se refugiou na minha garagem, me obrigando a entrar embaixo do carro, resgatá-lo, tocar a campainha, explicar para uma velha que não fala português e não ouve idioma algum o que havia acontecido e que ele estava na rua e que eu não estou tentando roubar seu gato e eu moro aqui ao lado não é possível que a senhora não se lembre.

De lá para cá, o gato já escapou umas cinquenta vezes. E eu tenho que dar um jeito, porque ninguém vê nada. Estou dentro de casa, ouço aquele miado fininho e saio correndo para o quintal para conferir se o gato está preso para fora (e ele sempre está). Aí preciso dar algum jeito: chamo meu vizinho pela janela, vou até o muro do quintal do fundo, toco a campainha, chamo os bombeiros. Tudo para manter aqueles seis centímetros de gato a salvo.

Agora de manhã foi assim. O gato estava preso do lado de fora da casa, miando, querendo entrar. Fui até o quintal – de onde eu fumo, eu vejo o vizinho pela janela – e comecei a tentar chamar sua atenção. Um olho na janela e outro olho no gato. Foram alguns minutos até ele olhar para mim e eu apontar para a porta.

– Seu gatinho está preso do lado de fora!

– Hã?

– Seu gato está preso do lado de fora!

– Ga-tô?

– Isso! Ga-tô!

– Ga-tô?

– Isso! Ga-tô! Fo-rá! Por-tá! Ga-tô!

– Ah!

Aí ele sai, se senta no chão, pega o gatinho e o abraça, falando aquilo que ele sempre fala para o gato.

– Kuru kuru. Miau. Kuru.

Ele sempre fala isso, seja quando está brincando com o gato, seja quando está dando bronca. Dois kuru, um miau, um kuru – se alguém souber o que é kuru e me falar aqui, agradeço. Aí ele entra com o gatinho e eu sei que tenho algumas horas de sossego. Volto para dentro de casa e, ao chegar perto da porta, vejo o Gato do Telhado me olhando lá de cima.

– Já vai. Eu acabei de acordar. Daqui a pouco eu subo aí.

– Miau.

– Já vai, porra. Kuru kuru!


E entro em casa e vou pegar ração para o Gato do Telhado. E, enquanto eu estiver tetando fazer com que ele se aproxime, o gatinho do vizinho vai escapar, eu vou entrar em pânico, vou pular do muro - arrebentando ainda mais meu joelho, que ameaça explodir toda vez que faço isso - e ficar pendurado no muro, gritando na direção da janela do vizinho que o "kuru kuru está escapando! o kuru kuru miau kuru tá indo pra rua!", enquanto o Gato do Telhado foge com a movimentação achando que sou um imbecil e o vizinho entorna seu terceiro saquê, achando que sou um imbecil por ficar trepado no muro fazendo barulho de gato!

Até o final da semana, vou atualizar meu currículo: jornalista, publicitário, redator, roteirista e estagiário no escritório de São Francisco de Assis.

26 de junho de 2014

Dez Histórias de Saudade Que Você Não Vai Acreditar Como Terminam

E a número seis vai mudar a sua vida!!!!  



Porque a saudade mora - também - no fundo de um copo.


Quem nunca duvidou da própria saudade?


Pessoas com saudade tem uma expressão própria.



Saudade não se escreve, saudade se sente.



Saudade: o único sentimento do mundo que faz voltar no tempo.


Saudade vicia.


E saudade faz o tempo parar.


A diferença entre saudade e amor.


Apenas saudade.


Sorriso de saudade


Este é um post inspirado em todos os posts com “10 algumas coisas e o número quatro vai mudar sua vida” e com manchetes sensacionalistas que pipocam todos os dias pela internet - e o fato da "número seis" mudar a sua vida não é mérito do texto seis, e sim apenas uma desculpa para ter um "vai mudar a sua vida", que é essencial num post assim.

Na verdade, este post é quase um protesto, mas não contra o formato em si, e sim para mostrar que é possível CRIAR conteúdo em um post de qualquer formato, sobre qualquer tema – basta querer. Basta não ter preguiça.


Em tempo: as dez histórias são totalmente independentes e podem ser lidas em qualquer ordem. Mas caso vocês queiram textos um pouco mais trabalhados (eu sempre prefiro), as cores não são acidentais – os posts das mesmas cores contam a mesma história, com os mesmos personagens.

18 de junho de 2014

O Evangelho Segundo Rob Gordon



Ontem, eu e a Esposa fomos até a Cobasi e, entre outras coisas, compramos oito peixes novos para o aquário. Juntando com os peixes antigos, devemos ter uns quinze agora. E, como fazemos todos os dias que temos peixes novos, vira e mexe olhamos o aquário para ver se está tudo em ordem.

Foi assim esta manhã. Ela estava olhando o aquário e eu me aproximei com meu balde de café. Os peixes novos estavam ali, nadando de um lado para o outro. Os peixes antigos estavam mais para o fundo – provavelmente tentando entender quem é esse pessoal novo e o que eles querem.

E um peixe vermelho veio nadando, sozinho, em nossa direção. Meio torto. Nadou até a frente do aquário, olhou para nós... E morreu.

Simples assim. Olhou e caiu morto no aquário. Deixou de existir. Tudo o que aquele peixe foi na vida, tudo o que ele poderia ser um dia, todos esses momentos... Se perderam no tempo... Como lágrimas... Num aquário (blade runner mode: on).

Confesso que eu fiquei meio assustado. E um pouco deprimido a respeito da minha aparência. Afinal, o peixe olhou para mim e morreu. Digamos que na escala da beleza humana, o zero seja equivalente à “aberração” e o dez seja “deus grego”. Com isso, eu estou no grupo “criaturas olham para você e morrem”, que deve estar ali perto de -12.

Mas se isso dizia muito sobre minha aparência, também era uma excelente oportunidade que se abria. Afinal, o peixe simplesmente morreu... E todos os outros peixes viram isso acontecer. Imediatamente, eu abri o aquário e os peixes se aproximaram, esperando receber comida. Desta vez, porém, eles foram presenteados com uma mensagem divina. Coloquei as mãos em concha na boca para fazer eco e arrisquei:

– Eu sou o senhor seu Deus. Eu tirei vocês da terra da Coba... Não, da água da Cobasi e trouxe vocês para as águas prometidas.

Os peixes continuaram nadando ali, sem entender direito. Eu entendo. Não deve ser fácil você ser contatado por uma divindade, ainda mais antes do almoço. Pensei em Deus e Abraão, e imaginei que Deus deve ter tido um pouco de trabalho ao convencer Abraão de que era Deus mesmo, e não um louco qualquer que andava por ali pedindo para as pessoas sacrificarem seus próprios filhos. Além disso, como Deus, eu criei o mundo em seis dias, poderia gastar mais alguns minutos falando no aquário.

Aliás, era hora de me apresentar. Todo deus que se preza tem um nome imponente.

– Meu nome é Aquaman. Eu sou seu deus.

Pronto. Agora eu tinha a atenção deles – e o fato de eu estar balançando o pote de comida não tinha nada a ver com isso. Aproveitei a deixa e continuei:

– Vocês deverão obedecer Meus ensinamentos e espalhar Minha palavra para os outros peixes. Façam isso e terão comida. Caso contrário, irão morrer como aquele vermelho ali. Vocês viram que o vermelho morreu, né?

Os peixes se aproximaram. Talvez seja porque ouviram a palavra comida, mas eu prefiro pensar que era medo de eu usar meus poderes. Aproveitei e fui mais enfático.

– E se vocês me desagradarem, eu vou pegar um dos gatos aqui em casa e colocar a cara dele aqui na frente de vocês.

A esta altura, a Esposa já estava longe, na cozinha. Eu, no lugar dela teria feito o mesmo. Não deve ser fácil você passar a adolescência sonhando com um príncipe encantado e, um dia, descobrir que conseguiu um marido pelo sistema de cotas para deficientes mentais.

Mas agora eu era um deus e não podia mais me preocupar com questões mundanas. Agora que eu tinha a atenção dos peixes, era hora de colocar algumas leis.

– Meu primeiro mandamento é que vocês não irão pronunciar Meu nome em vão. Meu nome é sagrado. O segundo mandamento é que sempre que Eu passar aqui perto, todos vocês vão até a frente do aquário, porque Eu gosto de ver vocês nadando, e não escondidos atrás dessas plantas de merda.

Os peixes continuaram me olhando. Estava dando certo.

– Mais uma coisa: vocês terão que manter este vidro limpo. Eu concedi a vocês o dom da vida, então vocês devem ficar comendo essas algas aqui. Porque Eu sou Aquaman e tenho mais o que fazer do que ficar passando a esponja aqui no vidro. A alga é o mal. Um aquário com alga é um aquário infiel. E peixes morrem num aquário infiel.

Os peixes ficaram agitados com isso. Mas era esperado. Afinal, não era um mandamento fácil de cumprir e iria desafiar a fé deles. Mas não voltei atrás. Tenho certeza que quando as pessoas viram que no meio dos andamentos existia um que era “não irá cobiçar a mulher do próximo”, a popularidade de Deus deve ter caído uns 10%, mas ele enfrentou a crise sem mudar nada ali nas tábuas.

Mas um dos peixes... Um branquinho, nadou até a superfície e olhou para mim com um ar desafiador. Fiquei com vontade de dar um peteleco nele, mas me segurei. Uma entidade não faz essas coisas. Mas era hora de mostrar o poder da minha voz de comando.

– É evidente que Eu não vou causar um dilúvio no aquário, seu imbecil. Eu não sou idiota. Vai lá para o fundo do aquário antes que Eu mate você com os poderes da Minha mente como matei o outro ali. Não teste Meus poderes ou Eu vou colocar você como infiel e iniciar uma cruzada aqui dentro do aquário. Vai ser você contra todos os outros peixes.

Merda de peixe agnóstico. Aproveitei que os outros estavam atentos ali e dei meu comando final do dia.

– Enquanto Eu não penso em outros mandamentos, vocês podem começar a redigir as escrituras sagradas do aquário. Você aí, amarelinho. Você é o profeta. Começa a escrever aí como Eu criei todo o aquário.

O amarelo olhou para mim com cara de quem não estava entendendo direito.

– É fácil. Começa assim: 'No princípio, não havia nada'. E aí conta como foi que Eu criei tudo. A água, as plantas, aquele navio pirata ali no canto, o canhãozinho... Criei o mundo e coloquei os peixes para habitarem este local. E aí você vai desenvolvendo essa ideia. O lance é ser grandioso e falar bem de mim, sempre. Aquaman é com ‘n’ no final, não esquece. Esta é a tarefa de hoje. Aguardem novas instruções divinas.

E fui embora, deixando os peixes ali com o livre arbítrio. Se der certo e os peixes começarem a escrever as escrituras de forma legal, vou começar a passar uns freelas para eles e ficar jogando PlayStation em casa, sem fazer nada e deixando os outros trabalharem por mim.

Afinal, não dizem por aí que Deus é brasileiro?

12 de junho de 2014

Uma Vida em Copas: África do Sul - 2010






Eu lembro muito pouco da Copa de 2010. Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, em todos os aspectos da minha vida, fez com que eu carregasse comigo poucas imagens desta Copa. Além disso, vejo esta falta de memória como um prenúncio da depressão que eu sofreria no ano seguinte – minha falta de memória sobre 2011 é intensa demais, lembro muito pouco daquele ano e tenho lacunas enormes.

Não acho que na Copa eu já estava com depressão – apesar de que depressão é uma daquelas doenças que você nunca sabe direito quando ela começa ou quando ela termina – mas eu certamente já estava caminhando ladeira abaixo. Assim, tenho memórias pontuais da Copa. Algumas boas, outras ruins. Mas a primeira delas é que eu, ao contrário da maioria dos brasileiros, acreditava no time do Dunga.

Talvez seja pelo fato dele ter interrompido a bagunça de 2006, quando o time do Brasil entrou nos campos alemães como celebridades desfilando num evento. Talvez seja pelo fato dele ter dado início a um processo de renovação que deveria ter começado na Copa anterior. Ou – o mais provável – pelo fato do Dunga estar associado demais à vitória de 94. Sim, Baggio perdeu o pênalti, Romário jogou muito... Mas eu tenho comigo a certeza de que aquele time não seria o mesmo sem Dunga carregando o piano no meio de campo.

E, claro, eu queria Copa. Estava ansioso por causa dela, mas atolado de trabalho. Dentro das lembranças pontuais que possuo, me lembro de sair correndo da redação – que ficava a seis, oito quarteirões de onde eu morava – e ir correndo para casa, ouvindo a euforia nas ruas.  Pessoas gritavam, buzinas disparavam, rojões explodiam, enquanto eu andava pelas ruas de Pinheiros minutos antes do jogo.

Talvez seja neste caminho entre o trabalho e a minha casa que a Copa do mundo me pegou de vez. Eu saí da redação como um adulto, jornalista, chefe de redação... E, ao entrar no meu apartamento, já havia voltado a ser um menino assistindo sua primeira Copa e querendo ver seu time campeão.

Lúcio, Júlio Cesar, Juan, Maicon, Gilberto Silva e Felipe Melo.
Michel Bastos, Robinho, Elano, Kaká, Luís Fabiano.
Eu acreditava. Eu era um dos únicos, mas acreditava.
 
Vi o jogo sem ninguém ao meu lado, somente meu cachorro. A estreia do Brasil em 2010 foi o primeiro jogo do Brasil numa Copa do Mundo que eu vi totalmente sozinho – algo que eu julgaria impossível de acontecer quando criança, caso tivesse pensado sobre o assunto. E, se o jogo contra a Coreia do Norte foi um magro 2 x 1, para mim ele foi vencido antes da bola rolar, quando eu tive uma crise de choro na frente da televisão, durante o hino.

Se nos meses seguintes eu teria novas crises de choro ao ficar sozinho em casa por não entender o que estava acontecendo com a minha vida (e também por me culpar por coisas das quais eu não era culpado), meu choro durante o hino foi diferente. Foi o modo que o futebol encontrou para me dizer que tinha uma Copa acontecendo e que, durante 90 minutos, eu podia deixar tudo de lado. Durante 90 minutos, eu podia ser menino de novo, ali, sozinho em casa.

A Copa de 2010, para mim, começou naquele hino.

Dali em diante, as memórias são muito vagas – mais ou menos como a Copa de 1998, que meu cérebro guardou numa sala secreta onde ninguém tem acesso, deixando expostos apenas os dois gols que o Zidane marcou na final, que são exibidos constantemente num telão dentro do meu cérebro.

É assim, por exemplo, com os 3 x 1 em cima da Costa do Marfim. Mas ali tem o gol do Luís Fabiano que não dá para esquecer. Bola num braço, chapéu, outro chapéu, bola no outro braço, gol. E eu gritava na frente da televisão, sabendo que havia assistido a um dos gols mais bonitos da história das Copas. Foi mão? Foi, mas a gritaria não deixou ninguém se importar com isso. A falta de memórias permanece com o 0 x 0 contra Portugal, que prometia ser o grande jogo da primeira fase e acabou sendo uma partida morna, sem graça, sem brilho algum.

Foi mão? Foi.
Mas eu estava ocupado demais gritando na frente da televisão para me importar.

Enquanto escrevo, estou tentando lembrar onde eu vi Brasil X Chile, pelas oitavas de final. Pesquisei aqui e vi que era uma segunda-feira, então imagino que eu esteja assistindo na redação – mas pode ser a memória novamente me pregando peças, já que eu assisti ao primeiro jogo das oitavas de final de 2006, contra Gana, no trabalho.

É um jogo do qual não tenho recordações – mas imagino que, agarrado às minhas superstições, vi o jogo um bom presságio, já que o Chile havia cruzado nosso caminho também em 1962. Dito e feito: 3 x 0 e o país passou a acreditar. De repente, o time de Dunga começou a repetir tudo o que havia acontecido antes da Copa. Jogando feio (mas de forma eficiente), ele começou a deixar todos os adversários para trás.

E entrou em campo nas quartas de final para enfrentar a Holanda, o que só aumentava o bom presságio. Nas Copas do Mundo, Brasil e Holanda tem o hábito de orbitarem um ao outro, com seus caminhos se cruzando com frequência. Se em 74 perdemos para eles, em 94 o jogo contra a Holanda marcou o momento em que o Brasil decolou; quatro anos depois, despachamos novamente a Holanda, desta vez nos pênaltis, e fomos para a final.

E foi com esse espírito que o Brasil entrou em campo contra a Holanda: voando em campo. O time estava afinado. Robinho decidiu jogar bola e até mesmo Felipe Melo – que minutos depois se tornaria vilão da Copa – fez um lançamento que deixaria Gerson orgulhoso. O primeiro tempo terminou 1 x 0, mas foi injusto: com direito a gol anulado e toque de bola primoroso, o Brasil poderia ter goleado.

Eu? Eu não vi nada disso.

Eu estava no meio de uma maternidade na Avenida Paulista, esperando meu sobrinho nascer. Vi algumas cenas do jogo em televisões no saguão ou na mesa das enfermeiras, mas passei a maior parte do tempo olhando não a televisão, mas sim uma janela por onde eu via aquele bebê que tem os olhos do meu irmão – e, consequentemente, os meus olhos e os da minha mãe.

Algumas das melhores lembranças que eu tenho ao lado da minha família têm a Copa do Mundo como pano de fundo. Sou eu de joelhos na sala dos meus pais, de mãos dadas com a minha mãe, vendo Baggio perdendo o pênalti. Sou eu correndo pela rua em busca do meu pai – que não viu os pênaltis com medo de não aguentar de nervosismo – para abraçá-lo e gritar que o “agora eu também sou campeão” que eu queria gritar desde 82. Sou eu chorando compulsivamente, na mesma sala, depois do segundo gol contra a Alemanha, quando eu fiz as pazes com o futebol. Tenho memórias ruins também. Memórias de um Brasil X Itália morando acima do Equador, memórias de um Brasil X Argentina na casa de campo.

O álbum de família que eu carrego na memória tem muitas fotos em Copas do Mundo. Nada mais justo que a família crescesse justamente numa Copa do Mundo. Justamente com o Brasil em campo.

Eu não vi quase nada do jogo contra a Holanda. Mas não preciso assistir para saber que algo aconteceu dentro daquele vestiário no intervalo. De repente, o time voltou em pânico. E as falhas surgiram onde ninguém esperava. O melhor goleiro do mundo falhou. A zaga falhou. Felipe Melo expulso não mudou o jogo, foi apenas o retrato de um time que se desesperou em campo.

O Brasil entra em pane.
Eu, dentro de uma maternidade, não vi a Copa acabar para nós.

E eu vendo ali tudo picado, apenas imagens esparsas. Não sabia quanto tempo faltava, como o time estava jogando, o que a Holanda estava fazendo, o que o Brasil estava deixando de fazer.

E a Copa acabava para nós. E eu não vi.

E, pela primeira vez, eu não senti nada quando a Copa acabou para nós. Saindo do hospital e andando pela Avenida Paulista rumo ao trabalho, vendo um mar de camisas amarelas e azuis, todas com cinco estrelas e sem sorrisos. E eu não conseguia sentir nada.

Lembro que fiz piadas sobre o menino ser pé-frio, mas lembro de agradecer silenciosamente o fato dele acabar de nascer e nunca se lembrar desta derrota. Porque agora a criança das Copas era ele, e uma derrota quando você é criança dói demais. Meu pai viu 50. Eu vi 82. Meu sobrinho não viu 2010, mas certamente terá seu quinhão de derrotas. E é isso que fará ele gritar com tesão quando for a hora de ver uma vitória.

O resto da Copa passou deste jeito: sem eu sentir nada. E, de repente, a Espanha que todos tinham a certeza que daria show digno de sul-americano ficou naquele futebol europeu mesmo, e foi chegando aos trancos e barrancos. De repente, tínhamos uma final entre dois países que nunca haviam ganhado uma Copa, o que na minha cabeça era o cúmulo do anticlímax. A Holanda, com mais experiência em amarelar, amarelou. O mundo era vermelho.

Todos esperavam um show. Não veio.
Mas, de repente, o mundo era espanhol.

Mas eu já não estava prestando muita atenção na Copa. Assisti a todos os jogos, mas nenhum deles me marcou como deveria acontecer com uma Copa de verdade, o que hoje vejo como um presságio do inferno pessoal para onde eu desceria nos meses seguintes.

Escrevo este texto cerca de cinco horas antes do Brasil entrar em campo. Hoje começa uma nova Copa, e estou começando a ficar ansioso. Mas eu tenho convicção de que esta Copa não é mais minha. Dias atrás, encontrei meu sobrinho. Com ele no colo, perguntei:

- Vai ter Copa!

- Vai, tio!

E sorriu aquele riso de criança em Copa – mesmo ainda não tendo idade para saber o que é uma Copa.

Naquele momento, eu entendi que todas as Copas que aconteceram desde 1982 não foram mais do meu pai, ele deu cada uma delas para mim. E, como meu irmão não gosta de futebol, eu sei que a partir de hoje a Copa do Mundo não é mais minha, é do neto do meu pai. O avô viu cinco títulos. Eu vi dois. O neto não viu nenhum. Ainda.

Meu sobrinho ainda não sabe a importância de assistir a uma Copa ao lado do avô – especialmente do avô que ele tem – mas não tem problema. O tio dele está aqui, escrevendo tudo, para sempre que ele quiser ver. Mas acho que não vai ser preciso. Você vai lembrar, Moleque.

Porque a nossa família é assim. Sua primeira Copa começa hoje. E, assim como seu avô antes de mim e eu antes de você, você vai se lembrar. Talvez não de tudo, mas do que vale a pena ser lembrado.

Ouça seu tio: você vai se lembrar.