Os Garotos Perdidos

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Rob Gordon
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Gêneros: Culpa do meu Eu-Lírico, Pão de Acúcar
(Leia a Parte I aqui)
Minha linha de raciocínio não foi exposta de uma forma muito bem trabalhada, admito. Mas a minha intenção era apenas iniciar uma discussão sobre o assunto – eu não tinha a menor intenção de encerrar o assunto com aquela simples frase.
Contudo, o negrão não parecia ser um homem de muitas palavras. Assim, ao invés de fazer uma contraproposta ou pedir para que eu desenvolvesse o assunto, resolveu exprimir sua opinião da forma mais enfática possível: fechando a mão e me dando um murro na boca.
Foi quando o mundo se tornou escuro e repleto de pontos brilhantes. Fly me to the Moon, and let me play among the stars (Frank Sinatra mode: on).
Instintivamente – mas ainda tonto – passei a mão pelos lábios e senti o sangue. Seguindo algum código de ética profissional, o negrão esperou alguns segundos para que eu me recuperasse. Na verdade, ele esperava que o seu argumento – que havia sido forte – fizesse com que eu me conscientizasse de que ele tinha razão.
O problema é que eu tenho um grande defeito. Existem alguns momentos da minha vida nos quais eu não posso ser desafiado, pois eu vou fazer exatamente o contrário do que as pessoas acreditam. Está no meu DNA.
Assim, eu limpei o sangue da boca e o olhei de forma desafiadora.
- Então, a minha carteira você não vai levar.
Falei isso de forma firme e decidida. Afinal, não era mais uma questão de mostrar minha opinião, mas sim de provar meu ponto de vista – mesmo que a minha vista não estivesse funcionando muito bem naquela hora.
O assaltante, por outro lado, não parecia mais interessado no meu ponto, mas sim em vários pontos – especialmente aqueles que eu teria que levar horas depois, num hospital.
Dito e feito.
Aliás, dito não. Nada foi dito, apenas feito.
Outro murro em cheio no meio da boca. Mais uma vez, eu estava no espaço sideral, cercado por pontos brilhantes que dançavam à minha frente. My God, it’s full of stars! (2001 – Uma Odisseia no Espaço mode: on). Mais um soco daqueles e eu perguntaria ao negrão se “vem cá, você é negro e grande, e eu estou vendo estrelas. Posso chamar você de monólito? Se eu jogar minha carteira para o alto, ela vai girar em câmera lenta e virar uma nave espacial?”
Mas este segundo soco fez com minhas pernas fraquejarem.
- Dá a carteira ou vai morrer!
Engraçado. Acho que todo mundo tem um “cara que quer te matar” na vida. São aqueles obstáculos aparentemente impossíveis de serem ultrapassados, e que irão fabricar o seu caráter ao longo dos anos.
Para algumas pessoas, o “cara que quer te matar” é o alcoolismo, a solidão ou o desemprego. Para outras, é a fome ou algum vício. Às vezes, pode até ser uma falha de caráter que precisa ser corrigida. Até mesmo alguns países possuem um “cara que quer te matar”, seja na forma do analfabetismo, da pobreza ou de uma economia pobre que não decola nunca.
Todos nós temos um “cara que quer te matar” nas nossas vidas.
No meu caso, o “cara que quer te matar” era justamente isso: um cara que queria me matar.
Assim, eu fiz o que qualquer pessoa de valor teria feito. Limpei o sangue mais uma vez, e olhei bem no fundo dos olhos do negrão. Olhei com força e determinação. O encarei firmemente, como um animal que pretende defender seu território. Assim, eu mostraria a ele que estava disposto a enfrentá-lo de igual para a igual, sem me render à suas ameaças vazias e, com isso, seus dias de tirania acabariam!
E, assim que recuperei a força nas pernas, eu corri.
Adoraria dizer aqui que enquanto eu corria, sentia o vento da liberdade batendo no meu rosto. Talvez até uma chuva, para a cena ficar mais poética ainda. Que tal uma música grandiosa, feito a 9ª de Beethoven, mostrando que finalmente eu estava livre da opressão dos poderosos e poderia seguir minha vida, em paz, com a minha carteira?
Mas nada disso aconteceu. E não foi culpa da chuva, do vendo ou do Beethoven. Foi culpa do negrão. Mal dei dois passos e o negrão esticou a perna e me passou uma rasteira, estragando todo o clímax da minha fuga.
Na verdade, pensando agora, a perna dele deveria ter mais de 2 metros de extensão. Ou seja, ele tinha a força do Coisa e os poderes elásticos do Dr. Fantástico. Não havia mais dúvidas: eu estava enfrentando o Super Skrull (Quarteto Fantástico mode: on).
Eu tinha duas alternativas: ou iria de boca no chão (acho que minha boca não deveria ter saído da cama aquele dia) ou tentava evitar a queda. E tudo o que eu não podia fazer era cair. Caso isso acontecesse, as coisas iriam de mal a pior: eu me transformaria em um pequeno e pacífico vilarejo de pescadores, nos arredores de Tóquio, pronto para ser pisoteado e esmagado pelo Godzilla, que parecia estar disposto a destruir o planeta até conseguir minha carteira.
Assim, fiz o que pude. Desequilibrado, virei meu corpo e me agarrei na primeira coisa que encontrei para não cair.
Infelizmente, esta coisa era o ladrão.
Me agarrei na camiseta dele e fiquei pendurado. Se alguém olhasse de longe, poderia jurar que eu estava escalando o corpo do cara (K2 – A Montanha da Morte mode: on). Na verdade, eu precisava de somente alguns segundos para recuperar o equilíbrio.
Mas cometi um erro fatal: eu me segurei na camiseta dele, que provavelmente deveria ser nova, roubada no máximo um dia antes.
Assim, eu aprendi a maior lição daquele dia e que transmito para vocês: ao ser assaltado, nunca amasse a camiseta do criminoso.
Não lembro quantos socos foram: talvez dois na boca do estômago e mais dois na cara, talvez um na boca do estômago e dois na cara, talvez dois na boca do estômago e seiscentos e treze na cara.
A única coisa que me lembro é estar caído na calçada, tossindo e cuspindo sangue e entregando minha carteira para ele. Não, me lembro também de ouvir o carro saindo em disparada.
Fiquei um tempo esparramado ali na calçada. Tossindo, sangrando e gemendo. Mas logo me levantei e comecei a andar – afinal, como eu sou eu, era bem capaz da polícia passar ali e, ao me ver deitado na calçada e constatar que eu não tinha documentos, me prenderem por vadiagem.
Não me lembro direito de como andei até em casa, mas me recordo perfeitamente da expressão da minha mãe ao olhar para mim. Como eu disse, todos nós temos um “cara que quer te matar” na vida e, naquele momento, o “cara que quer te matar” da minha mãe era aquele monstro deformado, com o rosto inchado e sangrando, que havia descido das montanhas e invadido sua casa.
- Eu não sou um monstro! Eu sou um ser humano, gritei antes que ela jogasse uma panela em mim e fugisse para o quintal.
Depois disso, lembro apenas de cair em um sofá e ficar gemendo. Passei uns dois dias assim. Meu rosto demorou quase uma semana para desinchar totalmente.
Agora, o que eu realmente não faço ideia é de como diabos eu ainda tenho o meu RG original comigo.
Será que o negrão, na verdade, era uma fada que veio devolver meu RG em uma madrugada? Acho difícil, mesmo porque se ele fosse uma fada, seria a Fada dos Dentes, como ele deixou bem claro a cada soco.
Tudo me leva a crer que meu documento não estava na carteira naquele dia, mas não faço ideia de como isso aconteceu. Ou seja, eu não apenas apanhei. Eu apanhei de graça.
Aposto que se um dia a polícia investigasse isso a fundo, descobriria que tudo foi um golpe do meu RG, que ordenou o crime. Provavelmente, por vingança, Afinal, eu estou com uma baita cara de bobo na foto.
E isso não deve ser fácil para um RG.
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Gêneros: A humanidade não deu certo, Antes do Champ, Ô Fase
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Gêneros: Agora Falando Sério, Publieditorial
Eu podia jurar que já havia contado esta história no blog antes. Mas, pelos comentários recebidos no post Ópera do Malandro, a pequena saga da primeira vez em que fui assaltado – aquela em que apanhei mais que um bife de pensão – permanecia inédita aqui.
Vamos remediar isso agora.
Eu devia ter por volta de quinze anos e era dia de eleição. Sim, ao contrário do que algumas pessoas podem pensar, quando eu tinha 15 anos o Brasil já vivia um processo democrático e – sim, acreditem – o sistema de capitanias hereditárias já pertencia ao passado.
Mas vou ser sincero: não consigo me recordar em qual eleição isso aconteceu. Minha memória insiste em dizer que foi aquela em que o Quércia se tornou governador, mas posso estar enganado.
Enfim, após o término da votação, eu e um amigo de escola que morava perto de casa resolvemos dar uma volta no Shopping Ibirapuera. Ficamos por lá algum tempo e, como tudo estava fechado, decidimos ir embora para casa, subindo uma rua paralela ao shopping.
E tudo aconteceu no primeiro quarteirão desta rua, em frente ao prédio da Unib (que, à época, se chamava apenas FIB – Faculdades Ibirapuera) e um dos principais locais de votação de Moema. Inclusive, é ali que eu voto. E toda a minha família. E o Raul Gil (juro) e o Zé Dirceu também (juro por Deus!).
Aliás, algo me ocorreu agora. Ser assaltado em frente a um local freqüentado pelo Zé Dirceu pode ser classificado como justiça poética; mas ser assaltado no dia em que o Quércia é eleito é quase uma profecia. Se Nostradamus estivesse do outro lado da rua, aposto que ele correria até mim, se ajoelharia aos meus pés e me chamaria de Mestre.
Mas voltemos à história. Horas antes, o local, claro, era um formigueiro humano. Mas, por volta das 19h00min, estava deserto. Apenas nós dois na rua.
Andávamos conversando, provavelmente reclamando que teríamos aula no dia seguinte, ou talvez conversando sobre música. Sinceramente, não me recordo. A única coisa da qual lembro é que, num determinado momento, meu amigo disparou e saiu correndo, me deixando sozinho na calçada.
Assim, do nada.
Eu não entendi absolutamente nada, mas também não tive muito tempo de pensar a respeito.
Ao olhar para trás em busca de uma explicação, vi um carro estacionando atrás de mim. Era um Fiat 147, daqueles cremes, que abundavam nas ruas de São Paulo à época.
Não tive muito tempo para reagir ou correr. Na verdade, eu ainda não estava entendendo nada, já que tudo foi muito rápido. Antes que eu percebesse, a porta do passageiro havia se aberto e um negrão estava saindo lá de dentro.
Pensando hoje, com calma, ainda fico em dúvida como eles fizeram para colocar um sujeito daquele tamanho dentro de um Fiat. Talvez tivessem construído o carro ao redor dele. O cara era tão grande que na verdade ele não apenas saiu do carro; ele saiu do carro e começou a se desdobrar.
Primeiro, o tórax; depois, um braço, seguido pelo outro; depois o tórax novamente; as pernas, mais um pouco do tórax e, por fim, a cabeça.
Não era apenas um negrão, era quase um monstro. O sujeito era tão grande que, se jogasse futebol, formaria sozinho uma zaga inteira – e isso contando os laterais e o volante. Aliás, se ele ficasse parado algumas horas ali na calçada, os mapas de Moema teriam que ser alterados para a inclusão de uma nova montanha na geografia local.
Infelizmente, ele não estava parado, mas sim andando na minha direção e falando alguma coisa.
E claro que ele não estava se apresentando ou pedindo informações
- Passa aí o relógio, o tênis e a carteira.
Então era isso. Aquele acidente geográfico que daria uma surra em metade dos personagens de Street Fighter – e sem usar os golpes especiais – ia me assaltar.
Na verdade, senti um pouco de consolo. Afinal, ao contrário de muitos dos meus amigos, eu nunca havia sido assaltado, mesmo morando a maior parte da minha vida em São Paulo.
E, na Moema dos anos 80, ser assaltado era praticamente um baile de debutantes: marcava o seu ingresso na sociedade, transformava você em adulto e garantia seu respeito junto aos amigos. Sempre que eu afirmava nunca ter sido assaltado, algumas pessoas até me olhavam torto e cochichavam um “fresco” com os outros.
Bem, já que eu iria ser assaltado, estava decidido a fazer a coisa direito.
E uma dúvida surgiu na minha mente: por que ele precisaria da minha carteira?
Tudo o que Montanha precisava era do meu dinheiro, e não do meu RG recém-tirado.
Claro que ele poderia usar a minha identidade para começar a se apresentar com um nome falso, mas isso não funcionaria no caso dele. Afinal, ele era tão grande que seu rosto não caberia em uma foto 3x4, independente do RG ser dele ou não (certamente, a identidade dele deveria ser impressa em uma cartolina).
Eu, por outro lado, precisava do meu RG.
Quer dizer, acho que eu precisava. Na verdade, a única coisa que ele atestava é que eu não tinha idade para comprar bebida, mas eu sabia que aquele negócio verde na carteira era importante.
E assim eu resolvi expor a minha opinião. Além disso, era dia de eleição, a tal “grande festa da democracia”, o que me dava certa voz ativa como cidadão.
Olhei para os céus e, logo acima da terceira nuvem, estava seu rosto. Encarei o sujeito, respirei fundo e disparei:
- Então, a carteira você não vai levar.
Fui firme, mas polido. Deixei clara a minha posição, e sem ser grosseiro. Éramos ambos adultos – quer dizer, ele era – e vivíamos em um país livre.
E, veja bem, um assalto não é nada mais que uma negociação. Tudo bem, admito que tudo o que uma das partes deseja é possuir tudo o que a outra tem; enquanto a segunda quer apenas permanecer viva. Mas, ainda assim, é uma negociação. Cada parte vai fazendo propostas e contrapropostas até o assunto ser resolvido.
Mas minha aposta estava feita. Agora era o momento de esperar a reação dele. Será que ele pagaria para ver, ou fugiria do meu blefe?
Sabem... Existe uma frase sobre pôquer que diz que “se em quinze minutos você não descobriu quem é o idiota da mesa, é porque o idiota da mesa é você”. Bom, o jogo havia começado há alguns segundos e eu estava perto de descobrir quem era o idiota da mesa. E da pior maneira possível.
Mesmo porque só eu estava jogando pôquer ali. O negrão estava jogando mesmo era buraco.
E, aparentemente, ele estava pronto para bater.
(Continua...)
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