10 de setembro de 2014

Os 39 Degraus

Cansado de deitar sob o sol,
ficando em casa para ver a chuva
Você é jovem e a vida é longa,
E há tempo para matar hoje.

Então um dia, você descobre:
Dez anos ficaram para trás.
Ninguém te disse quando correr,
Você perdeu o tiro de partida.

3 de setembro de 2014

O Muro de Trinta Anos de Altura

Faz algumas semanas que, praticamente todas as manhãs, eu ando cerca de quinze minutos para chegar ao trabalho. Pego um ônibus ao lado de casa, faço um percurso de uns quinze minutos e desço. Ele segue por um caminho e eu vou por outro. Poderia pegar outro ônibus, mas gosto de tirar esses quinze minutos de caminhada para mim.

São quinze minutos, talvez os únicos do dia, que eu fico sozinho, perdido dentro das minhas músicas e dos meus pensamentos, organizando mentalmente o que preciso – e o que quero – fazer naquele dia.

Cada dia eu faço um caminho diferente – o que é difícil, já que eu parto sempre do mesmo ponto para chegar ao mesmo lugar. Mas tem dias que ando somente uma rua, em outros dias ando apenas em outra. Tem dias que estou mais valente e vou cortando os quarteirões, descobrindo caminhos novos, lojas e casas diferentes, prédios inéditos.

Mas, não importa o caminho, todos os dias eu passo pelo Túnel do Tempo.

O Túnel do Tempo é um enorme muro que fica no meu caminho. Enorme mesmo. Quase um quarteirão inteiro. É o muro da escola onde a Esposa estudou, desde criança até ser adolescente – isso aconteceu pouco depois de estudar na mesma escola que eu, no mesmo ano que eu, coisa que descobrimos quando começamos a namorar.

É uma sensação estranha passar pelo muro e imaginar que, quase três décadas atrás, a Esposa estava do outro lado, sem saber que eu estaria passando por ali todos os dias, mais de trinta anos depois.

É um muro de trinta anos de altura. E sempre que passo por ele, brinco de imaginar o que a Esposa estava fazendo do outro lado do muro trinta anos atrás.  De um lado do muro, é 2014.  Eu estou na calçada, andando apressado e tentando adivinhar como vai ser meu dia.  Do outro lado do muro, é 1986 ou 87, e a Esposa está lá dentro, menina ainda.

De um lado do muro, eu sei quem é ela. Do outro lado dos trinta anos, ela ainda não me conhece.

Porque ela é menina ainda. Diferente de mim, que estou quase com quarenta anos estampado em cada ruga ao redor dos olhos e no ar cansado, ela é uma garotinha loira com olhos que brilham a cada nova descoberta.

Está ali, trinta anos atrás, correndo pelo pátio ou sentadinha em um canto, comendo seu lanche, quietinha. Ou talvez dentro da sala de aula, desenhando quando deveria prestar atenção – tenho certeza que ela fazia isso – ou fazendo sua lição o mais rápido que pode, para poder ir embora e brincar mais um pouco. Talvez tenha alguma dúvida sobre a matéria, mas não vai perguntar para a professora porque é mais fácil descobrir depois olhando os livros. Talvez esteja olhando pela janela, em direção à calçada em que vou passar trinta anos depois, vendo como o dia está bonito. Talvez ela até me visse andando ali se o muro de trinta anos de altura não nos separasse.

Mas uma coisa eu tenho certeza: ela estava sonhando.

Primeiro, porque ela era criança, e crianças são feitos de sonhos. Segundo, porque ela não gostava daquela escola, e não existe lugar melhor para sonhar que um lugar que você não gosta. Quando você está num lugar que não gosta, sonhos são mais que sonhos, são esconderijos para onde você corre o tempo inteiro.

Eu tenho certeza de que ela estava sonhando quase trinta anos atrás, ainda menina.

E penso que talvez um desses sonhos seja a respeito dela trinta anos depois. Sonhos de paz e felicidade, sonhos de alegria e de acordar com a alma descansada. E o mais importante: ela sonha com a ideia de um dia não ser mais criança e mesmo assim continuar sonhando.

Todos esses sonhos que podem parecer pequenos para uma garota de nove anos e suas amigas – é por isso que ela guarda esses sonhos quase bobos apenas para ela – mas que a mulher de trinta anos depois sabe que não são tão fáceis de atingir. Sonhos que a mulher de trinta anos depois sabe que todo mundo diz sonhar, mas que pouca gente se arrisca a querer de verdade.

E percebo que eu tenho uma obrigação: cuidar, hoje, dos sonhos da menina que está do outro lado daquele muro de trinta anos. Meu papel é fazer estes sonhos se transformarem, trinta anos depois, em realidade. Meu papel é fazer com que a menina atrás daquele muro continue sonhando e, mais importante, continue achando que vale a pena sonhar.
Porque ela vai estar sempre ali, trinta anos atrás, sendo criança. E crianças são feitas de sonhos.

E aí eu penso nos sonhos dela e, antes de continuar meu caminho, sorrio.

A menina loirinha, do outro lado do muro, ainda não faz ideia que eu existo. Mas eu, deste lado dos trinta anos, sei exatamente o que preciso fazer com o meu dia.

29 de agosto de 2014

John Lee Hooker e a Mulher que Chorou no Ônibus

Eu estava naquele ponto de ônibus numa rua qualquer de uma cidade grande.

Na calçada, as pessoas passavam sem reparar em mim ou na conversa que eu estava tendo com John Lee Hooker. Na rua, carros rodavam sem reparar em mim ou mesmo nas outras pessoas da calçada.

Para as pessoas, eu era apenas mais um. Para os carros, eu era apenas menos um.

Enquanto eu estava ali, ninguém ouviu John Lee Hooker me confessar que amor é bom mas, naquele momento, ele precisava mesmo de dinheiro. Ninguém ouviu. Nem as pessoas da calçada, nem os carros que cuspiam fumaça, muito menos o ônibus que parou no ponto, impaciente para continuar sua viagem.

Foi quando ela ficou do meu lado.

Devia ter uns quarenta anos, mas cara de quem já viveu quase cinquenta, como acontece com todo mundo da cidade. Estava em uma janela do ônibus que roncava, ansioso para partir e se misturar aos carros. Seu olhar era perdido, mas seus olhos eram fáceis de encontrar: estavam ali no meio das lágrimas.

Fiquei olhando por alguns instantes. Estava a menos de um metro de onde eu estava, mas uma janela embaçada e engordurada de dedos nos deixavam a quilômetros um do outro. Eu estava sozinho, entre tanta gente na calçada; ela estava sozinha, no meio das lágrimas dentro do ônibus.

Eu poderia ter olhado para o nada. Talvez abaixado os olhos, talvez tentado ler o nome do ônibus que estava se aproximando. Mas resolvi olhar para tudo – pois quando uma pessoa se permite chorar dentro de um ônibus, é porque aquilo que ela está sentindo é tudo. E, numa cidade grande, não se mostram lágrimas de tudo na frente dos outros. Numa cidade grande, só se chora sozinho e escondido em casa.

Talvez seja por isso que ela tenha despertado e, ainda com os olhos molhados, olhou ao redor para ver se alguém havia reparado não nela, mas em suas lágrimas. E se surpreendeu ao ver o sujeito que estava na calçada, a centímetros-quilômetros dela, observando em silêncio seu choro.

Ela não soube o que fazer, porque numa cidade grande, pessoas costumam chorar quando não sabem o que fazer. E eu sorri para ela, porque no mundo que eu moro você sorri para pessoas que não sabem o que fazer.

Ela me estudou por uns instantes e sorriu de volta. Um sorriso de “talvez” que abraçou meu sorriso de “amanhã pode ser melhor”, e saíram andando pela rua, dois sorrisos abraçados que ninguém viu. Nem as pessoas, nem os carros, nem o ônibus que já partia roncando e deixando um rastro de fumaça.

Eu ia pedir para o John Lee Hooker ficar quieto por alguns instantes, mas ele foi mais rápido e começou a gritar que estava no clima para o amor. E eu deixei ele continuar. Não por mim, nem por ele, mas pela mulher do ônibus. Para que ela saiba que numa cidade onde ninguém se importa, alguém viu e sorriu e cantou de volta.

E mostrou para ela que o amanhã pode ser melhor – e que, justamente por isso, está torcendo com ela para que esse amanhã comece hoje.

20 de agosto de 2014

Soneto da Lixeirinha da Calçada

A calçada na frente de casa vivia imunda
Cocô no saquinho, papel e latinhas mil.
Era uma calçada suja e quase moribunda
Varríamos xingando um puta que pariu.

Mas inventamos uma saída brilhante
E amarramos uma pequena lixeirinha.
As pessoas que voltam ou vão adiante
Agora estão proibidas de ser porquinhas.

Aposentamos a pá como a vassoura.
A calçada agora, é limpeza e higiene.
E juramos que a regra seria duradoura.

Mas esquecemos que aqui é nosso Brasil.
Roubaram a lixeira, de forma até solene.
Voltamos a varrer e xingar puta que pariu.

13 de agosto de 2014

O Ano que A Depressão Roubou de Mim

Quase três anos atrás, eu estava sentado no consultório de uma psiquiatra.

Eu já fazia terapia com uma psicóloga. Mas, nos meses antes disso, a situação parecia piorar a cada dia. Para cada metro emocional que minha vida subia, ela descia dez.

Até então, eu conseguia conversar, trabalhar, sorrir. Eu conseguia levar adiante. Fiz isso por meses. Tocava minha vida, creio que atribuindo o que eu sentia ao cansaço. Tentava não pensar a respeito de que entrava em casa todas as noites com um nó na garganta e tentava ir dormir logo com a esperança de que vai passar e que amanhã vai ser melhor.

Mas o amanhã era sempre pior. E o depois de amanhã também. Não foi um dia ou um fato que me deixou assim. Acredito que isso pode acontecer com algumas pessoas, mas comigo os motivos foram o acúmulo de algumas coisas e a ausência de outras. Sobravam pressão, cobranças, tristeza, trabalho, solidão.  Faltavam perspectiva, descanso, paz de espírito e compreensão.

Olhando hoje, me enxergo como uma bomba-relógio. Eu atravessava os dias, torcendo para a contagem regressiva não acabar. Em alguns dias o ponteiro corria, em outros ele apenas caminhava. Mas ele não parava, e estava sempre ali, mostrando que eu tinha pouco tempo. Um dia, ele chegou no zero.

Uma bomba teria explodido.

Eu implodi.

E, nesta implosão, eu descobri que o inferno existe. Não embaixo da Terra, mas dentro de cada um de nós. Todos nós temos o nosso inferno, e eu estava preso dentro do meu, sem saber direito como eu havia chegado até ali, sem saber se existia uma saída.

Na verdade, eu não sabia se queria achar uma saída. Porque o grande truque deste inferno pessoal é que ele não aprisiona ninguém que cai ali; pelo contrário, ele apenas convence você que se acostumar a ficar ali dá menos trabalho que procurar uma saída.

Ao menos, comigo, foi assim. Eu não queria achar saída alguma, queria ficar apenas sentado no sofá da minha casa, com o notebook no colo e pulando de um site de notícias para o outro, olhando todas as manchetes e sem ler nenhuma.

Fazia isso por horas. Um dia, cheguei a fazer isso durante praticamente 24 horas seguidas. Em silêncio, acendendo um cigarro no outro e olhando sites. Às vezes, eu me levantava, tomava um gole de Coca-Cola e voltava para o sofá. Acendia outro cigarro e pegava o notebook e começava a rodar os sites novamente.

Sem falar. Sem comer.

Mas pensando.

Porque a pior coisa do inferno é jamais conseguir parar de pensar.

E, quanto mais eu pensava, mais confuso eu ficava. Até hoje não sei se isso é algo específico meu, mas todos os meus pensamentos eram contra mim. Eu era promotor e juiz, trabalhando juntos para provar de forma incontestável que eu era o culpado pelos meus erros, pelos erros dos outros e até mesmo por erros que não são culpa de ninguém, a não ser da vida. E que eu deveria ser punido.

Um dia eu não aguentei. Um dia eu estava sentado no chão da cozinha, com a Esposa me abraçando. E eu chorava e gritava “Me ajuda! Por favor, me ajuda”. Até hoje eu não sei se era para ela, se era para mim, se era para Deus, se era para o mundo. Acho que era um grito de socorro para qualquer um que me ouvisse. Eu não aguentava mais ser punido por um crime que eu nem sei qual era.

Mas acho que esta necessidade de punição não é só minha.

Descobri isso na conversa que tive com a psiquiatra. Eu não lembro direito como foi, porque eu tenho muito poucas memórias desse período. Sabe aquele sonho que escapa assim que você acorda e deixa somente um ou outro flash? Minhas lembranças desses meses são exatamente assim: tenho flashs, pedaços de lembranças, trechos de conversas... E mais nada.

Um destes flashs foi um trecho de uma conversa com a psiquiatra – é engraçado, eu não consigo me lembrar do rosto dela, por mais que eu tente. Eu estava há contando como eu me sentia e ela me interrompeu.

– Você se machuca?

– Como assim?

– Você se machuca? De propósito?

Lembro de sentir vergonha na hora. Mas engoli a vergonha e respondi que sim.

E era verdade. Eu não era apenas promotor, juiz e jurado. Depois que eu me condenava, eu era também carrasco.  E me agredia fisicamente.

É difícil descrever: em crises, eu cheguei a arrebentar minha cabeça na parede mais de uma vez. Em algumas crises, dei tapas e socos no meu rosto, às vezes usando objetos para isso – lembro de ter feito isso com um controle remoto. Eu me arranhava. Sempre com a maior força que eu conseguia. Sempre para me punir por um crime que eu nem sabia direito qual era.

Sempre com ódio. Não era apenas ódio de tudo. Era ódio de mim.

– Essa foi a melhor coisa que você me disse até agora. Muitas pessoas passam por isso que você está passando. E normalmente aquelas que tentam se suicidar são as que não se machucam fisicamente em momento algum. Elas se punem de outro jeito.

Eu fiquei quieto.

– Você já pensou nisso? Alguma vez?

– Não.

E foi assim, depois de contar verdades e minhas verdades (porque nem tudo o que eu acreditava ser verdade devia ser verdade) que saí de lá com receitas e mais receitas de remédios no bolso.

Mas a depressão não é uma doença comum. Não é uma gripe que você toma remédio e três dias depois está melhor, e na semana seguinte está bom. Os remédios demoram para fazer feito. E às vezes não fazem efeito algum, precisando de outra dosagem ou, muitas vezes, outro remédio.

Eu comecei tomando um antidepressivo pela manhã e, por causa da Síndrome do Pânico que veio junto com a depressão, eu precisava andar com comprimidos de Rivotril dentro da carteira. À noite, mais Rivotril, desta vez gotas, desta vez para dormir.

Não adiantou nada. Nada mudou. Mesmo sabendo que eu devia sair do inferno eu não conseguia dar um passo, não em direção à porta, mas em direção alguma. Um dos motivos principais disso é que eu não dormia. Tomava o Rivotril, deitava e dormia uma hora. Duas. Aí acordava, me sentava na cama e ficava horas ali, sentado, olhando o quarto escuro e sem conseguir parar de pensar. Sabe aqueles dias que você acorda mais cansado que estava quando foi dormir?

Multiplique isso por meses e você terá um emocional em frangalhos.

A dosagem aumentou e eu não dormia. A dosagem aumentou mais uma vez e eu não dormia. Foi alguns meses depois de começar a tomar remédios que a psiquiatra me receitou outro remédio para a noite: um antidepressivo que não funcionava mas que tinha um efeito colateral fortíssimo: sono.

Tomei o remédio uma hora antes de dormir. Quinze minutos depois eu fui carregado para o quarto pela Esposa, dormindo em pé. Devo ter conseguido dormir seis, sete horas. E sempre que me lembro disso me emociono um pouco. Foi o primeiro passo que dei. Não foi um passo grande, e não sei nem se foi um passo rumo a algum lugar. Mas conseguir dormir foi um passo.

Eu poderia dizer que, depois disso, tudo se resolveu. Mas não. O primeiro passo é apenas o primeiro passo. E minha vida, como eu disse certa vez nesse blog, era feita de passos.

Eu me sentia, às vezes, como alguém que voltara de uma guerra e precisava se acostumar com o mundo novamente.

Voltas pequenas nos bairros, sempre em ruas sossegadas (bastava ter meia dúzia de gente ao meu redor numa calçada para a Síndrome do Pânico fazer com que eu congelasse e me enfiasse num canto, branco, às vezes tremendo, de onde eu não conseguia sair). Não sei porque, eu não podia tomar banho sozinho. Eu precisava da Esposa ali no banheiro, sentada num banco, conversando comigo enquanto eu tomava banho. E sempre que íamos a algum lugar, bastava eu dizer “quero ir embora” ou “não estou bem” que estávamos em casa minutos depois.

Mas haviam recaídas. Se meses antes para cada metro que eu subia dez, desta vez para cada cinco, seis passos que eu dava, eu voltava um. Parece pouco, mas não era fácil. Não é pouca coisa ter crises de choro no meio da rua, não é pouca coisa querer ir dormir somente porque você acha que nunca mais vai voltar a ser o que era, não é pouca coisa morrer de medo de ter que tomar remédios a vida inteira.

Contudo, eram apenas isso: recaídas. Algumas grandes, algumas menores, mas que faziam questão de me mostrar que eu era mais frágil que as outras pessoas. Porque a palavra é essa: fragilidade. Se encostam em você, seu emocional desmorona. Se algo de errado acontece, seu emocional desmorona. Acho que o segredo não é tentar fazer desmoronar, é saber que não desmoronou tudo, mas só um pedacinho.

Eu não teria conseguido perceber isso e teria desmoronado sempre se não fosse pela minha Esposa. Desde o dia que eu passei 24 horas sozinho olhando o computador, ela decidiu que eu não tinha mais condições de ficar sozinho – “você parecia um velhinho quando cheguei na sua casa”, ela me diz até hoje, sempre que lembra desse dia. Mal imaginava que, nos próximos meses, eu perderia quinze quilos.

Mas ela se tornou presença constante ao meu lado. Mas não era uma questão de estar ao lado, mas sim de estar à frente. Estávamos começando a namorar e ela abriu de um começo de namoro normal e assumiu que o papel dela era me blindar, ficando ao meu lado nos momentos de crise – e, hoje eu consigo ver, impedindo muitas crises antes mesmo delas acontecerem.

Eu jamais teria conseguido sem ela, e jamais teria conseguido sem outras pessoas. Minha família, por exemplo. Todos sempre cuidaram de mim sem me pressionar. Eles entenderam que eu não estava confuso, desanimado, triste. Eu estava doente. E, assim como a Esposa e como meus amigos que acompanharam o que passei entenderam que, antes de eu precisar deles, eu precisava de mim. E me deram todo o espaço, todo o apoio, todo o tempo e todo o amor do mundo para eu me reencontrar.

Isso parece fácil, e até óbvio, mas não é. Pois é mais evidente ainda que muitas pessoas não entendem a depressão.

Poucos dias antes de eu ir ao psiquiatra, estava conversando com um amigo na internet. Era, na época, um dos meus melhores amigos, conversávamos todos os dias sobre tudo. Mas ele havia dado uma sumida. Nesse dia, chamei e perguntei se havia acontecido algo. Ele me respondeu que eu havia me tornado uma pessoa chata. Eu pedi desculpas, disse que achava que estava doente e iria ao médico. Ele insistiu: eu havia me tornado chato. Pedi desculpas mais uma vez e disse que iria fazer de tudo para voltar a ser o que era e me despedi. Foi a última vez que nos falamos.

Porque essa é sempre uma das leituras que as pessoas fazem da depressão: “a pessoa se tornou chata”. A outra leitura que as pessoas também fazem é que a pessoa que sofre de depressão está apenas tentando chamar a atenção e passar por coitadinho. Isso foi falado sobre mim na internet, depois que tornei minha doença pública com um texto no blog.

Meses depois, uma pessoa me disse que “tomara que essas pessoas passem por isso também para ver como é difícil”. E eu respondi que “Não. Eu não desejo que ninguém passe pelo que eu passei”.  

Aliás, até hoje eu não entendo porque tornei público, no blog, o fato de eu estar com depressão. Talvez porque eu precise escrever para entender. Não sei ao certo – é uma das memórias que se perderam. Mas foi uma das melhores coisas que fiz. Comecei a receber apoio de muitas pessoas. Leitores do blog, amigos de Twitter, gente que eu nunca tinha visto pessoalmente. Comecei a receber e-mails, mensagens de apoio e de carinho nas quais eu me agarrava nos piores momentos. Se eu era importante para alguém que nunca tinha me visto, mesmo que somente por causa das minhas crônicas, eu precisava ser importante para mim por algum motivo. Mesmo que fossem as crônicas.

E tornar minha doença assunto no blog foi importante porque pude ajudar muita gente. Muita, muita gente se identificou comigo, com o que eu sentia. Muita gente mesmo. Comecei a receber e-mails de leitores que diziam sentir alguns dos mesmos sintomas que eu, queriam saber o que fazer, se achavam que eu estava doente.

Eu respondi todos, com o máximo de atenção que podia, mas sempre com cuidado, sempre deixando claro que não sou médico. Mas aconselhava todos eles a não cometerem o mesmo erro que eu cometi: “não demore para buscar ajuda. Não fique se testando. Se parecer insustentável, se parecer sem saída, vá ao médico. Não se desafie porque você vai perder”.

Muita gente, até hoje, diz que fui corajoso em expor o que estava passando e que eu deveria me orgulhar disso. Eu não me orgulho. Não me orgulho nem sinto vergonha de ter atravessado por isso. Eu sofri de depressão e síndrome do pânico, e isso não me torna um herói ou uma vítima. Ter superado e deixado isso para trás talvez mostre que eu sou mais forte que a depressão pensava, e isso me basta. Uma vez eu terminei um post prometendo para mim mesmo que iria derrotar isso.

E derrotei.

Com força, com vontade, com coragem de começar a abandonar os remédios por conta própria, com amor de quem amo, com amor de quem nem conheço.

Mas se vocês perguntarem para mim se estou 100% hoje, eu não saberei responder. Talvez eu nunca volte a estar 100%, ou talvez eu esteja 100% mas não seja exatamente a mesma pessoa que era antes. Esta é uma dúvida que vou levar comigo: hoje tenho limites e limitações que eu não tinha antes das doenças. Não sei eu apenas não os conhecia ou se eles ficaram como herança da depressão.

Existem situações em que não sinto absolutamente nada, apenas frieza; existem outras – normalmente quando estou cansado – que sinto uma espécie de vazio, algo me puxando para baixo. É raro, mas acontece. Hoje, não posso ficar exausto – que lê isso aqui há tempos sabe que eu trabalhava doze, catorze horas por dia. Hoje, isso me faz mal.

Da mesma forma, eu não consigo lidar com coisas muito boas. Meu aniversário, por exemplo: eu não consigo lidar com toneladas de pessoas me dando os parabéns na internet. Eu adoro, me sinto querido como qualquer pessoa, mas... É estranho, eu me sinto um pouco pressionado, como se precisasse fazer algo que não fosse agradecer para justificar todas as mensagens. Não me entendam mal, é quase como se fosse um amor maior que eu, uma emoção mais forte que eu... E não consigo lidar com tudo ao mesmo tempo. Respondo, fico horas sem olhar, volto a responder.

Existem outras coisas que sou diferente. Não apenas reações, mas sonhos. Hoje paz e qualidade de vida são essenciais para mim. Trabalho com o mesmo empenho, mas não abro mão disso. E, diferente do que eu fazia dez anos atrás, eu não desafio meus limites. Eu os aceito e respeito cada um deles. Porque acho que esta foi a grande mudança que sofri, e acho que muita gente que conseguiu superar uma depressão sente o mesmo:

Eu não estou mais no inferno. Mas agora eu sei que o inferno existe.

Justamente por isso eu não gosto muito de falar sobre o assunto. Voltei a escrever normalmente – com esforço no começo – para não transformar um blog de risadas e lágrimas doces em um blog de textos amargos. Eu devia isso a mim e devia isso a cada uma das pessoas que lia o que eu escrevia e me viu caindo. Eu precisava levantar e devia isso a cada um que ficou do meu lado e não desistiu de mim.

Hoje, com todo mundo falando sobre este assunto, eu achei que podia contribuir um pouco, mostrando um pouco a realidade de quem já esteve lá e como é difícil voltar. Falar aqui que a depressão precisa ser tratada como doença é chover no molhado. Até quem não consegue enxergar a depressão desta forma já ouviu isso.

Assim, o que eu sugiro é: se você não consegue apoiar uma pessoa que está em depressão por não entender o problema, apenas não duvide dela. Respeite o que ela diz que sente e deixe-a em paz. Ela precisa de espaço, ela precisa de tempo e sua dúvida sobre o que ela está passando vai atrapalhar mais do que sua falsa certeza ajudaria.

E, se você está passando por isso, deixe eu te falar uma coisa: você vai sair disso. Eu tenho certeza. Por mais que você ache que não, confie em mim: eu também achava que não e saí. E sei que você pode sair. Eu sei que parece que não existem caminhos, mas eles existem e estão na sua frente. Não se force a andar por eles sem enxerga-los, apenas aguente mais um pouquinho que eles irão aparecer.

E você pode sentir raiva, medo, desânimo, fraqueza, vontade de desistir. Você pode e vai sentir. Apenas peço que faça o que fiz: não deixe jamais de sentir amor por você. Pois, quando você está no inferno, é isso que irá mostrar o caminho para você.

Peço desculpas pelo tamanho do texto, mas eu tinha umas contas para acertar comigo mesmo sobre este assunto. E é um texto até pequeno. Quando comecei a escrevê-lo, digitei que “quase dois anos atrás, eu estava sentado no consultório de uma psiquiatra”. Só na metade do texto é que eu percebi que havia errado, voltei e corrigi para “três anos”. Isso é algo que eu preciso me acostumar: eu perdi um ano da minha vida. E um texto, por maior que ele seja, nunca vai substituir isso.

Mas se eu estou escrevendo sobre este ano que perdi, é porque estou aqui.

E, sabendo que existe um inferno, estar aqui basta.

Com amor, e muito obrigado por tudo, sempre,

Rob