10 de setembro de 2016

Quarenteum

Dentro de cada pessoa velha existe uma pessoa jovem se perguntando o que aconteceu.
(Pratchett, Terry)


Quando eu fiz dezoito anos, minha mãe me disse:

– Aproveite muito. Depois que você faz dezoito anos, o tempo passa rápido demais.

Eu achei que ela estava exagerando.

Hoje, me sinto como se essa conversa tivesse acontecido há duas semanas. 

8 de setembro de 2016

Estas São as Viagens...

Eu não me lembro do primeiro episódio de Jornada nas Estrelas que assisti na vida.

A franquia completa 50 anos hoje. Mas a Série Clássica ainda devia ter menos de quinze anos quando eu caminhei pelos corredores da Enterprise pela primeira vez. Foi no final dos anos 70. Alguns anos depois, quando eu estava entrando na adolescência, esses passeios viraram paixão. Logo, essa paixão se transformou em amor.

Nas últimas décadas, eu voltei sempre para aquela Enterprise. Mas também conheci outras naves, outros tripulantes, outras civilizações.

Lutei ao lado de Kirk, debati com Picard, jantei com Sisko, explorei com Janeway, mapeei com Archer. Nas últimas décadas, a aventura humana aconteceu diante dos meus olhos. E dos olhos dos meus amigos que moram nas estrelas.

Já adulto, eu enxergo em Star Trek boa parte do que vivi.

Ainda menino, eu enxergo em Star Trek muito do que quero ser.

Como eu disse, eu não lembro qual foi o primeiro episódio de Jornada nas Estrelas que assisti na vida. Mas sei qual foi o último. E, na última cena desse episódio, a capitã Janeway, da USS Voyager, dá uma ordem:

– Trace um curso... Para casa.

Foi assim que, com uma única frase, ela resumiu tudo o que eu sinto quando me sento no sofá para assistir a um episódio de Jornada nas Estrelas. Faz décadas que o espaço é minha casa. Faz mais de trinta anos que Jornada nas Estrelas é meu lar.

Hoje, Jornada nas Estrelas completa cinquenta anos.

Hoje, eu decidi levar esse amor na pele.


24 de agosto de 2016

A Medalha de Ouro do Irmão Leão

Aconteceu quando eu estava na 2ª ou 3ª série – ou seja, na primeira metade dos anos 80.

Eu estudava num colégio tradicional aqui de São Paulo, daqueles com milhares de alunos e centenas de funcionários. E uma das figuras mais adoradas por todos – alunos, ex-alunos, pais de alunos, professores – era um irmão marista (sim, o colégio era marista) conhecido como Irmão Leão.

Na verdade, eu não sei direito nem qual era o cargo dele no colégio, mas não havia aluno que não o conhecesse. Era louco por esporte, e estava sempre apitando jogos de futebol entre os garotos. Um dos seus maiores prazeres era organizar os campeonatos entre classes, que eram disputados aos sábados.

Lembro bastante do seu rosto, mas essa é a única memória mais exata que tenho dele.

Para mim, ele era um gigante, mas sua altura podia ser bem menor. Afinal, ele era visto pelos olhos de um menino de oito ou nove anos que só não foi o menor aluno da classe em uma ocasião – fiquei surpreso ao descobrir que existia um garoto da minha idade menor que eu no colégio (seu nome era Márcio, um japonês minúsculo; estudamos juntos na quarta série e fomos muito amigos naquele ano).

Mas o Irmão Leão era um gigante moral. Sempre que algum aluno passava por ele no corredor, fazia questão de cumprimentá-lo. E bastava ele colocar os pés em uma das salas de aula para que todos os alunos ficassem em silêncio. Isso acontecia também quando os diretores entravam nas salas, claro, mas com o Irmão Leão era diferente. O silêncio na presença dos diretores era por medo. No caso do Irmão Leão, era respeito.

E o Irmão Leão estava sempre nas salas, porque ele tinha outro grande prazer: tomar tabuada das crianças. Ele entrava nas turmas do primário e fazia uma competição ente os alunos. Competição mesmo, com medalha e tudo mais.

Então você ia até a frente da sala e tinha que responder coisas como 9 x 4, 6 x 8 e coisas do gênero, ali, sem parar para pensar. Hoje parece fácil; na época, não era. Acho que os campeonatos de tabuada do Irmão Leão foram o primeiro trabalho com prazo apertado que eu tive na vida.

Mas eu me dava bem. Eu era um excelente aluno. Excelente mesmo, e sempre fui um dos melhores da sala, até o colegial. Aí eu descobri que minhas responsabilidades escolares podiam tanto ser diluídas no álcool do boteco atrás da escola, como virar fumaça junto com os cigarros que eu fumava na porta da escola.

E assim, lá estava eu, com oito ou nove anos, em pé na frente de toda a sala e encarando o Irmão Leão nos olhos.

Ele jogou umas oito ou dez contas para mim, mas eu dei uma pequena amarelada em algum momento– deve ter sido na tabuada do 7, que eu sempre achei uma das mais difíceis (eu e o 7 x 8 vivemos um clima de guerra fria durante boa parte da minha infância).

Enfim, não consegui a medalha de ouro. E eu queria. Eu queria voltar para casa com aquilo no peito e mostrar para os meus pais.

Mas agora eu preciso ser sincero: eu não me recordo se ganhei a medalha de prata ou a de bronze. Algo me diz que foi prata, mas em alguns momentos tenho certeza que foi a de bronze. Como estamos em um desses momentos, vamos assumir aqui que foi bronze e continuar a história.

A entrega das medalhas acontecia depois de alguns dias. Durante esse tempo, o Irmão Leão terminava de percorrer as outras salas desafiando as crianças com contas de multiplicação. Depois, ele publicava um papel com os premiados de cada turma em todas as salas de aula e, finalmente, entregava as medalhas.

E assim, um dia, ele voltou a passar na sala. Colocou o papel com os premiados numa parede e fez questão de ler em voz alta os alunos daquela classe que seriam premiados (eram uns três ou quatro nomes para cada medalha). E eu ali, ansioso, esperando pelo meu nome na medalha de bronze.

Mas ele não veio.

Quando ele terminou de ler os premiados com bronze e eu não ouvi o meu nome, minha barriga congelou. Onde estava minha medalha? Mas fiquei quieto – e, claro, com a sensação idiota de que a classe inteira estava olhando para mim. Aí ele leu os medalhistas de prata.

– Fulano. Rob Gordon. Beltrano.

Não é demais lembrar que caso eu tivesse ganhado a medalha de prata e minha memória está me enganando, meu nome foi citado no ouro. De qualquer forma, alguma coisa havia acontecido e eu havia subido um degrau no pódio. E isso só tinha duas explicações: ou algum aluno com marca melhor que a minha havia sido desclassificado por doping, ou o Irmão Leão havia cometido algum erro.

Mas eu não iria falar isso. Não ali, na frente da classe. Afinal, eu tinha menos de dez anos, e jamais iria a) chamar a atenção para mim na frente da sala (apesar de que eu fazia isso com piadas a aula inteira); e muito menos b) levantar e dizer que o Irmão Leão estava errado, algo que nunca devia ter acontecido na história da escola.

Durante alguns segundos, enquanto o Irmão Leão saía da sala, eu pensei em deixar aquilo tudo morrer. Seria mais fácil assim. Eu não me meteria em problemas. Não arrumaria confusão. E ainda voltaria com uma medalha melhor para casa. Do alto dos meus oito ou nove anos de idade, eu só via vantagens nisso.

E ainda estava com todas essas vantagens dançando na minha cabeça quando me levantei e fui até a professora. Falando baixinho, pedi permissão para sair da sala porque eu precisava falar com o Irmão Leão. Ela autorizou e eu fui atrás dele.

Lembro claramente da imagem dele andando pelo corredor, de costas para mim, alguns metros na minha frente (é meio assustador pensar que isso aconteceu há mais de trinta anos). Eu corri.

– Irmão Leão!

Ele parou e se virou na minha direção. Ficou me observando enquanto eu me aproximava dele. Talvez ele não tenha percebido, mas eu não sabia o que fazer. Quer dizer, eu sabia o que fazer, mas não sabia como fazer. Então, despejei logo de uma vez:

– A minha medalha está errada.

– Está?

– Sim. Você leu meu nome na medalha de prata. E eu ganhei bronze.

– Tem certeza?

Quando você é criança, a pergunta “tem certeza?” é algo que você normalmente escuta quando está errado. Mas eu estava certo.

– Sim. Eu ganhei bronze. Eu demorei na hora de responder (insira aqui qualquer conta da tabuada do 7) e (insira aqui outra conta da tabuada do 7).

O Irmão Leão ficou em silêncio, como se estivesse puxando meu desempenho pela memória. Não falou nada por alguns instantes, até me dizer que:

– Você tem razão. Eu me lembro. Você ganhou a medalha de bronze.

Eu não respondi nada, mas ele me deu um sorriso que eu não entendi na hora.

– Você não quer a medalha de prata?

Eu queria. Claro que eu queria. Queria ganhar aquela medalha na frente de toda a sala. Mas eu sabia que não podia voltar para casa com uma medalha que não era minha. Isso seria pior que não voltar com medalha nenhuma.

– Quero. Mas eu não ganhei prata. Eu ganhei bronze. Eu quero a de bronze.

Foi quando ele fez algo que me fez entender o sorriso que havia dado. Algo que, ali naquele momento, confuso e com um pouco de medo, eu tive certeza de que nunca mais esqueceria. Ele se ajoelhou e colocou seu rosto na altura do meu.

– Então você vai ganhar sua medalha de bronze. Mas eu quero que você saiba que isso que você fez hoje merecia uma medalha de ouro. Isso que você fez hoje é mais importante que qualquer tabuada. Nunca se esqueça disso.

Eu obedeci, porque todo mundo obedecia ao Irmão Leão. Eu nunca me esqueci.

E levei isso comigo a vida inteira.

Um ou dois anos depois, o Irmão Leão morreu. Morreu numa manhã qualquer e no meio do campo do futebol apitando um jogo de futebol, que era o que ele mais gostava de fazer na vida. Acho que foi parada cardíaca. Meu irmão, na época, estudava numa sala que ficava em frente ao campo – que hoje, se não me engano, é uma quadra e tem o nome dele – e viu tudo acontecer. Eu estudava à tarde e não tive aula naquele dia.

Acho que todo mundo que andou por aqueles corredores naquela época, tem alguma história com o Irmão Leão. Essa é a minha.

E eu carrego no meu peito até hoje a medalha de ouro que ele disse que eu merecia. E passei a vida inteira tentando conquistá-la. Faço isso ainda hoje.

Já ganhei essa medalha diversas vezes, e perdi em outras tantas. Ela é difícil demais de ser conquistada. Muitas vezes eu não fui bom o suficiente, em outras eu simplesmente desisti da medalha porque era mais fácil, por medo, comodismo ou qualquer outro motivo. Mas encontro um pouco de conforto sabendo que mais importante que ter perdido a medalha é o fato de que eu não me orgulho disso.

Mas eu ganhei várias vezes. No trabalho. Em relacionamentos. Na vida. E isso não me torna melhor que os outros. Essas medalhas me tornam apenas... Melhor. Cada vez que, eu recebo a medalha de ouro do Irmão Leão, dentro da minha cabeça, eu me transformo numa pessoa melhor. E isso basta.

Hoje eu sei que a medalha de ouro do Irmão Leão não é uma meta e sim um caminho. Por que existem competições onde a disputa é com você mesmo. E, muitas vezes, você é o maior adversário que você terá pela frente. Mas, de vez em quando, o Irmão Leão aparece e coloca uma medalha de ouro no meu peito, dizendo que eu estou no caminho certo.

E eu sorrio. Como qualquer pessoa que já perdeu essa medalha várias vezes, eu sei o quanto é difícil andar pelo caminho certo. E que cada passo nesse caminho vale muito.

Como ele disse, vale mais que qualquer tabuada.


(Esse post é dedicado aos donos da empresa onde trabalhei durante quase dez anos, e que colocam todos seus bens nos nomes de outras pessoas para não me pagarem, na justiça, apenas e nada mais do que me devem. Mas a vida é assim: cada um com a sua medalha).