31 de julho de 2019

Proteção


De uns tempos para cá, venho sentindo vontade de voltar a ser criança. Normalmente acontece quando estou fazendo algo que me deixa confortável. E é uma sensação que sempre chega sem avisar. Estou lendo está um momento interessante do livro ou um diálogo num filme qualquer e de repente sinto uma espécie de coceira, mais gostosa que incômoda, que parece não ter lugar específico.

Mas, para ser sincero, não é algo que experimento o tempo inteiro. Na verdade, acontece com pouca frequência. Porém, sempre preciso para o que estou fazendo e dar atenção para ela.

Já descobri que não adianta procurar de qual lugar do meu corpo vem essa sensação. Uma vez tive certeza que era no lado esquerdo, pouco acima da cintura, mas assim que prestei atenção nesse local ela se assustou e partiu como uma folha levada rua abaixo pelo vento.

Por isso, comecei a prestar atenção nessa pequena coceira com o canto dos olhos, sem que ela perceba que está sendo estudada. Finjo que continuo concentrado no livro ou que presto atenção na conversa na televisão, enquanto tento entender o que essa sensação quer comigo. Na primeira vez que fiz isso, não enxerguei muita coisa, mas na segunda consegui identificar que, junto com a coceira, alguns sentimentos haviam escapado de algum lugar da minha memória e surgiram em forma de palavras, dançando como insetos ao redor de uma lâmpada.

Eu não sou bom com palavras como gostaria de ser, então agarrei num gesto rápido a primeira palavra que passou na minha frente. Abri a mão com cuidado para que ela não escapasse e lá estava ela.

Proteção.

Não era uma proteção qualquer, mas uma proteção de criança. Uma proteção de quem está brincando no tapete da sala sem horário ou compromissos, sabendo que é vigiado pela mãe, que observa atenta da porta da cozinha. Ou de quem passa o dia com a certeza que o pai atravessará a porta em algum momento antes do jantar.

Pode ser também uma proteção ainda mais elaborada, experimentada por uma criança que descobriu que os dias seguem uma espécie de padrão no qual nada de errado acontece – deixando de lado um eventual tombo na cozinha. Quando ficamos mais velhos, uma sensação como essa pode causar tédio, mas isso não acontece em uma criança que, mesmo sem fazer ideia disso, tem todo o tempo do mundo pela frente.

Fechei a mão com cuidado e senti a proteção se debatendo dentro dela. O til, o risco do t e até mesmo a cedilha se moviam freneticamente, raspando minha pele mas sem machucar. Me senti um pouco cruel por fazer com que justamente a palavra proteção pudesse se sentir tão desprotegida e cheguei a pensar em aproximar minha mão dos lábios e sussurrar uma palavra de conforto. Palavras de conforto sempre trazem segurança.

Mas mudei de ideia.

Me levantei do sofá com cuidado para não assustá-la ainda mais e caminhei em direção à escada. Subi contando mentalmente os degraus – eu sei que são quinze, mas conto todos assim mesmo, talvez em busca de um pouco de proteção ao ver que todos estão ali – e no andar de cima, caminhei calmamente até o berço.

Meu filho dormia. Enrolado em um cobertor com apenas um dos pés descoberto, sua cabeça estava virada para o lado. Tive a certeza de que ele estava sonhando, apesar de nada me mostrar isso, e tentei adivinhar sobre o que seria o sonho. Estava imaginando algo que parecia ele correndo desajeitado em um enorme gramado com muitas árvores ao fundo. Tudo acontecia numa manhã ensolarada – na minha cabeça, não era uma manhã comum, mas sim uma manhã de sábado – e ele ria a cada metro percorrido.

O sonho do meu filho desapareceu da minha cabeça quando a palavra voltou a se debater dentro da minha mão, descobrindo que, com certo esforço e um pouco de sorte, poderia escapar por entre meus dedos. Assim, me debrucei e aproximei a mão do rosto do meu filho, abrindo os dedos lentamente.

A palavra não saiu voando. Ela olhou ao redor, girando suas letras para todos os lados. Devia estar pensando sobre como havia chegado até ali. E, quando observou meu filho, deslizou rapidamente por entre meus dedos, encostando com cuidado no travesseiro. Primeiro a letra “o”, depois o “ã” até finalmente o P. E, como um cachorrinho, a proteção deu três voltas ao redor de si mesma antes de deitar virada de frente para meu filho.

Observei os dois por mais alguns instantes, até dar meia volta e sair do quarto com cuidado para não acordá-lo ou não assustar a palavra. E, quando estava no meio da escada, pude ouvir ele rindo. Ele faz isso às vezes. Gargalha enquanto dorme, talvez para mostrar ao mundo que está sonhando. Correr naquele gramado ensolarado deve ser uma experiência fascinante.

Voltei para sala descobrindo que a coceira havia dado lugar à certeza de que a palavra proteção ficaria com meu filho pelo resto da noite. Talvez, no dia seguinte, quando ele acordar ela ainda esteja lá. E ele passará o dia com ela, explicando para sua nova amiga qual a sensação de correr no gramado e brincando com a palavra em seus dedinhos, enquanto investiga a forma de cada letra. Completamente protegido.

E, ao saber que a palavra estava lá, me senti seguro, quase como se fosse uma criança.

Me senti protegido.

E voltei a ler mais um pouco do meu livro.

27 de julho de 2019

O Monólogo que se Tornou Diálogo


– Olha, Felipe! Um ônibus!

– Adê?

– Ali! Ele é todo amarelo!

– Adê?

– Viu? Que grande! Dá tchau para o ônibus!

– Dadá!

– Tchau, ônibus!

– Hunf.

– Quer ir para o chão?

– Adê?

– Anda do lado do papai.

– Ah-ah.

– Vamos, Felipe.

– Ah-ah.

– Felipe?

– Ah-ah.

– Felipe? Vamos?

– Ah-ah.

– Larga esse pauzinho. Vamos passear.

– Adê?

– Tá bom. Vamos levar o pauzinho.

– Dadá!

– Agora, vamos.

– Hmmmmmmm...

– Felipe? O que você está fazendo?

– Hmmmm...

– O pauzinho não é uma colher, Felipe.

– Adê?

– Isso. É só um pauzinho. Não dá para comer com ele.

– Hmmmmmmm...

– Tá bom. Vamos passear? Vem com o papai.

– Adê?

– Não, Felipe. Para o outro lado.

– Ah-ah.

– Isso. Junto com o papai.

– Adê?

– Devagar, Felipe. Você vai tropeçar.

– Hmmmmm...

– Felipe, ou corre ou usa o pauzinho como colher. Os dois não dá.

– Hmmmmm...

– Aliás, você podia escolher nenhum dos dois. Nem correr, nem se alimentar com o pauzinho.

– AH! AH!

– Olha! Outro ônibus! Esse é verde!

– Dadá!

– Tchau, ônibus verde!

– Dadá!

– Felipe, pra esse lado.

– Adê?

– É só um portão.

– Adê?

– Sim, está cheio de carros lá dentro.

– Adê!

– Olha, aquele carro! Que grande!

– Dadá!

– Tchau, carro grande.

– Dadá!

– Vamos?

– Dadá!

– Tchau, carro grande. Tchau! Pronto, Felipe. Vamos.

– Dadá!

– Agora o carro vai nanar, Felipe. Vamos?

– Ah-ah.

– Para esse lado, Felipe. Junto com o papai.

– Hmmm...

– Felipe, onde você arrumou essa folha?

– Hmmmmm...

– Olha, Felipe! É a mamãe!

– Adê?

– Ali! A mamãe chegou!

– AH! AH!

– Oi, mamãe!

– Hmmmmm...

– Larga a folha, Felipe, e dá oi pra mamãe.

– Hmmmmmmmmm...

– O que vocês estavam fazendo?

– Conversando.

2 de julho de 2019

Roupa Nova


Eis o homem do século 21.

Eis o homem do século 21 saindo de casa para o trabalho. Ele ganha o mundo a cada passo. Enquanto espera o ônibus, está acompanhando notícias, confirmando a reunião da tarde, esboçando um projeto e fazendo sinal para o ônibus.

Eis o homem do século 21 afundando o pé em um monte de merda na calçada enquanto caminhava rumo ao ônibus.

Eis-me aqui de volta.

Eu poderia escrever parágrafos e parágrafos sobre minha ausência aqui. Também poderia escrever muito sobre meu retorno.

Talvez eu faça isso depois, porque neste momento eu estou um pouco ocupado a) tentando esconder das outras pessoas que estou com o tênis coberto de merda; b) constatando que até a barra da calça ficou suja de merda; c) fazendo cara de paisagem para tentar convencer as pessoas do ônibus fedendo a esterco é a coisa mais normal do mundo e que isso não tem nada a ver comigo e sim com a situação do transporte público de São Paulo; d) pensando em talvez subverter as regras do jogo e reclamar em alto e bom som de que o ônibus está cheirando à merda e torcer para que, no tumulto, ninguém olhe para meu pé, mas 3) mudando de ideia e decidindo que é melhor ficar em silêncio e contar com a sorte.

E, claro, f) dando graças a Deus que não estou carregando um pacote de fraldas do meu filho para as pessoas não somarem A + B e chegarem à conclusão que eu tenho problemas mentais.

Foi assim, com cara de paisagem, que procurei um lugar vazio no ônibus para me sentar. No caminho, fui arrastando o pé e fingindo que estou com a perna machucada, para tentar tirar o excesso de coliformes do tênis. Modéstia à parte, fiz isso com um profissionalismo invejável, sem transparecer por um momento o medo de deixar um rastro marrom no chão do ônibus ao fazer isso.

(Mas claro que na minha cabeça o ônibus inteiro estava olhando para mim e eu já estava cercado de moscas).

Finalmente consegui me sentar num banco vazio, sem ninguém ao lado. Hora de tentar limpar o estrago um pouco. E não seria uma tarefa difícil. Tudo o que eu precisava era um tanque com uma torneira funcionando, um esponja e um pouco de sabão. Ah sim, luvas. Luvas seriam essenciais.

Bem, abri a mochila e encontrei meu tablet, duas canetas – uma que eu havia perdido há dois meses e outra que nunca vi na vida – uma caixa vazia de remédios para enxaqueca e meia dúzia de moedas. Bem, minhas opções não eram muitas.

Talvez eu pudesse acessar a internet pelo tablet e descobrir como tirar merda da calça com canetas? Ou eu podia levantar, pedir desculpas por atrapalhar a viagem de todos e dizer que não estou aqui vendendo nada, mas comprando, porque tenho 85 centavos e preciso de uma esponja com água e sabão, será que alguém pode me ajudar e podia ser pior porque eu podia estar roubando?

Não. Nada ia dar certo. Se eu fosse o personagem principal de MacGyver, a série teria sido cancelada no primeiro episódio.

Mas foi quando a sorte resolveu me mostrar algo que eu não havia visto. Revirando a mochila, a caixa de remédios tombou e, de dentro dela, caiu sua bula.

Oito pequenas páginas de papel. Era tudo o que eu tinha. Era com isso que eu teria que me virar.

Cruzei a perna tomando cuidado para não raspar o tênis na outra perna – quem me conhece sabe que esse é o tipo de situação que eu poderia raspar o tênis na testa – e comecei a operação limpeza. Rasga um papel, esfrega aqui, rasga outro papel, limpa aqui, rasga mais um papel...

E a calça não limpa de jeito nenhum.

Joguei os papeis fora no cesto de lixo do ônibus – o ônibus devia ser novo, porque ele ainda não estava quebrado – e comecei a executar o plano B, que consistia em arrumar desculpas para usar pelo resto do dia sobre eu ter uma mancha de merda na barra da calça.

Para matar a saudade, vamos resumir todas elas no Top 5 Motivos para a Barra da Minha Calça Estar Suja de Merda:

1. “Na verdade, não é merda, é lama. Cheiro? Cheiro de quê? Não, não estou sentindo nada.”
2.“Olha, eu estou fazendo um curso de ioga e acabei perdendo uma aposta com meus colegas, então...”
3. “Não conta para ninguém, mas eu estou com um saco de cocaína amarrado na perna, então esfrego merda na calça para confundir os cachorros da polícia.”
4. “Não, não a calça é assim mesmo. É um modelo novo que brinca com cores e tendências.”
5.  “I’m sorry, I don’t speak portuguese”.

Certo, era um mais ridículo que o outro. Nenhum ia colar. Olhei para o tênis com merda, o tênis com merda olhou para mim, deu uma cotovelada na calça com merda e ambos começaram a rir de mim.

Hora de ir para o Plano C.

Peguei o celular e mandei uma mensagem para a Esposa, dizendo que ia passar no shopping e comprar uma calça. Claro, contei também toda a história antes porque avisar a esposa que você precisa comprar uma calça meia hora depois de sair de casa é o tipo de coisa que pode arruinar um casamento.

Mas mandar a mensagem era essencial porque eu não entendo muito de calças. Sim, eu sei o que elas são, para o que servem e como eu coloco no corpo, mas nada muito além disso. Ah, eu também sei a diferença entre uma calça jeans e uma de moletom, e que devia existir uma lei proibindo a fabricação de calças sem bolso. Mas, fora isso, nada.

Assim, peguei umas coordenadas com a esposa. Aliás, vocês sabiam que eu uso calça 40? Eu não sabia também, descobri isso hoje. Peguei dicas de loja (sempre lembrando ela de que “eu estou com a perna cheia de merda, precisa ser uma loja em que eu não precise falar com ninguém). Mas eis que chega a seguinte mensagem.

“Pega calça reta”.

“Não são todas retas?”

“Com a perna reta”

“Sim, eu já estava pensando na perna. A bunda eu sei que é redonda, mas pra mim todas as calças são retas. O conceito da calça é esse”.

“Não pega skinny porque é aquela que afina na perna”.

Ah, a calça de hipster. Então aquilo tem nome.

Essa informação é importante, porque calças skinny... Bem, eu não sou exatamente magro e minhas pernas são finas, então uma calça dessas... Bem, digamos que basta eu pintar uma calça skinny de laranja e pronto: minha fantasia de coxinha está pronta para o carnaval.

Assim, entrei na primeira Riachuelo que apareceu na minha frente, tendo apenas duas informações: “reta” e “40”. Só que assim que entrei na loja descobri que eu tinha um problema um pouco mais imediato: como achar a calça de homem?

Lembram que eu disse que não entendo muito de calças. Para mim, a melhor maneira de descobrir se uma calça jeans é masculina ou feminina é observando a placa na parede de loja. Se está escrito “seção masculina”, eu consigo concluir que aquelas roupas são as que eu preciso. Assim, entrei na loja e comecei a rodar pelos corredores, tomando o cuidado para não me aproximar das outras pessoas porque, na minha cabeça, até mesmo os seguranças do shopping já estavam procurando descobrir quem é o cliente do shopping que está fedendo a merda e precisamos expulsar essa pessoa daqui.

Depois de bancar o Pac-Man desviando dos fantasmas pela loja inteira, achei a seção masculina e fui atrás da tal calça reta e encontrei... Uma. Busquei meu tamanho e pronto. Calça 40. Tudo resolvido. The shit days are over.

Ou não.

Até eu que não entendo nada de calça podia enxergar que o negócio era horrível – a calça praticamente pedia para ser usada com um barbante no lugar do cinto, tudo combinando com um furo logo embaixo da inscrição “Maluf 86”.

Bom, entre comprar um calça dessas e uma skinny, minha única saída era ir em outra loja. E era isso que eu estava quase fazendo quando vi outro modelo de calças chamado slim. Lembrei do cantor de blues Magic Slim e fui olhar a calça, constatando que ela estava entre reta e a de hipster. Apanhei uma e fui para o provador.

Não deu outra. Cinco minutos depois, estava pagando a calça. Ou melhor, tentando pagar.

- Qual a forma de pagamento?

- Débito.

- O senhor não quer fazer o cartão da loja?

- Eu já tenho o cartão da loja, mas quero fazer no débito.

- No cartão da loja o senhor pode parcelar.

- Olha, eu realmente estou com pressa. É débito.

- E jogar o primeiro pagamento para a Copa do Mundo de 2022.

- Você não está sentindo um cheiro estranho?

- Não senhor.

- Tem certeza? Está um cheiro de... Não sei. Está um cheiro ruim aqui.

- Agora que o senhor falou... Parece cheiro de...

- Enfim, é débito.

Minutos depois, eu estava no banheiro do shopping, usando o isqueiro para arrancar as etiquetas da calça nova antes de vesti-la. E como não achei um incinerador nem um depósito de lixo radioativo para jogar a calça antiga, fui obrigado a jogá-la dentro da sacola, amarrar bem e enfiar na mochila, antes de sair do shopping e procurar um gramado para limpar o resto do tênis.

E, enquanto pensava se seria melhor jogar a sacola com a calça cagada no Rio Tietê ou se valia a pena cortar as pernas do joelho para baixo e transformá-la numa bermuda, percebi que aquela manhã tinha rendido uma história boa.

Respirei fundo. Será que eu ainda sei escrever coisas assim?