Janela Indiscreta
Acho que eu nunca comentei isso por aqui, mas o prédio em que moro fica ao lado de um edifício menor, mais antigo. Até aí, tudo bem. Eu moro em São Paulo e em Pinheiros. É inevitável que, para onde eu olhe, dê de cara com prédios e mais prédios.
Mas este prédio ao lado do meu tem uma peculiaridade: as janelas das salas dos apartamentos do fundo ficam quase de frente ao pequeno vitrô do meu banheiro. Ou seja, toda vez que eu fico em pé à frente do vaso, obedecendo ao meu sistema renal, observo a sala de uma família.
Felizmente, pela posição das janelas, eles não me vêem diretamente. Eles conseguiriam se tentassem com certo afinco, mas seria desagradável demais, tanto para eles, como para mim. Mas eu, ali da frente do vaso, vejo claramente o que acontece lá dentro.
Por um lado, é bom. Sempre lamentei o fato de não poder ler nada quando vou usar o vaso em pé (adoro aqueles bares que penduram algo na frente do mictório para você ler, e até mesmo já pensei em fazer o mesmo em casa, com jornais), e, assim, tenho com o que me distrair. Então, fico ali olhando a avó tricotando, ou o filho fazendo os deveres na mesa.
Por outro lado, é ruim. Por causa do pombo.
Sim, faz alguns meses que os meus vizinhos de banheiro adotaram um pombo de estimação. Tudo bem, não é exatamente um animal de estimação comum, mas lembre-se que estou falando de Pinheiros, então vale tudo. Aliás, eu não me surpreenderia se a família fosse formada por hippies que, cansados de combater a opressão do departamento de correios e telégrafos, decidiram se corresponder com os amigos usando pombos correios.
Enfim, até aí, tudo bem. A casa é deles, e, se quiserem ter um ornitorrinco de estimação, que tenham. Mas, confesso que não sou muito fã de pombos, desde o dia em que fui atacado por uma gangue deles na Avenida Paulista, anos atrás. Aliás, vale a pena contar essa história aqui antes de continuarmos.
Eu estava almoçando naquele McDonald’s que ficava perto da Brigadeiro Luis Antônio, num casarão antigo – hoje, acho que aquele endereço é uma agência do Banco Real. E eu estava almoçando sozinho, numa mesinha que ficava ao lado de fora, com a Paulista à minha frente. Assim que me sentei e comecei a comer, comecei a ouvir barulhos estranhos, de asas batendo.
Levantei os olhos do jornal e vi cerca de vinte pombos. Estavam pousados no parapeito ao meu lado, a cerca de meio metro de mim, olhando minhas batatas fritas. Não estou exagerando, eram uns vinte mesmo, quase um pequeno esquadrão. E estavam ali, imóveis, arrulhando (gostaram? Fui pesquisar no Google), cagando no parapeito e encarando minhas batatas.
Meu sentido de aranha disparou imediatamente. Qualquer movimento brusco e eu seria atacado pelos pombos, e perderia minhas batatas. Comecei a mastigar devagar, sem tirar os olhos deles. Já ouvi dizer que você não pode demonstrar medo na frente de animais, e aqueles pombos, aparentemente, podiam farejar medo – e batatas fritas – a quilômetros de distância.
Assim, fiz meu olhar Charles-Bronson-em-Era-Uma-Vez-no-Oeste e continuei comendo, encarando os pombos. E eles ali, arrulhando (agora que eu aprendi isso, vou usar o tempo todo) e esperando por um momento de distração da minha parte.
E evidentemente que, como eu sou eu, não demorou para este momento de distração acontecer. Quando fui pegar uma batata, a embalagem, que estava em pé, caiu, e as batatas se espalharam pela bandeja. Aos olhos dos pombos, aquilo significava, aparentemente, um ato de generosidade da minha parte, quase como um “ei, vocês aceitam batatas?”
Foi uma festa aviária. As pessoas deveriam achar que uma continuação de Os Pássaros estava sendo filmada na Paulista. Os pombos – todos eles – voaram para cima das minhas batatas e, claro, para cima de mim. Pousaram na mesa, pousaram na bandeja, pousaram nas cadeiras.
E pousaram em mim.
Eu era apenas um, e eles, um exército. Não havia muito que fazer. Assim, continuei comendo ali, com os pombos ao meu redor, na minha mesa e no meu ombro, como se eu fosse uma espécie de São Francisco – não de Assis, mas da Paulista. E passei o resto do almoço assim, soterrado em pombos e com as pessoas que passavam na Paulista rindo de mim, sem entender direito o que era aquilo. Sério, se pombos acessassem a internet, eu teria certeza de que se tratava de flash mob.
Isto posto, voltemos ao pombo dos meus vizinhos.
Se os membros da família ainda não descobriram que da janela deles é possível ver meu apartamento, o pombo já se ligou disso. Toda vez que eu apareço ali, dou de cara com o bicho, que fica numa gaiola quadrada, logo abaixo da janela, olhando fixamente para mim.
Na verdade, eu acho que o pombo está obcecado por mim. Às vezes, eu entro no banheiro e dou uma espiada rápida pela janela, e lá está ele, olhando na direção da janela. Ou seja, ele não fica olhando para mim quando estou ali, ele fica olhando para o meu banheiro o dia inteiro, esperando eu aparecer. É quase um pombo-stalker.
E isso está começando a me irritar. No começo eu achava curioso, mas esta falta de privacidade está começando a me deixar puto. Outro dia fiz um gesto obsceno para o pombo, mas ele não se tocou. Deu uma virada rápida de cabeça (o que foi bom, pois eu estava começando a acreditar que ele estava empalhado), arrulhou alguma coisa e voltou a olhar para mim.
Esta é minha rotina agora. Eu não posso mais usar o banheiro direito porque fico sendo espionado por um pombo voyeur. Tanta coisa para se fazer na vida, e ele fica ali na janela, desocupado, observando as pessoas dentro do banheiro – aposto que quanto estou tomando banho, ele fica esticando o pescoço para ver melhor. Imagine só o que ele não pensa sobre mim com aquela cabecinha doentia dele?
Qualquer hora eu vou colocar a cara na janela e gritar que “vou chamar a polícia, seu filho da puta!”, para ver se ele se assusta.
E não, não vou fechar a janelinha do banheiro. Não vou dar este gostinho ao pombo. Porque se eu fizer isso, é capaz de ele achar que eu estou bancando o difícil e mais dia menos dia, vou acordar e dar de cara com pombo na minha varanda, esperando eu passar de cueca pela sala.
Vou agüentar firme e seguir minha vida, como se nada estivesse acontecendo. E fazer de tudo para não imaginar que tipo de nojeiras ele fica pensando sobre mim. Pombo cafajeste.




