25 de janeiro de 2015

O Aniversário do Monstro

O Monstro abriu os olhos.

Não estava dormindo, estava apenas com os olhos fechados. Na verdade, o Monstro não dormia há décadas, mas passava a maior parte do tempo de olhos fechados. Alguns diziam que ele fazia isso somente para não ver no que havia se transformado; outros, mais cínicos, afirmavam que ele ficava de olhos fechados justamente saboreando o fato de ser um monstro.

Para nós, não faz diferença. O que precisamos saber é que ele abriu os olhos, pois o Monstro abria os olhos apenas uma vez por ano, e sempre no mesmo dia.

Olhou para sua forma imensa e de um acinzentado que nunca deixava quando era dia e quando era noite, e lembrou-se de um tempo, que parecia séculos atrás, em que ainda tinha verdes e azuis. Era uma época em que era mais humano que monstro, mas que hoje parecia ser tão irreal e intangível quando um pedaço de sonho que o cérebro se esqueceu de apagar.

O Monstro sentia saudade das cores e da luz, mas sabia que não havia se tornado monstro por ter se tornado cinza. Era justamente o contrário: se tornou cinza apenas porque virou um monstro. E sabia também que o grande problema de ser um monstro não é ser odiado – mesmo porque existem muitos monstros por aí que são amados, apesar de não conseguirem amar – mas sim que, da mesma forma que é fácil se transformar em um monstro, é muito difícil para um monstro voltar a ser humano.

Assim, o Monstro não pensava em maneiras de voltar a ser humano, pois sabia que isso não dependia dele. E, mesmo se dependesse, não saberia nem como começar.

Suas artérias sujas – que para nós pareceriam ruas – se espalhavam por quilômetros, cuspindo fumaça e fuligem. Algumas até mesmo por baixo da terra ou ligadas por pontes que atravessavam rios mortos e cada vez mais secos, todas elas entupidas de violência, descaso e desolação. Seus ossos – que nós chamaríamos de prédios – se erguiam rumo ao céu, grandiosos e sombrios, poderosos e gananciosos.

As artérias e os ossos mantinham o Monstro vivo não somente por serem partes de seu corpo, mas por fornecer a energia que precisava para sobreviver. Monstros conseguem se alimentar somente do mal que possuem, e não seria diferente com este Monstro. Absorvia os sonhos abandonados que encontrava em meio à poeira nas artérias, e a felicidade abandonada ao redor dos ossos. E mantinha-se vivo, sabendo que no dia seguinte encontraria novos sonhos esquecidos e outras lágrimas cansadas para se alimentar.

Não. Se dependesse do Monstro, ele não saberia como voltar a ser humano. Havia passado tempo demais como monstro.

E respirou fundo, pois era seu aniversário.

E, se para nós o aniversário é uma forma de lembrar o quanto somos amados não por algo que fizemos, mas sim por sermos exatamente aquilo que nós somos, o Monstro achava seu aniversário um dia triste. Pois sabia que a cada ano que ele passava como monstro, mais difícil seria voltar a ser humano. Quanto mais tempo ficasse como monstro, mais monstro seria. E chorou, com seus onze milhões de pares de olhos, por saber que a tarefa havia se tornado ainda mais difícil.

Mas, neste aniversário, o monstro resolveu dar a si mesmo um presente. Sabia que ainda tinha alguns pequenos lapsos de humanidade e resolveu passar algumas horas prestando atenção neles.

Eram pequenos instantes no tempo, quase insignificantes. Não temos como dizer o que Monstro viu, mas eram apenas pequenos detalhes - para nós, eles seriam equivalentes ao sorriso de uma criança correndo no parque, ao casal de idosos tomando café de mãos dadas, ao coração acelerado do adolescente que se apaixona pela primeira vez.

Não temos como dizer que espaço esses lampejos de humanidade ocupavam, mas era bem pequeno. No nosso mundo, seriam como uma árvore que desafia o cinza com suas flores amarelas, os raios de Sol que driblaram o prédio para banhar um filhote de gato, uma música doce que escapa pela porta do apartamento vizinho.

Fazendo de conta que somente esses lampejos existiam por alguns minutos, e disse baixinho para si mesmo, usando o nome pelo qual era conhecido – e, muitas vezes, temido – entre os outros monstros.

- Parabéns, São Paulo.

E sorriu com seus onze milhões de bocas. Sabia que a transformação não estava completa, e que poderia voltar a ser humano um dia. Não dependia dele, mas era possível. Havia esperança.

Mesmo que somente algumas gotas. 

19 de janeiro de 2015

A Vida Passa na Frente de Casa

Tem duas linhas de ônibus que passam na frente de casa.

Elas levam dezenas de pessoas para lá e para cá, desde o momento que acordo até a hora que vou dormir. Quando estou fumando e pensando num texto enquanto olho a rua, eu vejo uma fração do dia de cada uma delas. Durante um instante para mim e um instante para elas. Às vezes, elas me enxergam. Às vezes, não. Eu as enxergo sempre.

E enxergo como o dia passa dentro dos ônibus, no rosto de cada uma delas. São expressões que duram segundos e que me mostram como o tempo está passando.

De manhã cedo, por exemplo, o ônibus está cheio – às vezes até mesmo com gente em pé, porque hoje em dia a gente acha que é normal começar o dia em pé dentro de um ônibus que sacode para cima e para baixo. Todos eles – os que estão em pé ou sentados – estão com aquele olhar de quem dormiu pouco e ainda não conseguiu espantar o sono do rosto.

Alguns, poucos, mexem no celular, sempre de forma quase automática. Mas a maior parte deles olha inerte pelas janelas, talvez tentando adivinhar se o dia será bom. Como moro em frente a uma igreja, alguns até mesmo fazem sinal da cruz para pedir a benção de Nosso Senhor. Todos eles querem apenas uma coisa: que o dia passe rápido, sem grandes problemas e que em algumas horas estejam no mesmo ônibus, que agora desce à rua em sentido contrário, voltando para casa. À noite, também farão o sinal da cruz, agradecendo por mais um dia – que pode nem ter sido tão bom assim, mas que cumpriu seu papel de ser mais um dia.

Às vezes eu reconheço as pessoas que estão no ônibus. O garoto que deve estar no primeiro emprego para o orgulho de sua mãe. O homem de terno com ar cansado que olha pela janela se perguntando se ele abriu mão de seus sonhos em algum momento, ou se eles apenas desistiram de andar de ônibus todo dia. E a mulher de cinquenta e poucos anos que tricota meias para o filho de sua filha, pois uma criança pode ser jogada num mundo desses desde que tenha meias para se proteger do frio, porque podemos estar no verão, mas um dia o inverno vai chegar e com frio não se brinca.

Vejo todos eles começando o dia e voltando para casa, entre pessoas que mexem no celular e fazem planos para o final de semana ou comentam a foto da amiga; que folheiam o jornal descobrindo que a vida está mais difícil do que costumava ser e que parece não ter solução; ou que fecham os olhos e mergulham dentro de suas músicas, que os lembram de uma paixão antiga, de um beijo perdido, de um abraço que nunca foi dado.

Durante o dia, são menos pessoas. Na hora do almoço, muitos estudantes fazendo barulho ao voltar para casa, todos eles sacudindo entre a vida adulta e a infância, com suas paixões secretas e aquele medo da prova de química do dia seguinte. Alguns idosos, que aproveitaram que agora que o ônibus está vazio podem ir visitar a amiga e tomar um pouco de café e matar a saudade de um tempo em que as pessoas visitavam as outras. Um ou outro com um envelope grande na mão. Provavelmente um exame médico. Sempre que eu vejo um envelope desses, peço para estar tudo bem, mas sei que nem sempre vai estar tudo bem.

Vejo muito o ônibus esvaziar à noite. Quando o Sol se põe, são mais estudantes, estes com ar mais cansado. Não sacodem entre infância e vida adulta simplesmente porque foram arrancados mais cedo da infância e jogados para dentro de um ônibus, precisando estudar à noite para trabalhar de dia porque o dinheiro está cada vez mais curto e as coisas na fábrica que seu pai trabalha não estão muito bem, é hora de você começar a ajudar em casa. Ouvem música, digitam no celular, folheiam o livro da escola ou afugentam o cansaço com uma risada daquelas que só quem é muito jovem – mesmo que não se sinta mais tão jovem assim – consegue dar.

E as pessoas vão minguando, se tornando cada vez mais raras, até que sobram somente duas pessoas: o motorista e o cobrador. Nas últimas viagens, o cobrador já está de pé ao lado do motorista. Não há passageiros então eles podem conversar em paz, compartilhando segredos que os outros passageiros não podem ouvir. São histórias de famílias, é o menino da minha rua que foi preso, é a mulher do meu prédio que traiu o marido e terminou o casamento, e minha filha que inventou de morar com o namorado no ano que vem e acha que a vida é fácil, e você vai ao futebol lá no campinho este final de semana não posso vou estar de plantão no ônibus neste domingo.

Sim, porque sábado e domingo também tem ônibus. E eu vejo todos eles enquanto fumo. São os ônibus das pessoas coloridas, que não estão trabalhando ou estudando, e sim passeando pela cidade mais vazia, com mais pernas de foras e sandálias, e com menos fumaça para tossir. São casais de namorados que acabaram de começar a namorar, são casais de namorados que ainda não sabem que são namorados, são casais de namorados que estão casados há mais de vinte anos. Todos eles sacudindo de mãos dadas nos bancos, felizes porque é final de semana, e o mesmo Sol que faz calor durante a semana faz o dia ficar bonito no final da semana.

Mas no final de semana o ônibus vai esvaziando conforme as horas passam. Os casais começam a rarear, pois sabem que quando a noite cai é hora de ficar de mãos dadas em casa. Nas últimas viagens, sempre sobra apenas uma ou outra pessoa, normalmente um jovem que, sozinho no ônibus, volta depois de deixar a namorada em casa. Está apaixonado como nunca – porque sempre é como nunca – e olha pela janela procurando encontrar algo que a lembre dela, sabendo que não precisa de nada para se lembrar dela.

Manda uma mensagem escondido do mundo, dizendo que já está com saudade e ela diz que também. E, no meio do sorriso, lembra-se que amanhã o dia será puxado no trabalho e que terá prova à noite. Lembra-se que as coisas não estão bem no emprego do pai, e que a irmã vai morar com o namorado, e a mãe já está costurando meias, prevendo que o primeiro neto chegará logo. Mas sente que tudo vai ficar bem, pois está apaixonado e não trocaria de lugar com ninguém no mundo.

Mas ao perceber que está na frente da igreja, faz o sinal da cruz e pede por uma boa semana. Pois não custa nada pedir por isso enquanto o ônibus sacode. Logo, ele descerá do ônibus e como está feliz e é o único passageiro e não está sendo empurrado, ainda encontrará tempo para dar boa noite ao motorista, que ficará sozinho com o cobrador para a última viagem, onde conversarão sobre a vida.

Sobre a mesma vida que desfila na frente da minha casa dentro dos ônibus, da hora que acordo até a hora que vou dormir.

31 de dezembro de 2014

Jogos Caseiros Mortais

Arquivo da Polícia Militar
Transcrição de Depoimento
Rob Gordon
31/12/2014


Detetive Palhares: Me conte o que você lembra. Desde o começo.

Rob Gordon: Eu não sei. Eu estava em casa, mexendo no computador.

Detetive Palhares: Algo específico?

Rob Gordon: Não. Nada demais. Estava fazendo uns textos. E de repente...

Detetive Palhares: De repente...?

Rob Gordon: Eu não sei. Eu apaguei.

Detetive Palhares: Apagou?

Rob Gordon: Isso. Ou algo parecido com isso. Porque de repente eu acordei e estava deitado no quintal da minha casa. E não sei como cheguei até ali.

Detetive Palhares: Você estava sozinho no quintal?

Rob Gordon: Sim. Tinha apenas um balde ao meu lado. Um balde e uma pequena televisão.

Detetive Palhares: Uma televisão?

Rob Gordon: Isso. E assim que acordei a televisão se ligou sozinha.

Detetive Palhares: E o que aconteceu então?

Rob Gordon: Tinha algo na tela da TV. Não era um monstro, parecia ser uma máscara. Era como se alguém estivesse usando uma máscara, toda branca mas com círculos vermelhos nas bochechas.


Detetive Palhares: Parecido com este retrato falado?

Rob Gordon: Isso! Era a mesma máscara. Mas não era essa pessoa, eu acho. Dava para ver o cabelo por trás da máscara. E eles eram loiros. Loiros e compridos. A pessoa era loira. E ela... começou a falar comigo.

Detetive Palhares: O que ela disse?

Rob Gordon: Ela disse meu nome. Não lembro se foi “oi, Rob Gordon”, ou “boa tarde, Rob Gordon”. Mas ela disse meu nome. E disse que queria jogar um jogo comigo.

Detetive Palhares: Um jogo?

Rob Gordon: Isso.

Detetive Palhares: E o que você disse?

Rob Gordon: Eu disse que estou jogando Fallout New Vegas no PC, e que se ela quisesse a gente poderia jogar junto.

Detetive Palhares: E o que a pessoa da máscara respondeu?

Rob Gordon: Me xingou de imbecil.

Detetive Palhares: E então?

Rob Gordon: Então ela disse que iríamos jogar outro jogo. Um jogo especial que ela havia preparado.

Detetive Palhares: Como assim?

Rob Gordon: Ela disse que no dia seguinte haveria um churrasco na minha casa. E era verdade, era o churrasco de final de ano. E sabia o quanto eu gostava de churrasco, mas queria que eu provasse isso.

Detetive Palhares: Provasse?

Rob Gordon: Isso. Ela queria ver se eu era capaz de transpirar toda a carne que iria comer. Ela disse que eu passei uma existência inútil, indo de churrascaria em churrascaria. E que é hora de começar a mostrar o meu valor. E queria ver a minha vontade de comer churrasco.

Detetive Palhares: Como?

Rob Gordon: Foi o que eu perguntei. E ela mandou olhar o balde. Tinha água com espuma. Era como se fosse um sabão. E disse que se eu olhasse ao redor, iria encontrar uma vassoura. E que eu apenas comeria o churrasco se transpirasse lavando o quintal inteiro. Disse que eu só comeria o churrasco se soubesse dar valor para o churrasco. E para a sujeira que ele faz no quintal.

Detetive Palhares: Você pensou em recusar?

Rob Gordon: Sim. Eu disse que não iria lavar nada, que era melhor me soltar.

Detetive Palhares: E então?

Rob Gordon: A pessoa com a máscara ficou me olhando pela televisão... Ela me via ali, eu procurei câmeras mas não achei. E disse que se eu me recusasse, eu iria comer apenas...

Detetive Palhares: Comer apenas...?

Rob Gordon: É difícil...

Detetive Palhares: Por favor, precisamos do seu depoimento.

Rob Gordon: Desculpe... Rúcula. Ela disse que eu iria comer apenas rúcula. E sem tempero! No Ano Novo! Disse que a escolha era minha. Vida ou morte.

Detetive Palhares: Vida ou morte? Ela iria matar você?

Rob Gordon: Sim, eu perguntei por que ela estava falando de vida ou morte. E ela respondeu “linguiça ou agrião, cerveja ou suco verde, picanha ou tomatinhos, vida ou morte. É tudo a mesma coisa. Faça sua escolha”. Foi horrível.

Detetive Palhares: E o que você fez?

Rob Gordon: O que você faria? Eu levantei e comecei a esfregar o quintal! Era meu churrasco que estava em jogo!

Detetive Palhares: E você lavou o quintal inteiro?

Rob Gordon: Mais ou menos. De repente, minhas costas começaram a doer. Eu esfregava com a vassoura, e quando parava para descansar, descobria que não conseguia mais ficar com a coluna reta. A dor... A dor era demais... Às vezes eu caía no chão gemendo de dor, e não conseguia me mover.

Detetive Palhares: Entendo.

Rob Gordon: E o suor... Eu transpirava mais que em qualquer outro dia da minha vida. A dor, o suor...

Detetive Palhares: Você não pensou em parar?

Rob Gordon: Sim. Mas toda vez que eu parava, a pessoa com a máscara aparecia na televisão e dizia que “você lavou o suficiente para lamber um pedaço de fraldinha”, ou “você se esforçou, poderá cheirar uma linguiça”. E eu ficava aterrorizado e começava a lavar de novo, gemendo de dor nas costas.

Detetive Palhares: Você estava sozinho?

Rob Gordon: Sim. No começo, sim. Mas depois os gatos da vizinhança foram até o muro observar tudo. Foi humilhante demais. Minhas costas... Minhas costas doíam muito. E o sabão não era bom, eu tinha que esfregar cada pedaço do quintal três ou quatro vezes. E não podia usar muita água.

Detetive Palhares: E o que aconteceu então?

Rob Gordon: Eu lavei o quintal inteiro. Não ficou muito bom, mas consegui lavar inteiro. E me ajoelhei na frente da televisão e disse que havia feito o que ela havia pedido. Eu queria ir embora. Eu queria ir para dentro de casa, tomar uma cerveja.

Detetive Palhares: E a televisão respondeu?

Rob Gordon: Sim. Disse que eu havia cumprido minha parte no acordo. E que eu estava livre.

Detetive Palhares: E o churrasco?

Rob Gordon: Ela não disse nada. Eu devo ter apagado novamente porque acordei no meio da rua.

Detetive Palhares: Na rua?

Rob Gordon: Isso. Na frente de um mercado. E tinha um gravador no meu bolso.

Detetive Palhares: Um gravador?

Rob Gordon: Isso, um pequeno gravador com uma fita K7.

Detetive Palhares: Você tocou a fita?

Rob Gordon: Sim. Era a mesma voz. Dizia que eu devia comprar coisas no mercado para o churrasco.

Detetive Palhares: Que coisas?

Rob Gordon: Rúcula. Alface. Cenoura. Agrião.

Detetive Palhares: Entendo.

Rob Gordon: Acelga! Ela queria que eu comprasse essas coisas! No Ano Novo! Você consegue imaginar uma crueldade como essa?

Detetive Palhares: Foi por isso que você começou a destruir as prateleiras de vegetais e as de produtos de limpeza do mercado?

Rob Gordon: Sim. Eu estava fora de mim.

Detetive Palhares: Entendo. Muito obrigado pelo seu depoimento, Sr. Gordon. Uma viatura vai acompanhá-lo até em casa. Se precisarmos de mais informações, entraremos em contato.

Rob Gordon: Não tem como a viatura parar numa churrascaria?

Detetive Palhares: Infelizmente não. Podem levá-lo.

Rob Gordon: Eu pago! Avisa o cara da viatura que eu pago! Eu preciso só de um pedacinho de cupim! Só um!

30 de dezembro de 2014

Af Flores da Minha Fogra

Era dia 24 de dezembro e eu saí para comprar flores.

Isso porque minha sogra comemora seu aniversário justamente na véspera do Natal. Assim, a Esposa pediu para que eu saísse e comprasse flores para ela. Na véspera, ela já havia me dito qual eu deveria comprar.

– Hortênsia. Não esquece.

– Hortênsia. Fácil.

– Não vai esquecer?

– Não, é só me lembrar de basquete. Basquete. Hortência. Pronto.

Assim, eram pouco mais de dez horas da manhã eu estava entrando em uma floricultura aqui ao lado. Na verdade, existe um polo de floriculturas aqui ao lado, por causa do cemitério da Vila Mariana. Ou seja, era impossível eu não encontrar uma hortênsia. Entrei na primeira.

– Você tem aí Magic Paul... Não, espera. Era a outra. Hortência. Você tem Hortênsia?

– Não.

Entrei na segunda.

– Você tem hortênsia?

– Não. Aquela ali com parede roxa deve ter.

Entrei na floricultura de parede roxa.

– Você tem hortênsia?

– Não. Você vai encontrar naquela com porta amarela.

Comecei a ficar de saco cheio. O que devia ser uma simples compra de flor estava se transformando em uma caça ao tesouro. Entrei na floricultura de porta amarela já esperando encontrar uma pista como “sua busca por uma flor o levará ao muro, que mostrará o caminho para o mundo indivisível” ou qualquer outro texto sem sentido que poderia ser escrito pelo Mestre dos Magos ou pelo Humberto Gessinger.

Mas na verdade, fiquei surpreso ao encontrar a mesma pessoa que me indicou a floricultura de parede roxa. Eu já havia entrado naquela floricultura. Ou seja, eu estava andando em círculos. Era hora de romper o ciclo.

– Oi. Você tem hortênsia?

– Não. Aquela ali com par...

– A da parede roxa não tem.

– Não?

– Não. Eu já fui lá.

– Ah... Bom, sei lá. Tenta nessa aqui do lado, então.

– Certo.

Entrei na tal loja ao lado e me vi numa espécie de colagem com os melhores momentos de Seinfeld. Primeiro, o dono da floricultura não estava ali. A loja estava deserta. Mas, de repente, ele surgiu atrás do balcão, me dando bom dia no melhor estilo “hellooooooooo” (se você não sabe do que estou falando, clique aqui). Segundo, ele era a cara do Soup Nazi (se você ainda não sabe do que estou falando, clique aqui).

– Em que pofo ajudá-lo?

– Oi?

– O que vofê deveja?

Língua presa. O Soup Nazi era, na verdade, um Foup Navi. Olhei no relógio. Eu estava há quarenta minutos tentando cumprir uma tarefa que pessoas normais fariam em cinco minutos. Assim, resolvi tentar.

– Você tem hortênsias?

– Hortênfiaf? Claro! Tenho hortênfias lindaf, acabaram de fegar!

– Ah, que bom. Posso ver?

– Ora, elaf eftão aí do feu lado!

– Oi?

– Af hortênfias eftão do feu lado.

– Ah.

Olhei para o lado e descobri vasos de todos os tipos do meu lado. Rosas. Girassois. Petúnias. Crisântemos. Flores do campo. Margaridas. Begônias. Tulipas. Orquídeas. Vasos e mais vasos de todas as cores e tamanho. Uma pessoa que entendesse do assunto certamente teria encontrado as hortênsias ali, mas o problema é que para mim, todos os vasos tinham flores da mesma espécie que, por coincidência, tem justamente o nome de flor.

Ok, eu conheço rosas e margaridas (e parto do princípio que um vaso com muitas flores diferentes e coloridas sempre são flores do campo), mas não sou especialista a ponto de saber a diferença entre uma hortênsia e, por exemplo, uma violeta.

Assim, fiquei olhando para a parede com cara de interrogação, esperando uma das flores pular do vaso, correr na minha direção abanando o caule e lamber minha mão gritando “sou uma hortênsia, me leve para casa com você”, mas nada disso aconteceu. Assim, o Flower Nazi veio me ajudar. Se aproximou de mim e apontou um vaso com flores azuis.

– Efta aqui é uma hortênfia. Linda, linda.

– Ah. Entendi.

– Maf eu tenho efa outra aqui também.

Após dizer isso, ele foi até o balcão e pegou um vaso. Com flores lindas... E vermelhas.

– Olha efa como eftá linda.

– Mas isso é hortênsia?

– Fim.

– Mas ela é de outra cor. Isso pode para hortênsia também?

– Claro.

Foi quando eu lembrei que, em algum momento da minha vida, a Esposa comentou comigo sobre isso. Ela disse algo como “as cores da hortênsia dependem do PH da terra”, que deve ser o correspondente botânico de “o macho da drosófila não pratica crossing-over”, que é uma frase que os professores de biologia repetiam no colegial inteiro como um mantra, mesmo que o assunto da aula não fosse o macho da drosófila ou crossing-over.

Ou seja, é um daqueles ensinamentos que parecem fofoca das outras moscas (ou, no caso do PH, das hortênsias) e que não fazem sentido algum – francamente, o fato do macho da drosófila não praticar crossing-over me diz apenas que ele jamais vai participar de histórias junto com os heróis da Marvel ou da DC (mas não impede que surja uma série de ilustrações com as princesas Disney vestidas de macho da drosófila, porque aparentemente as princesas Disney podem ser qualquer coisa, até mesmo um bicho que não pratica crossing-over).

– Qual vofê vai levar?

– Ah, desculpe, eu estava distraído, respondi, guardando a Pocahontas vestida de mosca num canto do meu cérebro e me concentrando nas flores.

Pois agora eu tinha um problema. Minhas instruções eram duas: comprar hortênsias e as mais bonitas. Ninguém havia falado nada sobre as cores. Pensei em dizer ao Flower Nazi que eu era daltônico e que ela melhor ele escolher, mas algo me dizia que a margem de erro disso seria grande. Assim, fiz o que qualquer macho-alfa faria numa situação dessas: respirei fundo, estufei o peito e, sem titubear, liguei para a Esposa em busca de socorro.

– Tem duas hortênsias aqui. Uma azul e uma vermelha.

– NÃO É VERMELHA! É PINK!, corrigiu o Flower Nazi do meu lado, provavelmente já ensaiando me chutar da floricultura gritando que “no flower for you!”

– Desculpe, Pink. Tem uma azul e uma pink. Qual eu levo?


– Mas elas estão bonitas?

– Sim. Qual eu levo?

– Elas são de quando?

– Por favor, eu preciso somente de uma cor. Azul ou Ver... Ou Pink?

– Traz azul.

Desliguei e avisei o Flower Nazi disso. Eles fez um embrulho enquanto me contava toda a história das hortênfias ao longo dof féculos, de como elaf fão floref delicadaf maf, ao mefmo tempo, reviftentes, e que fe eu quivefe plantar elaf no jardim não teria problema algum. Eu agradeci, paguei e fui embora.

Ou melhor, tentei ir. Porque o arranjo era tão grande que ele tapava totalmente meu rosto e eu não conseguia enxergar nada à minha frente. Tudo o que as outras pessoas da rua enxergavam era um vaso de hortênsias gigantesco e mutante, que havia criado pernas e estava fugindo da floricultura em direção à Lins de Vasconcelos.

Assim, fui esbarrando nas pessoas, derrubando velhinhas e atropelando crianças, pedindo desculpas... E segui meu caminho ouvindo risadas, xingamentos, reclamações e um zumbido. Logo, as reclamações e xingamentos pararam e sobrou apenas o zumbido. Que vinha das flores. Abaixei um pouco o vaso e dei de cara com uma abelha, se regozijando dentro das hortênsias.

Eu olhei para ela.

Ela olhou para mim.

O tempo congelou. O único som que se ouvia era o do vento. Eu e a abelha nos encaramos, esperando por qualquer sinal de movimento brusco do adversário. Ao menor movimento que eu fizesse, a abelha me picaria no rosto. Ao menor movimento da abelha, eu jogaria o vaso num muro e voltaria para casa dizendo que fui assaltado e roubaram as flores. Nossos olhos se estreitaram. Senti uma gota de suor descendo pelas minhas costas. Mas somente um de nós dois sairia vivo ali. Mas, sem armas, precisei jogar sujo.

– Eu sei que seu macho pratica crossing-over, eu disse.

A abelha olhou para mim com desprezo e chegou à conclusão que eu não valia a pena. Assim, ao invés de me atacar, saiu voando, provavelmente para não ser vista em público ao meu lado pelas outras abelhas. Ou para chamar reforços.

Voltei para casa o mais rápido que consegui. A Esposa achou as flores lindas. E, à noite, a sogra ficou muito feliz também.

– Que hortênsias lindas!

– Gostou? Eu que escolhi.

– A cor delas é linda!

– A senhora sabia que é o PH da terra que determina a cor das hortênsias?

Ela olhou para mim sem entender nada.

– É sim, é o PH da terra. Deixe só eu pegar um uísque e eu vou lhe contar sobre o macho da drosófila. É uma história bem bacana.

23 de dezembro de 2014

O Homem que Falava Djavanês e Outras Histórias de Amor

Dizem que todo casamento precisa de manutenção. Mas, ao mesmo tempo, dizem que todo casamento precisa de risadas. Eu e a Esposa unimos o útil ao agradável fazendo essa manutenção com risadas durante as compras.

De verdade, uma das coisas que mais gosto de fazer é ir ao mercado com ela – tirando, claro, compra do mês, que eu me recuso por acreditar que ela tem esse nome não porque você compra produtos suficientes para um mês, mas sim porque você passa um mês inteiro dentro do mercado, e minha tolerância dentro de um lugar desses é de quinze minutos. Mas como ela normalmente faz compra do mês com a minha sogra, eu fico em casa sem culpa.

Outra coisa que eu não gosto é ir até a farmácia com ela. Isso porque eu sou casado com uma mulher perfeita: ela não gosta de comprar roupas ou sapatos e – ainda mais importante – sabe que qualquer marido considerar um saco estar ao lado de uma mulher comprando roupas e sapatos.

Mas, ela tem seu ponto fraco: xampus. Sempre que vou até a farmácia com ela, a parte dos xampus é um inferno. Ela examina todos os rótulos de todos os frascos, escolhendo qual levar. Uma vez questionei porque ela não leva um que sabe que é bom, e ela me disse que não adianta, é preciso trocar a marca porque os cabelos se acostumam com o xampu e ele perde o efeito. Tipo os borg em Star Trek. Você atira uma vez, o borg morre. Você atira outra, o borg morre. Você atira a terceira vez e não acontece nada com o borg, porque todos os outros borgs da galáxia já se adaptaram.

Então, comprar xampu é um tormento – mas aí eu penso que faço a mesma coisa – olhar todos os produtos com calma – quando estou dentro da Comix então eu nem brigo. Pelo contrário, normalmente vou fumar na calçada e a deixo em paz. Claro que nem sempre isso é possível: dia desses estávamos na Ikezaki – que é praticamente a sucursal do setor de cosméticos do inferno na terra – e fui obrigado a presenciar uma conversa entre ela e vendedora.

Tentei acompanhar, mas quando a vendedora disse que o xampu tal não tinha sal eu percebi que não entendo nada disso – sou do tempo que os anúncios de xampu diziam que tinha (ou que não tinha, não lembro) jojoba. Sal, para mim, é novidade. Aí quando a vendedora começou a falar de selante, eu somei essa informação com o sal e tive vontade de perguntar se “vocês estão falando de carne, porque carne eu entendo um pouco”, mas fiquei quieto.

Aliás, a culpa não é minha se comprar xampu é algo que parece ser feito sempre com códigos. A vendedora falou uma hora sobre encapar o fio – o que quase me fez perguntar se a conversa tinha mudado para instalações elétricas – e como este produto aqui hidrata o cabelo – o que para mim pareceu óbvio, já que ele deve ser aplicado no banho, e banho tem água e água hidrata. Quando eu vi, eu estava olhando ao redor procurando por um milagre (leia-se: uma televisão instalada em um canto passando coletâneas de gols da Copa, cercada por maridos que tomavam cerveja e conversavam sobre “que fim levou o Josimar?”).

Mas estou divagando aqui. O xampu está nas compras que odeio fazer com a Esposa, e este post é sobre as compras que gosto de fazer com a Esposa. E essas normalmente são as compras pequenas, que eu sempre vou com ela. Na verdade, quando vou comprar algo rápido no mercado e ela não está ocupada, eu sempre a chamo para ir comigo. Assim vamos juntos, damos uma volta rápida e fazemos a tal manutenção do casamento – com direitos, às vezes, a dancinha dentro do mercado. E, de quebra, construímos alguns dos melhores diálogos do nosso casamento nessas ocasiões. Eu sempre coloco uma ou outra no Facebook, em textos curtos.  O de hoje vou colocar no blog.

Estávamos no mercado quando começou a tocar Djavan. Eu não sei o nome, mas é aquela mesma que você pensou, do deserto. Imediatamente eu avisei a Esposa que:

- Está tocando Djavan. É hora de ir embora.

- Djavan não é ruim.

- Não, não é. Mas eu me sinto um idiota escutando Djavan, porque eu não entendo absolutamente nada da letra.

E é verdade. As letras do Djavan são um mistério para mim. Se elas fossem escritas em formas de números e equações pelo Stephen Hawking, talvez eu achasse mais fácil entender. Mas quanto mais eu presto atenção nas letras do Djavan, mais eu me convenço que as únicas frases que entendo são aquelas que ele repete “iê-iê-iê” ou “iô-iô-iô” – na verdade, é quase um paradoxo: para mim, o Djavan só faz sentido nas frases em que ele não tentou colocar um sentido.

Enfim, pagamos as compras – enquanto tentávamos nos lembrar de qual novela era essa música (Top Model, certo?) – e voltamos para casa conversando sobre a música. Eu falei primeiro.

- Essa música está sempre nas listas das músicas que as pessoas entendem errado. Porque todo mundo entende “amarelo deserto”.

- É “amar é um deserto”. É por isso que você não entende.

- Eu sei que é “amar é um deserto”. Estou falando que todo mundo entende “amarelo deserto”. Ela não faz sentido porque não faz sentido. Na verdade, “amarelo deserto” faz mais sentido, porque o deserto é amarelo. Claro que seria melhor “deserto amarelo”, já que “amarelo deserto” é como se fosse “música: Djavan / letra: Yoda”, mas faz sentido.

- Só-Sei-Vi-Ver-Se-For...

- Essa parte também é estranha demais, ele falando de soquinho. Parece que ele está num daqueles concursos de soletrar as palavras. Ou que está imitando o William Shatner. Mas, enfim, vamos ao deserto. “Amar é um deserto e seus temores”. Qual o sentido disso? O que são os temores do deserto? O Sol? Um escorpião?

- Deve ser a solidão.

- Mas por que amar é a solidão? Não deveria ser o contrário?

- Não quando você ama e não é correspondido.

- Ah, mas a música não diz isso. Ela diz “amar”. E não [aqui eu comecei a cantar] “amar e não ser correspondido é o deserto e seus temores”, ou [cantei de novo] “amar platonicamente é o deserto e seus temores”. Não, não faz sentido.

- Faz sim.

- A partir do momento que amar é o deserto é seus temores, você precisa conhecer o deserto para saber do que ele está falando. Ou seja, a única que tem condições de enxergar algum sentido nisso é o Lawrence da Arábia.

Ao falar isso eu me perdi na conversa. Imaginei o Lawrence da Arábia com uns treze anos de idade, se apaixonando pela melhor amiga, ou pela menina mais idiota da escola. Todos os seus amigos o alertam de que ele vai se machucar com isso, mas tudo o que ele faz como resposta é apagar um fósforo com os dedos (seus amigos acham legal ele conseguir fazer isso) e responder que “it’s going to be fun”. Quando terminei essa pequena encenação de Lawrence da Arábia – Ano Um na minha cabeça, estávamos no portão de casa e a Esposa disse:

- Quero comprar flores à tarde. Você vai comigo?

- Vou, clar... Quer dizer, é só flor, certo? Não tem xampu?

- Só flor.

- Você acabou de arrumar um encontro.