12 de novembro de 2016

That Special Place

Eu tenho uma facilidade muito grande de chorar em shows. Às vezes o choro vem em capítulos, como nas três vezes que chorei ao assistir a um show do Paul McCartney pela primeira vez; ou ele explode de uma vez e me faz soluçar, como quando o Iron Maiden tocou Wasted Years – já falei aqui neste blog que foi a primeira música deles que ouvi.

E, às vezes, ele é discreto e apenas deixa meus olhos molhados, como aconteceu quando o Guns N’ Roses entrou no palco ontem.

Não foi um momento fácil para mim. Guns N’ Roses foi a primeira banda que eu declarei ser minha, lá pelos idos de 1989 – eu ouvi Beatles antes de ouvir Guns, mas Beatles entrou no rol de “minhas bandas” somente anos depois. Sim, existiram muitas bandas que foram “minhas”.

E o Guns foi a primeira. Assistia ao Clip Trip esperando pelos clipes deles. Acompanhei todas as notícias possíveis sobre Use Your Illusion. Me lembro da fila quilométrica na porta da Woodstock no dia do lançamento, e eu gastei uma fortuna para voltar com os dois álbuns duplos para casa.

Por isso, quando a música começou, eu não olhava para o palco e enxergava três músicos que admiro, e sim três dos maiores heróis que tive na adolescência. Eu bato olho e reconheço as tatuagens, o modo de cada um deles andar pelo palco. Não são ídolos, são os amigos mais velhos que eu admirava. Isso não tem a ver com talento musical, com gênero, com qualidade das músicas. Isso tem a ver com paixão – e paixão, especialmente as adolescentes, não se explica. Elas se vivem.


E a minha paixão por Guns sempre orbitou ao redor de Sweet Child O’ Mine. Musicalmente, não é nem a canção deles que considero a melhor – fico sempre em dúvida entre Civil War e Estranged – mas é a minha preferida. Eu descobri Guns com o vídeo de Knocking on Heaven’s Door, mas a fagulha de verdade se acendeu com o vídeo de Sweet Child O’ Mine.

Tudo ali era perfeito na minha cabeça de catorze anos. A atitude. O som. A voz. O refrão. Tudo – isso inclui a forma que o Slash vira a guitarra no final do solo. Com 14 anos, aquilo não era algo que eu gostava, era algo que eu queria. Não algo que eu queria ter, mas sim algo que eu queria ser.

Por isso, todos os dias, ao voltar da escola, eu colocava o Appetite for Destruction para ouvir enquanto almoçava. Todos os dias. E me sentava à mesa ouvindo os primeiros acordes de My Michelle, porque era sempre o Lado B. Sim, o Lado A tinha Welcome to the Jungle, Mr. Brownstone, Paradise City – mas o Lado B tinha Sweet Child O’ Mine (meu cérebro ainda sabe que era a terceira música). E eu queria essa música antes de tudo.

E, quando ela começava, meu dia começava a fazer sentido.

Sim, quando você tem catorze anos, é fácil assim.

Como eu disse acima, eu tinha todos os motivos do mundo para chorar em Sweet Child O’Mine. Foi escrevendo esse texto que eu descobri porque algumas músicas me fazem chorar: não basta ela ter sido especial para mim; é importante que, em algum momento, eu tenha experimentado a certeza de que nunca a veria ao vivo.

Foi assim com Wasted Years, que o Iron havia deixado de lado nos setlists; foi assim com From Out of Nowhere, do Faith No More (a música abre o lado A do The Real Thing, o disco que substituiu o Appetite for Destruction como trilha sonora do meu almoço quando o Axl Rose já estava até rouco na minha cópia); pois a banda havia acabado. Foi assim com a primeira música dos Beatles que o Paul tocou no Brasil (All my Loving, a terceira do setlist), pois ele passou décadas sem vir ao Brasil.

Na minha vida, esses momentos não são musicais. Eles praticamente encerram ciclos. Como tratam-se de músicas que eu passei anos com a certeza de que nunca as veria ao vivo, ver isso acontecer é consumar uma paixão platônica de anos. É fazer o impossível.

Após ler esse texto, aposto que você tem certeza de que eu iria chorar quando Sweet Child O’Mine começasse a tocar no estádio. Até eu e quem me conhece tinha a certeza.

Mas eu não chorei. O nó na garganta apareceu, mas – e ainda não sei como isso aconteceu – ele se transformou no maior sorriso que eu dei em anos. Em alguns momentos antes do refrão, eu cheguei a rir baixinho, sem conseguir entender minha reação ou mesmo controlá-la.

Talvez meus 14 anos tenham assumido o controle. Talvez eu e meus 14 anos tenhamos nos abraçado. Não sei.

Mas eu sei que cantei a música aos berros – como fiz em 80% do show, e hoje estou completamente sem voz, coisa que não acontecia desde o show do Judas Priest em 2005. E, no final da música, abracei a Esposa e o Enteado e pulei cantando junto toda a parte final.

Agora eu sei que não estava cantando, mas sim conversando comigo mesmo. Eu havia acabado de consumar a maior paixão platônica da minha vida, então, abracei minha família e, junto com Axl Rose, perguntei “para onde nós vamos? para onde nós vamos agora?”.

Porque, eu realmente, não sei para onde ir depois desse momento.

Mas, se existe algo que eu aprendi nos quase trinta anos que eu vivi ouvindo música pelo menos uma vez por dia na minha vida, é que não importa onde eu for, mas sim essas músicas estarem ao meu lado e ao lado de quem amo.

Importa eu saber que o moleque que eu fui com 14 anos ficaria muito orgulhoso de mim por ter chorado em todos esses shows. Mas ele ficaria mais orgulhoso ainda do show que eu não chorei. Afinal, esse show foi a maior paixão platônica que ele teve.

E agora ela está consumada.

4 de novembro de 2016

14:41

Olhando com atenção, eles eram bem parecidos. Tinham a mesma altura e o mesmo tipo físico. E se vestiam com roupas semelhantes. Mas, por outro lado, eram bem diferentes entre si. Um estava com a cabeça completamente raspada – o que não escondia sua calvície. O outro estava deixando os cabelos crescerem. Estavam na altura da nuca.

Mas a grande diferença entre eles estava nos olhos. O cabeludo tinha aquele brilho de quem acredita que cada dia pode ser uma aventura diferente. Já os olhos do careca estavam cercados por linhas de expressão e traziam aquela calma de quem sabe que a grande aventura não está mais em um momento, mas sim na soma de todos os dias.

Essa forma com que cada um enxergava a passagem do tempo era a grande diferença entre eles. E era fácil de ser explicada.

Afinal, um tinha 14 anos.

O outro estava com 41.

Mas, mesmo assim, ainda eram bem parecidos. Inclusive no gosto. Ambos estavam encostados no balcão de uma loja de CDs no centro da cidade. O Mais Novo havia pedido o disco de sua banda favorita e o vendedor havia desaparecido por uma portinha para buscar o LP. O Mais Velho esperava sua vez de ser atendido. E, enquanto o vendedor não voltava do estoque, puxou papo com o garoto.

“Eu também gosto muito dessa banda”, ele disse.

“Para mim, eles são os melhores”, o garoto respondeu.

“Eu já pensei assim um dia. Hoje eu mudei de ideia. Mas ainda gosto muito.”

“Não, não existe nenhuma banda melhor que essa”, o Mais Novo devolveu contrariado.

O Mais Velho sorriu ao compreender a reação do garoto. Há décadas não se sentia ofendido quando alguém duvidava das bandas que ele gostava, mas havia feito isso antes. Muitas vezes. Música era algo importante para ele. Mas, antes que pudesse responder, o Mais Novo emendou.

“Talvez os Beatles. Mas são os Beatles, então não conta.”

“Você gosta de Beatles?”

“Sim. Eu tenho uma fita em casa com 20 sucessos deles. É bom demais. Mas Guns... Guns é mais pesado”.

O Mais Velho não comentou que essa fita K7 dos Beatles, década depois, teriam se transformado em todos os discos da banda e uma tatuagem no ombro. Preferiu manter o assunto no peso das músicas.

“Eu sei. Quando eu tinha sua idade, isso fazia diferença. Quanto mais pesado, melhor. Eu e meus amigos pensávamos assim”.

“Eu e meus amigos também achamos isso. Por isso ouvimos Guns. E não é só o peso, sabe? A música é animal, mas o que pega é a atitude.”

“Atitude?”, o Mais Velho perguntou, fingindo não saber sobre o que o garoto estava falando.

“Você vê os shows e os clipes, e sabe que eles são daquele jeito o dia inteiro. Não é só quando estão tocando. Eles estão lá fumando e bebendo no meio do show. Tipo, eles não estão nem aí para nada. Eles que mandam”.

“Sim, e isso é importante”, o Mais Velho respondeu, antes de mudar de assunto. “Você já foi a um show deles?”

“Não. Mas eu ainda vou um dia. E você?”

“Eu também nunca fui.”

“O show deles deve ser animal. Eu já vi uns vídeos na TV.”

“Sim, sim. Eu também”, o Mais Velho sorriu. “Quais outras bandas você gosta?”

“Faith No More”, o Mais Novo respondeu sem precisa pensar. “É animal! Os clipes também passam direto na TV ”.

“Faith No More, Beatles... Seu gosto parece ser bom.”

“Valeu. Gosto de Raul Seixas também. Você gosta?”

O Mais Velho fez que sim com a cabeça. Dessa vez, precisou se esforçar para segurar o sorriso. O Mais Novo não percebeu e continuou falando.

“Você sabia que Trem das Sete é sobre a morte?”, perguntou, sem disfarçar o orgulho que sentia por saber isso. Ele achava importante entender sobre o que eram suas músicas preferidas. Mas não esperou a resposta e continuou: “E você? O que mais você gosta?”

“Eu gosto muito de Iron Maiden”, o mais velho devolveu.

“Eu não conheço. Mas já ouvi falar.”

“Algo me diz que você vai gostar”.

“É pesado, né?”

“Sim. Mais que Guns”.

“O vocal é bom?”

“Sim. Mas não é só o vocal. É tudo. Sabe”, o Mais Velho explicou, “a primeira vez que eu ouvi Iron Maiden, foi a primeira vez que consegui escutar um baixo na vida.”

“Como assim?”

“Eu sabia que as bandas tinham baixistas, mas não sabia direito o que era o baixo. Só descobri isso quando ouvi Iron Maiden”.

“Vou ver se ouço. O baixista do Guns é o Duff. Ele é bom demais.”

O Mais Velho sabia que o Mais Novo estava mentindo. Sabia que ele não entendia direito o que o baixo fazia dentro da música. Mas não falou nada. Assim como havia acontecido com ele, o garoto ainda iria descobrir que a música ia além do vocalista.

Ficaram em silêncio. O garoto pegou um disco do Megadeth e começou a olhar o nome das músicas na contracapa. O mais velho sorriu. Ele não compraria esse disco. Não naquele dia. Mas semanas depois, sim. Metallica. Megadeth. Sepultura. Living Colour. Alice Cooper. AC/DC. E Iron Maiden.

“Você conhece essa banda?”, perguntou o Mais Novo.

“Sim. Eu gosto bastante”, respondeu o Mais Velho.

“Como é o som deles?”

“É bem pesado. E rápido. Mas talvez você precise de um tempo para se acostumar com o vocal”, explicou o Mais Velho, antes de concluir: “Eu precisei”.

O Mais Novo voltou a ler os nomes das músicas no disco, e o Mais Velho continuou observando. Sabia que algum tempo depois, ele entraria num estádio para assistir a um show pela primeira vez. Seria Iron Maiden, que a essa altura já seria a sua banda preferida. Depois, iria num show do Metallica.

“E esse, você conhece?”

O Mais Velho olhou o disco do Judas Priest na mão do garoto. Como explicaria para ele que o vocalista iria deixar a banda pouco tempo depois? E que o mesmo aconteceria com Iron Maiden?

Se explicasse isso, teria que explicar que seria esse tipo de coisa que faria com que ele abandonasse o heavy metal poucos anos depois – algo que, naquele momento, o Mais Novo julgaria impossível.

Lembrou-se de si mesmo quando essas bandas começaram a se desfazer. Na sua paixão imatura, enxergou isso como “falta de atitude” e viu riscos estragando a imagem que tinha de seus ídolos. Demoraria muito tempo para ele entender que os músicos eram pessoas como ele.

Mas, ao mesmo tempo, sabia que isso seria bom na vida desse garoto. Ao pegar birra do heavy metal, descobriria que a música ia além do peso. Começaria a escutar trilhas de filmes e enlouqueceria com Ennio Morricone. Descobriria a música clássica e se apaixonaria por Beethoven. Os anos se passariam e ele descobriria o rock clássico, o blues, o jazz.

E, dez ou quinze anos depois, voltaria a ouvir heavy metal – dessa vez, com maturidade suficiente para entender porque gostava tanto daquele estilo de música. Sim, ele passaria por gêneros e mais gêneros musicais, mas seu lar seria sempre dentro do hard rock e do heavy metal.

E hoje sabia que sempre que ouvia o primeiro disco do Guns, voltaria a ter 14 anos. Voltaria  a ser aquele Garoto com quem estava conversando. Voltaria para uma época em tudo parecia fresco como um céu azul brilhante. Ao saber disso, seus olhos brilharam tanto quanto os do Mais Novo.

“Esse é o Painkiller?”, perguntou, afastando os pensamentos.

“Sim.”

“Durante muito tempo, foi meu disco preferido deles. Hoje, isso mudou. Mas ainda gosto muito. E você vai gostar. Ele é pesado e o vocal é maravilhoso. Tem tudo o que você gosta.”

“Não vou levar hoje porque ainda quero comprar uma camiseta. Mas na próxima vez...”

Ah, as camisetas, pensou o Mais Velho. Quanto dinheiro havia gasto com isso? Mas não pode falar nada, pois o vendedor voltou com um LP do Appetite for Destruction nas mãos.

“Desculpe a demora. Era o último.”

O Mais Novo sorriu ao segurar o disco, e o Mais Velho sorriu ao observar seu passado.

A música fazia parte de sua vida. E faria parte da vida do Mais Novo. Seria com música que aquele garoto se apaixonaria por mulheres impossíveis, que ele curaria seu coração sempre que ele se partisse. E, junto com seus amigos, cantaria junto em momentos que, aos 14 anos, pareciam ser apenas uma noite de sexta... Mas que, olhados do alto dos 41 anos, ganhavam sabor de história.

Sim, a música seria muito importante na vida desse garoto, o Mais Velho pensou. E, mesmo que ele já ouvisse Beatles e Raul Seixas, tudo começaria com aquele disco. Aquele LP acenderia a fagulha.

Tudo aconteceria por causa daquele minuto. Tudo aconteceria por causa do que o Garoto sentiu ao colocar as mãos naquele disco pela primeira vez. E viu quando o Mais Novo colocou o disco embaixo do braço e percebeu que, naquele momento, o menino sentia-se a maior pessoa do mundo.

Antes de ir embora, o Garoto olhou para o lado e se despediu.

“Não vou me esquecer das suas dicas”, disse.

O Mais Velho sorriu. Tinha outros conselhos para dar, mas sabia que era proibido. Afinal, se desse algum conselho que mudasse sua história, seria uma pessoa diferente hoje. Talvez nem estivesse ali. E, naquele momento, tudo o que ele queria era estar naquela loja apertada e cheia de prateleiras, olhando a si mesmo com 14 anos.

Assim, apenas sorriu.

“Quem sabe um dia a gente não se cruza num show do Guns?”, o mais Novo perguntou.

Novamente o dilema. Como explicar para o garoto o que aconteceria com a banda pouco tempo depois? Os anos que demorariam até que a banda finalmente...

Não. Não valia a pena. Assim, apenas tocou o bolso por cima da calça e sentiu os ingressos no bolso. E sorriu mais uma vez.

“Olhe”, devolveu. “Eu acho que isso ainda vai demorar muito tempo para acontecer. Mas eu tenho certeza que vai acontecer”.

“Como assim?”

“Algo me diz que o primeiro show do Guns que você irá será o primeiro show do Guns que eu irei. E... Sabe? Tenho certeza que a gente vai se encontrar lá.”

“Será?”

“Sim. Aliás, aposto que a gente ainda vai se encontrar em muitos shows.”

O Mais Novo sorriu de volta, sem saber como responder. Acenou com a mão e deixou a loja, olhando a contracapa do LP, estudando a ordem das músicas que o Mais Velho ainda sabia de cor e desapareceu pelos corredores.

“E você? Procurando algo específico?”, perguntou o vendedor.

“Não”, respondeu o Mais Velho, ainda olhando para fora da loja. “Quer dizer, sim. Mas já encontrei. Obrigado”.

Virou as costas e foi embora de volta para seu tempo. Nunca mais conseguiram conversar diretamente – mas se encontraram em muitos shows e ouvindo discos que os transformavam na mesma pessoa.

A loja? A loja ainda está lá.

De vez em quando o Mais Novo entra ali para comprar discos. De vez em quanto o Mais Velho entra ali para matar a saudade de quem ele foi aos 14 anos de idade. 

20 de outubro de 2016

Testamentos

Os dois estavam sentados sobre uma nuvem, olhando para baixo.

Talvez sentar em uma nuvem possa parecer estranho para mim e para você, mas para eles isso era algo absolutamente normal. Afinal, eram anjos. Usavam uma veste branca e cada um tinha um par de asas nas costas.

Seus nomes? Não fazem muita diferença. Eram nomes comuns de anjos: Gabriel, Natanael, Miguel, Samuel.

Aliás, isso pode ficar a critério do leitor, que tem liberdade de escolher qualquer nome terminado em “el”. Basta usar o bom senso e não escolher nomes como Aluguel, Coronel, Infiel, Carretel, Bacharel ou coisas assim. Tonel também não pode – e o fato de você ter imaginado um anjo gordo não muda isso. E, claro, Kal-El e Jor-El certamente darão problemas com direitos autorais.

Enfim, vamos deixar os nomes de lado. O que importa mesmo era que eram dois anjos extremamente parecidos entre si... Mas com uma única diferença entre eles. Um deles era do Velho Testamento e o outro era do Novo.

E foi o do Velho Testamento quem começou o diálogo.

“Eu acho aquilo uma falta de respeito”, ele disse, apontando o dedo na direção de uma casa. “Dormir até uma hora dessas. Isso não tem cabimento”.

“Onde?”, o companheiro do Novo Testamento perguntou.

“Ali. Naquela casa em São Paulo”.

O Anjo do Novo Testamento apertou os olhos.

“Qual casa?”

“Está vendo a antena da Avenida Paulista?”

“Sim”.

“Desce um pouco os olhos até aquele prédio avermelhado. Viu? Agora segue reto bem em direção ao Sul e você vai encontrar um prédio azul, com janelas que brilham”.

“Achei. Aquilo é Vila Mariana, não é?”

O Anjo do Velho Testamento deu de ombros. Ele não estava preocupado com isso.

“Acho que sim. Agora olhe para o leste... Aquela casa ali, com cachorros”.

“Ah, sim. Achei. O que tem?”

“O cara ainda está dormindo. Está vendo? Olha lá a carequinha dele para fora da coberta.”

“E daí?”

O Anjo do Velho Testamento suspirou. Detestava que os colegas do Novo Testamento não viam problemas em nada. Mas também, pensava, nunca tiveram que arrasar cidades inteiras habitadas por pecadores. Por fim, perguntou: “O que aconteceu com ‘Deus ajuda a quem cedo madruga’?”.

“Bem...”, o Anjo do Novo Testamento começou a tentar explicar.

“Todo mundo sabe isso”, o Anjo do Velho Testamento interrompeu. “Deus ajuda a quem cedo madruga. E São quase onze e ele está na cama. Isso não é mais preguiça, já é desaforo.”

“Mas acordar cedo não é um mandamento”, disse o Anjo do Novo Testamento. “Não é como se ele estivesse matando alguém ou cobiçando a mulher do próximo. Acordar cedo não é uma ordem.”

“Devia ser”, respondeu o Anjo do Velho Testamento. “Nos bons tempos, isso já seria suficiente para eu descer até ali e arrancar ele da cama com uma espada de fogo”.

“Você está exagerando.”

“Não, estou sendo até comedido. Porque o ideal mesmo seria descermos até lá e destruirmos toda a cidade por causa dele. As casas dos pecadores virariam cinzas e aqueles que ousassem olhar para isso se transformariam em estátuas de sal”.

O Anjo do Novo Testamento reparou que o outro estava começando a falar por entre os dentes, com os olhos vidrados. Percebeu que seria melhor tomar cuidado com o resto da conversa.

“Os tempos são outros”, ele disse, de forma apaziguadora.

“É justamente esse o problema. Antigamente as pessoas andavam na linha. Hoje, não. Precisamos de um novo dilúvio”. Ele ficou em silêncio um pouco, até olhar para o outro anjo e levantar o dedo, de forma ameaçadora. “Respeito. É isso que falta hoje. Respeito”.

“E você acha que aquele cara dormir até a essa hora é falta de respeito?”

“Sim. Por mim, já poderíamos jogar algumas pragas para ele acordar. Ninguém conseguiria ficar na cama com uma nuvem de gafanhotos. Você não se lembra do Egito?”

“Eu não estava lá”.

“Bem”, o Anjo do velho Testamento olhou para baixo, novamente. Seus olhos escondiam um pouco de... Saudade, talvez. “Você deve ter lido a respeito. Aquilo sim que era vida.”

“Sei.”

“Sabe do que eu precisava mesmo? De um profeta. Pelo menos isso.”

“Como assim?”

“Um profeta. Alguém que tocasse a campainha dele e falasse que a ira de Deus irá se abater sobre ele.”

“Um profeta?”

“Sim. Eles sempre funcionaram. Não era muito fácil lidar com eles, claro. Alguns eram meio desequilibrados. Mas acho que você precisa ser um pouco louco para andar de cidade em cidade prometendo que os pecados daquele lugar serão varridos por uma tempestade de areia e que as casas das pessoas vivarão cinzas. Mas, enfim... Eles faziam o serviço”.

“Entendi”, disse o Anjo do Novo Testamento. Gostaria de mudar de assunto, mas não sabia como. E teve a sensação de que qualquer frase errada iria somente piorar o humor do companheiro.

“Eu precisava de um profeta. Não precisava nem mesmo ser um daqueles apocalípticos, que andam rasgados e com barbas na altura dos joelhos. Esses são os melhores, claro. Mas qualquer outro já ajudaria. Aí esse cara ia descobrir o preço de dormir até a essa hora”.

“Mas eu já expliquei a você. Acordar cedo não é um mandamento”.

“Não importa”.

“Enfim, vamos resolver isso”, disse o Anjo do Novo Testamento, puxando um tablet do bolso. Sim, as roupas brancas dos anjos têm bolsos e cada um deles carrega um tablet. E caso você esteja se perguntando, a resposta é sim, o wi-fi do Paraíso é infinitamente melhor que o da sua casa.

Ele começou a apertar a tela do tablet em busca de informações. Seu companheiro permaneceu observando para baixo, na direção do carequinha que dormia.

Seus olhos estavam injetados de ódio e sua expressão insinuava que ele estava tentando começar um pequeno dilúvio por conta própria. Ou talvez transformar a água da casa do sujeito que dormia em sangue.

Porém, o Anjo do Novo Testamento não estava mais prestando atenção nisso. Havia puxado a ficha do carequinha. Estava tudo ali. Nome. Idade. Sonhos. A última vez que rezou. A última vez que rezou com sinceridade. A última vez que rezou sem pedir para Deus resolver suas dívidas. Suas últimas cinco boas ações. Seus últimos pecados.

O Anjo correu os olhos buscando a informação que queria. Mas, no mesmo instante que a encontrou, seu parceiro do Velho Testamento deu um grito de triunfo. Olhou para baixo e viu uma pessoa na porta da casa do carequinha.

“Quem é aquele?”, perguntou.

“Meu profeta”, respondeu o Anjo do velho Testamento.

“Seu profeta?” O Anjo do Novo Testamento apertou os olhos para enxergar melhor e viu quando a pessoa na calçada começou a tocar a campainha, até o carequinha sair da cama, visivelmente bêbado de sono. “Aquilo não é um profeta. É uma daquelas pessoas que bate de porta em porta levando revistinhas de religião”.

“Quem pode negar que uma pessoa dessas não é a mesma coisa que um profeta? Eles levam a palavra do Senhor e não são muito normais. É a mesma coisa.” Os olhos do Anjo do Velho Testamento brilhavam ao ver o carequinha indo atender a porta tropeçando em cadeiras e resmungando que não encontrava a chave.

“Você sabe”, replicou o Anjo do Novo Testamento, “que o uso dessas pessoas que vão de porta em porta não é autorizado”.

“Não importa”, respondeu o Anjo do Velho Testamento. “Ele ia tocar a campainha do preguiçoso de qualquer forma. Eu apenas acelerei o processo.”

Os dois ficaram em silêncio, observando o carequinha abrir a porta e escutar o que a pessoa dizia. Precisou de quase dois minutos para dizer que não, não estava interessado em revista nenhuma e queria apenas ser deixado em paz. Assim, o profeta foi embora e o carequinha sentou-se no sofá, tentando terminar de despertar.

“Pronto”, disse o Anjo do Velho Testamento, esfregando as mãos. “Assunto resolvido”.

“Bem”, respondeu o Anjo do Novo Testamento, entregando o tablet para o colega. “Talvez você devesse dar uma olhada nisso. Aqui diz que ele estava dormindo até essa hora porque ficou trabalhando até seis da manhã com os textos que precisava fazer”.

“E daí?”

“Daí que tecnicamente ele não é vagabundo. Pelo contrário.”

“Tecnicamente?” O Anjo do Velho Testamento não conseguiu disfarçar seu desprezo ao repetir a palavra. “No meu tempo, tínhamos apenas o bem e o mal. Não teve nenhum tecnicamente em Sodoma e Gomorra. Não teve nenhum tecnicamente na Torre de Babel. Por isso as coisas funcionavam”.

“As coisas não são simples assim”.

“Mas deviam ser. Por isso que o mundo está essa bagunça. Por causa de anjos como você e termos como tecnicamente”.

O Anjo do Novo Testamento suspirou. Era impossível argumentar com certas pessoas. Quilômetros abaixo, o carequinha também suspirou. Gostaria de ter dormido mais uma horinha.