20 de agosto de 2014

Soneto da Lixeirinha da Calçada

A calçada na frente de casa vivia imunda
Cocô no saquinho, papel e latinhas mil.
Era uma calçada suja e quase moribunda
Varríamos xingando um puta que pariu.

Mas inventamos uma saída brilhante
E amarramos uma pequena lixeirinha.
As pessoas que voltam ou vão adiante
Agora estão proibidas de ser porquinhas.

Aposentamos a pá como a vassoura.
A calçada agora, é limpeza e higiene.
E juramos que a regra seria duradoura.

Mas esquecemos que aqui é nosso Brasil.
Roubaram a lixeira, de forma até solene.
Voltamos a varrer e xingar puta que pariu.

13 de agosto de 2014

O Ano que A Depressão Roubou de Mim

Quase três anos atrás, eu estava sentado no consultório de uma psiquiatra.

Eu já fazia terapia com uma psicóloga. Mas, nos meses antes disso, a situação parecia piorar a cada dia. Para cada metro emocional que minha vida subia, ela descia dez.

Até então, eu conseguia conversar, trabalhar, sorrir. Eu conseguia levar adiante. Fiz isso por meses. Tocava minha vida, creio que atribuindo o que eu sentia ao cansaço. Tentava não pensar a respeito de que entrava em casa todas as noites com um nó na garganta e tentava ir dormir logo com a esperança de que vai passar e que amanhã vai ser melhor.

Mas o amanhã era sempre pior. E o depois de amanhã também. Não foi um dia ou um fato que me deixou assim. Acredito que isso pode acontecer com algumas pessoas, mas comigo os motivos foram o acúmulo de algumas coisas e a ausência de outras. Sobravam pressão, cobranças, tristeza, trabalho, solidão.  Faltavam perspectiva, descanso, paz de espírito e compreensão.

Olhando hoje, me enxergo como uma bomba-relógio. Eu atravessava os dias, torcendo para a contagem regressiva não acabar. Em alguns dias o ponteiro corria, em outros ele apenas caminhava. Mas ele não parava, e estava sempre ali, mostrando que eu tinha pouco tempo. Um dia, ele chegou no zero.

Uma bomba teria explodido.

Eu implodi.

E, nesta implosão, eu descobri que o inferno existe. Não embaixo da Terra, mas dentro de cada um de nós. Todos nós temos o nosso inferno, e eu estava preso dentro do meu, sem saber direito como eu havia chegado até ali, sem saber se existia uma saída.

Na verdade, eu não sabia se queria achar uma saída. Porque o grande truque deste inferno pessoal é que ele não aprisiona ninguém que cai ali; pelo contrário, ele apenas convence você que se acostumar a ficar ali dá menos trabalho que procurar uma saída.

Ao menos, comigo, foi assim. Eu não queria achar saída alguma, queria ficar apenas sentado no sofá da minha casa, com o notebook no colo e pulando de um site de notícias para o outro, olhando todas as manchetes e sem ler nenhuma.

Fazia isso por horas. Um dia, cheguei a fazer isso durante praticamente 24 horas seguidas. Em silêncio, acendendo um cigarro no outro e olhando sites. Às vezes, eu me levantava, tomava um gole de Coca-Cola e voltava para o sofá. Acendia outro cigarro e pegava o notebook e começava a rodar os sites novamente.

Sem falar. Sem comer.

Mas pensando.

Porque a pior coisa do inferno é jamais conseguir parar de pensar.

E, quanto mais eu pensava, mais confuso eu ficava. Até hoje não sei se isso é algo específico meu, mas todos os meus pensamentos eram contra mim. Eu era promotor e juiz, trabalhando juntos para provar de forma incontestável que eu era o culpado pelos meus erros, pelos erros dos outros e até mesmo por erros que não são culpa de ninguém, a não ser da vida. E que eu deveria ser punido.

Um dia eu não aguentei. Um dia eu estava sentado no chão da cozinha, com a Esposa me abraçando. E eu chorava e gritava “Me ajuda! Por favor, me ajuda”. Até hoje eu não sei se era para ela, se era para mim, se era para Deus, se era para o mundo. Acho que era um grito de socorro para qualquer um que me ouvisse. Eu não aguentava mais ser punido por um crime que eu nem sei qual era.

Mas acho que esta necessidade de punição não é só minha.

Descobri isso na conversa que tive com a psiquiatra. Eu não lembro direito como foi, porque eu tenho muito poucas memórias desse período. Sabe aquele sonho que escapa assim que você acorda e deixa somente um ou outro flash? Minhas lembranças desses meses são exatamente assim: tenho flashs, pedaços de lembranças, trechos de conversas... E mais nada.

Um destes flashs foi um trecho de uma conversa com a psiquiatra – é engraçado, eu não consigo me lembrar do rosto dela, por mais que eu tente. Eu estava há contando como eu me sentia e ela me interrompeu.

– Você se machuca?

– Como assim?

– Você se machuca? De propósito?

Lembro de sentir vergonha na hora. Mas engoli a vergonha e respondi que sim.

E era verdade. Eu não era apenas promotor, juiz e jurado. Depois que eu me condenava, eu era também carrasco.  E me agredia fisicamente.

É difícil descrever: em crises, eu cheguei a arrebentar minha cabeça na parede mais de uma vez. Em algumas crises, dei tapas e socos no meu rosto, às vezes usando objetos para isso – lembro de ter feito isso com um controle remoto. Eu me arranhava. Sempre com a maior força que eu conseguia. Sempre para me punir por um crime que eu nem sabia direito qual era.

Sempre com ódio. Não era apenas ódio de tudo. Era ódio de mim.

– Essa foi a melhor coisa que você me disse até agora. Muitas pessoas passam por isso que você está passando. E normalmente aquelas que tentam se suicidar são as que não se machucam fisicamente em momento algum. Elas se punem de outro jeito.

Eu fiquei quieto.

– Você já pensou nisso? Alguma vez?

– Não.

E foi assim, depois de contar verdades e minhas verdades (porque nem tudo o que eu acreditava ser verdade devia ser verdade) que saí de lá com receitas e mais receitas de remédios no bolso.

Mas a depressão não é uma doença comum. Não é uma gripe que você toma remédio e três dias depois está melhor, e na semana seguinte está bom. Os remédios demoram para fazer feito. E às vezes não fazem efeito algum, precisando de outra dosagem ou, muitas vezes, outro remédio.

Eu comecei tomando um antidepressivo pela manhã e, por causa da Síndrome do Pânico que veio junto com a depressão, eu precisava andar com comprimidos de Rivotril dentro da carteira. À noite, mais Rivotril, desta vez gotas, desta vez para dormir.

Não adiantou nada. Nada mudou. Mesmo sabendo que eu devia sair do inferno eu não conseguia dar um passo, não em direção à porta, mas em direção alguma. Um dos motivos principais disso é que eu não dormia. Tomava o Rivotril, deitava e dormia uma hora. Duas. Aí acordava, me sentava na cama e ficava horas ali, sentado, olhando o quarto escuro e sem conseguir parar de pensar. Sabe aqueles dias que você acorda mais cansado que estava quando foi dormir?

Multiplique isso por meses e você terá um emocional em frangalhos.

A dosagem aumentou e eu não dormia. A dosagem aumentou mais uma vez e eu não dormia. Foi alguns meses depois de começar a tomar remédios que a psiquiatra me receitou outro remédio para a noite: um antidepressivo que não funcionava mas que tinha um efeito colateral fortíssimo: sono.

Tomei o remédio uma hora antes de dormir. Quinze minutos depois eu fui carregado para o quarto pela Esposa, dormindo em pé. Devo ter conseguido dormir seis, sete horas. E sempre que me lembro disso me emociono um pouco. Foi o primeiro passo que dei. Não foi um passo grande, e não sei nem se foi um passo rumo a algum lugar. Mas conseguir dormir foi um passo.

Eu poderia dizer que, depois disso, tudo se resolveu. Mas não. O primeiro passo é apenas o primeiro passo. E minha vida, como eu disse certa vez nesse blog, era feita de passos.

Eu me sentia, às vezes, como alguém que voltara de uma guerra e precisava se acostumar com o mundo novamente.

Voltas pequenas nos bairros, sempre em ruas sossegadas (bastava ter meia dúzia de gente ao meu redor numa calçada para a Síndrome do Pânico fazer com que eu congelasse e me enfiasse num canto, branco, às vezes tremendo, de onde eu não conseguia sair). Não sei porque, eu não podia tomar banho sozinho. Eu precisava da Esposa ali no banheiro, sentada num banco, conversando comigo enquanto eu tomava banho. E sempre que íamos a algum lugar, bastava eu dizer “quero ir embora” ou “não estou bem” que estávamos em casa minutos depois.

Mas haviam recaídas. Se meses antes para cada metro que eu subia dez, desta vez para cada cinco, seis passos que eu dava, eu voltava um. Parece pouco, mas não era fácil. Não é pouca coisa ter crises de choro no meio da rua, não é pouca coisa querer ir dormir somente porque você acha que nunca mais vai voltar a ser o que era, não é pouca coisa morrer de medo de ter que tomar remédios a vida inteira.

Contudo, eram apenas isso: recaídas. Algumas grandes, algumas menores, mas que faziam questão de me mostrar que eu era mais frágil que as outras pessoas. Porque a palavra é essa: fragilidade. Se encostam em você, seu emocional desmorona. Se algo de errado acontece, seu emocional desmorona. Acho que o segredo não é tentar fazer desmoronar, é saber que não desmoronou tudo, mas só um pedacinho.

Eu não teria conseguido perceber isso e teria desmoronado sempre se não fosse pela minha Esposa. Desde o dia que eu passei 24 horas sozinho olhando o computador, ela decidiu que eu não tinha mais condições de ficar sozinho – “você parecia um velhinho quando cheguei na sua casa”, ela me diz até hoje, sempre que lembra desse dia. Mal imaginava que, nos próximos meses, eu perderia quinze quilos.

Mas ela se tornou presença constante ao meu lado. Mas não era uma questão de estar ao lado, mas sim de estar à frente. Estávamos começando a namorar e ela abriu de um começo de namoro normal e assumiu que o papel dela era me blindar, ficando ao meu lado nos momentos de crise – e, hoje eu consigo ver, impedindo muitas crises antes mesmo delas acontecerem.

Eu jamais teria conseguido sem ela, e jamais teria conseguido sem outras pessoas. Minha família, por exemplo. Todos sempre cuidaram de mim sem me pressionar. Eles entenderam que eu não estava confuso, desanimado, triste. Eu estava doente. E, assim como a Esposa e como meus amigos que acompanharam o que passei entenderam que, antes de eu precisar deles, eu precisava de mim. E me deram todo o espaço, todo o apoio, todo o tempo e todo o amor do mundo para eu me reencontrar.

Isso parece fácil, e até óbvio, mas não é. Pois é mais evidente ainda que muitas pessoas não entendem a depressão.

Poucos dias antes de eu ir ao psiquiatra, estava conversando com um amigo na internet. Era, na época, um dos meus melhores amigos, conversávamos todos os dias sobre tudo. Mas ele havia dado uma sumida. Nesse dia, chamei e perguntei se havia acontecido algo. Ele me respondeu que eu havia me tornado uma pessoa chata. Eu pedi desculpas, disse que achava que estava doente e iria ao médico. Ele insistiu: eu havia me tornado chato. Pedi desculpas mais uma vez e disse que iria fazer de tudo para voltar a ser o que era e me despedi. Foi a última vez que nos falamos.

Porque essa é sempre uma das leituras que as pessoas fazem da depressão: “a pessoa se tornou chata”. A outra leitura que as pessoas também fazem é que a pessoa que sofre de depressão está apenas tentando chamar a atenção e passar por coitadinho. Isso foi falado sobre mim na internet, depois que tornei minha doença pública com um texto no blog.

Meses depois, uma pessoa me disse que “tomara que essas pessoas passem por isso também para ver como é difícil”. E eu respondi que “Não. Eu não desejo que ninguém passe pelo que eu passei”.  

Aliás, até hoje eu não entendo porque tornei público, no blog, o fato de eu estar com depressão. Talvez porque eu precise escrever para entender. Não sei ao certo – é uma das memórias que se perderam. Mas foi uma das melhores coisas que fiz. Comecei a receber apoio de muitas pessoas. Leitores do blog, amigos de Twitter, gente que eu nunca tinha visto pessoalmente. Comecei a receber e-mails, mensagens de apoio e de carinho nas quais eu me agarrava nos piores momentos. Se eu era importante para alguém que nunca tinha me visto, mesmo que somente por causa das minhas crônicas, eu precisava ser importante para mim por algum motivo. Mesmo que fossem as crônicas.

E tornar minha doença assunto no blog foi importante porque pude ajudar muita gente. Muita, muita gente se identificou comigo, com o que eu sentia. Muita gente mesmo. Comecei a receber e-mails de leitores que diziam sentir alguns dos mesmos sintomas que eu, queriam saber o que fazer, se achavam que eu estava doente.

Eu respondi todos, com o máximo de atenção que podia, mas sempre com cuidado, sempre deixando claro que não sou médico. Mas aconselhava todos eles a não cometerem o mesmo erro que eu cometi: “não demore para buscar ajuda. Não fique se testando. Se parecer insustentável, se parecer sem saída, vá ao médico. Não se desafie porque você vai perder”.

Muita gente, até hoje, diz que fui corajoso em expor o que estava passando e que eu deveria me orgulhar disso. Eu não me orgulho. Não me orgulho nem sinto vergonha de ter atravessado por isso. Eu sofri de depressão e síndrome do pânico, e isso não me torna um herói ou uma vítima. Ter superado e deixado isso para trás talvez mostre que eu sou mais forte que a depressão pensava, e isso me basta. Uma vez eu terminei um post prometendo para mim mesmo que iria derrotar isso.

E derrotei.

Com força, com vontade, com coragem de começar a abandonar os remédios por conta própria, com amor de quem amo, com amor de quem nem conheço.

Mas se vocês perguntarem para mim se estou 100% hoje, eu não saberei responder. Talvez eu nunca volte a estar 100%, ou talvez eu esteja 100% mas não seja exatamente a mesma pessoa que era antes. Esta é uma dúvida que vou levar comigo: hoje tenho limites e limitações que eu não tinha antes das doenças. Não sei eu apenas não os conhecia ou se eles ficaram como herança da depressão.

Existem situações em que não sinto absolutamente nada, apenas frieza; existem outras – normalmente quando estou cansado – que sinto uma espécie de vazio, algo me puxando para baixo. É raro, mas acontece. Hoje, não posso ficar exausto – que lê isso aqui há tempos sabe que eu trabalhava doze, catorze horas por dia. Hoje, isso me faz mal.

Da mesma forma, eu não consigo lidar com coisas muito boas. Meu aniversário, por exemplo: eu não consigo lidar com toneladas de pessoas me dando os parabéns na internet. Eu adoro, me sinto querido como qualquer pessoa, mas... É estranho, eu me sinto um pouco pressionado, como se precisasse fazer algo que não fosse agradecer para justificar todas as mensagens. Não me entendam mal, é quase como se fosse um amor maior que eu, uma emoção mais forte que eu... E não consigo lidar com tudo ao mesmo tempo. Respondo, fico horas sem olhar, volto a responder.

Existem outras coisas que sou diferente. Não apenas reações, mas sonhos. Hoje paz e qualidade de vida são essenciais para mim. Trabalho com o mesmo empenho, mas não abro mão disso. E, diferente do que eu fazia dez anos atrás, eu não desafio meus limites. Eu os aceito e respeito cada um deles. Porque acho que esta foi a grande mudança que sofri, e acho que muita gente que conseguiu superar uma depressão sente o mesmo:

Eu não estou mais no inferno. Mas agora eu sei que o inferno existe.

Justamente por isso eu não gosto muito de falar sobre o assunto. Voltei a escrever normalmente – com esforço no começo – para não transformar um blog de risadas e lágrimas doces em um blog de textos amargos. Eu devia isso a mim e devia isso a cada uma das pessoas que lia o que eu escrevia e me viu caindo. Eu precisava levantar e devia isso a cada um que ficou do meu lado e não desistiu de mim.

Hoje, com todo mundo falando sobre este assunto, eu achei que podia contribuir um pouco, mostrando um pouco a realidade de quem já esteve lá e como é difícil voltar. Falar aqui que a depressão precisa ser tratada como doença é chover no molhado. Até quem não consegue enxergar a depressão desta forma já ouviu isso.

Assim, o que eu sugiro é: se você não consegue apoiar uma pessoa que está em depressão por não entender o problema, apenas não duvide dela. Respeite o que ela diz que sente e deixe-a em paz. Ela precisa de espaço, ela precisa de tempo e sua dúvida sobre o que ela está passando vai atrapalhar mais do que sua falsa certeza ajudaria.

E, se você está passando por isso, deixe eu te falar uma coisa: você vai sair disso. Eu tenho certeza. Por mais que você ache que não, confie em mim: eu também achava que não e saí. E sei que você pode sair. Eu sei que parece que não existem caminhos, mas eles existem e estão na sua frente. Não se force a andar por eles sem enxerga-los, apenas aguente mais um pouquinho que eles irão aparecer.

E você pode sentir raiva, medo, desânimo, fraqueza, vontade de desistir. Você pode e vai sentir. Apenas peço que faça o que fiz: não deixe jamais de sentir amor por você. Pois, quando você está no inferno, é isso que irá mostrar o caminho para você.

Peço desculpas pelo tamanho do texto, mas eu tinha umas contas para acertar comigo mesmo sobre este assunto. E é um texto até pequeno. Quando comecei a escrevê-lo, digitei que “quase dois anos atrás, eu estava sentado no consultório de uma psiquiatra”. Só na metade do texto é que eu percebi que havia errado, voltei e corrigi para “três anos”. Isso é algo que eu preciso me acostumar: eu perdi um ano da minha vida. E um texto, por maior que ele seja, nunca vai substituir isso.

Mas se eu estou escrevendo sobre este ano que perdi, é porque estou aqui.

E, sabendo que existe um inferno, estar aqui basta.

Com amor, e muito obrigado por tudo, sempre,

Rob

5 de agosto de 2014

Sem Açúcar, Sem Afeto

– Açúcar ou adoçante?

– Nenhum.

– Você vai tomar... Assim?

Eu já estou acostumado a ser tratado como o membro de uma raça alienígena sempre que vou tomar um café fora de casa. Basta eu dizer que tomo o café puro e a pessoa fica esperando eu dar o primeiro gole, colocar a xícara no balcão, puxar uma arma de raios e declarar um “agora me leve até seu líder, terráqueo”.

Eu não fazia ideia que existia esse preconceito com quem não adoça o café quando parei de colocar açúcar ou adoçante.

Foi na época que eu trabalhava em redação. Como eu trabalhava quinze horas por dia em seis dias por semana, me entupir de café foi a única maneira que eu descobri de manter os olhos abertos – o que não necessariamente significa acordado. Mas, uma média de dez copinhos por dia, cada um deles com uma colher de açúcar, provocou um efeito colateral no meu corpo: uma espécie de síndrome dos botões da calça explodidos. Ou seja, ou pedia demissão e ficava em casa dormindo, ou eu engordava em progressão geométrica.

A solução que encontrei por um tempo foi colocar adoçante, mas não deu certo: adoçante é como dançar com a irmã, você bebe aqui porque é o que tem para hoje, mas sabe que poderia ser muito melhor.

Um belo dia, eu decidi experimentar puro. Sem açúcar, sem afeto.

E viciei. De lá para cá, só tomo assim – a exceção, claro, é Nescafé. Quando eu era solteiro, tomava um balde de Nescafé antes de sair de casa. Mas Nescafé não é café, Nescafé é outra coisa, é uma daquelas bebidas paradoxais, tipo Kisuco: é impossível beber sem adicionar água, mas basta adicionar água para tonar o negócio impossível de beber.

Nescafé eu colocava adoçante para disfarçar o gosto. No café não. Como eu disse, viciei em café sem açúcar faz anos.

E faz anos que me tornei um pária social.

Basta eu falar que “não, nem açúcar ou adoçante” que eu sou automaticamente jogado dentro de uma minoria excêntrica e passo a ser enxergado como um idiota, alguém sem o menor preparo para viver em sociedade e que jamais deveria ter entrado naquele café sem um responsável adulto ou um enfermeiro.

Basta eu dizer que “não, nenhum dos dois, obrigado”, e sou presenteado com uma cara de nojo e as mesmas perguntas de sempre.

– Mas você toma assim mesmo, sem nada?

– Mas não é ruim?

– Café sem açúcar?

“Não. Eu costumo colocar peixes vivos dentro. Mas como o peixe que eu trouxe no bolso morreu, vou beber assim mesmo, obrigado.”. “É que você não faz ideia do que me obrigavam a beber no manicômio. Desde que escapei de lá só tomo café sem açúcar”. “Dança sem par! Você podia ao menos me contar uma história romântica!”.

Eu sempre penso essas coisas – nessa mesma ordem –, mas não respondo.

Mesmo porque não adianta responder. As pessoas vão continuar me vendo como um monstro, e não adianta eu gritar que “eu sou um ser humano, eu sou igual a vocês”, porque fazer isso com a boca cheia de café faria com que eu deixasse de ser “o cara que toma café sem açúcar” e fosse alçado à categoria de “o cara que fica babando e cuspindo café enquanto fala”, o que deve ser uma categoria bem pior.

Então, apenas sorrio, abaixo minha cabeça e dou o primeiro gole - e minhas papilas gustativas começam a iniciar dancinhas de prazer. E fico ali, quietinho com meu café, sabendo que as pessoas estão apontando discretamente para mim e cochichando a meu respeito, enquanto saboreio minha tara amarga.

E pensando que “se elas acham que sou estranho assim, imagine o dia que elas descobrirem que eu sempre peço tomate verde no meu hambúrguer”.


31 de julho de 2014

O Post do Acidente

Eu e a Esposa temos planos.

Planos de curto prazo, que giram em torno do que anda acontecendo. Planos de médio prazo, que giram em torno de planejamento. Planos de longo prazo, que ainda estão no campo dos sonhos que vão virar realidade.

Não sei se estávamos conversando sobre algum desses planos ao voltar para casa, depois de um aniversário, na madrugada do último sábado.

Aliás, eu não lembro sobre o conversamos no carro. Mas eu me lembro de outras coisas.

Mesmo tendo acontecido tudo rápido demais.

A Esposa gritou um palavrão e eu não tive tempo de reagir. Apenas ouvi um enorme estrondo e senti o carro ser jogado para frente. Eu não conseguia entender o que havia acontecido, me lembro apenas dela perguntando – aos gritos, acho – se eu estava bem, um carro parado ao nosso lado, com uma mulher perguntando se estávamos bem – esta eu tenho certeza que era aos gritos. E eu não conseguia responder nem a Esposa, nem a mulher ao lado. Sentia uma enorme dor no peito, por causa do cinto de segurança. Eu tentava respirar e o ar não vinha.

Foi rápido demais mas foi em câmera lenta.

Quando ouvi o estrondo, imediatamente pensei em assalto. Imaginei que tivesse jogado uma pedra no carro, ou algo assim. Seria fantasia de quem mora em São Paulo se isso já não tivesse acontecido comigo antes, quando estava indo para Alphaville a trabalho e o vidro do meu lado explodiu no meio da Marginal. Mas o carro foi para a frente, e eu deduzi que não poderia ser uma pedra. Precisava ser algo grande. Algo do tamanho de um carro.

Olhei para o lado e lá estava ele, passando devagar ao nosso lado. Era um carro escuro. Escuro e grande, mas não como algo saído de um pesadelo, e sim de uma concessionária de carros importados. Estava com capô levantado, fumaça saindo do radiador estourando. E acho que era uma mulher no volante, mas não tenho certeza. Porque não é porque tudo aconteceu rapidamente em câmera lenta que eu consegui decorar tudo.

Eu não lembro do que respondi para a mulher do outro carro. Também não me lembro de ter saído do carro. Quando eu percebi, estava no meio da Avenida Groenlândia, no meio da madrugada, sem saber direito o que tinha acontecido. Sem saber direito na verdade, onde eu estava.

Dei a volta ao redor do carro e fui falar com a Esposa. Mas eu sabia que ela estava bem. Não só porque ela é mais durona que muita gente que conheço, mas pelo jeito que ela estava agindo. Estava nervosa, estava preocupada, estava com a adrenalina a mil... Mas estava bem. Não tinha dor na voz dela. Tinha susto, tinha raiva, mas não tinha medo.

Quando cheguei na janela dela, ela já estava no telefone falando com o seguro – eu já disse que ela é durona? – e chamando o guincho. Só que, com isso, dois problemas novos: primeiro, os carros passavam muito rápido pela avenida e raspando em nosso carro. Segundo, ela alternou a conversa com a mulher do seguro com frases como – acho que minha perna está quebrada – para mim. E eu tentava acalmá-la, pedia para não mexer a perna.

E o carro preto ali. Parado, do outro lado, a uns vinte metros de distância. Fumaça continuava saindo do motor.

Passou uma viatura de polícia e eu levantei os braços da calçada. Não diminuíram. Chamei, gritando, quando passaram por mim. Não pararam. Dois caros destruídos, pedaços de carro no cruzamento alguns metros antes, pessoa gritando da calçada. Talvez não seja interessante. Talvez seja apenas uma madrugada de sábado em São Paulo.

– Vou até lá.

Eu não sei quanto tempo se passou até eu dizer isso. Já havia acontecido tanta coisa que minha memória insiste em me enganar, dizendo que foram mais de cinco minutos. Mas eu sei que estamos falando de dez, quinze segundos. Vinte no máximo.

E eu não sei porque deveria ir até o outro carro. Meu impulso foi ver de perto. Ver se havia alguém machucado – o carro indicava que sim – ver de perto quem estava dentro do carro. Mas eu sabia que podia acontecer algo. Eu sabia que no momento que eu lembrasse que a minha mulher estava dentro do carro e talvez com as pernas quebradas, eu iria perder a cabeça.

Se a pessoa estivesse bêbada, eu iria matá-la.

- Não vai lá!

O tom de voz da Esposa foi determinante. E eu senti perigo no ar. Daqui a uns dias eu pergunto se ela teve algum feeling a respeito disso – e eu já aprendi a confiar nos feelings dela – mas acreditei que sim e parei. Tinha andado apenas uns dois metros, e voltei ao carro. Ela ainda estava no telefone.

Mas eu precisava ver.

Eu perguntei sobre a perna dela, perguntei como ela estava, perguntei se algo mais doía. Eu não sentia dor alguma, então tudo era meio irreal para mim. Era como se tivesse acontecido com outra pessoa.

Mas eu precisava ver. E fui.

Assim que comecei a andar na direção do carro, ele ligou e saiu andando. Começou a abandonar o local do acidente devagar. Eu não entendia como aquele carro estava conseguindo andar e gritei um palavrão, desafiando a pessoa a não fugir – e aprendi que não adianta você desafiar um covarde.

Talvez se eu tivesse corrido, eu teria alcançado, mas titubeei. Desta vez, não por medo, nem por feeling. Mas porque eu não poderia deixar a Esposa sozinha, numa rua escura, com carros passando em alta velocidade, onde não havia ninguém na calçada – acho que um vigia apareceu por perto, lembro de ter conversado com ele, mas sumiu – e com as pernas talvez quebradas.

Porque minha Esposa pode ser durona, mas antes de tudo ela é minha Esposa.

Minha obrigação é manter ela segura, não em fazer justiça. Anos atrás, talvez eu tivesse arrancado o sujeito do carro com os dentes. Talvez, não. Provavelmente. Neste sábado, eu queria apenas ir para casa e deixar minha Esposa num lugar seguro. Queria ir logo para casa e acabar com aquilo.

Assim, eu continuei na direção do carro, mas andando rápido – pela calçada –, e não correndo, porque eu não queria que ele percebesse a movimentação e fugisse. E também porque eu ainda relutava em me afastar do carro. Ele parou num sinal no outro quarteirão, na esquina da Brigadeiro. E eu soube que não adiantaria. Antes que eu pensasse em correr, antes que eu pensasse em ver se a Esposa estava bem, antes que eu pensasse...

O sinal abriu e a pessoa que poderia ter nos matado se foi para longe e sumiu.

Tenho certeza que continua longe. Não apenas da gente, mas da verdade. Deve estar dizendo que bateu em uma árvore ou um poste qualquer, e jamais vai assumir que enfiou o carro em outro carro porque havia bebido demais (aposta da Esposa) ou estava mandando mensagens no celular (minha aposta, que não exclui a primeira).

É uma pessoa que não vai pagar pelo erro que cometeu. Ao menos, não juridicamente. Não vai ser processada, não vai perder a habilitação... Vai apenas ficar sem carro por um tempo e logo mais estará nas ruas, dirigindo de novo, bebendo de novo, mandando mensagens no celular de novo, quase matando outras pessoas de novo.

Mas covardia tem um preço. E o preço vai ser cobrado justamente por isso. Porque passar o resto da vida se lembrando de um acidente que ninguém ao seu redor sabe que aconteceu, e se perguntando se “será que eu matei alguém aquela noite?” não deve ser muito fácil de levar – e uma pessoa que foge jamais terá coragem de desabafar isso com alguém, pois admitir a dúvida será admitir que fugiu do acidente.

É o castigo merecido? Não. Mas passar a vida assombrado por essa dúvida ao menos faz a pessoa não sair impune. E mesmo que com o passar dos anos ela consiga inventar desculpas e mudar sua memória do que aconteceu, inventando explicações para não se sentir tão culpado vai desaparecer todas as noites, quando encostar a cabeça no travesseiro, ou todas as manhãs, quando os pensamentos ainda estão nublados.

Todas as noites e todas as manhãs ela se perguntará se matou alguém aquela noite. Eu sei disso.

E o “será que matei alguém?” não é exagero. Não seria exagero pelo estado que o carro dela ficou, e pelo estado que o nosso ficou. Quando comecei a escrever este texto, fiquei sabendo o diagnóstico: perda total.

Foi de acordo com a pancada. Acredito que a pessoa estava a uns 60, 70km/h e não tentou brecar ou desviar. O que não está de acordo com a batida fomos nós: a Esposa ficou um pouco dolorida e com dois roxos enormes nas pernas; eu não fiquei com roxo nenhum e passei dias sentido dor. Ainda dói um pouco, mas eu conheço meu corpo, sei que não é nada demais. Podia ter sido muito, muito pior.

Mas, mais que a raiva, o susto, a revolta pela covardia da pessoa... Fica a sensação de fragilidade. Aquele sentimento de que um dia você pode sair e não voltar. Você pode ir para o aniversário de um primo, sair do bar e não voltar mais para casa. No meio do caminho, tudo acaba.

Tudo o que você foi, tudo o que você é, tudo o que você vai ser um dia desaparece, numa fração de segundos, num cruzamento. Tudo o que você pensa em fazer, o texto que ficou pela metade, o plano de reencontrar aquele amigo que você não vê há anos, a visita que você está devendo aos seus pais... Tudo isso morre ali, preso nas ferragens de um carro encostado numa calçada qualquer de São Paulo.

É frágil demais. Passei dias com essa sensação. Ainda tenho um pouco.

Existem coisas que nós achamos que só acontecem com os outros. Mas não podemos esquecer que, para todas as outras pessoas, nós somos “os outros”. Pode acontecer com a gente, a qualquer momento. Tem uma bala no tambor, mas milhões de pessoas participando de uma enorme roleta russa.

Mas o que dói de verdade é saber que, caso tivesse acontecido o pior, eu não saberia dizer qual foi a última conversa que eu tive com a Esposa. Lembro da primeira, lembro de muitas outras... Mas não consigo lembrar do que conversávamos antes do acidente. Mas lembro certamente que não teve uma despedida, um “eu te amo”, um “obrigado por tudo”, um “eu preciso que você fique bem”.

Teria sido sem adeus. Teria sido rápido demais.

Teria sido de graça.

30 de julho de 2014

Instinto Maternal 2.0

Estou com um notebook novo. Tenho bastante coisas para escrever sobre ele – ou melhor, sobre a experiência de usá-lo – mas uma delas precisa ser a primeira: o fato do notebook cismar que, de repente, ele é a minha mãe.

Foi no segundo ou terceiro dia. Fui abrir um vídeo no Youtube e o som estava baixo. O som do vídeo estava baixo – e o do Youtube já estava no máximo. Como qualquer pessoa, fui direto para o som do notebook.

Estava em 18.

Tentei aumentar e uma barra azul apareceu na minha frente, travando o computador. Na tela, a mensagem:


VOLUME ALTO PODE CAUSAR PERDA DE AUDIÇÃO.
Seus ouvidos são importantes. Aumentar o volume além deste ponto pode causar danos permanentes à audição.



E aí tinha um botão “Permitir” e outro “Não Permitir”. Procurei por um botão com a inscrição “Foda-se, isso é problema meu”, mas não encontrei, então cliquei no “Permitir”.

Quando ele fez isso, eu imaginei que fosse porque era a primeira vez que eu mexia no volume. Achei interessante até, como se fosse aquela primeira página do manual de jogos eletrônicos, que diz que “olhe, se você for epilético você só pode jogar vinte minutos por mês, senão você corre o risco de ter morte cerebral e virar um vegetal”. Você passa os olhos naquilo enquanto o jogo instala, vê o resto do manual e começa a jogar normalmente.

Mas não. Ele não faz isso na primeira vez que mexo no volume, ele faz isso todas as vezes que mexo no volume. Basta eu abrir a barra de volume e o notebook vem correndo da cozinha como se fosse minha mãe, enxugando as mãos no avental e me dizendo que:

– Abaixa isso! Seus ouvidos são importantes!

E eu fico como um idiota, tentando responder que “mas eu preciso ouvir o vídeo e está baixo”. Minha vontade é responder que “olhe, o seu cargo é notebook e o meu cargo é dono do notebook”, então eu faço o que quiser com meus ouvidos, mas ele fala de forma tão determinante que eu tenho medo de responder atravessado e levar um tapa.

Mas, ao menos, ele tem o botão “Permitir”, diferente de alguns programas que preferem usar o sadismo. Quantos textos eu não perdi na vida após o Word me dizer que “este programa executou uma operação ilegal e será fechado”. Ele não pergunta se pode fechar, ele comunica isso. Tudo o que você pode fazer é abaixar a bola e clicar em “fechar”, ou resolver contestar e clicar em “detalhes”, quando ele joga um monte de números que indicam a operação ilegal e que não fazem sentido nenhum – o que nos leva à primeira opção, que é clicar em fechar.

Mas mesmo com o botão “Permitir”, eu não gosto muito do fato do notebook se meter na minha vida desse jeito. Sem exageros, eu me sinto feito um pouco débil-mental.

– Você quer aumentar isso mesmo?

– Sim. Eu abri a barra de volume justamente para isso, e não porque eu queria ver o que era aquele alto-falante ali no canto.

– Não seja malcriado. Eu eduquei você melhor que isso.

– Ok. Desculpe. Sim, eu quero aumentar o volume.

– Os seus ouvidos são importantes. Você quer ficar surdo? E você vai ficar ouvindo aquele heavy metal horrível!

– Não. Eu quero ver um vídeo. E eu não estou conseguindo ouvir...

– Aliás, você não devia nem estar vendo vídeo nenhum. Você já fez sua lição?

– Hã?

– Você sabe o que acontece com crianças que não estudam? Repetem de ano! E nunca arrumam um emprego!

– Certo. Eu já fiz minha lição. Aliás, eu preciso ver o vídeo justamente para fazer minha lição. É uma entrevista. E eu não sou criança.

– Sei. No meu tempo, a gente não tinha vídeo nenhum. Fazia a lição em papel almaço. Hoje não, hoje é tudo mais fácil. Você fica aí vendo vídeos e escrevendo o dia inteiro. Mais nada. Aliás, você não acha que está na hora de desligar e ir dormir?

– Oi?

– Dormir tarde demais faz mal. O sono é importante!

– Certo.

– E frutas? Tem comido? Você parece estar abatido. Eu vou fazer um suco para você.

– Não. Esquece. Eu vou jantar.

– Carne de novo? Come um pouco de salada.

– Olha, eu não quero ser grosso, mas eu vou desligar você.

– Isso! Não dá valor mesmo! E me deixa aqui sozinho. Eu não me importo. Não tem problema.

– Depois eu volto.

– Eu janto sozinho. Sem conversar com ninguém. Tudo bem.

– Tchau.

– Qualquer coisa, me ligue avisando! E o tempo está virando, é melhor pegar um casac...

Desligo e vou no note de alguém ver o vídeo. Aí saio para almoçar e, quando volto, não posso nem comentar com ninguém o que almocei, porque o note pode estar ouvindo. E lendo minhas mensagens.

Porque meu notebook é como mãe: ele escuta com os olhos e enxerga com os ouvidos. Mesmo que eu tente mentir, ele sabe. Ele sempre sabe.


E tudo o que eu faço está errado.