21 de janeiro de 2016

O Dia em que a Inspiração Apareceu




A mulher apareceu no sofá de repente e sem aviso. Ninguém reparou na sua presença, pois a única pessoa na sala estava de costas para ela.

Em agosto eu escrevi essas duas frases no Word. Era um dia em que eu estava sem muito para fazer e, como às vezes acontece em momentos assim, a ideia para uma crônica simplesmente caiu no meu colo e eu vim para o PC escrever.

Mas, quando eu estava na metade da segunda página, comecei a perceber que aquilo poderia virar algo ainda maior. Duas páginas depois, eu voltei para o começo e transformei essas duas frases acima em um capítulo – sim, um capítulo de duas frases – e continuei escrevendo. Creio que no dia seguinte eu tinha a primeira versão. Mandei para algumas pessoas e recebi ótimos comentários.

E decidi guardar a história junto com os comentários.

Escrevi outras coisas. Posts, contos. E foi só em novembro que peguei aquela mulher que apareceu no sofá de repente e sem amigo e mergulhei numa espécie de maratona. Aumenta aqui. Revisa. Corta ali. Revisa. Reescreve lá. Revisa. Vai dormir que são duas da manhã e amanhã você ajusta aquele diálogo acolá.

Outras pessoas leram. Respostas ainda mais positivas. E quando recebi a capa, vi que era hora de dar um passo inédito, algo que eu há tempos queria fazer, mas ainda não havia rolado.

E assim, O Dia em que a Inspiração Chegou se tornou meu primeiro conto publicado na Amazon. É uma história de fantasia – ou melhor, uma fantasia urbana, como a Amazon gentilmente me sugeriu – mas é um declaração de amor ao ato de escrever, que hoje é mais que uma carreira e se tornou praticamente minha identidade.

Mas também é uma declaração de amor à leitura, e, principalmente, às histórias. Sim, é uma história sobre histórias. E, no momento em que escrevo esse post, posso garantir que esse conto é um dos pedaços mais importantes da minha história.

Então, eu convido você para saber mais sobre o que estou falando. Clique aqui para comprar – fiz questão de colocar pelo menor preço possível, justamente para que você possa descobrir essa história. E se gostar, recomende aos amigos, deixe sua resenha na Amazon (ou em seu site, caso você escreve sobre isso), divulgue nas redes sociais. Faça essa história crescer. Sim, estou pedindo isso em meu nome, para você que acompanha meu trabalho e gosta do que escrevo.

Mas também estou pedindo isso em nome da história.

Afinal, nada é mais gostoso que ver seu filho dando os primeiros passos na rua. Ainda mais um filho do qual você se orgulha tanto.

18 de janeiro de 2016

Tipo o Leonardo Di Caprio dos Zumbis

Foi um dia desses, num daqueles bares da moda. Você sabe de qual bar estou falando. Grande, bem decorado e com pessoas tirando uma selfie para cada gole de cerveja. Eu estava lá por causa de uma festa, vestido com a minha tradicional roupa de criança: calça jeans, tênis e camiseta.

Foi só quando saí para fumar em determinado momento que percebi que não estava com qualquer camiseta, e sim com aquela que tem estampados o logo de A Noite dos Mortos Vivos e a menina zumbi do filme. Mas, na verdade, não fui eu quem reparou na camiseta, e sim o sujeito que fumava ao meu lado, que devia estar em algum lugar entre o oitavo e o décimo terceiro copo, e se aproximou de mim.

– Achei sua camiseta maneira.

Precisei olhar para baixo para ver qual era a camiseta. Na verdade, eu não apenas não sabia qual camiseta usava como nem havia reparado que ele estava ali. Como eu estava sozinho e outras nove ou dez pessoas fumavam ao meu redor, eu havia decidido passar o tempo fazendo uma espécie de competição, vendo se a área dos fumantes (leia-se: calçada) tinha mais tatuagens de estrelinha ou jacarezinhos da Lacoste (as estrelinhas estavam ganhando de seis a três).

– Ah, obrigado, eu disse.

Tentei fazer com que minha frase soasse como “certo, adeus”, mas fracassei miseravelmente. Na verdade, aparentemente o sujeito entendeu o meu “Ah, obrigado” como “Nossa! Que mundo pequeno! Venha mais para perto para podemos conversar e nos tornar melhores amigos!”

Foi o que aconteceu. Quer dizer, talvez não a parte dos melhores amigos, mas sim o resto. Ele se aproximou e começou a conversar.

– Eu acho filme de zumbi muito louco.

Pensei em responder que “eu não gosto, mas ganhei essa camiseta em uma rifa e tenho dó de não usar”. Mas algo me disse que isso ia abrir a possibilidade de outros assuntos e apenas piorar minha situação.

– Sim, eu gosto também.

– Eu gosto de tipo... De todos.

Dei um gole na minha cerveja e uma tragada no cigarro tentando pensar em responder qualquer outra coisa, e não aquilo que eu estava pensando. Mas na metade da tragada desisti. Dei de ombros e disparei:

– Mas não estamos falando de todos os filmes de zumbi. Estamos falando de Romero.

– Sim! Eu assisti a todos os filmes que ele, tipo, fez.

– Eu também.

– Eu assisti a todos, tipo, essa semana.

– Eu também.

Eu ignorei a parte do “essa semana”. Porque isso me obrigaria a dizer que eu comecei a assistir os filmes do Romero quando tinha catorze anos. Como hoje estou com quarenta, é o mesmo que pensar que quando eu comecei a assistir os filmes dele os zumbis ainda eram vivos. Mas colocar as coisas dessa forma seria uma sutileza grande demais para alguém com aquela quantidade de álcool no corpo.

– Sim! O Romero é tipo o criador da coisa, né?

Olhei para ele e decidi me segurar.

– Isso.

– Por que... Tipo... Não tinha zumbis, tipo, antes do tempo dele. Ele tipo inventou a coisa. Tipo, da cabeça dele.

Foda-se. Eu não vou me segurar.

– Na verdade, não. Os zumbis são antigos em algumas mitologias. África, Caribe... Todas essas mitologias possuem zumbis. O que ele fez foi atualizar esse mito e criar um zumbi moderno.

– Sóóóó!

No segundo “ó” do “sóóóó” eu já estava arrependido de não ter me segurado.

Ficamos em silêncio alguns instantes. Ele devia estar pensando aquelas coisas que bêbados que conversam com qualquer pessoa no bar pensam, enquanto eu estava torcendo por um ataque de zumbis para empurrar o sujeito para o meio da rua e usá-lo como isca enquanto eu corria para dentro do bar. Evidentemente, quem voltou a falar primeiro foi ele.

– Ele é tipo muito foda.

– Sim.

– Sou muito fã. Ele é tipo... Tipo...

– ...

– Tipo...

– ...
– TIPO O LEONARDO DI CAPRIO DOS ZUMBIS!

Olhei para ele com calma. Quem sabe, estudando sua expressão, eu conseguiria ver qual percurso aquele assunto havia percorrido pelos seus neurônios, e assim identificar em qual sinapse haveria um desvio, com uma placa indicando dois caminhos. Uma flecha para a esquerda apontaria "Continuar o assunto de forma normal", enquanto a da direita mostraria que "Siga por aqui para comparar George Romero com Leonardo Di Caprio".

Mas era impossível ver algo ali. Olhei em seus olhos e... Bem, não havia nada ali. Nem placa, nem desvio. Na verdade, nem mesmo neurônios pareciam existir ali. Talvez um punhado deles, mas apenas isso, e todos completamente bêbados tentando construir uma frase que não usasse a palavra "tipo".

– Oi?

– É! Ele é foda. Tipo, foda demais.

Olhei para o lado, na direção do meu amigo imaginário. Sim, eu tenho um amigo imaginário: ele é vulcano e ocupa o cargo de oficial de ciências em uma nave da Federação. E meu amigo imaginário estava ali, analisando o bêbado ao meu lado com seu tricorder. Quando terminou, olhou para mim e disse apenas “fascinante”. E, claro, sem demonstrar emoção alguma.

– Tipo o Leonardo Di Caprio dos zumbis?

– Isso. Tipo... Foda demais.

– Certo. Olhe, eu vou entrar. Mais tarde a gente conversa.

– Beleza! Eu vou tipo estar aqui.

– Certo. Foi um prazer.

E voltei para dentro do bar. Na porta, quase esbarrei em uma garota com tatuagem de estrelinha no pulso que estava saindo para fumar (aproveitei para atualizar o placar, que marcava agora sete a três). Fui para minha mesa, pensando que é melhor começar a sair de casa com camisetas sem nada escrito.

No meio do caminho, eu já havia mudado de ideia. Talvez fosse melhor não sair de casa. Tipo, nunca.

3 de janeiro de 2016

Coisas da Vida XVII

Foi agora, coisa de meia hora atrás. Fui fumar na frente da casa e dar uma olhada na rua, como faço toda manhã. Estava na terceira ou quarta tragada no cigarro quando ele apareceu do outro lado da rua. Era alto, magro e aquele andar que parecia temperado por duas ou três doses a mais de álcool.

Olhou para mim e fez o sinal da vitória com os dedos. Eu acenei de volta. Para um espectador desavisado, parecia apenas isso: um sujeito fazendo o sinal da vitória para o outro. Mas, para alguém mais atento – e eu vou tomar a liberdade de me incluir nesse grupo – toda uma conversa foi travada por meio desses sinais. Um louco olhando para mim e fazendo o sinal da vitória foi o modo que o universo encontrou de mostrar que “nós já sabemos onde você está e não vamos deixar você em paz ao longo desse ano”. Meu aceno, por outro lado, foi apenas um “eu sei” conformado.

Assim, quando terminou minha conversa entre eu e o cosmos, foi a vez de começar minha conversa entre eu e o louco.

– Amor, saúde e paz!

Seu tom de voz mostrou que eu estava errado a respeito da quantidade de álcool em seu corpo. Não eram duas ou três doses a mais, estava mais para cinco ou seis. E, como eram dez e pouco da manhã, a única dúvida que sobrava era se ele “já estava bêbado” ou “ainda estava bêbado”.

Eu acenei mais uma vez e gritei um obrigado, torcendo para que a conversa terminasse por ali, mas eu sabia que não podia criar muita esperança. Acho que me senti um pouco como o goleiro de um time amador que faz um amistoso contra o Barcelona: com dois minutos de jogo, os caras fazem um gol. A partir daí, tudo o que resta é torcer para que as coisas acabem logo, mesmo sabendo que aquilo é só o começo.

– Saúde, saúde, saúde!

Pensei em gritar “amor, amor, amor” como teste, para ver se ele gritaria “paz, paz, paz”, mas achei melhor não. Apenas acenei novamente e agradeci, desejando que “para o senhor também”. Agora as coisas deviam acabar. Um “para o senhor também” costuma encerrar conversas desse tipo. Todo final de ano é assim. A pessoa deseja “feliz ano novo”, você responde “para você também” e vai cada um para o seu lado, ambos passando o resto do ano sem lembrar que o sujeito existe.

Mas não, o Barcelona queria mais e resolveu atacar com o time inteiro.

– Porque o que importa é saúde! Saúde em primeiro lugar, sempre!

Achei um pouco assustador esse tipo de coisa. Será que eu estou tão acabado que vou começar a tomar sermões sobre saúde de um sujeito que está de fogo dez e pouco da manhã? Mas achei melhor não entrar nesse assunto, porque eu me conheço. Se eu entrar no assunto bebida, as chances de eu, em meia hora, estar no bar com o sujeito tomando a terceira caninha e procurando um jeito de ir embora são bem grandes.

– É mesmo, eu respondi, acenando mais uma vez e torcendo para que ele acenasse de volta e encerrasse a conversa.

Mas não. Ele não acenou. Apenas fez uma dancinha – que eu imagino que seja a Dança da Saúde em Primeiro Lugar no lugar onde ele nasceu – e sorriu para mim. Quem também sorriu foi o velho que passou pela rua nessa hora. Olhou para a dancinha e olhou para mim. E começou a rir. E quando eu olhei para ele com uma cara de “olhe, eu sei que parece que o sujeito está dançando para mim, mas apenas moro aqui e vim fumar um cigarro”.

O velho foi embora rindo e a dancinha acabou. Eu acenei mais uma vez, determinado a encerrar a conversa, mas ele ainda tinha algo para me dizer. Pela expressão dele, que de repente se tornou séria, era algo muito importante.

– O Sergião foi para Bahia, mas volta no final do mês. Eu estou no lugar dele.

– Ah, sim!, eu respondi, sem imaginar quem diabos é Sergião.

Ele acenou para mim e eu acenei para ele. Aparentemente, havia acabado.

Mas, antes que eu pudesse me virar e entrar em casa, ele gritou:

– Amor, saúde e paz!

Puta que pariu, ele ia começar tudo de novo. Não tive dúvidas. Dessa vez, acenei de volta e nem esperei uma resposta. Dei meia volta e andei apressado para dentro de casa. Sentei no sofá e fiquei alguns minutos refletindo sobre o ano que me espera.

E o pior foi me lembrar do Sergião, que a essa altura está na Bahia, de bermuda e chinelos, tomando cerveja na beira da praia.


Fazia tempo que eu não escrevia um post dessa série, em que narro os meus encontros com os loucos que andam pelas ruas de São Paulo disputando quem será o primeiro a descobrir onde estou. Você pode ler todos os posts da série, que normalmente são curtos e completamente insanos, aqui.


22 de dezembro de 2015

Exclusivo: Entrevistamos o Menininho dos Posts Politicamente Corretos do Facebook

Seja dentro de um ônibus, num vagão de metrô ou passeando pela rua ao lado do avô, você certamente já o viu antes. Mas nunca num metrô, ônibus ou na rua, e sim no Facebook. Nos últimos meses, é quase impossível não acessar a rede social sem encontrar o trabalho do ator Rui Fernandes.

Pouca gente conhece seu nome, mas todos conhecem seu personagem mais famoso: o menininho politicamente correto que aparece em relatos e mais relatos vendidos como reais nas redes sociais. Com uma carreira em televisão e teatro, o ator, que completou quarenta um anos recentemente (mas aparenta ter seis anos graças a uma rara doença conhecida como Síndrome de Highlander), viu sua carreira decolar de verdade no Facebook, especialmente graças aos milhões de pessoas que não apenas compartilham suas histórias como ainda acham que é verdade.

Nesta entrevista exclusiva, ele conta mais sobre seu trabalho, o relacionamento com Carlos, o ator famoso por interpretar seu avô machista (ou homofóbico ou preconceituoso – sua identidade muda de acordo a pauta do dia nas redes sociais) e assume: no Brasil, Facebook dá mais prestígio que teatro.

Quantos posts de Facebook você fez este ano?
[Pensa antes de responder]. Acredito que... Onze? Não, doze. Isso. Doze. Foram oito feministas, três sobre homofobia e um político. Na verdade, seriam treze, pois fiz dois posts políticos agora em dezembro. Mas como um deles só será publicado em janeiro, então esse não conta. Doze.

Como você vê a repercussão enorme que esses posts têm alcançado?
Acho que isso é fruto de vários fatores. Os textos são muito bem trabalhados, sempre com uma lição que normalmente fica comigo porque eu interpreto a criança, então tem mais impacto e gera mais empatia. Mas acho que o principal fator do sucesso é que hoje em dia as pessoas querem dizer algo, mas não sabem como.

Como assim?
Na verdade, não é que elas querem dizer algo, elas acham que precisam dizer algo. Se todo mundo está falando sobre um assunto, a pessoa se sente obrigada a falar também. Aí ela encontra um texto que parece real e tem uma mensagem bonita. Pronto. Tudo o que ela precisa fazer é compartilhar.

Virou um gênero?
Isso. No cinema você não tem o filme de super-herói? No Facebook, você tem o texto do menininho politicamente correto. É o que vende hoje. As pessoas querem consumir isso.

Mas diferente do filme de super-herói, as pessoas acreditam que as histórias do menininho politicamente correto são verdadeiras.
Ah sim, é isso que torna a história ainda mais forte. O roteiro é todo pensado para esse formato... Mas eu acho que... Não sei... [pensa] Eu acho que se a pessoa lê uma história sobre eu discutindo com meu avô machista no metrô e acredita que aquilo é verdade, não é só mérito do roteiro. Provavelmente é porque ela quer acreditar que aquilo é verdade. Acho que faz bem para ela.

Mesmo quando ela sabe que é mentira?
Mas a história nunca é mentira. Você nunca conseguiria provar.

Como assim?
Isso é algo que a gente toma muito cuidado no roteiro. Pode reparar: as histórias se passam dentro de um ônibus, no metrô, num shopping qualquer... Sempre num lugar que não é identificado com exatidão, mas que ao mesmo tempo, tem centenas de pessoas. Ou seja, se a pessoa ler e pensar que “ah, eu estava no metrô nesse dia, nessa hora, e não vi nada disso”, ela sempre vai achar que é porque estava em outro vagão.

Alguma das histórias que você trabalhou é verdadeira?
Não posso responder isso por contrato.

É que você deu a entender que elas são mentiras.
Não. Eu apenas falei da construção do roteiro. Eu não disse se ele é baseado em um fato real, ou se foi inventado por alguém que estava no Facebook e não tinha mais o que fazer. Você que está deduzindo isso.

Alguém já acusou de ser mentira?
Algumas pessoas. Mas é o que eu falei: você não pode provar que é mentira. A gente toma muito cuidado com isso. Você já reparou como nenhuma história que se passa no metrô tem o número do vagão? Ou, às vezes, quando aparece o segurança, nunca tem o nome do segurança? Mas não só é esconder localização e horário... O diálogo conta muito. Ele precisa ser real. Muitos roteiros pecam nisso, e colocam a criança falando como adulto. Detesto isso.

Como assim?
É assim: como eu interpreto um menino de seis anos, eu preciso falar como um menino de seis anos. E muitas vezes o roteiro está tão preocupado em criar uma mensagem bonita que as pessoas se esquecem disso, que os meus diálogos precisam parecer reais, senão ninguém vai acreditar. Pouca gente sabe disso, mas muitas vezes o roteiro é mudado de última hora.

Você tem alguma história assim?
Um dos primeiros posts que apareci... Era um texto sobre preconceito e se passava num ônibus. Um dos personagens era um negro que estava no banco ao lado e o Carlos, que interpreta meu avô, reclamava algo sobre Jesus não gostar de pretos. E eu respondia que “mas vovô, se Jesus nasceu no Oriente Médio, ele também não era negro?” e as pessoas aplaudiam. Era uma ideia ótima e o roteiro até tomava o cuidado de fazer o meu avô usar a palavra “preto”, e eu falar “negro”. Era um roteiro todo pensado em compartilhamentos, mas não parecia real.

Por quê?
Porque eu fazia um menino de seis anos. E um menino de seis anos jamais teria essa visão de “quem nasce no Oriente Médio não é branco”. Um menino de seis anos não sabe o que é Oriente Médio. E eu conversei isso com os roteiristas, expliquei e eles entenderam. O roteiro foi mudado e na versão final, eu respondi que “mas vovô, Jesus gosta de todo mundo e ele gosta até mesmo do senhor, que não gosta de negros”. Ficou mais real.

Mas na história real o garoto dizia isso?
Não sei.

Esse post foi baseado em fatos reais?
[silêncio].

Você mencionou o Carlos, que sempre interpreta seu avô. Quantos posts no Facebook vocês já fizeram juntos?
Não lembro. Uma meia dúzia, talvez mais. Temos uma química boa. É engraçado que ninguém percebe que o personagem dele é mais importante que o meu. Porque eu sou apenas o contraponto. Se ele é machista, eu sou feminista. Se ele é reacionário, eu sou de esquerda. E ele faz esse papel com um talento que nunca vi antes. Ele realmente encarna o personagem nos posts, seus diálogos são sempre com ódio, com rancor...

O engraçado é que ele normalmente interpreta um velho machista ou homofóbico, mas ninguém desconfia que, na vida real...
Sim, nem passa pela cabeça das pessoas que o Carlos é gay. Acho que isso é outra prova do talento dele.

Vamos falar um pouco de você. Você está com quantos anos?
Fiz quarenta e um agora em novembro.

E você aparentar ter seis anos...
É algo que a ciência ainda não conseguiu explicar direito. [acende um cigarro]. Posso fumar? Alguns chamam de Síndrome de Highlander, outros de Síndrome de Peter Pan. Não sei, para mim é algo normal. Você se olha no espelho todo dia e não vê nada de diferente, certo? É o mesmo comigo.

Mas com isso sua carreira ficou baseada na sua aparência.
Sim. Mas é engraçado que ninguém percebe isso, a não ser quando eu converso com a pessoa, como aqui, com você. As pessoas me olham na rua e acham que eu tenho seis anos de idade, e algumas até estranham o fato de eu estar andando sozinho.

Mas ninguém reconhece você na rua?
Você já viu um post como os que eu trabalho com foto? Foto das pessoas, do metrô, da loja de brinquedos? É engraçado isso: hoje, eu sou um dos atores mais famosos do país, mas ninguém sabe que eu sou ator. Acham que sou um menino de seis anos. E como ninguém sabe como é meu rosto... Isso é meio mágico.

Isso ajuda o post a parecer uma história de verdade?
[silêncio]

Você nunca havia feito tanto sucesso antes?
Não. Eu sou ator há vinte anos. Fiz muitos comerciais, sempre como a criança, claro. Teve ano que cheguei a fazer três comerciais diferentes somente na época do Dia das Crianças, porque eu era a única criança que conseguia decorar o texto, já que todas tinham seis anos e eu tinha vinte e três, vinte e quatro [risos]. Fiz pontinhas em novelas, mas coisas pequenas. Aí fui para teatro... Mas teatro aqui é difícil. Você não tem reconhecimento, financiamento... É difícil demais.

E aí surgiu o Facebook.
Isso. Me chamaram para fazer um texto, era sobre machismo. Eu fui, porque era diferente, nunca tinha feito posts de Facebook. E me apaixonei. O ritmo de trabalho, o cuidado com o texto... Adorei. Hoje, não penso em fazer outra coisa.

E tem mais alcance que teatro...
Ah, sem dúvida. Você se lembra do texto da cruzada de pernas? [Nota: ele se refere a um dos maiores sucessos de sua carreira, quando interpretou o garoto que cruza as pernas no metrô e o avô diz que aquilo é coisa de mulher, para logo em seguida todos os homens do metrô cruzarem as pernas em protesto]. Eu fiz peças de teatro que não venderam tantos ingressos quanto aquele texto teve de compartilhamentos.

Mesmo sem ser verdade?
[silêncio]

Quais seus planos futuros?
Continuar no Facebook. Esse ano agora, 2016, tem eleição, vai ter muito trabalho. Já me avisaram que dois partidos querem peças conosco. Uma delas sobre as ciclovias em São Paulo, a outra não posso falar, porque ainda não assinamos o contrato. Mas antes disso tem Páscoa. Páscoa sempre tem muito trabalho. O telefone aqui não para de tocar, com as pessoas querendo que eu apareça em posts sobre Kinder Ovo.

Kinder Ovo?
Sim, por causa daquele negócio do Kinder Ovo embalagem de menino e embalagem de menina, sabe? Todo ano eu trabalho em dois ou três posts pedindo o ovo de menina, para desespero do Carlos que tem medo que eu, como neto dele, me torne gay. [gargalhadas]

Então nós ainda vamos ver muito o menininho politicamente correto no Facebook?
Espero que sim.

Algum tema de post que você ainda não tenha feito?
Veganismo. Mas acho que deve acontecer logo, está na moda.

Como seria esse post?
Não sei. Eu imagino que aconteceria num mercado. Eu brigaria com meu avô, dizendo para ele que o abate de gado é cruel e sanguinário. E claro que todos os outros clientes iam começar a bater palmas e a devolver as carnes no açougue.

Mas isso seria ficção.
Será? Como você sabe que essa história não está acontecendo agora mesmo, e um dos clientes ficou tão emocionado com minha atitude que resolveu escrever no Facebook?

É porque ela parece um pouco forçada...
Bom, ela pode acontecer de forma diferente. Lembre-se que não sou roteirista.

Você não tem medo de que, ao ler essa entrevista, as pessoas deixem de acreditar nos posts que você aparece? Que elas leiam o post e pensem “isso aqui é mentira, a história é ficção, o menininho é um ator”.
Não. É o que eu disse: a pessoa quer acreditar. Se você chegar a ela e dizer que “olha, essa história é mentira por causa disso, disso e disso”, ela não vai ouvir. Vai continuar achando que é verdade e compartilhar como se fosse verdade. Isso vale para qualquer assunto. Política, tudo. A pessoa não acredita no que parece ser verdade, ela acredita naquilo que ela quer que seja verdade.

Mesmo se for mentira?
Sim. Especialmente se for uma mentira bem contada. Mas tem gente que acredita em mentiras mal contadas também.


Alguns dos seus posts é uma mentira bem contada?
Não. São histórias bem contadas. Mais que isso eu não posso dizer, por contrato.


(Assim como a maior parte dos posts estrelados por esse ator, essa entrevista é uma obra de ficção. A diferença é que, ao contrário dos posts, aqui isso é assumido.)

4 de dezembro de 2015

Sonhos de Kurosawa Gordon XIV

Eu estava andando pela minha casa, mas havia algo de errado. Todos os aposentos estavam onde deviam estar, mas eu não os reconhecia totalmente, era como se tivesse algo – um detalhe – de errado. E eu pensei que isso era engraçado, já que eu moro aqui há pelo menos dois anos e eu já devia conhecer o imóvel.

Mas não tive tempo de pensar nisso, pois ouvi uma briga. Era minha Esposa, no nosso banheiro, reclamando alguma coisa a respeito do meu enteado. Fui até a porta do banheiro para falar com ela e, assim que coloquei a cara na porta, vi que realmente existia alguma coisa de errado na casa.

O banheiro estava onde deveria estar e era um banheiro, mas não era o meu banheiro. Seu teto agora era na diagonal, como se ele ficasse abaixo de uma escada – que não existe – e ele devia ter uns oito, quase dez metros de profundidade. Lá no fundo, caixas e mais caixas empilhadas.

A Esposa estava andando lá dentro, visivelmente irritada com alguma coisa. Pelo que entendi, meu enteado não fazia mais nada na vida a não ser ver coisas referentes a pugs japoneses. Eu tentei acalmá-la, dizendo que ele é moleque, é assim mesmo e logo passa e aquelas coisas que você fala numa situação dessas. Mas não adiantou.

Ouvi a porta da sala abrindo e, imaginando que fosse meu enteado, decidi resolver a situação. Disse que iria falar com ele e esperei até que ele passasse pelo corredor. Depois de alguns segundos, ele apareceu. Carregava uma mochila que parecia estar cheia e eu estranhei, pois até onde eu sabia, ele já estava de férias. Mas o que me chamou a atenção foi o que ele tinha na mão: uma garrafa de vinho branco gelada, que ainda estava lacrada.

Antes que eu falasse algo, ele abriu a garrafa de vinho, deu um gole. Foi quando eu percebi que ele não estava exatamente sóbrio.

– Então, some com essa garrafa porque senão não consigo defender você.

– É só vinho.

– Esconde essa merda.

A garrafa sumiu das mãos dele, e eu perguntei.

– Esse negócio dos pugs japoneses. Você gosta disso?

– Sim, ele respondeu, dando de ombros.

Voltei para a porta do banheiro e chamei minha Esposa.

– Olhe, ele disse que gosta do negócio. Isso para mim basta.

– Mas ele está indo mal na escola.

– Eu sei. Mas se ele gosta do negócio...

Minha Esposa começou a subir o tom de voz, e falou algo que não fez sentido. E foi isso que eu apontei:

– O que você está falando não tem a ver com a discussão.

Ela subiu o tom ainda mais.

– Então você está falando que eu não sei me expressar?

– Não. Você apenas não se expressou bem agora, só isso.

Um tom mais alto.

– E você acha que se expressa melhor que eu?

De repente, eu vi que estava no pior cenário possível, aquela situação onde uma briga tem uma frase que parece ganhar vida própria e vira uma discussão com potencial para se tornar maior que a briga original e que normalmente termina com uma briga onde ninguém mais sabe o motivo.

– Não, eu disse isso.

– Sim, foi o que você disse.

– Olha, o que está acontecendo é mais ou menos como aquela música do Paralamas do Sucesso, sabe?

Ela olhou para mim e eu comecei a cantar.

Eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada...

E foi só no primeiro verso que eu percebi que aquilo não era Paralamas, era Engenheiros. Mas rapidamente me corrigi:

– Não, desculpe, não era essa música. Desconsidere isso na discussão. Eu queria cantar aquela que começava com “eu quis dizer, você não quis escutar”. Desculpe, eu provavelmente acessei o arquivo errado. Como as músicas estão muito desorganizadas no meu cérebro, e eu sei que preciso arrumá-las, eu devo ter buscado a música pela palavra “diz”. Nem lembrei que o Engenheiros tem uma música com “dizem”.

Ela não me ouviu. Eu havia escolhido a música certa. Eu estava tentando dizer, mas ela não queria me escutar. Ao invés disso, começou a gritar.

E eu decidi que era hora de ir embora, antes que a discussão piorasse.

Abri os olhos e sentei na cama. Naquele pequeno espaço onde sonho e realidade ainda se misturam, fiz – conscientemente – um gesto de “foda-se” e disse para mim mesmo:

– Então fica aí brigando sozinha no seu sonho que eu vou levantar.

A casa estava como eu me lembrava. Fui até a sala e encontrei minha Esposa. Não havia sinal de briga. Me sentei ao lado dela e disse:

– Acho que eu prefiro você aqui, no mundo real.

– Oi?


– Nada. Vou beber Coca e começar a arrumar minhas músicas.