25 de fevereiro de 2016

Gimme Shelter

Ontem, quase tudo parou.

A começar pela cidade – aquela, que dizem que não pode parar – que enfrentou um congestionamento histórico. A tempestade também parou e resolveu dar uma trégua quando os Rolling Stones apareceram no palco.

E os olhos de milhares de pessoas também pararam.

Bastava olhar ao redor para perceber isso. Muitos dançavam, outros gritavam, alguns cantavam juntos. Mas os olhos de todos estavam parados, apontados na direção da única pessoa que se recusava a parar. Assim que colocou os pés no palco, Mick Jagger afirmou que “se você me ligar, eu nunca vou parar”. Era mais que um trecho de música. Era um aviso. E uma promessa.

Enquanto a cidade estava parada, o Morumbi era um mundo à parte, onde tudo não apenas se movia, mas se movia junto com Jagger.

Qualquer pessoa sabe que o vocalista não para quieto um minuto durante o show. Ele canta, dança, corre, toca gaita, às vezes tudo quase ao mesmo tempo. Mas ontem eu descobri que é preciso assistir a banda ao vivo para entender isso. Mick Jagger tem a plateia na mão desde o início do show, mas a TV ou a tela de um computador são pequenas demais para mostrar a intensidade desse domínio.

É um daqueles casos raros em que tudo parece girar ao redor do vocalista – muitas bandas são assim – mas que todos os outros músicos têm vida própria – poucas bandas são assim. Basta alguns minutos olhando o palco para entender que Keith Richards está dando seu próprio show. Ron Wood, o único Stone que não ajudou a fundar a banda, também. E o mesmo pode ser dito de Charlie Watts, atrás de sua bateria.

Todos funcionam isoladamente, mas juntos, formam os Rolling Stones, um daqueles casos em que o todo é muito maior que a soma das partes.

E é justamente por causa desse “o todo é maior que a soma das partes” que eu consegui compreender o show completamente somente hoje pela manhã. Afinal, cada uma das partes que formam esse show já é enorme. A abertura de Sympathy for the Devil, que levou milhares de pessoas de volta para os excessos e a teatralidade do fim dos anos 60. O arranjo fenomenal de Miss You, que transformou uma música simples de 78 numa peça complexa e moderna. E a agressividade de Paint It Black, que possui mais fúria que poderia se esperar de uma música que está completando cinquenta anos.

E, claro, Gimme Shelter, um daqueles casos em que o rock exigiu ser chamado de arte e que, ao vivo, se torna quase uma força da natureza. Ela é maior que a versão de estúdio, mas, mesmo se tivesse metade da duração, ela ainda seria gigante, combinando sensualidade e a sensação de que o mundo irá acabar a qualquer momento. Ao assistir (I Can’t Get No) Satisfaction ao vivo, você lembra que está diante de uma das maiores bandas da história do rock; mas, Gimme Shelter vai além e mostra que você está diante de alguns dos maiores músicos do século 20.

Mas essas partes, mesmo grandiosas, eu compreendi com facilidade. Afinal, são músicas que ouço há pelo menos vinte anos. Mas somente hoje pela manhã, enxergando o show com mais calma, entendi que foi um daqueles raros casos do “show certo na hora certa”, pois cada vez mais eu tenho a certeza que não teria apreciado tanto o que vi ontem no Morumbi se isso tivesse acontecido, por exemplo, dez anos atrás.

Afinal, eu nunca vasculhei o catálogo da banda com afinco. Como qualquer pessoa que gosta de rock, conheço as essenciais – o que no caso dos Stones são pelo menos vinte – e tenho as minhas preferidas entre aquelas que não precisam estar em todos os shows. Mother’s Little Helper. She’s a Rainbow. Ruby Tuesday. Dandelion. Assim, dez anos atrás talvez eu prestasse muito mais atenção nas grandes canções. Ainda assistiria ao show inteiro, com a mesma paixão, mas sempre esperando pelo terreno confortável das músicas obrigatórias, tentando decorar cada momento delas desde o primeiro acorde.

Ontem foi diferente. Prestei atenção em cada acorde, cada solo. Out of Control já entrou na minha lista de músicas preferidas dos Stones. You Got the Silver, ao vivo, me passou a impressão de ser um dos maiores – e mais doloridos – blues feitos dos anos 60 para cá. E finalmente entendi porque Keith Richards diz que Mick Jagger é um dos maiores gaitistas da história do blues. Ele não toca gaita como um “vocalista que toca gaita”, mas sim como alguém que parece não ter feito outra coisa na vida.

Aliás, ter escutado blues durante os últimos dez anos parece ter me preparado melhor para entender esse show, identificando passagens e arranjos que não estão nas versões originais e mostram que a paixão dos ingleses pelo blues parece ter crescido ainda mais nos últimos anos. Mas é um show dos Stones. E mesmo com o blues chovendo sobre o estádio desde horas antes que a banda surgisse no palco, com as músicas que tocavam no sistema de som do estádio, o que estamos vendo é um show de rock.

E aí fica claro o único engano que Mick Jagger cometeu durante a apresentação, ao tentar nos convencer mais uma vez que “é apenas rock ‘n roll”.  Por mais que ele entoe essa frase desde 1974, Jagger e sua banda fazem questão de desmentir essa ideia durante cada segundo do show. A cada acorde de guitarra, a cada refrão cantado por um estádio inteiro, fica claro que “não é apenas rock ‘n roll”. É algo muito maior. É uma vida inteira.

Eu ouço rock há quase trinta anos. Vou de heavy metal para hard rock, do hard rock para o rock clássico, volto para o heavy metal. Mudo a forma, mas jamais o conteúdo. Expandi meu gosto musical, claro. Ouço blues, jazz, música clássica... Mas nunca deixei o rock para trás. Porque não é “apenas rock ‘n roll”.

É o que eu sou.

Sempre que eu coloco um dos meus discos preferidos para tocar, lembro que sempre fui assim. Sempre que apanho um dos meus discos preferidos, percebo que sempre serei assim. É o meu refúgio. Basta eu colocar um dos meus discos preferidos para tocar que eu venço o tempo. Deixo de viver numa época em que meus heróis estão morrendo com uma frequência cada vez mais assustadora e volto aos meus catorze anos.

If I don’t get some shelter
Oh yeah, I’m gonna fade away.

E de repente, o mundo parou para que uns garotos de setenta e poucos anos viessem me lembrar disso mais uma vez. Quatro garotos que chegaram logo depois da chuva e fizeram o mundo parar para explicarem minha vida inteira, em cada acorde, cada verso, cada solo. E, quando um dos garotos disse que “é apenas rock ‘n roll”, eu entendi mais uma vez que, na verdade, ele estava falando que “é apenas quem você é”.

Sorri, enxergando mais uma vez toda minha história e tudo em que acredito. E isso é algo que todos nós precisamos de vez em quando.  E, como esses mesmo garotos já haviam me ensinado antes, você nem sempre consegue aquilo que quer. Mas às vezes você consegue aquilo que precisa.

Mick, Keith, Ron e Charlie,

Obrigado por ontem. Obrigado por tudo.

2 comentários:

Fagner Franco disse...

Gimme Shelter, pra mim, está entre as 5 melhores músicas de Rock (meu estilo preferido, então...) de todos os tempos. É absurda. PQP. Invejo sua ida ao show, sua escrita, seu talento - faz tempo que não passo aqui. Essa cidade que não para nos engole.

Eduardo Cabrini disse...

Puta que pariu!!! Que show de texto!e deve ter sido um puta show! Afinal, eram os Stones! Abs