2 de março de 2016

A Parte que me Cabe

Minha casa tem computador. Internet. A tecnologia praticamente rege a minha vida. Eu tenho uma enorme biblioteca de músicas que não é palpável, assisto a filmes que não estão guardados em uma mídia física. Nos últimos anos, li livros e mais livros sem ter contato algum com papel.

Minha casa está no século 21.

Ao menos, até a hora de dormir. Quando apago a luz do quarto e me deito na cama, descubro que todos os avanços científicos e tecnológicos que estão espalhados pelos aposentos simplesmente disfarçam o fato de que, ao menos na minha casa, ainda vivemos na Idade Média.

Basta eu deitar para me lembrar disso.

Quando vou para cama, metade dela está ocupada pela minha Esposa. Justo. Afinal, estamos falando de uma cama para duas pessoas, e essa conta é fácil de fazer: uma cama dividida por duas pessoas resulta em meia cama para cada uma delas. Isso é aritmética, e a grande vantagem da aritmética é que ela não muda suas respostas de acordo com a época em que vivemos.

Mas o problema é que existem metades e metades da cama.

A metade ocupada pela minha Esposa é como uma comanda de bar: pessoal e intransferível. É dela e apenas dela. Assim como as terras da Igreja na Idade Média, ninguém pode colocar o pé ali sem permissão. E não vem ao caso se ela dorme encolhida, fazendo com que metade das suas terras seja improdutiva e não esteja sendo usada para nada. É a metade dela e isso é justo.

Agora, pau que bate em Rob Gordon não bate na Esposa.

Porque, teoricamente, eu também tenho direito a minha metade, só que isso está longe de acontecer. Porque a minha metade da cama é ocupada também pelo Gato Ridículo, que tem o hábito de desafiar as leis da Física. Afinal, teoricamente ele tem o tamanho da minha canela, mas, ao deitar, ele assume o tamanho de um tigre de Bengala.

Talvez seja o primeiro caso de um organismo que sofre de inflação. Ele deita na cama e se estica até praticamente duplicar de tamanho, como se durante o dia ele fosse um arquivo zipado que descompacta apenas na hora de dormir. Ou talvez enquanto ele está acordado ele não é um gato, mas sim um ícone de um gato; ao deitar, alguém clica duas vezes nele e abre o programa inteiro.

E tudo isso acontece na minha metade da cama. Então de um lado temos a Igreja. Todos respeitam suas terras, pois quem colocar o pé ali será excomungado. E, na outra metade, temos o suserano, até aqui chamado de gato, que permite, em sua benevolência, que eu ocupe uma pequena parte das suas terras, desde que eu trabalhe para ele apenas para conseguir ter dinheiro suficiente para pagar impostos também para ele.

E quando você tem quarenta anos de idade e percebe que se tornou o vassalo de um gato, é porque alguma coisa de errado você fez na vida.

Ontem foi assim. Trabalhei até umas quatro da manhã e fui deitar. A Igreja estava lá, sonhando com os anjos – acredito que é com eles que a Igreja sonha. Mas eu, claro, tive que me contorcer para deitar de uma forma que conseguisse colocar as duas pernas na cama. O Gato Ridículo acordou e deu uma reclamada – que na verdade é um aviso – e eu fiquei deitado de lado, à beira da cama. Esperei alguns minutos até que meu senhor feudal se ocupasse com outra coisa para conseguir me virar e tentar ir um pouquinho mais para o meio.

Quando ele fechou os olhos, tentei passar a perna por baixo dele para conseguir me virar e deitar de bruços. Agora, o problema é que o castelo do suserano é alto e de lá ele vê suas terras inteiras, percebendo imediatamente quando algo está errado. Assim, ele veio tirar satisfações comigo.

– O que você pretende fazer com essa perna?

– Esticar ela aqui.

– Mas essas terras não são suas. Eu permito que você mantenha sua perna onde ela está e mais nada.

– A minha perna está dormindo.

– Sim, porque sua perna é preguiçosa como você e todos os outros camponeses. Dê valor às terras que você possui e vá garantir seu sustento.

– Eu não tenho “terras”. Se você olhar como a cama está distribuída, eu tenho espaço suficiente para metade do meu corpo.

– Sinto muito, é a parte que te cabe nesse latifúndio.

– Você sabe que eu sempre posso enfiar o pé na sua cara e derrubar você da cama, certo?

– E você, camponês, sabe que eu tenho garras e posso deitar no meio das suas pernas após você dormir, certo? Mesmo com toda sua ignorância, eu acredito que você consegue fazer essa conta.

– Vai só um pouco para o lado, porra.

– Estou dormindo agora. Amanhã eu lhe receberei em meu palácio e ouvirei suas demandas. Torça para eu acordar me sentindo generoso.

Só que há outro problema. Pois se o suserano sabe tudo o que acontece em suas terras, a Igreja sabe tudo o que acontece em todos os lugares. E, ao menos aqui em casa, a Igreja tem sono leve. Ela acorda na sua metade da cama e vira-se para mim.

– O que você está fazendo?

– Eu não consigo deitar direito por causa do Gato.

– São quatro horas da manhã, vai dormir.

Ela fala isso, vira-se para o lado e dorme. Eu fecho os olhos e tento dormir nos meus poucos centímetros quadrados e, quando estou quase cochilando, sinto a voz do Gato nos meus ouvidos.

– Viu o que você fez? Você ofendeu a Igreja.

– Vai se foder.

– Basta uma palavra minha para que logo pela manhã você seja acusado de bruxaria e queimado vivo.

Sim, ele tem razão. O Gato tem a capacidade de influenciar a Igreja como e quando quiser. Assim, me conformo com o fato de que nunca haverá uma reforma agrária – e que se ela acontecer, provavelmente o Gato usará seu poder para fazer com que eu tenha que dormir no tapete do banheiro – e tento pegar no sono.

E até consigo dormir. Ao menos, até pouco depois do Sol nascer, quando os vizinhos começam a gritar (e se você acha que estou exagerando, leia esse post aqui), que, na Idade Média em que vivo, seria o equivalente a uma invasão de bárbaros.

E como sempre acontece nesses casos, sobra para o vassalo. No terceiro grito o Gato acorda e decide que alguém precisa proteger suas terras.

– Pegue uma espada e vá defender meu modo de vida.

– Eu estou tentando dormir.

– Você está aqui para me servir. Pegue uma espada logo.

– Me deixe em paz.

– Você se lembra do que eu disse ontem? Garra? Meio das suas pernas? Lembra?

Aí eu levanto, com o corpo dolorido, e vou trabalhar nas terras do meu senhor. De Sol a Sol, agradecendo pelo fato de que eu tenho um pedacinho de terra para mim. E torcendo para que o senhor do castelo não lembre que eu existo durante o dia.

E que eu continue nas graças da Igreja.

9 comentários:

Elise Garcia disse...

Fico imaginando qual é a opinião do excelentíssimo Besta-Fera a respeito desse gato folgado... :P

Fernando Santos disse...

Haha, dá pra imaginar a situação, com o gato sempre no controle total!

Caio Geraldini disse...

Acho que o gato ridículo e o Garfield estudaram juntos.
Gostei muito da analogia.

Eduardo Cabrini disse...

Meu "gato" é meu filho de dois anos! Mas o resto é mais ou menos tudo igual! Abs

trottta disse...

A gritaria dos vizinhos também pode ser obra da Santa Inquisição. Ninguém espera a Inquisição Espanhola. Muito embora a Igreja Esposa não tenha algo a ver com isso. É... talvez não seja a Inquisição.

Varotto disse...

É pequena a parte que te cabe neste gatifúndio.

Rafa Verginelli disse...

Espetacular, ri muito com esse Gato Ridículo hahaha
Consigo imaginar direitinho essa briga.
Minha cachorra é esse tipo também.

Luiz Novaes disse...

Já escutei mais de uma vez que gatos são leais a casa e não ao dono. O gato ridículo ajuda a difundir esse pensamento certo? . Kkk

Ótimo texto. Abraço

Luiz Novaes disse...

Já escutei mais de uma vez que gatos são leais a casa e não ao dono. O gato ridículo ajuda a difundir esse pensamento certo? . Kkk

Ótimo texto. Abraço