24 de março de 2016

Rob Gordon X Ovos do Mercado

Desde que eu me casei, aprendi a fazer compras no mercado.

Quer dizer, quando eu era solteiro, conhecia os procedimentos básicos: entra no mercado, pega o que você quer e não se esqueça de passar pelo caixa antes de ir embora para evitar problemas com a lei. Mas eu conhecia apenas alguns corredores do mercado: o de bebidas, o de carnes, o de congelados e o de doces.

Agora, tudo mudou. Acho que a mudança mais significativa foi aprender que aquela prateleira cheia de plantas que normalmente fica num canto não é um jardim para os clientes descansarem. Hoje eu sei que aquilo se come e – mais espantoso ainda – as coisas ali tem nomes diferentes de “mato”.

Então agora eu sei comprar espinafre e acelga. Claro que ainda não conheço as verduras a olho nu (a acelga é aquela que é quase branca, não é?) e preciso sempre olhar para as etiquetas de preços para achar o que eu quero. A única exceção é a couve manteiga, mas isso não é mérito meu e sim da natureza. Sejamos sinceros: pegar uma planta e chama-la de nome-da-planta-MANTEIGA é um dos maiores cases de marketing da história.

Mas eu também sei comprar legumes agora. E quando eu digo “sei comprar” não estou falando que eu consigo pegar o legume e colocar naquele saco plástico. Não, eu sei escolher o legume. Mas claro que eu preciso sempre de uma orientação antes.

– Preciso que você compre pimentões.

– Quantos?

– Dois.

– E como eu faço isso?

– Como assim?

– Como é um pimentão bom?

– Ele está com a casa lisinha.

– Só isso? E a consistência?

– Com o pimentão, só a casca lisa. E olhe se não estão murchos.

Assim eu saio de casa me perguntando se pimentões têm tão poucas regras, ou se minha Esposa resolveu simplificar as coisas para mim. Mas logo deixo isso de lado porque estou no mercado escolhendo pimentões, olhando a casca de todos e reclamando que nenhum está bom, que todos estão murchos, e ainda por cima são minúsculos, e olha o preço do pimentão, que absurdo que está.

(Eu tive que interromper o texto alguns minutos para pensar um pouco sobre o fato de eu ter me tornado uma pessoa que reclama do preço do pimentão).

Mas isso vale para tudo. De pimentões a cebolas, de abobrinha a chuchu... Dependendo do caso, eu analiso a casca, a consistência e qualquer coisa que for preciso. Isso, claro, com a devida orientação. Quando eu vou comprar legumes, sou a prova viva de que a Educação pode mudar o país. Porque agora eu sei comprar tudo.

Ou quase tudo.

Porque eu odeio comprar ovos.

E ovos, teoricamente, seriam fáceis. Basta ir até o lugar deles, pegar uma caixa e pronto. Tudo o que eu preciso fazer é não olhar para os ovos de codorna. Se eu fizer isso, vou imaginar como meu dia seria feliz tendo um balde de ovos de codorna temperados com azeite, sal e pimenta e levar todas as caixas. Sim, ovos, teoricamente, seriam fáceis de comprar. Mas aí entram os dois problemas.

Primeiro, eu tenho pavor de levar ovos para casa. Sempre que eu vou ao mercado com a Esposa, eu faço questão de carregar as sacolas na volta. Mesmo que a gente tenha comprado uma bigorna, faço questão de levar tudo. Ah, você quer levar esse cofre também? Eu levo. Se você acha que o piano de cauda está com um preço bom, leva, ué. Eu carrego para casa. Eu carrego tudo.

Menos os ovos.

Os ovos eu coloco numa sacola separada e dou para ela, porque não quero nem chegar perto daquilo. Sim, eu sei que isso me coloca na posição do jogador de futebol que se recusa a bater pênalti, mas não me importo.

Carregar os ovos para casa é uma responsabilidade grande demais. Aliás, eu acho que os ovos não deveriam ficar expostos nos corredores do mercado, e sim dentro daquele negócio que eu chamo de armário dos adultos, que é onde ficam as bebidas e os cigarros. Os ovos tinham que estar lá dentro, para que ficasse claro que crianças não podem chegar perto deles.

Acabou de me ocorrer que se o armário das bebidas e cigarros tivesse não apenas os ovos, mas também bacon, eu provavelmente tentaria comprar o armário inteiro, com móvel e tudo, mas isso não vem ao caso.

Então, se eu estou com a Esposa, quem leva os ovos é ela. Agora, quando eu estou sozinho... Aí eu preciso dar um jeito de levar os ovos por conta própria. E o dilema começa no caixa.

– CPF na nota?

– Sim. Cuidado com os ovos, por favor.

– Débito ou crédito?

– Débito. Você tem uma sacola?

– Aqui.

– Não tem uma melhor?

– Como assim?

– Uma que seja acolchoada.

– Acolchoada?

– Isso. Se tiver plástico bolha, melhor ainda.

E não, não é exagero meu. Porque eu sei que os ovos estão esperando para explodirem por conta própria na minha mão. Então, saio do mercado parecendo um idiota: eu ando apressado para casa, querendo me livrar logo daquilo. E levo a sacola de ovos longe do corpo, com o braço esticado para frente, como se eu estivesse carregando um dispositivo nuclear dentro daquela sacolinha.

Sim, as pessoas na rua devem olhar para mim e achar que sou idiota, mas não me importo. Tudo o que eu quero é entrar em casa e colocar os ovos na mesa. Porque colocar a caixa de ovos na mesa não é apenas “colocar a caixa de ovos na mesa”. É uma declaração de que, a partir de agora, o que acontecer com esses ovos não é responsabilidade minha.

Eu odeio comprar ovos.

Mas eu fiquei aqui falando sobre a dificuldade que tenho para levar os ovos para casa e esqueci que meu problema com os ovos começa antes da compra. Lembram quando eu disse que agora eu sei escolher tudo no mercado?

Eu não sei escolher ovos.

Você já reparou que toda pessoa antes de comprar ovos abre a caixa e dá uma espiada? Bem, eu não sei o que elas olham. Eu sei que elas não olham apenas se os ovos não estão quebrados, porque elas ficam às vezes até dez segundos olhando os ovos. Então elas estão vendo alguma coisa muito mais complexa ali. E eu não sei o que é.

Sim, minha Esposa já me falou algumas vezes, mas eu não consigo me lembrar. Se alguém falar aqui nos comentários, eu provavelmente vou lembrar também. Mas eu não consigo decorar essa merda, então sempre que eu preciso comprar ovos eu não faço ideia do que tenho que olhar. Talvez eu esteja com tanto medo de levar os ovos para casa que meu cérebro apaga todo o resto.

Então, eu abro a caixa de ovos, e...

E nada. Fico ali fingindo que estou olhando algo. Porque o mundo das donas de casa é perigoso, e se as pessoas do mercado perceberem que eu não sei comprar ovos, eu nunca mais serei respeitado no mercado. Vão perceber que eu não faço parte daquele mundo e começarão a bater com o carrinho em mim, vão pegar as coisas do meu carrinho, jogar peixes nas minhas costas...

O mundo das donas de casa é um negócio cruel.

Então eu não dou o braço a torcer. Eu abro a caixa de ovos e fico ali, olhando para elas e contando até dez, para que ninguém perceba que eu não faço ideia do que devo fazer ali. E funciona. Outro dia mesmo eu estava olhando os ovos e contando até dez. Quando eu estava no sete, uma velhinha apareceu do meu lado.

– Nossa. Que ovos lindos.

– Não é? Eu estava aqui admirando justamente isso, eu respondi, sem fazer ideia de porque aqueles ovos eram lindos. Eles não eram nem feios nem bonitos. Pareciam ovos normais, daqueles que estão loucos para explodir dentro da minha sacola.

– Acho que vou levar uma caixa. Estão muito bonitos.

– Sim, eu vou levar uma também. Estão bonitos demais. Estão tão... A cor deles está... É... A casca... Estão bonitos. Eu vou levar.

Aí coloco no carrinho e torço para que a mulher perceba que eu não sou um embuste. E, para tentar mudar o foco dela, aproveito que ela está ali ao meu lado e comento.

– E o preço do pimentão? Você viu que absurdo?

Aí conversamos sobre pimentões e chuchus, abobrinhas e tomates. E pouco depois vou embora, certo de que meu disfarce não foi descoberto. Aí pago e vou para casa andando feito um imbecil, carregando os ovos um metro à frente do meu corpo e torcendo para aquilo acabar logo.

Eu odeio comprar ovos.

15 comentários:

Dragus disse...

E, mesmo com todo o estudo, continua sem saber cozinhar arroz.

Fernanda disse...

Rob, a gente olha os ovos pra ver se não tem nenhum quebrado, trocado, ver a cor da casca e saber se não tem nenhum podre ou passado... Kkkk Mas minha sogra faz mais mágica que isso: ela sacode os ovos pra saber qual tem a maior gema ou é gêmeo, e ela sempre acerta! Ah, ainda no tema Hortifruti: vc já aprendeu a comprar melão e melancia, escolhendo a mais docinha pelo som?! Kkkk

trottta disse...

"O mundo das donas de casa é um negócio cruel". Excelente, como sempre! :D

Eduardo de Souza Caxa disse...

Supimpa como sempre! E 'tamo junto nessa: também odeio comprar ovos e às vezes vou ao mercado só por eles, minimizando o risco no transporte (trobarem com outros itens).

Kosmidis disse...

https://www.youtube.com/watch?v=XHJTjy5myFs Lembrei dessa maravilha !!!

Elise Garcia disse...

Dica simples: se estiver rachado, fecha a caixa e devolve. A arte de escolher ovos é algo que requer anos de treino, mas ver se algum deles está rachado é um bom começo.

Nelson disse...

Minha tática é simples: sempre compro ovos na feira e sempre peço para a vendedora escolher, fora a embalagem, que é tão boa que permitiria até despachar como bagagem num voo.

Robson N. Santos disse...

Meu problema são os tomates. Odeio tomates. Por mais que eu escolha, sempre levo alguns ruins.

Thallys Eu disse...

Robgordon, conheci você no gente que escreve. Como vc vive fazendo seu jabá eu sempre que posso dou uma espiada aqui. Achei o texto fantástico. Super real e leve. Vou treinar para um dia escrever assim. Parabéns! Você escreve bem melhor do que escolhe ovos. Rs

Lari Bohnenberger disse...

Já comecei a leitura gargalhando alto porque enxerguei a mim e à minha relação com o supermercado (sério que planta se come?) ali... E como também não sei o que se observa nos ovos, fui pedir ajuda aos universitários e ao Google, e a única coisa que achei é que as cascas devem estar intactas e limpas... Tem mais coisa que isso, é? Fazer compras é complexo...

Rafiki Papio disse...

Onde eu morava havia um mercadinho em que você comprava os ovos e levava no saco plástico, soltos e saltitantes, a menos que você pedisse com os olhos marejados para embalarem.

Luis Rangel disse...

Nada como chegar em casa depois do trampo, acender um paiero, pegar uma cerveja e ler um texto do Rob Gordon. Esse cara tem o dom!

Luis Rangel disse...

Nada como chegar em casa depois do trampo, pegar uma cerveja, acender um paiero e ler um texto do Rob Gordon. Esse cara tem o dom!

Eduardo Cabrini disse...

Alguém aí já pesou alface? Antes de casar eu também não sabia fazer compras! Hahahaha!

Lakshmi disse...

Eles grudam na forminha e quebram. É sempre uma armadilha.