Crise na Sala de Guerra - Parte Final
(leia a parte I aqui)
O supervisor, esbanjando autoridade, explicou que eu ficaria em silêncio apenas por alguns instantes, o que deixaria a bola no campo do taxista e, assim, poderiam observar que rumo a conversa tomaria. Com um pouco de sorte, o assunto cairia em política ou – melhor ainda – na chuva que não pára. Os outros neurônios, apesar de ainda desconfiados, acionaram o modo silêncio. O encarregado pegou um pequeno microfone, que era ligado a todas as partes do corpo e disse, calmamente: “Aqui é do cérebro. Quando eu terminar essa mensagem, o corpo inteiro deve ficar em silêncio por alguns segundos. Eu não quero ouvir o barulho de nada, nem de uma risada, nem de um copo caindo no chão” e desligou satisfeito. Ele queria fazer isso desde que tinha assistido a um filme de submarino, anos atrás. Recolocou o microfone sobre a mesa e instruiu ô neurônio ao seu lado: “Acione a cara de paisagem”.
–..., eu respondi.
O taxista permaneceu em silêncio. A tensão no meu cérebro era quase palpável. Todos os neurônios aguardavam ansiosamente pela resposta – menos o ruivinho espinhudo, que havia encontrado uma página com fotos pornográficas dos bailes no Rio. Uma descarga cavalar de endorfina estava pronta para ser liberada, dependendo do rumo que a conversa tomasse. “Esquece a Mocidade, esquece a Mocidade”, balbuciava o supervisor, temendo que a conversa ficasse insustentável. O taxista parecia concentrado no trânsito. Eu olhava fixamente para a frente e permanecia em silêncio.
– E a Vai-Vai, você viu? Perdeu por 50.
Os neurônios respiravam aliviados. A Mocidade havia sido deixada para trás. Alguns mais jovens – que ainda não lidavam bem com as emoções em crises – aplaudiram, mas o encarregado gritou que a crise ainda não passava. A frase “E a Vai-Vai, você viu? Perdeu por 50” apareceu num telão à frente de todos e em todas as outras telas da sala, fazendo o ruivinho resmungar um palavrão no canto. Felizmente para ele, ninguém ouviu. “Como respondemos isso? O que isso quer dizer?”, perguntou o supervisor. Um dos neurônios soltou a hipótese de que “talvez o taxista seja gago”, que foi logo refutada pelos outros. A questão não era identificar o que era Vai-Vai, já que tudo indicava que era outra escola de samba. A questão era saber se 50 era muito ou pouco. Afinal, ela ter perdido por 50 podia significar tanto que ela havia sido vice-campeã como a última colocada. Um dos neurônios que controlava meus batimentos cardíacos levantou-se e timidamente, sugeriu que usássemos a expressão neutra de espanto. Os outros neurônios permaneceram em silêncio, ainda em dúvida se a idéia teria algum efeito, mas foram convencidos quando ele lembrou que isso sempre funciona em filas de banco, quando velhinhas vêm conversar comigo. O encarregado não precisou ouvir mais nada. Apertou um botão vermelho no painel.
– Nossa!, eu disse, sem saber direito o porquê.
– 50 pontos é sacanagem, né?, respondeu o taxista.
Os neurônios aplaudiram e o autor da idéia sentou-se novamente, sem conseguir disfarçar o orgulho. O neurônio encarregado, porém, parecia preocupado. Estavam dançando num campo minado. O bate-papo sobre o carnaval ainda estava no raso, mas, a qualquer momento, o assunto mergulharia em águas profundas e nem eu nem meus neurônios saberíamos nadar. Em seu íntimo, o supervisor sabia que o desastre ainda era uma questão de tempo. Hora de mudar de assunto. Pegou o telefone e perguntou qual assunto tínhamos prontos para colocar na conversa. Aparentemente, a resposta não foi animadora, mas o neurônio não desanimou. “Não faz diferença se ele não lê o caderno de esportes desde domingo, futebol vai funcionar. Sempre funciona!”. Desligou o telefone e instruiu a todos que se sentassem e amarrassem seus cintos, pois tentaríamos uma mudança brusca de assunto. Vendo o medo nos olhos dos seus comandados, ele os acalmou, com segurança na voz, afirmando que já havíamos feito aquilo antes em situações piores. “Nós já fizemos isso uma vez numa briga com a namorada e conseguimos. Perto disso, o que vamos fazer hoje será como escorregar traquéia abaixo”. Ninguém entendeu direito o que ele quis dizer, mas a segurança que ele irradiava contagiou a todos. A sala, subitamente, passou a ser iluminada por luzes vermelhas e uma sirene começou a tocar. Na tela principal, apareceu o número 5, logo trocado por um 4. Os neurônios, apreensivos, observavam a contagem regressiva chegar até 1, quando o encarregado gritou “Acionar!”.
– Tem jogo hoje?, perguntei.
– Hoje, não, mas amanhã deve ter, é quarta-feira*. O que você está achando desse Paulistão?
As luzes voltaram ao normal e os neurônios, aliviados, começaram a aplaudir. Alguns se levantaram e começaram a se abraçar e dois deles foram até o encarregado. Faziam questão de apertar sua mão e lhe dar os parabéns. O telefone vermelho tocou e ele atendeu. Visivelmente embaraçado, não conseguiu disfarçar o sorriso e disse “obrigado, senhor, fiz o melhor que pude”.
Aos poucos, os neurônios foram guardando suas coisas e desligando as máquinas para ir embora. Mais uma crise havia sido superada. Alguns combinaram de continuar a comemoração no fígado (“é carnaval, deve ter bebida lá”) e o supervisor fez questão de acompanhá-los. Quando estava indo embora, reparou que um dos neurônios mais jovens, um ruivinho espinhudo, ainda estava sentado em sua estação de trabalho, mexendo no computador. Perguntou se o jovem não ia para casa e o rapaz, assustado com o fato de que haviam reparado nele ali, respondeu que “não, não, eu vou... hum... é... continuar uma pesquisa que estou fazendo aqui”.
“Que equipe maravilhosa”, pensou o supervisor, antes de ir embora.
* Apenas a título de ambientação, aviso que todo o post foi escrito na terça-feira de carnaval.










