30 de abril de 2008

A Pequena Loja dos Horrores - Parte II

(leia a parte I aqui)


A Plant sorriu e disse:

– Posso ajudá-lo?

– Eu preciso de um terno.

Ela deu as costas para mim e saiu andando para os fundos da loja. Fiquei alguns segundos sem saber o que fazer, mas quando ela me olhou de volta, entendi que eu deveria ter ido atrás. Apertei o passo e fui.

No meio do caminho, ela parou subitamente e começou a me analisar. Comecei a me sentir como um inseto preto na teia de uma aranha. Não consegui encará-la e olhei para baixo. Este foi meu erro. Vendedores de roupa são como cachorros, eles farejam o medo em você. Os olhos dela brilharam e ela perguntou:

– Que calça você usa?

Antes de continuar, cabe dizer que eu entendo tanto de roupas quanto uma girafa entende de futebol. Não é exagero. Eu demorei mais de vinte anos para decorar a diferença entre saia e vestido. Mas eu percebi que se tratava de uma pergunta importante e que a resposta seria crucial para minha sobrevivência dentro daquele lugar. Porém, a única coisa que eu consegui responder foi:

– Oi?

Ela ficou impaciente. Apertou os olhos e repetiu a pergunta. Como o “oi?” não havia dado bons resultados na primeira vez, achei melhor responder qualquer coisa.

– Hum... Jeans?

– Não. O tamanho.

– Ah, sei lá. Pequeno?

– Acho que você é 42.

– Sou?

– É.

– Bom, então eu sou.

– Você tem preferência de cor?

Minha mãe tentou dizer algo, mas fui mais rápido.

– Escuro!

Afinal, se vou morrer aqui dentro, ao menos serei enterrado com um terno que eu mesmo escolhi.

A Plant virou novamente e saiu batendo os pés. Olhei para os lados. Dei de cara com outro funcionário da loja. Ele tinha uns 80 anos, usava rabo-de-cavalo e olhava fixamente para mim, como se estivesse em transe. Comecei a desconfiar que eu estava dentro do templo de alguma seita que promovia sacrifícios humanos em rituais satânicos, e que o negócio de vender ternos era apenas uma fachada para enganar as autoridades. E a Plant, claro, deve ser o sumo-sacerdote. No mínimo, ela foi buscar a faca sagrada do ritual e eu serei sacrificado em nome de algum demônio obscuro em cima do balcão. Antes de ir atrás dela, cochichei:

– Mãe, você vai primeiro.


"Aceite seu destino e dirija-se ao provador, criança".

Em segundos, a Plant estava de volta segurando um terno cujo brilho denunciava que havia sido costurado com o velo de ouro. Provavelmente, era a vestimenta que eu teria que usar no sacrifício. Mas o problema não era nem as implicações religiosas e mortais da vestimenta, mas o fato de que eu ela deveria custar mais que meu Wii.

– Não tem nada mais... Hum... Modesto?

Os olhos dela brilharam de ódio. Sem falar nada, ela apontou para uma prateleira num canto escuro da loja, perto do esgoto. Em meio às teias de aranha e os insetos que se moviam sobre as roupas, consegui identificar algo que parecia um terno, mas com as cores da camisa da Portuguesa.

– Então, na verdade, eu queria algo entre esse (apontei o terno de ouro) e aquele (apontei a camisa da Lusa). E escuro.

– Entendi.

O “entendi” dela foi assustador. Lembrou minha síndica. Porém, o que eu disse surtiu efeito. Ela apareceu com um terno aparentemente normal. A cor era normal. Olhei de perto, parecia ser um terno mesmo. Botões, duas mangas, bolsos. Nenhuma mancha de sangue. O preço era normal também.

– Gostei, vou levar.

– Você não vai experimentar?

– Ah, é... Experimentar...

– O provador é ali.

– Eu TENHO que experimentar?

Minha mãe, obviamente, se animou com a palavra “experimentar” e entrou na conversa:

– Vai experimentar.

– Mãe, você está do lado de quem?

– Vai experimentar.

Bom, eram dois contra um. Eu fui.

Entrei no provador esperando encontrar restos humanos e um altar com caveiras e velas negras. Nada. Provavelmente, eles limpavam aquilo a cada ritual. Comecei a tirar a roupa. Tinha certeza de que minha mãe abriria a porta a qualquer minuto para perguntar se “ficou bom?” e a Plant invadiria o provador com uma foice para oferecer meu sangue como alimento aos deuses.

Mais do que depressa, coloquei a calça e o terno. Saí do provador e me olhei no espelho. Estava ótimo. Minha vontade era pagar e ir embora. Tudo bem que estava sobrando meio metro em cada perna, mas depois eu poderia enrolar isso por dentro e ninguém iria perceber. Acreditem em mim, estava ótimo.

Claro que minha mãe não concordou.

– Está um pouco apertado na cintura.

– Não, está ótimo.

– Vem cá, quero ver de perto.

– Essas pessoas são loucas, vamos logo embora daqui.

– Primeiro, temos que ver essa cintura.

– Mãe, de que lado você está? Ou você não consegue ver o risco que estamos correndo aqui dentro?

– Ou nós arrumamos a cintura desta calça, ou vamos em outra loja e começamos tudo de novo.

Não tive como rebater esse argumento.

Derrotado.


(continua...)

18 comentários:

Nash disse...

Tinha certeza de que minha mãe abriria a porta a qualquer minuto para perguntar se “ficou bom?” e a Plant invadiria o provador com uma foice para oferecer meu sangue como alimento aos deuses.

Hahaha. Cara... nessa parte eu cuspi todo o café no teclado... você me deve umas 30 pratas, Rob.
=X

ps.: Isso foi escrito com um modelo rudimentar de teclado dos anos 50.

Perci Carvalho disse...

cara...pq dividir em três partes?...me matar de curiosidade? essa eh a intençao?!

Garbo disse...

tchantchantchantchan

Neh esse não disse...

Vacilou!
Você foi avaliado no momento que entrou no provador, seu sangue foi avaliado como puro, porque você está controlando os Triglicéris.
É nessas horas que uma coca gorda te salva...
Vai que reconsiderem pelos 3kg diários de carne que você consome.

abraços.

Kath disse...

Ok, que a terceira parte será muito boa a gente sabe, mas quero ver você manter a qualidade das imagens, não vale ser uma imagem furreca qualquer, nem um show do Led, muito fácil!!!
Vai ter que honrar Coringa e Kubrick!!!

Kel Sodre disse...

O pior disso tudo é que estou viajando hoje pra um lugar onde nem celular pega, quem dirá internet...
Se eu não morrer de curiosidade até lá, leio a III parte na segunda-feira... Triste destino.

MaxReinert disse...

hauhauhauhaa... agora vem a melhor parte... a entrada do/a costureiro/a.... e tem que levar os acompanhamentos, né?

Camisa, cinto, sapato.... etcsssssss

Fábio C. Martins disse...

AHuahuuahUAh

Eu também odeio ter que experimentar roupas, ainda mais terno! Ainda bem que ternos são numerados, logo se tu não engordar o número é o mesmo (claro, mantendo a mesma loja), portanto, faça como o Mc Donald's, peça pelo número!

Bom, vamos esperar o próximo!
Abraços

Nash disse...

Pior que experimentar roupas com a mãe é ter que esperar esses posts em partes do Rob... ARgh!!

Curiosidade do cão.

O ANTAGONISTA disse...

Olá Sr. Gordon, hoje é aniversário do blog e sua presença na "festinha" seria uma honra...

Te espero por lá, abraços!

rbns disse...

Ok. Agora você me surpreendeu completamente. Existem uma "diferença entre saia e vestido"?

Uau!

Nash disse...

Pra mim o Rob se enganou... não há diferenças entre saia e vestido...
Há distinção apenas no modo de vestir: acima ou abaixo dos seios.
>.<

ps.: Cadê a bendita parte 3? Putz

Ewaldy Marengo disse...

É incrivel como toda loja de terno tem que ter um velhote com jeito de modernoso....

disse...

Nãoooooooooooooo!
Continua de novo é sacanagem...tudo bem q eu demorei um pouquinho para voltar desde o último post! E é por isso que não gosto do continua, eu esqueço, e quando volto já tem milhares de posts na frente e, aquele que seria a continuação esperada fica soterrada para sempre (ou até que os "arqueonautas" encontrem seu fóssil)..
É para comentar sobre o post e não falar sobre minha vida, né?
Adoro rituais (sorriso maligno) e já fui vendedora (sorriso maligno duplo), mas era em uma loja de cortinas e tapetes (olhar triste)...

Terno laranja é legal!

marifreica disse...

Robert Plant?!?!?!
hahahahahahaha

Vixi! Essa, para mim, teria sido a parte mais assustadora da saga!!

Dragus disse...

Tenho pena de você... Pelo menos minha mãe não participa disso.

(Se bem que minha mãe não sai de casa, mas isso é outro assunto...)

Pela foto que escolheu para a postagem, interpreto que foste comprar suas roupas em um ambiente de hedonismo? Sua mulher (não sei qual termo usar) sabe disso? Sua mãe sabia onde estava entrando?

Senti mais calafrios ao lembrar do filme e depois dar de cara com a descrição do provador...

Ao menos pelo relato sei que sobreviveu, se não você ao menos o blog ou alguma entidade que use o teclado agora =)

Abraços.

Neh esse não disse...

Rob, você ainda está aí?

Thiago Neres disse...

Uma semana sem postar... se a transmissão dos posts fosse ao vivo eu já teria mandado a polícia atrás da Plant :P