26 de novembro de 2008

There Was a Time...

Em 1991, eu era uma pessoa bastante diferente do que sou hoje.

Fisicamente, admito que não mudei muito: minha altura continua pequena e meu sorriso continua grande. Mas, claro, o tempo já deixa suas marcas em mim. Em 1991, eu estava deixando meu cabelo crescer – anos depois, ele chegaria ao meio das costas – e hoje estou careca; hoje, estou gordo, e, em 1991, eu apenas “não era magro”; e, dezessete anos atrás, um dos meus maiores sonhos era o dia em que meu cavanhaque “fechasse” dos lados da boca, enquanto, hoje, adio interminavelmente uma visita ao barbeiro para aparar a barba.

Mas não foi apenas fisicamente que eu mudei. Afinal, em dezessete anos, muita coisa acontece na vida de qualquer um. Em 1991, eu estava correndo (muito), jogando como um meia-atacante razoável no time da minha rua, enquanto hoje eu corro (muito) para conseguir fechar as revistas no prazo. Na mesma época, eu estava começando a fumar e a beber; hoje, beber tornou-se algo mais raro – minha paixão, como qualquer leitor deste blog sabe, é jantar fora – e estou no meio da luta contra o cigarro.

Além de mudar, eu perdi muita coisa, nestes anos todos. Perdi uma avó, que era minha madrinha. Perdi um animal de estimação. Perdi uma Copa do Mundo, perdi uma final de Libertadores no meu estádio. Mas, em contrapartida, perdi a vergonha de muitas coisas, o medo de tantas outras – apesar de que, ainda tenho ataques de timidez aguda.

Mas, em troca, ganhei o medo de perder. Afinal, quando se tem 15 anos, você pode perder (quase) qualquer coisa, já que você tem a vida inteira pela frente. Com 33 anos, você não pode mais se dar a esse luxo, já que a suposta "vida inteira que você tem pela frente" é estupidamente menor – e talvez você não tenha mais saco de correr atrás de tudo novamente.

Perdi, também, alguns amigos, até mesmo alguns daqueles que você acha que são para sempre. Por outro lado, encontrei amigos em lugares que jamais imaginava, e, apesar de estar teoricamente mais maduro e calejado, continuo inocentemente achando que eles são para sempre. Meus amigos daquela época? Casados, com filhos. Eu não. Ou, como gosto de pensar, eu “ainda” não.

Mas namorei, claro. Já tive paixões arrebatadoras, e em, algumas delas a pessoa nem sabia meu nome – em outras, a pessoa sabia apenas o meu nome. Já magoei muita gente (um punhado delas de propósito), mas fui mais magoado, o que deve render alguns pontos a meu favor quando precisarem me realocar para o céu ou o inferno. Em 1991, eu sabia que gostava de mulheres; hoje, eu continuo gostando de mulheres, mas sei que nunca vou entendê-las, algo que já desisti de tentar. Meu consolo é que muitas vezes elas também não me entendem, o que deve deixar as coisas em pé de igualdade.

Como eu disse, apesar de algumas coisas permanecerem as mesmas (entre elas, espero, minha essência), eu mudei bastante. Na verdade, não fui só eu. O mundo inteiro mudou muito de 1991 para cá. Ao invés de enumerar tudo o que mudou (o que tornaria este post bem parecido com um daqueles e-mails com fotos de coisas dos anos 80), basta dizer que, 17 anos atrás, você não estaria lendo este texto, já que a internet não existia.

Mas uma coisa que não mudou nestes 17 anos – em mim, não no mundo – foram algumas das minhas paixões. Na verdade, o começo dos anos 90 foi crucial para minhas paixões. Foi nesta época que eu me apaixonei de verdade por cinema (não estou falando de filmes, mas de cinema), começando a assistir clássicos; por quadrinhos, começando a destrinchar os universos Marvel e DC, ao lado de dois amigos, um deles leitor fiel deste blog (a propósito, Rubens, o Thanos dá um pau no Darkseid com uma mão nas costas e não importa o que você diga a respeito disso); e por jogos de estratégia (eu cheguei a ficar 17 horas seguidas jogando Civilization II na frente do computador).

E, claro, por música. Foi justamente nesta época que eu descobri que gostava do que meus pais chamavam de “rock pesado”. E o responsável por isso foi o Guns N’ Roses.

Antes de Guns N’ Roses, eu ouvia rádio, mas sem compromisso algum. Mas, quando a banda de Axl Rose explodiu no mundo, eu percebi que era daquilo que eu gostava – claro que, com 15 anos, você está muito suscetível ao marketing, especialmente quando o produto é uma banda “bad boy” como essa. Ganhei os dois primeiros discos (com a diferença de dias entre eles), ainda em vinil, e ouvia o Lado A de Appetite for Destruction todos os dias, até o Axl Rose começar a perder a voz.

E a minha paixão pelo estilo só aumentou. Claro que dei bastante sorte, já que o último momento de ouro do heavy metal foi justamente, no início dos anos 90, quando a maior parte das bandas clássicas (Metallica, Megadeth, Motorhead, Ozzy, Iron Maiden) lançaram grandes trabalhos. Assim, comecei a enveredar por outros caminhos, como Faith No More, Metallica, Megadeth, Ozzy... E, claro, Iron Maiden. Lembro até hoje quando assisti ao clipe de Wasted Years. Foi paixão a primeira vista. Saí naquele dia mesmo, e comprei o vinil do No Prayer for The Dying – que é um dos discos mais fracos da banda, mas que eu adoro, porque foi o “meu” disco do Iron. Sim, eu sou bastante apegado a certas coisas.

Com isso, comecei a construir uma boa coleção de LPs de heavy metal – que hoje estão “guardados” na casa de outro amigo. Ou seja, em pouco tempo, conheci muita coisa que hoje eu vejo como infinitamente melhor que Guns N’ Roses. Mas claro que isso não me impediu de, em certo dia de 1991, sair da escola ao lado de um amigo e entrar naquela fila kilométrica na frente da Woodstock, no centro de São Paulo, para comprar os dois volumes de Use Your Illusion no dia do lançamento.

De lá para cá, dezessete anos se passaram. E muita coisa mudou. Mas não o Appetite for Destruction. Quer dizer, ao menos não para mim. Eu devo ter amadurecido, mas a parte do meu cérebro que ouve este disco, não. Toda vez que eu coloco este CD para tocar em casa, eu volto a ter quinze anos de idade. Basta começarem os primeiros acordes de Welcome to the Jungle para eu ser transportado a uma época na qual eu não tinha quase nenhuma preocupação, exceto uma prova de biologia, uma garota que me olhou por mais tempo do que devia no pátio da escola e o que vou fazer do meu sábado à noite. Convenhamos, não são preocupações particularmente grandes, especialmente perto das que eu tenho hoje.

Aliás, essa sensação ocorre quando ouço todos os meus “primeiros” discos (veja Top 5 abaixo). O impacto que essas músicas tiveram na minha vida foi enorme. E muito marcante. Provavelmente, é por isso que nunca me interessei pelos estilos que vieram depois, como o grunge, o refluxo do movimento punk, as bandas indies. Meu coração musical, no que diz respeito ao rock, foi conquistado antes disso tudo surgir, e eu sou fiel demais ao estilo que ouço. Já fui para trás, para os anos 60 e 70, descobrir as influências das bandas que me ensinaram a gostar de música, e adorei esta viagem; mas não tenho interesse em ir à frente, pesquisar as conseqüências destas mesmas bandas.

Esse post saudosista se deve ao fato de que acabei de comprar o Chinese Democracry, o ábum que o Guns N’ Roses (ou melhor, o Axl Rose) está fazendo mais ou menos desde que tudo isso que eu disse acima. Fui até a Fnac comprar um jornal e dei de cara com o CD. Estava ali, na prateleira, sem grandes campanhas de marketing, sem alarde nenhum. E comprei. Comprei porque tenho a sensação de que devo isso a estes caras (ou a este cara, sendo mais preciso, já que só sobrou ele na banda), por tudo que eles significaram para mim, anos atrás.

Ainda não ouvi o disco, mas uma das vantagens de estar dezessete anos mais velho é que, se o álbum for ruim – e eu não tenho a pretensão de que ela seja bom – eu não vou levar isso para o lado pessoal ou me ofender. Vou encarar apenas como “um disco fraco”, e só. Mas a questão não é essa. Não comprei este disco pelas músicas, mas pelo simbolismo dele. E o simbolismo não tem absolutamente nada a ver com qualidade, ou com o tempo que ele demorou para ser feito, como os fãs, que estão propagando o disco como um dos mais importantes da história.

O simbolismo tem a ver com tudo o que eu disse acima, e o que esta banda significa para mim, em termos afetivos. A questão é que eu estou há mais de uma década esperando por este disco. É muito tempo. E, de repente, dou de cara com o disco na minha frente. Me senti como se tivesse dado um esbarrão em um velho amigo que não reencontrava há anos. Ele está diferente, claro, mas, até aí, eu também estou. Na verdade, ele parece estar bem diferente, talvez até mais do que eu. Mas, em uma risada, no jeito que ele pronuncia uma frase, ou, em uma memória, eu ainda consigo ver o meu amigo. E percebo que, mesmo sem nos falarmos durante tanto tempo, ele nunca deixou de ser meu amigo.

Talvez o reencontro com este amigo que eu não via há anos marque o fechamento de algum ciclo na minha vida. Quem sabe? Ou, na pior das hipóteses, sirva apenas como uma desculpa para eu ir para casa à noite e ouvir Appetite for Destruction, pensando na pessoa que eu era quando tinha quinze anos, e na pessoa que sou, hoje, com 33.

Sim, talvez seja apenas uma desculpa para eu relembrar de velhos amigos, de uma época de risadas despreocupadas, de primeiros beijos e de gols driblando o goleiro. E de pensar em tudo o que ganhei e em tudo o que perdi nestes anos.

E, mais importante, pensar se eu estou no caminho certo. Porque, um dia, mais dezessete anos terão se passado.

E algo me diz que isso vai acontecer antes do que eu imagino.

Enquanto faço isso, deixo vocês com o Top 5 Primeiros Discos de Heavy Metal / Hard Rock da Minha Vida:

1. GN’R Lies – Ganhei de natal, da minha tia, porque eu passei dezembro enchendo o saco da família inteira que queria “um dos discos” do Guns de Natal.
2. Appetite for Destruction – Ganhei (ou comprei?), dias depois, ainda antes do ano novo.
3. The Real Thing – Nesta época, eu gravava todos os videoclipes possíveis (estamos falando de uma era pré-MTV), e foi como conheci O Faith No More. Acho que este ainda é um dos melhores discos dos últimos 20 anos.
4. Skid Row – Surgiu na cola do Guns, e foi vendida como uma banda quase-irmã da banda de Axl. Mas o segundo disco é estupidamente melhor.
5. No Prayer for The Dying - Com mais ou menos 40 segundos da primeira música (Tailgunner), eu tive certeza de que era exatamente isso que eu estava procurando em todas as bandas.

39 comentários:

Anônimo disse...

Os Lps do Iron continuam "guardados" com muito cuidado.

Luis Filipe disse...

os anos 90 foram uma otima época para o metal
principalmente os anos de 1995 a 1998
Meu top 5 de primeiros discos de heavy metal da minha vida:
Iron Maiden- Brave New World
Blind Guardian- Nightfall in middle earth
Iced Earth- Dark Saga
Mettalica- Black Album
Bruce Dickinson: Balls to Picasso

Anônimo disse...

Não seria "quilômetros", ao invés de "kilômetros"?

Gábisz disse...

Caramba,eu também fui "iniciada" no rock com o Guns,só que aos 11 anos(15 eu tenho hoje). Apesar de eu nem ser nascida quando muitas dessas coisas aconteceram,e de eu ainda estar nos 15, me identifiquei muito com esse post pelo modo que as coisas aconteceram musicalmente falando,comigo foi/esta sendo o mesmo,que mundo mais sem originalidade... :p

Marcio Sarge disse...

Parece que os anos 90 pegou todo mundo pelos cabelos rockeiros rs, também foi minha iniciação só que comecei nesse mundo com o Aerosmith ai depois eu abri meus ouvidos pra as outras grandes estrelas do metal.
Top 5? Fica difícil mas vamos lá:

Iron - Comecei com The X Factor, depois fui atrás do outros álbuns de verdade.

Metallica - Ride the Lightning, rápido e mortal do começo ao fim

Helloween - Keeper of the Seven Keys, mágia em estado pesado.

Ozzy - Qualquer um mesmo.

Megadeath - Peace sells but who is buying, eu comprei e amei.

gilgomex disse...

tem dois tipos de coisa que me preocupam quando leio o Champ... Quando os posts começam a ficar curtos e demorados demais... E quando sagas e posts imensos são publicados com uma freqüência tão... er... Freqüente.
Mas deixando de lado as preocupações... Nunca fui fã de Gãs, mas sempre gostei de várias músicas dos caras (November Rain é uma baita música, em todos os sentidos), da onda grunge, eu "curti" Cobain (hã, heins, aham...? rs) e Pearl Jam.
Sobre os quadrinhos... Têm os raios Ômega, que podem atingir o coitado do Thanos quando ele estiver com as mãos nas costas... Mas, uóréva...
E pensar que há 17 anos atrás, pelo menos 50% dos nossos leitores ainda não tinham nascido...
Fim da piscada.

Renan Becker disse...

No Prayer for The Dying, esse cd na minha opnião é um dos melhores do Iron Maiden, foi o primeiro cd deles que comprei, tenho uma versão remasterizada de 1997, muito bom mesmo.

Há 17 anos, em 1991 eu estava nascendo :D

MaxReinert disse...

Pois... eu não sou fã de "rock pesado" - sim, eu sei, tenho problemas!!! - mas o post me chamou a atenção por essa sensação do tempo que escorre por nossos dedos (clichê - mode on).

Talvez poor ter feito aniversári há tão pouco tempo.... e por ter essa mesma sensação de que os próximo 16 serão rápidos... como um raio!

Tyler Bazz disse...

"E, claro, por música. Foi justamente nesta época que eu descobri que gostava do que meus pais chamavam de “rock pesado”. E o responsável por isso foi o Guns N’ Roses.

Antes de Guns N’ Roses, eu ouvia rádio, mas sem compromisso algum. Mas, quando a banda de Axl Rose explodiu no mundo, eu percebi que era daquilo que eu gostava"

IGUAL! Só que no meu caso foi dez anos depois, eu tinha 13 anos e o 'estopim' foi ver o Axl RockInRio3. No outro dia eu tava feito louco procurando os discos do Guns..

O Guns é a minha grande paixão. Não tem jeito. Já ouvi duas musicas do Chinese Democracy no Myspace, já baixei o disco, mas ainda não ouvi tudo. Sem pressa. Se o Axl demorou 15 anos pra lançar, porque eu tenho que ouvir na hora do lançamento? :DD

[Skid Row DES-TRÓI. O segundo (Slave..) é fodido. Mas vc como bom metaleiro TEM que preferir o Subhuman Race auhauhauhauh)


o/

Marcio Sarge disse...

Sobre os quadrinho o Gil tá delirando :)

O raio ômega não causaria nem cócegas em Thanos, não adianta o malabarismo feito com eles.
Tirando que Thanos tem um "acordo com a morte" de não morrer rs.

(nerd mode: on)

Dalleck disse...

Em 1991 eu estava nascendo =) Só tive LPs infantis. Heavy Metal mesmo foi só CD ou Internet... meu top 5 acho que seria mais ou menos esse:

1. Helloween - Keeper Of The Seven Keys Part II
2. X JAPAN - Blue Blood
3. System of a Down - Toxicity
4. Iron Maiden - Seventh Son of a Seventh Son
5. Helloween - Walls of Jericho

Dalleck disse...

Não foram os primeiros que eu ouvi, mas os que eu mais gostei =)

Leon disse...

Doces anos, que fazem a vida menos amarga...

Pat Coelho disse...

Por culpa do seu Eu-Lírico tô aqui com saudades de um monte de coisas :) Tenho 34 anos e acho que crescemos em uma geração deveras interessante.

Escreves muito bem sobre qualquer assunto. Incrível.

Volto pra comentar mais um cadinho depois.

Bjo

Otavio Cohen disse...

em 1991 eu tinha 3 anos. mas em 1998, mais ou menos, meu irmão virou fã de Guns N' Roses. E eu, aos 10 anos de idade, só ouvia isso (por tabela, é claro, mas ouvia). Hoje, ele é casado e tem 2 filhos e já não tem muito tempo para Axl e seus amigos. Mas eu já tinha prometido que nesse natal eu agradeço a ele com o Chinese original (que vai destruir meu bolso, mas enfim)

bonito o post.

Black S(ale)bbath disse...

Por que que eu tenho a sensação de q só o Max e o Leon que pegaram o "verdadeiro espírito da coisa" deste post?

bom... pode ser q eu que queira achar mais coisa do que realmente tem escrita.
Assim como ja xinguei pessoalmente, q post do caralho. Espero n parar de "crescer" como andei nos últimos 15 anos.

PS: pelo menos uma coisa boa aconteceu nos comentários... nada de "primeirão" ou "segundão".

Renato Sansão disse...

Iron, Guns e Helloween, sem ordem exata, são os responsáveis por me tirar um bocadin da MPB.

'Use to love her' e 'Dead Horse' trazem um carrossel de lembranças que nem o hino do Palmeiras faz igual.


Que tal o Chinese???

Varotto disse...

Em relação à nostalgia, enxergo, basicamente, dois grandes tipos.

A primeira é perfeitamente normal e saudável e reconhece que coisas que lembram bons tempos da sua vida não precisam ser necessariamente boas (e às vezes são até muito ruins) mas te trazem sentimentos reconfortantes como, por exemplo, chegar do colégio e ficar a tarde toda de bobeira e sem maiores preocupações, toccando guitarra, escutando música ou assistindo à Sessão da Tarde. Por mais que pareça com um diagnóstico de esquizofrenia, o nostálgico normal pode perfeitamente achar que um determinado desenho, filme, livro, etc. é uma m@^$%, mas ainda assim gostar porque lembra passagens agradáveis de sua vida.

Eu me considero um nostálgico benigno e felizmente vejo que você, Rob, também parece ser um. Gosto de diversos filmes e desenhos que, se me perguntarem tecnicamente se são bons, a resposta seria não. Por essas e outras que um certo dia comprei uma pilha de DVDs da minha altura com filmes da década de 80. Analisando friamente, metade deles são uns filminhos cheios de clichês que não valem muita coisa. Mas as sensações que eles me fazem sentir me bastam.

O segundo tipo de nostálgico é, de certa forma, patológico. E não se enganem, existem muitos por aí (talvez a maioria seja assim). Muitos de vocês podem mesmo ser um deles sem nunca ter parado para notar. Essas pessoas tendem a ter dificuldade de separar o que realmente tem uma qualidade intrínseca daquilo que gostam simplesmente porque traz boas sensações, mesmo que inconscientes. São famosos pelo seu chavão: "No meu tempo que era bom!".

O nostálgico patológico tem uma tendência a achar que absolutamente tudo de seu tempo de infância e adolescência é sublime e que tudo produzido no presente é um lixo. O processo que ele usa em sua argumentação, via de regra, é citar somente as coisas boas da infância, varrendo para baixo do tapete todo o lixo da época, e fazer o oposto com as atualidades.

Outro ponto a ser considerado é que o ser humano tem uma tendência a se comprazer de passar a imagem de que tem mais bagagem do que o próximo, mesmo que a diferença de idade seja mínima. Sempre pensam que as crianças de hoje não sabem o que é diversão (outro dia escutei um camarada de 17 anos com esse discurso). Mas se pararem um minuto para pensar, vão observar que seus pais pensam a mesma coisa deles e que seus avós pensam a mesma coisa em relação a seus pais.

Por exemplo, e agora sei que vai ter gente espumando de raiva, analisemos os desenhos animados. Por mais que eu ainda me divirta assistindo a Pica-pau, Turma do Pernalonga, e similares, é muito claro para mim que os desenhos animados de hoje, na média, são extremamente superiores aos que assistia quando criança (para registro, nasci em 1972).

A esta altura do meu discurso, sempre tem alguém chorando, gritando, me chamando de herege, maluco ou coisa pior e lançando uma fatwa contra mim.

Vociferam sobre a violência e falta de valores positivos dos desenhos atuais, em relação aos antigos. Essa é a clássica atitude de nostalgia patológica que eu descrevi há pouco. Existe uma dificuldade de entender que em todas as épocas existem desenhos ótimos e outros péssimos. Hoje a situação é a mesma, com alguns desenhos horrorosos e violentos, mas alguns tão bons que não encontram similar entre os das décadas passadas.

Vamos pegar apenas um exemplo: o Pica-pau. Aquele camaradinha de cabeça vermelha e um gosto por sacanear o próximo. Embora eu me divirta até hoje com esse cara, o fato é que 100% dos seus desenhos se resumem ao mesmo argumento e com pouquíssimas variações mesmo de roteiro. Vamos lá: alguém corre atrás do Pica-pau e ele passa até o final fugindo e dando uma sacaneada no perseguidor. E só.

Agora peguemos o desenho que eu considero um dos melhores de todos os tempos: Bob Esponja. A originalidade do argumento já é inegável e os roteiros são variados e sensacionais. Quem tem filhos por aí vai reconhecer outros, como Os Padrinhos Mágicos ou Yin, Yang, Yo. Para falar a verdade se pusermos em análise somente Bob Esponja e os Padrinhos, acho que podem juntar no outro lado da balança todos os desenhos da minha juventude que não há competição.

Isso sem falar naqueles desenhos dos quais você guarda boas lembranças, mas se for assistir hoje, vai sair completamente decepcionado. Às vezes é melhor ficar com as lembranças boas do que com a realidade.

As pessoas que pensam desta forma correm o risco de passar por situações absolutamente ridículas. Uma vez eu escutei a seguinte pérola:

- Esses seriados japoneses de hoje são horríveis! Bom era o National Kid!

Para tudo! Alguém aí já viu National Kid? Ou Ultraseven? Ou Ultraman? Ou Spectreman? Se há uma coisa que sempre se manteve no mesmo nível (ruim de doer, diga-se) são esses seriados japoneses. Então o que leva uma pessoa aparentemente razoável e de bom nível intelectual a dizer uma bobagem dessas? Resposta: paixão.

E assim vai em relação a tudo: música, filmes, etc.

Enfim, nostalgia é bom na dosagem correta...

PS: Estou concorrendo ao prêmio de melhor desvio de assunto do ano. Quem quiser votar em mim é só ir a www.paradeenrolarevaiencherosacodeoutro.com.br. :o)

Varotto disse...

Mas voltando ao assunto musical do tópico, como eu sempre fui meio tarado por música desde criancinha, nas mais variadas formas, não consigo me lembrar exatamente de um marco inicial para um determinado gênero como, no caso, o "rock pesado".

Mas talvez um marco que eu me lembre seja a vinda do KISS ao Brasil em 1983 (diga-se, os últimos shows deles usando maquiagem). Eu tinha onze anos e era a época do LP "Creatures of the Night" e a música "I love it loud" estava bombando, bem como seu videoclip com adolescentes zumbificados.

Muita gente tem preconceito com o KISS, dizendo que é mais circo do que música. Mas além deles nunca terem negado que faziam um circo, o rock deles tinha um componente de festa e de "foda-se eu estou nessa para me divertir" que era contagioso (coisa que o Van Halen também tinha de sobra). Isso sem falar que poucos guitarristas no mundo influenciaram mais moleques a começar a tocar guitarra que o Ace Frehley.

Quanto ao CD do G'n'R, eu ainda não escutei e juro que o farei sem preconceitos. Mas mesmo que venha a gostar, é impossível que possa justificar os quinze anos de demora e os muitos milhões aplicados. Ou seja, pode ser até um disco bom, mas quando ponderarmos o resultado pelo tempo que ele levou para ser feito a coisa perde a força.

É diferente você pegar o "Smile" do Brian Wilson, que ele levou 37 anos para terminar porque entrou numa bad trip de drogas e loucura e permaneceu sob sua influência por décadas. O CD do Guns levou quinze anos por conta de caprichos e "perfeccionismos" aparentemente injustificados de Mr. Rose. Então para valer os quinze anos de espera, deveria ser uma daquelas coisas que abre um portal dimensional e te dá as respostas de todos os mistérios do Universo.

E, acima de tudo, é bom que seja alguma coisa que ele consiga cantar ao vivo, sem playbacks.

Só para constar o primeiro álbum do G'n'R também está entre os meus preferidos e a versão acústica de "You're crazy" do Lies é fantástica.

E minha prateleira de LPs ainda continua lá, firme e forte, embora hoje não tenha como escutá-los em casa.

Varotto disse...

Opa! Falha nossa! A música do KISS era CONTAGIANTE e não CONTAGIOSA.

Fernando Pocow disse...

Hum, sempre gostei de heavy metal, mas sempre tive uma aversão ao Iron Maiden, eu detestava a banda. Eu confesso que comecei a gostar de Iron Maiden, mais ou menos há um ano, quando comecei a ler este blog, hoje é uma das bandas que mais gosto.

Varotto disse...

Isso é que é catequese, hein Rob?!

Rosana disse...

Ae Rob!!
Todo este saudosismo valeu a pena!
Muito bom o post hein!
Conta mais! Conta mais!!!

Dalleck disse...

Eu confesso que só tinha o álbum Greatest Hits do Guns... até ontem, quando eu li esse post e baixei o Appetite For Destruction =D

PS: Varotto escreveu mais no comentário do que o Rob no post xD

Rob Gordon disse...

Os comentários do Varotto são o sonho de qualquer blogueiro, e melhores que o melhor post de muito blog que tem por aí.

Por isso que eu sou a favor da campanha "O Varotto precisa de um blog!"

Varotto, você pode mandar uma foto sua para fazermos um banner?

Barbarella disse...

Eu estou pensando se vou no show da Madonna curtir minha nostalgia, ou se fico por aqui mesmo curtindo coisas velhas/novas na fossa..rs

**

Barbarella disse...

Rob, me empresta o Varotto?

Varotto disse...

Ih, emocionei...

Varotto disse...

"Os comentários do Varotto são o sonho de qualquer blogueiro, e melhores que o melhor post de muito blog que tem por aí."

Exagerado...

"Por isso que eu sou a favor da campanha "O Varotto precisa de um blog!""

Acho que se eu tivesse um blog, meus intervalos entre atualizações iriam ser maiores que os do Axl Rose.

"Varotto, você pode mandar uma foto sua para fazermos um banner?"

Tá precisando espantar os mosquitos do Blog (ou quem sabe a síndica Brick Top)

Pâmela disse...

É, um dia mais dezessete anos chegam mesmo...
MAS ouvi falar que o último CD do Guns é uma merda. E que o Axl tá louco. Faz séculos que eu não ouço Guns :/
Enfiim, eu fico meio perdida nos seus pots sobre Rock.

Anônimo disse...

Então, baixinho.....pode fazer a referencia. Leio sempre seu blog.

So não costumo participar.....que nem as aulas da eleni!!!

Tyler Bazz disse...

Cara... CARA!!
Tava sentado na escada da faculdade hoje, me matando pra resumir dois textos que eu devia entregar dali a quinze minutos, à lápis, que minha caneta acabou e eu nem pensei em comprar uma nova, quando de repente algo que estava guardado no meu subconsciente até ontem e me deixou atordoado:

CABELO ATÉ A CINTURA!!!!!!!!!!!!!

Só acredito vendo. NÃO DÁ pra imaginar...........

Rob Gordon disse...

O grande problema da blogosfera brasileira é a capacidade que alguns blogueiros tem de distorcer os fatos e começar a propagar boatos de forma maldosa pela internet.

Tyler:

No meio das costas não é cintura (por mais baixinho que eu seja.

Tyler Bazz disse...

Ok, não é, eu me confundi um pouco. Mas é perto. Eu já tive o cabelo até o meio das costas, eu sei que é MUITO cabelo. E AINDA ASSIM é dificil imaginar :D

Júlio disse...

texto muito bonito.

Engraçado que minha primeira banda "pesada" também foi o Guns. E meu sentimento é exatamente o mesmo do seu em relação a comprar o Chinese. Até camisa eu tenho do RIR3, já ouvi o cd achei mais ou menos mas irei comprar.

Fechando um ciclo provavelmente.

Tati disse...

Esse post é uma delícia de ler, tanto que foi irresistível não vir aqui comentar(devo dizer que te leio, mas comentei poucas vezes.

Um: em 1991 eu descobria coisas como Metallica, e a minha paixão era o Faith no More. O Guns aconteceu nessa mesma época, mas Faith ainda era o meu predileto. E devo concordar contigo que esse tipo de referência musical muda toda a sua vida. Não tem como fugir disso, mesmo aos 30 (no meu caso), ainda que eu seja mais curiosa ao ponto de me apaixonar perdidamente por alguns sons novos. The National, por exemplo. Escuto com olhos marejados de felicidade.

Dois: eu achava que era a única pessoa que ainda comprava cd. E mais: que não tem pressa em ouví-lo. E que também não se chateia quando "não é tudo aquilo". Aos 30 (!!!)a tolerância com nossos "ídolos" é bem maior. Não precisamos que eles sejam insuperáveis. Precisamos apenas que eles nos provoque emoções, como sorrir.

Três: eu já disse que esse post foi uma delícia de ler, né. (risos)

Jongleuse disse...

N~ao entendo de heavy metal mas entendo de sentimentos.
Lindo texto!

Felipe Lima disse...

Rob, este post foi muito bom mesmo!!! Não me identifico com o rock pesado, mas acho que o clima nostálgico me emocionou de verdade. Você escreve muito bem, nunca pare de fazer isso, viu? Seus leitores agradecem seu talento, mesmo os que não partilharam as mesmas experiências.

rbns disse...

Bom vamos lá...

Primeiro, para que não haja dúvidas: Thanos é um bundão. Nem precisa do Darkseid. Qualquer Caixa Materna de Nova Gênese dava um jeito nele, mesmo sem ter ninguém operando. Fácil. E se você não entendeu esse parágrafo perdeu também um pedação do post do Rob.

Segundo: irmãozinho eu quase chorei quando vi que ia ter um novo disco do Gun's. Eu nem vou baixar da Internet, vou comprar, pois como você disse devemos muito para esse cara. Pena o Slash não estar na formação atual.

Semana passada fui na Galeria do Rock renovar meu guarda-roupas. Longa história. Queria que você estivesse lá... parecia outro mundo.
Tudo arrumado, limpo, até as escadas rolantes estavam funcionando. Tinha até vaso com planta no corredor. Coisa de louco. Lembra quando não dava para entrar lá sozinho de tão barra pesada que era?

Mas ainda está tudo lá. Estúdios de tatoo (muitos mais do que antigamente), as lojas de heavy metal e aquela galera vestida em couro, jeans rasgado e camisas de banda. Claro. De cada três, uma é dos Ramones (graças à Deus).

Estamos sim ficando velhos... mas sabe o que me enche de alegria? Uma das coisas que eu mais gosto na vida é andar na rua e olhar prum monte de moleques de 12, 13, 15 anos e no meio deles ver um com uma camisa de banda. Megadeth, Iron, Ramones, Ministry.

Nós até podemos ficar velhos, mas enquanto tiver um moleque ouvindo Sweet Child O'Mine e Paradise City, o mundo vai continuar sendo um lugar legal demais...

P.S.: Vou colocar umas fotos da Galeria no meu site e mando o link pra você dar uma olhada.