24 de novembro de 2008

Um Dia de Cão - Parte Final

(leia a primeira parte aqui)


Esta semana minha mãe veio passar um dia no meu apartamento. Quando eu saí do trabalho para almoçar em casa com ela, meu celular tocou. Era ela.

– Oi, mãe.

– Quando você vier para casa, traz sal. Acabou.

Minhas entranhas começaram a se revirar de ansiedade. Finalmente, o dia da vingança. Um ódio frio começou a percorrer meu corpo.

– Que ótimo. Eu compro.

– Mas compre no Dia, porque lá é mais barato.

– Sim. Não tenha dúvidas de que é lá que eu vou.

– Se você quiser, eu vou com você.

– Não!

– Porque aí eu aproveito e compro algumas coisas.

– Mãe, isso não vai acontecer. Eu não convido você para ir comigo à Galeria do Rock comprar discos de heavy metal, e você não me convida para ir ao Dia com você. Nós sempre tivemos este acordo de cavalheiros, e boa parte do nosso relacionamento é construída em cima disso. Então, eu vou comprar o sal, ou você vai comprar o sal. Mas nós não vamos comprar o sal.

– Tudo bem, você vai. Mas não esquece que no Dia é mais barato.

– Eu não vou esquecer. Eu estou há três anos esperando por esse dia.

Desliguei o telefone. Minutos depois, entrei no mercado.

Mas, desta vez, eu estava mais esperto. Não comecei a vagar por aquelas terras ermas atrás de sal. Simplesmente fiquei parado no meio do mercado, certo de que, mais cedo ou mais tarde, um dos duendes iria passar por mim.

Dito e feito. Cerca de dez minutos depois, vejo um par de olhos me espreitando por trás de uma pilha de caixas de sabão. Era um deles, esperando eu sair dali para esconder um dos seus potes de ouro. Corri da direção das caixas e, antes que ele percebesse o que estava acontecendo, eu estava em cima dele.

– Sal!

– ...

– Não se faça de desentendido! Sal! Onde tem sal?

Vendo que não tinha escapatória – e um pouco mais tranqüilo ao perceber que eu não queria roubar seu ouro – o duende aceitou os fatos de que não sairia dali sem me dar a informação que eu queria.

– Último corredor.

– Se você estiver mentindo...

– Último corredor! Prateleira do meio!

– Ótimo.

Caminhei apressado pelo mercado, indo na direção do último corredor e deixando o duende para trás. E este foi meu erro. Eu deveria ter levado a criatura comigo. Virei no corredor que ele havia indicado e fui para o meio dele. Olhei para esquerda e vi garrafas de Coca-Cola. Olhei para a direita e vi uma prateleira vazia.

Ou quase vazia.

Um único saco de um kilo de sal Cisne brilhava na frente dos meus olhos.

Aproximei-me da prateleira e fiquei ali, admirando aquela obra de arte. Estava bem no meio da prateleira, como se fosse a estatueta de um deus sobre um altar. Com cuidado, percorri as letras S-A-L-R-E-F-I-N-A-D-O com a ponta do meu dedo. Sua cor alva remetia ao mais alto grau de pureza. Aquilo não era um saco de sal, aquilo era o tempero dos deuses. Imagens de anjos voando pelas nuvens e jogando sal uns nos outros, ao som da Nona Sinfonia, começaram a povoar minha mente. Estiquei o braço e, gentilmente, coloquei-o entre meus dedos.

No momento em que eu o agarrei, meu sorriso desapareceu em meio a uma nuvem de sal. Fiquei ali, parado, com a embalagem na mão, enquanto um filete de sal caía sobre meu pé esquerdo.

Estava furado.

Aí já era demais. Olhei ao redor e constatei que aquele era, realmente, o único saco de sal do mercado. Ou seja, foi uma armadilha. E eu não iria deixar isso barato.

Limpei meu tênis – que, a esta altura, já estava mais temperado que um bife de boteco – e recoloquei o saco na prateleira e saí andando pelos corredores. Tenho certeza de que os duendes acreditaram que, depois disso, eu desistiria e iria para casa. Logo, eles estariam mais relaxados no mercado. Não deu outra: menos de cinco minutos depois, avistei um deles empurrando um carrinho cheio de tranqueiras e o encurralei numa pilha de fardos de papel higiênico. Sem ter para onde fugir, ele foi obrigado a me dar atenção.

– Oi. Você pode me ajudar?

– Hum.

– Vocês sofrem de alguma epidemia de pressão alta?

– Hum?

– É. Pressão alta. Porque eu não consigo imaginar outro motivo para vocês não venderem sal.

– Último corredor. Prateleira do meio.

Eu não iria cair nessa de novo.

– Me mostre.

– Último corred...

– Me mostre!

O duende saiu andando pelo mercado, empurrando o carrinho, e eu ao lado dele. Tenho certeza de que, escondidos nas prateleiras, os outros duendes observavam aquilo com preocupação. Mas nenhum deles me atacou. Chegamos à prateleira indicada e o duende apontou o saco furado com o dedo.

– Sal.

– Está furado.

– Sal, ele insistiu.

– Este saco está furado. Eu quero um saco de sal cuja integridade tenha sido mantida.

Achando que era alguma armadilha minha, ele pegou o sal com as mãos, fazendo uma nova nuvem salgada surgir. Abanou o ar com a mão, e, quando o sal começou a desaparecer do ar, olhou para mim.

– Cabô.

– Não, não pode ter acabado. Não é possível que não tenha mais sal aqui.

– Cabô.

– Vem cá, isso aqui é um mercado, certo?

– Hum.

– Eu duvido que não tenha mais sal aqui. Sal, sabe? Aquele pó branco.

– Sal.

– Isso. Não é cocaína, é sal. Se fosse cocaína, eu entenderia. Mas é sal! Cloreto de sódio. Se você for à praia e encher uma caneca com água do mar, você consegue sal. Quando eles mataram o Tiradentes, no século 18, eles salgaram a casa do sujeito para não nascer mais nada ali. Então, sal não é algo particularmente raro. Eu duvido que vocês tenham apenas um saco de sal. E furado, ainda por cima.

– Cabô.

– Vem cá, qual a freqüência que vocês são reabastecidos? Três anos atrás eu vim aqui e não tinha sal. E hoje não tem sal. Eu quero saber se hoje vocês não tem sal de novo, ou se hoje vocês ainda não têm sal.

– Cabô.

E ficou olhando para mim com um ar de quem não poderia ir muito além disso no diálogo. Tentei ser mais minimalista, para ver se eu conseguia algo.

– Sal?

– Cabô.

– Acabou?

– Cabô.

Respirei fundo, resignado.

– Acabou.

– Hum.

Conformado de que eu não conseguiria sal ali, tentei um último truque, apenas para tirar uma dúvida pessoal. Apontei para o carrinho que ele empurrava e disse:

– Pote de ouro.

Ele olhou assustado para mim, gritou algo incompreensível, deu meia-volta e saiu correndo, empurrando o carrinho. Eu saí correndo atrás, mas, na primeira esquina que eu virei, vi que ele havia desaparecido. Olhei ao redor, e nem sinal dele ou do carrinho. Voltei para a prateleira do sal, e vi que o saco furado de sal havia desaparecido também.

Atravessei a rua e fui até o Pão de Açúcar comprar sal. Eu não passo mais nem na calçada do Dia. Às vezes, quando volto do trabalho de madrugada e o mercado está fechado, ouço barulhos vindo lá de dentro. Algumas noites, são ruídos de escavação; em outras, ouço barulhos que deixam claro que alguém está refinando metal lá dentro.

Eu, claro, finjo que não é comigo e passo reto. Certas coisas, é melhor deixar de lado. Mesmo.

18 comentários:

Rob Gordon disse...

Ah, sim.

Primeiro.

Fox disse...

Segundo (?)

Não tem jeito! Continua sendo um dos melhores blogs que existe!
HAHAHAHAHAHHAHAHAHAHHAHA

abraço!

Looky disse...

Ei não usurpe o lugar de primeiro assim ò_ó
Há um Dia perto da minha casa também, aparentemente a tese dos duendes de uma palavra é verdadeira.

O pior é entrar no mercado e notar que nem o caixa está lá, eles me assustam X_X

Varotto disse...

Fim da salga...

ugh, horrível!

MaxReinert disse...

hauhauhahaua....
cabô?

Que Nem Chiclete disse...

poderia naums er final jah q temos desaparecidos...

Tyler Bazz disse...

To começando a sacar... aquela história sua de dizer que eu sou esquizofrênico é só uma artimanha muito da sacana pra tentar esconder o que fica mais do que claro com esse post: VOCÊ TEM SÉRIOS PROBLEMAS!!!!!


[pq meu blog aparece nas 'citações'?? Eu não te citei 0_o]

Pâmela disse...

AAAcabou.
Mas é sério Rob, você não é muito normal não.

AlternaZé disse...

A vingança nunca é esquecida, mesmo que você queira...

lolipop

Marcio Sarge disse...

Rob?!! Tô com medo de você!

Como você disse sal não é um item raro, como aqueles apetrechos em jogos de RPG sabe, não fosse ali seria em outro.

Agora o pior de tudo que sua loucura perturbou minha mente, estou com medo de entrar no Dia agora.

George Marques disse...

uhusuasuahua "nuvem salgada"
Quando precisar de sal, já sei onde não procurar =D

rbns disse...

Agora teria ficado perfeito se nesta frase: "– Eu não vou esquecer. Eu estou há três anos esperando por esse dia."

Você tivesse escrito "Dia", com letra maiúscula.

Renan Becker disse...

SAL!!!
ahsuhasau muito boa a historia aushauhs!!

Kel Sodre disse...

hauhauhauhauhauhauhauhauhauhauhauhauhau

Dei uma gargalhada alta sozinha em casa quando li "Estava furado".

Da próxima vez em que precisar de sal (ou seja, daqui a outros três anos) peça uma xicarazinha aos vizinhos. Vai demorar tanto até você gastá-lo que poderá pedir de novo quando esta acabar!

O Lerdo disse...

Ainda bem que aqui no Rio, O Dia é só um jornal...

Anônimo disse...

Não seria "quilo", em vez de"kilo"?

Mychelle disse...

Muito bom!

Vc conta isso e vem um filminho na nossa cabeça.
hauahauahua...
É tão bom que dá pra duvidar que é, de fato, real.

=*

Larissa Bohnenberger disse...

Mas O Dia tem os melhores preços, já disse sua mãe...
Que horror! Como é que um supermercado não tem estoque de sal? Socorro!