21 de novembro de 2008

Um Dia de Cão - Parte I

Quando eu vim morar sozinho, uns três anos atrás, minha mãe passou por uma cruzada pessoal para me convencer de que eu deveria fazer minhas compras naquele supermercado O Dia, por que, de acordo com ela, é o mercado mais barato da cidade. Aliás, pouco antes da minha mudança, ela parecia a garota propaganda do lugar, repetindo slogans sempre que tinha chance.

– Bom dia, mãe.

– Bom dia. Não se esqueça de que os preços no Dia são ótimos.

– Ah... Ok.

– Eu já fiz o seu café, com produtos comprados no Dia.

– Que bom.

– Porque lá tem os melhores preços da cidade.

– Ok, mãe. Olhe, eu vou tomar café na rua, estou atrasado.

– Tudo bem. Se precisar de alguma coisa, os preços do Dia são ótimos.

Ela ficou uma duas semanas nessa. Só faltava levantar uma lata de ervilhas e sorrir para uma câmera imaginária, dizendo o quanto aquilo custava no Dia. E, no dia (na data, não no mercado) da mudança, quando eu precisei comprar material de limpeza e um pouco de comida, ela, obviamente, me levou no Dia aqui ao lado, apesar dos meus protestos que o Pão de Açúcar, que fica do outro lado da rua, é maior.

Entramos no mercado – ela com aquele olhar de mãe que está ensinando o grande segredo da vida para sua prole – e eu entendi porque as coisas são tão baratas ali: eles seguem o mesmo modo de organização das Lojas Americanas (gaiola mode: on), deixando os produtos organizados sem lógica nenhuma (algo como deixar a prateleira de melancias entre a de desinfetantes e a de cadernos).

Peguei a lista e comecei a procurar o primeiro item: sal. Saí andando pelas prateleiras e nada. Nem sinal. Procurei algum funcionário do mercado para pedir orientação, mas não encontrei nenhum – provavelmente, estavam todos reunidos na frente da prateleira secreta onde guardam sal. O jeito foi apelar para a minha mãe (afinal, ela tem experiência naquele ambiente) mas ela parecia em transe, intoxicada com os preços baixos.

– Mãe, onde eles guardam o sal aqui?

– Você viu o preço do Bombril?

– Não, não vi. Eu quero sal.

– Está quase a metade do que eu paguei perto de casa.

– Que ótimo, mas eu não encontro o sal.

– Olhe ali!

– Achou o sal?

– Olhe o preço da batata!

– Mãe...

– Acho que eu vou levar um pouco!

Não tive jeito. Segurei-a firmemente pelos ombros e olhei para ela. Seus olhos estavam vidrados.

– Mãe, eu sei que o preço da batata está bom, mas nós temos uma missão aqui. Achar o sal.

– Mas as batatas...

– Podemos focar no sal?

– Mas lá perto de casa as batatas estão por...

– Mãe, ninguém come batata sem sal! Fica horrível! Nós precisamos encontrar um pacote de sal! Recomponha-se!

Aos poucos, ela começou a voltar ao normal. Seus olhos se tornaram um pouco mais vivos. Comecei a andar pelo mercado, com ela ao meu lado. Às vezes, ela olhava o preço de algum produto e suspirava. Eu precisava resolver logo aquilo, ela não iria agüentar muito tempo.

Claro que eu poderia ir atrás dos outros produtos da lista, mas o sal era essencial. Eu não gostaria de morar sozinho se não tivesse sal na minha casa. O sal é uma substância que deixa a vida mais colorida. Não conheço uma pessoa que consiga passar pela bandeja da carne no churrasco e não roubar um torrão de sal grosso. A vida sem sal é uma vida apenas ok. Tanto é que “sem sal” é sinônimo de “sem graça”. Eu nunca vi alguém soltar comentários como “ah, esse filme é meio sem detergente” ou “faltou um pouco de rúcula no último disco da banda tal”. Não. Sal é vida.

E eu não iria desistir tão fácil.

O problema é que comecei a perceber que não ajudar os clientes é uma política daquele supermercado. Os atendentes têm ordens de só arrumarem as prateleiras quando o mercado estiver vazio, normalmente no meio da madrugada. Eles são estritamente proibidos pelos seus mestres de serem vistos pelos consumidores. Provavelmente, aqueles que falham nesse critério são punidos fisicamente e humilhados na presença dos outros, por colocarem em risco o segredo da sua existência. Talvez sejam duendes e escondem potes de ouro no meio das mercadorias. Aposto que, se eu vasculhar em sites e livros sobre fábulas e lendas, encontrarei alguma referência sobre os atendentes do Dia.

Mas a sorte favorece os audaciosos. Continuamos andando pelos corredores, atrás de sal ou de um atendente – o que viesse primeiro. E, para azar do atendente, ele veio primeiro. Ao virar em um corredor, avistei uma criatura vestindo um uniforme do Dia.

– Você!, gritei.

O sujeito olhou para mim assustado e olhou ao redor, procurando um modo de escapar. O problema é que suas rotas de fuga eram apenas duas e estavam obstruídas: se ele corresse na minha direção, eu o apanharia; se ele corresse para o outro lado, eu jogaria uma lata de pêssegos na cabeça dele, como meu olhar deixava claro. Aproximei-me dele e achei melhor tomar cuidado, pois percebi que estava lidando com um animal acuado, que faria qualquer coisa para escapar dali. E, além disso, ele estava armado com dois frascos de amaciante nas mãos.

– Vamos resolver logo isso, eu disse. Sal. Onde?

– Cabô.

– Como assim, acabou? É sal! Sal não acaba!

– Cabô.

– Mas como você sabe? Você nem foi procurar!

– Meu Deus, olhe o preço dessa esponja...

– Mãe, controle-se! Cara, vamos resolver logo isso. Me dá um pacote de sal e eu vou embora.

– Cabô.

– Eu acho que você não está entendendo. Eu não estou quero exterminar a fome e as guerras do planeta, e não estou pedindo por uma porção de favos de mel banhados em néctar. Eu quero um kilo de sal.

– Cabô.

Senti uma mão no meu ombro. Me virei, já preparado para dar de cada com o chefe dos duendes me ameaçando com um machado, mas era minha mãe.

– Você viu o preço da carne moída?

– Mãe!

Olhei de volta e, claro, o duende havia aproveitado aquilo para escapar. Olhei para baixo e vi os dois frascos de amaciante no chão. Nada de potes de ouro. E nem de sal.

– Isso não fica assim!, gritei. Mãe, nós vamos embora! Larga esse pacote de carne!

Agarrei-a pelo braço, e saí de lá na direção do Pão de Açúcar. Mas ainda parei na calçada, olhei para dentro do Dia e fiz, em silêncio, uma promessa.

Um dia eu vou precisar de sal. Sal é uma coisa que dura anos, mas um dia eu vou precisar de sal. E esse dia há de chegar. E, neste dia, eu vou voltar aqui. Eu não vou me esquecer de vocês.

E, esta semana, este dia chegou.

(continua...)

27 comentários:

Fernando Pocow disse...

Saga do sal!
uUAHUHauhAUHAuhuAHUA

Gostei desta parte:
"A vida sem sal é uma vida apenas ok. Tanto é que “sem sal” é sinônimo de “sem graça”. Eu nunca vi alguém soltar comentários como “ah, esse filme é meio sem detergente” ou “faltou um pouco de rúcula no último disco da banda tal”. Não. Sal é vida."

Darlan Machado disse...

Massa, a forma que você mistura uma escrita meio eloquente com coisas completamente "mundanas"
Gostei.

Anônimo disse...

Não seria "quilo" ao invés de "kilo"?

Sir Lucas disse...

Agora sabemos de onde vem o seu consumismo voraz. É de berço.

;D

Kel Sodré disse...

hihihihihihhi

Nada para combater um bloqueio criativo do que uma série, que também mata os leitores de curiosidade!

Back to normal, Rob? Espero que sim!

Tyler Bazz disse...

[que anônimo mala ali :X]

Rob de voltas à boa forma!!! (textual. não comentarei a física..)

O "Recomponha-se!" e o parágrafo sobre a importância do sal foram demais!! auiaUHAuahauHAU

Diego Moretto disse...

Rapaz, q luta ein...uahauhauhhaha. E sal cara, algo tão......tão........... sal!
Bom, veremos a sua volta lá!rs
Abraço!

Dalleck disse...

Sentou o dedo!

ahuehauheuaheuha, muito bom mestre! Quando crescer quero escrever que nem o SENHOR =D

Pâmela disse...

UHUL!
Adoro sagas. :D

O Lerdo disse...

Queria ter um bloqueio criativo assim. Minha relação com o sal mudou depois do seu post huahuahuahuahua.

Uma pergunta: haverá um cão nessa série, ou o título do post é só pela sonoridade da expressão? xD

Renato Siqueira disse...

Cara, eu não te conheço, nunca tinha vindo ao seu blog e caí aqui de paraquedas, através do Orkut, onde eu buscava inspiração pra chutar o rabo do Wordpress e voltar pro meu saudoso e querido draft blogger, mas quando eu comecei a ler sua história sobre o sal não consegui parar... Minha mulher veio ao quarto 2 vezes saber porque eu estava rindo desesperadamente e tão alto... Parabéns, foi foda...
P.S. Me manda um email quando sair a segunda parte??? Brincadeira, vou assinar o RSS. Fui!

Mychelle Freiesleben disse...

Vc é um bom contador de histórias. FATO!

Mas vamo combinar que o Pão de Açucar gosta de extorquir as pessoas.

Bjão!
=*

Helen disse...

Gente, entrei no sistema de comentários na CERTEZA de que alguém já teria dito a primeira coisa que passou pela minha cabeça, mas não. Então vamos lá:

Demorou TRÊS ANOS pra você gastar um pacote de sal? (hahahaha)

Rob Gordon disse...

Helen

Sabe que eu percebi isso justamente enquanto escrevia o texto?

Não sei se no meio disso teve outro pacote de sal (acho que não) comprado pela minha mãe.

Enfim... Coisas de quem não cozinha!

Beijão

Luna disse...

Legal, agora vou passar uma semana falando "cabô" e rindo feito uma retardada cada vez que alguém me perguntar onde tá tal coisa. Tadinho do atendente, ele apenas cumpre ordens. Você foi duro com ele.

gilgomex disse...

vc respondeu pra helen q não cozinha... e se matou atrás de um pacote de sal??? e com certeza vai se matar um pouco mais (imagine uma pessoa se matando duas vezes) atrás de sal de novo...?
fim da piscada...
texto parecido com aqueles das antigas... ê rob véi... aí sim.

Marcio Sarge disse...

Se por um pacote de sal você cria uma saga, promessas de vingança, confronta a própria mãe, combate seres mitológicos e ainda presta culto ao grande e famigerado Pão-vou roubar todo seu dinheiro-de Açúcar e que você não faria então por um cd raro de Mainden?

Barlavento disse...

Também passei por isso com minha mãe quando vim morar só. Acho que todas as mães são assim. Sinceramente não sei se é pior fazer compras com miha ,ãe, que fica louca pelas "promoções", ou com meu namorado, que fica me perguntando: "Você realmente precisa disso?", quando por exemplo encho o carrinho de batata pringles...

Perci Carvalho disse...

continua?!!?!?!?!?!?!?!?!?
afff





ameeei o 'faltou um pouco de túcula no ultimo disco da banda tal' rsrsrs

George Marques disse...

ushuhsauhahsuas
Não tinha imaginado que o "dia" do título se referia ao mercado xD

E neste não faltou detergente, nem rúcula e nem sal. =D

Leon disse...

Tam Tam tammmmmm

Thiago_ajairon disse...

– Eu acho que você não está entendendo. Eu não estou quero exterminar a fome e as guerras do planeta, e não estou pedindo por uma porção de favos de mel banhados em néctar. Eu quero um kilo de sal.

Nessa parte eu chorei de rir!
Li duas vezes, muito show!



http://ajairon.blogspot.com/

Descharth disse...

Em mercado pequeno, me sinto meio envergonhado de pedir auxílio a um atendente.Dou uma olhada, se não tiver ou eu não achar o que desejo, dou meia volta e vou a outro.

Em mercado grande, eu adoro encher o saco dos atendentes, imagina se vou ficar horas procurando um produto...

Cara, roubar um torrão de sal Grosso faz parte do ritual do churrasco

AlternaZé disse...

Eles conseguiram o que queriam. Mais um Dia feliz.

*Esperando ansiosamente pelo novo capitulo

lolipop

Gabi disse...

Não consigo entender tamanho prazer em escrever 'continua' no final.

Não adianta.F5 até não querer mais!

;D

Matheus Silva disse...

"Só faltava levantar uma lata de ervilhas e sorrir para uma câmera imaginária, dizendo o quanto aquilo custava no Dia."

:¬D

M.Shadows disse...

Cara...maldita sinceridade que eu cultivo com pessoas que não me conhecem.

Não comento muito os posts deste blog mas costumo ler todos... o tipo de cara que almoça e não agradece a comida, por isso fico meio chateado em "ter" que que dizer isso mas...Ta fraco cara.

Fraco pra você não pra mim, se eu conseguisse escrever algo do tipo realmente estaria otimo não estou dizendo isso só pra amenizar qualquer coisa...Mas sei la...ja tem algum tempo que acompanho o blog e já fiquei fascinado com várias coisas, tanto que já falei do champ amigo intimo pra muita gente...

Gêneros: Culpa do meu Eu-Lírico, Ô Fase.

Como a maioria eu tambem fiquei preocupado com sua ausencia no blog e esperava que a fase passasse, mas acho que ainda não foi dessa vez...lembro de ter visto uma vez uma resenha sobre um album do Dragonforce, é tenho quase certeza que era Dragonforce...bom a resenha só consistia em Exagerado, exagerado, exagerado...e é isso que essa saga parece...não me parece criativa...parece alguem que te conhece muito bem tentando te copiar, usando incansavelmente todos os seus clichês possíveis.

Não que eu queira ser chato ou exigente, mas a verdade é que acho que o bloqueio criotivo não acabou.

Sugestão de post: Todos os meus erros de ortografia e afins...