19 de maio de 2008

No Capricho - Parte II

(leia a parte I aqui)


– Eu não entendo sua letra.

– Aí está escrito omelete, bastante bacon, cebola, presunto.

– Ok, eu confio em você. Eu não preciso ler. É isso que eu quero.

Ele foi até o balcão, ignorando todas as pessoas que o chamavam das outras mesas, e gritou para o chapeiro – o que me fez concluir que o chapeiro também não pode ver o bloquinho:

– Omelete com bastante bacon, cebola, presunto e queijo.

– SEM QUEIJO!, eu gritei do outro lado da padaria.

– Omelete sem queijo com bastante bacon, cebola, presunto e sem queijo.

Eu sei que deveria ter ficado satisfeito com o fato de ele ter ressaltado o “sem queijo” mais de uma vez, mas comecei a temer pelo futuro da minha omelete, já que ninguém havia falado nada sobre a ervilha. Continuei a ler meu caderno de esportes do jornal, apreensivo. O Bigode voltou à mesa e perguntou:

– E para beber?

Achei melhor não arriscar nada e ficar no básico.

– Uma Coca Zero.

Ele deu as costas e eu o acompanhei com os olhos. Ele foi até a geladeira, pegou uma lata vermelha e trouxe de volta.

– Uma Coca no capricho.

– Era zero.

– Ah, você quer uma Coca Zero?, ele perguntou com um tom de “por que não disse antes?”

– Sim.

Ele voltou à geladeira, pegou a lata correta e me trouxe. Virou as costas e começou a atender duas mulheres na mesa ao lado. Eu fiquei ali, parado, olhando a latinha. Ele de costas para mim, tentando decifrar se o misto quente que uma delas queria tinha presunto. Após um debate de cerca de três minutos sobre as diferenças empíricas entre um misto-quente e um queijo-quente, ele anotou os pedidos delas, relaxou os ombros claramente feliz com a missão cumprida, e olhou para mim. Eu aproveitei a oportunidade e pedi:

– Você me arruma um copo?

– O seu pedido é a omelete, certo?

Me arrumei na cadeira, já esperando por mais uma aula spockiana de lógica.

– É... Sim.

– Já está saindo.

– Ok, mas vamos falar um pouco sobre a Coca? Eu quero um copo.

– Ah, você não tem?

– Não, não tenho.

Ele foi até o balcão e gritou algo sobre um copo. O interessante é que, ao se aproximar do balcão, ele ficou a poucos centímetros de um escorredor de louça com mais ou menos dez copos limpos, mas não pegou nenhum. Fiquei curioso a respeito, e a única resposta que consegui imaginar é que como o chapeiro não pode ver o bloquinho dos garçons, ele reafirma sua autoridade sobre a parte que lhe cabe naquele latifúndio proibindo terminantemente que algum objeto saia de trás do balcão sem sua autorização.

Não vi isso acontecer, mas tenho certeza que um dos atendentes do balcão, ao ouvir o pedido de um copo do bigode, olhou para o chapeiro que, com um aceno de cabeça (que lembraria Humphey Bogart autorizando os músicos do seu bar a tocarem a Marselhesa na presença dos oficiais nazistas de Casablanca), permitiu que o Bigode tivesse acesso a um copo. Bigode – que, cá entre nós, estava longe de ser um Victor Laszlo, o que fez minha teoria sobre Casablanca cair por terra – voltou para a mesa com o copo, altivo e orgulhoso, como um cavaleiro da idade média incumbido de carregar o Santo Graal.

– Um copo no capricho.

Que capricho? O copo estava feito, quem caprichou foi a Santa Marina ou qualquer outra fábrica que tenha produzido isso, não você. Ah, quer saber? Ok, deixa.

– Valeu.

Fiquei bebendo minha Coca e lendo o jornal. Alguns minutos depois, ouvi a esperada frase:

– Uma omelete no capricho.

Mas não era comigo. Era a minha omelete, mas não era comigo. Era com um sujeito de terno numa outra mesa. Ou seja, minha omelete, que teria sido feita sob medida para mim, sem ervilha ou queijo e carregada de bacon – ou, melhor dizendo, teoricamente sem ervilha ou queijo e carregada de bacon, já que eu ainda não sabia se o Bigode havia compreendido tudo o que conversamos – seria entregue para um outro sujeito.

E eu só podia assistir aquilo e, impotente, esperar pelo melhor, como um pai que assiste ao casamento da própria filha com o cafajeste do bairro.


(continua...)

16 comentários:

Thiago Neres disse...

POSTOOOOU POSTOOOU, FINALMENTE POSTOOOOOOU \o\

*Indo correndo ler pra depois comentar*

Thiago Neres disse...

Rob, uma dúvida... o Bigode tem em média quantos anos, tu tem idéia?

E isso de "no capricho" é um saco mesmo. Algum dia quando você pedir uma água a ele, ele provavelmente vai chegar dizendo "uma água no capricho" como se ela tivesse sido abençoada pelo Papa.

PS: Alguma chance de você ser caridoso com os leitores e a parte III sair hoje ainda?

PS 2: Top 5 nunca mais hein? Enjoou de vez foi?

Rob Gordon disse...

Thiago

Por partes:

O Bigode tem uns...hum...uns 40 anos.

Eu nunca (ou quase nunca) coloco Top 5 nas sagas. E o post sobre a morte era pesado demais para ter um Top 5. Mas os Top 5 continuam a todo vapor, pode esperar por eles.

Abração

Thiago Neres disse...

É que de um bom tempo pra cá não teve nenhum top 5 =/

Você bem que podia fazer um top 5 de coisas que o Bigode deve trazer para os clientes (colocando do lado o que REALMENTE foi pedido).

Angus Musashi disse...

Na lanchonete que freqüento , também existe um bigode. Acho que isso é um marketing de lanchonete/padaria...contratar caras com bigode pra uma conspiração maior.

Neh esse não disse...

Rob você tem 20 minutos para aprender a gostar de queijo e ervilhas.


E em algum restaurantes aqueles copos do balcão são parte do "cenário".


Esperando o bigode trazer o prato...

omeAlete disse...

falou o Janete Clair... vc esperando o bigode e eu esperando o próximo capitulo de "omeletes de uma tarde de verão" ou "tem um pelo de Bigode no meu omelete!"

Gilgomex™ disse...

imagine pedir um x-bacon, x-salada...?

pelamor...

mas ainda acho que essa omelete é horrivel...
pois tem cebola.

PS: Puta merda, mataram o Top 5!! Filhos da putaaaaa!!!

Larissa Bohnenberger disse...

Xiiiiiiii!
Eu odeio quando isso acontece. Garanto que tu já estava salivando na mesa, olhando impaciente na direção da cozinha, só esperando a tua omelete sob medida... sei o que é isso. Mas vou te dizer uma coisa, bigode até não é tão desprovido de cérebro assim. Entender que a omelete era sem ervilha e queijo e com muito bacon é complicado. Pior eu, que TADA vez que vou a QUALQUER restaurante e peço uma coca light, sem limão, só gelo, me trazer só limão, e sem gelo... isso eu nunca vou entender...

Helen disse...

Já aprendeu a gostar de queijo, Rob?

(Confesso que tenho dificuldade em entender pessoas que não gostam de queijo.)

MaxReinert disse...

"...como um pai que assiste ao casamento da própria filha com o cafajeste do bairro."

Salvou o meu dia.....

huahauhauhauhauhauhauhauhauhuahuahuahuahuahuahuahuahuahuhauhauhauhauhauhauhauhauhuahua

Pâmela disse...

Rob, passei aqui pra avisar que voltei lá com o blog, nem ia voltar mais como vc me deixou um comentário...
\o/
algo que nunca acontece, né?
mais a saga tá muito boa, e tenha paciência com o bigode, tá?
vai saber se ele tem algum problema mental, ou sei lá.


:*

Cruela disse...

vou mandar um email para a DELAS WEB RADIO e pedir para repetir seu programa.

pode?

Perci Carvalho disse...

serio?! eu ia esperar a parte finalpra comentar! mas to surtando akii jaaa...eu quero sabeeeer se vc deu um round house kickin' na cara dele ou algo assiiinhêê! aheiuahuei

bju

Tyler Bazz disse...

Sai um comentário sem conteúdo, no capricho, nesse post aqui, porque eu vou ler o outro e comento algo decente (ou não) lá. :D

André disse...

- Um copo no capricho.

CHOREI AHAHAHHAHAHAHHA