21 de maio de 2008

No Capricho - Parte Final

(leia a parte II aqui)


Felizmente, o sujeito de terno não se aproveitou da situação e foi honesto. Ainda há esperança para o mundo.

– Eu não pedi a omelete, disse ele.

– Não?, perguntou Bigode, sem tentar disfarçar o espanto.

– Não.

Ou seja, o destino da minha omelete voltou para as mãos do Bigode. Com o prato nas mãos, ele estudou o semblante do cara de terno para detectar algum traço de mentira em seu rosto. Toda a sua sagacidade estava trabalhando em função daquele acontecimento. Ele era o portador de uma omelete sem dono. Algo precisava ser feito. E cabia a ele, Bigode, determinar a solução para o caso.

Porém, a expressão de “este programa executou uma operação ilegal e será fechado” em seus olhos não me inspirou confiança alguma. E nem ao sujeito de terno, que se viu na obrigação de repetir:

– A omelete não é minha.

Mas o cérebro de Bigode já estava trabalhando a todo vapor. Todos os seus neurônios processavam a informação de que “alguém ali era dono daquela omelete” e ele não iria descansar enquanto o assunto não fosse resolvido. Levantou a cabeça e, com os olhos apertados começou a vasculhar a padaria, como um lince que, sobre uma montanha, observa a ravina aos seus pés.

Seus olhos se moveram da esquerda para a direita, fazendo uma análise do ambiente, mesa a mesa. Observou, lentamente, as duas mulheres que conversavam numa mesa; o casal de idade que terminava de almoçar; o baixinho careca que apontava para a omelete com uma das mãos e para o próprio corpo com a outra; o casal com uma criança tomando sorvete; adolescente que tomava um suco ao lado do namorado.

Aos olhos do Bigode, nada indicava de quem era a omelete.

Olhou para o prato novamente, talvez com a esperança de que o próprio prato apontasse para seu dono, mas os ovos continuaram inertes (e esfriando) em sua mão, esperando que ele se decidisse. O sujeito de terno, já colocado oficialmente para fora da lista de suspeitos, lia o cardápio ao lado dele, alheio a tudo. Seus olhos vasculharam a padaria novamente, desta vez da direita para a esquerda: a adolescente e o namorado, o casal com a criança, o baixinho abanando um braço e apontando desesperado para a omelete, os velhinhos; e as duas mulheres.

Enigma. Mistério.

Não agüentei e levantei.

Fui até o Bigode e perguntei:

– Essa é a minha omelete?

Ele me olhou como se tivesse certeza de que me conhecia de algum lugar. Mas, a pergunta “essa é a minha omelete?” fez com que ele assumisse instintivamente uma posição de defesa, girando lentamente o corpo para se posicionar entre eu os ovos. Sua expressão mudou suavemente, e seus olhos indicavam que ele não queria mais saber de onde me conhecia, mas, sim, que eu deveria provar que a omelete era minha. Ele era o encarregado da omelete e não deixaria que ela caísse em mãos erradas, mesmo que isso lhe custasse a vida. Respirei fundo e tentei explicar.

– Bastante bacon? Sem queijo? Sem ervilha? Lembra?

Seus olhos se iluminaram, como se tivesse acabado de ouvir a senha ultra-secreta que provava que eu não era um espião inimigo. Pelo contrário, eu havia acabado de me identificar como um aliado importante. E ele sabia que sua missão era fazer aquela omelete chegar às minhas mãos. Sorri e voltei para a mesa, com ele no meu encalço Quando me sentei, ele colocou o prato na minha frente, dizendo:

– Uma omelete no capricho.

Agradeci, virei a página do jornal e – com meu estomago roncando como um trator velho – coloquei a primeira garfada na boca, satisfeito. E, realmente, a omelete estava no capricho, como o Bigode anunciou.

Com ervilhas. No capricho, mas com ervilhas. Ô fase.

21 comentários:

Renata disse...

"começou a vasculhar a padaria, como um lince que, sobre uma montanha, observa a ravina aos seus pés"
aposto que até vc gargalhou nessa parte!
shaushaushauhsaushaus

Gilgomex™ disse...

não vou comentar hoje

Adônis disse...

Hahaha..

Sem comentarios!

Engraçadissimo e muito criativo...!

;D

Amelie disse...

"o baixinho careca que apontava para a omelete com uma das mãos e para o próprio corpo com a outra"... hahahaha OTIMO.

Mas tipo... poxa, ervilha eh tao gostoso!!!!

Bjos

marifreica disse...

Eita... acho que ele tem um irmão na mesma profissão aqui em Minas, tem não?

Helen disse...

Ervilha é bom, mas deveriam ter colocado o queijo por engano, pra você descobrir as maravilhas do mundo dos derivados do leite.

Dalleck disse...

Da próxima vez escreve você mesmo o pedido do seu omelete sem bacon e com bastante queijo e ervilhas (ops xD) e entrega pra ele, aí não tem erro. O duro se ele não entender o que tá escrito no papel o.o

Silvinha disse...

Eu sempre mudo os pratos, sempre. Se estivéssemos no mesmo lugar o Bigode pediria demissão.

Um omelete tudo com bacon, presunto e bastante queijo, mas sem cebola e sem ervilhas.

E não dà para comer tomate maduro mesmo, ô gosto de coisa podre.

X)

Neh esse não disse...

A ervilha (Pisum sativum) é uma planta (legume) da qual existem mais de duzentas variedades, e de suas vagens são extraídos diversos tipos de grãos que constituem excelente alimento. Em algumas regiões de alguns países é costume utilizar os grãos e as vagens no alimento, quer na forma de sopa (grãos ou vagem) ou como salada (grãos ou vagem), pois se constituem em uma fonte de fibras.

*Não foi tão ruim assim...
Bigode rules!

Tyler Bazz disse...

Eu não consigo me acostumar com omelete sendo uma coisa feminina.. A vida toda eu comi O omelete, eu fiz UM omelete... o_0

Também me incomoda essa sua história de SEM queijo, mas vou deixar passar.

E quando eu estiver em Sampa eu faço questão de ir a essa padaria, só para ver o Bigode em ação. (não pedirei nada além de uma Coca normal, mas que eu quero assistir o Bigode, quero!)

o/

Varotto disse...

Fechamento magnífico...

Bruno disse...

Engraçado mesmo.
Mas acho que podia ter feito em duas partes.
A segunda e a terceira ficaram paracendo matrix reloaded e revolution.

Perci Carvalho disse...

"o baixinho abanando um braço e apontando desesperado para a omelete" - aheiuhiuaehiuahiaeuh

acho q alguns garçons são treinados para agirem exatamente assim nessas situações, aliás, penso que deve ser algum tpo de regra dos sindicatos dos bares restaurantes e blablabla...todo estabelecimento deve ter, no mínimo, um garçom que NÃO atenda às especificações do cliente.


e eu juuuuuurooo que qdo vc demonstrou preocupação qto às ervilhas na parte II, eu tinha certeeeza que elas estariam na sua omelete te esperando ansiosamente em meio a risadinhas irônicas (que, obviamente, se tornaram histéricas qdo viram a sua cara de "Ô Fase" - e eu tb tenho CTZ de que vc tem - e usa - a expressão facial "Ô Fase)


abraço!

Paulo Mendes disse...

Muito massa seu blog!!!Bem divertido e cheio dos prêmios!!
Passa no meu blog e faça um blogueiro feliz, COMENTE!! KKKK...

http://superpaulo.blogspot.com/

Nash disse...

Eu poderia apostar meu braço direito como o Rob olhou o comentário acima e pensou: "Ô fase".

huahuahua

Unlucky disse...

Alem das ervilhas, um SPAM!

só faltou uma xato agora...

em prol dos omeletes com ervilhas!! ahahaha x)


Rob, acredite, essas coisas não acontece só com vc!!! Abraços.

Larissa Bohnenberger disse...

Eu tinha certeza absoluta de que o fim desta história seria este! Por dois motivos: primeiro, pq tu é um azarado de mão cheia. SEgundo pq eu conheço essa espécie... é difícil!

Rejane Oliveira disse...

A sua forma de escrever, me lembrou um ótimo livro que li do autor Martim Page, o livro "Como me tornei estúpido"...acho que você escreve tão bom que arrisco a lhe comparar com ele.

bjos

rbns disse...

Mandou bem irmãozinho. Do jeito que te conheço vc. deve estra sofrendo com esse bigode.

Eyelyser disse...

hehehehe
o bom é a coca ZERO e o omelete com BASTANTE BACON ;D

Ana disse...

"Observou, lentamente, as duas mulheres que conversavam numa mesa; o casal de idade que terminava de almoçar; o baixinho careca que apontava para a omelete com uma das mãos e para o próprio corpo com a outra; o casal com uma criança tomando sorvete; adolescente que tomava um suco ao lado do namorado.


Aos olhos do Bigode, nada indicava de quem era a omelete.

Olhou para o prato novamente, talvez com a esperança de que o próprio prato apontasse para seu dono, mas os ovos continuaram inertes (e esfriando) em sua mão, esperando que ele se decidisse. O sujeito de terno, já colocado oficialmente para fora da lista de suspeitos, lia o cardápio ao lado dele, alheio a tudo. Seus olhos vasculharam a padaria novamente, desta vez da direita para a esquerda: a adolescente e o namorado, o casal com a criança, o baixinho abanando um braço e apontando desesperado para a omelete, os velhinhos; e as duas mulheres.


Enigma. Mistério."

Hahahahahahhah
Genial!