28 de janeiro de 2009

O Tempo Passa, O Tempo Voa...

O restaurante onde eu almoço, em Pinheiros, tem dois problemas graves. O primeiro é a mania do cozinheiro de bancar o artista, inventando nomes estranhos para os pratos mais comuns do mundo – qualquer dia eu falo disso aqui no blog. O outro é o serviço. Os garçons de lá não são internacionalmente conhecidos pela inteligência. Bom, vamos ser justos: a coisa melhorou de uns tempos para cá, quando começaram a contratar pessoas com um pouco menos de deficiência de fosfato no organismo para servir as mesas – um deles, especialmente, virou meu amigo porque também gosta de heavy metal e vem sempre se atualizar comigo sobre shows e discos novos.

Mas ainda sobraram uns garçons old school na equipe, que fazem questão de não olhar na sua direção quando você está chamando, e demoram uns cinco minutos para conseguir trazer uma lata de Coca Zero. Claro que, mais dia, menos dia, a seleção natural vai se encarregar deles, mas, até lá, eles vão continuar atrapalhando meu almoço sempre que um deles estiver atendendo minha mesa (e como eles fazem uma espécie de rodízio todos os dias, não adianta eu me sentar em outro lugar, acabaria virando loteria).

Desses garçons mais, digamos, tapados, um em especial consegue ser particularmente irritante. Às vezes, eu vou almoçar sozinho pelo único motivo de querer almoçar sozinho. Compro um jornal de esportes para ler enquanto como, e planejo passar uma hora ali, em silêncio, lendo, comendo e pensando na vida. Mas ele não deixa. Fica em pé, ao lado da mesa, lendo o jornal por cima do meu ombro. Eu mudo de posição, entro na frente dele, mas ele não se toca e continua lendo. Até a hora que eu me emputeço, coloco numa matéria sobre a semifinal do campeonato de vôlei feminino da Tailândia e deixo naquela página até ele ir embora.

Antes que pensem que sou grosso, se eu não fizer isso, às vezes ele insiste em comentar as notícias comigo. Eu estou comendo, e, de repente, ouço, ao meu lado:

– O Palmeiras ganhou?

Eu olho para ele com aquela cara de “se eu quisesse conversar, teria vindo almoçar com alguém”. Mas ele não consegue captar isso, é informação demais. Então, só me resta responder.

– Não.

– Mas tem uma matéria do Palmeiras aí.

– É um jornal de esportes. Tem uma matéria sobre o Palmeiras todo dia. Sobre o São Paulo também. Sobre o Corinthians também.

– Ah, então não ganhou?

– Não. Mesmo porque ele joga hoje. O jogo é daqui a oito horas. Aliás, a matéria é sobre isso.

– Ah.

Como não consigo encerrar a conversa, resolvo apelar para minha arma secreta.

– Você não consegue outra Coca para mim?

Aí ele se vê obrigado a ir buscar a porra da Coca e me deixa em paz. Na verdade, eu acabo nem tomando essa segunda Coca-Cola inteira, mas não me importo. Gosto de pensar que estou pagando R$ 2,00 por um almoço silencioso e não por uma lata de refrigerante. E assim vamos vivendo, eu e ele.

Mas ontem a coisa passou dos limites da cretinice.

Eu já estava no final do almoço, lendo as notícias sobre o Campeonato Carioca – que era a única coisa que ainda não tinha lido no jornal. Ele ali, em pé, ao lado da mesa. Eu já estava esperando o momento em que ele viria comentar algo sobre o Vasco. Eis que ele solta:

– É engraçado como o pessoal do Roupa Nova está velho.

Roupa Nova? Como assim?

Olhei o jornal de cima a baixo e não vi absolutamente nada sobre o Roupa Nova. Sem fazer movimentos bruscos para não assustá-lo, olhei ao redor procurando um CD do Roupa Nova nas mesas ao lado, ou um poster da banda na parede. Nada. Comecei a ouvir com mais atenção a música que estava tocando no restaurante. Não identifiquei o que era, mas não era Roupa Nova.

De onde diabos o Roupa Nova surgiu? Será que foi um pop-up que abriu no cérebro dele?

Não havia qualquer sinal de Roupa Nova ao meu redor. A única alternativa que restava era o fato de eu ter me transformado em alguém do Roupa Nova sem perceber. Peguei meu celular, levantei até a altura do rosto e olhei meu reflexo no visor.

Não, eu continuava sendo eu.

Só me restou fazer a minha melhor e mais caprichada cara de interrogação e olhar para ele. Foi o que eu fiz, mas o garçom continuou em silêncio, pois 1) ele não sabe reconhecer uma expressão de interrogação e 2) ele não considerou a hipótese de que a frase dele não se encaixava de forma alguma na realidade do planeta.

Assim, tive que apelar para a comunicação verbal. Mas fiz questão de continuar com minha cara de interrogação.

– O quê?

– O pessoal do Roupa Nova está muito velho.

– Ah, é?

Minha idéia era fingir interesse e, ao mesmo tempo, deixá-lo falar o que quisesse sobre o assunto. Desta forma, quem sabe, ele acabaria entregando alguma pista sobre os caminhos tortuosos que aquele pensamento percorreu pelo seu cérebro, evoluindo de uma simples “vaga idéia que não interessaria a ninguém” até chegar às suas cordas vocais na forma de um “comentário que valesse a pena ser dito em voz alta”. Infelizmente, não deu certo, porque tudo que ele respondeu foi:

– É.

Percebi que sutilezas não iriam funcionar. O negócio era entrar com os dois pés no peito e resolver logo aquilo.

– Só por curiosidade, porque diabos você está falando disso?

– Porque eles estão velhos.

– Não, porque você está falando ISSO? Não tem nada sobre o Roupa Nova aqui.

– Tem sim. Tem eles.

Ok. Calma. Como responder a isso?

– Hum?, foi tudo o que eu consegui.

– É. Eles estão aí no andar de baixo comendo. Eles sempre comem aqui.

– Ah.

– Não acredito que você não viu!

Por um momento, pensei em responder que se os caras da banda se sentassem na minha mesa e começassem a mexer na minha comida, eu não iria reconhecê-los, porque não faço a menor idéia de com o que alguém que pertence ao Roupa Nova se parece.

Por outro lado, caso ele fosse fã do grupo, esse é o tipo de comentário que poderia gerar atritos. O cara iria pegar bronca de mim, e, mais dia, menos dia, iria cuspir na minha Coca-Cola enquanto cantarolava freneticamente uma música do Roupa Nova na cozinha. Achei melhor sair pela tangente.

– Ah, é que eu estava lendo o jornal aqui.

Foi a sua vez de me olhar com cara de interrogação. Suspirei e expliquei:

– Eu fiquei olhando apenas o jornal e o meu prato. Dei algumas olhadas pela janela, mas só. Não olhei para as outras mesas.

– Ah, entendi. Mas eles estão velhos, viu?

– É. Acontece com todo mundo, respondi.

E acontece com todo mundo mesmo. Eu, por exemplo, estava envelhecendo uns cinco anos a cada frase que ele soltava.

– Igual ao Zezé di Camargo e Luciano.

(Interlúdio: porque algumas pessoas se referem às duplas sertanejas como uma pessoa só?)

– Eles também estão aqui?

– Não. Mas estão velhos.

– Ah.

– Algum tempo atrás, eu vi os dois na televisão sobre eles. Eles tinham 43 anos. Ontem, eles apareceram na televisão e já estão com 47.

– Nossa. Envelheceram quatro anos.

Aparentemente, ele não percebeu o sarcasmo e foi em frente:

– É, envelheceram muito. Já estão com 47 anos.

Seus olhos brilhavam e ele estava visivelmente empolgado em possuir essa informação. Aparentemente, ninguém mais sabia a idade da pessoa conhecida como “Zezé di Camargo e Luciano”, a não ser ele. E isso, pelo jeito, significava muito para ele.

Foi neste momento que meus neurônios entraram num processo de transe. Isso acontece comigo às vezes. Eles começam a tocar tambores africanos ensurdecedores e a dançar freneticamente, implorando para eu sacanear com a pessoa. Só param quando eu atendo esse pedido. E se eu não fizer isso, eles começam a me ameaçar, gritando que se eu não fizer o que querem, eles irão me deixar cego quando eu estiver atravessando uma avenida.

Resumindo: eu não podia deixar isso passar em branco.

Dobrei o jornal, me levantei e coloquei minha carteira no bolso, me preparando para ir ao caixa pagar. Olhei para ele e perguntei:

– Nem parece que eles têm 47 anos...

– Não.

O barulho dos tambores aumentou.

– E outro dia mesmo, eles tinham 43?

– Isso. Eu vi na TV.

O barulho dos tambores começou a fazer meu crânio tremer. Os neurônios dançavam cada vez mais rápido.

– É... O tempo voa. Quem diria que eles já estão com 47 anos? Aposto que nem faz tanto tempo assim que você os viu na TV e eles estavam com 43 anos. Quanto tempo faz isso? Uns três anos? Quatro?

Subitamente, os tambores pararam. Os neurônios interromperam a dança e ficaram aguardando em silêncio. Eles não se moviam. Aliás, eles mal respiravam, como torcedores que aguardam pela cobrança de um pênalti, esperando o garçom terminar de fazer as contas e responder a minha pergunta.

– É... Por aí... Acho que faz uns três ou quatro anos, sim.

Meus neurônios explodiram de felicidade. Agora, eles não apenas tocavam os tambores e dançavam como, também, gritavam alucinadamente. Meus órgãos devem ter imaginado que uma final de Libertadores estava sendo disputada dentro do meu cérebro e que, aparentemente, o time da casa tinha feito um gol.

Segurei uma gargalhada, me despedi falando qualquer coisa sobre o tempo passar rápido demais e fui embora rapidamente, antes que ele fizesse a prova real da conta que tinha acabado de fazer. Desci as escadas e fui em direção ao caixa. No caminho, percorri o restaurante com os olhos.

De todas as mesas ocupadas, duas delas estavam ocupadas por grupos de pessoas que estavam entre os 50 e 60 anos. Ou seja, até agora não sei em qual delas o pessoal do Roupa Nova estava.

Mas meus neurônios estavam ocupando demais celebrando, e não se importaram com isso.

E, para matar a saudade dos leitores - e contando com a colaboração do grande camarada Alê –, deixo com vocês o Top 5 assuntos aleatórios que você pode usar com desconhecidos na fila do banco, no restaurante ou no elevador, sempre que quiserem se passar por loucos:

1. – E a China, hein? (Diga apenas isso, não fale mais nada. Deixe a pessoa imaginar o que ela quiser)
2. – Sabia que o Paul McCartney é um sósia? Sabia que ele está morto? (Se a pessoa não responder nada, complete com “Já o Elvis, parece que ninguém sabe ao certo...”)
3. – Aceita um shuberry? (Se o sujeito ficar em silêncio, sem saber o que dizer, você olha nos olhos deles e grita “Ni! Ni!”. Se ele não conhecer Monty Python, os resultados serão inesquecíveis.)
4. – Putz, essa chuva vai acabar com a cidade hoje... (Mas diga isso sempre que estiver fazendo um sol de rachar)
5. – Já é Natal? (Ou qualquer uma de suas variações, como “Já é hora do café?”, “Já chegamos?”)


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Geli-Limão
Nada Como um Dia Após o Outro

26 de janeiro de 2009

A Vingança dos Nerds

Há alguns anos atrás, os nerds, cansados de terem suas calças abaixadas no pátio da escola todos os dias e obrigados a jogar no gol nas aulas de educação física, perceberam que não conseguiriam mais viver assim por muito tempo. Assim, colocaram a camisa para fora das calças, trocaram os óculos por lentes de contato, passaram uma Acnase no rosto para dar um trato nas espinhas e resolveram que agora não são mais nerds, são geeks.

Com a nova alcunha, formaram uma nova tribo, famosa por dominar todos os gadgets eletrônicos, conhecer o nome de pelo menos cinqüenta pokemons e saber de cor e salteado todos os aplicativos existentes para Twitter. Até aí, ok. Se você gosta da coisa, tem mais que curtir mesmo. Não só está no seu direito como é saudável. Eu mesmo tenho meu lado nerd (aliás, quem não tem?), e adoro ficção científica, quadrinhos, videogames e heavy metal, assuntos conceitualmente nerds.

E, até então, os geeks uma tribo simpática. Ou, ao menos inofensiva. Isso, claro, até a Campus Party deste ano, que foi um vexame total.

Desde que um dos participantes do Best Blogs Brasil (cuja premiação foi entregue no evento) foi desclassificado do concurso e ameaçou processar os organizadores do concurso a Campus Party deste ano foi um vexame atrás do outro. Ao longo do evento, os nerds, provavelmente empolgados por descobrirem que formam um exército maior do que imaginavam, abandonaram seus estojinhos de química e suas figurinhas de Dragonball Z e partiram para a conquista do mundo. Assim, tivemos nerds brigando com nerds, nerds brigando com a banda, e, claro, nerds passando a mão na bunda da Coelhinha da Playboy que estava no stand da editora Abril.

Mas o mais ridículo mesmo foram alguns comentários que eu peguei em alguns Twitters, colocando a Campus Party deste ano como uma espécie de Woodstock do século 21. E provavelmente falaram isso apenas porque a organização do evento disponibilizou um espaço para as pessoas acamparem ali durante a noite. É. Igualzinho a Woodstock. Ou quase igual, já que enquanto em Woodstock as pessoas transavam durante os shows, os nerds da Campus Party devem ter passado as noites fazendo sexo virtual pelo Messenger com a gordinha da barraca ao lado.

Sinceramente, o evento mostrou apenas que os nerds (se você gosta de ser chamado de geek, me desculpe por derrubar seu castelinho de cartas, mas você é nerd mesmo) podem dominar as novidades tecnológicas como ninguém, mas a maioria ainda não possui maturidade suficiente para poder andar sozinho na rua, agredindo todo mundo e bolinando mulheres por aí.

Aliás, o interessante sobre o moleque que passou a mão na bunda da menina da Playboy é que, quando ela reclamou, tudo o que ele conseguiu fazer foi desconversar – o que mostra que ele não faz menor idéia de como lidar com situações que não oferecem a alternativa “bloquear a pessoa no Messenger” como solução. Altamente maduro e evoluído.

Aqui fora, no mundo real, as coisas são bem diferentes desta realidadezinha cyberpunk que existem apenas na mente de vocês e na qual vocês são hackers caçados pelas autoridades (porque, provavelmente, descobriram a senha do Orkut da irmã). Então, aprendam a conviver com outras pessoas de carne e osso antes de saírem do apartamento.

Afinal, vocês sempre foram simpáticos aos olhos das outras pessoas. Não tentem mudar isso se tornando ocupando o lugar dos emos na posição de tribo mais detestada por todos. Porque é isso que vai acontecer, com mais uma ou duas Campus Party com presepadas deste nível. Mas tudo isso prova que dominar a tecnologia não necessariamente o transforma numa pessoa evoluída. aposto que por causa de nerds como esses que a Teoria da Evolução ainda é obrigada a ter a palavra "Teoria" no nome.

Afinal, não há muita diferença entre um nerd desses com um iPhone na mão e o macaco de 2001 - Uma Odisséia no Espaço socando o rival com um osso.

Não, pensando bem, tem diferença sim. Mas a favor do macaco.

Porque essas pessoas que arrumaram essas confusões na Campus Party acabaram de provar, para mim, que nerd não é quem gosta de desenhos japoneses, de tecnologia e de internet. Quem gosta disso é uma pessoa normal, saudável e muito provavelmente feliz - ao contrário do que diziam no pátio da escola. Nerd, na verdade, é quem não sabe se comportar em público. Pior: ainda se orgulha disso, e sai propagando seu feito na internet, como o sujeito que passou a mão na bunda da menina. Isso sim é ser nerd. Aliás, minto. Isso é ser bobo.

P.S. – Se você foi até a Campus Party apenas para conhecer as novidades sobre o assunto que gosta (e não para aparecer em Twitters em blogs como astro do “evento nerd do ano”), este texto não se refere a você.


Update: Quando comecei a receber diversos comentários discordando de mim sobre este texto, especialmente me acusando de generalizar, pensei comigo mesmo "não é possivel que eles não entenderam que estou falando sobre meia dúzia de pessoas".

Bom, a culpa de vocês não terem entendido é exclusivamente minha.

Eu postei este texto na correria, no trabalho. Digitei no Word e colei aqui. Aí, com o texto aqui no blog, adicionei o PS (que me ocorreu apenas enquanto eu estava postando o texto). Na pressa, simplesmente não vi que não copiei o último parágrafo do texto original - o que deu a impressão de que estava falando sobre todos os frequentadores da Campus Party e não sobre meia dúzia de pessoas.

Peço (muitas) desculpas a todos que leram o texto incompleto e peço, humildemente, que o releiam (ou ao menos leia o trecho "inédito", em negrito, logo antes do PS). Mais uma vez, desculpem pela confusão. E, caso você esteja pensando: "ah, ele inventou isso agora" (eu, no seu lugar, desconfiaria disso), deixo uma pergunta no ar: quantas vezes você já me viu generalizando aqui?

Mais uma vez, desculpem pela confusão.

Abraços

Rob.

22 de janeiro de 2009

Rob Gordon Workout

Como os leitores do blog da Sra. Gordon já devem ter percebido, meu brinquedo novo é um Wii Fit. Eu já queria comprá-lo desde o meio do ano passado, quando ele foi lançado, mas o salário de jornalista precisou esperar pelo 13º salário. Na verdade, eu já havia até esquecido dele, mas aí, passando o Natal na casa do meu irmão, pude experimentar o dele e foi amor à primeira vista.

A bem da verdade, um dos motivos que eu queria comprá-lo era menos por causa da diversão e mais para me mexer um pouco, já que exercícios físicos não são, exatamente, parte da minha rotina de uns anos para cá. Então, algumas semanas atrás (aliás, desculpem o atraso, eu realmente queria ter postado este texto mais cedo) comprei e comecei a testar todos os exercícios, um por um, vendo quais eu realmente conseguia fazer.

Claro que não tinha a menor pretensão de virar um Mr. Universo, mas, simplesmente entrar um pouco em forma, perder o planetóide que eu tenho na barriga.

Obviamente, nos primeiros dias o vexame foi total. Até mesmo nos exercícios de ioga, que teoricamente são os mais fáceis, eu demonstrava ter a agilidade de uma pedra. E não adiantava nada a instrutora (que é a cara da Mariana Ximenes) tentar me ajudar, dizendo coisas como “você está indo bem!” e “é isso aí”, porque eu tinha consciência dos meus limites.

Um dos exercícios, especificamente, me deixou constrangido: eu tinha que ficar pé, apoiado em apenas uma das pernas, e, puxae o joelho da outra até encostá-lo na barriga. O problema é que meu joelho direito é podre (até se comparado ao do Ronaldo Gordo), e toda vez que eu fazia isso, ouvia alguns ruídos que me fizeram pensar na possibilidade de algumas das minhas hemoglobinas terem montado uma banda cover do Metallica e usarem a minha patela como local de ensaios. Mas um ou outro eu consigo fazer, claro, porque tenho 33 anos e não 90.

Ah, e quem já estiver pensando em comentar aqui no post, falando “que eu devo ficar uma graça de shorts de lycra e regatinha”, já aviso que uso o Wii Fit apenas de bermuda e camiseta.

Já os exercícios de força, obviamente, são mais legais e mais difíceis. Assim como na ioga, alguns são fáceis e legais de fazer. E alguns são legais de fazer, mais nada fáceis. Um deles – que envolve eu descer e subir meu corpo jogando todo o peso em apenas uma perna – é extremamente gostoso de fazer. Isso, claro, nas três primeiras vezes. A partir daí, você começa a sentir sua perna tremendo, e, mesmo com a Ximenes gritando que “você consegue!”, não consigo evitar o fato de urrar (não existe outro termo, é urrar mesmo) dentro do meu apartamento a cada vez que preciso fazer o movimento de “subir”. Fico até com medo do que meus vizinhos devem pensar que está acontecendo lá dentro. Isso tudo, claro, com a Besta-Fera deitada no sofá, me observando e com a expressão “seu gordo” nos olhos.

Enfim, esse é apenas um resumo do meu sofrimento. E a coisa foi difícil demais nos primeiros dias. Confesso que fiquei tentado a devolver o negócio na loja e escrever uma carta para a Nintendo, pedindo para eles lançarem uma versão personalizada para mim, que seria batizada de WII FAT e cujos exercícios envolveriam provas como virar uma lata de Coca sem parar para respirar e comer um prato de ovos com bacon em menos de dois minutos.


Tentei ir até a padaria tomar 2 litros de Coca
depois de usar o Wii Fit no primeiro dia.
Como a imagem acima deixa claro, não deu.


Mas, como uma das minhas resoluções de Ano Novo foi começar a cuidar de mim (33 anos mode: on), resolvi pegar firme. E a minha saída foi quando eu descobri o modo de corrida livre, que permite você correr durante 30 minutos assistindo a algo na TV (ele fica “guiando” você, a respeito do tempo que falta, pelo controle). E aí eu me encontrei. Fazia tempo que eu queria comprar uma esteira, e o Wii Fit vem substituindo isso bem.

E o interessante é que eu não me oriento mais pelo tempo, e sim, pelos episódios do que estou assistindo. Por exemplo, comecei a correr enquanto estava assistindo a uma temporada de Weeds – no qual cada episódio tem 22 minutos. Logo, eu corria um episódio de Weeds e mais alguns minutos, para completar meia hora. Agora, como estou vendo House, aumentei minha dose de corrida, já que os episódios têm 45 minutos. E, de domingo para cá, estou correndo dois episódios de House direto (uma hora e meia, para quem tiver dificuldades na conta).

Não sei se as pessoas que tem o hábito de correr acham que uma hora e meia é pouco ou muito, mas isso é mais do que tudo que corri entre os anos de 2003 e 2005. Logo, está me fazendo um bem danado, a ponto de eu sentir falta nos dias em que não consigo arrumar tempo para correr – o que é digno de nota.

Resultado: em menos de três semanas, perdi três kilos (caso o leitor que reclama sempre que eu deveria escrever quilos, deixo avisado que estamos falando da minha barriga e dos meus kilos), e já estou trabalhando na perda do quarto. E isso é apenas o começo: meu sonho é correr um Chefão inteiro, mas, para isso, preciso, obviamente, de acompanhamento médico e balão de oxigênio. Mas um dia eu chego lá.

E prometo a vocês que, se um dia eu disputar a São Silvestre, vou com uma camiseta com o logo do blog e a inscrição “O Fase” atrás. Prometo.

16 de janeiro de 2009

Ser Filho é Padecer no Paraíso

– Oi, mãe.

– Oi, Rob, tudo bom?

– Tudo e você?

– Tudo.

– Mãe, sabe com quem eu vou almoçar neste domingo?

– Com quem?

– Com o Otávio.

– Nossa, que legal!

– Sim, faz mais de ano que não o vejo.

– Mas porque ele está vindo para São Paulo?

– Porque ele e a namorada vão ao show do Elton John, que é no sábado. Aí, no domingo, vamos almoçar.

– Puxa, que legal. Mande um beijo para ele.

– Pode deixar.

– Onde ele mora mesmo?

– No Espírito Santo. Em Vitória.

– Nossa, na mesma cidade que o... O...

– Na mesma cidade que quem, mãe?

– Que aquele seu amigo...

– Quem?

– Aquele que trabalhou com você.

– O Otávio?

– Isso! Ele também mora lá, não mora?

– Mãe, você está confundindo ele com ele mesmo. O Otávio mora na mesma cidade que o Otávio, mas isso não é coincidência, é porque eles são a mesma pessoa. Aliás, acho que eles sempre foram a mesma pessoa. Não tenho certeza, mas, se você quiser, eu posso perguntar isso a ele no domingo.

(Neste momento, eu PUDE ver a expressão de “este programa executou uma operação ilegal e será fechado” no rosto dela.)

– Ah, então é o Otávio que vem para São Paulo?

– Não, mãe. Não é “então é o Otávio que vem para São Paulo”. Sempre foi o Otávio. Desde o começo da ligação.

– Ah, entendi. Bom, mande um beijo para ele.

– Para quem? Para o Otávio? Ou para o Otávio?

– Rob!

– Beijos, mãe.

– Beijos.

15 de janeiro de 2009

Rapidinhas

Ah, sim. Antes de voltar à programação normal, algumas informações adicionais.

Após insistentes pedidos e milhões de cartas recebidas, resolvi aderir ao Twitter, como alguns leitores mais atentos já perceberam. Vamos ver se pego gosto pela coisa.

No post anterior, conclamei os leitores a votarem no Champ como Melhor Blog na categoria "Internet e Tecnologia" do Tchananã Awards, do site Judão (você já votou, certo? Como assim, "não"?). Bem, não se esqueçam também de votar no SOS Hollywood do camarada Barretão como Melhor Blog do Judão Blogs, na categoria "Egocentrismo".

Sra. Gordon de blog novo. Eu sei que o antigo blog durou apenas alguns posts, mas ela teve que trocar o endereço por motivos pessoais (e altamente plausíveis). Este parece que será definitivo. Para quem não sabe, a Sra. Gordon é uma espécie de Rob Gordon de saias (e, obviamente, muito mais bonita que eu): ou seja, se vocês gostam do que lêem aqui, irão adorar o que ela escreve por lá. Ah sim, se o layout do blog mudar a cada vez que você entrar, não reparem. Ela é assim mesmo. Divirtam-se!

Piada interna do dia:

Por fim, já que mencionei o Judão, gostaria de deixar clara a minha repúdia em relação ao texto publicado no site sobre Watchmen. Na matéria, o autor (Borbs, gente finíssima) menciona que um jornalista conhecido como Ricardo Rigotti disse a ele que "a abertura de Watchmen é o melhor filme de super-heróis da história". O interessante é que o texto no Judão foi publicado depois de eu ter escrito isso aqui no Champ. Como o Borbs é uma pessoa íntegra e jamais cometeria plágio, acredito que esse tal de Ricardo Rigotti, o qual não conheço, simplesmente leu isso aqui no Champ e se apropriou deste meu comentário. Vagabundo. Estou mobilizando o departamento jurídico do blog para resolver isso, quem sabe, por meio de processo – se for necessário. Jornalista é tudo uma merda mesmo. Ô Raça.

12 de janeiro de 2009

Ah, Blogosfera...

Não sei se vocês viram, mas a edição do prêmio Best Blogs Brasil (ao qual o Champ foi indicado a Melhor Blog e Melhor Blog Pessoal / Cotidiano) fez jus ao próprio nome e “virou Brasil”, como diz meu pai, quando quer se referir a algo que virou uma zona – e eu adoro essa expressão.

Enfim, eu estava aguardando o fim da votação para me manifestar a respeito do concurso, mas, devido aos últimos acontecimentos...

Antes de mais nada, quero agradecer a todos os que votaram no Champ, nas duas categorias. Eu não tinha a menor pretensão de ganhar (especialmente concorrendo com blogs feitos por equipes ou celebridades. Sério, fiquei feliz demais por ser eleito finalista, ainda mais em duas categorias), mas também não esperava receber tantos votos quanto obtive. Mesmo. O apoio de vocês é extremamente importante, não para ganhar prêmios, mas sim para eu continuar escrevendo. Quer dizer, eu continuaria de qualquer jeito, mas, com vocês elogiando, escrevo com mais tesão... Enfim, vocês entenderam.

E o voto de cada um de vocês significa demais para mim, especialmente “competindo” com blogs de qualidade absurda, como o do Max. Sei que vai parecer que estou pedindo confete, mas é verdade: eu recebo elogios que jamais imaginaria receber desde quando criei este blog, o que me faz gostar cada vez mais dele, e cada vez mais de escrever para vocês, que estão aí desse lado da tela. E, não, eu não acredito em todos os elogios. Uma vez eu virei para o Tyler – que é um cara que deixou de ser companheiro de blog e virou amigo – e perguntei se “vem cá, meu blog é bom assim mesmo, como as pessoas dizem?”.

E ele respondeu que sim.

E eu continuei não acreditando.

Ou, ao menos, não acreditando em todos elogios. Olho muitos blogs por aí que são, a meu ver, muito melhores que o meu, e, em alguns, ainda me dou ao luxo de pensar, enquanto leio: “Filho da puta! Por que EU não tive essa idéia?”.

O que estou tentando dizer aqui – e não sei se estou conseguindo – é que cada voto que recebi significa muito para mim. Sim. Cada um deles. Cada voto que recebi, cada elogio que vocês colocam aqui, me mostra que estou no caminho certo, com este blog. O caminho certo não é fama e fortuna. O caminho certo é gostar cada vez mais deste blog, e escrever cada vez mais com tesão – mas sempre duvidando de um ou outro elogio. E eu ainda vou criar coragem para escrever um post com os nomes de todos vocês.

Mas chega de demagogia. Vamos falar do concurso. Recentemente, um blog – que concorria comigo na categoria Melhor Blog – foi desclassificado. O motivo? Ele é um blog de mp3 ilegais. Ou seja, ele é contra as regras do concurso. Eu já tinha visto este blog entre os classificados, mas fiquei na minha – mesmo com todo mundo sabendo minha opinião sobre isso, e sobre o estrago que isso faz à imagem da blogosfera.

Na verdade, o concurso já havia enfrentado alguns problemas, pois qualquer pessoa com e-mail pode votar. Ou seja, deve ter gente que, na ânsia de ganhar, ficou a noite inteira criando e-mails fakes no Gmail e no Hotmail. Cria e-mail, vota; cria e-mail, vota. É correto? Não, não é. Vale? Vale, a regra não previu isso. Espero que no próximo ano coloquem CPF no cadastro. E, em momento algum, culpo a organização do BBB por isso, o pessoal é esforçado, honesto (ao menos, parece), e o concurso está apenas no segundo ano. Justamente por isso que espero com mais ansiedade as "notas dos jurados" - afinal, eu jamais ganharia de blogs que tem mais colunistas do que eu tenho de leitores.

Mas não é menosprezar o concurso, pelo contrário. Gosto de pensar que eu fiz o meu melhor (e ainda estou fazendo), mas eles fizeram melhor que eu. Logo, os prêmios aos vencedores, que ainda não conhecidos, são mais que merecidos.

Mas algo que me deixaria com vergonha é participar de um concurso que aponta, como Melhor Blog, um blog de downloads. Se você tem um blog de downloads e está lendo isso, pode se ofender à vontade. A partir do momento que você oferece músicas que não são suas em seu blog, eu posso apresentar opiniões que são minhas no meu blog.

Felizmente, este blog foi eliminado da disputa.

Agora, o mais divertido é que, pelo que tenho visto, o dono deste blog está inconformado com isso e ameaçou, inclusive, processar os organizadores. Sério, não é sacanagem minha. Agora, me digam... Por que isso? É porque a sua reputação como dono de blog ficou manchada? Ah, me poupe, você não tem um blog, você tem um apanhado de links. Agora, processar? Advogado? Tribunal?

Parem o mundo que eu quero descer.

Não tem como ser mais ridículo. Tudo bem, as pessoas querem ganhar o prêmio – eu queria também, claro – mas partir daí para um processo? Se você é o dono do blog em questão, me responda uma coisa. Você já ouvir falar em sexo? Bom, se você tem um blog, você tem acesso a internet, logo, você já deve ter ouvido falar. Mas você costuma fazer sexo? Mantém parceiros freqüentes? Sua vida sexual é ativa? Aliás, falando em vida, você tem uma? Tem emprego, estuda, pratica alguma atividade? Porque, se sua vida é o seu blog, parabéns: você acabou de pagar o maior mico de 2009 na blogosfera brasileira – e olhe que ainda estamos em janeiro.

Às vezes, dá vergonha de ter um blog e ser “colega” de gente assim. Quando será que as pessoas vão parar de criar blogs simplesmente para se tornarem a próxima celebridade da internet? “Mas o meu blog tem dez vezes mais acessos que o seu”. Ok. Quantidade não é qualidade. Olhe o nível dos leitores que tenho e depois olhe o nível dos leitores que você... Bem, olhe o seu nível.

Agora vai brincar com as outras crianças e deixe os adultos conversarem.

Gente, ter um blog é um tesão. Se você costuma vir para cá e não tem blog, crie um (viu, Varotto?). Se tiver vergonha do que escreve, não divulgue. Logo você perde essa timidez e estará louco para ter mais e mais gente lendo o que você escreve. Agora, não se esqueça que seu blog faz parte da sua vida, e não o contrário. E, se um dia você ameaçar processar alguém por causa de um concurso de Melhor Blog, acho que é hora de começar a repensar sua vida. Sua VIDA, não seu blog.

Afinal, é apenas um blog.

Posto isso, venho fazer algumas campanhas descaradamente aqui, na última semana de votação do BBB (e isso vale para quem votou em mim ou não), indicando os blogs amigos do Champ que estão na disputa:

Vote Nossa Via (blog do qual o Max participa) na categoria Arte e Cultura
Vote NoGhetto na categoria GLBT
Vote Capinaremos na categoria Humor
Vote Visão Panorâmica na categoria Política
Vote TecnoZilla na categoria Tecnologia
Todos blogs acima são excelentes, e, mais importante que isso, são trabalhos de blogueiros de primeira linha.

E, em notícia relacionada, o Champ foi indicado a Melhor Blog (pelo segundo ano consecutivo) no Tchananã Awards do site Judão – como alguns leitores (é o caso da Luna) já falaram nos comentários do último post. Obviamente, venho pedir mais votos para vocês. Basta entrar aqui e descer até a categoria Internet & Tecnologia, e escolher o Champ como melhor blog (a enquete aceita um voto por computador).

No próximo post voltaremos à programação normal.
Update: se o dono de algum blog de download quiser me processar por causa deste post, leia e releia com cuidado, porque talvez eu tenha colocado o telefone do meu advogado escondido no texto. Se você é um leitor freqüente, ou alguém que caiu aqui de pára-quedas, não preciso me preocupar, porque sei que você tem o bom senso de ir fazer outra coisa da vida. Afinal, você TEM uma vida.

8 de janeiro de 2009

Quem Vigia os Vigilantes?

Acabei de voltar de uma sessão “exclusiva” (aspas bem grandes, porque mais de 100 jornalistas estavam presentes) da Paramount, que exibiu cerca de 40 minutos do novo Star Trek e de Watchmen.

Vou tentar comentar um pouco do que eu vi, porque estou sem palavras a exemplo do que aconteceu em meados de 2001, quando foram exibidos 35 minutos de O Senhor dos Anéis.

Star Trek – para quem não sabe, a idéia de J. J. Abrams é restartar a franquia. Assim, temos novos atores interpretando Kirk, Spock McCoy e companhia bela, numa história que promete colocar a marca no século 21 – com toneladas de cenas de ação e efeitos especiais a dar com pau – tornando-a mais atraente para as novas gerações. O grande problema será vencer a barreira de ver novos rostos em personagens clássicos. Isso será bastante difícil. Mas, superando essa barreira, parece ser um ótimo filme. Ainda não sei se um ótimo filme de Star Trek, mas um ótimo filme.

Sim, chorei quando o Spock original apareceu.

Watchmen – Eu não sei como começar a contar para vocês. Vamos contar primeiro o que vi. Foram três cenas: a introdução (a morte do Comediante, que é a cena que abre tanto o filme como a HQ) e os créditos de abertura ; dr. Manhattan em Marte; Coruja e Espectral invadindo a prisão para libertar Rorscharch; e um trailer do filme. Ainda não digeri tudo o que assisti, mas vamos lá: os créditos de (ao som de The Times They A-Changin’, de Bob Dylan) é o melhor filme baseado numa história em quadrinhos de todos os tempos.

Sim, somente a abertura de Watchmen é melhor que Batman – O Cavaleiro das Trevas e Homem-Aranha 2.

As outras seqüências são impressionantes. Achei a luta que resulta na morte do Comediante um pouco exagerada, mas logo me acostumei com ela. Em compensação, o visual retrô (a história se passa nos anos 80), especialmente na cena na prisão, chega a ser impressionante. Ele não é ofensivo como aquelas bostas que vemos na Trash 80’s; é discreto, sutil, mas visível. E as cenas de ação deixam claro que trata-se de um filme de Zack Snyder, com bastante câmera lenta, mas sem enjoar (exatamente a exemplo do que ele fez em 300). Poucas pessoas usam este recurso como ele hoje, e ele usa isso apenas para colocar você dentro da história em quadrinhos original – ele chega a reproduzir fielmente algumas ilustrações durante as cenas em que vi.

Resumindo, saí do cinema com a sensação de que Batman – O Cavaleiro das Trevas é um filme feito há pelo menos três anos atrás.

E o trailer – que não será veiculado nos cinemas, sendo mostrado apenas nesta exibição – deixa claro que, mesmo tendo visto 40 minutos do filme, eu ainda não vi nada. Sinceramente, vocês não perdem por esperar. A não ser que uma catástrofe aconteça, daqui a um ano veremos o filme encabeçando as listas de melhores filmes de 2009.

Watchmen é leitura obrigatória para fãs de quadrinhos. O filme será também. Podem apostar.

7 de janeiro de 2009

Desconstruindo Carochinha

De acordo com o leitor Anônimo que postou um comentário no meu último post – além de ainda comprar brigas com os demais leitores – meu diálogo com o moleque da Taii foi mentira. “Fake”, foi a palavra que ele usou.

Fiquei pensando sobre isso estes dias. Será que o Carochinha (desculpe, cara, mas a partir de agora este será seu apelido – você realmente não deveria ter postado seus comentários de forma anônima) tem razão? Acredito que não, porque eu realmente me lembro de manter aquela conversa com o sujeito.

Mas, como dizem que o cliente sempre tem razão, vamos estudar o caso dele com cuidado. Em primeiro lugar, a palavra “fake” não diz qual parte do post é mentira, então sou obrigado a pressupor que o post inteiro é mentiroso.

E isso inclui a parte que diz “”saio da minha casa e, assim que coloco os pés na Teodoro Sampaio”. Ou seja, podemos deduzir que eu não moro perto da Teodoro Sampaio. Logo, eu não moro em Pinheiros.

É tudo uma mentira minha.

Agora, o interessante sobre a idéia de eu não morar em Pinheiros e ter mentido todo este tempo é que este fato simplesmente anula outros posts nos quais eu também contei a mesma mentira, como são os casos, entre outros, de Só um Minuto, Coisas da Vida VII, Aerotrem, A Soma de Todos os Medos, Al Pacino e a Jaqueta de Couro, Aral contra Dudinka, Infernal Affairs, Do Pó ao Pó, Notícia Extraordinária II, Mr. Greenstone, Pequeno Interlúdio Canino, Animal Planet, Mussarela & Salame, Péps e Água e A Besta-Fera de Blair, além das séries Jim Morrison e o Maníaco do Táxi, Meeting Tyler Bazz, Pague para Comprar, Reze para Sair, Suicide is Painless e 25 Horas - Guia de Episódios.

Tudo mentira.

Ok. Vamos brincar um pouco em cima disso.

Por exemplo, se o post Notícia Extraordinária II é uma mentira, sinal de que não há uma Besta-Fera. Isso, consequentemente, transforma os posts Shake it, Baby, Shake it, Post Diarinho, Contagem Regressiva, Na Lona, A Lista de Schindler Gordon, Pequeno Interlúdio Canino, A Besta-Fera de Blair, Crônica de uma Morte Estúpida, Vida (Mansa) após a Morte (o que anula também a existência do Jonas, transformando Pequeno Incendiário Amoroso em mentira, o que, por sua vez, transforma meu namoro em mentira, anulando, assim muitos posts, entre eles o Lá e de Volta Outra Vez - Um Conto Hobbit), Until it Sleeps, Message in a Bottle, e Lord of the Rice (o que é uma boa notícia, porque então eu sei fazer arroz).


Por outro lado, se eu não moro em Pinheiros, o Pão de Açúcar ao lado de casa não existe, o que anula a saga O Último dos Moicanos e o post Rob Gordon X Ursinho da Johnson's, além de me poupar do constrangimento visto em Carta Aberta aos Donos de Supermercados. Nem a padaria, transformando a saga das Carolinas em uma grande mentira em três partes e o Bigode, coitado, fruto da minha imaginação. Aliás, como não é difícil eu falar que moro e trabalho em Pinheiros – e isso também deve ser mentira – eu também não trabalho aqui. Aliás, é seguro afirma que nem jornalista eu sou.

Logo, podemos concluir que Certa Manhã, no Inferno, 366, A Era (sem Graça) do Gelo e Ó-Ká também são grandes mentiras minhas. Aliás, eu nem incomodo mesmo com o fato de A Era (Sem Graça) do Gelo ser mentira, porque como Lord of The Rice -como visto acima - também é mentira, eu aprendi a fazer arroz enquanto escrevo este post, onde fui desmascarado. Então, Ok (pronuncia-se "óquei", porque "ó-ká" é mentira, não se esqueçam).

Claro que eu poderia escrever um post muito maior, ligando todos os meus textos aqui e deixando claro que é tudo mentira, mas uma das minhas resoluções de Ano Novo é cuidar mais de mim - e isso inclui não dar mais de meia hora de Ibope para pessoas como você.

Mas, se te serve de consolo, eu te dou um empurrãozinho aqui, e aí você continua por conta própria. Se eu não moro em Pinheiros, não namoro, sei fazer arroz, não sou jornalista, não tenho cachorro, não divido apartamento com um fantasma, podemos admitir, então, que não existe síndica também; que eu não gosto de heavy metal, nem de cinema ou quadrinhos; que nunca fui a nenhum show na vida. É só ir ligando um post ao outro que vocês vão descobrir que é tudo mentira da minha parte.

Palmas para o Carochinha, que me desmascarou impiedosamente.

Mas o mais impressionante é que como o post Meeting Tyler Bazz também não existe (afinal, eu não moro nem trabalho em Pinheiros, lembram-se?), ele também não existe. Sim, eu também inventei o Tyler. Aliás, se o Blog do Tyler não existe mas está linkado aqui no meu blog, podemos concluir que absolutamente todos os outros blogs aqui não existem são mentiras minhas. E vocês caíram direitinho.

Puxa, Carocha, você é um gênio!

Você conseguiu provar que a única coisa verdadeira no meu blog é o meu nome: Rob Gordon - coincidentemente, o único elemento do meu blog que É ficção. Parabéns, tapado.

Aliás, Carochinha, me enganei. Nem todo o blog é mentira. Sobrou um post que é verdade. E sugiro que o leia: é este aqui. Aliás, para você poupar tempo, sugiro que leia apenas os últimos cinco parágrafos, mais um PS especial que deixei para você ali.

Divirta-se. E, depois, gostaria muito de não ter mais notícias suas.

Obrigado.

5 de janeiro de 2009

Rob Gordon X Atendente da Taii - Round Único

Se existe algo que me incomoda mais que operadores de telemarketing são aqueles moleques da Taii que ficam na porta dos bancos Itaú, tentando convencer as pessoas na rua a fazerem o cartão deles. Toda vez que eu vejo um daqueles coletes laranja no meu caminho, atravesso a rua, ou saco o celular do bolso e passo por eles fingindo que estou falando com alguém.

O problema é que às vezes você simplesmente não consegue fugir deles – aí, o segredo é você usar o mesmo truque básico que uso com operadores de telemarketing, que consiste em não permitir que o sujeito fale (e deixá-lo cada vez mais confuso). Foi o que aconteceu hoje. Primeiro dia de trabalho no ano. Saio da minha casa e, assim que coloco os pés na Teodoro, um desses moleques simplesmente se materializa ao meu lado, sem me dar chance de escapar.

– Bom dia, senhor. Tudo bom?

Ele estendeu a mão. Eu parei, olhei para ele com calma e apertei sua a mão.

– Tudo bem e com você?

– Tudo. O senhor já conhece...

– Como foi de Ano Novo?, eu interrompi, ainda sem largar a mão dele.

– Foi tudo bem. E o do senhor?

– Foi ótimo, graças a Deus, obrigado. E a família, está tudo bem?

Ele tentou puxar a mão. Eu não deixei.

– Sim. O senhor gostaria de fazer o cartão...

– Todo mundo com saúde? Porque o que importa é saúde. O resto a gente corre atrás, mas sem saúde não dá para ficar.

– É... Sim.

– Que bom. E agora, de volta ao trabalho, certo? Ano novo, vida nova. Começa a correria de novo.

Ele puxou a mão e eu soltei.

– E o senhor não gostaria de fazer o cartão Taii hoje?

Ou seja, ele percebeu que eu não o deixaria fazer a maldita pergunta de jeito nenhum e resolveu me ignorar, indo direto ao assunto.

Mas eu estava pronto para isso também.

– Olhe, hoje não dá, porque estou com pressa. Se a gente não tivesse ficado conversado antes, até daria. Mas agora estou um pouco atrasado.

– Mas, senhor...

– Não, realmente não dá. Olhe, mais uma vez, bom ano novo para você! Tudo de bom! Muita paz e sucesso!

– Senhor...

– Tchau!

Chupa, Taii!

Post relacionado:

Plantão Médico

2 de janeiro de 2009

A Lista de Schindler Gordon

Meu prédio está sofrendo com ataques de pernilongos. Em quase todas as noites da última semana fui obrigado a me levantar no meio da madrugada, acender a luz e ficar estraçalhando mosquitos, enquanto a Besta-Fera se escondia embaixo da cama, para não ser incomodado e continuar dormindo. Aí, no dia seguinte, tenho que ficar limpando as marcas de sangue das paredes – marcas nojentas da batalha da noite anterior. Em algumas manhãs, a impressão que tenho é que foi cometida uma chacina dentro do meu quarto. Para se ter uma idéia, se o Grissom entrasse aqui, ele teria que ligar para a central dez minutos depois e pedir para trazerem todo o Luminol que tivessem estocado.

E esta tem sido minha rotina nos últimos dias.

Entretanto, os pernilongos não têm incomodado apenas a mim, mas também aos outros moradores do prédio. E isso inclui minha síndica Brick Top. E incomodar minha síndica não é algo muito inteligente de se fazer. Talvez os mosquitos tenham achado que, por serem pequenos demais para serem jogados aos porcos selvagens que ela cria na sauna, estariam a salvo da ira dela.

Ledo engano.

Quarta-feira, último dia do ano. Estou entrando no prédio, no meio da tarde, e encontro minha síndica e mais três moradores conversando no hall de entrada. Antes mesmo de me aproximar deles, reparei que ela segurava um objeto de plástico branco nas mãos. Conforme fui me aproximando, vi que o negócio parecia uma raquete de tênis de brinquedo – mais ou menos como aquela raquete que as pessoas colocam o controle do Wii, para jogar tênis.

Passei rapidamente por eles, e fiquei esperando pelo elevador, que estava no 14º andar. Obviamente, foi inevitável ouvir trechos da conversa.

– ISSO AQUI NÃO FAZ SUJEIRA, disse minha síndica, com seu característico tom de voz gélido.

– Mas funciona mesmo?, perguntou um dos moradores.

– SIM. EU TESTEI ONTEM, NA MINHA CASA. OLHEM, ALI ESTÁ UM. VOU MOSTRAR A VOCÊS.

Não agüentei e virei para trás, tanto por curiosidade como por receio de que ela estivesse falando de mim. Felizmente, ela estava andando na direção contrária de onde eu estava, olhando para o alto. Após caminhar uns três metros, ela ergueu a raquete, como se fosse sacar uma bola imaginária e deu uma violenta raquetada no ar.

CRAC!

Demorei alguns momentos para perceber que ela não tinha quebrado nada com a raquete e sim que o barulho tinha saído do objeto. Ela olhou para os moradores com ar de satisfação e disse:

– VIRAM?

Eles não responderam. Percebendo que precisavam de uma demonstração mais eficiente, ela olhou para o chão, procurando por algo próximo aos seus pés. Subitamente, abaixou e pegou algo com as mãos.

– O MOSQUITO ESTÁ MORTO. FOI ELETROCUTADO.

Os três moradores sorriram e balançaram a cabeça uns para os outros. Foi aí que percebi que aquilo não era uma mini-reunião de condomínio, mas um conselho de guerra. Aparentemente, no jogo de War que o prédio vem travando com os moradores, minha síndica tirou, na hora do sorteio dos objetivos, a carta “Eliminar os exércitos voadores”.

Graças a Deus, meu elevador chegou e entrei correndo nele.

De lá para cá, não matei mais nenhum mosquito. Pelo contrário, mudei de lado e me tornei uma espécie de Oskar Schindler dos pernilongos. Estou oferecendo asilo a todos os mosquitos que aceitem ficar somente na minha varanda e não me picar. E ainda estou escrevendo uma carta para as autoridades, informando que crimes de guerra – que claramente ferem a Convenção de Genebra – vêm sendo cometidos no meu condomínio.

Espero que o seu Ano Novo tenha começado de forma menos violenta que o meu. E são os votos deste blog que você tenha um 2009 muito melhor que o dos mosquitos do meu prédio. Se bem que isso não parece ser muito difícil.