31 de dezembro de 2009

Top 5 2009 - Posts

Como vocês devem ter reparado, este ano os Top 5 de Livros e Quadrinhos foram unificados. Isso porque eu li muito menos do que gostaria em 2009, por diversos motivos, sendo o principal deles a falta de tempo.

Por outro lado, 2009 talvez seja o primeiro ano da minha vida em que eu mais escrevi que li, o que é algo que me enche de orgulho. Assim, creio que é o momento certo de completar os 5 Top 5 do ano com uma novidade: meus cinco textos mais importantes dos últimos 12 meses.

Evidentemente, a lista não é definitiva. Eu gosto de todos os meus posts - sim, tem textos meus que não gosto, mas estes eu não publico - e fica extremamente difícil escolher apenas cinco. E isso mesmo deixando o Chronicles de fora (afinal, lá seria muito mais complicado, já que os textos ali são baseados justamente em como me sinto, e cada um deles tem um significado totalmente especial para mim).

Mesmo assim, resolvi arriscar. Vamos, então, a eles - que, se não são os meus cinco preferidos ou que mais significam para mim, são alguns dos que mais gosto.

5. Sexo, Viu?
Durante anos, pensei em colocar essa história no blog, mas sempre mudava de idéia na última hora, achando que ela não seria tão interessante assim. Às vezes, é delicioso estar errado. O post é elogiado até hoje, por leitores que começam a ler os arquivos do Champ e caem ali. Assim, aprendi a confiar um pouco mais nos meus instintos, prestando mais atenção ao meu redor em busca de piadas e situações que merecem virar textos.

4. A Jornada do Herói
Aparentemente, se eu não colocasse este texto no Top 5 do ano, eu seria linchado, já que muita gente disse que é a melhor coisa que escrevi. Sinceramente? Não sei se concordo, mas confesso que me diverti muito escrevendo. E, um segredo de bastidores: o post nasceu quando abri o armário para pegar café e vi que tinha um Toddynho esquecido lá dentro. Na mesma hora, pensei: “será que isso vira post?”. E cheguei a conclusão que não, que não viraria. A não ser, claro, que eu achasse uma forma original de contar a história. Deu no que deu.

3. Marcha para Vitória
Eu sei, muita gente detesta o “continua...” das sagas, mas, às vezes, é inevitável. Especialmente nesse caso, quando os seis textos juntos teriam quase o tamanho de um romance. Enfim, se existe uma viagem que define o meu ano de 2009, foi esta, para Vitória, que teve direito a tudo. Curioso é que tudo o que vocês sentiram lendo – ao menos, pelo que pude perceber – eu senti escrevendo, desde as gargalhadas nos mesmos trechos à frustração nos momentos frustrantes. E, apesar de grandioso, com seis partes, confusões, desencontros, tem algumas das passagens mais pessoais que escrevi no blog, num texto que, teoricamente, deveria ser apenas engraçado.

2. Eu, Eu Mesmo e o Blog
Junto com Amor nos Tempos do Cólera (que, acreditem, não é exatamente sobre o meu cachorro), foi um dos textos emocionalmente mais difíceis de escrever, apesar de (ou melhor, justamente por isso) ser extremamente pessoal. Mas quem entra é o mais recente dos dois, por estar mais próximo de como estou quando faço esta lista. Se as pessoas que dizem que eu me entrego totalmente a cada texto que coloco ali estão corretas, saibam que tem alguns textos que, depois de escrever, é difícil demais sair do texto, mesmo depois de postar. E é por isso que ele entra aqui: além de significar muito para mim, eu ainda estou totalmente dentro dele.

1. Apocalypse Now
Não sei onde eu estava com a cabeça quando pedi que os leitores enviassem sugestões de como o mundo acabaria para que eu costurasse tudo. Quando os primeiros comentários com sugestões começaram a chegar, eu surtei: “como vou enfiar isso num texto?”. Assim, comecei a separar tudo por grupos, com temas parecidos, para começar a organizar melhor as idéias. Foi um dos maiores desafios que tive em termos de produção de texto (em muitos momentos, pensei “não adianta, não vai dar”). Por outro lado, foi extremamente divertido escrevê-lo. E recompensador, pois é um texto que eu tenho o orgulho de dividir a criação inteira com vocês, quebrando a regra que dita que o relacionamento entre escritor e leitores precisa ser de mão única.

Top 5 2009 - Livros & Quadrinhos

5. Pockets Star Wars
Um dos motivos que comecei a ler pockets em inglês foi ir atrás das dezenas de livros de Star Wars que jamais sairiam no Brasil e que mostram o quanto o universo criado por George Lucas é rico. Assim, mergulhei nisso, lendo muita coisa que queria ler há anos, mas não havia conseguido. E dois, especialmente, me marcaram demais: a saga X-Wing, ambientada pouco depois de O Retorno de Jedi, e a saga de Darth Bane, que narra a história de um Lorde Sith cinco mil anos antes dos filmes. Não tem como ser mais pop, nem delicioso.


4. Watchmen – Ed. Def.
Com a estréia do filme, é evidente que a maior história em quadrinhos de todos os tempos (qualquer coisa criada por Will Eisner não concorre) ganharia um relançamento especial. E ele veio, com um preço salgado (algo em torno de R$ 120,00 na versão capa dura), mas que vale cada centavo. Não há muito o que dizer sobre a trama. Tudo já foi dito. Mas é algo que todo organismo vertebrado precisa ter dentro de casa. Sugestão mais que obrigatória.



3. Bibliotecas Históricas Marvel
Continuam saindo regularmente, com as primeiras histórias de alguns dos maiores super-heróis dos quadrinhos. E ganharam o reforço dos seus correspondentes da DC Comics (Batman Crônicas, Lanterna Verde Crônicas etc). O preço também é salgado, com valores girando entre R$ 50,00 e R$ 70,00, mas com acabamento de luxo. Agora, o que espanta é o conteúdo. São histórias mais inocentes e com mais aventuras que as intricadas e complexas tramas atuais. E, mesmo assim, são muito superiores, em termos de narrativas a quase tudo que se faz hoje em dia.


2. Watch you Bleed
Ainda não foi lançada no Brasil esta biografia do Guns N’ Roses, provavelmente o melhor trabalho escrito sobre o grupo. Sem papas na língua, o texto acompanha toda a história da banda, desde seu surgimento em Los Angeles (quando, além de tocar, traficavam drogas e mulheres), passando pelo auge e inevitável decadência, com drogas e ataques de prima dona de Axl Rose. Leia com acompanhamento médico, pois o livro tem mais substâncias proibidas que muitas cidades da Colômbia – para se ter uma idéia, um capítulo descreve como Slash ficou clinicamente morto por quase dez minutos num corredor de hotel, devido a uma overdose.


1. Easy Riders, Raging Bulls
Batizado no Brasil de Como a Geração Sexo, Drogas e Rock’n’Roll salvou Hollywood (que é o subtítulo do original americano), este livro mostra os bastidores da década de 70 no cinema americano. É uma das melhores coisas que li na vida, mas, ao mesmo tempo, uma das piores, pois mostra que a maioria das pessoas que cresci admirando (Francis Ford Coppola, Robert Altman, Martin Scorsese, por exemplo) não apenas são pessoas comuns, mas, sim, completamente detestáveis (e dignos de desprezo) em muitos momentos.

Top 5 2009 - Séries

5. Jornada nas Estrelas - A Série Clássica
Com a estréia do novo filme e com a compra do meu aparelho de Blu-ray, redescobri Jornada nas Estrelas, especialmente a Série Clássica. E, sim, A Nova Geração é uma série infinitamente superior em termos de enredo, mas a Série Clássica tem uma magia que nunca mais foi repetida. Especialmente a segunda temporada, quando praticamente todos os episódios são clássicos e mostram que, para se fazer ficção científica de qualidade, não é preciso efeitos especiais milionários, mas, sim, cérebro.



4. Battlestar Galactica
Ficção científica de primeira qualidade, que eu, confesso, comecei a ver de forma tardia. Mas é sensacional, com roteiros que misturam ação, religião – e, claro, FC - da melhor maneira possível. Mas está longe de ser para qualquer um, é inteligente demais, com personagens muito bem desenvolvidos. E foge dos padrões atuais, sem se preocupar em explicar tudo de forma mastigada para os espectadores, o que é mais que louvável.



3. The Big Bang Theory
Apesar de achar a primeira temporada superior, continua excelente, especialmente nas referências ao mundo nerd. Sheldon é, indiscutivelmente, um dos melhores personagens da televisão, mas infelizmente os produtores descobriram isso e ele passou a ser o alicerce de todos os episódios, o que deixa as coisas um pouco repetitivas. Mas, independente disso, continua com roteiros afiados e com ótimas piadas, valendo muito a pena.


2. The Office
Enquanto The Big Bang Theory cresce em audiência, The Office cresce em qualidade. É, em minha opinião, a melhor e mais inovadora série de comédia do momento (mesmo sendo remake de uma produção inglesa). Com sua narrativa mockumentary, simulando um reality show, e o talento do elenco liderado por Steve Carrell, a série parece não perder o fôlego nunca. Pelo contrário, melhora a cada temporada.


1. Supernatural
A única grande série de terror da atualidade ganhou contornos de grande produção recentemente. Ao invés de colocar os irmãos Sam e Dean apenas caçando fantasmas e monstros, os roteiros deram um salto, criando uma enorme guerra entre Céu e Inferno, com a dupla no meio do fogo cruzado entre anjos e demônios. O grande problema é que ela cresceu tanto que dificilmente conseguirá superar isso. Mas a quarta temporada foi genial, devo ter visto em menos de uma semana.

Top 5 2009 - Música


5. Blues
Eu sei, não é algo novo, e nem algo referente a 2009. Mas foi extremamente importante no meu 2009. Nunca ouvi tanto blues como neste ano, e aprendi muito – sobre mim – com isso. Qualquer hora, até escreverei um post sobre isso. Enfim, pouca gente traduziu o que sinto em termos de música, neste momento da minha vida, como John Lee Hooker (na foto), Muddy Waters e B. B. King. Se você não conhece, nunca ouviu, uma dica: são as pessoas que Eric Clapton venera. E isso deve valer alguma coisa, não?



4. Flight 666
Como nem apenas de blues vive um Rob Gordon, meu ano, evidentemente, teve muito heavy metal, como acontece desde os 14 anos. E o novo documentário sobre o Iron Maiden, mais precisamente sobre a mais recente turnê, é um primor dentro do gênero – não apenas para quem é fã, como para quem apenas gosta de música. Em poucos minutos, você se sente parte da equipe da banda, com imagens de bastidores mostradas da forma mais sincera possível. E, de quebra, tem uma música (Heaven can Wait) filmada em São Paulo, no show em que eu estava. Só isso já valeria o preço do disco, para mim.




3. The Beatles
O relançamento de todos os discos dos Beatles, remasterizados, marcou meu ano – e meu saldo bancário, já que eu só parei de comprar quando tinha todos os 14 em casa. Mas, sejamos sinceros, não tem muito o que dizer sobre Beatles, especialmente algo que não tenha sido dito ainda. Assim, vou ficar com uma frase de um amigo, que sintetizou bem: “Beatles não é rock. Alias, nem música é. Aquilo é um patrimônio da humanidade”. Eu não diria melhor.




4. Show do Kiss
É cafona? Muito. Musicalmente falando, é genial? Não, longe disso. Mas, é somente assistindo a um show do Kiss que você descobre qual é a verdadeira força da banda. Na verdade, da empresa, pois aquilo deixou de ser uma banda faz tempo. Entretanto, por trás da máquina de fazer dinheiro, está um dos maiores grupos de hard rock de todos os tempos, que tem, como finalidade, entreter o público por duas horas. E isso, eles fazem como poucos.



1. Show do AC/DC
O último show que faltava para eu completar minha lista de “bands to see” da vida, foi um dos maiores e melhores que vi em toda a minha vida. A banda esbanja carisma em cima do palco, e, com poucos minutos de show, tem a platéia nas mãos. São sucessos atrás de sucessos, clássicos atrás de clássicos, tocados com garra, como se a banda estivesse lutando para gravar seu primeiro disco. E isso, claro, sem falar que tem uma pessoa chamada Angus Young correndo pelo palco, uma imagem que significa muito para qualquer pessoa que goste de rock.

Top 5 2009 - Cinema


5. Avatar
Num ano particularmente fraco, Avatar consegue seu lugar na lista mais pelo aspecto visual, com a grande revolução que apresenta, que pela história. Mas isso não é demérito da trama, e sim decorrente do fato de que é impossível colocar o aspecto técnico em segundo plano. Quanto à trama, está longe de ser a repetição de clichês que muita gente vem apontando, com aventura, romance e comédia – e uma grande mensagem ecológica – muito bem dosadas. Além disso, para aqueles que insistem que o filme não traz nada de novo em termos de enredo, deixo uma pergunta: quanto foi a última vez que o cinema trouxe algo de novo neste sentido?





4. Up – Altas Aventuras
Hoje, está mais que claro porque as animações da Fox (A Era do Gelo) e DreamWorks (Shrek) brigam apenas pelo segundo lugar na preferência do público. Afinal, a Pixar elevou o gênero a outro patamar, com histórias maduras e passagens inesquecíveis. Enquanto os outros estúdios fazem animações, a Pixar faz filmes que, por coincidência, são animações. Este aqui é um dos melhores, nem tanto pelo visual magnífico, mas pelo personagem central, um velhinho resmungão que se mantém fiel aos sonhos de sua esposa, mesmo após a morte dela. Mais que uma aventura, é um filme magistral sobre solidão.





3. Gran Torino
Passou despercebido pelo Oscar, assim, teve uma carreira mais modesta do que deveria no cinema. Mas é um dos grandes filmes do ano – e entraria fácil num Top 5 Clint Eastwood. Assisti duas vezes e chorei de soluçar, nas duas, com a história do solitário durão (num papel que resume totalmente a carreira de Clint como ator) que assume, mesmo sem ter vontade disso, o papel de pai do jovem vizinho imigrante – assim como Up – Altas Aventuras, é um filme que explora a solidão de forma impecável. Aliás, coloque uma roupa de cowboy em Clint e troque os imigrantes por índios, e você tem o melhor western da década.




2. Star Trek
A releitura de J. J. Abrams para o universo criado por Gene Roddenberry sintetiza tudo o que George Lucas deveria ter feito em Episódio I de Star Wars, mas não conseguiu. Traçando a origem dos personagens centrais, Abrams criou uma obra que atraiu milhões de neófitos e, ao mesmo tempo, emocionou os fãs – eu chorava feito uma criança em todas as cenas com Leonard Nimoy. Para dizer que o filme não é perfeito, faltou um pouco mais de espaço ao personagem do Dr. McCoy. De resto, é perfeito.





1. Watchmen
A melhor história em quadrinhos de todos os tempos na opinião de dez entre dez fãs do assunto ganhou uma adaptação madura e corajosa nas mãos de Zakk Snyder. Com um visual estilizado, o longa tem um final diferente da trama original, mas o que importa é que a essência da idéia de Alan Moore continua toda ali. Forte candidato a cult, deve, no futuro, ser reconhecido para a sua época como Blade Runner é para os anos 80.

30 de dezembro de 2009

Eu, Eu Mesmo e o Blog

Eu sempre achei engraçada a relação que eu tenho com meus blogs.

Eu até já comentei isso antes por aqui. Quanto mais eu estou cansado de escrever, no trabalho, mais escrevo no blog. Quando estou estressado, preocupado, de saco cheio de algo, desconto aqui. Conto histórias, engraçadas ou não, e me divirto escrevendo, talvez mais até do que quem lê. Isso aqui sempre foi minha grande terapia. É onde eu amarro as pontas soltas, é onde eu coloco muita coisa para fora, é onde eu desabafo... E, sobretudo, é onde eu brinco. Este blog é o meu canto. E, claro, o Chronicles também, ao seu modo.

Mas, de uns tempos para cá, o que tem chamado minha atenção é o inverso. Ou seja, a relação que os blogs têm comigo. Talvez isso tenha acontecido devido ao Twitter, que me dá um contato mais direto com os leitores. Não sei. Mas isso definitivamente tem feito com que eu pensasse no assunto.

Sabe, eu recebo muitos elogios pelos textos que publico no blog. Seja aqui no blog mesmo, seja por Twitter. Mas, às vezes, eu me surpreendo com a quantidade e intensidade dos elogios que recebo aqui. Leio e fico (muito) feliz com cada um deles, mas fico surpreso. De verdade. “Este texto está genial”. “De onde você tira essas idéias?”. “Como você consegue escrever assim?”. Dou muito valor, muito valor mesmo, a cada um deles. Mas, pelo menos em alguns momentos, talvez eu não veja as coisas como vocês.

O mesmo acontece pessoalmente, quando saio com amigos que lêem meu blog. Alguns deles brincam comigo, dizem que sou pop e que virei celebridade na internet. Bobagem. Isso está longe de acontecer. Sim, tenho meu punhado de leitores, mas não consigo ver o Champ como um blog pop, hypado. Aliás, vou confessar aqui a vocês: para mim, o Champ não é pop, ele é cult. Pouca gente conhece, mas (felizmente) quem conhece, parece gostar muito dele. Ou seja, eu também não vejo a coisa do modo que dizem.

(Interlúdio: mas eu brinco com isso também, a ponto de olhar, às vezes, para o meu cachorro, e dizer: "você faz idéia do número de fãs que você tem na internet?")

E não estou pedindo confete não. Não estou aqui com a intenção de fazer vocês capricharem mais nos elogios, comentarem mais, ou mudarem os comentários. Nada disso. Porque o problema não está em vocês ou nos seus comentários – que, ressalto, são maravilhosos a ponto de eu jamais conseguir agradecer do jeito que eles merecem. Mas, como disse acima, me surpreendo muito com eles.

Também não estou dizendo a vocês que acho meu blog ruim ou meus textos fracos. Se existe algo que eu aprendi com vocês ao longo desses anos é que eu sei contar uma história, ao menos de forma razoável. Mas o problema é que me questiono muito e me cobro muito. O tempo todo. Sobre tudo. E o meu “sobre tudo”, claro, inclui o blog.

Falando em termos gerais (leia-se “vida”) eu estou sempre me questionando se estou no caminho certo, se estou fazendo as coisas de forma correta. Claro que faço uma ou outra merda, pois sou da opinião que ninguém é feliz de verdade sem fazer um punhado de merdas na vida.

Agora, quanto ao blog, eu me cobro demais para atender às expectativas de vocês, porque faz tempo que eu percebi que vocês entram aqui esperando por um texto minimamente bom. Os próprios elogios que recebo me servem de motivação para sempre caprichar cada vez mais no próximo texto. Nem sempre eu acerto, claro, mas gosto de pensar que o melhor texto que escrevi sempre é o próximo que vou escrever.

Assim, tento fazer sempre o melhor possível em cada texto. Confesso tenho meus truques para isso (qualquer dia eu conto alguns deles aqui, se vocês quiserem), mas talvez muitos deles não sejam conscientes. Explico: na maioria dos casos, eu apenas sento e escrevo.

E justamente é por isso que a maioria dos elogios que recebo – especialmente vindo de pessoas que não me conhecem pessoalmente e não tem motivo nenhum para me agradar – me surpreendem. Apenas um exemplo: conversando com amigos que também escrevem, às vezes eu solto coisas como “estão falando nos comentários que o texto X é o melhor que fiz na vida, mas eu não achei que ele ficou tudo isso, não. Você não acha que ele poderia ser melhor neste ou naquele trecho?”.

Estou falando tudo isso porque, estes dias, eu recebi um comentário que mexeu demais comigo. Foi no Twitter, feito por uma leitora nova do blog, sobre um post que publiquei no Chronicles. O comentário dela continha uma frase pequena sobre o que texto havia significado para ela, mas terminava com três simples palavras.

Obrigada por escrever”.

Não foi a primeira vez que eu recebi algo assim por um texto. Já haviam dito isso no próprio blog, algumas vezes. E poucas coisas mexem comigo dessa forma. Por dois motivos: o primeiro é que diferente de um “seu texto é sensacional” ou de “você escreve bem demais”, eu não tenho escolha sobre acreditar ou não. Ela não está me elogiando. Ela está agradecendo por algo que sentiu lendo meu texto. E eu não tenho o direito de acreditar que ela está mentindo.

Se você já está bocejando, fique atento, pois é agora que as coisas que eu disse acima vão começar a se encaixar.

O segundo motivo é mais importante. Tentei de todas as formas possíveis mostrar, neste post, que eu escrevo pensando muito em qualidade de texto. Mas, de uns tempos para cá, eu tenho sido egoísta e escrito muito para e sobre mim, ainda que eu não esteja nos textos (entendeu o que eu quis dizer com “este blog é meu canto”?).

Ainda penso na qualidade do texto, mas tenho escrito para mim.

Tem sido uma necessidade emocional.

O ano – especialmente o final dele – não foi dos melhores para mim (mãe e pai: não precisam fica preocupados, está tudo bem). Foi muito bagunçado, muita coisa fora de lugar, tudo muito corrido, sem tempo de começar a arrumar as coisas. E é por isso que tenho escrito muito, e escrito muito para mim, especialmente nos últimos dias. Ou seja, não estou contando histórias, estou desabafando – às vezes em forma de histórias ou não.

Estou tentando, na verdade, achar respostas para uma tonelada de fichas que estão caindo na cabeça, por meio destes textos. Enquanto escrevo, penso sobre mim, sobre minha vida, sobre decisões que tomei, seja hoje de manhã ou meses atrás.

Em poucas palavras, estou falando o que sinto e o que penso. Quem me conhece percebeu que os últimos textos foram muito mais pessoais e reflexivos que o habitual. E querem um segredo? Da mesma forma que eu já gargalhei enquanto escrevia um post, com um determinado diálogo ou passagem, eu também já chorei muito escrevendo aqui. E adoro as duas situações, são sinais de que o texto – seja ele engraçado ou sério – está fazendo bem a mim.

E, no momento que aquilo que você sente e pensa faz diferença na vida de alguém que nem te conhece, a ponto da pessoa simplesmente agradecer por você ter colocado aquilo tudo para fora, dizendo que aquilo fez alguma diferença na vida dela... Bem, talvez eu esteja no caminho certo a respeito das coisas que penso. E, principalmente, das coisas que sinto, na forma que sinto. Ou, ao menos, de algumas delas.

Não estou falando do blog, estou falando de mim – se bem que, nos últimos dias, eu e o blog somos quase a mesma pessoa. E é justamente por isso que este “obrigada por escrever” teve tanto peso para mim, nesta fase de textos mais pessoais.

Porque a pessoa pode estar agradecendo pelo texto, mas, mesmo sem saber, ela está agradecendo por eu ser, pensar e sentir exatamente da forma que sou, penso e sinto.

E isso é algo que não tem preço.

Assim, o mínimo que posso fazer é retribuir o agradecimento, e o estendendo a todos os demais leitores: Obrigado. E não estou agradecendo por vocês lerem o que escrevo, ou pelos elogios. É um pouco mais importante.

Obrigado por fazerem com que eu tenha sempre (e cada vez mais) tesão de escrever.

Feliz ano novo. A todos nós.

27 de dezembro de 2009

Lágrimas na Chuva

Acabei de sair do Pão de Açúcar, fui comprar algumas coisas para casa. Evidente que quando eu estava lá dentro começou a chover. Tempestade mesmo. O pessoal lá de cima adora fazer essas coisas comigo. Assim, paguei minhas compras e saí do mercado, parando na porta – na verdade, um pedaço da calçada que é coberto, ao lado da entrada da loja – e acendi um cigarro, segurando as sacolas.

Estava decidindo se era melhor esperar a chuva diminuir ou se valia a pena eu começar a voltar para casa, andando sob as coberturas das lojas da Teodoro.

Foi quando vi um velho ao meu lado.

Na verdade, eu não vi, eu apenas percebi que ele estava ali. Foi apenas quando olhei diretamente para ele que vi que era um velho, e, apesar de não estar todo imundo ou rasgado, claramente morava na rua. Estava de costas para mim, fazendo alguma coisa na parede.

Não sei se foi o instinto de jornalista – nem sei se tenho isso, na verdade – ou de blogueiro, mas me aproximei, pensando em contorná-lo e ver o que ele estava fazendo na parede. A impressão que eu tinha é que ele estava desenhando algo no muro do mercado. A chuva começou a apertar. Passei ao redor dele, desviando de outras pessoas na calçada e olhei o que ele estava fazendo.

Ele estava com um toco de carvão entre os dedos, rabiscando um nome de mulher.

Sabe quando o tempo congela? Foi o que aconteceu ali comigo.

Provavelmente, eu sentia a chuva caindo nas minhas costas, mas não dei a mínima para isso. A Teodoro Sampaio continuava viva: ônibus e carros subiam na direção das Clínicas, pessoas andavam pela calçada. E eu não conseguia tirar os olhos daquele sujeito de idade, encurvado, escrevendo um nome na parede do mercado, a menos de dois passos de mim.

Quem me conhece – ou lê este blog faz tempo – sabe que eu olho para as pessoas na rua e vejo personagens de crônicas. Fico tentando imaginar o passado deles, como eles chegaram até ali, quem elas são. E isso, sim, é instintivo, eu não controlo. E eu não queria ter feito isso com esse velho.

De repente, anos da vida desse sujeito passaram na frente dos meus olhos: conheceu a dona do nome, se apaixonou perdidamente. Mas o relacionamento não deu certo, apesar do amor que ele sentia por ela, e ele foi chutado. Sem saber como viver sem ela (e aposto que ele disse isso a ela em algum momento, porque quem ama dessa forma diz isso) foi para a rua, começou a beber, perdeu tudo o que tinha.

Só não perdeu as memórias que tinha dela, o amor que sente e, talvez, um fiapo de esperança de que um dia ela volte.

Agora, ele vive na rua, refugiado – ou melhor, escondido – dentro de um mundo particular, cujo nome é o nome dela.

Deve sonhar com ela todas as noites, entre uma garrafa de cachaça e outra, balbuciando coisas como “eu te amo”, “me perdoa”, “volte para mim”. Vive desesperado e ansioso para tocar o rosto dela mais uma vez. Daria tudo o que lhe resta (e com certeza tudo o que já teve um dia) em troca disso, sem pestanejar. Provavelmente, poucas pessoas amaram na vida como o velho do carvão amou a mulher do nome na parede.

E a recompensa que ele ganha por esse amor? Passar o resto dos dias escrevendo o nome dela, no meio da rua, talvez tentando se sentir mais próximo (leia-se: menos distante) dela.

Fim de ano y otras cositas más... Eu não ando muito bem. Ao menos, não o suficiente para lidar com isso. Meus olhos embaraçaram e a garganta apertou.

De repente, uma das coisas que entra no Top 5 Coisas Tristes, “envelhecer sozinho”, havia se materializado na minha frente. De repente, todas as histórias de amor impossíveis e perda que eu ouvi falar haviam se materializado na minha frente. De repente, a frase "amor maior que a vida" se materializou na minha frente.

De repente, eu comecei a chorar. Não agüentei.

Fugi dali na mesma hora. Enfiei-me no meio dos ônibus, levando meus olhos molhados para baixo da chuva. Entrei em casa, carregando as sacolas, ainda abalado. Ainda pensando, e me perguntando o motivo da vida simplesmente não ser um pouco mais justa para algumas pessoas. Porque a vida não pode ser justa para uma pessoa que decide... não, melhor, que se permite amar outra desse jeito, com essa intensidade?

E não sei o que é pior. O fato de que a chuva provavelmente já apagou o nome dela do muro, ou o fato de que ele vai escrever mais uma vez e mais uma vez e mais uma vez.

Até morrer, literalmente, de saudade, anônimo, em alguma calçada qualquer.

E ela, a dona do nome rabiscado na parede, nem vai ficar sabendo disso.

24 de dezembro de 2009

Ho! Ho! Ho!

Para aqueles que não acreditam em Papai Noel – especialmente para aqueles que acham que estão velho demais para isso –uma notícia: ele existe. Alliás, ele não apenas existe, como mora comigo.


Cabelos brancos? Check.
Barba Branca? Check.
Gordo? Check.
Pele rosada? Check (não dá para ver na foto, mas é "check", acreditem).

Então, lembre-se que o Espírito de Natal pode não estar onde você espera, mas certamente estará onde você estiver.

Que o seu natal seja repleto de comidas, bebidas e presentes. E paz também – se bem que é difícil não encontrar paz com os ingredientes acima.

Estes são os votos da Besta-Fera e de todo o blog Championship Vinyl.

23 de dezembro de 2009

A Jornada do Herói

Dia 104
Escuridão completa. Não sei onde estou. Não sei quem sou.

Dia 107
Acordei novamente. Tudo continua escuro. Enquanto dormia, tive a impressão de ver luz em determinados momentos, mas não tenho certeza.

Dia 110
Gostaria de saber quem sou. Consigo apenas sentir que minha forma é quadrilátera. Tentei me mexer e ouvi barulhos de líquidos dentro de mim. Mas o que mais intriga é um órgão preso na parte externa do meu corpo.

Dia 111
Vi a luz hoje pela manhã. Descobri que estou numa espécie de caverna. A porta se abriu e uma criatura bípede, careca e gordinha, pegou alguma coisa aqui dentro. Felizmente, ele não me viu. Outra criatura, quadrúpede e peluda, estava aos pés dele. Também não me viu.

Dia 113
Flashs de memória estão pipocando em minha mente. Lembro de estar ao lado de centenas de seres iguais a mim, e ser arrancado de lá. Lembro de ser trancado aqui dentro. Mas não sei há quanto tempo estou aqui, ainda é tudo muito nublado.

Dia 114
O bípede veio aqui novamente esta manhã. Pegou alguma coisa e fechou a caverna novamente. O quadrúpede não estava perto. Assim que a porta fechou, ouvi um trovão, fez a caverna mexer. Agora sei que não era um trovão, era a voz do bípede, gritando: “pára de mexer no lixo, Porra!”. Presumo que ele estava falando com o quadrúpede. Seu nome deve ser Porra. O que será lixo?

Dia 117
Descobri minha identidade. Tive sonhos esta noite que me revelaram toda a verdade. Sou um Toddynho, arrancado de sua aldeia e do convívio com os irmãos e trazido para cá como prisioneiro, meses atrás. Aparentemente, sou o único organismo pensante nesta caverna. Isto me deixa com duas alternativas: ou estou preso em um depósito, ou estou aqui há tanto tempo que sofri uma espécie de mutação e adquiri consciência. Independente disso, terei minha vingança.

Dia 118
A teoria sobre minha identidade se confirmou hoje. A porta da caverna foi aberta hoje de manhã, e o bípede ficou olhando aqui para dentro. Não havia sinal do Porra. Em determinado momento, ele olhou fixamente para mim. Novamente, sua voz soou como um trovão, quando ele disse: “Esse Toddynho ainda está aqui?”. Fechou a porta e passei o resto do dia na escuridão.

Dia 120
Hoje não houve movimento aqui. Tirei o dia para tentar me mover. Passei horas concentrando esforços nisso, e consegui me mover cerca de três centímetros, na direção de um vidro com pó preto, e a inscrição Nescafé. Tentei chamar sua atenção, mas fui ignorado. Mais uma teoria provada: sou a única criatura consciente neste local. Mas o que importa é que consegui me mover. Este é o primeiro passo no caminho da vingança.

Dia 122
Estou me movendo cada vez mais. Consigo caminhar para a frente e para trás. Mas ainda não identifiquei o que é aquele órgão externo que possuo. Sei apenas que ele é branco, pois vi meu reflexo numa superfície prateada aqui ao lado, hoje de manhã, quando o Bípede abriu a porta, com o Porra aos seus pés. Aliás, pelo que pude deduzir da conversa que eles estavam tendo, o nome do Bípede é Au. Ao menos, foi assim que o Porra o chamou.

Dia 123
Ouvindo as conversas entre Au e Porra, descobri que o nome da caverna onde estou é Armário. Nome estranho para uma prisão. Pensei, num primeiro momento, que, por causa do nome, eu poderia encontrar armas aqui dentro, mas não encontrei nada. Amanhã vou investigar melhor o local.

Dia 124
Hoje foi um dia histórico, descobri diversas coisas. Percorrendo a caverna, percebi que este local é formado por diversos níveis. Mas realmente sou a única criatura pensante aqui dentro, acompanhado apenas de objetos inanimados. Tive certa dificuldade em pular de um nível para o outro, mas descobri que existem armas aqui dentro. Peguei uma faca e a trouxe para o meu local de origem. Deixei-a escondida atrás do pobre Nescafé. Passei o resto do dia explorando o local, e, quando já havia mapeado tudo (são cinco níveis), voltei ao meu local de origem. Não quero levantar suspeitas.

Dia 126
Estou em choque. Hoje, pela manhã, a porta do armário foi aberta e Au colocou diversas coisas aqui dentro, provavelmente espólios de outras aldeias. Acredito que ele e Porra sejam dois conquistadores. Para minha surpresa, trouxeram um de meus irmãos, que foi colocado ao meu lado. Assim que a porta se fechou, tentei falar com ele, mas não tive resposta. Isso abrirá caminho para eu descobrir o mistério sobre minha origem. Preciso esperar uns dias para descobrir se ele está morto ou não. Vou adiar meus planos de vingança. Eu preciso saber.

Dia 129
Meu irmão continua inerte, mas seu corpo não apresenta sinais de decomposição. Logo, ele não está morto. Ele é inanimado. Isso me deixa com a certeza de que eu era assim também, até desenvolver consciência. Eu sou diferente entre os da minha espécie. Sou uma espécie de Messias. Sou o Escolhido. E minha missão é derrotar os implacáveis Au e Porra, libertando os Toddynhos de sua tirania. Depois, guiarei meu povo até a Terra Prometida.

Dia 130
Estou me preparando para o ataque. Consigo me mover em todos os sentidos, com agilidade. Analisando meu irmão, descobri que o órgão externo do meu corpo é feito de plástico branco. Pelo que deduzi lendo as inscrições em seu corpo, o nome desse órgão é canudo. Talvez seja algo voltado para defesa. Uma espécie de arma. Aposto que se eu enfiar o canudo no olho de Au, consigo cegá-lo momentaneamente. Estou em dúvida, agora, se uso o canudo ou faca.

Dia 132
Estou pronto para a vingança. Decidi usar o canudo e a faca. Assim que a porta da caverna se abrir, atacarei. Primeiro, destruirei Au. Aí, partirei em busca de Porra e o eliminarei impiedosamente. Voltarei para meu posto, resgatarei meu irmão e iniciarei minha jornada de volta à aldeia em que cresci. Encontrarei um jeito de despertar meus imãos e os treinarei na arte de combate. Aos poucos, montaremos um império, conquistando territórios ao nosso redor. Hoje, o armário. Amanhã, o mundo. E, enquanto eu estiver vivo, jamais outro Toddynho será feito prisioneiro. Uma nova realidade no mundo dos Toddynhos começará no momento em que este armário se abrir.

*********************************

O trecho a seguir foi extraído do livro Toddynho - A História de uma Civilização – Vol. 3: Idade do Canudo Lascado (editora Toddy Ativa, 4ª edição, páginas 122 – 123):


"Séculos após a descoberta do diário escrito pelo Messias por arqueólogos nas ruínas de uma civilização humana, o diálogo a seguir foi recuperado nos arquivos de um blog chamado Championship Vinyl. Estudiosos acreditam que o texto seja da autoria da criatura conhecida como Au (que, presume-se ser um humano, já que estes acontecimentos ocorrem antes da extinção desta espécie), e que estas tenham sido as últimas frases ouvidas pelo Messias, em seu 132º dia de vida.

Infelizmente, os registros das respostas emitidas pela humana chamada Mãe foram perdidos. Apenas as frases proferidas pela criatura conhecida como Au foram recuperadas, e indicam o provável fim do Messias.

– Mãe? Tudo bom?

(Mãe responde)

– Foi você que tinha comprado um Toddynho e deixado aqui?

(Mãe responde)

– Tudo bem, não importa se você havia comprado isso meses atrás. O ponto não é esse.

(Mãe responde)

– Então, ele caiu aqui e explodiu. Como eu limpo isso? Com Veja?

(Mãe responde)

– Não, mãe, eu não fiz nada. Eu só abri o armário, ele caiu sozinho!

(Mãe responde)

– Mãe, eu estou falando, eu não encostei na merda do Toddynho, eu vim pegar caf.. Pára de lamber o Toddynho, Porra! Esta merda já deve estar podre!

(Mãe responde)

– Mãe, por favor. É com Veja que eu limpo?

(Mãe responde)

– Ok. É só isso que eu precisava saber. Eu me viro aqui.

(Mãe responde)

– Tudo bem, você não precisa nunca mais comprar Toddynho para mim quando vier para cá.

(Mãe responde)

– Mãe, deixe eu desligar, preciso limpar isso aqui, está um nojo! Tem Toddynho na cozinha inteira! PORRA, PÁRA DE MEXER NESTA MERDA! VAI PARA A SALA!

(Mãe responde)

– Um beijo, Mãe!

(Mãe responde)

– Ok, Mãe. Eu preciso desligar!

(Mãe responde)

– Beijo."

21 de dezembro de 2009

Rob Gordon X Tim - Ligações Perigosas

(este post é continuação direta deste aqui)

Pela primeira vez na minha vida – quiçá pela primeira vez na história do telemarketing mundial – a Tim me ligou.

Sim, você não leu errado. A Tim ME LIGOU. Foi agora de manhã.

Vale dizer que ontem, eu deveria ter recebido um protocolo para trocar meu chip, mas claro que não recebi nada. Assim, tinha planejado ligar lá depois do almoço e quebrar tudo.

Provavelmente, o sentido de Aranha deles disparou lá dentro. Alguém mais esperto deve ter percebido o risco que estavam correndo. Imagino um atendente correndo pelas mesas, com minha ficha na mão (minha ficha, imagino, deve ter um monte de anotações em caneta vermelha e repleta de pontos de exclamação) até o supervisor, e explicando que o protocolo não havia sido enviado.

- É melhor a gente fazer algo, eu já atendi essa pessoa. Ele não se cansa nunca, e, pior, às vezes ele começa a se divertir com as coisas. Ele vai acabar com nosso final de ano.

Assim, devem ter escolhido alguém mais novo na empresa, que ainda está empolgado com o trabalho, e jogaram no meio do batismo de fogo.

– Ligue para esse cara e explique isso a ele.

– Sim, senhor. Ligo no celular dele?

– Não, ele não está recebendo chamadas. Se a gente tentar e não conseguir, ele vai usar isso contra a gente o resto da vida. Ele nunca vai esquecer isso. Ligue na casa dele.

– Sim, senhor.

Assim, deixaram a menina quieta num canto, e ela ligou para mim. Em casa.

– Por favor, gostaria de falar com o senhor Gordon?

– Sou eu.

– Aqui é Próclises, da Tim. Estou ligando para conversar com o senhor a respeito do problema que o senhor vem encontrando no recebimento de chamadas.

– Próclises, é o seguinte. Toda vez que eu ligo para vocês, vocês pedem para eu confirmar o CPF. Hoje, como vocês estão me ligando, eu deveria pedir para você confirmar o CGC da sua empresa antes de começarmos a conversar. Mas eu acabei de acordar e estou com pressa. Então, provavelmente eu vou me arrepender disso pelo resto da vida, mas não vou pedir nada. Diga.

– O senhor ainda está com problemas em receber as ligações?

– Sim. É evidente. Tanto que você ligou para o meu telefone fixo. Aposto que você tentou ligar no celular antes.

– Não, senhor.

– Ok. Ainda estou com problemas. Estou com problemas com as ligações que recebo, e com problemas com vocês, que deveriam ter me enviado um protocolo para troca do chip e não enviaram.

– Senhor, nós acreditamos que o problema seja na rede, na sua área.

– Ah, na rede? Que surpresa. Eu jamais teria desconfiado disso.

– Sim, senhor. Na rede.

– Ou seja, você está me ligando para dizer que o problema é exatamente o que estou falando que é desde a primeira vez que liguei?

– Como, senhor?

– Nada, nada, nada. Continue.

– Preciso apenas checar se há algum problema na região do senhor, antes de continuarmos.

– Ok.

– O senhor pode confirmar o estado em que mora?

– Você acabou de ligar para minha casa e não sabe o estado em que moro?

– É apenas uma checagem, senhor.

– Agora, vem cá, você diz que o problema é na minha região, mas não sabe em que estado moro? Ou seja, por região, você não está falando meu bairro, você está falando de região mesmo, certo? Sudeste, Centro-Oeste... É isso?

– Senhor, preciso realmente do seu estado para...

– Ok. Anote aí, vou passar tudo e você vai eliminando as regiões. Universo. Via Láctea. Sistema Solar. Terra. América. Brasil. São Paulo. São Paulo. Pinheiros. Rua X. Número Y. Apartamento Z. Se for ajudar, eu estou na sala.

– Senhor, realmente há um problema na sua rede, na região de Pinheiros.

– Eu sabia! Porque vocês não me ouvem?

– O problema foi detectado agora, senhor.

– Sim, por vocês. Eu detectei 12 horas atrás.

– A Tim já está providenciando o conserto. Até o final do dia, a situação estará regularizada.

– Ontem me falaram que isso demoraria de três a cinco dias. Vocês contrataram mais gente agora de manhã?

– É o prazo que tenho, senhor.

– Ok. Mas fim do dia é algo muito vago. Mesmo porque o último “até o fim do dia” que eu recebi de você durou três dias. Eu quero um número.

– A previsão é até as 18 horas.

– Ok. Que horas são agora, pelo seu sistema?

– 12:53.

– Ok, estamos no mesmo fuso horário. Até as 18 horas, o problema estará resolvido?

– Sim, senhor.

– Você sabe que se isso não acontecer, eu vou ligar às 18:05, certo?

– Sim, senhor, mas pode ficar tranqüilo, o problema estará resolvido.

– Eu estou tranqüilo. Vocês têm que se preocupar, não eu.

– Sim, senhor.

– Que bom que vocês sabem disso. Passar bem.

– A Tim lhe deseja um bom dia.

– Resolva meu problema e deixe que eu me preocupo com o meu bom dia.

– Sim senhor.

– Adeus.

Rob Gordon X Tim - Uma(s) Chamada(s) Perdida(s)

(este post é sequência direta deste texto aqui, postado horas atrás)

– Tim, Ênclises, boa noite. Em que posso ajudá-lo?

– Eu vou passar o número do protocolo da minha última chamada. Puxe a ocorrência, leia com atenção. Depois disso, a gente conversa.

– Sim senhor, qual o protocolo?

– XYZ.

– Só um minuto.

– Ok.

– Aqui diz que o senhor está tendo problemas no recebimento de chamadas.

– Não, não. Não são problemas. É um problema só: eu não recebo as chamadas. Se eu começar a ter problemas recebendo as chamadas, é sinal de que eu estou recebendo, o que seria uma melhora perto do que está acontecendo.

– Na ocorrência diz que o senhor foi instruído a desabilitar o Serviço Siga-me para a Caixa Postal. O senhor fez isso?

– Na ocorrência diz que eu fiz isso sob protestos?

– Não, senhor.

– Bem, eu fiz. Veja bem, eu não trabalho com celulares, mas não sou uma mula tecnológica. Eu disse à menina que isso tem pinta de ser problema de rede, e ela insistiu que era com o Siga-me para a Caixa Postal. Ok, ela trabalha com isso, eu não. Vamos fazer o que ela quer. Aí, eu tentei desabilitar o serviço, como ela pediu.

– E deu certo?

– Não. Não consegui desabilitar.

– Qual a mensagem que aparece?

– “Serviço sem suporte de rede”. Ou seja, agora não é mais a minha palavra contra a dela, é a minha palavra e a palavra do meu celular contra a dela. E, se ela entende de telefonia móvel, meu celular também entende.

– Sim, senhor.

– Então, o problema não é com o Siga-me até a Caixa Postal. Sabe o que isso significa?

– Não, senhor.

– Que você vai me dar uma solução para o meu problema agora.

– Senhor, eu tenho duas alternativas.

– Ótimo. Eu adoro alternativas. Quais são?

– O senhor pode trocar seu chip. Mas eu também posso abrir uma ocorrência de rede.

– O que é uma ocorrência de rede?

– A Tim vai fazer uma verificação para ver se o problema está acontecendo com outras pessoas, e, aí, resolver o problema.

– Quer dizer então que o fato de o problema ser comigo não é suficiente? Tem que juntar mais pessoas? É um mutirão? Eu posso sair recrutando pessoas com esse problema para agilizar o processo?

– É apenas para identificar o problema, senhor.

– Mas você não precisa identificar o problema. Eu já identifiquei isso para vocês. O problema é que eu não recebo ligações. Esse é o problema. Está identificado.

– Senhor, esse é o procedimento padrão.

– Ok, ok. Quanto tempo isso demora?

– O prazo máximo é de cinco dias.

– Cinco dias?

– Cinco dias, senhor.

– Hã... Ênclises?

– Pois não, senhor?

– Você não deveria ter me dado um prazo mínimo, também?

– O prazo mínimo é de três dias.

– De três a cinco dias? Você sabe que tem um Natal no meio disso?

– Sim, senhor.

– Olhe, eu sei que vocês só recebem ligações profissionais aí, mas, aqui fora, as pessoas costumam conversar sobre outros assuntos. Eu não vou ficar sem celular no Natal. Você escolhe: ou eu tenho celular no natal, ou a Claro tem um cliente novo no Natal.

– Bem, senhor, temos outra alternativa, que é trocar seu chip. Pode ser a causa do problema.

– Ok. O que eu devo fazer?

– Eu vou gerar um protocolo para o senhor, o senhor vai até uma determinada loja da Tim e consegue um chip novo.

– Com o mesmo número?

– Com o mesmo número.

– E as informações que estão no meu chip? Existe alguma maneira de eu recuperar isso sem precisar digitar uma por uma?

– Sim, senhor, nós recuperamos. Basta ligar com o chip novo.

– Ok. Pode colocar aí que eu vou à loja do Shopping Ibirapuera. Mas eu não vou pegar fila na loja. Eu já peguei fila na ligação.

– Senhor, aí depende da loja. Não posso precisar se a loja indicada tem pronto-atendimento para isso.

– Ênclises, você conhece a loja da Tim do Shopping Ibirapuera?

– Não, senhor.

– Acredite em mim, aquilo é uma embaixada do inferno. Tem pessoas que estão lá há anos tentando ser atendidas. Eu não vou pegar a fila.

– Senhor, não posso fazer nada a respeito. Depende da administração da loja.

– Bom, mas você pode influenciá-los. Você não vai mandar um comunicado para a loja?

– Sim, senhor.

– Então, pronto. Coloque aí que eu sou cardíaco, não posso pegar fila.

– Senhor, eu realmente...

– Ah, ok. Bom, eu fico esperando o protocolo então.

– Será enviado para o senhor em alguns minutos.

– Ok.

– Algo mais?

– Não. Ainda não.

– A Tim agradece sua ligação, tenha uma boa noite.

– Eu também quero agradecer minhas ligações. Vamos ver se elas chegam.

– Como, senhor?

– Nada. Tchau.

20 de dezembro de 2009

Rob Gordon X Tim - A Batalha do Siga-Me

– Tim, Mesóclises, em que posso ajudá-lo?

– As pessoas não conseguem ligar para mim.

– Como assim, senhor?

– As pessoas ligam no meu telefone e a ligação cai na caixa postal.

– E tentaram ligar para o senhor?

– Não, não tentaram. Eu estou fazendo uma reclamação preventiva. É evidente que tentaram! E quando eu fiquei sabendo, tentei ligar do meu fixo para o celular, e deu caixa postal. Quero saber o que pode estar acontecendo.

– O senhor pode confirmar o seu nome completo e o número do CPF?

– O que isso vai modificar na causa do problema?

– É apenas por questão de segurança, senhor.

– Rob Gordon. XXX. XXX. XXX-XX.

– Só um minuto.

– Ok.

(...)

– Sr. Gordon?

– Pois não?

– O celular do senhor está ligado?

(suspiro)

– Senhor Gordon?

– Sim, está ligado.

– Eu estou testando a rede e não acusa problema nenhum.

– Bem, as pessoas estão testando o meu número de telefone e não acusa nada. Só a caixa postal.

– Entendo.

– Que bom. Porque eu não. Então, espero que você possa me explicar.

– Deve ser algum problema no serviço Siga-me para a Caixa Postal. O senhor precisa desativá-lo.

– Em primeiro lugar, eu não conheço esse serviço. Segundo, eu não ativei nada. E, como isso vem acontecendo a toda hora, se o problema for nesse serviço, ele está ativando e desativando sozinho. Logo, o problema é de vocês.

– O senhor não utiliza o recurso Siga-me para a Caixa Postal?

– Não, se eu quiser que a pessoa me siga até a caixa postal, eu desligarei o celular. Vai dar na mesma. Aí eu vou até a caixa postal e espero pela pessoa lá.

– Mesmo assim, eu quero que o senhor faça um teste. O senhor possui outro aparelho?

– Não.

– Que pena, o outro aparelho iria ajudar bastante.

– Bom, se você mandar outro aparelho e ele funcionar, ajudará muito. Aliás, resolverá o problema. Eu passo a usar ele.

– Bem, então eu vou pedir para o senhor desativar o serviço, caso ele esteja ativado. O número é #21#.

– Agora, partindo do princípio que eu nunca ativei isso, e isso acontece sempre com meu telefone, o que me garante que isso não vai acontecer novamente?

– É apenas um teste, senhor.

– Entendi. Vamos no tentativa-erro. E o problema não pode ser na rede de vocês?

– Aqui não acusa nada. É mais provável que seja algum problema com este serviço. Depois que o senhor fizer isso, se o problema não for consertado, peço que o senhor entre em contato com nós.

– Ok.

Desliguei o telefone, e disquei #21#. A resposta que tive? “Erro ao acessar a rede”.

Ô fase.

Curiosamente, o telefone voltou a receber chamadas dez minutos depois. Vou ficar testando o resto da noite. Ao primeiro sinal de caixa postal, alguém na Tim vai ter uma noite infernal.

A Vida é HD

O publicitário que criou, anos atrás, a propaganda do Sprite dizendo que “imagem não é nada” definitivamente não deve comprar um Blu-ray, especialmente se ele acredita nessa frase.

No sábado passado, comprei meus dois presentes de natal: uma TV Full HD e um Blu-ray. Na verdade, a idéia era comprar apenas a TV – já pensando na Copa do Mundo – mas não agüentei e coloquei o Blu-ray no pacote. Afinal, eu já sabia que alguns dos meus filmes de cabeceira – como O Poderoso Chefão, Três Homens em Conflito, O Poderoso Chefão, Coração Valente, O Poderoso Chefão e Fogo contra Fogo já haviam sido lançados no formato – decidi comprar tudo de uma vez.

Inclusive, o pessoal da TV Gazeta está fazendo uma reportagem sobre o assunto veio aqui em casa me entrevistar – me acharam no Twitter. Na verdade, não apenas me entrevistaram, mas fizeram quase um curta-metragem aqui, foi divertido. Deve ir ao ar essa semana, acho que no Jornal da Gazeta, então, aqueles que querem descobrir minha identidade secreta deixem a TV ligada aí.

E, agora, com alguns filmes em alta definição no currículo, posso dizer com certeza que imagem não é tudo, mas é uma parte bastante importante. Coração Valente parece um filme feito hoje. As sequências aéreas que focalizam as montanhas da Escócia são impressionantes, colocam você dentro da tela. Comprei também a trilogia Matrix, que funciona estupidamente bem no formato, especialmente a sequência da auto-estrada de Matrix Reloaded.

Mas o grande impacto mesmo fica com os filmes novos, que já são feitos com o Blu-ray em mente. Watchmen começa sem grandes choques visuais, mas da metade para a frente tem sequencias de tirar o fôlego. O Cavaleiro das Trevas simplesmente humilha nas tomadas aéreas de Gotham, que deixam a cidade quase como uma animação – a nitidez é tão grande que você tem o impulso de olhar para dentro de cada janela de cada prédio para ver o que está acontecendo lá dentro. Aliás, animações chegam a ser coisa de outro mundo: Up – Altas Aventuras tem cores que eu, até então, não conhecia.

Assim, eu redescobri o prazer de assistir a filmes em casa. Nos últimos anos, assisti a um ou outro, estava entregue às séries. Agora, com o Blu-ray, voltei ao meu ritual de assistir filmes, cultivado durante desde a adolescência. Claro que como os filmes são mais caros, dou uma economizada, e não saio assistindo a dois ou três por noite – com cerca de 20 anos, eu cheguei a assistir os quatro Aliens de uma tacada só; na metade do terceiro, eu já babava ácido. Tento me segurar em um por noite, no máximo.

Agora, o problema é que isso alterou um pouco o meu gosto por filmes. Estou aplicando agora a filosofia Vinicius de Moraes: “as feias que me desculpem, mas beleza é fundamental”. Assim, escolho meus filmes agora pensando também no visual, e não apenas na história, como sempre fiz.

Mas meus amigos mais chegados gostariam de saber que, mesmo com o Blu-ray em casa, algumas coisas não mudaram: se eu chego perto de qualquer coisa (DVD, Blu-ray ou até mesmo um poster de qualquer um dos dois Transformers ou de G. I. Joe), já começo a espirrar e tenho um pouco de febre. Mesmo com o Blu-ray, esses filmes não entram aqui. Claro que muita gente pode dizer que estes filmes foram feitos para serem assistidos num equipamento desses; e eu respondo que eu sei o quanto paguei na TV e no Blu-ray player, e não quero esses filmes envolvidos de forma nenhuma no meu aparelho. 2012 é outro caso; eu queria que ele fosse vendido a granel, assim, eu compraria somente as cenas de destruição.

E, aos poucos, vamos montando uma pequena Blu-rayteca aqui, mas com controle para não sair gastando os tubos. Por exemplo: Homem-Aranha 3. É evidente que eu vou comprar um dia – apesar da tenebrosa cena da dancinha, sou fã apaixonado do personagem – mas apenas quando a Sony lançar o 1 e o 2. Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal também, mas somente quando os três primeiros estiverem em lojas.

Mas, enquanto isso, vou me virando com o que tem no mercado – novamente, sempre com calma – e já sonhando com o lançamento de alguns filmes. Sendo assim, deixo vocês com o Top 5 Blu-rays que precisam ser lançados para eu ser feliz:

1. Trilogia O Senhor dos Anéis – e, por favor, que sejam as três versões do diretor.

2. Star Wars – Sim, isso inclui os Episódios I e II, paciência. O consolo é que como O Império Contra-Ataca ainda vale por uns quatro filmes, o pack com os seis compensa.

3. Era uma Vez no Oeste e Era uma Vez na América – junto com Três Homens em Conflito, forma a Santíssima Trindade de Sergio Leone, que precisa ser assistida por qualquer pessoa que quer entender o que é testosterona.

4. Quadrilogia Alien – Ou, ao menos, os dois primeiros: agora, eu quero babar ácido em alta definição. E nada daquilo de Alien vs. Predador – sejam sinceros, qualquer Alien sozinho come os alienígenas jamaicanos com farinha.

5. Jornada nas Estrelas – A Série Clássica – Se Star Wars é meu alfabeto de ficção e fantasia, Jornada nas Estrelas é minha gramática. Kirk, Spock... Ih... Já foi lançado? Fudeu.

18 de dezembro de 2009

Disque M(sn) para Incomodar

Eu sempre disse aqui no blog que minha vida telefônica não é fácil. Sempre. Podemos dizer que 85% das ligações telefônicas que recebo se dividem entre telemarketing e engano. OK, isso acontece com muita gente, mas as minhas ligações de telemarketing são as mais ridículas possíveis, enquanto os enganos chegam ao cúmulo do bizarro.

E isso é uma constante na minha vida. Se, no começo do blog, ligavam no meu celular o dia inteiro atrás da Natália, agora, é no telefone fixo de casa, atrás de uma Maria Cristina. É todo dia. Ontem, a coisa chegou à raia do absurdo: três ligações em uma hora. Uma delas foi particularmente notável – eu já estava particularmente irritado com isso, e a pessoa era particularmente cretina.

– Posso falar com a Maria Cristina?

– Não tem ninguém com esse nome aqui.

– Então ela não pode atender?

– Talvez ela possa. Mas, para isso, você precisa ligar no número correto e descobrir o que ela está fazendo.

– Mas ela mora aí?

– Não. É isso que estou tentando dizer. Ela não existe aqui. Esta casa é minha, e ela sempre foi desprovida de Marias Cristinas.

– Mesmo?

– Sim, mesmo. Confie em mim. Eu sempre dou uma olhada quando chego em casa, nunca vi nenhuma Maria Cristina guardada aqui.

– Ah, vou tentar de outro jeito, então.

– Ok.

E meus dias têm sido assim. Aliás, meus últimos anos têm sido assim. As pessoas não sabem usar telefone, e quem se ferra sou eu. Na verdade, não é apenas com ligações. Algum tempo atrás, achei que eu teria quebrado recordes desta categoria ao receber um sms de engano, e ter passado dois sendo seduzido por um homem que não conheço (se você nunca leu, estou falando desta série de posts aqui).

Mas, o conceito de “ô fase” é como o universo, está sempre se expandido. Assim, novas metas do quesito “transformar o dia em algo bizarro” foram estabelecidas. Agora, as pessoas anormais que me procuram não se restringem mais ao telefone ou ao celular. A bola da vez é o Messenger.

Dia desses, no começo da semana, eu estava correndo contra o relógio na redação, quando uma janela do meu Messenger pipocou.

Era um nick que nunca havia visto na vida. Abri a janela e vi que era um contato que não estava na minha lista. Bem, quem sabe é alguém de trabalho, pensei. Melhor responder.

Assim, para manter a fidelidade aos fatos, vou reproduzir o diálogo aqui:

Pérola diz:
Oi.

Rob Gordon diz:
Hã... Oi?

Pérola diz:
Tudo bom?

Rob Gordon diz:
Hã... Tudo. E com você?

Pérola diz:
Tudo. Peguei sua mensagem só agora.

Rob Gordon diz:
Posso fazer uma pergunta pessoal?

Pérola diz:
Sim.

Rob Gordon diz:
Que mensagem?

Pérola diz:
A que você me deixou no site.

Ron Gordon diz:
Que site?

Pérola diz:
Você não sabe quem sou?

Rob Gordon diz:
Olhe, que bom que você percebeu isso. Assim podemos avançar a conversa sem maiores constrangimentos. Quem é você?

Pérola diz:
Você deixou uma mensagem para mim no site.

Rob Gordon diz:
Ok. Essa parte eu já entendi. Qual site?

Pérola diz:
No Imatch.com

Rob Gordon:
Eu nunca ouvi falar desse site.

Pérola diz:
Mas você deixou uma mensagem lá para mim.

Rob Gordon:
Tem certeza? As chances são pequenas. Eu não conheço o site, e não conheço você. Aliás, como você se chama?

Pérola diz:
Pérola.

Rob Gordon:
Sim, mas o seu nome, qual é?

Pérola diz:
Pérola.

Deus. Estou falando com uma ostra.

Rob Gordon diz:
Bom, como é a mensagem que te mandei?

Pérola diz:
“Adorei suas fotos e queria te conhesser melhor. Vou estar na sua cidade entre os dias 20 e 22. Me adiciona no Msn rob_gordon@hotmail.com”

Ok. É o meu endereço no Msn. Alguém está de sacanagem comigo. Enfim, melhor copiar essa mensagem e guardar. Se esse caso for parar num tribunal, vou basear toda a minha defesa no fato de que eu jamais escreveria “conhecer” com “ss”.

Rob Gordon diz:
Bem, é meu endereço mesmo. Mas eu não mandei isso. E, sinceramente, não faço idéia de como você tem meu Msn. Eu nunca nem ouvi falar nesse site. Pelo nome, é um site de relacionamentos, certo? Eu não uso isso.

Pérola diz:
Ah, eu li uma reportagem na Veja e entrei.

Rob Gordon diz:
Não, não estou recriminando. Se você quer se cadastrar ali, sem problemas. Mas eu não tenho cadastro lá, porque eu fiquei sabendo da existência desse site apenas agora. Mas, voltando à mensagem que eu deixei para você: a não ser que você more em São Paulo, eu acho bem difícil estar na sua cidade no dia 20. Ao menos, eu não fui avisado de nada sobre ter que viajar.

Pérola diz:
Eu sou de Curitiba.

Rob Gordon diz:
É, como eu disse, não existe nada envolvendo meu nome e Curitiba. Nem projeto, nem planos. Nem mesmo uma frase envolvendo meu nome e Curitiba.

Pérola diz:
Poxa, não é você, então?

Rob Gordon diz:
Não. Quer dizer, eu sou eu, mas não sou quem você está pensando que sou. Sinto muito.

Pérola diz:
Poxa... De todas as mensagens que eu recebi ali, a sua era a mais simpática.

Pensei em dizer a ela que isso provaria matematicamente que a mensagem não era minha, já que eu nunca fui o mais simpático em lugar nenhum. Tem certos dias que se você me colocar num canil e uma semana depois eleger o mais simpático ali, eu ficaria em oitavo ou novo lugar, ganhando somente do pitbull com hidrofobia. Mas deixei quieto.

Rob Gordon diz:
Olhe... Tenho certeza de que suas fotos são bonitas, mas não fui eu que mandei a mensagem. E se eu começar a pensar sobre alguém mandar uma mensagem para você com meu Msn, vou enlouquecer aqui. Mas, resumindo: a mensagem não é minha. Eu não sou quem você está procurando.

Pérola diz:
Ah.

Rob Gordon diz:
É. “Ah”.

Pérola diz:
Bom... Estou saindo, então.

Rob Gordon:
Ok. Boa sorte, lá no site.

Pérola diz:
Posso só perguntar mais uma coisa?

Rob Gordon:
Sim.

Pérola diz:
Não é você mesmo? Você não mandou a mensagem e se arrependeu, ou resolveu brincar comigo? Pode falar a verdade, eu prefiro saber, mesmo que seja falta de respeito você fazer essas coisas. Mas eu prefiro ficar sabendo agora.

Rob Gordon diz:
Ok. Sinceramente?

Pérola diz:
Claro.

Rob Gordon diz:
Não, não sou eu.

Pérola diz:
Bom, estou saindo. Beijos.

Fechei a janela do Msn, acendi um cigarro e respirei fundo. Olhei para a janela, para o alto, na direção do céu, e perguntei em silêncio:

– Vamos abrir o jogo logo, pessoal? O que vocês estão aprontando?

14 de dezembro de 2009

Rob Gordon X Cachaça

Como minha família tem dado as caras aqui no blog em vários posts, tenho me lembrado de várias histórias. Talvez seja a proximidade com o Natal, que me deixa saudosista, mas tenho me lembrado de muita coisa do passado.

Assim como disse no post anterior – e em outras vezes – tive uma fase da minha vida meio negra, entre os 16 e 20 anos. Aliás, “negra” é a descrição ideal, já que eu só usava roupas dessa cor. Mas eu não era gótico, não se preocupem, eram apenas camisetas de bandas de rock – ou as “camisas do caveira”, como minha avó dizia.

E, foi nesta fase que a maioria dos meus vícios e pecados surgiu na minha vida. Um deles, como na maioria das pessoas desta idade, foi quando descobri a bebida. Claro que eu não era alcoólatra, bebia de farra mesmo, mas exagerava. Bastante. Hoje, felizmente, minha tara é jantar fora, e, como eu não bebo álcool enquanto como, sou bastante sossegado com isso.

Mas, sim, adoro um uísque e um chopp. O problema é que, naquela época, dadas as minhas posses de garoto de 16 anos, chopp era algo raro, íamos a barzinhos quando muito a cada, sei lá, dez, quinze dias. Uísque, então, só em propaganda na TV.

O que fazíamos era o seguinte: eu e mais meia dúzia de loucos juntávamos as moedas, comprávamos uma garrafa de Velho Barreiro, abríamos e bebíamos na calçada, mesmo. Não era questão de sabor, não era questão de estilo, era questão de ficar de fogo. E, ficávamos, é evidente. Afinal, estamos falando de um litro de pinga dividido por meia dúzia de moleques. Faça as contas, e o resultado será quatro vômitos e dois desmaios.

Mas isso me colocou em enrascadas. Sabe-se lá porque, eu tinha talento para coisa, então bebia mais que os outros. Some isso ao fato de eu ser eu, meus porres eram mais homéricos. E o problema é que, quando eu bebia, eu tinha visões. Às vezes, eu estava bêbado, jogado em alguma calçada, e avistava um espírito careca, de óculos e com cara de sono.

Nas poucas vezes em que o vi, achei que ele era extremamente parecido com meu pai.

E, nas vezes em que prestei realmente atenção, vi que a semelhança que ele tinha com meu pai era porque ele era realmente meu pai.

Explico: minha mãe acordava as três, quatro horas da manhã e via que eu não estava em casa. Olhava na frente da casa, e eu não estava na rua com meus amigos. Logo, a resposta era óbvia: “o imbecil está bêbado em algum canto”. Assim, ela acordava meu pai e o obrigava a cumprir o papel de homem da casa e ir resgatar o caçula embriagado.

Com isso, não era difícil, nas madrugadas de sexta e sábado, Moema ser assombrada pelo meu pai, que vagava pelo bairro vestindo calça jeans e a camisa de pijama, me procurando pelos bares e dormindo em pé. E ele percorria todos os bares que eu poderia estar (ele sabia que eu bebia somente nos bocas de porco, pois era amigo de todos os pedreiros e vigias de Moema).

Assim, ele me encontrava, mais cedo ou mais tarde, e me carregava para casa. O termo é esse: “carregava”. Ele ia andando e eu, ao lado dele, esbarrando nele e me esforçando para não cair na rua. E, claro, tomando esporro:

– Porra, você tem que beber tanto assim?

– Putxx, mal aí.

– Aí sua mãe fica uma onça comigo.

– Maxx porque com voxxê? Voxxê nem bebeu com a gente.

– E agora você está aí, caindo de bêbado!

– Voxxê devia beber com a gente. Voxxê é gente boa, pai!

Talvez isso tocasse no coração dele. Ou – o que é mais provável – ele devia ter passado por isso com o pai dele, então era compreensivo. Aliás, a grande vantagem da minha adolescência é que eu não tive pai, eu tive cúmplice. Porque, além de não encanar muito com isso, ele ainda livrava minha pele. Normalmente, quando estávamos entrando em casa, ele me chamava de canto e dizia:

– A sua mãe está na sala, feito uma fera. Para não piorar ainda mais sua situação, você entra na sala e nem olha para ela. Vai direto dormir. Deixa eu que limpo sua barra.

– Voxxê é foda. Valeu!

– Ok, agora entra e vai dormir.

– Camaradão, voxxê, pai!

– Cale a boca e entre. E não fale nada. Não olhe para ela.

E, às vezes, eu fazia realmente isso, e ele conseguia amansar a fera. Provavelmente, ficava na porta do meu quarto, segurando uma cadeira e um chicote, impedindo minha mãe de entrar ali e devorar minha alma.

Mas, como bêbado é uma merda, certa noite eu estraguei tudo.

Ele me deu as mesmas instruções de sempre (“não abre a boca, nem olha para ela, e vai para o seu quarto, dormir”).

E eu entrei em casa. Lá estava ela. Sentada no canto do sofá, fumando e me encarando com olhar de morte. Alguns demônios, de acordo com a mitologia, se alimentam de fúria. Se isso fosse verdade, minha mãe, em alguns momentos da minha vida, seria uma ceia de natal. Ela era um organismo de 1.50m formado de ódio maternal. Nesta noite, em especial, chovia. Mas apenas em cima dela. Com raios e trovões.

Ela fez a pergunta habitual:

– Onde o senhor estava?

Normalmente, eu responderia um “ah, com oxx caraxx, por aí” e iria para o meu quarto. Mas, desta vez, o álcool fez com que as instruções do meu pai fossem entendidas de forma errada. Ou, pior, entendidas ao pé da letra.

– Zeu não poxxo falá com voxxê, porque eu exxtou bêbado. Com-ple-ta-men-te bêbado. Então, meu pai dixxe para eu nem falar com voxxê. E é por ixxo que eu não vou falar nada. Para voxxê não ver que eu exxtou bêbado.

– Rob!

– Maxx voxxê não prexxixxa xxe preocupar. O meu pai ixxtá vindo aí, ele dixxe que vai limpar minha barra. Ele falou que xxegura a bronca.

– Rob!, ela gritou.

– Imbecil!, gritou meu pai, ainda fechando o portão.

– Ele tá xxó fexxando o portão, e vai entrar. E aí ele limpa minha barra, e ficamoxx tudo bem. Eu e voxxê, amigoxx de novo. Do caralho, exxe meu pai.

Lembram daqueles desenhos do Patolino, que ele engolia uma bomba? Minha mãe agia do mesmo jeito. Ficava vermelha e começava a sair fumaça das suas orelhas. Evidente que meu pai entrava correndo na sala e me enxotava dali (sob protestos de “não prexxixxa emputrrar, eu exxtou xxubindo”).

E, no dia seguinte, estava tudo bem. Não sei o que meu pai fazia, mas preciso me lembrar de perguntar isso para ele antes que meu filho nasça.

E, como pretendo ser cúmplice do meu filho, deixo, como exemplo, o Top 5 Piores Porres da Minha Vida:

1. Durante muito tempo, o recorde da minha faculdade era meu (e de um amigo): chegamos ao bar 11 da manhã e saímos de lá a 1 da manhã. Não sei como, mas saímos.

2. Numa festa junina na minha rua, 75% do meu corpo era formado de água. Os outros 25%, de vodka. E eu cismei de pular a fogueira: outro amigo meu, do outro lado da fogueira, teve a mesma idéia. O encontro dos corpos foi em cima da fogueira, eu e ele caímos no meio do fogo. Não sei como não morri queimado. Aliás, não sei como não explodi.

3. Outra vez na faculdade, estava no bar há horas e liguei para minha mãe, dizendo que não iria almoçar em casa, que ela não precisava me esperar. Ela respondeu “eu já almocei há algum tempo, são 21:30”.

4. Com quinze anos de idade, num dos meus primeiros porres, não sei como, caí em cima de uma pilha de sacos de lixo – sabe quando o lixeiro manda um emissário, antes, para juntar os sacos? – e me recusava a sair dali. Cismei com aquilo, achei legal. Se moleque é uma merda, moleque bêbado, então, é triste. Só saí minutos depois, quando meus amigos me puxaram dali (os lixeiros já estavam recolhendo os sacos). E ainda queria bater boca com o pessoal da Vega Sopave, porque os lixos eram meus.

5. Saí do casamento de um amigo e fui para um bar, encontrar outra turma. Evidentemente, já cheguei ruim. E, no bar, aproveitando que eu estava de terno, comecei a desfilar entre as mesas, rindo sozinho, falando que era a Coleção Outono-Inverno Rob Gordon.

E, em todas elas, rindo sozinho, claro. Afinal, sejamos sinceros: de nada adianta fazer algo na vida se você não tem a capacidade de rir sozinho. E como bêbado ri de qualquer coisa... Faça as contas.

13 de dezembro de 2009

Quatro Homens e um Novo Segredo - Parte Final

(leia a Parte II aqui)

Foi a segunda vez que o tempo parou naquela noite.

Não há necessidade de montar uma escala de tempo, como no post anterior, pois tudo aconteceu rápido demais, e somente dentro da minha mente.

Eu parei de correr e comecei a pensar nas minhas alternativas.

Se eu voltasse um metro para pegar a chave, as chances de eu de levar um tiro era enorme. Provavelmente, como o sujeito era profissional – ou, ao menos, recebia um salário para fazer o que faz –, seria na cabeça. Assim, a probabilidade de eu morrer era altíssima. Se eu fosse um time de futebol, os matemáticos dos jornais estimariam que eu tinha, naquele momento, menos de 5% de chance de não ser rebaixado –não para a Série B, mas para o inferno.

Por outro lado, se eu continuasse correndo, escaparia com vida. Mas escaparia para quê? Para chegar em casa sem chave, tocar a campainha e explicar para a minha mãe que “eu sei que eu deveria estar no meu quarto dormindo, eu sei que você não sabia que eu estava fora de casa, mas, sabe a Tabacow, lá da Avenida Brasil?”.

Não, nada feito. O tiro do segurança me mataria, mas seria rápido.

Minha mãe, por sua vez, me mataria lentamente, após me torturar por dias, usando óleo fervendo, garras de metal e discursos intermináveis que deixariam até Fidel Castro entediado. E, depois de tudo, ainda me daria um tiro.

Ou seja, tiro por tiro, vamos com o segurança. E qualquer um dos meus amigos, entre aqueles que conhecem minha mãe, sabem que eu fiz a escolha correta. Afinal, o segurança era apenas um inimigo comum. E minha mãe, do alto do seu 1.50m, é nada menos que um chefe de fase.

Assim, dei meia volta, corri e peguei minha chave, resmungando um “caralho, ô fase”. Novamente quase caindo, agarrei o chaveiro, apertei-o na minha mão e, desesperado, parti em direção à rua.

O segurança estava a uns dez metros de mim quando cheguei aonde os carros deveriam estar. Sim, deveriam. Não havia mais ninguém ali. Meus amigos haviam ido embora. Eu havia sido abandonado.

– Então, é isso. Vou morrer.

Comecei a me despedir da minha vida – eu e ela estávamos juntos há quase duas décadas nessa época, então havíamos laços afetivos bastante fortes – e me preparando para a humilhação pública. Os executivos da Tabacow provavelmente iram cortar meu corpo em pedaços e expor no gramado, junto aos ETs, como exemplo.

Foi aí que ouvi buzinas à minha esquerda. Meus amigos estavam fugindo do local nos carros (um deles, ainda de ré), e buzinando para que eu corresse atrás deles.

Ou, ao menos, foi o que entendi pelas buzinas, mas confesso que não parei para pensar muito. No momento em que eu vi os dois carros (e tive certeza de que nenhum deles era uma viatura da polícia, ou uma nave espacial com um exército de alienígenas de carpete em busca de vingança pelo desaparecimento de um deles), comecei a correr em direção aos veículos. E o segurança correndo atrás de mim.

Mas, felizmente, fiquei sabendo depois, eu deixei o segurança para trás. Na verdade, meus amigos diziam que eu estava correndo mais que os carros, mas eles poderiam (ou melhor, deveriam) estar diminuindo sua velocidade. Não sei qual versão é a verdadeira. Moema tem muitas lendas, e algumas delas dizem respeito a mim, mas me recuso a confirmar qualquer uma delas, especialmente num blog onde minha mãe tem acesso.

Assim, ainda apertando as chaves no dedo, e correndo feito um alucinado, comecei a alcançar os carros, até que, no meio do percurso, ouvi um estrondo. Pensei que fossem meus intestinos manifestando o pavor que eu estava sentindo, mas um rápido exame mental na parte de trás da minha bermuda mostrava que, ao menos ali, tudo continuava em ordem.

Só restava uma alternativa. O segurança deve ter percebido que eu corria mais que ele, e que ele não iria me alcançar de jeito nenhum. Ao mesmo tempo, ele deve ter lembrado que as balas de sua arma eram mais rápidas que ele – e, provavelmente, mais rápida que eu ou os carros – e decidiu delegar a tarefa para elas.

Em outras palavras, ele havia atirado em mim.

Não lembro se cheguei a parar de correr, ou se apenas diminuí a velocidade. Mas lembro que pensei: “estou morto”. Olhei rapidamente para meu corpo. Não vi sangue na minha roupa. Não sentia dor – a não ser na mão, de tanto que eu apertava o chaveiro. Ainda estava respirando. Meus amigos continuavam buzinando.

Ou seja, o sujeito havia disparado para cima, ou ele era vesgo.

Evidentemente que eu não ficaria ali para conferir. Voltei a correr, e, aproveitando que meu amigo que dirigia de ré deu um cavalo de pau numa esquina, já com a porta do passageiro aberta, mergulhei dentro do veículo e partimos em disparada de volta à Moema.

Durante metade do percurso, o carro continuou com a porta aberta, e eu deitado no banco, com as pernas para fora do veículo, sem conseguir mexer e sem coragem de largar minha chave. E repetindo a expressão “meu Deus do céu” ininterruptamente por cinco minutos.

O crime não compensa, mas até que rendeu um texto razoável. Especialmente porque, ao contrário das expectativas, eu acordei no dia seguinte e ainda estava vivo.

No final de semana seguinte, uma pequena nota na Veja São Paulo, dizendo algo como a iniciativa de marketing brilhante da Tabacow havia sido cancelada, pois um grupo de delinqüentes havia roubado um dos ETs, no domingo anterior. A nota dizia que outros assaltantes tentaram roubar mais um boneco no dia seguinte, mas haviam sido impedidos pelo segurança do local, que os expulsou a tiros.

Claro que mostrei isso para todos os meus amigos, dizendo, sem disfarçar o orgulho típico de um adolescente:

– Já leu isso aqui? Estão falando de mim! Meu nome não está aí, mas sou eu! Eu sou o “expulso a tiros”!

Epílogo: Meses depois, minha mãe ficou sabendo dessa história. A reação dela, como vocês devem presumir, não foi das mais fáceis. Aliás, passei quase uma semana entrando no quarto dela, à noite, para olhá-la de perto enquanto ela dormia, e ter certeza de que ela não era feita de carpete também. Afinal, durante um bom tempo, eu sentia que ela gostava mais do alienígena do que de mim.

Mas, aqui entre nós, ela tinha todos os motivos do mundo para isso.

11 de dezembro de 2009

Quatro Homens e Outro Segredo - Parte II

(leia a Parte I aqui)

Chegamos ao local do golpe e observamos o ambiente de longe.

A Tabacow ficava (ou fica, não sei se ela ainda existe) numa esquina da Avenida Brasil, ao lado de uma rua pequenininha. E o prédio era cercado de gramado por todos os lados e sem cercas, ou seja, poderíamos contorná-lo sem problemas.

Assim, combinamos que os carros nos esperariam ao lado do prédio, na travessa que saía da Brasil. Pegaríamos o ET e correríamos para os veículos de fuga, e nunca mais seríamos vistos, a não ser nas páginas policiais e nos noticiários internacionais - especialmente porque sabíamos que não havia segurança ali – mas, isso, claro, quando já estaríamos vivendo na Europa confortavelmente.

Nada poderia dar errado.

Eu e meu amigo, que, apesar de forte, não era internacionalmente conhecido pela coordenação motora – se existisse uma Copa do Mundo de descoordenados, ele seria cabeça de chave – por segurança, resolvemos contornar o prédio.

Passamos pela pequena passarela no gramado por trás do edifício e pela lateral. Não havia ninguém ali. Estávamos seguros.

Nada poderia dar errado.

Começamos a caminhar pela frente do prédio, em direção aos ETs. Estávamos a uns três metros da primeira criatura extraterrestre, que, alheio à nossa presença, continuava olhando os carros da Avenida Brasil, com cara de mongo.

Foi quando eu percebi que, metros a nossa frente, encostado na esquina do prédio, um sujeito, vestindo sobretudo, nos olhava discretamente.

Esta foi a primeira vez que o tempo parou naquela noite. Aliás, não apenas o tempo, como eu também. Parei e olhei fixamente para a pessoa e tive certeza de que ele olhava para nós, fazendo esforço para não ser visto.

Tudo o que aconteceu a seguir ocorreu quase simultaneamente na seguinte ordem – para ilustrar melhor, vamos montar uma tabela abaixo, e, para efeito de raciocínio, digamos que isso tenha acontecido às, digamos, 23:45.

23:45:17 – Temendo que o sujeito fosse um segurança, Rob Gordon pára no gramado, levanta um abraço e acena, abrindo a boca para dizer “oi, boa noite, estamos apenas passando por aqui!”

23:45:17 – Amigo de Rob Gordon, ignorando a presença do sujeito (e ignorando também os avisos de Gordon, que já havia resmungado algo como “tem um cara ali”) grita “Vamos roubar o ET!” e corre na direção do alien.

23:45:18 – Homem encostado no prédio revela-se mesmo um segurança e, puxando uma arma de dentro do casaco, grita “vocês vai morrê, molecada fiadaputa” e começa a correr na direção dos dois jovens.

23:45:19 – Amigo de Rob Gordon, assustado com o desenrolar dos últimos acontecimentos, pára, grita “fudeu, corre!” e dá meia volta, começando a correr na direção contrária.

23:45:20 – Amigo de Rob Gordon, em sua atitude run to the hills! run for your lifes! totalmente desenfreada, atropela Gordon, que é jogado para trás, perdendo segundos preciosos na largada da corrida pela própria vida.

23:45:21 – “Vocês vai morrê!”, repete o segurança. Gordon pensa em argumentar que “sim, já havíamos entendido da primeira vez”, mas achou melhor dar prioridade a manter o equilíbrio e não cair no gramado (o que tornaria a meta do segurança muito mais fácil de ser atingida).

23:45:22 – Rob Gordon, ainda desequilibrado, justifica o ditado que prega “quanto maior o tamanho, maior a queda”. Como ele não tem tamanho nenhum (1.60 é quase nada), não cai, consegue girar e sair correndo em disparada pela vida.

Sim, tudo isso em cinco segundos. Agora, o grande problema é que o segurança (leia-se: pessoa armada, sem amigos, que nunca foi amada por ninguém, detesta bichinhos e com sangue nos olhos) estava entre nós e os carros. Ou seja, precisaríamos correr na direção contrária, contornar todo o prédio, e, só aí, alcançarmos os veículos.

Não havia tempo para pensar. Saí em disparada, correndo pelo gramado, e contornei a primeira curva do prédio. Mais uma curva, uma reta e outra curva leve para a esquerda e eu estaria na rua, livre. Sim, o percurso era quase um S – mas diferente de Interlagos, não era o S do Senna, e sim um S de socorro, vou morrer.

Eu tinha duas coisas a meu favor: primeiro, eu era realmente muito rápido. Segundo, eu ainda não fumava há muito tempo, então meu fôlego era novo. Assim, eu tinha tudo para continuar vivo e impedir que minha mãe – certa de que estava dormindo no quarto – recebesse uma ligação no meio da madrugada, dizendo que meu corpo havia sido encontrado, baleado, aos pés de um alienígena de carpete.

Mas eu tinha um ponto fraco, que poderia ser decisivo: eu estava de bermuda.
Assim que fiz a segunda curva, comecei a correr pela pequena passarela de cimento que cortava o gramado, até que ouvi um barulho de metal batendo no chão.

Algo havia escapado do meu bolso e caído no chão.

Era a minha chave de casa.

(continua aqui)

10 de dezembro de 2009

Quatro Homens e Um Segredo - Parte I

Quem me lembrou dessa história foi uma amiga que cresceu comigo, em Moema. Eu já tinha pensado em contá-la aqui, mas nunca tinha parado para escrever. Hoje, pensando sobre isso, achei que dava samba.

Aconteceu quando eu tinha uns dezesseis, dezessete anos – que foi o auge da minha fase lixo. Era cabeludo, só me vista de preto, e passava apenas uma pequena porcentagem do meu dia sóbrio.

Se por um lado minha mãe não devia viver muito feliz com isso, por outro, eu sei que muita gente ao meu redor era pior que eu. Não estou falando dos meus amigos mais próximos, mas alguns conhecidos do bairro tinham (muitos) problemas com (muitas) drogas, normalmente envolvendo (muitas) viaturas.

Eu, por outro lado, nunca cheguei a esse ponto. Nunca corri risco de ser preso ou de morrer.

Quer dizer, a não ser uma vez.

Era uma segunda-feira à noite, por volta das 23 horas. Como no dia seguinte eu ia à escola, já estava pronto para dormir. Na verdade, acho que estava lendo na cama, mas comecei a ouvir algumas batidas na janela do meu quarto, como se algo estivesse batendo na veneziana. Abri a janela e era um dos loucos que andava comigo – acompanhado de outras duas pessoas não muito normais – jogando pedras na minha janela, para me chamar.

– Desce aí!

Fui até o portão e cumprimentei os três. Eles brilhavam de excitação. Fiquei com receio de que era por eu estava apenas de shorts, mas felizmente, não era nada disso. na verdade, eles tinham grandes planos para aquela noite.

– Vamos roubar os ETs da Tabacow!

Tudo bem, admito que a frase é, no mínimo, estranha. Ou melhor dizendo, não faz sentido algum.

Mas vou explicar. Aqui em São Paulo, na Avenida Brasil, funcionava o escritório da Tabacow (tapetes, carpetes, alguém?), numa casa linda, com um enorme gramado na frente. Para promover a empresa, os gênios do departamento de marketing criaram uns grandes extraterrestres de carpete, que ficavam no gramado, olhando o movimento.

Claro que a coisa virou folclórica, e muita gente passava por ali apenas para ver os pequenos aliens oriundos do planeta Tabacow.

Claro que a coisa ganhou espaço na mídia, e até mesmo a Veja São Paulo deu uma nota a respeito disso, cumprimentando a empresa pela iniciativa criativa.

E claro que eu e meus amigos tínhamos que fazer merda.

Na verdade, já havíamos feito. Na véspera, outros membros da nossa turma haviam passado lá, de madrugada, e roubado um dos ETs. Não deve ter sido difícil: não tinha segurança e os ETs estavam dando sopa ali, provavelmente achando que havia vida inteligente naquele planeta, e que nada aconteceria com eles. Estavam errados. Em Moema, ao menos, não havia vida inteligente – nós havíamos vendido o pouco de inteligência que tínhamos para comprar mais cerveja, meses antes.

Enfim, lá estava eu, pronto para dormir, sendo convidado para participar de um delito. Ou melhor, de um delito ridículo. Sim, as pessoas mergulham no crime por causa de drogas, fortunas, sexo. Eu? Eu abandonaria a lei por causa de um ET feito de carpete. Ô fase. Não havia como ser mais ridículo.

Aliás, não apenas eu era ridículo. A idéia era ridícula, o objeto do roubo era ridículo, o plano (“a gente pega e sai correndo, ué”) era ridículo.

Ou seja, não tinha como ser melhor.

Evidente que dois minutos depois eu estava de tênis, bermuda e camiseta, andando na ponta dos pés na direção do portão.

Sim, na ponta dos pés. Minha mãe estava dormindo e é claro que eu não fui acordá-la, saí escondido de casa. Afinal, como explicar para a própria mãe que “olhe, estou indo roubar um alienígena feito de tapete, volto lá pelas 2. Tchau”. Não ia colar.

Assim, saí de casa escondido, fazendo o mínimo possível de barulho, e partimos, em dois carros, em direção à Avenida Brasil.

Antes de continuarmos, cabe descrever o grupo de soldados de elite: as tarefas eram muito bem divididas: os dois que dirigiriam os carros tinham como hábito, ficar disputando rachas pela cidade; eu e outro amigo, este de infância, seríamos os homens de frente, responsáveis pela abdução do alienígena. Isso porque eu sou rápido e ele era forte.

Era uma combinação de talentos escolhida a dedo, ideal para um golpe como esse.

Nada poderia dar errado. Ao menos, era o que eu achava.

(continua...)