14 de dezembro de 2009

Rob Gordon X Cachaça

Como minha família tem dado as caras aqui no blog em vários posts, tenho me lembrado de várias histórias. Talvez seja a proximidade com o Natal, que me deixa saudosista, mas tenho me lembrado de muita coisa do passado.

Assim como disse no post anterior – e em outras vezes – tive uma fase da minha vida meio negra, entre os 16 e 20 anos. Aliás, “negra” é a descrição ideal, já que eu só usava roupas dessa cor. Mas eu não era gótico, não se preocupem, eram apenas camisetas de bandas de rock – ou as “camisas do caveira”, como minha avó dizia.

E, foi nesta fase que a maioria dos meus vícios e pecados surgiu na minha vida. Um deles, como na maioria das pessoas desta idade, foi quando descobri a bebida. Claro que eu não era alcoólatra, bebia de farra mesmo, mas exagerava. Bastante. Hoje, felizmente, minha tara é jantar fora, e, como eu não bebo álcool enquanto como, sou bastante sossegado com isso.

Mas, sim, adoro um uísque e um chopp. O problema é que, naquela época, dadas as minhas posses de garoto de 16 anos, chopp era algo raro, íamos a barzinhos quando muito a cada, sei lá, dez, quinze dias. Uísque, então, só em propaganda na TV.

O que fazíamos era o seguinte: eu e mais meia dúzia de loucos juntávamos as moedas, comprávamos uma garrafa de Velho Barreiro, abríamos e bebíamos na calçada, mesmo. Não era questão de sabor, não era questão de estilo, era questão de ficar de fogo. E, ficávamos, é evidente. Afinal, estamos falando de um litro de pinga dividido por meia dúzia de moleques. Faça as contas, e o resultado será quatro vômitos e dois desmaios.

Mas isso me colocou em enrascadas. Sabe-se lá porque, eu tinha talento para coisa, então bebia mais que os outros. Some isso ao fato de eu ser eu, meus porres eram mais homéricos. E o problema é que, quando eu bebia, eu tinha visões. Às vezes, eu estava bêbado, jogado em alguma calçada, e avistava um espírito careca, de óculos e com cara de sono.

Nas poucas vezes em que o vi, achei que ele era extremamente parecido com meu pai.

E, nas vezes em que prestei realmente atenção, vi que a semelhança que ele tinha com meu pai era porque ele era realmente meu pai.

Explico: minha mãe acordava as três, quatro horas da manhã e via que eu não estava em casa. Olhava na frente da casa, e eu não estava na rua com meus amigos. Logo, a resposta era óbvia: “o imbecil está bêbado em algum canto”. Assim, ela acordava meu pai e o obrigava a cumprir o papel de homem da casa e ir resgatar o caçula embriagado.

Com isso, não era difícil, nas madrugadas de sexta e sábado, Moema ser assombrada pelo meu pai, que vagava pelo bairro vestindo calça jeans e a camisa de pijama, me procurando pelos bares e dormindo em pé. E ele percorria todos os bares que eu poderia estar (ele sabia que eu bebia somente nos bocas de porco, pois era amigo de todos os pedreiros e vigias de Moema).

Assim, ele me encontrava, mais cedo ou mais tarde, e me carregava para casa. O termo é esse: “carregava”. Ele ia andando e eu, ao lado dele, esbarrando nele e me esforçando para não cair na rua. E, claro, tomando esporro:

– Porra, você tem que beber tanto assim?

– Putxx, mal aí.

– Aí sua mãe fica uma onça comigo.

– Maxx porque com voxxê? Voxxê nem bebeu com a gente.

– E agora você está aí, caindo de bêbado!

– Voxxê devia beber com a gente. Voxxê é gente boa, pai!

Talvez isso tocasse no coração dele. Ou – o que é mais provável – ele devia ter passado por isso com o pai dele, então era compreensivo. Aliás, a grande vantagem da minha adolescência é que eu não tive pai, eu tive cúmplice. Porque, além de não encanar muito com isso, ele ainda livrava minha pele. Normalmente, quando estávamos entrando em casa, ele me chamava de canto e dizia:

– A sua mãe está na sala, feito uma fera. Para não piorar ainda mais sua situação, você entra na sala e nem olha para ela. Vai direto dormir. Deixa eu que limpo sua barra.

– Voxxê é foda. Valeu!

– Ok, agora entra e vai dormir.

– Camaradão, voxxê, pai!

– Cale a boca e entre. E não fale nada. Não olhe para ela.

E, às vezes, eu fazia realmente isso, e ele conseguia amansar a fera. Provavelmente, ficava na porta do meu quarto, segurando uma cadeira e um chicote, impedindo minha mãe de entrar ali e devorar minha alma.

Mas, como bêbado é uma merda, certa noite eu estraguei tudo.

Ele me deu as mesmas instruções de sempre (“não abre a boca, nem olha para ela, e vai para o seu quarto, dormir”).

E eu entrei em casa. Lá estava ela. Sentada no canto do sofá, fumando e me encarando com olhar de morte. Alguns demônios, de acordo com a mitologia, se alimentam de fúria. Se isso fosse verdade, minha mãe, em alguns momentos da minha vida, seria uma ceia de natal. Ela era um organismo de 1.50m formado de ódio maternal. Nesta noite, em especial, chovia. Mas apenas em cima dela. Com raios e trovões.

Ela fez a pergunta habitual:

– Onde o senhor estava?

Normalmente, eu responderia um “ah, com oxx caraxx, por aí” e iria para o meu quarto. Mas, desta vez, o álcool fez com que as instruções do meu pai fossem entendidas de forma errada. Ou, pior, entendidas ao pé da letra.

– Zeu não poxxo falá com voxxê, porque eu exxtou bêbado. Com-ple-ta-men-te bêbado. Então, meu pai dixxe para eu nem falar com voxxê. E é por ixxo que eu não vou falar nada. Para voxxê não ver que eu exxtou bêbado.

– Rob!

– Maxx voxxê não prexxixxa xxe preocupar. O meu pai ixxtá vindo aí, ele dixxe que vai limpar minha barra. Ele falou que xxegura a bronca.

– Rob!, ela gritou.

– Imbecil!, gritou meu pai, ainda fechando o portão.

– Ele tá xxó fexxando o portão, e vai entrar. E aí ele limpa minha barra, e ficamoxx tudo bem. Eu e voxxê, amigoxx de novo. Do caralho, exxe meu pai.

Lembram daqueles desenhos do Patolino, que ele engolia uma bomba? Minha mãe agia do mesmo jeito. Ficava vermelha e começava a sair fumaça das suas orelhas. Evidente que meu pai entrava correndo na sala e me enxotava dali (sob protestos de “não prexxixxa emputrrar, eu exxtou xxubindo”).

E, no dia seguinte, estava tudo bem. Não sei o que meu pai fazia, mas preciso me lembrar de perguntar isso para ele antes que meu filho nasça.

E, como pretendo ser cúmplice do meu filho, deixo, como exemplo, o Top 5 Piores Porres da Minha Vida:

1. Durante muito tempo, o recorde da minha faculdade era meu (e de um amigo): chegamos ao bar 11 da manhã e saímos de lá a 1 da manhã. Não sei como, mas saímos.

2. Numa festa junina na minha rua, 75% do meu corpo era formado de água. Os outros 25%, de vodka. E eu cismei de pular a fogueira: outro amigo meu, do outro lado da fogueira, teve a mesma idéia. O encontro dos corpos foi em cima da fogueira, eu e ele caímos no meio do fogo. Não sei como não morri queimado. Aliás, não sei como não explodi.

3. Outra vez na faculdade, estava no bar há horas e liguei para minha mãe, dizendo que não iria almoçar em casa, que ela não precisava me esperar. Ela respondeu “eu já almocei há algum tempo, são 21:30”.

4. Com quinze anos de idade, num dos meus primeiros porres, não sei como, caí em cima de uma pilha de sacos de lixo – sabe quando o lixeiro manda um emissário, antes, para juntar os sacos? – e me recusava a sair dali. Cismei com aquilo, achei legal. Se moleque é uma merda, moleque bêbado, então, é triste. Só saí minutos depois, quando meus amigos me puxaram dali (os lixeiros já estavam recolhendo os sacos). E ainda queria bater boca com o pessoal da Vega Sopave, porque os lixos eram meus.

5. Saí do casamento de um amigo e fui para um bar, encontrar outra turma. Evidentemente, já cheguei ruim. E, no bar, aproveitando que eu estava de terno, comecei a desfilar entre as mesas, rindo sozinho, falando que era a Coleção Outono-Inverno Rob Gordon.

E, em todas elas, rindo sozinho, claro. Afinal, sejamos sinceros: de nada adianta fazer algo na vida se você não tem a capacidade de rir sozinho. E como bêbado ri de qualquer coisa... Faça as contas.

16 comentários:

Lilian disse...

Não sei o que me fez rir mais. O:

"queria bater boca com o pessoal da Vega Sopave, porque os lixos eram meus."

ou o:

"E, no bar, aproveitando que eu estava de terno, comecei a desfilar entre as mesas, rindo sozinho, falando que era a Coleção Outono-Inverno Rob Gordon."

Mas acho que discutir com o povo da Vega sopave ganha. Cara, tinha me esquecido que quem faz a recolha 'dos lixos' era a Vega! Brigada por me lembrar. #infanciaemsampafeelings

May. disse...

3. Outra vez na faculdade, estava no bar há horas e liguei para minha mãe, dizendo que não iria almoçar em casa, que ela não precisava me esperar. Ela respondeu “eu já almocei há algum tempo, são 21:30”.


Sen-sa-ci-o-nal.
Juro que eu to rindo MUITO.

Rafiki disse...

Tá aí uma coisa que eu não vou viver. Primeira vez que eu bebi foi aos 15 anos, descobri que álcool não agrada meu paladar.
Continue nostálgico e compartilhe de si.

Renan Becker disse...

Ta ai uma coisa que adoro, só que no meu caso minha mãe é a cumplice, a coisa mais legal que me aconteceu foi chegar bebaço as 6hrs da manhã e minha mãe me acordar as 12h pra almoçar e a primeira coisa que ela me oferece é cerveja, por essas e outras eu amo minha mãe!

exelente post euri

Daniela disse...

Rob Gordon...

Vc é F.O.D.A.!!!

Varotto disse...

"ele sabia que eu bebia somente nos bocas de porco, pois era amigo de todos os pedreiros e vigias de Moema"

Menos do vigia da Tabacow, é claro...

Dragus disse...

Nunca ri tanto da desgraça alheia.

Me lembra minha primeira e única glicose. =)

May. disse...

"Primeira vez que eu bebi foi aos 15 anos, descobri que álcool não agrada meu paladar." -

Admiro.
Com 15 anos eu descobri o que era beber por causa de uma garrafa de Campari. Achei uma bosta, o gosto. Mas quando vc começa com Campari, a tendência é melhorar. Porque nada pode ser pior. Ou é o que você pensa, até ver que dinheiro não dá em árvore e a Leonoff tá 5$ e o Tang, 0,75$.
Mas nessa altura, já era. Já gostava da coisa. Alguns poucos anos depois, posso dizer que a tendência agora é melhorar mesmo porque uma hora a pessoa aprende que é bom beber, desde que seja alguma coisa BOA.

Amanda Ullmann disse...

Tô morrendo de rir aqui!!!

2. Numa festa junina na minha rua, 75% do meu corpo era formado de água. Os outros 25%, de vodka. E eu cismei de pular a fogueira: outro amigo meu, do outro lado da fogueira, teve a mesma idéia. O encontro dos corpos foi em cima da fogueira, eu e ele caímos no meio do fogo. Não sei como não morri queimado. Aliás, não sei como não explodi.

O melhor, sem duvida!!

Ana disse...

Velho Barreiro ou Ypioca série ouro ou prata (qdo a grana dava) + coca-cola + 7 Eleven esquina da Maracatins c/ Iraí + rachas e batidas no cruzamanto + Nothing Else Metteres do Metallica + grupo de amigos sem noção = adolescência em Moema

Arthurius Maximus disse...

"Abre teu olho japonês" (rs). Essa de "meus lixos" é ótima...

Gabriel Alex disse...

Deixei um selo pra você no meu blog, junto com algumas palavras, hehe.
Sei que pode não ser nada, mas só indiquei porque realmente gosto do champ, espero que você de uma olhada: http://www.gaalex.blogspot.com

Abraços!

Na Braga disse...

É, você me fez chorar... ainda tem umas lágrimazinhas caindo cada vez que eu lembro de algum trecho... história de bebado já é engraçada por si só e tu sabe contar de um jeito que eu imaginei cada cena! ;)

Pinga com mel, já ouviu falar? Vinha num "potinho" que parecia um botijão de gás e eu, que sou do interior de São Paulo, tive meu primeiro porre disso aí misturado com fanta laranja. Foi na praça central da cidade que eu desmaei e só lembro de acordar no hospital e pedir pro meu irmão: "chama o pai, a mãe não!"...

Acho que os pais são mais compreensiveis! haha

Larissa Bohnenberger disse...

Tô morrendo de rir com o 3... pobre mãe, essa. Eu aprontei muito, tambem. Dos meus 15 anos até a metade da faculdade, mais ou menos, só o que eu fazia era beber e pagar mico. Adolescente pé rapado é foda. Se você e seus amigos tmavam Velho Barreiro, na Faculdade de Farmácia da UFRGS nós tínhamos a tradição da Belinha. Era a cachaça mais barata do mercado. Eu tomei cada trago... só que sempre consegui esconder tudo da minha mãe... quer dizer, sempre, menos uma vez... a festa começava às 19:30. Às 21h eu estava sento atirada, feito um saco de batatas, dentro de um taxi. Consegui descer na frente de casa, abrir o portão e entrar no lounge do prédio. Ao meu lado, o elevador. Na minha frente, um sofá. Eu sabia, minha razão ainda falava comigo, que eu deveria entrar no elevador e ir para o apartamento. Mas resolvi dar uma dormidinha rápida no sofá do hall de entrada. Até o despertador eu pus pra não ficar ali a noite inteira. Mas não deu tempo dele tocar. Acordei com a minha mãe desesperada tentando me acordar, me levando carregada pra cima e me botando na cama. Essa, assim como a tua, jogou pedra na cruz!

Bjs!

P! disse...

Os posts sobre o seu passado mais distante são, com certeza, os melhores! Não sei se eu tenho dó do seu pai, ou inveja de você por ter um pai assim!

Nadia disse...

As minhas grandes vantagens em relação a Rob Gordon
*Meus pais não se preocupam comigo.
*Eu nunca volto pra casa antes de melhorar.
*Eu nunca tenho carona pra voltar da casa dos amigos.
*Eu nunca lembro o endereço de casa pra voltar a pé.

A única vez que consegui chegar em casa e estava MUUUUIIITTTOOO bebada a minha mãe tinha ido na formatura de 3° colegial da escola onde ela dá aula e voltou mais bebada que eu. Ela não tinha condições de lembrar o meu estado no dia seguinte.