13 de dezembro de 2009

Quatro Homens e um Novo Segredo - Parte Final

(leia a Parte II aqui)

Foi a segunda vez que o tempo parou naquela noite.

Não há necessidade de montar uma escala de tempo, como no post anterior, pois tudo aconteceu rápido demais, e somente dentro da minha mente.

Eu parei de correr e comecei a pensar nas minhas alternativas.

Se eu voltasse um metro para pegar a chave, as chances de eu de levar um tiro era enorme. Provavelmente, como o sujeito era profissional – ou, ao menos, recebia um salário para fazer o que faz –, seria na cabeça. Assim, a probabilidade de eu morrer era altíssima. Se eu fosse um time de futebol, os matemáticos dos jornais estimariam que eu tinha, naquele momento, menos de 5% de chance de não ser rebaixado –não para a Série B, mas para o inferno.

Por outro lado, se eu continuasse correndo, escaparia com vida. Mas escaparia para quê? Para chegar em casa sem chave, tocar a campainha e explicar para a minha mãe que “eu sei que eu deveria estar no meu quarto dormindo, eu sei que você não sabia que eu estava fora de casa, mas, sabe a Tabacow, lá da Avenida Brasil?”.

Não, nada feito. O tiro do segurança me mataria, mas seria rápido.

Minha mãe, por sua vez, me mataria lentamente, após me torturar por dias, usando óleo fervendo, garras de metal e discursos intermináveis que deixariam até Fidel Castro entediado. E, depois de tudo, ainda me daria um tiro.

Ou seja, tiro por tiro, vamos com o segurança. E qualquer um dos meus amigos, entre aqueles que conhecem minha mãe, sabem que eu fiz a escolha correta. Afinal, o segurança era apenas um inimigo comum. E minha mãe, do alto do seu 1.50m, é nada menos que um chefe de fase.

Assim, dei meia volta, corri e peguei minha chave, resmungando um “caralho, ô fase”. Novamente quase caindo, agarrei o chaveiro, apertei-o na minha mão e, desesperado, parti em direção à rua.

O segurança estava a uns dez metros de mim quando cheguei aonde os carros deveriam estar. Sim, deveriam. Não havia mais ninguém ali. Meus amigos haviam ido embora. Eu havia sido abandonado.

– Então, é isso. Vou morrer.

Comecei a me despedir da minha vida – eu e ela estávamos juntos há quase duas décadas nessa época, então havíamos laços afetivos bastante fortes – e me preparando para a humilhação pública. Os executivos da Tabacow provavelmente iram cortar meu corpo em pedaços e expor no gramado, junto aos ETs, como exemplo.

Foi aí que ouvi buzinas à minha esquerda. Meus amigos estavam fugindo do local nos carros (um deles, ainda de ré), e buzinando para que eu corresse atrás deles.

Ou, ao menos, foi o que entendi pelas buzinas, mas confesso que não parei para pensar muito. No momento em que eu vi os dois carros (e tive certeza de que nenhum deles era uma viatura da polícia, ou uma nave espacial com um exército de alienígenas de carpete em busca de vingança pelo desaparecimento de um deles), comecei a correr em direção aos veículos. E o segurança correndo atrás de mim.

Mas, felizmente, fiquei sabendo depois, eu deixei o segurança para trás. Na verdade, meus amigos diziam que eu estava correndo mais que os carros, mas eles poderiam (ou melhor, deveriam) estar diminuindo sua velocidade. Não sei qual versão é a verdadeira. Moema tem muitas lendas, e algumas delas dizem respeito a mim, mas me recuso a confirmar qualquer uma delas, especialmente num blog onde minha mãe tem acesso.

Assim, ainda apertando as chaves no dedo, e correndo feito um alucinado, comecei a alcançar os carros, até que, no meio do percurso, ouvi um estrondo. Pensei que fossem meus intestinos manifestando o pavor que eu estava sentindo, mas um rápido exame mental na parte de trás da minha bermuda mostrava que, ao menos ali, tudo continuava em ordem.

Só restava uma alternativa. O segurança deve ter percebido que eu corria mais que ele, e que ele não iria me alcançar de jeito nenhum. Ao mesmo tempo, ele deve ter lembrado que as balas de sua arma eram mais rápidas que ele – e, provavelmente, mais rápida que eu ou os carros – e decidiu delegar a tarefa para elas.

Em outras palavras, ele havia atirado em mim.

Não lembro se cheguei a parar de correr, ou se apenas diminuí a velocidade. Mas lembro que pensei: “estou morto”. Olhei rapidamente para meu corpo. Não vi sangue na minha roupa. Não sentia dor – a não ser na mão, de tanto que eu apertava o chaveiro. Ainda estava respirando. Meus amigos continuavam buzinando.

Ou seja, o sujeito havia disparado para cima, ou ele era vesgo.

Evidentemente que eu não ficaria ali para conferir. Voltei a correr, e, aproveitando que meu amigo que dirigia de ré deu um cavalo de pau numa esquina, já com a porta do passageiro aberta, mergulhei dentro do veículo e partimos em disparada de volta à Moema.

Durante metade do percurso, o carro continuou com a porta aberta, e eu deitado no banco, com as pernas para fora do veículo, sem conseguir mexer e sem coragem de largar minha chave. E repetindo a expressão “meu Deus do céu” ininterruptamente por cinco minutos.

O crime não compensa, mas até que rendeu um texto razoável. Especialmente porque, ao contrário das expectativas, eu acordei no dia seguinte e ainda estava vivo.

No final de semana seguinte, uma pequena nota na Veja São Paulo, dizendo algo como a iniciativa de marketing brilhante da Tabacow havia sido cancelada, pois um grupo de delinqüentes havia roubado um dos ETs, no domingo anterior. A nota dizia que outros assaltantes tentaram roubar mais um boneco no dia seguinte, mas haviam sido impedidos pelo segurança do local, que os expulsou a tiros.

Claro que mostrei isso para todos os meus amigos, dizendo, sem disfarçar o orgulho típico de um adolescente:

– Já leu isso aqui? Estão falando de mim! Meu nome não está aí, mas sou eu! Eu sou o “expulso a tiros”!

Epílogo: Meses depois, minha mãe ficou sabendo dessa história. A reação dela, como vocês devem presumir, não foi das mais fáceis. Aliás, passei quase uma semana entrando no quarto dela, à noite, para olhá-la de perto enquanto ela dormia, e ter certeza de que ela não era feita de carpete também. Afinal, durante um bom tempo, eu sentia que ela gostava mais do alienígena do que de mim.

Mas, aqui entre nós, ela tinha todos os motivos do mundo para isso.

18 comentários:

Otavio Oliveira disse...

VEEEEI, atiraram em vc!!! q dooooidoooo. e saiu na veja sp ainda! ahoahhoa

q idolo.

sobre sua mãe ser um chefe de fase, nem duvido. a minha é tipo o Robotnik do finalzinho do Sonic.

(q pessimo exemplo pros jovens, hem, rob....)

Otavio Cohen disse...

agora comentando com o perfil certo no blogger:

"Na verdade, meus amigos diziam que eu estava correndo mais que os carros, mas eles poderiam (ou melhor, deveriam) estar diminuindo sua velocidade.

Meus amigos, até hoje, dizem que o que aconteceu de verdade é que eu estava correndo mais que os carros."

a repetição foi de "poprósito"?

Rob Gordon disse...

Otávio

Não, não. Bobagem minha na hora de editar o texto. Já arrumei. Valeu!

ticoético disse...

HAHAHA,cara,"meu deus,meu deus,meu deus",lembra aqueles filmes antigos sobre o subúrbio americano,a diferença é q eles não roubavam ET'S,hehehe,genial,enfim,belo texto.
abraço !

disse...

Chorei de rir e fiquei imaginando a sua mãe falando horas a fio sobre o pobre alienígena e com o Fidel cochilando. :-)))))))))))))

Luciana Toledo disse...

é... dona (nome da mãe do Rob que não vou citar porque tenho medo dela) é uma santa, uma gigante com nervos de aço do alto dos seus 1.50m... rsrsrs

(sua mãe não tem 1.49m?).

mande um beijo pra ela e diga que adoro-a!

Varotto disse...

Rob, você conhece um filme, de 1984, com o Emilio Estevez, chamado "Repo Man"?

Uma rápida sinopse (http://www.adorocinema.com/filmes/repo-man/):

"Em Los Angeles um jovem é contratado para trabalhar como repo man (repossessor), ou seja, sua função é recuperar carros que não foram integralmente pagos. Em uma de suas missões acaba se envolvendo com um cientista louco, que roubou quatro alienígenas de uma base americana e os colocou na mala do seu carro. Quando uma pessoa abre a mala, simplesmente se desintegra."

Qualquer coincidência é mera semelhança...

P.S.: Só não me lembro dos aliens serem feitos de carpete.

Bruno disse...

Putamerda, Rob, eu não posso ler essas coisas no trabalho. Tá todo mundo me olhando meio torto.

Dragus disse...

Me lembrei da cena de Forrest Gump correndo o mundo e de Lola.

E ri ainda mais.

Dragus disse...

Por sinal, se fosse o Nho Lau os tiros teriam acertado e sua história seria mais pública. =p

Daniela disse...

Kkkkk...

Meacabo com isso!
E fico imaginando a cena... hehehe

Até liguei com outro post... As calças caindo e você correndo atrás das passagens (Da viagem para o casamento dos seus amigos!

Adoroo!

Felipe Lima disse...

Rob, me acabei de tanto rir aqui no trabalho. As situações nas quais vc se mete são as mais incríveis e cômicas do universo. E agora pude constatar que tu és um ser humano predestinado a se encrencar desde a adolescência, ou seja, os momentos "Ô fase" te acompanham há muito tempo e só tendem a aumentar. Sorte nossa, que só assim poderemos contar sempre com textos divertidíssimos como esse. Parabéns por ter sobrevivido. rsrs

Varotto disse...

Porra, Dragus!

Nhô Lau? Pegou pesado... :oD

[Pulga] Anderson Ferreira disse...

Haha. Fui numa padaria e meus amigos disseram que iriam roubar coisas. Eu disse que não e...

Sem querer falei pra vendedora : as chinelas estão mais caras, comprei aquela semana passada por tanto e...

Eles roubaram, sairam correndo e levaram-me a meus pais e... Não quero lembrar D:

http://moviment0.wordpress.com/

Pri disse...

UAHAHAH, meu Deus... Rob, FATO sua mãe gostar mais do ET (com todo respeito).

Rafiki disse...

Foi uma grande saga, muito bem.

Gilgomex™ disse...

"Voltei a correr, e, aproveitando que meu amigo que dirigia de ré deu um cavalo de pau numa esquina, já com a porta do passageiro aberta, mergulhei dentro do veículo e partimos em disparada de volta à Moema."

Lembrei da cena do filme Procurado... Sim, eu assisti!
Sua vida daria um filme... Uma tragicomédia das melhores!!

P! disse...

Não acredito no quanto você era louco! Sério! Vou mostrar seus textos sobre sua adolescência pra minha mãe quando ela começar a reclamar de mim! Sou a filha mais recatada do mundo perto disso!
Mas, sério, toda vez que eu lia Tabacow eu dava risadas nem sei por que, acho que até o nome da empresa me soou engraçado.
Mas o crime compensa sim! Rendeu uma triologia muuuuuito engraçada e muitos risos da minha parte, não sei basta, mas rendeu!