11 de dezembro de 2009

Quatro Homens e Outro Segredo - Parte II

(leia a Parte I aqui)

Chegamos ao local do golpe e observamos o ambiente de longe.

A Tabacow ficava (ou fica, não sei se ela ainda existe) numa esquina da Avenida Brasil, ao lado de uma rua pequenininha. E o prédio era cercado de gramado por todos os lados e sem cercas, ou seja, poderíamos contorná-lo sem problemas.

Assim, combinamos que os carros nos esperariam ao lado do prédio, na travessa que saía da Brasil. Pegaríamos o ET e correríamos para os veículos de fuga, e nunca mais seríamos vistos, a não ser nas páginas policiais e nos noticiários internacionais - especialmente porque sabíamos que não havia segurança ali – mas, isso, claro, quando já estaríamos vivendo na Europa confortavelmente.

Nada poderia dar errado.

Eu e meu amigo, que, apesar de forte, não era internacionalmente conhecido pela coordenação motora – se existisse uma Copa do Mundo de descoordenados, ele seria cabeça de chave – por segurança, resolvemos contornar o prédio.

Passamos pela pequena passarela no gramado por trás do edifício e pela lateral. Não havia ninguém ali. Estávamos seguros.

Nada poderia dar errado.

Começamos a caminhar pela frente do prédio, em direção aos ETs. Estávamos a uns três metros da primeira criatura extraterrestre, que, alheio à nossa presença, continuava olhando os carros da Avenida Brasil, com cara de mongo.

Foi quando eu percebi que, metros a nossa frente, encostado na esquina do prédio, um sujeito, vestindo sobretudo, nos olhava discretamente.

Esta foi a primeira vez que o tempo parou naquela noite. Aliás, não apenas o tempo, como eu também. Parei e olhei fixamente para a pessoa e tive certeza de que ele olhava para nós, fazendo esforço para não ser visto.

Tudo o que aconteceu a seguir ocorreu quase simultaneamente na seguinte ordem – para ilustrar melhor, vamos montar uma tabela abaixo, e, para efeito de raciocínio, digamos que isso tenha acontecido às, digamos, 23:45.

23:45:17 – Temendo que o sujeito fosse um segurança, Rob Gordon pára no gramado, levanta um abraço e acena, abrindo a boca para dizer “oi, boa noite, estamos apenas passando por aqui!”

23:45:17 – Amigo de Rob Gordon, ignorando a presença do sujeito (e ignorando também os avisos de Gordon, que já havia resmungado algo como “tem um cara ali”) grita “Vamos roubar o ET!” e corre na direção do alien.

23:45:18 – Homem encostado no prédio revela-se mesmo um segurança e, puxando uma arma de dentro do casaco, grita “vocês vai morrê, molecada fiadaputa” e começa a correr na direção dos dois jovens.

23:45:19 – Amigo de Rob Gordon, assustado com o desenrolar dos últimos acontecimentos, pára, grita “fudeu, corre!” e dá meia volta, começando a correr na direção contrária.

23:45:20 – Amigo de Rob Gordon, em sua atitude run to the hills! run for your lifes! totalmente desenfreada, atropela Gordon, que é jogado para trás, perdendo segundos preciosos na largada da corrida pela própria vida.

23:45:21 – “Vocês vai morrê!”, repete o segurança. Gordon pensa em argumentar que “sim, já havíamos entendido da primeira vez”, mas achou melhor dar prioridade a manter o equilíbrio e não cair no gramado (o que tornaria a meta do segurança muito mais fácil de ser atingida).

23:45:22 – Rob Gordon, ainda desequilibrado, justifica o ditado que prega “quanto maior o tamanho, maior a queda”. Como ele não tem tamanho nenhum (1.60 é quase nada), não cai, consegue girar e sair correndo em disparada pela vida.

Sim, tudo isso em cinco segundos. Agora, o grande problema é que o segurança (leia-se: pessoa armada, sem amigos, que nunca foi amada por ninguém, detesta bichinhos e com sangue nos olhos) estava entre nós e os carros. Ou seja, precisaríamos correr na direção contrária, contornar todo o prédio, e, só aí, alcançarmos os veículos.

Não havia tempo para pensar. Saí em disparada, correndo pelo gramado, e contornei a primeira curva do prédio. Mais uma curva, uma reta e outra curva leve para a esquerda e eu estaria na rua, livre. Sim, o percurso era quase um S – mas diferente de Interlagos, não era o S do Senna, e sim um S de socorro, vou morrer.

Eu tinha duas coisas a meu favor: primeiro, eu era realmente muito rápido. Segundo, eu ainda não fumava há muito tempo, então meu fôlego era novo. Assim, eu tinha tudo para continuar vivo e impedir que minha mãe – certa de que estava dormindo no quarto – recebesse uma ligação no meio da madrugada, dizendo que meu corpo havia sido encontrado, baleado, aos pés de um alienígena de carpete.

Mas eu tinha um ponto fraco, que poderia ser decisivo: eu estava de bermuda.
Assim que fiz a segunda curva, comecei a correr pela pequena passarela de cimento que cortava o gramado, até que ouvi um barulho de metal batendo no chão.

Algo havia escapado do meu bolso e caído no chão.

Era a minha chave de casa.

(continua aqui)

12 comentários:

Lilian disse...

primeira?

Rob, vc MIMATA, primeiro de rir com esse timing da sua escrita; e depois com esse 'continua'.

E esqueci de dizer quando comentei da outra vez: sim, eu me lembro dos tapetes Tabacow. Me lembro de vê-los no Mappin da São João e da São Bento (sim, eu estou velha, admito).

Camila disse...

"Nada poderia dar errado."

É, a gente percebeu. =D

Thiago Neres disse...

Vou dormir na ansiedade pra ver a próxima parte :P

Varotto disse...

Ai, caramba!

Anna disse...

Como sempre acontece quando entro aqui, ri muito. A descrição dos acontecimentos, e principalmente a figura do - me desculpe, mas é verdade - do ridículo de imaginar um bando de adolescentes roubando um alien de tapete é impagável.
Acompanho há um tempo seus posts como mera voyeur, pois leio sempre pelo Google Reader e confesso que bate aquela preguiça de abrir a página pra então comentar. Mas lendo o post dos 100 Nomes, tive que vir aqui rasgar uma sedinha e dizer que o Champ é atualmente um dos meus blogs favoritos. Já recomendei para amigos, e inclusive hoje tive um ataque de riso com uma amiga minha quando lembrávamos do teu "japoneso".
Ah, acompanho também o Champ Chronicles, e estou desfalecida até agora com o "Buarquianas", porque sou muito fã do Chico e sempre imagino contos saindo de seus versos.
É, é isso mesmo.
Beijos e lembranças ao Besta-Fera!

Luciana Toledo disse...

Se eu não conhecesse essa história desde que ela aconteceu, eu diria que você tem problemas mentais e é mentiroso bacarai, mas como eu te conheço e lembro da cara dos quatro imbecis enquanto vc narrava os fatos e a personalidade de cada um dos furtadores de ETs, só posso dizer uma frase:

vc continua mongol

O mais gostoso no texto (foi a mesma sensação que tive no texto do Oliveira, rs) foi lembrar de cada figura estranha que faz parte da história.

ps.: vc lembra da história do "ei, joão, vamos bater uma bola no domingo?" rsrs. Se lembrar pode escrever tb... hahahaha

beijo

Mariana disse...

Hahahaha... Nossa, estou doida pra ver o final da história!

Eu também já fugi, mas não de segurança. Quando eu era pré-aborrecente, eu tocava campainha e fugia com mais umas 3 ou 4 imbecis que faziam ballet comigo(hein? é isso mesmo! ballet!).
Um dia, além de tocar as campainhas, mexemos com um grupo de meninos que vivam na rua e continuamos. Eles nos delataram e uma muié colocou os cachorros pra correr atrás da gente!
Nunca corri tanto! haha...

Os dois primeiros textos foram ótimos!

Beijos,

May. disse...

Olha, não é por nada não, mas seu amigo destruiu as chances de dar tudo certo. Mas eu queria muito saber: o que vocês pretendiam fazer com o E.T? Iam vender? Iam rachar? Ia ficar com um de vocês?...
Eu poderia apostar que vc não tem a menor idéia porque nem pensou nisso na hora.

Otavio Oliveira disse...

sabia que o pior ainda estava por vir. e ainda está.

Pri disse...

Eu sabia q tava mto bom pra ser verdade... uahahaha
Rob to começando a achar q vc merece tanto infortúnio... rsrsrs
Continua, continua, continua...

Rafiki disse...

Muito bom, em especial essa linha do tempo.
Repito, escreva logo as outras partes. =D

Luciana Toledo disse...

Ê, marqueteiro! Posta logo a terceira parte, o povo quer saber!

rsrsrs