27 de dezembro de 2009

Lágrimas na Chuva

Acabei de sair do Pão de Açúcar, fui comprar algumas coisas para casa. Evidente que quando eu estava lá dentro começou a chover. Tempestade mesmo. O pessoal lá de cima adora fazer essas coisas comigo. Assim, paguei minhas compras e saí do mercado, parando na porta – na verdade, um pedaço da calçada que é coberto, ao lado da entrada da loja – e acendi um cigarro, segurando as sacolas.

Estava decidindo se era melhor esperar a chuva diminuir ou se valia a pena eu começar a voltar para casa, andando sob as coberturas das lojas da Teodoro.

Foi quando vi um velho ao meu lado.

Na verdade, eu não vi, eu apenas percebi que ele estava ali. Foi apenas quando olhei diretamente para ele que vi que era um velho, e, apesar de não estar todo imundo ou rasgado, claramente morava na rua. Estava de costas para mim, fazendo alguma coisa na parede.

Não sei se foi o instinto de jornalista – nem sei se tenho isso, na verdade – ou de blogueiro, mas me aproximei, pensando em contorná-lo e ver o que ele estava fazendo na parede. A impressão que eu tinha é que ele estava desenhando algo no muro do mercado. A chuva começou a apertar. Passei ao redor dele, desviando de outras pessoas na calçada e olhei o que ele estava fazendo.

Ele estava com um toco de carvão entre os dedos, rabiscando um nome de mulher.

Sabe quando o tempo congela? Foi o que aconteceu ali comigo.

Provavelmente, eu sentia a chuva caindo nas minhas costas, mas não dei a mínima para isso. A Teodoro Sampaio continuava viva: ônibus e carros subiam na direção das Clínicas, pessoas andavam pela calçada. E eu não conseguia tirar os olhos daquele sujeito de idade, encurvado, escrevendo um nome na parede do mercado, a menos de dois passos de mim.

Quem me conhece – ou lê este blog faz tempo – sabe que eu olho para as pessoas na rua e vejo personagens de crônicas. Fico tentando imaginar o passado deles, como eles chegaram até ali, quem elas são. E isso, sim, é instintivo, eu não controlo. E eu não queria ter feito isso com esse velho.

De repente, anos da vida desse sujeito passaram na frente dos meus olhos: conheceu a dona do nome, se apaixonou perdidamente. Mas o relacionamento não deu certo, apesar do amor que ele sentia por ela, e ele foi chutado. Sem saber como viver sem ela (e aposto que ele disse isso a ela em algum momento, porque quem ama dessa forma diz isso) foi para a rua, começou a beber, perdeu tudo o que tinha.

Só não perdeu as memórias que tinha dela, o amor que sente e, talvez, um fiapo de esperança de que um dia ela volte.

Agora, ele vive na rua, refugiado – ou melhor, escondido – dentro de um mundo particular, cujo nome é o nome dela.

Deve sonhar com ela todas as noites, entre uma garrafa de cachaça e outra, balbuciando coisas como “eu te amo”, “me perdoa”, “volte para mim”. Vive desesperado e ansioso para tocar o rosto dela mais uma vez. Daria tudo o que lhe resta (e com certeza tudo o que já teve um dia) em troca disso, sem pestanejar. Provavelmente, poucas pessoas amaram na vida como o velho do carvão amou a mulher do nome na parede.

E a recompensa que ele ganha por esse amor? Passar o resto dos dias escrevendo o nome dela, no meio da rua, talvez tentando se sentir mais próximo (leia-se: menos distante) dela.

Fim de ano y otras cositas más... Eu não ando muito bem. Ao menos, não o suficiente para lidar com isso. Meus olhos embaraçaram e a garganta apertou.

De repente, uma das coisas que entra no Top 5 Coisas Tristes, “envelhecer sozinho”, havia se materializado na minha frente. De repente, todas as histórias de amor impossíveis e perda que eu ouvi falar haviam se materializado na minha frente. De repente, a frase "amor maior que a vida" se materializou na minha frente.

De repente, eu comecei a chorar. Não agüentei.

Fugi dali na mesma hora. Enfiei-me no meio dos ônibus, levando meus olhos molhados para baixo da chuva. Entrei em casa, carregando as sacolas, ainda abalado. Ainda pensando, e me perguntando o motivo da vida simplesmente não ser um pouco mais justa para algumas pessoas. Porque a vida não pode ser justa para uma pessoa que decide... não, melhor, que se permite amar outra desse jeito, com essa intensidade?

E não sei o que é pior. O fato de que a chuva provavelmente já apagou o nome dela do muro, ou o fato de que ele vai escrever mais uma vez e mais uma vez e mais uma vez.

Até morrer, literalmente, de saudade, anônimo, em alguma calçada qualquer.

E ela, a dona do nome rabiscado na parede, nem vai ficar sabendo disso.

25 comentários:

Borealis disse...

"Ele é mais sentimental que eu..."

MaxReinert disse...

Isso.... para um post de final de ano é quase como colocar a lâmina nas minhas mãos!!!! humpffff

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

Você chorando na Teodoro, e eu aqui... De novo me emociono com o champ, você é demais, Rob

Bia disse...

"Fim de ano y otras cositas más... Eu não ando muito bem." (IDEM!).

A vida às vezes é injusta com quem ama de verdade, fico pensando se amar de mentira seria melhor, mas acho que não...

Nadia disse...

Eu tenho outra teoria que é muito mais aceita por mim.
O nome que ele escrevia na parede é da vaca que casou com ele, lhe roubou tudo e depois fugiu com um playboy qualquer pra praia.
Ele escreve o nome dela em todas as partes para nunca esquecer de porque ele ainda vive : VINGANÇA.

Mas achei sua versão mais bonita.
xDDD

Charlie Dalton disse...

I'll do my crying in the rain...

Eu imaginei vc nessa música do A-ha, ainda mais nesse trecho.

Espero - e muito! - que você encontre a senhora Gordon, alguém de grande coração, que corresponda ao amor que você tem dentro de você. (Minha irmã já está na fila. Ela gostou do texto "Com amor, Rob" e perguntou, brincando, se você estava disponível :P )

Que a força esteja com você, guri!

Bruna disse...

Tudo bem... todo mundo anda meio assim neste final de ano. Snif...

Kika® disse...

Mas e eu que pensei que já tinha chorado o suficiente nesse final de ano...

M. disse...

Eu sempre soube que a vida é uma vaca feladaputa injusta. Essa é só mais uma prova.

(mas não seria "Sem saber como viver sem ela"?)

Melinda Bauer disse...

Acho que eu sou otimista.Ele poderia estar simplesmente pagando uma aposta ou alguma sacanagem. Vai ver a tal dona mora por perto e ele queria fazer uma média.
Pode ser uma técnica de sedução(ainda se usa?)........

Irmão do Rob disse...

Decididamente
puxou ao pai.....

Layla Barlavento disse...

Porque o final do ano tem esse poder sobre nós? Meu maior medo é o de ficar sozinha. Sem perceber já sou e mesmo assim ainda tenho medo...

Feliz 2010 Rob, que outros bons textos preencham os dias do ano que chega cheio de esperanças!
Layla Barlavento
culpadowalter.blogspot.com

Anônimo disse...

Trilha sonora para esse post: Final Cut do Pink Floyd.

Gilgomex™ disse...

ih carai... errei de blog... esse é o Chronicles???

Tyler Bazz disse...

Uns escrevem nomes em paredes, outros postam textos em blogs.

A verdade é que a gente é um bando de homem tonto.

Mari Hauer disse...

Final de ano e eu também não ando muito bem, viu, Rob!

Bom, não foi surpresa pra mim que eu continuo chorando enquanto escrevo esse comentário. E eu sou daquelas que também fica observando as pessoas e imaginando como é a vida de cada uma, o que cada uma passou, etc. E eu vivo chorando pela rua.

E uma das coisas piores dos últimos tempos é me imaginar envelhecendo sozinha que, de tanto enlouquecer por amor, secou um dia! Talvez valha a pena viver enquanto exista nomes para escrever nas paredes. O difícil talvez seja quando eles forem esquecidos.

Um beijo,

Mari Hauer disse...

Final de ano e eu também não ando muito bem, viu, Rob!

Bom, não foi surpresa pra mim que eu continuo chorando enquanto escrevo esse comentário. E eu sou daquelas que também fica observando as pessoas e imaginando como é a vida de cada uma, o que cada uma passou, etc. E eu vivo chorando pela rua.

E uma das coisas piores dos últimos tempos é me imaginar envelhecendo sozinha que, de tanto enlouquecer por amor, secou um dia! Talvez valha a pena viver enquanto exista nomes para escrever nas paredes. O difícil talvez seja quando eles forem esquecidos.

Um beijo,

Jullia A. disse...

Eu não sou muito romântica.. não acredito muito na frase "não vivo sem você" sei lá.. não gosto de amor obsessivo. Se eu visse um velho assim eu imaginaria um pai alcólatra que perdeu a filha durante uma das bebedeiras e não consegue largar o vício. Com o passar do tempo esqueceu o rosto dela e agora escreve o nome da filha na parede pra não esquecer também. Isso dava um texto.

Daniela disse...

Rob...

Você tem o poder de me surpreender, sempre!
Cheguei a me arrepiar lendo este texto.

Otavio Oliveira disse...

adoro os crossovers do champ e do chronicles


otavio cohen

Dani. disse...

A vida sem amor é triste... porém pior ainda é uma vida de amor não correspondido.

Lindo texto, Rob!

E Feliz Ano Novo, caso eu não passe mais por aqui!

Tuíla disse...

Você é forte, cara.
Chorou e saiu.
Eu no teu lugar tinha sentado no meio fio e choramingado o resto do dia.
Até o velho vir perguntar qual o meu problema.

Deia Lopes disse...

Nossa Rob de verdade? Até eu chorei... acho que também estou com um pedaço de qualquer coisa escrevendo o nome de alguem na parede. Obrigada por escrever. Um beijo

Fabi disse...

"Ainda pensando, e me perguntando o motivo da vida simplesmente não ser um pouco mais justa para algumas pessoas."

É isso. Marejando no trabalho.

Anônimo disse...

O que você imaginou caiu no óbvio da fantasia.

Muito provavelmente não foi esse o problema do senhor. Se é que isso te consola.

Enfim.