Imagine a cena. Dia Internacional dos Cineastas. Um restaurante é escolhido para celebrar a data. Numa mesa estão Akira Kurosawa, Federico Fellini, Ingmar Bergman, Martin Scorsese, Charles Chaplin, Sergio Leone e Moacyr Góes. E este último passa o jantar inteiro explicando aos colegas como conseguiu elaborar o plano utilizado na abertura de Xuxa Abracadabra.
Entendeu o ridículo da cena? Não?
Bem, para efeito de raciocínio, podemos tentar com rock, vamos ver se funciona.
Dia Internacional do Rock. Um restaurante é escolhido para celebrar a data. Numa mesa estão John Lennon, John Bonham, Pete Townshend, Ritchie Blackmore, Eric Clapton, Bob Dylan e Dinho Ouro Preto. E este último passa o jantar inteiro explicando aos colegas como foram as gravações do Acústico MTV.
Entendeu agora? Ainda não? Vamos radicalizar, então (se você já entendeu onde quero chegar, pule os próximos três parágrafos).
Dia Internacional dos Escritores e Dramaturgos. Um restaurante é escolhido para celebrar a data. Numa mesa estão Ernest Hemingway, James Joyce, William Shakespeare, Júlio Verne, Machado de Assis, Fyodor Dostoyevsky e você. E você passa o jantar inteiro explicando aos “colegas” o enorme número de acessos que o seu blog teve no dia em que você colocou o vídeo do Sílvio Santos e a piadinha do bambu no ar.
Entendeu agora? Ainda não?
Ótimo, você acabou de me dar razão por ter usado você como exemplo.
Hoje se comemora o Blog Day. E, como toda data comemorativa, o Blog Day peca por generalizar tudo. Por definição, um blog é um diário virtual, onde o autor (ou autores) publica pensamentos, crônicas, ensaios... Basicamente, tudo o que ele quiser, da forma que ele quiser.
Porém, hoje em dia, blogs nos quais os autores apenas publicam vídeos do Youtube, fotos que todo mundo já recebeu por e-mail 300 vezes (sim, isso inclui os ensaios da Playboy), que disponibilizam downloads de programas, filmes e séries, e – pior ainda – que copiam descaradamente materiais de outros blogs, sem citar a fonte, existem em bom número por aí.
E esses “blogueiros” (aspas bem grandes mode: on) devem ter postado algo nos seus blogs sobre o Blog Day. Sim, porque essas pessoas se consideram blogueiras. Tudo porque eles possuem uma página no blogspot, ou no wordpress. E lotam aquilo de bugigangas, downloads de filmes nos quais eles não trabalharam, músicas que eles não compuseram, textos que eles não escreveram.
E exibem, orgulhosos, os contadores de visitas.
– Ah, mas eu tenho mais visitas que você, um deles diria, rindo.
Não, não tem. As 10 mil pessoas que entraram no seu blog atrás das fotos da Playboy foram atrás da mulher, e não do seu blog. Quem criou aquilo foi o JR Duran, e não você. As quatro pessoas que entraram no meu blog foram atrás do meu texto. De algo que EU criei.
E, não, não adianta você colocar um comentário do tipo “os peito dessa muié são animal! baixa aí as fotu pra vc ver!”.
Isso não é criar. Isso não é um blog.
Fazer isso não é manter um “diário onde você registra seus pensamentos”. A não ser, claro, que o seu conceito de diário seja copiar coisas dos diários dos outros. Se for o caso, você está vivendo a vida dos outros, e não a sua. E, pior ainda, está aí, todo feliz, exibindo isso para todo mundo.
Por isso que eu gostei demais da definição de blog, escrita pelo Dragus no seu post de hoje. Aliás, não é bem uma definição, mas uma regra. “Blogs priorizam conteúdo - independente de qual seja -, tanto é que hoje em dia o Google limita a quantidade de fotos que pode colocar nos blogs em 1024mb, mas não limita a quantidade de caracteres”. Perfeito. Eu não explicaria melhor.
Quer copiar e colar fotos? Monte um fotolog. Por que, se para você, escrever num diário é o mesmo que copiar e colar, aceite meu conselho: esqueça essa história de blogs. Pegue uma folha em branco, umas quatro revistas, tesoura, cola e entra para a indústria de seqüestro, seguindo a profissão de “escrevinhadô de pedidos de resgate”. Você vai se dar bem, você vai ver.
Ah, mas você está feliz com o número de acessos que seu blog teve quando você publicou aquela foto que roubou de um blog igual ao seu?
Bem, Ok.
Hoje é o Blog Day, então, parabéns. Não, não estou dando os parabéns porque você tem um blog. Você não tem blog nenhum. Dou os parabéns porque, se você faz isso, é porque você tem acesso à Internet. Então, por que não aproveita a data de hoje e sai por aí, navegando de blog para blog, lendo os textos e, quem sabe, se inspirando o suficiente para criar algo realmente seu?
Ah, seu texto é uma merda? Você acha que não sabe escrever? Você é daqueles que acha que “o time joga bem comigo e semigo”?
Não me importa. Tente.
Eu prefiro ver um texto seu repleto de erros de português, a uma foto que eu já vi 357 vezes somente essa semana.
Assim, quem sabe, em 31 de agosto de 2008 você terá os meus parabéns pelo Blog Day.
Hoje, não. Hoje eu deixo meus parabéns a todos os blogueiros que não se identificaram com esse texto. Sim, isso inclui aqueles que escrevem textos longos, com parágrafos com mais de quatro linhas e cheios de polissílabas.
Desculpe derrubar seu castelinho de cartas, mas o Blog Day é dessas pessoas, e não seu. Tente de novo no ano que vem.
Boa sorte.
P.S. – Está rolando uma corrente na Internet, em comemoração ao dia de hoje, no qual cada blogueiro indica aos leitores cinco blogs que ele gosta. Não vou fazer isso hoje, porque não quero misturar o nome de cinco blogs bons com os blogs aos quais essa carta se dirige. Amanhã, publico a minha.









