Marcha para Vitória - Parte I
Deveria ter sido um fim de semana perfeito. O casamento de dois amigos queridos em Vitória (que rendeu este texto de presente para eles) coincidiu justamente com um período mais tranqüilo na redação. Assim, deixei a Besta-Fera aos cuidados de um amigo, coloquei o terno na mala e fui.
Ou, ao menos, tentei. Afinal, como se trata de mim, a viagem foi cheia de problemas. Ou, melhor ainda, apenas um problema (que, em contato comigo, deu início a uma reação química intensa, que desencadeou uma série de outros problemas das mais variadas cores e tamanhos possíveis): o aeroporto de Vitória estava fechado devido ao mau tempo.
Na verdade, eu já deveria ter desconfiado de que algo daria errado aconteceria quando saí de casa e percebi que estava sem cinto. O problema de andar sem cinto não é a calça caindo, mas sim o fator multiplicador disso: todo problema que você tem cresce em até dez vezes quando suas calças estão caindo.
Aparentemente, uma espécie de Katrina cover estava se apresentando em Vitória. Eu, claro, não sabia de nada disso e entrei em Congonhas, na sexta de manhã, com minha passagem da Gol (comprada há mais de um mês).
Fui recebido com sorrisos pela atendente:
− Não existem vôos para Vitória saindo agora, senhor.
− Existem sim. A prova disso é que eu comprei uma passagem para Vitória semanas atrás. E o vôo sai daqui.
− Sinto muito, mas o aeroporto de Vitória está fechado devido ao mau tempo.
Suspirei. O grande defeito do mau tempo é que ninguém pode ser responsabilizado por ele.
− Bem, eu tenho um casamento em Vitória amanhã. A que horas você acha que os vôos para lá começam a decolar?
− Só na segunda-feira.
− Não, isso não vale. Eu perguntei “horas” e não “dias”. Vamos tentar de novo: a que horas você acha que os vôos para Vitória começam a decolar?
− Somente na segunda-feira.
− Mas hoje é sexta!
− Nossa expectativa é que o tempo melhore somente na segunda-feira.
− Quatro dias? Por acaso você é descendente direta de Noé? Nós estamos falando de uma chuva, não de um cataclisma.
−Senhor, a situação lá está bem feia. Nenhum avião consegue pousar ali. O senhor só conseguirá chegar lá na segunda-feira. E isso, com sorte.
Pensei em prosseguir com a teoria de Noé. Com sorte, a Profeta do Dilúvio estaria construindo uma arca para viajar até Vitória e salvar um casal de cada espécie. Com um pouco mais de sorte ainda, eu conseguiria transferir minha passagem para a Arca e chegaria ao Espírito Santo.
Entretanto, mudei de idéia quando lembrei que eu sou eu. Ou seja, capaz de eu conseguir lugar apenas junto dos macacos (“as outras jaulas estão lotadas, senhor, por causa do feriado”), e viajar centenas de quilômetros no canto da jaula, tentando me proteger, enquanto os macacos passavam o tempo jogando merda em mim.
− Então, me ajude aqui. Eu tenho um casamento. As pessoas não vão remarcar o casamento por minha causa. Ainda se eu fosse o noivo, ou a noiva, até daria para fazer algo. Mas nem padrinho eu sou.
− Sinto muito, senhor. O senhor só conseguirá pousar na segunda-feira.
− Eu não estou pedindo para você abrir o aeroporto de Vitória. Estou pedindo alternativas. Por exemplo, você não consegue me colocar num vôo para o Rio de Janeiro? Aí, de lá, eu pego um ônibus.
− Não há vôos para o Rio de Janeiro, senhor.
− Não vai dizer que é por causa da chuva, certo? Se for, eu pego uma capa, não tem problema.
− É por causa do feriado. Só há vôos para o Rio de Janeiro amanhã. Todos os outros estão lotados.
− Ok. Para onde você tem algum vôo que poderia me ajudar?
− Tenho um para Porto Seguro, às 15:30.
− Não, você não entendeu. Isso é depois do Espírito Santo. Eu quero ir de São Paulo para o Espírito Santo e você está me aconselhando ir até o Nordeste. Não faz sentido.
− Mas lá o aeroporto está aberto.
− Eu não quero apenas viajar no feriado. Porto Seguro deve ser muito bonito, todo mundo faz viagem de formatura para lá, mas eu preciso mesmo é ir para Vitória.
− Entendo senhor.
− Acredito que mais gente tem passado por esse problema com Vitória, certo?
− Sim, senhor.
− E o que elas estão fazendo? Que solução vocês estão dando?
− Nós estamos devolvendo o dinheiro dos clientes.
− Ou seja, não tem solução.
− Sinto muito, senhor. Mas o aeroporto de Vitória...
− Está fechado por causa da chuva. Sim, eu sei.
Devolvi minha passagem e recebi o comprovante do reembolso. Peguei o celular, liguei para o meu amigo-noivo:
− Estou indo de ônibus.
Olhei no relógio: meio-dia. Num mundo perfeito, eu chegaria a Vitória às 14:00. Mas, como o mundo está longe de ser perfeito (pior, ele é robgordoniano), eu chegaria, com sorte, às 7:00 do dia seguinte.
Assim, coloquei a mala nas costas, levantei as calças e saí em direção à rodoviária. Mal sabia eu que a viagem estava, literalmente, só começando.
(continua aqui)





