31 de outubro de 2009

Marcha para Vitória - Parte I

Deveria ter sido um fim de semana perfeito. O casamento de dois amigos queridos em Vitória (que rendeu este texto de presente para eles) coincidiu justamente com um período mais tranqüilo na redação. Assim, deixei a Besta-Fera aos cuidados de um amigo, coloquei o terno na mala e fui.

Ou, ao menos, tentei. Afinal, como se trata de mim, a viagem foi cheia de problemas. Ou, melhor ainda, apenas um problema (que, em contato comigo, deu início a uma reação química intensa, que desencadeou uma série de outros problemas das mais variadas cores e tamanhos possíveis): o aeroporto de Vitória estava fechado devido ao mau tempo.

Na verdade, eu já deveria ter desconfiado de que algo daria errado aconteceria quando saí de casa e percebi que estava sem cinto. O problema de andar sem cinto não é a calça caindo, mas sim o fator multiplicador disso: todo problema que você tem cresce em até dez vezes quando suas calças estão caindo.

Aparentemente, uma espécie de Katrina cover estava se apresentando em Vitória. Eu, claro, não sabia de nada disso e entrei em Congonhas, na sexta de manhã, com minha passagem da Gol (comprada há mais de um mês).

Fui recebido com sorrisos pela atendente:

− Não existem vôos para Vitória saindo agora, senhor.

− Existem sim. A prova disso é que eu comprei uma passagem para Vitória semanas atrás. E o vôo sai daqui.

− Sinto muito, mas o aeroporto de Vitória está fechado devido ao mau tempo.
Suspirei. O grande defeito do mau tempo é que ninguém pode ser responsabilizado por ele.

− Bem, eu tenho um casamento em Vitória amanhã. A que horas você acha que os vôos para lá começam a decolar?

− Só na segunda-feira.

− Não, isso não vale. Eu perguntei “horas” e não “dias”. Vamos tentar de novo: a que horas você acha que os vôos para Vitória começam a decolar?

− Somente na segunda-feira.

− Mas hoje é sexta!

− Nossa expectativa é que o tempo melhore somente na segunda-feira.

− Quatro dias? Por acaso você é descendente direta de Noé? Nós estamos falando de uma chuva, não de um cataclisma.

−Senhor, a situação lá está bem feia. Nenhum avião consegue pousar ali. O senhor só conseguirá chegar lá na segunda-feira. E isso, com sorte.

Pensei em prosseguir com a teoria de Noé. Com sorte, a Profeta do Dilúvio estaria construindo uma arca para viajar até Vitória e salvar um casal de cada espécie. Com um pouco mais de sorte ainda, eu conseguiria transferir minha passagem para a Arca e chegaria ao Espírito Santo.

Entretanto, mudei de idéia quando lembrei que eu sou eu. Ou seja, capaz de eu conseguir lugar apenas junto dos macacos (“as outras jaulas estão lotadas, senhor, por causa do feriado”), e viajar centenas de quilômetros no canto da jaula, tentando me proteger, enquanto os macacos passavam o tempo jogando merda em mim.

− Então, me ajude aqui. Eu tenho um casamento. As pessoas não vão remarcar o casamento por minha causa. Ainda se eu fosse o noivo, ou a noiva, até daria para fazer algo. Mas nem padrinho eu sou.

− Sinto muito, senhor. O senhor só conseguirá pousar na segunda-feira.

− Eu não estou pedindo para você abrir o aeroporto de Vitória. Estou pedindo alternativas. Por exemplo, você não consegue me colocar num vôo para o Rio de Janeiro? Aí, de lá, eu pego um ônibus.

− Não há vôos para o Rio de Janeiro, senhor.

− Não vai dizer que é por causa da chuva, certo? Se for, eu pego uma capa, não tem problema.

− É por causa do feriado. Só há vôos para o Rio de Janeiro amanhã. Todos os outros estão lotados.

− Ok. Para onde você tem algum vôo que poderia me ajudar?

− Tenho um para Porto Seguro, às 15:30.

− Não, você não entendeu. Isso é depois do Espírito Santo. Eu quero ir de São Paulo para o Espírito Santo e você está me aconselhando ir até o Nordeste. Não faz sentido.

− Mas lá o aeroporto está aberto.

− Eu não quero apenas viajar no feriado. Porto Seguro deve ser muito bonito, todo mundo faz viagem de formatura para lá, mas eu preciso mesmo é ir para Vitória.

− Entendo senhor.

− Acredito que mais gente tem passado por esse problema com Vitória, certo?

− Sim, senhor.

− E o que elas estão fazendo? Que solução vocês estão dando?

− Nós estamos devolvendo o dinheiro dos clientes.

− Ou seja, não tem solução.

− Sinto muito, senhor. Mas o aeroporto de Vitória...

− Está fechado por causa da chuva. Sim, eu sei.

Devolvi minha passagem e recebi o comprovante do reembolso. Peguei o celular, liguei para o meu amigo-noivo:

− Estou indo de ônibus.

Olhei no relógio: meio-dia. Num mundo perfeito, eu chegaria a Vitória às 14:00. Mas, como o mundo está longe de ser perfeito (pior, ele é robgordoniano), eu chegaria, com sorte, às 7:00 do dia seguinte.

Assim, coloquei a mala nas costas, levantei as calças e saí em direção à rodoviária. Mal sabia eu que a viagem estava, literalmente, só começando.

(continua aqui)

29 de outubro de 2009

As Aventuras de Robgordix, o Gaulês

"Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos... Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor. E a vida não é nada fácil para as guarnições de legionários romanos nos campos fortificados de Babaorum, Aquarium, Laudanum, e Petibonum...”.

Eu sempre fui louco por quadrinhos.

Não me lembro de ser gente e não estar com uma revista em quadrinhos ao meu lado. Comecei com Disney, Mônica e Luluzinha; pulei para super-heróis; e de lá para graphic novels mais elaboradas – mas nunca deixei o velho Tio Patinhas de lado. Hoje, leio qualquer quadrinho que cair na minha mão.

Na verdade, posso dizer que meu gosto pela leitura nasceu dos quadrinhos. Indo um pouco mais além: dificilmente, eu escreveria hoje se não gostasse tanto de ler; ou seja, dificilmente eu teria este blog se não tivesse me aventurado pelos quadrinhos quando criança.

Afinal, este amor pela leitura começou no final dos anos 70, com este que vos escreve sentado no chão da sala, rodeado de aventuras vividas por dois personagens: O Fantasma, de Lee Falk; e Asterix.

Isso porque, em casa, todo mundo adorava as histórias do Fantasma e, principalmente, do Asterix (incluindo aí minha mãe, para vocês morrerem de inveja da família que tenho). Eram os personagens preferidos do clã.

Assim, eu – tanto faz se por herança genética ou por gosto adquirido – ficava sentado no chão da sala, mesmo sem saber ler, observando os quadrinhos (ignorando aqueles balões brancos cheios de símbolos que eu não entendia) e tentando adivinhar o que estava acontecendo na história.

Mas, às vezes, não dava. Às vezes eu levantava e ia até meu pai. Mostravaa revista e perguntava:

– Por que eles estão brigando?

– Do que eles estão rindo?

– O que ele está falando nesse quadrinho?

Meu pai, pacientemente, não apenas me explicava o que estava acontecendo, como ainda me dava uma geral sobre a história como um todo: assim, eu voltava para o chão e olhava os desenhos ainda mais atentamente, desta vez levando em conta as informações que ele tinha me passado.

Ser pai não deve ser fácil, mas ser meu pai deve ter sido mais difícil ainda, já que, enquanto ele me explicava a história, eu ainda ficava, repetidamente, mergulhando o dedo no copo de whisky dele, e chupando.

E a recompensa que ele teve por isso? Ganhou mais um rival. Porque, quando eu era pequeno e ele aparecia com um Asterix novo, chegava a dar briga em casa, para ver quem iria ler primeiro. Assim, quando eu aprendi a ler, resolvi batalhar pelo meu espaço dentro de casa, e entrei na briga também. E até ganhei algumas vezes.

Então, não sei se posso dizer que aprendi a ler em casa (provavelmente não, mas quando comecei a ser alfabetizado na escola, eu já estava familiarizado com algumas palavras), mas posso dizer, com certeza, que aprendi a gostar de ler em casa.

E devo isso ao meu pai, já que todo Natal, entre as malditas roupas e os maravilhosos brinquedos, eu ganhava pelo menos um par de livros infantis. Ok, sejamos sinceros: quem comprava os livros era minha mãe, mas, como nos cartõezinhos estava escrito “de papai para Rob”, estes presentes contam como sendo dele.

De lá para cá, foram livros, livros e mais livros devorados. Não sei exatamente onde, quando ou como eu aprendi a escrever como eu escrevo hoje - independente da qualidade do meu texto – mas estes livros me ajudaram muito nisso.

E isso é algo que eu devo única exclusivamente ao meu pai e ao Asterix – sendo que este último completa 50 anos exatamente hoje, 29 de outubro de 2009. 50 anos! Hoje é dia de comer javali, de encher a cara de cerveja e vinho até gritar “ferpeitamente!” batendo na mesa e de socar romanos.

Hoje, é dia de temer apenas que o céu caia sobre nossas cabeças.

Sério, não cabe dizer aqui o que é Asterix: se você não conhece, vá atrás, pois é uma das histórias em quadrinhos mais deliciosamente engraçadas e inteligentes (sim, inteligentes, porque ali tem referências histórias em cima de referências histórias) já criadas. Cabe apenas dizer que Asterix faz parte da minha história. E não me refiro à formação cultural, mas sim a minha formação como pessoa.

Apenas como um exemplo divertido da importância que ele tem na minha vida, eu me decepciono toda vez que assisto a um épico ambientado em Roma e descubro que o Júlio César não é igual ao Júlio César do Asterix.

Resumindo: meus filhos (ou, melhor dizendo, neste caso, os netos do meu pai) vão ler Asterix desde antes de aprender a ler, no chão da minha sala. Afinal, tradições precisam ser mantidas.

Assim, como presente pelos 50 anos do guerreiro gaulês, deixo com vocês a “foto” mais sensacional do planeta:

(Clique para aumentar. Vale a pena.)

E, antes de terminar o post, o Top 5 Meus Álbuns Preferidos de Asterix:

1. O Combate dos Chefes – É o MEU álbum. Já li centenas de vezes, e gargalho em todas elas.

2. Asterix Legionário – foi o primeiro álbum que eu me lembro de ter lido (lido, mesmo, e não apenas olhado os quadrinhos). Lembro que meu pai comprou no aeroporto, voltando de alguma viagem.

3. Asterix entre os Bretões – “Posso ter um pingo de leite na minha quente água?”

4. Asterix e a Cizânia – É o álbum que conta com Tulius Detritus, o homem que “quando foi jogado no Coliseu fez com que os leões começassem a se devorar”.

5. Asterix e o Adivinho – O nome do adivinho: Prolix! Quer coisa mais genial que essa?


Nota:
Chatotorix foi amarrado e amordaçado, impedido de cantar enquanto você lia este texto.


(Este post é dedicado a meu pai, que deve ter chorado enquanto lia.
Ou começou a chorar agora.)

28 de outubro de 2009

Top 5 - Palavras

Criança tem cada uma.

Quando eu era criança, o mundo era um lugar bem mais simples – ao menos, para mim. Mas as palavras... Eu me atrapalhava com um punhado delas. Hoje, brincando de escritor, tenho uma espécie de licença para brincar com elas – o que é bom, já que algumas delas continuam me perturbando. Sim, perturbando é o termo exato.

Assim, num post corrido, segue o Top 5 Palavras que Estragam meu Cérebro Desde a Infância:

1. Sorocaba – Para mim, Sorocaba sempre teve nome de caroço. Que me desculpem os sorocabanos se isso soa ofensivo – e deve soar mesmo – mas nunca foi minha intenção. Aliás, Sorocaba não tem nome de caroço, tem som de caroço. Ou melhor, som de alguém cuspindo um caroço. Imagine alguém comendo uma azeitona e cuspindo o caroço, para frente, com força: para mim, o ato da cuspida sempre teve o som de “Sorocaba”. “Soro” seria o som do caroço sendo cuspido, enquanto “Caba” seria o barulho do caroço batendo numa parede qualquer. E ricocheteando, porque caroço que é caroço tem que sempre ricochetear e acertar alguém.

2. Supremácia – Quando eu era moleque, descobri um jogo chamado Supremacia, que parecia uma mistura de War com Banco Imobiliário. Eu enlouqueci com aquilo, e pedia o jogo todo dia para a minha mãe. Mas eu não sabia falar supremacia, falava supremácia. Repeti tanto isso que a palavra acabou sendo incorporada ao meu vocabulário, num sentido totalmente distorcido: supremácia, para mim, seriam as hemácias-chefes, correndo pelo sangue ditando ordens para as hemácias, que são apenas operárias. “Limpem aquela doença!”, “O que está havendo no rim?”. Quando as supremácias entram numa sala, as hemácias comuns já ficam nervosas. São temperamentais, as supremacias. E, de vez em quando, resolvem fazer um corte no pessoal, e mandam o sangue ruim para fora do corpo – justamente quando arrumam um corte (na pele) para isso.

3. Franganês – Quando era criança de tudo, eu não sabia falar framboesa. Ou seja, as balinhas Sete Belo, para mim, eram balas de franganês. Até hoje, minha família brinca sobre isso comigo. A coisa ficou clássica porque eu era viciado em bala de franganês. Ou framboesa, vai saber. Comia o tempo todo. Hoje, com 34 anos, eu sei falar framboesa, mas a palavra franganês continua fazendo parte do meu vocabulário. Franganês, para mim, é aquele menininho fraco, branquelo e tímido, que é alvo de piadas e tem medo de tudo. Não sei se é porque franganês lembra “frango”, mas não consigo apagar a palavra – ou o seu significado – do meu cérebro. Para mim, o cúmulo de ser franganês é na educação física, quando um menino ameaça chutar a bola para o gol; enquanto um garoto normal partiria para cima, tentando bloquear o chute, o menino franganês iria colocar as mãos na frente do rosto, para se proteger. E, quando fosse muito franganês, ainda iria se virar de costas. Mas é um esforço inútil, porque mais cedo ou mais tarde o menino franganês sempre acaba levando uma bolada que o tira do jogo.

4. Dudinka – Essa também nasceu jogando War. Apesar de eu ter conhecido muitas palavras ali, como Omsk e Vladivostok, sempre fui fascinado por Dudinka. E meu cérebro nunca conseguiu distorcer muito seu significado: Dudinka era um lugar, já que estava num mapa. Assim, eu ficava imaginando como seria a vida em Dudinka. A capital, claro, se chamaria Dudinka, e lá se falaria o Dudinquês. O povo – governado por um rei – tem certa influência árabe, com diversos minaretes espalhados pela região e andavam com batas e turbantes. E todos são barbudos, e bens de vinda. Em Dudinka, não se joga futebol, só bocha, porque é mais tranqüilo. E não sei porque, só andam de Cadillac. Você anda pelas ruas de Dudinka (a cidade) e vê Cadillacs conversíveis andando para cima e para baixo. Já no interior, planta-se alface. Quilômetros e quilômetros de alface. E, por mais que eu morra de vontade de conhecer Dudinka, tenho receio de colocar os pés ali, e ver que o lugar não é nada daquilo que eu imaginei.

5. Hortaliça – Hortaliça, para mim, sempre foi uma palavra apetitosa. É só eu pensar em hortaliça que fico com água na boca. Isso porque uma hortaliça, para mim, sempre foi algo diferente de salada. Na verdade, é algo meio complicado: eu sei que as hortaliças são verduras, e a salada também tem verduras, mas são coisas diferentes. O prato de salada que minha mãe me obrigava a comer era apenas uma salada, meio sem graça; já as hortaliças... Meu cérebro sempre pintou a cena de campos e campos, meio montanhosos, de hortaliças plantadas e esperando para serem colhidas (como as alfaces em Dudinka). E estas hortaliças eram mais apetitosas, mais gostosas, mais... Mais... Mais roliças, talvez. Eu sempre quis comer uma salada de hortaliças, mas nunca consegui. Toda vez que como salada na casa da minha mãe – ou quando me arrisco a pedir salada num restaurante – recebo apenas isso: salada. Por isso que as hortaliças ainda são um mito para mim: já comi salada muitas vezes, mas nunca consegui comer uma hortaliça.

27 de outubro de 2009

Mão de Obra

Escolhe o texto.

Corta.

Edita.

Corrige.

Revisa.

Dá uma gargalhada com uma piada da qual não se lembrava mais.

Fica puto com um trecho que, hoje, soa mal escrito, quase amador.

Revisa novamente.

Corrige.

Escolhe outro texto.

Começa tudo de novo.

Está no forno. Mas está saindo.

23 de outubro de 2009

Pesquisa de Mercado

1 – Você compraria um livro com cerca de 80 ou 100 posts do Champ? (talvez alguns do Chronicles?)

2 – Ter textos inéditos no livro seria determinante para sua compra?

3 – Você iria preferir um “best of” ou todos os textos, na ordem de publicação?

21 de outubro de 2009

Apocalypse Now

Aviso aos leitores: este texto foi costurado usando as sugestões dos comentaristas do post anterior, que indicaram o que deveria (ou deverá?) acontecer no fim do mundo, em 2012. Sugiro que antes de ler o texto, leia os comentários que deram origem a ele.

Aviso aos comentaristas: antes de mais nada, obrigado pelos comentários e sugestões! Juro que tentei usar idéias de todos, mas costurar tudo foi extremamente difícil, especialmente porque algumas contradiziam outras. Assim, se a idéia que você achou genial não foi usada - porque com certeza algo escapou aqui –, não foi por descaso, mas sim por bater de frente com outras que haviam sido escolhidas.

Sem mais delongas, vamos ao final do mundo – como prometido, em versículos. Espero que gostem:



O Apocalipse segundo o Championship Vinyl


1. E eis que pouco mais de 2000 anos após a vinda do Nosso Senhor, o mundo estará entregue ao pecado. 2. Graças ao 13º salário, os pecadores se preocuparão apenas em gastar, sem louvar a Santa Palavra. 3. Crediários serão abertos, prestações efetuadas, excentricidades cometidas. 4. E assim, Nosso Senhor fará uma reunião com os arcanjos e disparará seu comando durante o brunch. 5. “Formatai tudo, está dando pau”, dirá o Senhor, e Sua voz fará tremer o chão e escurecer os céus.

6. Na Terra, alguns profetas ouvirão a voz do Senhor e anunciarão a proximidade do fim dos tempos. 7. Varotto largará seu blog e andará pelas ruas repetindo as centúrias do antigo adivinho, sendo tachado de louco. 8. Leila Lopes terá uma visão do Sol ficando azul, mas não escreverá centúria alguma pela dificuldade em soletrar corretamente a palavra apocalipse. 9. E os pecadores ignorarão os avisos e continuarão gastando dinheiro como filisteus.

10. Assim, no vigésimo primeiro dia do décimo segundo mês do décimo segundo ano, o céu se abrirá numa explosão. 11. E dele sairão quatro amazonas vestidas de negro. 12. Xuxa, Márcia Goldschmidt, Carla Perez e Maísa. 13. E cruzarão os ares, montadas em alazões negros e com olhos de fogo. 14. Menos Maísa, que singrará os céus num velotrol negro.

15. E o mundo se transformará, conforme os anjos, cumprindo as ordens do Senhor, apagarão os arquivos do planeta. 16. A inscrição format C: surgirá nos céus, escrita em chamas. 17. Rios de lava feita de modo tosco e com baixo orçamento descerão a Teodoro Sampaio, queimando os pés e tornozelos dos pecadores. 18. O primeiro a morrer é o autor do blog que ataca a humanidade, pois o rio não dava pé para ele. 19. E seu blog será destruído por um arcanjo a golpes de espadas e berros de “não deu certo mesmo!”.

20. As nuvens se fecharão e, ao invés de enxofre, canções do Calypso choverão pelo planeta. 21. Refrões de Brega Fó e Merengue Sensual escorrerão pelos prédios, derretendo as construções. 22. É o Apocalypso. Os ouvidos dos pecadores sangrarão. 23. Maísa, impressionada pela destruição e com piedade dos homens, irá chorar. 24. O Ministério Público, antes de ser derretido, propagará que aquilo não é ambiente para uma criança e mandará a menina de volta para casa.

25. Os pecadores, desesperados, correrão para suas casas em busca de abrigo. 26. Televisões do mundo inteiro exibirão High School Musical. 27. A exceção será o Canal do Baú, que reprisará mais uma vez A Gangue dos Dobermans. 28. Fiéis irão às ruas acusando Zac Efron de ser o Anticristo. 29. Nas rádios, se ouvirá apenas a voz de um demônio, que repetirá frases como “Fim do Mundo, a gente se vê por aqui” e “Olodum, o ritmo do armagedon!”.

30. Após terremotos e maremotos, o Speedy funcionará sem problemas. 31. E os pecadores saberão que essa será a gota de lava. Não haverá salvação. 32. Pessoas se jogarão dos prédios e correrão para as ruas. 33. Os atendentes de telemarketing se levantarão das mesas e assombrarão o mundo. 34. Perseguirão as pessoas vendendo planos da Tim e assinaturas da Folha de São Paulo. 35. Milhares perecerão sob uma chuva de comprovantes de compras em débito eletrônico.

36. Rumores de uma lula gigante destruindo cidades correrão o mundo. 37. Alan Moore irá declarar que se for outra adaptação da Watchmen, ele não irá assistir. 38. Os mares, tocados pelos arcanjos, se abrirão para dar passagem a um poderoso demônio. 39. E os pecadores que ali estiverem serão tragados pelas ondas. 40. No fundo do mar, encontrarão um bilhete. 41. “Estou fora do escritório hoje. Para assuntos urgentes, favor contatar Mestre dos Magos pelo e-mail m.magos@cavernadodragao.com. Grato. Vingador”.

42. Nas ruas de São Paulo, Maísa irá chorar pela segunda vez, após ter sua espada roubada enquanto ia para casa. 43. A cidade será fulminada com um raio disparado pela pequena amazona. 44. A blogueira que virou notícia se arrastará pelas ruas atrás de água. 45. As blogueiras que enriqueceram em jogos de azar serão retidas por um(a) unicórnio. 46. E o demônio do rádio mostrará seu rosto e sairá às ruas, ao lado do Olodum, para escolher, entre os sobreviventes, aqueles que descerão ao inferno e aqueles que subirão aos céus. 47. Sobre uma Kombi, portando o nome dos escolhidos que ascenderão ao lado do Senhor, perguntará aos berros: “Quem é que soooobe?”

48. E o mundo se acabará em chamas, fogo e telemarketing. 49. E, no dia seguinte, sobrarão apenas duas baratas. 50. E Carla Perez, que não conseguirá se lembrar onde estacionou seu cavalo. 51. “Eu falei que ia dar merda”, propagará uma das baratas. 52. “Bom, agora, ao menos, teremos um pouco de sossego. Quer mais lixo?”, responderá a outra. 53. O mundo se estenderá em ruínas. 54. E Nosso Senhor abrirá as gavetas para procurar o Seu CD do Windows. 55. “O saco é reinstalar tudo de novo”, suspirará, desanimado.

56. E, em algum lugar do universo, os maias gargalharão.

19 de outubro de 2009

It's the End of the World as We Know it

Este fim-de-semana assisti a Distrito 9, e tive uma grata surpresa: achei o filme um dos melhores do ano, até agora. Está longe de ser perfeito, mas, em meio à falta de criatividade atual, é um excelente filme. Mas não quero falar sobre ele, pois já está hypado demais, qualquer coisa que eu falar já foi dita. Quero falar mesmo sobre o trailer de 2012, que foi exibido antes do filme.

Por causa dele, passei o domingo inteiro pensando no fim do mundo. Ia escrever sobre isso ontem mesmo no blog, mas, como o mundo vai acabar só daqui a dois anos, para que ter pressa?

Enfim, fui dar uma pesquisada sobre a tal profecia de 2012, pois, até agora, só sabia que ela de autoria dos maias. Assim, descobri que o fim do mundo está agendado para 21 de dezembro de 2012, o que só comprova outra profecia (esta, da minha autoria): que, só de sacanagem, o mundo acabaria numa sexta-feira.

Agora, isso, claro, se os maias estiverem corretos. Caso algum maia esteja lendo este blog, peço desculpas antecipadamente, mas é fácil demais você apontar um dia como o fim do mundo, sendo que você não está aqui para prestar contas disso. Sim, porque os poucos maias que sobraram nos Andes não parecem estar muito preocupados com isso. Eu, pessoalmente, levaria essa profecia muito mais a sério se os maias tivessem deixado um e-mail para contato, ou, melhor ainda, um 0800 para você ligar e esclarecer dúvidas.

Enfim, parece que o resto do mundo comprou a idéia, tanto que o fim do mundo já tem até site oficial. Assim, vamos partir do princípio que o mundo vai acabar mesmo e dar os meus pitacos sobre como isso irá acontecer. Afinal, se os maias podem, eu posso também. E, cá entre nós, ao menos eu tenho um e-mail para contato em caso de eventuais reclamações (lá na barra superior, à esquerda).

Antes de tudo, vamos pensar na data: 2012. Ou seja, digam adeus a Copa do Mundo no Brasil e às Olimpíadas do Rio. Toda a festa feita com essas conquistas será em vão, já que dificilmente a Fifa ou o COI permitirão provas esportivas em meio a chuva de meteoros, atmosfera de enxofre e outros clichês do fim do mundo. E uma coisa é certa: com certeza, o Kiss vai aproveitar a deixa e excursionar pelo planeta, com a End of the World Tour, com ingressos a preços exorbitantes.

Mas estou colocando o carro na frente dos bois. Não quero pensar nas conseqüências, mas sim em como o mundo vai acabar. Assim, fui dar uma pesquisada também sobre o Apocalipse, que é praticamente o guia oficial do fim do mundo, mas acabei me decepcionando. Aquilo precisa de uma adaptação urgente, é tudo muito ultrapassado.

Hoje em dias as coisas seriam totalmente diferentes.

Exemplos? Bom, o fato dos mortos se levantarem das tumbas dificilmente seria um sinal do fim dos tempos, pois isso acontece com freqüência – sempre que começa o horário político na TV. Outro furo: os rios virarem sangue. Sinceramente, quem é de São Paulo sabe que se o Tietê virar sangue, é sinal de que as coisas estão melhorando para os lados do rio, e não de que o mundo está acabando.

Assim, eu acho que o fim do mundo – seja ele em 2012 ou não – acontecerá de outra forma. Enfim, por mais que eu tenha algumas previsões – algumas delas envolvendo telemarketing, programação da televisão e minha síndica – o fim do mundo é algo grande demais para mim.

Assim, minha proposta é a seguinte: enviem suas sugestões do que deveria acontecer no apocalipse pelos comentários – ou por mail, para os mais tímidos – e eu me proponho a costurar tudo o que me enviarem num próximo post, em forma de evangelho, com versículos e tudo mais.

Resumindo, de cavaleiros do apocalipse à pragas divinas, mãos à obra: enviem sugestões para o apocalipse mais "ô fase" que vocês puderem imaginar, e deixem o fogo e o enxofre por minha conta.

Aguardo ondas e ondas de destruição.

16 de outubro de 2009

Pequeno Diálogo Noturno

Quem tem um pouco mais de contato comigo sabe que eu não venho mais à redação. Eu me tornei uma entidade que simplesmente não sai mais daqui. Meus amigos me ligam no celular, e, quando perguntam se eu estou na redação, eu respondo: “não, eu sou na redação”.

Isso porque o volume de trabalho aumentou muito aqui nas últimas semanas. Para vocês terem uma idéia, eu digitei este post enquanto falava no telefone com um diagramador. Eu olhava a print ao meu lado, explicava as alterações e, enquanto ele fazia, eu continuava digitando o post, até ele terminar de fazer o que eu pedia, e irmos para a próxima página.

Mas estou me alongando. Meu ponto é: nunca foi difícil eu sair daqui no meio da madrugada, naquele esquema “vai para casa, toma um banho, senta no sofá, fecha os olhos, abre os olhos, levanta, vai para o trabalho”, mas atualmente, isso está bastante freqüente. Paciência. Faz parte.

Não vou negar que rendo melhor nesse horário. Meus textos – profissionalmente ou aqui mesmo, no blog – são melhores quando eu escrevo de madrugada. Mas não pensem que eu fico trabalhando até as 2 da manhã porque quero, é porque preciso.

Digo isso porque o porteiro aqui do prédio – sim, aquele mesmo de quem eu já falei algumas vezes aqui – acha que eu passo as madrugadas aqui sem fazer nada. Provavelmente, ele deve pensar que eu espero ansiosamente ficar sozinho na redação durante a noite para ligar música alta e ficar dançando, apostando corrida comigo mesmo, fazendo embaixadinhas com bola de papel, ou algo parecido com isso.

Some isso ao fato de que, para ele, o interfone nada mais é que um instrumento que fornece acesso direto a algum Disk-Amizade e pronto. Ele começa a ligar para mim, no meio da madrugada, para falar nada. Sem problemas. Afinal, como eu passo as madrugadas descalço e sem camisa, pulando de uma mesa para outra na redação, ao som de (I’ve Had) The Time of my Life, eu tenho tempo de sobra para conversar. Ao menos, na mente dele.

Assim, reproduzo abaixo o diálogo ocorrido última quarta-feira:

– Rob?

– Eu.

– Queria saber se você está aí.

– É, estou.

– Porque o sistema da catraca eletrônica diz que você está aí.

– Aparentemente, o sistema tem razão. Eu estou.

– Mas eu achei bom interfonar para checar.

– Ok.

– Então, você está aí?

– Evidente.

– Ó-ká.

– Só isso?

– Só.

– Beleza.

– Você vai demorar para sair?

– Uma meia hora. Acho.

– Não, pode ficar mais.

– Oi?

– Se você precisar ficar mais, pode ficar.

– Eu sei disso. Faz oito horas que eu já estou ficando mais.

– Mas não precisa ir embora daqui a meia hora, se quiser.

– Mas eu quero.

– Fique à vontade aí, viu?

– Eu não estou à vontade aqui. Eu estou trabalhando. Eu quero justamente ir para casa para ficar à vontade lá.

– Ó-ká.

– Ok.

– ...

– Seu Porteiro?

– Oi.

– Era só isso?

– Só.

– Beleza.

– Mas a hora que você for embora, você me avise, por favor.

– Seu Porteiro, a hora que eu for embora, eu vou passar pela portaria, que é onde você está, porque você terá que abrir o portão para mim. Eu não preciso avisar você.

– Ah, é.

– Olhe, eu realmente preciso continuar trabalhando aqui.

– Não, tudo bem. Fique à vontade, pode sair à hora que quiser.

– Não é isso. Eu vou desligar o interfone, ok?

– Ó-ká.

Assim, eu desligo e volto para a minha mesa. Não sei se ele fica na portaria ligando para os outros conjuntos, até ser atendido por alguém. E eu continuo trabalhando aqui – ou dançando, dependendo de qual versão você acredita – até a hora de ir embora.

E aí é outro parto, porque, invariavelmente, quando eu coloco os pés na portaria, eu sou obrigado a reviver esse post aqui, integralmente. Ô fase.

A propósito, nos últimos dias, publiquei bastante coisa no Champ-Chronicles, com os textos Retrato, O Último Dia Igual aos Outros, O Negócio do Cara e Borboleta. Divirtam-se!

13 de outubro de 2009

(Falta de) Fôlego

É sério.

tem dias que a coisa simplesmente não funciona você acorda sai de casa dá o melhor de si em tudo o que faz e parece que nada certo você tira uma merda do caminho e surgem outras três logo em seguida e seus prazos estão acabando e você acha que não vai dar tempo entra em desespero e aí que você não consegue fazer mais nada mesmo e almoça engolindo a comida com pressa e deixando metade da bebida no copo e volta para sua mesa o telefone toca e o e-mail que você está esperando não chega e o celular toca e não é nada do que você precisa e o sms que você está esperando não chega e as pessoas vão colocando coisas na sua mesa e vai tudo acumulando cada vez mais e você não consegue se concentrar no texto dificílimo que está fazendo porque não param de chamar você e as coisas que você pede para as pessoas sempre recebe um não sei se vai dar como resposta e não consegue nem encontrar com a própria mãe no aniversário dela porque não conseguiu arrumar tempo e se sente um idiota por causa disso e tudo o que você quer é ir para casa e dormir ou comprar um cd e ficar ouvindo em paz mas aí você lembra que é adulto e que tem aluguel e condomínio para pagar e se controla tenta se concentrar no texto e o telefone toca de novo só para atrapalhar e o diagramador não faz nada daquilo que você pediu e assim você vai ter que refazer tudo passo a passo com o cara o que vai comer mais uma duas horas que você já não tinha do seu dia e nesse meio tempo você ainda leva mais um pouco de porrada de gente que você não esperava e que pior ainda você está começando a se acostumar e respira fundo sacode a cabeça e pensa se será sempre assim e de repente você só quer ir para casa brincar com seu cachorro e pedir desculpa a ele por ficar tanto tempo fora de casa mas nem isso você consegue mais e o telefone toca de novo e o sms que você espera não chega nem o mail que você precisa e aí você volta a tentar fazer seu texto mas não consegue porque a cabeça não acompanha mais o corpo ou o corpo não acompanha mais a cabeça então você resolve mandar tudo a merda acender um cigarro (sim porque eu nunca consegui parar) e escrever no blog porque ao menos você relaxa por uns dez minutos e faz um pouco de higiene mental mesmo sabendo que que que que nada deixa para lá não estou afim de tocar nesse assunto agora ou ao menos ainda e então você decide ao menos escrever um pouco desta vez não para os leitores mas para você porque de vez em quando a única coisa que resta é você usar aquilo que você tem de melhor que teoricamente no meu caso devem ser meus textos e nada mais a seu favor mesmo que pareça egoísmo e se conscientizar de que todo mundo leva uma surra de vez em quando e como você sempre disse aos outros o segredo não é não apanhar o segredo é saber cair e respirar fundo fechar os olhos e saber ou pensar ou ao menos torcer que um dia acabe e você consiga ao menos dormir um pouco sem ninguém cobrando se seu sonho foi aquilo que as pessoas gostariam que você tivesse sonhado e ainda consegue dar um sorriso quando lembra do john lennon gritando que i'd give you everything i've got for a little peace of mind e balança a cabeça tentando entender como é possível que as pessoas não consigam compreender o quanto você está cansado o quanto você continua dando o melhor de si e respira fundo e tenta se convencer de que você está fazendo o certo por mais errado ou pior ainda mais por mais difícil que ele pareça.

E é por isso que eu comecei a fazer terapia. Mas já já passa.

12 de outubro de 2009

Top 5 - Sala da Diretora

Durante minha vida escolar, eu fui muitas vezes para a diretoria, pelos motivos mais variados do mundo.

Mas, se ao longo do colegial eu ia para a diretoria assoviando, no primário não era assim. Eu realmente morria de medo. Eu me sentia como um prisioneiro de guerra entrando no prédio da Gestapo, com a palavra SUSPENSÃO pipocando no meu cérebro. Assim, eu já tinha uma desculpa padrão pronta para usar em casa, que era a suspensão coletiva (algo como “fizeram algo na classe, não encontraram o culpado, então suspenderam a classe inteira”).

Felizmente, nunca precisei usar, porque nunca fui suspenso – a equação “lobby mais cara de arrependimento” sempre fez milagres. Mas confesso que nos primeiros anos, o medo disso era grande. Enfim, em homenagem ao Dia das Crianças, deixo vocês com o Top 5 – Sala da Diretora.


1982 - 1ª Série
Eu sempre fui o menor da sala. Sempre. Mas sempre fui um dos mais briguentos. E, minha sala, como toda sala de aula, tinha um menino que era o dobro do tamanho dos outros. Não lembro o nome do valentão da minha 1ª série (apenas que ele tinha cabelos claros e já devia se barbear), mas lembro que ele colocava medo até nos alunos do colegial. Assim, eu nunca me meti com ele. Até, claro, o fatídico dia do balanço.

Eu estava sentado no balanço, brincando sozinho, quando de repente saí voando, sem entender o que tinha acontecido. Caí de cara no chão, e ainda sem entender o havia acontecido, ouvi a tradicional risada débil-mental atrás de mim e soube na hora de quem se tratava. Olhei para trás e vejo aquele protótipo de guerreiro viking sentado no balanço, batendo no peito e gritando: “eu vou brincar aqui agora!”.

Me senti como uma país da América Central sendo desafiado pelos Estados Unidos. Assim, fiz a única coisa que poderia: aceitei. E, para não mostrar mágoa, ainda ofereci gentilmente “quer que eu empurre?”. Ele aceitou e fui para trás dele. Ele ficou sentado ali, com as mãos nas correntes, esperando pelo empurrão. Não lembro ao certo como fiz, mas peguei a mão dele e cravei os dentes. Ele começou a chorar de dor e caiu no chão. Cuspi um pedaço de carne (mesmo!) e resmunguei um “nunca mais faça isso, filho da puta!”. Fui pra diretoria.


1985 - 4ª Série
Minha maior nêmese no primário era uma criatura de voz estridente que lecionava português: a temível Regina Céli. Era ela insuportável, e me declarou como seu pior inimigo porque detestava a lição feita com “letra feia” (palavras dela, não minhas) e minha letra sempre foi nível Meu Pé Esquerdo.

Assim, todo dia tínhamos uma rotina: ela me chamava na mesa dela, olhava minha lição, arrancava as páginas (na frente da sala inteira) e, aos berros, mandava eu fazer tudo de novo. Então, todos os alunos da classe tinham uma lição para o dia seguinte, e eu tinha duas: a do dia, e a da véspera, para refazer.

Isso durou duas semanas. Um dia, ela me chamou na mesa dela. Eu, sem sair da minha cadeira, abri o caderno e arranquei as páginas, falando “não precisa, eu refaço essa merda, pode deixar”. Fui para a diretoria (e, no dia seguinte, minha mãe foi ao colégio e destruiu a professora).


1991 – 1º Colegial
Se você estiver acompanhando a relação “ano / série”, saiba que o ano acima está correto – digamos que eu sofri algum(s) revés(es) no primeiro colegial. Assim, no meu “segundo primeiro colegial” eu tive aula de física com um sujeito que me detestava, pelo simples motivo de ter dado aula para o meu irmão, anos antes. Veja bem, meu irmão é físico. Então, nas provas do cara, ele só tirava 10; eu deveria conseguir uns 6, no máximo – e isso não numa prova, mas em todas do ano, somando todas as mensais e bimestrais.

E esse professor era metido a engraçado. No colégio em que eu estudava, havia uma ficha de disciplina, na qual o professor anotava o número do aluno e a ocorrência, dentre várias opções (como “não faz os deveres”, “desrespeita colegas e professores” etc). Eram umas vinte opções e, caso o aluno tivesse três na mesma semana, era, no mínimo, boletim de ocorrência.

Este professor, metido a engraçadinho, adorava fazer o seguinte: quando o aluno não fazia lição, ele pegava a ficha e começava a perguntar para a sala:

– Se ele não fez a lição, ele não acompanha as aulas, certo?

E as muppets infelizes que sentavam na primeira fileira respondiam em coro:

– Certo!

– Se ele não fez a lição, ele desrespeita colegas e professores, certo?

– Certo!

E, assim ele ia, até preencher pelo menos 15 das 20 ocorrências. O sujeito tinha apenas deixado de fazer uma lição de casa, e levava um boletim de ocorrência. Aquilo me deixava extremamente puto. Um dia, como eu não tinha mais nada a perder – já estava matematicamente rebaixado – resolvi ir à forra.

Alguém deixou de fazer a lição e o babaca começou com o showzinho. E eu estava na primeira carteira – eu era obrigado a me sentar ali. Assim que ele fez a primeira pergunta, me lembrei daquele quadro do Silvio Santos, onde um infeliz qualquer ficava dentro de uma cabine à prova de som, respondendo se queria trocar a vida da mãe por uma caixa de fósforos. Logo, tivemos:

– Se ele não fez a lição, ele não acompanha as aulas, certo?

Antes que as Muppets pudessem responder, eu coloquei as mãos nas orelhas e gritei, com voz de quem não estava ouvindo:

– Siiiiiiiiim!

– Se ele não fez a lição, é porque desrespeita colegas e professores, certo?

– Nããããããããão!

– Se ele não fez a lição, é porque não se aplica nas atividades propostas, certo?

– Nããããããããão!

A classe caiu na gargalhada. Mas as coisas pioraram quando ele percebeu o que eu estava fazendo e perguntou:

– Quer parar com essa babaquice?

– Nããããããããão!

Fui pra diretoria.


1992 – 1º Colegial
Novamente, o ano está correto. Eu já estudava em outra escola, junto com todos meus amigos de bairro. Obviamente, não iria prestar. E não prestou, desde o primeiro dia. No segundo mês de aula, tivemos aula de laboratório. O sujeito ia ensinar decantação. Colocou um pouco de vinho num canto da bancada; o vinho corria por dezenas de aparelhos, era requentado, esfriado, enfim, alguma mágica qualquer e, do outro lado da bancada, começou a pingar um líquido incolor.

Assim, o professor convidou os alunos a verem se o experimento deu certo. De acordo com ele, aquilo ali era clorofórmio; cada aluno tinha que ir até ali, molhar um pouco do avental e cheirar (com cuidado) o líquido, para se certificar disso.

Primeiro, claro, foram as muppets, que cheiravam com cuidado e faziam anotações (alucinadamente em dezenove cores diferentes) no caderno. Logo em seguida, eu e meus amigos nos aproximamos. Encharquei a manga do avental e respirei fundo. Com a boca.

– Caralho, é clorofórmio!, eu disse, já virando os olhos e começando a tremer.

Meus amigos fizeram a mesma coisa. Resultado: passamos dez minutos correndo pelas escadas, gritando e sem saber o que estávamos fazendo. Na verdade, só paramos de correr quando fomos arrastados para a sala da diretora. Mas nada aconteceu, porque éramos amigos do filho da coordenadora (e sobrinho da dona da escola), então sempre levávamos ele como escudo nessas ocasiões.


1994 – 3º Colegial
A última vez em que coloquei os pés na sala da diretora ainda é lembrada por alguns amigos. O colégio em que eu estudava não tinha uniforme: bastava uma calça de moletom ou jeans, e uma camiseta branca. Nos dias mais quentes, eu ia de moletom, para poder andar com as pernas arregaçadas – o que era permitido na escola.

A única pessoa que não sabia disso era o novo bedel, um babaca encarregado de cuidar do andar da minha sala. Aliás, vale explicar o andar: eram três salas, e, no meio, um espaço de cinco metros quadrados que normalmente estava lotado de alunos que relutavam em entrar para a aula – eu incluso. Assim, no final do intervalo, eu ficava ali enrolando, junto com dezenas de alunos. E, neste dia específico, eu estava com as calças arregaçadas.

Quando ele viu aquilo, veio me encher o saco na mesma hora, pedindo para eu abaixar a calça. Não tive dúvidas: me levantei calmamente – eu estava sentado no chão – e, fazendo a maior cara de vagabunda possível, abaixei a calça. Veja bem, eu não abaixei as pernas da calça, eu abaixei a calça. Fiquei só de cueca ali.

Obviamente, ele ficou branco. Sua expressão indicava que eu tinha feito algo semelhante a arrancar os olhos da mãe dele com um garfo. O fato de dezenas de alunos ao redor dele terem começado a gritar porque eu estava de cueca não ajudou muito acalmá-lo.

Ele começou a gaguejar, suar, tremer e gritou:

– Levante essa calça!

Eu levantei. As pernas continuaram arregaçadas.

– Agora, abaixa isso, ele disse, apontando para minhas pernas.

Eu abaixei tudo de novo e fiquei, novamente, de cueca.

– LEVANTA ESSA CALÇA!

Eu não me mexi. Apenas cruzei os braços e perguntei:

– Vem cá, a gente vai transar logo, ou você vai ficar com essa palhaçada de “sobe calça”, “desce calça”?

– VAMOS PARA A DIRETORIA!

– Mas sem calça?

– Coloca a calça!

Obviamente, fui para a diretoria.

Sonhos de Kurosawa Gordon II

Eu estava num shopping center que não conheço, junto com a Sra. Gordon. Estávamos ao lado de uma enorme loja de móveis, e havíamos acabado de discutir. Era fim de tarde, e nos preparávamos para ir embora. Ela precisava ir ao banheiro, e eu disse que ficaria olhando as vitrines e esperaria por ela ali. Mas acabei me perdendo e, quando eu vi, estava fora do shopping center.

A parte externa lembrava um bairro, apesar de pertencer ao shopping. Era formada por alamedas largas e ruas estreitas, todas muito arborizadas, o que fazia com que o lugar fosse bonito, mas escuro. Comecei a andar pelas ruas tentando voltar ao shopping, mas não conseguia encontrá-lo. Curioso que não importa de onde eu estivesse, bastava olhar para cima e eu via o shopping à distância, imponente e muito maior que as casas.

Como eu não conseguia encontrá-lo, tentava ligar para ela, mas ela não atendia. Quando eu percebi, estava andando numa espécie de beco, com pouco mais de 1 metro de largura, e que terminava num portão fechado. Achei que eu fosse precisar dar meia-volta, mas, quando estava a poucos metros dele, algumas pessoas saíram de uma casa e abriram o portão, ignorando totalmente minha presença. Passei pelo portão e caí em outra alameda larga.

Subitamente, quatro pessoas sem camisa e imundas vieram correndo na minha direção. Tive certeza de que iriam roubar meu celular, então, me abaixei na rua e, quando eles se aproximaram, pulei na direção deles, gritando. Não apenas não acertei nenhum deles, como eles ignoraram totalmente minha presença.

Continuaram correndo por uns dez metros e deram meia-volta, passando por mim novamente. Foi aí que eu percebi que eles estavam fazendo Cooper. E foi aí que eu percebi que eles estavam cobertos por salgadinhos, como se alguém tivesse lambuzado eles com cola e jogados toneladas de Cheetos em seu corpo.

Um ônibus passou e eu entrei. Alguém lá dentro me disse que o ponto mais próximo ao shopping era o próximo, então eu sentei e acendi um cigarro. O ônibus andou alguns metros, fez uma curva e eu desci. Comecei a andar na direção do shopping, ainda sem conseguir encontrá-lo.

Eu continuava tentando ligar para a Sra. Gordon e ela finalmente atendeu.

– Eu me perdi, estou tentando voltar até onde você estava.

– Eu já fui embora, ela respondeu.

– Como assim?

– Estou indo para casa. Saí do banheiro e você não estava lá. Percebi então que a gente nunca mais iria se ver. Fui embora.

– Você acha realmente que eu sou uma pessoa assim? Que teria ido embora sem avisar?

Não entendi o que ela respondeu – na verdade, eu não ouvi nada - e pedi a ela para repetir. Não sei se ela repetiu, porque, novamente, não ouvi nada.

Foi aí que me lembrei que eu estava com ouvido esquerdo machucado e, por causa disso, ele estava coberto com uma daquelas fitas marrons usadas para embalar caixas de papelão. Com certeza, era a fita que não me deixava ouvir. Eu poderia ter colocado o celular na outra orelha, mas não quis – eu só falo no telefone com a esquerda.

Arranquei a fita do meu ouvido, mas aí eu não conseguia encostar o telefone na orelha, porque doía. Muito. Assim, coloquei o celular próximo a boca e disse:

– Eu não estou ouvindo nada, mas estou voltando para o shopping.

Continuei andando. Agora eu precisava chegar ao shopping para conseguir voltar para casa, mas, pelo menos, eu não precisava mais andar com pressa. E o shopping continuava ali, na minha frente, por trás das casas, mas eu não conseguia me aproximar. Atravessei uma rua e, à minha esquerda, uma mulher vestida com roupa do Detran estava ajoelhada no meio da rua, pintando uma faixa amarela no meio do asfalto, indicando que aquela rua se tornaria mão dupla.

Continuei andando e comecei a cruzar com pequenas torres – ou guaritas – de metal, com cerca de dois metros de altura cada e lotadas de livros e revistas. Eu podia apenas desviar delas, mas algo me dizia que eu precisava esvaziá-las antes de passar. Então, eu perdia minutos a cada vez que eu cruzava com uma, tirando todos os volumes de dentro e empilhando na calçada.

Finalmente, cheguei ao final da rua. Estava em cima de um muro de aproximadamente meio metro da altura, abaixo de mim existia outra calçada, e outra torre de metal recheada de revistas. Não sei porque, mas percebi que se eu me apoiasse nela com cuidado para descer o muro, eu não precisaria esvaziá-la. Desci, e à frente da guarita, um prateleira de metal na calçada tinha algumas revistas expostas.

Uma delas, com a capa branca e algumas fotos, me chamou a atenção. Era uma revista especial do Rock in Rio II. Lembrei-me que eu tinha essa revista e adoraria tê-la novamente. Me aproximei e olhei a capa de perto. Havia quatro fotos, de artistas que se apresentariam no festival.

Duas delas não me chamaram a atenção, mas as outras duas sim. Uma delas era uma imagem do Paul Stanley, do Kiss, sem maquiagem, segurando um violão no ombro; a outra, de alguém do Slayer tocando num palco. Eu sabia que nenhum dos dois havia tocado no Rock in Rio II, mas, mesmo assim, eu queria ter essa revista, pois me lembro até do dia em que a comprei.

Olhei ao redor procurando alguém para perguntar quanto aquela revista custava, mas não havia ninguém ali.

Acordei.

8 de outubro de 2009

Oi! Tudo Bem?

(ou: Como Enlouquecer um Atendente da Oi em Cinco Minutos)


– Sr. Rob?

– Pois não.

– Aqui é Adalgiso, sou da operadora Oi. Tudo bem com o senhor?

– Tudo.

– O senhor pode falar?

– Você é de qual operadora mesmo?

– Oi.

– Oi! Tudo bem?

– Tudo e o senhor?

– Tudo. Diga.

– Estou ligando para informar o senhor sobre os novos planos que estamos disponibilizando.

– Planos de quê?

– De celulares.

– Ah, sim, celulares, claro. Qual sua operadora mesmo?

– Oi.

– Oi! Tudo bem?

– É... Tudo. E o senhor?

– Tudo jóia. Diga.

– Quero apresentar ao senhor os nossos planos de celulares.

– Ah, mas é que eu já uso Tim. Você é de onde mesmo? Da Claro?

– Não senhor, da Oi.

– Oi! Tudo bem?

– É... Tudo.

– Que bom. Diga.

– A Oi está com promoções de celular que irão interessar ao senhor.

– Oi?

– Isso mesmo. E acredito que alguns dos planos...

– Não, o meu “Oi?” foi porque eu não ouvi nada. O que você disse?

– Que a Oi está com promoções de celulares que...

– Espere, a ligação está ruim. Qual seu nome mesmo?

– Adalgiso.

– E você é de onde?

– Da operadora Oi.

– Oi! Tudo bem?

– Senhor...

– Olhe, eu não posso falar agora. Você me liga mais tarde?

– Final da tarde é um horário bom para o senhor?

– Sim.

– Então, eu espero. Oi! Ah não, errei! Tchau!

6 de outubro de 2009

Meeting Varotto

Sempre deixei claro que uma das maiores recompensas que eu conquistei com este blog foram novos amigos. Claro que estou falando de diversos tipos de pessoas: desde aqueles que praticamente conversam comigo via comentários no blog, os que batem bola comigo no Twitter e os que ganharam espaço no meu Msn.

Mas alguns deles deixam de ser nomes numa tela e passam a ser rostos. O primeiro, claro, foi o Tyler. O segundo, agora, foi o Varotto.

Quem não conhece o Varotto, explico: enquanto todos os blogueiros do planeta brigam para ter o melhor blog do mundo, o Varotto (mesmo tendo um blog excelente) lidera, com folga, a disputa de melhor comentarista de blog da história. Sério, um blog que tem o Varotto como leitor é rico demais: todos os comentários dele, sem exceção, são excelentes e com conteúdo. Me arrisco a dizer que tem comentários dele aqui no Champ que são melhores que o post.

Enfim, algumas semanas atrás, o Varotto veio para São Paulo – ele mora no Rio – para uma feira de música – o que sempre foi sua grande paixão, como qualquer pessoa que já viu os comentários dele por aqui sabe. De bate pronto, marcamos um almoço. No Degas, claro. Afinal, se um dia eu organizar um encontro de leitores & amigos, o nome dele será "Degas Cai na Rede".

Assim, combinamos o horário e o local. Eu o encontraria na estão Clínicas, por volta da hora do almoço. Com tudo combinado, apressei minhas coisas pela manhã (inclusive a correção da tabela pornográfica) e parti correndo para as Clínicas.

Mas foi só ao chegar lá que me dei conta de uma coisa: eu não conheço o Varotto. Com o Tyler foi diferente: além de já ter visto fotos do cara no Msn, nos encontramos à noite, com a estação vazia. Agora, na hora do almoço, a estação Clínicas tem uma densidade demográfica maior que a da Índia. E eu ali, procurando por alguém que não conheço, já que todas as informações que eu tinha sobre o Varotto é um desenho do seu rosto (o seu avatar no blogger). Me senti um delegado da polícia federal procurando alguém com apenas um retrato falado.

Parei próximo à catraca e comecei a me lembrar do que eu sabia sobre o Varotto – ao menos, do que eu me lembrava sobre o desenho. Cabelos curtos. Um pouco calvo. Barba ou cavanhaque.

Olhei para o lado e vi uma pessoa que batia exatamente com a descrição. Sorri, e ele sorriu para mim. Deve ser o Varotto. Andei na direção dele, e ele andou na minha. Com certeza é o Varotto. Cocei a barba e ele coçou também.

Eu estava olhando um reflexo meu num vidro da estação.

Foi aí que eu percebi que tudo o que eu sabia do Varotto era que ele era parecido comigo (chupa varotto mode: on). Comecei a me sentir num episódio de Além da Imaginação, como se eu estivesse prestes a encontrar uma contraparte minha (talvez um Rob que vinha do futuro, não do Rio).

Sacudi a cabeça e comecei a procurar uma pessoa parecida comigo no meio da multidão. Nada. Pensei em ir perguntar ao segurança, mas mudei de idéia quando imaginei a reação dele à pergunta “você viu uma pessoa parecida comigo, mas, provavelmente, mais alta?” Eu seria preso por perturbar a ordem pública, com certeza.

Finalmente, no meio da multidão, uma pessoa de barba, cabelos curtos e um pouco calva acenou para mim e sorriu. Como ele tinha a altura de um ser humano normal, imaginei que não era outro reflexo e respondi. Na dúvida, levantei discretamente uma das pernas, e ele continuou andando. Ou seja, era outra pessoa. Perfeito. Só pode ser o Varotto.

Nos cumprimentamos e partimos em direção ao Degas, onde apresentei o Varotto à picanha que mudaria sua vida. Mas, descendo a rua – a Teodoro, claro – aconteceu uma das coisas que eu acho mais fascinantes no ser humano.

Vou tentar explicar aqui. Você sabe que se dá bem com uma pessoa quando você a encontra pela primeira vez pessoalmente – ou após muito tempo sem vê-la – e não precisa de formalidades como “é um prazer conhecê-lo!” ou “até que enfim nos encontramos!”. Isso é coisa de gente que não tem amigos.

Com quem você tem intimidade e apreço, você conversa sobre coisas banais.
Eu e o Varotto, por exemplo, descemos a Teodoro conversando sobre a duração de pilhas chinesas em aparelhos eletrônicos. Não tinha como ser melhor.

Assim, sentamos no Degas e fomos atendidos pelos garçons amargos de lá – sim, porque o Degas não é um lugar fofo, ele é restaurante de macho.

Infelizmente, o almoço não durou metade do tempo que deveria ter durado, já que ele estava com pressa para ir à feira, e eu precisando voltar ao trabalho. Além disso, diferente do Tyler, o Varotto é um cara normal, logo o almoço transcorreu sem maiores problemas, com assuntos que iam de rock para família para blog para Teodoro Sampaio para picanha e para rock de novo.

Comemos, pagamos e o acompanhei até o metrô novamente, com a promessa de que a próxima vez que ele colocar os pés em São Paulo eu o levarei até a Galeria do Rock – onde ele provavelmente vai deixar as calças.

Como eu disse, um cara é seu amigo quando você o encontra pela primeira vez e conversa com ele como se tivesse jantado com ele na véspera. Assim, num mundo onde as pessoas são cada vez mais arrogantes, egoístas e presunçosas, o Varotto é um cara que poderia dar cursos de como ser gente boa.

Mas como nem tudo é perfeito, ele ainda não admitiu publicamente que a picanha do Degas mudou sua vida – ou, ao menos seu conceito de picanha. Maldito arrogante, egoísta e presunçoso: foi um prazer enorme!

4 de outubro de 2009

"I'm Made of Metal..."

Avenida Paulista, dia 1º de outubro, 7:30 da manhã. Esta foi a hora que cheguei para entrar na fila que começava a se formar na porta da Fnac, com o objetivo de comprar o ingresso do show do AC/DC. Saí de lá por volta das 11:00 da manhã (para quem não sabe, a loja abre apenas as 10:00), com o ingresso na mão.

Mas, mais que isso, saí de lá a um passo de fechar um ciclo na minha vida. Com o show do AC/DC, eu finalmente zero a lista de todas as bandas de rock que eu preciso ver ao vivo, antes de morrer.

Não estou falando aqui de shows que eu gostaria de ver. Existem toneladas de bandas e cantores que eu quero ver e ainda não tive oportunidade (Megadeth, Motorhead e o próprio Faith No More, que irá tocar em breve aqui, mas que eu abri mão em nome do AC/DC), ou de bandas que eu sempre quis ver e já consegui (Aerosmith, Whitesnake, Dio, Deep Purple).





Estou me referindo a uma seleta lista de shows que eu preciso ver. É outro patamar. Não são bandas que apenas admiro o som, mas sim que possuem enorme importância dentro da minha vida. São artistas e músicas que estão diretamente ligados à minha história. Afinal, suas músicas me acompanharam ao longo da vida inteira, em fases boas ou ruins (deles ou minhas).

Amigos foram e vieram, namoros começaram e terminaram. Apanhei muito, bati muito, conquistei uma coisa aqui, outra ali. Aprendi demais. Deixei de ser moleque e me tornei homem. Aprendi a ter responsabilidades em alguns aspectos – e, naqueles que eu (ainda) não aprendi, aprendi ao menos a me preocupar com isso.





Isso tudo não aconteceu da noite para o dia, mas sim lentamente, ao longo de anos. E estas canções sempre estiveram ao meu lado, nestes momentos.

Daí a importância de assistir a esses shows. Há muito tempo estes artistas deixaram de ser músicos que admiro e se tornaram amigos de anos. Existem bandas que eu preciso ir ao show não apenas por causa das músicas, mas para ver que aquelas pessoas – que me ensinaram tanto sobre a vida, especialmente em momentos onde eu precisava desesperadamente aprender algo – existem de verdade.

E, nestes shows, sou egoísta a ponto de achar que eles não estão tocando para uma platéia de dezenas de milhares de pessoas. Não, eles estão tocando para mim. Se você entendeu esta frase, você é parecido comigo. Se não entendeu isso de primeira, não tente: ela é absurdamente irracional – algumas verdades são.





Como qualquer leitor deste blog sabe, à frente desta lista está o Iron Maiden – não é coincidência que é a banda que eu mais vi ao vivo: (no longínquo) 1992, 2005 e 2008. Mas também há o Metallica (1994); Alice Cooper (2007), Judas Priest (2006) e Ozzy Osbourne (2008). Agora, com Kiss – no primeiro semestre deste ano – e AC/DC, eu fecho a lista.

Na verdade, o Guns estaria na lista também, mas infelizmente a banda acabou – ao menos, da forma que ela era importante para mim – então não conta.





Sim, todos eles têm os pés no heavy metal e no hard rock. Não adianta, estes são os MEUS gêneros musicais. Existem momentos nos quais me afasto deles, claro: há momentos da minha vida que eu mergulho, por exemplo, em Beethoven, e passo o dia inteiro escutando todas as nove sinfonias; às vezes, mergulho em blues e fico ouvindo Muddy Waters da hora em que acordo até ir dormir.

Mas, invariavelmente, eu sempre volto para o heavy metal.

É onde me sinto em casa. Não é questão de ser melhor ou pior que os outros gêneros, é pessoal. Agora mesmo estou numa fase Beatles, devido aos lançamentos das edições remasterizadas, e continuo achando A Day in the Life a música mais perfeita da história do rock. E, como acontece toda vez que eu estou numa fase Beatles, daqui a pouco eu descambo para o rock clássico em geral. Cream, Rolling Stones, Creedence, David Bowie... Pelas próximas semanas, só vou escutar isso. Eu me conheço.

Mas, em algum momento, eu vou sentir falta do heavy metal e vou colocar um CD do Iron Maiden para tocar, ou um DVD do Metallica. E logo nos primeiros acordes me virá aquela sensação de colocar os pés na sala da sua casa, após ficar semanas viajando. Ali é o meu canto. as minhas músicas não são melhores ou piores que as outras músicas. São minhas.





Isso porque o heavy metal está na minha vida desde os 14 anos. Às vezes mais próximo, às vezes mais distante, mas sempre esteve ali. É o som que me dá paz, que me tranqüiliza. Isso pode parecer uma incongruência dado o peso da música – meu irmão até hoje não entende como uma pessoa conseguia colocar Master of Puppets, do Metallica, no som do quarto, para dormir – mas tem apenas uma explicação. É o tipo de som que me faz feliz.

E não aquela felicidade que se confunde com saudosismo. Eu não ouço Iron Maiden para me sentir com 14 anos. Claro que um pouco desta sensação sempre aparece, mas o processo é diferente. Eu era uma pessoa em 1989; hoje, vinte anos depois, sou outra, bastante diferente. Mas as músicas continuam fazendo sentindo para mim. Ou seja, elas caminham comigo.

Não faço idéia de como ou onde estarei vivendo em 2029. Provavelmente, já terei filhos – e, como brinco às vezes com a Sra. Gordon, eles, em alguns momentos da infância, vão ter morrido de vontade de colocar as mãos nos “cds de caveira do papai” – e eles terão a liberdade de ouvir a música que quiserem, desde que faça bem para eles.





Claro que eu detestaria ter um filho que adora sertanejo, mas, se ele gostar disso, o que eu posso fazer? A coisa mais pesada que meu pai sempre ouviu é Maria Bethânia, mas, entre um “abaixa esta merda!” aqui e outro ali, sempre tive a liberdade de escolher do que eu gosto. E pretendo fazer o mesmo.

Mas, da mesma forma que meu filho terá liberdade para escolher quais as suas músicas (o que pode gerar alguns “abaixa esta merda!” da minha parte, já que será o meu direito de pai), eu continuarei ouvindo as minhas músicas. Porque, como eu disse, não faço idéia da pessoa que serei em 2029.

Mas sei que minhas músicas (e meus livros e filmes) estarão lá comigo. E ainda estarão me ensinando muito.


1 de outubro de 2009

Teodoro e Sampaio. E Rob.

Ontem eu estava descendo a Teodoro Sampaio – sempre ela! – para trabalhar quando, na frente do Pão de Açúcar – sempre ele! – dois mendigos promoviam uma espécie de festival de música.

Um deles estava sentado na calçada, batucando numa caixa de papelão; o outro, em pé, acompanhava o ritmo batendo os dedos numa pá de lixo, enquanto dançava. Ambos cantavam alguma coisa ininteligível (não sei ainda se a letra da música foi composta num idioma deste planeta).

Os transeuntes passavam por eles e a dupla parecia não se importar com o movimento da rua, continuando tranquilamente a executar seu Concerto para Caixa de Papelão e Pá de Lixo. Aliás, o da pá de lixo não apenas parecia não se incomodar com isso como se sentia extremamente à vontade, dançando em meio aos pedestres, batucando no plástico, totalmente à vontade.

Vi o concerto de longe, mas fui me aproximando normalmente. Afinal, se eles não estavam nem aí para as pessoas, eles também não estariam nem aí para mim.

O problema – que eu lembrei apenas depois – é que eu sou eu. E isso faz toda a diferença.

Me aproximei dos dois justamente quando uma das canções terminou. Sem desconfiar de nada, continuei andando na mesma velocidade, vendo, com o canto dos olhos, o mendigo que estava sentado começando a se preparar para a próxima música e mexendo na caixa de papelão – provavelmente, afinando o instrumento.

Fui surpreendido pelo mendigo que estava em pé, que se virou para mim subitamente e perguntou:

– Quer cantá aí com a gente?

Antes que eu pudesse responder, fui atingido por uma bola de calor que quase me derrubou. Na hora, pensei que algo tivesse explodido na Teodoro e eu estava sendo arremessado para trás, junto com carros e pessoas. Abri os olhos e vi que nada havia acontecido. As pessoas continuavam andando normalmente, os carros continuavam parados no trânsito, buzinando. E o mendigo continuava de pé, na minha frente.

– Vem cantá aí!

Outra explosão. Me senti como se a pele do meu rosto estivesse sendo arrancada do meu corpo com uma face quente. Olhei para cima, procurando um cogumelo atômico. Nada. Olhei para frente e dei de cara com o mendigo que esperava pacientemente pela resposta do novo artista convidado do seu show. Olhei para o mendigo sentado, que continuava afinando sua caixa de papelão. E foi aí que entendi tudo.

Ao lado da caixa, uma garrafa de pinga descansava na calçada. Dizem que para os otimistas, a garrafa está meio cheia, enquanto para os pessimistas, está meio vazia. Independente da corrente de pensamento que você segue, a garrafa estava quase vazia, tinha apenas mais uns dois ou três goles ali.

O calor que eu sentia era o bafo de cachaça do mendigo-músico.

– Vâmo cantá e dançá!

Dei um passo para trás, para tentar escapar do cheiro de açude. Ajudou, mas ainda senti o calor.

– Não, eu tenho que trabalhar.

– Nós tâmo cantando e dançando.

– Eu vi.

– E tocando!

– Por que é sempre comigo?, resmunguei.

Ele, obviamente, ignorou. Era um artista. O estado psicológico de seus parceiros não era importante. Somente a música importava.

– Vâmo tocá! Tem uma vassoura ali!

Pensei em aceitar.

Afinal, tudo o que eu sempre quis na vida era participar de um conjunto musical imaginário, e ficar pulando na Teodoro Sampaio fingindo que tocava uma guitarra com uma vassoura piaçaba vermelha nas mãos. Quem sabe, seríamos descobertos por um caça-talento, e contratados para uma série de shows para outros mendigos, sob viadutos.

Gravaríamos CDs com nossas canções imaginárias e batucadas em objetos encontrados no lixo. Faríamos enorme sucesso, e até mesmo um jogo chamado Vassoura Hero seria lançado para os videogames, em minha homenagem. Mas, eventualmente, nos separaríamos alegando diferenças criativas. Anos depois, promoveríamos uma Reunion Tour, que culminaria numa apresentação memorável para os garrafeiros que dormem sob o vão do MASP.

Infelizmente, eu não estava bêbado o suficiente. Aliás, somando tudo o que eu bebi na vida, eu ainda não estaria bêbado o suficiente.

– Então, eu realmente preciso trabalhar. Não dá.

– Mas você volta?

– Mais tarde.

– Volta aí pra nóis tocá!

– Pode deixar.

Desviei dele – tomando cuidado para não me queimar no bafo de pinga – e continuei descendo a Teodoro. Logo eles começaram a tocar alguma outra coisa. Eu não olhei para trás, mas aposto que o da pá de lixo estava dançando.

À noite, voltando para casa, passei por ali. Não havia sinal deles ou dos instrumentos. Provavelmente, desistiram de me esperar e saíram em turnê.

Ou, o que é mais provável, a polícia passou ali, e, seguindo os passos de Johnny Cash e B. B. King, a dupla estava promovendo um show na cadeia. Mas do lado de dentro.