28 de outubro de 2009

Top 5 - Palavras

Criança tem cada uma.

Quando eu era criança, o mundo era um lugar bem mais simples – ao menos, para mim. Mas as palavras... Eu me atrapalhava com um punhado delas. Hoje, brincando de escritor, tenho uma espécie de licença para brincar com elas – o que é bom, já que algumas delas continuam me perturbando. Sim, perturbando é o termo exato.

Assim, num post corrido, segue o Top 5 Palavras que Estragam meu Cérebro Desde a Infância:

1. Sorocaba – Para mim, Sorocaba sempre teve nome de caroço. Que me desculpem os sorocabanos se isso soa ofensivo – e deve soar mesmo – mas nunca foi minha intenção. Aliás, Sorocaba não tem nome de caroço, tem som de caroço. Ou melhor, som de alguém cuspindo um caroço. Imagine alguém comendo uma azeitona e cuspindo o caroço, para frente, com força: para mim, o ato da cuspida sempre teve o som de “Sorocaba”. “Soro” seria o som do caroço sendo cuspido, enquanto “Caba” seria o barulho do caroço batendo numa parede qualquer. E ricocheteando, porque caroço que é caroço tem que sempre ricochetear e acertar alguém.

2. Supremácia – Quando eu era moleque, descobri um jogo chamado Supremacia, que parecia uma mistura de War com Banco Imobiliário. Eu enlouqueci com aquilo, e pedia o jogo todo dia para a minha mãe. Mas eu não sabia falar supremacia, falava supremácia. Repeti tanto isso que a palavra acabou sendo incorporada ao meu vocabulário, num sentido totalmente distorcido: supremácia, para mim, seriam as hemácias-chefes, correndo pelo sangue ditando ordens para as hemácias, que são apenas operárias. “Limpem aquela doença!”, “O que está havendo no rim?”. Quando as supremácias entram numa sala, as hemácias comuns já ficam nervosas. São temperamentais, as supremacias. E, de vez em quando, resolvem fazer um corte no pessoal, e mandam o sangue ruim para fora do corpo – justamente quando arrumam um corte (na pele) para isso.

3. Franganês – Quando era criança de tudo, eu não sabia falar framboesa. Ou seja, as balinhas Sete Belo, para mim, eram balas de franganês. Até hoje, minha família brinca sobre isso comigo. A coisa ficou clássica porque eu era viciado em bala de franganês. Ou framboesa, vai saber. Comia o tempo todo. Hoje, com 34 anos, eu sei falar framboesa, mas a palavra franganês continua fazendo parte do meu vocabulário. Franganês, para mim, é aquele menininho fraco, branquelo e tímido, que é alvo de piadas e tem medo de tudo. Não sei se é porque franganês lembra “frango”, mas não consigo apagar a palavra – ou o seu significado – do meu cérebro. Para mim, o cúmulo de ser franganês é na educação física, quando um menino ameaça chutar a bola para o gol; enquanto um garoto normal partiria para cima, tentando bloquear o chute, o menino franganês iria colocar as mãos na frente do rosto, para se proteger. E, quando fosse muito franganês, ainda iria se virar de costas. Mas é um esforço inútil, porque mais cedo ou mais tarde o menino franganês sempre acaba levando uma bolada que o tira do jogo.

4. Dudinka – Essa também nasceu jogando War. Apesar de eu ter conhecido muitas palavras ali, como Omsk e Vladivostok, sempre fui fascinado por Dudinka. E meu cérebro nunca conseguiu distorcer muito seu significado: Dudinka era um lugar, já que estava num mapa. Assim, eu ficava imaginando como seria a vida em Dudinka. A capital, claro, se chamaria Dudinka, e lá se falaria o Dudinquês. O povo – governado por um rei – tem certa influência árabe, com diversos minaretes espalhados pela região e andavam com batas e turbantes. E todos são barbudos, e bens de vinda. Em Dudinka, não se joga futebol, só bocha, porque é mais tranqüilo. E não sei porque, só andam de Cadillac. Você anda pelas ruas de Dudinka (a cidade) e vê Cadillacs conversíveis andando para cima e para baixo. Já no interior, planta-se alface. Quilômetros e quilômetros de alface. E, por mais que eu morra de vontade de conhecer Dudinka, tenho receio de colocar os pés ali, e ver que o lugar não é nada daquilo que eu imaginei.

5. Hortaliça – Hortaliça, para mim, sempre foi uma palavra apetitosa. É só eu pensar em hortaliça que fico com água na boca. Isso porque uma hortaliça, para mim, sempre foi algo diferente de salada. Na verdade, é algo meio complicado: eu sei que as hortaliças são verduras, e a salada também tem verduras, mas são coisas diferentes. O prato de salada que minha mãe me obrigava a comer era apenas uma salada, meio sem graça; já as hortaliças... Meu cérebro sempre pintou a cena de campos e campos, meio montanhosos, de hortaliças plantadas e esperando para serem colhidas (como as alfaces em Dudinka). E estas hortaliças eram mais apetitosas, mais gostosas, mais... Mais... Mais roliças, talvez. Eu sempre quis comer uma salada de hortaliças, mas nunca consegui. Toda vez que como salada na casa da minha mãe – ou quando me arrisco a pedir salada num restaurante – recebo apenas isso: salada. Por isso que as hortaliças ainda são um mito para mim: já comi salada muitas vezes, mas nunca consegui comer uma hortaliça.

25 comentários:

Dragus disse...

Texto completamente non sense.

E agora fiquei mais uma vez com Dudinka na cabeça. =p

linafuko disse...

correndo mto ultimamente ein! xD
nossa.. esse lance de palavras é mto divertido!
seja o som que elas fazem ao serem ditas, ou mesmo algum fato ocorrido na nossa vida que nos levam a encasquetar com a palavra..

por exemplo: encasquetar.. sempre me lembra alguma coisa a ver com casca, casca de siri hauhauhau

Tyler Bazz disse...

"aquele menininho fraco, branquelo e tímido, que é alvo de piadas e tem medo de tudo."

Franganês, prazer.

Nash disse...

No colégio eu era um Franganês.

Hoje tenho até orgulho disso.

Larissa Bohnenberger disse...

Olha, Rob, eu não quero te decepcionar e nem estragar os teus sonhos de infância, mas as hortaliças não existem. Só o que há no mundo real são as saladas, sem graça, sem gosto, como apenas a salada pode ser.
Bjs!

comfelelimao disse...

De todas essas, "Dudinka" é a que eu sempre tive mais "afinidade", por assim dizer. E eu pensava coisas muito parecidas com o que você descreveu sobre aquele território, entre uma jogada e outra de War.

MaxReinert disse...

Sempre tive a idéia da Dudinka como um rússia pequenininha... onde tomo mundo toma Vodkca e morre de frio... um Sibéria low-profile....

Aí vc vem com esse texto e eu sou obrigado a Googlar a Dudinka e.....

Putzzz... sem graça!

Jullia A. disse...

Eu acho Fronha uma palavra horrorosa.
acho fanha. não que seja relevante..

Layla Barlavento disse...

Nem vou procurar no google Dudinka. Tenho medo de estragar o encanto.

Leonor disse...

Hahaha, eu tb sempre adorei hortaliças...
Esse post me fez lembrar de palavras q fazem parte do meu vocabulário e mais ainda, nas q fazem parte do vocabulario dos meus alunos...bem bacana Rob^^

Hally disse...

Puxa vida... Dudinka, em sua visão, é linda!

Supremácias são tão más... como todo chefe. ¬¬'

Franganês, existe versão feminina para isso? Se existir, saiba que fui uma na adolescência! Tirando a parte de ser franzina, o resto é igualzinho.

Parabéns pelo post!

Varotto disse...

E o Bonifácio, aquele senhor gordinho e bonachão, que distribui balas às criancinhas (em contraposicão ao Maurício, que só pensa em maldades).

E o que falar de Salonpas (aquele tal emplastro), uma das palavras mais engraçadas da história da humanidade?

Varotto disse...

E para quem se interessar, uma vista aérea do porto de Dudinka:

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/7/7d/Ru200008050038.jpg/800px-Ru200008050038.jpg

Toni Barros disse...

Quando eu era bem pequeno, eu tinha problemas confundindo camarão com macarrão.

Falva camarrão, macarão, e nunca sabia qual era qual.

Fagner Franco disse...

Rob do céu, não sei se é mais engraçado ou mais preocupante esses seus problemas com essas palavras..haha...

Wi disse...

Muito bom. hahaha
Não vou mais esquecer do "sorocaba" na hora que comer azeitonas.

Isso me lembrou que quando eu era um projeto de pessoa (se ainda não sou) chamava ovo de "fita" e berinjela de "adoise" - ou "adoize", vai saber.

joker disse...

u got issues. ainda bem.

hahaha

(fronha é pessimo mesmo)


otavio.

7Seven7 disse...

Lendo esse post lembrei do meu pai dizendo que não sabia falar "areia movediça", aí falava "areia movedecida" e, invés de "estômago" ele falava "estâmbagado" (note a sílaba tônica onde nenhuma outra palavra tem), e minha mãe falava "estamo". Acho que é por isso que minha dicção é meio falha, deve ser genético.

Ana Julia disse...

Sorocaba... falar assim da minha cidade ofenderia se fosse de forma a "detonar" a cidade, mas... como é a sua percepção sobre a palavra... aceita-se! hahaha!!!

Ana Julia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marina disse...

Eu era uma franganesa. Existe? Sempre saía roxa da educação física. De bolada e de vergonha...

Se tivesse nascido aqui no Recife, o termo "franganês" teria um significado meio diferente. Pelo menos para os meninos.

PS: Não imagino o Tyler tímido.

Marina disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Charlie Dalton disse...

Eu vou fazer um top 5 um dia. Ah! se vou! (Ainda bem que isso não têm patente, senão estava lascado!)

A melhor de todas foi Sorocaba. Me imaginei cuspindo um caroço e fazendo os barulhos descritos. Meu professor de Informática presta consultoria pra uma empresa de lá. Acho que ele vai gostar dessas tuas descrições.

Crisolda disse...

Ameeeei o post, Senhor Rob!
Também "cismo" sempre com a cara das palavras.. o pessoal aqui já leu Guimarães Rosa? (mineira fazendo jabá)

vivis disse...

hortaliça também me parece uma palavra apetitosa. Mas é por causa de um texto no livro da segunda série, que dizia que quando a menina chegava da escola a mãe lhe preparava hortaliças... hehe